terça-feira, 31 de agosto de 2021

O NOSSO ÚNICO...


1. O NOSSO ÚNICO fim é a glória de Deus e a vida eterna com Deus.

2. O NOSSO ÚNICO destino é a morte.

3. O NOSSO ÚNICO mal é o pecado.

4. O NOSSO ÚNICO propósito é a salvação da alma.

5. O NOSSO ÚNICO medo é o inferno.

6. O NOSSO ÚNICO portal é o Paraíso.

7. O NOSSO ÚNICO bem é o coração de infinita misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo.

8. O NOSSO ÚNICO exemplo é a vida de Jesus Cristo.

9. O NOSSO ÚNICO refúgio é a Paixão de Jesus Cristo.

10. O NOSSO ÚNICO tesouro é a Eucaristia.

11. O NOSSO ÚNICO amor é Deus.

12. O NOSSO ÚNICO consolo é Nossa Senhora.

13. O NOSSO ÚNICO meio para alcançar a misericórdia divina é socorrer o nosso próximo em suas necessidades espirituais e temporais.

(adaptações de máximas de São Vicente Pallotti)

domingo, 29 de agosto de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo habitará?' (Sl 14)

 29/08/2021 - Vigésimo Segundo Domingo do Tempo Comum

40. PUROS DE CORAÇÃO 


Jesus veio ao mundo para trazer a Boa Nova do Evangelho, para nos despir do homem velho e nos revestir do homem novo, partícipes da Santidade de Deus que é a Verdade Absoluta e para nos libertar de toda sombra do pecado, de toda malícia humana, de todo o obscurantismo de uma fé moldada pelas aparências e pela exterioridade supérflua de práticas inócuas e vazias... No Evangelho deste domingo, nos deparamos, mais uma vez, como esta passagem do velho homem para o novo homem é um primado de rejeição para os que se aferram sem tréguas aos valores humanos.

Com efeito, os escribas e os fariseus, presenças constantes no Templo e submissos ao extremo das más interpretações da lei mosaica, ficaram petrificados pelo zelo dos costumes antigos, arraigados a práticas absurdas e a minúcias ridículas que transformavam as atividades cotidianas mais simples em complexos rituais de purificação: 'os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre' (Mc 7, 3 - 4). Divinizaram os preceitos humanos, impuseram como dogmas hábitos comezinhos, exteriorizaram ao extremo as abluções e os banhos para se resgatarem, da impureza das mãos ou do corpo, como homens livres do pecado...

Estes homens velhos, empedernidos e envilecidos por normas decrépitas e insanas, ansiosos por denunciar o Mestre, questionam Jesus: 'Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?' (Mc 7, 5). Estes hipócritas, que postulavam princípios externos cheios de melindres que não suportam o menor testemunho interior de fidelidade à graça, vão receber de Jesus as palavras de recriminação oriundas do profeta Isaías: 'Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’ (Mc 7,6 - 7). E adiante, pela definitiva reprovação: 'Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens' (Mc 7,8).

Jesus chama para si a multidão e decreta aos homens de boa fé que a fonte de todas as impurezas é o coração humano, entregue a toda sorte de males, quando órfão da graça: 'Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem' (Mc 7, 21 - 23). Domar o coração e manter a serenidade da alma sob o domínio da graça, eis aí a fonte da água viva que faz nascer, no interior do homem, as sementeiras da vida eterna.

sábado, 28 de agosto de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: ALEGRIA NO SOFRIMENTO QUE CONDUZ A DEUS


Ó meu Deus, eu não posso proclamar-Vos excelso, liberal e glorioso apenas no momento em que Vós dignais a me visitar e a me fazer saborear a alegria de Vossa doce presença, mas também, e acima de tudo, quando quereis me abandonar e deixar-me sozinho em meio a escuridão, numa noite fria e sem fim. Seja o que façais comigo, sereis sempre excelso, liberal e glorioso. No cerne de todo sofrimento que provém de Vós, nele escondeis uma graça e uma alegria. Se eu for corajoso, se for capaz de compreender, de aceitar e amar, então a dor há de me arrancar de mim mesmo, me fazer atravessar o vazio, me elevar acima de tudo e me levar até Vós, para me exilar em Vossos braços e em Vosso coração. Sim, ó meu Deus, assim como existe um êxtase de alegria, existe também um êxtase de dor: 'Minha alma engrandece ao Senhor'.

O que importa o caminho que me conduz a Vós, ó meu Deus, desde que eu chegue até Vós? Não é ele o mais curto e seguro do sofrimento? Existe algum lugar do mundo que possa estar mais perto do Céu do que o Calvário? E, se para entrar na Vossa glória, Vós precisastes sofrer tanto, ó meu Jesus, como podemos esperar alcançá-la de outra forma? Mas, mais uma vez, o que isso realmente importa? Aproximar-me de Vós, ó meu Deus, juntar-me a Vós, ser levado à Vossa presença: tudo está aí e aí está tudo. Um único momento da vida divina nos faz esquecer tudo, esse é o cêntuplo que prometestes ao meu Deus e que já nos dais neste mundo. Deixai-me expressar a Vós a minha alegria, a minha felicidade, o meu deleite e graça em me sentir convosco e Vos ter em mim. Vós não me deveis nada. Melhor dizendo, deveis a mim sofrimentos. E, assim, dais a mim tudo o que eu preciso, e que eu compreendo, conclamo e usufruo em plenitude.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte II -  A Ação de Deus; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

MARIA - OBRA PRIMA DE DEUS


Deus, feito homem, encontrou sua liberdade em se ver aprisionado no seio da Virgem Mãe; patenteou a sua força em se deixar levar por esta Virgem santa; achou sua glória e a de seu Pai, escondendo seus esplendores a todas as criaturas deste mundo, para revelá-las somente a Maria; glorificou sua independência e majestade, dependendo desta Virgem amável, em sua conceição, em seu nascimento, em sua apresentação no templo, em seus trinta anos de vida oculta, até à morte, a que ela devia assistir, para fazerem ambos um mesmo sacrifício e para que ele fosse imolado ao Pai eterno com o consentimento de sua Mãe, como outrora Isaac, com o consentimento de Abraão à vontade de Deus. Foi ela quem amamentou, nutriu, sustentou, criou e sacrificou por nós.

