terça-feira, 31 de julho de 2018

31 DE JULHO - SANTO INÁCIO DE LOYOLA


Ad Maiorem Dei Gloriam 


Para a Maior Glória de Deus

O fundador da Companhia de Jesus e autor dos 'Exercícios Espirituais' buscou a via da santidade pelo completo despojamento de si, pelo abandono completo de sua vontade aos desígnios da Divina Providência, abstraindo-se de todo comodismo humano na sua caminhada espiritual para Deus. Eis aí a santidade das atitudes extremas, das decisões moldadas por uma fé intrépida, pela ação de um 'sim' sem rodeios ou incertezas. Uma vida de conversão e de entrega generosa a Deus, testemunho eloquente da fé cristã coerente e tenaz, levada às últimas consequências. 

Inácio Lopez nasceu na localidade de Loyola, atual município de Azpeitia, no País Basco/Espanha, em 31 de maio de 1491. De família rica, levou vida mundana até ser ferido gravemente numa perna na batalha de Pamplona. Na longa convalescença e pela leitura da vida de grandes santos, decidiu abandonar os bens terrenos e viver para a glória de Deus, quando tinha então 26 anos. Entre 1522 a 1523, escreveu os chamados 'Exercícios Espirituais', uma síntese de sua própria conversão e método de evangelização para uma vida espiritual em plenitude. Em 1528, ingressou na Universidade de Paris e a 15 de agosto de 1534, com mais seis companheiros, entre eles São Francisco Xavier, fundou a Companhia de Jesus, tornando-se sacerdote e assumindo o cargo de superior-geral da ordem jesuítica em 1540, com a aprovação do Papa Paulo III. Santo Inácio morreu em Roma, em 31 de julho de 1556, aos 65 anos de idade. Foi canonizado em 12 de março de 1622 pelo Papa Gregório XV. Em 1922, o Papa Pio XI declarou Santo Inácio padroeiro dos Retiros Espirituais.

ORAÇÃO DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA

Tomai Senhor, e recebei
Toda minha liberdade,
A minha memória também.
O meu entendimento
E toda minha vontade.
Tudo que tenho e possuo,
Vós me destes com amor.
Todos os dons que me destes,
Com gratidão vos devolvo:
Disponde deles, Senhor,
Segundo vossa vontade.
Dai-me somente 
O vosso amor, vossa graça.
Isto me basta,
Nada mais quero pedir.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XV)

XIV

PECADOS MORTAIS E PECADOS VENIAIS

Que pecados castiga Deus com a pena eterna?
Os pecados mortais (Ibid).

Que entendeis por pecado mortal?
O que causa a morte da alma, destruindo nela a caridade, que é o princípio e fonte da vida sobrenatural (LXXXVIII, 1)*.

Por que castiga Deus esses pecados com pena eterna?
Porque, ao destruir-se o princípio da vida sobrenatural infundido por Deus na alma, fica o pecador impossibilitado de remediar os efeitos da sua culpa naquela ordem; portanto, enquanto durar o estado de pecado, e durará sempre, deve durar o castigo (Ibid).

São mortais todos os pecados que o homem comete?
Não, Senhor (LXXXVIII, 1, 2).

Que nome têm os que o não são?
Chamam-se pecados veniais (Ibid).

Que entendeis por pecados veniais?
Os pecados menos graves, a cujos efeitos o homem pode resistir com o auxílio ordinário da graça, visto que não têm o funesto poder de privar a alma da vida sobrenatural da caridade; não merecem, por conseguinte, castigo eterno, e se chamam veniais, isto é, facilmente perdoáveis, da palavra latina venia, que significa perdão.

Se um homem, em pecado mortal, comete outros veniais e neste estado o surpreende a morte, padecerá também castigo eterno pelos pecados veniais?
Sim, Senhor; porque, privado de caridade, não pode nesta vida dar-lhes remédio, e depois da morte, todos são eternamente irreparáveis.

De que provém que uns pecados são mortais e outros veniais?
Por parte do objeto, da natureza e importância da desordem que provoca o ato pecaminoso, por parte do sujeito do grau de liberdade com que se executa (LXXXVII, 2).

Que quereis dizer, quando afirmais que, por parte do objeto, da natureza e importância da desordem que provoca o ato pecaminoso?
Entendo que há pecados que, por sua natureza, se opõem diretamente ou são incompatíveis com a submissão e amor a Deus, na ordem sobrenatural; e há os que constituem uma menor insubordinação e são, contudo, compatíveis com o amor habitual de Deus na ordem da graça (Ibid).

Quais são os pecados que se opõem diretamente ao amor sobrenatural de Deus ou são com este amor incompatíveis?
São os daquele que recusa prestar a Deus o obséquio do amor sobrenatural; os que essencialmente quebram e, enquanto deles depende, destroem a subordinação do homem a Deus; os que lesam gravemente a harmonia e boa ordem da sociedade; os que invertem a ordem de dependência e subordinação entre as diversas partes do indivíduo.

Podereis dizer-me alguns em concreto?
Sim, Senhor; tais são os pecados de desprezo do amor divino e os cometidos contra a honra de Deus; os de roubo, homicídio, adultério e os pecados contra a natureza.

Qual é o critério mais seguro para distinguir as diversas classes de pecados e sua gravidade?
O de contrastá-los com as virtudes opostas, não só em geral, como em particular.

Teremos ocasião de verificar este contraste?
Fá-lo-emos, com o auxílio divino, ao terminar o estudo em geral dos meios conducentes à prática das virtudes, e necessários para evitar vícios e pecados.

Que nos resta por conhecer nesta matéria?
O referente aos auxílios ou princípios exteriores das ações boas.

Quais são os auxílios exteriores de que o homem necessita para bem proceder?
São dois: a lei para dirigi-lo e a graça, para socorrer a sua debilidade (XC-CXIV).

XV

DA LEI OU PRINCÍPIO EXTERIOR QUE REGULA OS ATOS HUMANOS

Que entendeis por Lei?
Um preceito da razão, ordenado ao bem comum, emanado de autoridade competente e por ela promulgado (XC, 1,4).

Um preceito, contrário à razão, é Lei?
Não, Senhor; é um ato arbitrário e tirânico (XC, 1 ad 3).

Que entendeis quando afirmais que a lei é um preceito da razão ordenado para o bem comum?
Que a lei deve antes de tudo prover ao bem da coletividade e que não se ocupe dos indivíduos senão enquanto contribuem para o bem estar comum (XC, 2).

Qual é a autoridade competente para legislar?
A razão obrigada a velar pelo bem comum, como se fosse próprio (XC, 3).

É necessária a promulgação da lei para que tenha força de obrigar?
Sim, Senhor (XC, 4).

E aquele que a ignora, por sua culpa, está desobrigado de cumpri-la?
Não, Senhor.

Temos, pois, obrigação grave de nos instruir nas leis que nos dizem respeito?
Sim, temo-la e gravíssima.

XVI

DIFERENTES CLASSES DE LEIS A LEI ETERNA

Podemos estar, e de fato estamos, sujeitos a diferentes classes de leis?
Sim, Senhor.

Quais são?
A lei eterna, a natural, a humana e a divina (XCI, 1-5).

Que entendeis por lei eterna?
A lei suprema que rege todas as coisas e da qual dependem todas as outras leis, visto como em princípio não são mais que derivações e determinações particulares daquela (XCIII).

Onde se encontra a lei eterna?
Em Deus (Ibid).

Quando se promulgou?
Ao estabelecer Deus a ordem, a harmonia e a sucessão entre os seres que formam o universo (XCIII, 4-6).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

domingo, 29 de julho de 2018

CINCO PÃES E DOIS PEIXES

Páginas do Evangelho - Décimo Sétimo Domingo do Tempo Comum


Depois da morte do Precursor João Batista, 'Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com os seus discípulos' (Jo 6, 3) para um momento de recolhimento e oração. Mas eis que uma grande multidão, uma esplêndida multidão, saiu das cidades e veio ao seu encontro. Tomado de amor e compaixão, Jesus abandona o seu intento inicial e passa a atender com zelo extremado aquela gente durante todo o dia. E, ao final do dia, famintos de Deus, a multidão agora está faminta de pão. 

Jesus pergunta, então, a Filipe: 'Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?' (Jo 6, 5). Sabendo em princípio que tal resposta era insondável, o Mestre coloca o seu discípulo à prova. No meio de um campo aberto e relvado, afastado das cidades, uma enorme multidão, cansada e faminta, veio ficar perto de Deus. Não havia condições de alimentação ali e nem perto dali, porque eram centenas de centenas e 'nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um' (Jo 6, 7). Mas para Deus não existe nada que seja impossível. Movido pela compaixão, Jesus vai realizar ali, diante de todos, um dos seus mais portentosos milagres. E o Cordeiro de Deus há de saciar a todos com o pão da existência e prepará-los também para lhes dar alimento de vida eterna, na Santa Eucaristia.

Pois Deus não nos abandona nunca; não nos cria perspectivas de vida eterna pela insensibilidade de nossas necessidades humanas. Jesus vai dizer em outro momento que 'nem só de pão vive o homem'. Não só de pão, mas também de pão. E, para a incredulidade dos seus discípulos, ordena então: 'Fazei sentar as pessoas' (Jo 6, 10). E, como em tudo o mais, Deus faz uso da graça como fruto da contrapartida humana; Jesus toma o que os homens têm ali a oferecer: cinco pães e dois peixes. Diante de oferta tão singela, vai realizar a partilha do pouco (que é tudo em Deus) entre muitos (que é nada sem Deus), configurando, assim, o prenúncio da partilha do seu Corpo e Sangue na Sagrada Eucaristia.

'Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes (Jo 6, 11). E os poucos pães e os poucos peixes se multiplicaram em muitos pães e em muitos peixes, que alimentaram com fartura a multidão, a ponto de serem recolhidos ainda doze cestos cheios (símbolo da partilha universal da graça divina) no final, pois Deus usa sempre da superabundância da graça para pagar o tributo da oferta sincera do homem. Este prodígio extraordinário é o prenúncio de outro milagre ainda maior que subsiste pelos tempos, a cada Santa Missa: na multiplicação das hóstias, o mesmo Deus é entregue aos homens na plenitude da graça, hoje, ontem e até a consumação dos séculos.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

BREVIÁRIO DIGITAL - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (XV)