Ó admirável e incompreensível dependência de um Deus, de que nos foi dado conhecer o preço e a glória infinita, pois o Espírito Santo não a pode passar em silêncio no Evangelho, como incógnitas nos ficaram quase todas as coisas maravilhosas que fez a sabedoria encarnada durante sua vida oculta. Jesus Cristo deu mais glória, a Deus, submetendo-se a Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda a terra pela realização dos mais estupendos milagres. Oh! quão altamente glorificamos a Deus, quando, para lhe agradar, nos submetemos a Maria, a exemplo de Jesus Cristo, nosso único modelo.

(Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem - São Luís Maria Grignion de Montfort)

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

SOBRE AMAR OS INIMIGOS...


Ao amares o teu inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não queiras amar o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne. Imaginemos um pedaço de madeira de carvalho em bruto. Um artesão hábil vê essa madeira, cortada na floresta; a madeira agrada-lhe; não sei o que quer fazer dela, mas não é para a deixar como está que o artista gosta dela. A sua arte faz com que pense em que é que se pode transformar essa madeira; o seu amor não é dirigido à madeira em bruto: ele ama o que fará com ela e não a madeira em bruto.

Foi assim que Deus nos amou quando éramos pecadores. Na verdade, Ele disse: 'Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes'. Ter-nos-á Ele amado pecadores para que permaneçamos pecadores? O Artesão viu-nos como um pedaço de madeira em bruto, vindo da floresta; porém, o que Ele tinha em vista era a obra que nela faria e não a madeira em si, nem a floresta.

Contigo passa-se a mesma coisa: vês o teu inimigo opor-se a ti, encher-te de palavras mordazes, tornar-se rude nas afrontas que te faz, perseguir-te com o seu ódio. Mas tu sabes que ele é um homem. Vês tudo o que esse homem fez contra ti, mas também vês nele aquilo que foi feito por Deus. Aquilo que ele é, enquanto homem, é obra de Deus; o ódio que te tem é obra dele.

E que dizes tu para contigo? 'Senhor sê benevolente para com ele, perdoa-lhe os pecados, inspira-lhe o teu temor, converte-o'. Não queiras amar nesse homem aquilo que ele é, mas aquilo que queres que ele venha a ser. Assim, quando amas um inimigo, amas nele um irmão.

(Santo Agostinho)

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XIV)

 

Capítulo XIV

Dores do Purgatório - Aparição de Foligno 
Os Religiosos Dominicanos de Zamora

O mesmo rigor é revelado em uma aparição mais recente, envolvendo uma religiosa falecida de vida exemplar, que deu a conhecer os seus sofrimentos de uma forma calculada para inspirar terror a todas as almas. O evento aconteceu em 16 de novembro de 1859 em Foligno, próximo a Assis, na Itália. Fez muito alarde na Itália e, além da marca visível que se viu, um inquérito feito de maneira adequada e pela autoridade competente o caracterizou como fato incontestável.

No convento dos Terciários Franciscanos de Foligno constava uma irmã chamada Teresa Gesta que, durante muitos anos, foi a encarregada das noviças e, ao mesmo tempo, responsável pela sacristia da comunidade. Ela nasceu em Bastia, na Córsega, em 1797 e entrou para o mosteiro no ano de 1826. Irmã Teresa foi um modelo de fervor e caridade. 'Não precisamos ficar surpresos', disse seu diretor, 'se Deus a glorificar por algum prodígio após sua morte'. Ela morreu repentinamente, em 4 de novembro de 1859, de um ataque de apoplexia.

Doze dias depois, no dia 16 de novembro, uma irmã chamada Anna Felicia, que a sucedeu no cargo, dirigiu-se à sacristia e nela já ia entrar, quando ouviu gemidos que pareciam vir do interior da sala. Com certo receio, apressou-se em abrir a porta, mas não havia ninguém. Mas novamente ela ouviu gemidos, e tão distintamente que, apesar de sua coragem habitual, sentiu-se dominada pelo medo. 'Jesus! Maria!" ela gritou, 'o que pode ser isso?' Ela não havia acabado de falar quando ouviu uma voz queixosa, acompanhada de um suspiro doloroso: 'Ó meu Deus, como eu sofro! Oh! Dio, che peno tanto!'

A irmã, estupefata, reconheceu imediatamente a voz da pobre Irmã Teresa. Em seguida, a sala se encheu de uma fumaça espessa e o espírito da Irmã Teresa apareceu, movendo-se em direção à porta e deslizando junto à parede. Tendo alcançado a porta, ela clamou em voz alta: 'Eis aqui uma prova da misericórdia de Deus'. Dizendo essas palavras, ela bateu no painel superior da porta e deixou ali a marca de sua mão direita, queimada na madeira como se fosse um ferro em brasa. E então desapareceu.

Irmã Anna Felicia ficou como que meio morta de susto. Ela explodiu em gritos de socorro. Uma de suas companheiras acorreu de imediato e, em seguida, toda a comunidade. Elas se comprimiam ao redor dela, surpresas pela presença de um forte odor de madeira queimada. Irmã Anna Felicia contou o que havia acontecido e mostrou-lhes a terrível impressão fixada à porta. Elas imediatamente reconheceram a mão da irmã Teresa, que era notavelmente pequena. Tomadas de pavor, rumaram em direção ao coro, onde passaram a noite em oração e penitência pelos falecidos e, na manhã seguinte, todas receberam a Sagrada Comunhão para o repouso da alma da irmã falecida. 