quae gessit Christus descendens ad inferos

131. Evangelho (Zc 9, Eclo 24, Ef 4): Jesus desce aos infernos

deponitur Christi corpus e cruce

132. Evangelho (Mt 27, Mc 15, Lc 23, Jo 19): o corpo de Jesus é descido da cruz

de Christi sepultura

133. Evangelho (Mt 27, Mc 15, Lc 23, Jo 19): Jesus é sepultado

resurrectio Christi gloriosa

134. Evangelho (Mt 28, Mc 16, Lc 24, Jo 20): a ressurreição de Jesus 

 eodem die apparet matri Mariae Virgin

135. Evangelho (sem referências): mesmo dia - Jesus se manifesta à Virgem Maria

eodem die, de primo adventu mulierum as sepulcrum

136. Evangelho (Mt 28, Mc 16, Lc 24, Jo 20): mesmo dia - as mulheres chegam ao sepulcro de Jesus

 eodem die, dominico Angeli apparent mulieribus

137. Evangelho (Mt 28, Mc 16, Lc 24, Jo 20): mesmo dia - Anjos se manifestam às mulheres no sepulcro de Jesus

eodem die veniunt Petrus et Ioannes ad sepulcrum

138. Evangelho (Lc 24, Jo 20): mesmo dia - Pedro e João chegam ao sepulcro de Jesus 

 eodem die apparet Magdalenae

139. Evangelho (Mc 16, Jo 20): mesmo dia - Jesus  se manifesta à Madalena

eodem die apparet mulieribus

140. Evangelho (Mt 28, Mc 16, Jo 20): mesmo dia - Jesus  se manifesta às mulheres 


 eodem die apparet Iesus duobus discipulis euntibus Emaunta

141. Evangelho (Mc 16, Lc 24): mesmo dia - Jesus  se manifesta a dois discípulos no caminho para Emaús 


 eodem die apparet discipulis absente Thoma

142. Evangelho (Lc 24, Jo 20): mesmo dia - Jesus  se manifesta aos discípulos na ausência de Tomé

quinta-feira, 26 de julho de 2018

26 DE JULHO - SÃO JOAQUIM E SANTA ANA

Sagrada Família com São Joaquim e Santa Ana (Nicolás Juarez, 1699)

De acordo com a Tradição Católica e documentos apócrifos antigos, os pais de Maria foram São Joaquim e Santa Ana. Ana, em hebraico Hannah, significa 'Graça' e Joaquim equivale a 'Javé prepara ou fortalece'. Ambos os nomes indicam, portanto, a  missão divina de realização das promessas messiânicas, com o nascimento da Mãe do Salvador. Segundo a mesma Tradição, os pais de Maria teriam nascido na Galileia, transferindo-se depois para jerusalém, onde Maria nasceu e onde ambos morreram e foram enterrados.

O culto aos pais de Maria Santíssima é antiquíssimo na Igreja Oriental (como revelados nos escritos de São Gregório de Nissa e Santo Epifânio, em hinos gregos e em homilias dos Santos Padres). Os túmulos de São Joaquim e Santa Ana em Jerusalém foram honrados até o final do Século IX, numa igreja construída no local onde viveram. No Ocidente, o culto de Santa Ana é muito mais recente, com sua festa litúrgica tendo início na Idade Média, sendo formalizada no Missal Romano apenas em 1584, no tempo de Gregório XIII. A devoção a São Joaquim foi ainda mais tardia no Ocidente.

Como pais de Nossa Senhora, São Joaquim e Santa Ana são nossos avós espirituais e o calendário litúrgico instituiu a festa conjunta destes dois santos em 26 de julho, que ficou também conhecida como 'dia dos avós'. Eles são também os santos protetores da Ordem dos Carmelos Descalços (fundada no Século XVI por Santa Teresa de Ávila). No dia dos avós, o blog presenteia os nossos irmãos mais velhos com estas duas orações.

Oração a Santa Ana

Santa Ana, mãe da Santíssima Virgem, pela intercessão da Vossa Filha e do Meu Salvador, dai-me obter a graça que Vos peço, o perdão dos meus pecados, a força para cumprir fielmente os meus deveres de cristão e a perseverança eterna no amor de Jesus e de Maria. Amém.

Oração a São Joaquim

Senhor! Pela intercessão de São Joaquim, pai da Santíssima Virgem, velai pelos Vossos filhos idosos, especialmente... (nomes) que, tendo cumprido na Terra uma vida longa, possa(m) merecer de Vós a Vida Eterna no Céu. Senhor, dai-lhes o conforto de uma idade avançada, saúde do corpo e da alma, a sabedoria de envelhecer e um coração inquieto enquanto não repousar em Vós. Amém.  

quarta-feira, 25 de julho de 2018

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'Ó alma, o teu exemplo é Deus, beleza infinita, luz sem sombras, esplendor que supera aquele da lua e do sol. Eleva os olhos a Deus, em quem se encontram os arquétipos de todas as coisas e do qual, como de uma fonte de fecundidade infinita, deriva essa variedade quase infinita das coisas. Portanto, deves concluir: quem encontra a Deus, encontra tudo; quem perde a Deus, perde tudo.

Se tens sabedoria, compreendes que foste criado para a glória de Deus e para a tua salvação eterna. É este o teu objetivo, este é o centro da tua alma, este é o tesouro do teu coração. Por isso, considera como verdadeiro bem para ti aquilo que te conduz ao teu fim, e verdadeiro mal aquilo que te priva dele. Acontecimentos favoráveis ou adversos, riquezas e pobrezas. saúde e doença, honras e ofensas, vida e morte, o sábio não deve nem procurá-los, nem rejeitá-los por si mesmo. Mas só serão bons e desejáveis se contribuírem para a glória de Deus e para a tua felicidade eterna; são maus e devem ser evitados, se a impedirem'.
(São Belarmino)

terça-feira, 24 de julho de 2018

POR QUE ESTÁ JESUS NA EUCARISTIA?

'Por que está Jesus Cristo na Eucaristia?' Tal pergunta, se pode ter muitas respostas, tem no entanto uma que a todas resume: Jesus Cristo está na Eucaristia porque nos ama e quer que nós o amemos. O Amor, eis a razão de ser da instituição da Eucaristia.

Sem ela, o Amor de Jesus Cristo seria apenas um Amor de Morte, passado, esquecido dentro em breve – e isso sem culpa de nossa parte. Só a Eucaristia satisfaz plenamente as leis e as exigências do amor. Jesus Cristo, dando-nos nela provas de Amor infinito, tem direito de ser nela amado. Ora, o amor natural, tal qual Deus pôs nos corações, requer três coisas. A presença ou sociedade de vida, a comunhão de bens, a união perfeita.

I. A ausência é a aflição, o tormento da amizade. O afastamento diminui e, ao ser prolongado, dissipa a mais forte amizade. Estivesse Nosso Senhor ausente, afastado, o amor que lhe temos passaria, em virtude do efeito dissolvente dessa mesma ausência. É da essência, da natureza do amor humano reclamar, para viver, a presença do objeto amado.

Olhai para os pobres Apóstolos, enquanto Nosso Senhor jaz no túmulo, para os discípulos de Emaús, que confessam terem quase perdido a fé. Não gozam mais da presença do divino Mestre. Ah! Não nos tivesse Nosso Senhor deixado outro legado de seu Amor senão Belém e o Calvário e quão depressa o teríamos esquecido! Que indiferença! O amor quer ver, ouvir, conversar, apalpar.

Nada substitui o ente querido, nem lembrança, nem dons, nem retratos; nada disso tem vida. E quão bem sabia Nosso Senhor que nada poderia tomar seu lugar, pois carecemos dele mesmo. Não nos basta então sua palavra? Não, já não vibra, já não ouvimos as tocantes expressões dos lábios do Salvador. E o seu Evangelho? É um testamento. E os Sacramentos, não dão ele Vida? Só o autor da Vida poderia entretê-la em nós. E a Cruz? Ah! Sem Jesus quão triste é! E a esperança? Sem Jesus é uma agonia. Os protestantes têm tudo isso e quão frio e quão glacial é o protestantismo!

Poderá então Jesus reduzir-nos a um estado tão triste, qual o de viver e combater sozinhos? Ah! Sem Jesus, presente entre nós, seríamos por demais desgraçados. Exilados, sós no mundo, obrigados a privar-nos dos bens, das consolações terrestres, enquanto aos mundanos é dado satisfazerem todos os seus desejos, a vida se tornaria insuportável.

Mas com a Eucaristia... Com Jesus em nosso meio, quantas vezes sob o mesmo teto, dia e noite, a todos acessível, a todos esperando na sua morada sempre aberta; admitindo as crianças, chamando-as com acentuada predileção, a vida torna-se menos amarga. É o pai amoroso, rodeado dos filhos. É a vida de sociedade com Jesus. E que sociedade, quanto nos engrandece e nos eleva! E quão fáceis são as relações de sociedade, de recurso ao Céu, a Jesus Cristo em pessoa! Convivência suave, simples, familiar e íntima, assim como Ele a quis.

II. O amor quer comunhão de bens, quer tudo possuir em comum. Quer partilhar da felicidade e da infelicidade. É-lhe natural, instintivo dar, dar com alegria, com júbilo. E com que profusão, que prodigalidade concedera Jesus Cristo, no Santíssimo Sacramento, seus merecimentos, suas graças, sua própria glória! Que desvelo em dar, sem jamais recusar!

Dá-se a si mesmo, a todos e a todo momento, espalhando pelo mundo as Hóstias consagradas para que todos os seus filhos as recebam. No deserto, dos cinco pães multiplicados, sobraram doze cestas cheias, e todos deles participaram. Jesus-Eucaristia quereria envolver o mundo na sua nuvem sacramental, fecundar os povos com essa água vivificante, que, depois de ter desalterado e reconfortado o último de seus eleitos, se perderá no oceano eterno. Ah! Jesus-Hóstia é nosso, todo nosso!

III. O amor tende essencialmente à união entre os amantes, à fusão de dois seres num só ser, de dois corações num só coração, de dois espíritos num só espírito, de duas almas numa só alma (...) Jesus submete-se a essa lei de amor por Ele mesmo estabelecida. Depois de ter compartilhado do nosso estado e de nossa vida, dá-se-nos ele na comunhão, incorporando-nos a Ele.

União, cada vez mais perfeita e mais íntima, das almas, segundo a maior ou menor vivacidade dos desejos. In me manet, et ego in eo - Permanecemos nele e Ele em nós. Fazemos um só com Ele, até consumir-se no Céu, na união eterna e gloriosa, a união inefável, começada na terra pela graça e aperfeiçoada pela Eucaristia. O amor vive, pois, com Jesus presente no Santíssimo Sacramento do altar, compartilha de todos os bens de Jesus, une-se a Jesus e assim satisfazem-se as exigências de nosso coração, que mais não pode pedir.
(São Pedro Julião Eymard)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

CATECISMO MAIOR DE PIO X (IX)

SEGUNDA PARTE

RESUMO DA HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO

Anunciação da Virgem Maria

81. Reinando Herodes, cognominado o Grande, viveu em Nazaré, pequena cidade da Galileia, uma Virgem santíssima chamada Maria, desposada com José, a quem o Evangelho chama 'varão justo'. Embora ambos descendessem dos reis de Judá e, portanto, da família de Davi, viviam contudo pobremente e ganhavam o sustento com o seu trabalho.

82. A esta Virgem foi enviado o Arcanjo Gabriel, que a saudou cheia de graça e lhe anunciou que seria Mãe do Redentor do mundo. Ao ouvir estas palavras e tendo em vista o Anjo, Maria perturbou-se de início, mas, em seguida, assegurada por ele, respondeu: 'Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra'. No mesmo instante, o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-se em seu puríssimo ventre, e sem deixar de ser verdadeiro Deus, começou a ser verdadeiro homem. Este foi o princípio da redenção da raça humana.

Visita a Santa Isabel e nascimento de São João Batista

83. No colóquio com o Arcanjo, Maria soube que sua prima Isabel, mulher de um sacerdote chamado Zacarias, apesar de idade avançada, estava para ter um filho. Com santa solicitude foi Maria visitar sua prima nas montanhas da Judeia, para congratular-se com ela e mais ainda para servi-la como humilde criada, como de fato o fez por três meses. Foi então que Maria, respondendo à saudação da prima, que, inspirada pelo Espírito Santo, saudou a Mãe de Deus, com aquele sublime cântico: Magnificat, muitas vezes cantado pela Igreja.