A notícia se espalhou fora dos muros do convento e muitas comunidades da cidade uniram as suas orações às dos franciscanos. Dois dias depois, em 18 de novembro, Irmã Anna Felicia, indo à noite para sua cela, ouviu ser chamada pelo nome outra vez e reconheceu imediatamente a voz da Irmã Teresa. No mesmo instante, um globo ou luz brilhante apareceu diante dela, iluminando sua cela com o brilho da luz do dia. Em seguida, ouviu Irmã Teresa pronunciar estas palavras com voz alegre e triunfante: 'Morri numa sexta-feira, dia da Paixão, e eis que, na sexta-feira, entro na glória eterna! Seja forte para carregar a sua cruz, seja corajosa para sofrer, ame a pobreza'. Em seguida, acrescentando afetuosamente 'Adieu, adieu, adieu!', ela se transfigurou e, como uma nuvem clara, branca e deslumbrante, elevou-se em direção ao Céu e desapareceu. 

Durante a investigação realizada imediatamente a seguir, em 23 de novembro, na presença de um grande número de testemunhas, foi aberto o túmulo da Irmã Teresa e constatou-se que a impressão na porta correspondia exatamente à mão da falecida. 'A porta, com a marca da mão queimada' - acrescenta monsenhor Segur - 'está preservada com grande veneração no convento. A madre abadessa, testemunha do fato, teve o prazer de me mostrar ela mesma'.

Desejando assegurar-me da perfeita exatidão desses detalhes relatados por monsenhor Segur, escrevi ao bispo de Foligno. Ele respondeu dando-me um relato circunstancial, perfeitamente de acordo com o exposto acima, e acompanhado por um fac-símile da marca milagrosa. Esta narrativa explica ainda a causa da terrível expiação a que foi submetida Irmã Teresa. Depois de dizer: '“Ah! quanto eu sofro! Oh! Dio, che peno tanto!' acrescentou que foi penalizada por ter, no exercício da função na sacristia, transgredido em alguns pontos a extrema pobreza prescrita pela Regra [justificativa, entretanto, de difícil entendimento no contexto dos fatos]. 

De qualquer forma, vemos que a Justiça Divina pune mais severamente as menores faltas. Pode-se perguntar aqui por que a aparição, ao fazer a marca misteriosa na porta, a chamou de 'prova da misericórdia de Deus'. É porque, ao nos dar um aviso desse tipo, Deus demonstra por nós uma grande misericórdia. Ele nos exorta, da maneira muito eficaz, a ajudar as pobres almas padecentes e a estar vigilantes em relação a nós mesmos.

Neste mesmo contexto, podemos relatar um caso semelhante ocorrido na Espanha, e que causou também grandes repercussões naquele país. Fernando de Castela assim o relata em sua História de São Domingos (Malvenda, Annal. Ord. Praedic.). Um religioso dominicano levou uma vida santa em seu convento em Zamora, cidade do reino de Leão. Ele estava unido pelos laços de uma piedosa amizade com um irmão franciscano como ele, homem de grande virtude. Um dia, conversando sobre o assunto da eternidade, prometeram mutuamente que, se fosse do agrado de Deus, o primeiro que morresse deveria aparecer ao outro para lhe dar conselhos salutares. 

O frade menor morreu primeiro; e um dia, enquanto seu amigo, o filho de São Domingos, preparava o refeitório, apareceu a ele. Depois de saudá-lo com respeito e carinho, disse-lhe que estava entre os eleitos mas que, antes de ser admitido no gozo da felicidade eterna, havia sofrido muito por uma infinidade de pequenas faltas das quais não havia se arrependido suficientemente durante a sua vida. 'Nada na terra', acrescentou ele, 'pode lhe ​​dar uma ideia dos tormentos que sofri, e dos quais Deus me permite lhe dar uma prova visível'. Dizendo essas palavras, ele colocou a mão direita sobre a mesa do refeitório, e a marca da sua mão ficou gravada na madeira carbonizada como se tivesse sido aplicada por um ferro em brasa.

Essa foi a lição que o fervoroso franciscano falecido deu ao seu amigo vivo. Foi de grande proveito não só para ele, mas para todos aqueles que viram a marca impressa na madeira queimada; tão profundamente significativa porque tornou-se um objeto de piedade que as pessoas vinham de todas as partes para contemplar. 'Ainda pode ser vista em Zamora', disse o padre Rossignoli (Mervelles, 28), 'na época em que escrevo [em meados do século XVIII]; para protegê-la, a marca foi coberta por uma folha de cobre. A mesa marcada foi preservada até o final do século XVIII, sendo então destruída, durante a época das revoluções, como tantos outros memoriais religiosos.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (91/93)

 

91. SÃO PEDRO, APÓSTOLO

Nasceu em Betsaida, cidade da Galileia. Seu pai chamava-se Jonas, nome que por singular coincidência significa 'pomba'. Em certo sentido, todos os papas são filhos da 'pomba', porque na eleição dos mesmos influi o Espírito Santo. E São Pedro haveria de ser o primeiro papa. Tinha um irmão chamado André, e dois primos, Tiago e João, filhos de Zebedeu e pescadores, como ele no lago de Tiberíades.

Casara-se Pedro em Cafarnaum, porto famoso daquele lago, e vivia muito bem com os seus. Prova disso é que Jesus, sem dúvida a pedido de Pedro, curou-lhe a sogra. Não só era bom esposo, mas - coisa menos frequente - era também bom genro. Um dia entrou Jesus na barca de Pedro e seus companheiros e mandou que remassem para o alto mar e lançassem as redes.

➖ Mestre - disse Pedro - trabalhamos a noite inteira e não pegamos nenhum peixinho; mas, já que assim o queres, em teu nome lançarei as redes.
A pesca foi tão abundante que Pedro se lançou aos pés de Jesus, suplicando:
➖ Afasta-te de mim, Senhor; eu não sou mais que um miserável pescador.
➖ Tem confiança e segue-me. De hoje em diante serás pescador de homens.
E Pedro, abandonando tudo, seguiu prontamente a Jesus. Cristo distinguiu-o muito e prometeu-lhe que o faria seu Vigário e Chefe supremo da Igreja. Pedro, por sua vez, foi o primeiro a afirmar categoricamente que Jesus era o Filho de Deus.