84. O filho de Isabel foi João Batista, o santo Precursor do Messias.

Nascimento de Jesus Cristo e circunstâncias daquele grandioso acontecimento

85. Naquele tempo publicou-se um edito através do qual o Imperador César Augusto ordenava um recenseamento a todos os súditos do Império Romano e, que, portanto, cada um se dirigisse para a cidade de sua origem. Maria e José, por serem da casa e família de Davi, tiveram que ir para a cidade de Belém, onde Davi havia nascido; mas não encontrando hospedagem, pelo grande número de pessoas que ia recensear-se, foram forçados a se recolherem dentro de uma espécie de caverna, que servia como estábulo, não muito longe da cidade.

86. Foi ali, à meia-noite, que nasceu o Filho de Deus, feito homem para a salvação dos homens, nascido da Virgem Maria, a qual, enrolando-O em panos, deitou-o numa manjedoura, ou cocho de animais. Nesta mesma noite, um Anjo apareceu a uns pastores que velavam naquela região e guardavam o seu rebanho, e anunciou-lhes que nascia o Salvador do mundo. Os pastores correram atônitos ao estábulo, encontraram o Menino Jesus e foram os primeiros a adorá-lo.

Obediência de Jesus e de Sua Mãe Santíssima à Lei

87. No oitavo dia após o nascimento, em obediência à Lei, o menino foi circuncidado e lhe dado o nome de Jesus, como havia indicado o Anjo a Maria, quando anunciou-lhe o mistério da Encarnação. Além disso, em conformidade com a lei, a Santíssima Virgem, embora não fosse obrigada, apresentou-se no Templo no quadragésimo dia, oferecendo por si o sacrifício das mulheres pobres, que era um par de rolas ou pombos, e pelo Menino Jesus o preço do resgate.

88. Havia no Templo um santo ancião chamado Simeão, que teve a revelação do Espírito Santo de que não morreria sem primeiro ver o Cristo Senhor. Tomou em seus braços o divino Menino e reconhecendo-O por seu Redentor, abençoou-O com grande alegria e o bendisse com grande alegria, saudando-o com aquele terno canto Nunc dimitis que a Igreja canta ao terminar o ofício de cada dia. Ao mesmo tempo, acudiu uma piedosa viúva idosa, que vendo o divino Menino regozijou-se em seu coração, e assim dizia maravilhas dEle a todos os que esperavam a redenção de Israel.

Os Magos

89. Algum tempo depois do nascimento de Jesus, vieram a Jerusalém três Magos ou sábios, vindos do Oriente, e perguntaram onde havia nascido o rei dos judeus. Estando em sua terra, eles haviam observado uma estrela extraordinária, e por ela, segundo uma antiga profecia conhecida no Oriente, entenderam que devia ter nascido na Judeia o Desejado das gentes, e inspirados por Deus, seguindo o caminho indicado pela estrela, vieram adorá-lo. Reinava naquele tempo em Jerusalém Herodes, o Grande, homem ambicioso e cruel. Grandemente perturbado com as palavras dos Magos, informou-se dos príncipes dos sacerdotes em que lugar havia de nascer o Messias. Tendo sabido que o local indicado pelos profetas era Belém, despachou os Magos recomendando-lhes que retornassem rapidamente, fingindo que queria ir lá também para adorar o Menino recém-nascido.

Os Magos partiram, e imediatamente, a estrela que tinham visto no Oriente apareceu-lhes, guiando-os até a morada do Divino Menino, em Belém. Entraram e encontraram o Menino com Maria sua Mãe; prostrados O adoraram e, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe ouro, incenso e mirra, reconhecendo-O como rei, como Deus e como homem mortal. À noite, avisados em sonho para não voltarem a Herodes, regressaram por outro caminho para sua terra.

Morte dos inocentes e fuga para o Egito

90. Herodes esperou em vão pelos Magos. Vendo-se ridicularizado, encolerizou-se ao extremo, e esperando em sua bárbara astúcia matar Jesus, ordenou a morte de todos os meninos abaixo de dois anos que havia em Belém e seus arredores. Antes, porém, um Anjo apareceu em sonhos a José para avisá-lo e lhe dar ordens para que fugisse para o Egito. José obedeceu imediatamente e com Maria e Jesus fugiu para o Egito, onde permaneceu até a morte de Herodes; depois da qual, avisado novamente pelo Anjo, ele não retornou a Belém, na Judeia, mas para Nazaré, na Galileia.
(Do Catecismo Maior de Pio X)

domingo, 22 de julho de 2018

A DUALIDADE DA GRAÇA

Páginas do Evangelho - Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum


O Evangelho deste domingo reflete as dimensões opostas da vida cristã em comunidade e em isolamento, feitas das santas alegrias do convívio social ou moldadas pelas graças do recolhimento absoluto, tangidas pelo frenesi de multidões em marcha ou pelo silêncio contemplativo dos claustros mais inacessíveis. Como nos são diversos os desígnios do Senhor! Quão diversos são os caminhos e os meios que imprimem a santidade no coração e na alma daqueles que buscam sinceramente a Deus!

Os Apóstolos haviam sido enviados por Jesus em missão, 'dois a dois' (Mc 6,7), com a recomendação expressa de levarem muito pouca coisa: 'nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura' e nem 'duas túnicas' (Mc 6, 8 - 9) e providos pela graça do dom da cura e do 'poder sobre os espíritos impuros' (Mc 6, 7). E estes homens, pescadores sem erudição, sem alforge e sem preparos retóricos, cumpriram com coragem heróica e humildade santa os ditames proclamados pelo Mestre: levar a Boa Nova a todos os povos e a todas as nações! E, na santa alegria da primeira missão apostólica cumprida, retornam agora ao convívio do Senhor e, cheios de júbilo, 'contaram tudo o que haviam feito e ensinado' (Mc 6, 30).

No convívio do Senhor! Na santa alegria do convívio do Senhor e dos demais Apóstolos, as primícias da Igreja são matizadas naqueles tempos pioneiros da evangelização universal. Uma comunidade viva, moldada pelos princípios das sólidas virtudes da humildade, do despojamento, da fraternidade e da partilha. Uma comunidade que crescia, que exigia novas pregações, que demandava zelo e tempo... Jesus, então, chama os seus discípulos: 'Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco' (Mc 6, 31). No meio da multidão, Jesus os exorta a viver a outra dimensão da realidade cristã, moldada pelo anonimato, pelo silêncio e pela solidão com Deus.

Nesse encontro pessoal com Deus, Jesus nos ensina a buscar a barca, os montes ou o deserto. Sim, na busca de uma maior intimidade com as coisas sobrenaturais, impõe-se afastar do burburinho e da agitação do mundo, para se mergulhar a alma no repouso físico e na contemplação do espírito. Eis, assim, a síntese da perfeição cristã, que associa ação e contemplação, convívio fraterno e recolhimento interior! E, como um círculo de perfeição, refaz-se em seguida a dualidade da graça: as multidões acercam-se uma vez mais do Mestre e este, movido pela compaixão, cerne da verdadeira devoção cristã, recomeça a sua pregação divina 'porque eram como ovelhas sem pastor' (Mc 30, 34).

22 DE JULHO - SANTA MARIA MADALENA


Maria Madalena. Para se fazer distinção do nome Maria tão comum entre os habitantes de Israel (esse era o nome, por exemplo, da irmã de Moisés), os textos bíblicos nomeavam as diferentes Marias por um acréscimo singular do personagem - assim, Maria Madalena é a Maria de Magdala, povoado situado às margens do Lago da Galileia e próximo à cidade de Tiberíades. Eis as pouquíssimas referências a ela nas Sagradas Escrituras:

[Lc 8, 2-3]: 'Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses'.

[Jo 19, 25]: 'Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena'.

[Mc 15,40-41; 47]: 'Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam'.

[Mc 16, 1; 5-6; 9-10]: 'Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus... Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram... Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos'.

[Jo 20, 1-2; 18]: 'No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! ... Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado'.

Ela é a figura bíblica 'Maria de Magdala', da qual Jesus havia expulsado sete demônios. Esta acepção não implica a interpretação direta de 'uma grande pecadora'. O fato de ter-se livrado de 'sete demônios' (sete é o número da perfeição, da plenitude) implica que ela foi curada de todos os seus males tanto físicos (enfermidades) como espirituais (pecados, estes de naturezas quaisquer). É absolutamente forçada e despropositada a conjectura de que Maria Madalena pudesse ter sido uma 'prostituta' na sua condição pregressa antes do seu encontro com Jesus. Desta interpretação espúria, nasceram inúmeras outras lendas e desdobramentos fantasiosos da participação e do envolvimento desta mulher singular na vida pública de Jesus e dos seus apóstolos. 

sábado, 21 de julho de 2018

INTERPRETAÇÕES DOS SONHOS DE DOM BOSCO (V/Final)


A estreita correlação entre as visões dos sonhos de Dom Bosco com as mensagens e profecias de Fátima é bastante incisiva quando se considera a suposta descrição (certamente apenas parcial) do Terceiro Segredo de Fátima, em manuscrito da Irmã Lúcia, como revelado pelo Vaticano em 26 de junho de 2000:

(i) Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que pareciam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contato do brilho que, da mão direita, expedia Nossa Senhora ao seu encontro.
(ii) O Anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte, disse: Penitência, Penitência, Penitência! 

Na suposta continuação das três partes que constituem o chamado Segredo de Fátima, as duas partes anteriores e já descritas pela vidente corresponderiam ao Primeiro Segredo - a perda eterna das almas e a visão do inferno e o Segundo Segredo - a revelação de castigos universais e os meios para evitá-los. A visão propriamente dita tem origem no Anjo empunhando uma espada de fogo, que remete de imediato a um cenário apocalíptico: 'as chamas pareciam incendiar o mundo'. Não se trata mais de um mundo imerso nas trevas, nem mais o mundo em que fulgurou outrora a luz portentosa da igreja; é apenas um mundo mergulhado num incêndio colossal, num mar de fogo. 

O Anjo empunha a espada de fogo com a mão esquerda e brada à humanidade por conversão apontando para a Terra com a mão direita. A mão direita é símbolo do poder e da justiça de Deus, instrumento da ira santa de Deus. Na invocação dirigida aos homens, a exortação angélica é um brado retumbante e vigoroso dirigido aos homens do pecado, sem mais concessões ou delongas possíveis: Penitência, Penitência, Penitência! 

A espada na mão esquerda reflete uma condição ainda potencial do castigo universal imposto a uma humanidade transtornada pelo pecado, que se tornou indiferente a todos os avisos e manifestações amorosas da Mãe de Deus e que desdenhou por completo das dores e sofrimentos anunciados e vividos tão tragicamente pelos homens e mulheres das gerações anteriores. O flagelo está ainda em suspenso. A luz emanada da mão direita da Virgem tem o poder de estancar e de apagar o fogo da justiça divina, mas este aceno da graça é condicional e depende da resposta da humanidade aos apelos de conversão universal.

(iii) E vimos, numa luz imensa que é Deus, 'algo semelhante a como se vêem as pessoas em um espelho quando lhe passam por diante' um Bispo vestido de branco e 'tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre'. 
(iv) Vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas a subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca.
(v) o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meio em ruínas, e meio trêmulo e com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho. 

A 'luz imensa que é Deus' e pressentimentos sobrenaturais já eram experiências vivenciadas pelos videntes de Fátima durante aparições anteriores de Nossa Senhora [por exemplo, eles pressentiram que a visão do Imaculado Coração de Maria cravejado de espinhos, na segunda aparição, não devia ser revelado por eles naquele momento]. Os videntes vêem, com clareza cristalina (como a imagem refletida em um espelho), o Santo Padre como um bispo vestido de branco. O pressentimento sobrenatural confirma a natureza desta visão. 