Durante a última Ceia, Pedro mostrou-se excessivamente confiado nas próprias forças. Jesus, porém, disse a ele e aos outros que, quando o vissem preso e maltratado, todos o abandonariam. Pedro replicou impetuosamente:
➖ Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei.
Nosso Senhor repreendeu-o suavemente, porque sabia que o ardoroso Apóstolo o havia de negar três vezes. E assim foi. Mas Pedro, segundo contam os antigos, chorou tanto esse pecado, que as lágrimas abriram dois sulcos em suas faces.

Depois da Ressurreição, foi nomeado solenemente por Jesus Cristo como Chefe supremo da Igreja , que governou até à morte. Em Jerusalém, o rei mandou prendê-lo para, depois da Páscoa, dar-lhe a morte. Mas, ouvindo as preces dos fiéis pelo primeiro Pontífice, enviou Deus um anjo à prisão e o Apóstolo foi libertado.

Depois de ter estado em Antioquia, fixou Pedro a sua sede em Roma, de onde governou toda a Igreja. Quando Nero decretou a primeira perseguição contra os cristãos, São Pedro foi encerrado na prisão Mamertina, onde permaneceu vários meses em companhia de São Paulo. A 29 de junho do ano 67, o príncipe dos apóstolos foi crucificado sobre uma colina às margens do rio Tibre. Pediu e obteve que o pregassem na cruz de cabeça para baixo, por se julgar indigno de morrer da mesma forma que seu divino Mestre. No lugar do glorioso martírio de São Pedro, levanta-se hoje o Vaticano, onde reside o seu sucessor, o Papa. Festa litúrgica: 29 de junho.

92. SANTA MARIA MADALENA

Nasceu provavelmente em Betânia. Foi filha, segundo Santo Antonino, de Siro e de Êucaris, ambos muito considerados por sua nobreza e fortuna. Eram seus irmãos Marta e Lázaro, a quem Jesus ressuscitou.

Maria Madalena, pela morte de seus pais, herdou o castelo da Magdala e converteu-o em palácio de prazeres mundanos. Suas paixões e as carícias, de que era alvo por causa de sua formosura, levaram-na a cometer graves pecados. Talvez por conselho de seus irmãos foi um dia ouvir a pregação de Jesus. Foi para ela a hora da graça. A grande pecadora - escreve São Gregório - começou a amar a Verdade e resolveu mudar de vida; antes, porém, quis obter o perdão de seu Mestre.

Estava Jesus à mesa em casa de um fariseu, chamado Simão. Maria de Magdala ajoelhou-se a seus pés, regou-os com suas lágrimas de arrependimento, perfumou-os com riquíssimo aroma e enxugou-os com seus próprios cabelos. O fariseu dizia consigo: 'Se este homem fosse profeta, bem saberia que é essa mulher e não consentiria que ela lhe beijasse os pés'. Mas Jesus, penetrando-lhe os pensamentos, disse:

➖ Simão, vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com suas lágrimas e enxugou-os com seus cabelos. Não me deste o beijo da paz; ela, porém, não cessou de beijar-me os pés, desde que entrou. Não me ungiste a cabeça com perfume; ela, porém, ungiu-me os pés com bálsamo precioso... Pelo que te digo que lhe são perdoados os seus pecados, porque amou muito
Depois disse à pobre Madalena: 
➖ Os teus pecados te são perdoados - e acrescentou - A tua fé te salvou; vai-te em paz.

Os Evangelhos contam vários outros episódios em que intervém Maria Madalena. Com São João e as santas mulheres, acompanhou Jesus durante a paixão, esteve aos pés da cruz e ajudou a amortalhar o corpo do Senhor. No domingo, foi a primeira a chegar ao sepulcro e, achando-o vazio, correu a avisar a São Pedro e a São João. Verificando o fato, voltaram para casa; Maria, entretanto, continuou a chorar junto ao sepulcro. 

Olhando para o interior do mesmo, viu dois anjos vestidos de branco, sentados um à cabeceira e o outro aos pés, que lhe perguntaram: 
➖ Mulher, por que choras?
➖ Choro - respondeu - porque levaram daqui o meu Senhor e não sei onde o puseram. 
De repente ouve passos. Volvendo o olhar, vê Jesus a quem toma pelo coveiro e lhe diz: 
➖ Se tu o tiraste daqui, dize-me onde o puseste e eu o levarei. 
Então o suposto coveiro pronunciou o seu nome: 'Maria!' Ela, reconhecendo a voz de Jesus, diz: 'Mestre!' e quis beijar-lhe os pés. Mas Jesus se opôs, dizendo: 
➖'Não me toques, porque ainda não subi ao Pai' - e a encarregou de anunciar aos discípulos a ressurreição.

Segundo antiga lenda, Santa Madalena teve de fugir da Palestina, em companhia de seus irmãos Lázaro e Marta, indo estabelecer-se em Marselha e dizem que Lázaro foi o primeiro bispo dessa cidade. A nossa santa, porém, retirada a uma gruta, passou seus últimos trinta anos de vida fazendo rigorosíssimas penitências. A Igreja celebra a festa desta santa em 22 de julho.

93. SÃO JOÃO MARIA VIANNEY

Nasceu de família humilde numa pequena aldeia da França em 1785. Aos oito anos guardava um pequeno rebanho e, levando consigo uma pequena imagem de Nossa Senhora, reunia os companheiros da sua idade e diante da imagem rezavam o rosário. Outras vezes, confiava à sua irmãzinha a guarda das ovelhas e procurava um lugar solitário para rezar.

Aos treze anos deixou o rebanho e começou a trabalhar na roça. 'Quando estava na roça' - conta ele mesmo - 'rezava em voz alta, se não havia ninguém perto; em voz baixa, quando havia ali algum companheiro'. Ao manejar a enxada, costumava dizer: 'É preciso arrancar a alma das más ervas'. Quando, depois de comer, os outros dormiam a sesta, eu aparentava dormir, mas continuava conversando com Deus em meu coração. Quando ouvia o relógio, dizia: 'Coragem, minha alma; o tempo passa; a eternidade chega; vivamos como condenados a morrer. E rezava uma Ave-Maria'.