O Santo Padre está em meio a uma longa e penosa caminhada atravessando cidades em ruínas e montes de cadáveres, sob angústia mortal e passos vacilantes. Nesta caminhada, é seguido por uma legião de sacerdotes e religiosos [e também leigos, como nomeados nesta multidão, em trecho mais adiante da mensagem] que se mantiveram fieis à Igreja. É uma imagem muito similar à da procissão do exílio que chega a uma praça cheia de mortos e feridos,  como narrada no segundo sonho de Dom Bosco. A mesma referência à quebra da fé, à transgressão do sagrado pelo profano, ao relativismo moral, ao catolicismo morno e sociológico, ao abandono da Igreja ao primado de Pedro ('a precipitação vertiginosa do sol em direção à Terra', na sexta aparição). O papa caminha sobre destroços e cadáveres (terríveis consequências* do flagelo do fogo, sinal inequívoco que o apelo triplo do Anjo à penitência terá sido em vão), sob penosos sofrimentos e aflições (a via crucis da Igreja).

* Em visões particulares, logo após a Terceira Aparição da Virgem, Jacinta revelou a Lúcia ter visto o Santo Padre a chorar numa casa muito grande, de joelhos e com as mãos no rosto, enquanto lá fora havia muita gente que lhe atiravam pedras ou que lhe rogavam pragas. Em outra ocasião, teve a visão do Santo Padre, a rezar diante do Imaculado Coração de Maria junto com uma multidão, enquanto uma outra multidão faminta se arrastava pelas estradas sem ter nada para se alimentar. Diante desse relato, Lúcia a instou a permanecer calada, porque senão isso poderia revelar o teor do Terceiro Segredo.

Mas a Paixão ainda está por vir. E a Igreja, à semelhança de Cristo, há de perpassar integralmente pelos padecimentos do seu próprio Calvário. O Sumo Pontífice e a multidão chegam, então, ao trecho final da caminhada - uma encosta íngreme e acidentada com uma cruz tosca no cimo. A Igreja descobre e sobe, trêmula, vacilante e desolada, o seu Gólgota. Amargo preço por ter abandonado os portos seguros da graça para ir de encontro à civilização moderna ('a grande cidade meio em ruínas') como uma nau sem rumo em mar revolto. A cruz - tosca cruz - é o símbolo de uma Igreja esmaecida do seu fulgor mas que, apesar de tudo, não perdeu a sua herança divina. Num mundo conturbado pelo pecado, dilacerado pelo pecado, ainda permanece firme sobre o Gólgota a Cruz de Cristo!

(vi) chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, [o papa] foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas.
(vii) e, assim mesmo, foram morrendo, uns trás dos outros, os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. 
(viii) Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos, cada um com um regador de cristal na mão, e neles recolhiam o sangue dos mártires e com eles regavam as almas que se aproximavam de Deus'.

As pés da Cruz, dá-se o martírio de papa e de uma multidão de fieis. Na verdade, acontece um massacre porque não se trata de um atentado a uma parte da Igreja, a um corolário da fé cristã, a algum dos seus dogmas, mas de uma guerra tremenda contra toda a Igreja. As armas podem disparar tiros e os arcos podem disparar setas: para arruinar desde os fundamentos da Igreja de Jesus Cristo, os inimigos investem para matar o corpo e a alma de milhões e de milhões, seja pelos conflitos armados, seja pelo cipoal de heresias, pela incredulidade, pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo materialismo e por tantas outras doutrinas sectárias, 'setas' que matam a alma de tantos e tantos filhos da Igreja. O 'grupo de soldados' é um símbolo de uma ação planejada e implementada sob uma sólida e diabólica estratégia militar. Ao martírio de sangue está associado o martírio espiritual, cujos frutos serão cuidadosamente recolhidos pelos anjos para se regar as novas vinhas do Senhor e para gerar sementes de uma humanidade renovada. 

E este será um evento espantoso, fruto de uma intervenção direta e extraordinariamente sobrenatural, que sabemos há de vir por meio daquela 'que combate e dispersa os mais fortes exércitos da terra'. A Igreja vai padecer enormemente e viver o seu Calvário, porque Roma desprezou as profecias e se aviltou nos seus erros e contradições, mas renascerá triunfante porque Deus 'reservou a vitória sobre os seus inimigos a Si mesmo' (Pio IX). Esta confirmação do triunfo da Igreja e a explicação destes eventos por Nossa Senhora certamente devem estar incluídos no contexto do que ainda não se sabe do chamado Terceiro Segredo de Fátima.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O PENSAMENTO VIVO DE TERESA DE LISIEUX

'Estamos vivendo num século de grandes inventos. Já não custa fadigas galgar degraus de uma escadaria; as casas abastadas tem lá ascensores que as substituem vantajosamente. Quisera eu também descobrir um ascensor para me levar até Jesus, pois sou tão pequenina que me falecem as forças para vingar até o topo da escada íngreme da perfeição.