Estudou para padre. Muito lhe custou passar nos exames; mas, à força de trabalho, penitência e oração, conseguiu chegar ao bom termo. Seus superiores mostraram-se benévolos com ele, porque reconheciam sua virtude e seu zelo. Foi destinado a reger a pequenina paróquia de Ars. Os moradores de Ars eram indiferentes; não iam à igreja. João Maria recorreu às suas armas favoritas: passava horas inteiras, em oração, diante do sacrário; mortificava-se, disciplinava-se e tudo oferecia a Deus para que tocasse os corações de seus paroquianos. Ao mesmo tempo, esmerava-se em tratá-los com amor e prodigalizar-se conselhos e esmolas.

Pouco a pouco fez-se o milagre, e Ars começou a ser uma paróquia exemplar. A fama da santidade do cura de Ars transpôs fronteiras não só daquela aldeia, mas até da França. Milhares e milhares de pessoas chegavam de toda a parte para confessar-se com o santo, ouvir os seus sermões, solicitar seus milagres. Em 1840, contaram-se mais de 20.000 peregrinos, e esse número continuou aumentando.

Levantava-se, invariavelmente, à meia-noite para dirigir-se à igreja e sentar-se no confessionário. Os penitentes sucediam-se sem interrupção até às sete da manhã, hora em que o vigário celebrava. Terminada a missa, outra vez confissão até às onze. Subia, então, ao púlpito e fazia a sua instrução catequética. Saia da igreja ao meio-dia. Dois guardas precisavam defendê-lo dos empurrões do povo, pois todos queriam vê-lo, falar-lhe, tocá-lo, receber a sua bênção ou guardar alguma palavra sua. Às 13 horas, novamente confissões até à reza da noite.

Perguntaram-lhe uma vez:
➖ Se Deus vos permitisse escolher entre estas duas coisas: ir para o céu, agora mesmo, ou ficar na terra, até o fim do mundo, trabalhando na conversão dos pecadores, que faríeis?
➖ Ficaria na terra.
➖ Até o fim do mundo?
➖ Sim, até o fim do mundo.
➖ Mas, com tanto tempo ainda, não vos levantaríeis tão de madrugada, não é?
➖ Ah! meu amigo; levantar-me-ia como agora, à meia-noite, e seria o mais feliz dos servidores de Deus.

Gozava do dom da profecia e penetrava no mais secreto das vidas e das consciências. Gente não disposta a confessar-se, ou resolvida a fazê-lo mal, ficava surpreendida quando o santo lhe recordava os pecados ocultos, e saía chorando do confessionário. Dissipava as dúvidas com muita facilidade. Fez grandes e inúmeros milagres tanto em vida como depois da morte, cuja data ele mesmo anunciou com exatidão. A 4 de agosto [no original, data indicada como 09 de agosto], aos setenta e três anos de idade, sua alma voou para o céu, onde goza e gozará do prêmio eterno de seus trabalhos e penitências. Festa litúrgica: 4 de agosto.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)


ver PÁGINA: TESOURO DE EXEMPLOS

domingo, 22 de agosto de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Provai e vede quão suave é o Senhor! (Sl 33)

 22/08/2021 - Vigésimo Primeiro Domingo do Tempo Comum

39. 'TU ÉS O SANTO DE DEUS!'


Jesus acabara de dizer aos seus discípulos: 'Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós' (Jo 6, 53). Na incompreensão dos mistérios da Eucaristia, muitos já haviam se perguntado: 'Como poderá este dar-nos a sua carne para comermos?' (Jo 6, 52) e agora ainda murmuravam: 'Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?' (Jo 6, 60). Sob a luz irradiante de revelações tão profundas, como poderiam homens de fé tão dúbia entender os divinos mistérios?

E o passo seguinte e natural daqueles homens foi a rejeição. Diante de 'palavras tão duras', onde o pensamento racional não conseguia sustento e amparo, os homens de pouca fé se dispersaram, voltaram atrás e não andavam mais com Jesus. Para eles, era inconcebível Jesus se revelar como 'pão', como 'carne' a ser comida, como 'sangue' a ser bebido, como primícias de vida eterna. O milagre da transubstanciação implica não o aceno morno dos sentidos, mas a experiência definitiva da fé em plenitude.

Jesus vai indagar, então, aos que o cercam: 'Isto vos escandaliza?' (Jo 6, 61) e também aos doze apóstolos em particular: 'Vós também quereis ir embora?' (Jo 6, 67). O caminho do livre arbítrio deve mover o coração humano à acolhida da graça e, por isso, já os alertara previamente: 'É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai' (Jo 6, 65). Ninguém pode ir a Jesus pela metade, aprisionado às mazelas do mundo, subjugado pelos ditames dos sentidos; a vida em Deus exige a entrega total, conformada pela crença definitiva de que Jesus de Nazaré é realmente a Verdade, o Caminho e a Vida: 'As palavras que vos falei são espírito e vida' (Jo 6, 63).

E a plenitude da Verdade é conclamada por todos os seus verdadeiros discípulos pela voz de Pedro: 'A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus' (Jo 6, 68 - 69). Eis aí a profissão da autêntica fé cristã que todos nós, apóstolos e discípulos de Jesus, continuamos a entoar através dos tempos: nós cremos, Senhor, que Vós sois verdadeiramente o Santo de Deus, o Filho de Deus Vivo, a Hóstia da Eterna Salvação, o Corpo, Sangue, Alma e Divindade presentes na Santa Eucaristia, que nos é dada, à luz da fé, para que possamos ser e viver, a cada dia na terra, como novos Cristos a caminho dos Céus.

sábado, 21 de agosto de 2021

ORAÇÃO: ATO DE ACEITAÇÃO DA MORTE (PIO X)


Indulgência Plenária na hora da morte, após a confissão (Papa São Pio X)

Indulgência Parcial de 07 anos e 07 quarentenas ao rezar este ato após a comunhão (Papa Bento XV)

21 DE AGOSTO - SÃO PIO X

São Pio X, rogai por nós!

(acessar links dos santos do mês, já abordados em postagens específicas em SENDARIUM, na aba Calendário dos Santos
situada na barra lateral direita do blog)

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O EVANGELHO DA ALEGRIA

No Evangelho de São Lucas, a doutrina da revelação de Cristo é sempre recebida e manifestada com santa alegria - a autêntica e verdadeira alegria cristã dos Filhos de Deus.


1. 'Ele será para ti motivo de gozo e alegria, e muitos se alegrarão com o seu nascimento (Lc 1, 14)

2.  'Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio' (Lc 1, 44) 

3. 'Meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador' (Lc 1, 47) 

4. 'O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo' (Lc 2, 10) 

5. 'Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas' (Lc 6, 23)

6. 'Voltaram alegres os setenta e dois, dizendo: Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!' (Lc 10, 17)

7. 'Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos porque os vossos nomes estejam escritos nos céus' (Lc 10, 20)

8. 'Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos (Lc 10, 21) 

9. 'E, depois de encontrá-la, a põe nos ombros, cheio de júbilo' (Lc 15, 5) 

10. 'Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende' (Lc 15,10)

11. 'Digo-vos que assim have­rá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento' (Lc 15, 7)

12. 'Ele [Zaqueu] desceu [do sicômoro] a toda a pressa e recebeu-o alegremente (Lc 19,6)

13. 'Quando já se ia aproximando da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, tomada de alegria, começou a louvar a Deus em altas vozes, por todas as maravilhas que tinha visto' (Lc 19, 37) 

14. 'Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: Tendes aqui alguma coisa para comer?' (Lc 24, 41)

15. 'Depois de o terem adorado, voltaram para Jerusalém com grande júbilo' (Lc 24, 52)

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: SOFRIMENTOS PURIFICADORES, REDENTORES E APOSTÓLICOS


Na minha opinião, o que torna os nossos sofrimentos do Purgatório tão longos e aterrorizantes são as faltas conscientes, as infidelidades voluntárias cometidas direta ou indiretamente, as resistências, tudo enfim que distorce a conformidade entre a nossa vontade corrompida e a vontade de Deus. Nas almas que conseguem atingir um grau suficientemente elevado de união mística, o despojamento de tudo o que foi criado pode ser feito na terra com uma impressão de sacrifício muito dolorosa por duas razões. 

Em primeiro lugar, por mais purificada e santa que uma alma possa nos parecer, ela ainda pode ter, aos olhos de Deus e aos seus próprios olhos, vínculos humanos que a retêm e aos quais deve renunciar a todo o custo. Os sábios modernos nos dizem que, em cada centímetro cúbico de água, existem de sete a oito bilhões de micro-organismos que, entretanto, são invisíveis para nós. A mesma coisa acontece espiritualmente, porque não vemos aqueles átomos que, aos olhos da santidade de Deus, parecem montanhas, e realmente o são: 'Pouco importa que um pássaro esteja preso por um fio delgado ou por um fio grosso, porque, apesar de delgado, enquanto não se desfizer dele, estará tão preso para voar como preso por um fio grosso' [São João da Cruz], tradução para a linguagem e para o sofrimento humano do horror que tem Deus pelo menor pecado.

Num segundo caso, a alma pode estar realmente purificada. E mesmo que sofra, não se sente separada de Deus. A profunda alegria que a domina não pode perder-se. Essa alegria coexiste com a dor mais intensa. É como quando Jesus conservava a visão beatífica no Getsêmani e na Cruz. As provações, sofrimentos e tentações de todos os tipos que sobrevêm já não são mais purificadoras, mas redentoras. Vistas assim, têm a aparência de provas e tentações para iniciantes, mas são apostólicas, pois são almas que se oferecem pelas outras almas e que sofrem exatamente o que a alma pecadora ou iniciante tenderia a sofrer naquele estado. É este o caso de São Vicente de Paulo que padeceu por dois anos, segundo creio, uma terrível tentação contra a fé. Ou ainda a última provação de Santa Teresa do Menino Jesus, que resultou em um novo florescimento de fé no mundo, sendo que ela certamente já estava purificada. Ou a da Venerável Maria da Encarnação, quando se ofereceu por seu filho e por outra alma. Este brilho apostólico é verdadeiro, mas não é infalivelmente atendido para uma dada pessoa em particular.

Segundo São João da Cruz, a alma elevada ao matrimônio espiritual atingiu o estado da perfeição, embora ainda possa aumentar a caridade como homem que alcançou o seu pleno desenvolvimento. Pode ainda merecer e produzir frutos cada vez mais saborosos e abundantes, porém, a sua purificação está consumada, e o arcabouço interno das graças, das virtudes e dos dons terminou.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte II -  A Ação de Deus; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

VÍDEOS CATÓLICOS: O VÉU REMOVIDO


 Vídeo que mostra a união mística entre o céu e a terra durante a celebração da Santa Missa, na presença de homens, anjos e santos, como revelada nas Sagradas Escrituras e no Catecismo da Igreja Católica

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A COVARDIA É UM PECADO?


Qual é o modelo atual de um católico autêntico? Ser equilibrado, tolerante, prudente, tranquilo, ecumênico. Não seria melhor falar claramente para apenas ser covarde? Por que é exatamente esse o modelo que se compra e que se vende do católico formal: ser covarde e manusear essa covardia dissimuladamente em atributos tais como indiferentismo, tolerância, docilidade e mornidão. O problema - gravíssimo problema - é que a covardia é um grande pecado, por se opor radicalmente ao amor e à caridade.

Veio, por fim, o que recebeu só um talento: ‘Senhor, disse-lhe, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence’. Respondeu-lhe seu senhor: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com os juros o que é meu. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Será dado ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem será tirado mesmo aquilo que julga ter. E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes (Mt 25, 24 - 30).