Pedi logo aos Livros Sagrados que me indicassem o ascensor cobiçado, e depararam-se-me estas palavras da mesma Sabedoria eterna: 'Todo aquele que é simples e pequenino venha a mim!' (Pv 9,4). Cheguei-me, portanto, a Deus, persuadida de ter, enfim, descoberto o que andava procurando; e, desejosa de saber ainda o que o Senhor faria a esse pequenino, prossegui nas minhas pesquisas e encontrei o seguinte: 'Hei de trazer-vos ao colo, embalar-vos sobre meus joelhos. Do mesmo modo que uma mãe acaricia o seu filhinho, assim eu vos consolarei' (Is 66,12). Ah, mas ternas e melodiosas palavras nunca soaram para deleitar a minha alma. O ascensor que me há de guiar até o céu são os vossos braços, ó Jesus! Para isto não é necessário que eu cresça, devo antes ficar sempre pequenina e empenhar-me em o ser cada vez mais. Meu Deus, fostes muito além de quanto eu podia esperar e quero agora celebrar as vossas misericórdias! 'Ensinaste-me, ó meu Deus, desde a minha mocidade; e eu publicarei as tuas maravilhas que tenho experimentado até agora. E até a velhice e idade avançada, ó Deus, não me desampares, até que anuncie a força do teu braço todas as gerações que hão de vir!' (Sl 70,17).
'O coração de Jesus é muito mais magoado por causa das mil pequenas imperfeições dos seus amigos do que das próprias faltas graves cometidas por seus inimigos. No entanto, parece-me que é somente quando os seus adquirem um hábito dessas indelicadezas e não lhe pedem perdão por elas que se pode aplicar a palavra: 'Estas chagas que vedes em minhas mãos, eu as recebi daqueles que me amavam' (Zc 13,6).
'Por aqueles que o amam e que, depois de cada pequena falta, vêm lançar-se em seus braços e lhe pedem perdão, Jesus vibra de alegria. Ele diz a seus anjos o que o pai do Filho pródigo dizia aos seus servos: 'Metei-lhe um anel no dedo e regozijemo-nos!' Ah! Como são pouco conhecidos a bondade e o amor misericordioso do Coração de Jesus! É verdade que, pra fruir destes tesouros, é necessário conhecer o seu nada e humilhar-se - e é justamente isso o que muitas almas não querem fazer!...'

quinta-feira, 19 de julho de 2018

INTERPRETAÇÕES DOS SONHOS DE DOM BOSCO (IV)


Existe um paralelismo muito grande entre os fatos narrados nos dois sonhos de Dom Bosco com as mensagens e profecias reveladas por Nossa Senhora em Fátima. Ao final da sexta aparição (13/10/1917), ocorreu uma série extraordinária de fenômenos que ficou conhecida como 'o milagre do sol', que podem ser assim sintetizados:

(i) o sol tinha a forma de um disco luminoso, com a borda claramente delineada como uma faixa luminosa e podia ser visado diretamente por longo tempo, sem cegar ou ofuscar a visão das pessoas.

O sol é o símbolo da Igreja de Cristo, claramente visível e delineada na história humana, herança firmada sobre a rocha (Pedro) e assente sobre uma doutrina sólida, conhecida e luminosa como o céu do meio dia. A Igreja de Cristo é a luz de Cristo, que não ofusca, que não cega, que não se contamina, que não enfastia, que não promove qualquer desordem ou perturbação dos espíritos ou dos sentidos, mas que é anelo intangível de graça eterna. Quando se perde esse modelo de referência, a visão fica dificultada, a limpidez se turva, a luz fica esmaecida e a Verdade se obscurece.  

(ii) o sol pareceu dançar no firmamento, passando a girar aceleradamente sobre o seu eixo para, em seguida, interromper e recomeçar outras vezes esse movimento vertiginoso.

Eis a Igreja destituída dos ornamentos puros da graça e perturbada pelos valores do mundo; o sol, ao 'dançar', abandona a sua ordem natural e avilta a ordem divina, simbolizando uma crise da Igreja, que a faz girar sobre si mesma, descontrolada e cambaleante, deixando de seguir seu curso normal. O movimento vertiginoso se repete, indicando não se tratar de uma crise passageira ou incipiente, mas de uma crise tremenda e que se estende por longo tempo e curso.

(iii) o sol começou a irradiar luzes diferentes e cambiantes, que foram disseminadas e refletidas sobre todo o ambiente da Cova da Iria (sobre as pessoas, a paisagem, os montes e as árvores).

Que Igreja é essa que não mais irradia a luz única de Cristo? Ao contrário, é uma Igreja que espalha muitas e diferentes luzes (símbolo da mistura com doutrinas estranhas, fruto do ecumenismo e do misticismo, que se espalha sobre tudo e sobre todos, indicando a natureza universal destas perdas e que, no espargir multicolor, se perde a luz da Verdade, da mesma forma que, em uma liga, quem perde mais é o metal mais puro). A irradiação ensandecida não é natural e recorda uma Igreja perplexa e igualmente ensandecida.

(iv) ao final dos eventos, o sol pareceu precipitar-se sobre a terra num movimento apocalíptico que produziu nas pessoas um enorme temor e uma impressão geral de 'fim do mundo'; interrompendo esse processo de arremetida em ziguezague, o sol retornou então à sua posição natural e passou a ser visto na sua conformação original e ofuscante à visão direta.

Ao se precipitar em direção à Terra, num movimento oblíquo e tortuoso (arremetida em ziguezague), a Igreja mostra-se servil aos interesses humanos e do mundo e esquecida da sua origem divina (abandono da sua origem e esplendor no alto do firmamento), símbolos de uma crise sem precedentes que somente pode ser exposta por uma queda brutal e vertiginosa. Crise tão grande que produz temores apocalípticos e a impressão de 'fim do mundo'. 

Eis que, de repente, o sol interrompe bruscamente os espasmos não naturais e incontroláveis e readquire a postura astronômica de sempre, retornando ao alto dos céus. As testemunhas da Cova da Iria foram uníssonas em afirmar que esse retorno do sol aconteceu também em ziguezague e de forma cambaleante, embora mais rápido que a descida. Ou seja, a volta da Igreja à sua posição natural (a Roma e por Cristo, com Cristo e em Cristo)  não será feita de forma rápida e decidida, mas em meio a vacilações e hesitações de toda ordem. Mas este retorno e esse reequilíbrio natural do sol constituem ecos igualmente potentes da mensagem decisiva – a definitiva e primordial mensagem de Fátima: 'Por fim o meu Imaculado Coração triunfará!' Eis o testemunho incondicional do triunfo de Deus no mundo, demarcado pelas mensagens da Virgem, no milagre do sol e nos sonhos de Dom Bosco!