O servo do único talento associou medo e covardia contra aquele que lhe parecia ser 'um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste'. O medo em si não é pecado, o pecado está na covardia que pode alimentar ou ser alimentada pelo medo, particularmente quando isso implica não fazer o bem, por omissão ou por deliberação, tanto mais grave quanto maiores estas consequências. E não pelo medo, mas pela covardia, recebeu do Senhor a dura sentença: 'jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes'.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: 'Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?' Disse-lhe Jesus: 'Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos'. 'Quais?' – per­guntou ele. Jesus respondeu: 'Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo'. Disse-lhe o jovem: 'Tenho obser­vado tudo isso desde a minha infância. Que me falta ainda?' Respondeu Jesus: 'Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!' Ouvindo essas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: 'Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos Céus!' (Mt 19, 16 - 23).

A covardia peca contra o amor, contra a perseverança no amor. A covardia peca contra a caridade. E soma a si padrões de egoísmo, de negligência e de inconstância contra o amor e a caridade. Ao jovem rico dos Evangelhos, a perfeição de amar estava muito acima das suas forças, muito além dos limites do que lhe era aceitável. A sua covardia derivou da sua resistência ao domínio da graça, à perda da audácia de se lançar 'em águas mais profundas' e de atravessar o mar revolto sob a tormenta inesperada: fazer o que era possível bastava e sua tristeza decorreu do desgosto de ouvir de Jesus um desafio que se desfez por completo diante da sua incapacidade de superar seus estreitos limites de santificação pessoal.

A covardia torna-se um pecado monstruoso quando é moldada e tangida pelo indiferentismo religioso, pela mornidão do caráter, pelo ecumenismo parvo, pelo respeito humano bajulador, pela negação explícita aos ditames da Verdade e da Fé. A covardia é irmã siamesa da negligência  (Eclo 4,34) e filha órfã da tibieza, cuja destinação é ser a porta de entrada da segunda morte, invocando para si a gravidade extrema desse pecado quase esquecido: 

'Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte' (Ap 21, 8).

São recorrentes os exemplos que demonstram que os homens atuais tendem a ser modelos de mornidão e covardia. Embaraçam-se em meias verdades, fraudam a realidade dos desafios e dos obstáculos cotidianos, moldam-se pela secura dos sentimentos e pela volatilidade das causas fáceis e mais comezinhas. Nada de sofrimento, nada de penitência, nada de sacrifício. Masmorras diante da caridade e do amor. Nestas prisões mortuárias, não podem então ser peregrinos a caminho (estreito caminho) do Reino dos Céus. Porque os Céus definitivamente não afagam os espíritos domados pela covardia.

domingo, 15 de agosto de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'À vossa direita se encontra a rainha, 
com veste esplendente de ouro de Ofir' (Sl 44)

 15/08/2021 - SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

38. ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA
 'O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor'

As glórias de Maria podem ser resumidas na portentosa frase enunciada pelo anjo Gabriel: 'Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus' (Lc 1, 30). Ao receber a boa-nova do anjo, Maria prostrou-se como serva e disse 'sim', e por meio desse sim, como nos ensina São Luís Grignion de Montfort, 'Deus Se fez homem, uma Virgem tornou-se Mãe de Deus, as almas dos justos foram livradas do limbo, as ruínas do céu foram reparadas e os tronos vazios foram preenchidos, o pecado foi perdoado, a graça nos foi dada, os doentes foram curados, os mortos ressuscitados, os exilados chamados de volta, a Santíssima Trindade foi aplacada, e os homens obtiveram a vida eterna'.

Esta efusão de graças segue Maria na Visitação, pois ela é o reflexo da presença e das graças do Espírito Santo que são levadas à sua prima Isabel e à criança em seu ventre. No instante da purificação de São João Batista, o Precursor, Santa Isabel foi arrebatada por inteira pelo Espírito Santo: 'Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo' (Lc 1,41). Por meio de uma extraordinária revelação interior, Santa Isabel confirma em Maria o repositório infinito das graças de Deus: 'Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu' (Lc 1,43).

E é ainda nesta plenitude de comunhão com o Espírito Santo, que Maria vai proclamar o seu Magnificat: 'A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o respeitam. Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre' (Lc 1, 46-55).

Mãe da humildade, mãe da obediência, mãe da fé, mãe do amor. Mãe de todas as graças e de todos os privilégios, Maria foi contemplada com o dogma de fé divina e católica da assunção, em corpo e alma, à Glória Celeste. Dentre as tantas glórias e honras a Maria, a Igreja celebra neste domingo a Serva do Senhor como Nossa Senhora da Assunção.

sábado, 14 de agosto de 2021

GLÓRIAS DE MARIA: ASSUNÇÃO AO CÉU

  

A Assunção de Maria - Palma Vecchio (1512 - 1514)

"Pronunciamos, declaramos e de­finimos ser dogma de revelação divina que a Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à Glória celeste”.

                            (Papa Pio XII, na Constituição Dogmática  Munificentissimus Deus, de 1º de novembro de 1950)


A solenidade da Assunção da Virgem Maria (celebrada pela Igreja no dia 15 de agosto) existe desde os primórdios do catolicismo e, desde então, tem sido transmitida pela tradição oral e escrita da Igreja. Trata-se de um dos grandes e dos maiores mistérios de Deus, envolto por acontecimentos tão extraordinários que desafiam toda interpretação humana: 

1. Nossa Senhora NÃO PRECISAVA morrer, uma vez que era isenta do pecado original;

2. Nossa senhora QUIS MORRER para se assemelhar em tudo ao seu Filho, pela aceitação de sua condição humana mortal e para mostrar que a morte cristã é apenas uma passagem para a Vida Eterna;  

3. Nossa Senhora NÃO PODIA passar pela podridão natural da carne tendo sido o Sacrário Vivo do próprio Deus;

4. A morte de Nossa Senhora foi breve (é chamada de 'Dormição') e ela foi assunta ao Céu em corpo e alma;

5. Aquela que gerou em si a vida terrena do Filho de Deus foi recebida por Ele na glória eterna;

6. Nossa Senhora foi assunta ao Céu pelo poder de Deus; a ASSUNÇÃO difere assim da ASCENSÃO de Jesus, uma vez que Nosso Senhor subiu ao Céu pelo seu próprio poder.


Louvor a Ti, Filha de Deus Pai,
Louvor a Ti, Mãe do Filho de Deus,
Louvor a Ti, Esposa do Espírito Santo,
Louvor a Ti, Maria, Tabernáculo da Santíssima Trindade!

15 DE AGOSTO - NOSSA SENHORA DO PILAR

 


A devoção a Nossa Senhora do Pilar tem origem na Espanha. Segundo a Tradição, o apóstolo São Tiago Maior, enviado à Espanha para anunciar o Evangelho, estava frustrado pelos resultados limitados de sua atuação, quando teve uma visão da Virgem incentivando-o no cumprimento de sua missão. Nossa Senhora lhe apareceu encimando uma coluna (pilar), às margens do Rio Ebro, na região de Saragoza. Nossa Senhora do Pilar é invocada como sendo o Refúgio dos Pecadores e a Consoladora dos Aflitos. Na Espanha e nos países ibéricos, a festa é comemorada em 12 de outubro.  

Nossa Senhora do Pilar é Padroeira da cidade de Ouro Preto/MG, maior acervo arquitetônico barroco do Brasil e patrimônio cultural da humanidade. A festa de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto é comemorada em 15 de agosto, data de sua entronização. Eu visitei e conheço bem a Igreja do Pilar, a mais imponente e mais rica de Minas Gerais. Recentemente (2012), a Paróquia do Pilar em Ouro Preto comemorou 300 anos como comunidade paroquial (1712 - 2012), 300 anos com Maria, a Senhora do Pilar. À cidade histórica mais importante do Brasil, a minha homenagem nestes versos à sua Padroeira.

Nossa Senhora do Pilar

Estão abertas as portas da Igreja do Pilar.
Entro. E logo nos meus primeiros passos,
meu olhar encontra no mais alto do altar
a Santa Virgem com Jesus nos braços.



Hesito. Diante da bela imagem da Senhora,
de repente, imensa inquietude me possui:
pois o homem que inda sou traz lá de fora
o pobre pecador que eu sempre fui.

Mas, do Vosso olhar materno não viceja
revolta alguma, nada de condenação:
Este caminho que atravessa a igreja
É uma via crucis que só tem perdão!

Sob o Vosso olhar de Mãe na minha fronte,
avanço sem medo a tão grande tesouro:
Sois Porta da terra, aberta para o horizonte,
Sois Pilar do Céu, entronizada em ouro.


Se inda há algo em mim que me pertença,
por mais louvável, quanto mais profano,
que seja apenas o tênue fio da presença,
do amor que pulsa no meu peito humano.


E, assim, diante do Vosso altar, prostrado,
Padroeira de Ouro Preto, ouso suplicar:
que eu seja por Vosso Filho muito amado,
como eu Vos amo, ó Senhora do Pilar!

(Arcos de Pilares)

CALENDÁRIO DOS SANTOS

 

14 DE AGOSTO - SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE

(acessar links dos santos do mês, já abordados em postagens específicas em SENDARIUM, na aba Calendário dos Santos, situada na barra lateral direita do blog)

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O SÍNODO DO CADÁVER

Um dos episódios mais bizarros da história da Igreja consistiu na pantomina de um julgamento realizado sobre o cadáver de um papa. Sim, o ódio diabólico e a vingança brutal podem atingir os limites do imponderável. O papa Formoso I (891 - 896) foi o pontífice da Igreja num período crítico, marcado por desordens políticas de toda ordem no continente europeu e, mais particularmente, por uma disputa acirrada entre Roma e Constantinopla sobre qual deveria ser efetivamente a sede da Igreja Ocidental.


Neste contexto político de polarização absurda, o papa Formoso faleceu em outubro de 896. O seu sucessor - Bonifácio VI - faleceu apenas duas semanas após ocupar a cátedra de Pedro, sendo sucedido por Estêvão VI (896 - 897), que promoveu, então, o chamado 'sínodo do cadáver' (synodus horrenda), amparado por um preciosismo técnico de um farsante:  Formoso I seria um papa inválido porque não poderia ser bispo de Roma (premissa do papado) por ser bispo de outra diocese (diocese do Porto) e, mais ainda, sendo condenado e destituído de todas as suas prerrogativas, os atos do papa Formoso seriam anulados, o que incluiria a consagração do próprio papa Estêvão VI como bispo que havia sido feita por Formoso I, livrando, assim, o sucessor da mesma penalização que estava sendo então atribuída a Formoso (ou seja, Estêvão VI também era papa sem ser bispo de Roma, por impedimento devido ao fato de também ser bispo de outra diocese, indicado e consagrado à época pelo papa Formoso I).

O sínodo foi realizado como um teatro de horror. O cadáver de Formoso I foi exumado e conduzido à Basílica de São João de Latrão, em Roma. O cadáver foi adornado com todos os adereços papais e posicionado sobre um trono para, presencialmente e ainda que morto, Formoso I pudesse ser julgado por ter usurpado ilegalmente o papado por já ser bispo na época em que foi eleito.


O julgamento resultou na condenação formal do papa Formoso I e a consequente anulação de todas as suas medidas, atos e decisões como papa, que foram declaradas inválidas. A pantomina trágica se consumou com medidas adicionais: as vestes papais foram arrancadas do cadáver, três dedos foram cortados de sua mão direita (utilizados nas consagrações que havia feito) e o corpo foi enterrado em um cemitério destinado a indigentes, para ser removido poucos dias depois para ser jogado no rio Tibre.

A revolta pública contra esse espetáculo macabro levou à destituição de Estêvão VI. Seu sucessor, Teodoro II (897) convocou um outro sínodo, em novembro de 897, que anulou o 'sínodo do cadáver', reabilitou a figura do papa Formoso I cujo corpo, que havia sido recuperado das águas do rio Tibre e reenterrado, foi exumado mais uma vez e enterrado definitivamente, agora com os devidos paramentos pontifícios, na Basílica de São Pedro, em Roma.