segunda-feira, 18 de junho de 2018

SANTINHOS (VI)

'Santinhos' são pequenos cartões impressos que retratam santos, cenas ou pinturas religiosas, produzidos desde época remota e comumente em grandes quantidades, para disseminação da cultura religiosa entre os católicos. São especialmente confeccionados e distribuídos nas festas de devoção de um santo, como pagamento de promessas ou como lembrança da realização de datas festivas e/ou eventos religiosos públicos ou particulares (batismo, primeira comunhão, crisma, etc). As fotos abaixo apresentam alguns exemplos destes 'santinhos' dedicados ao Sagrado Coração de Jesus, devoção tradicionalmente celebrada pela Igreja no mês de junho.

A fonte da devoção ao Sagrado Coração é o amor - isto é, o Coração de Jesus nos deu essa devoção como um último esforço do seu amor e o mais perfeito presente que Ele pode nos conceder. É o amor que deseja se doar sem reservas, até o fim dos tempos, até os confins da terra, até os extremos limites de sua afeição; amor que procura aquecer o mundo, onde a caridade é agora tão fria; amor que veio trazer fogo à terra e que deseja, no final dos tempos, consumi-lo inteiramente em suas chamas; amor que visa mais amar do que ser amado, pois essa é a lei do amor.












domingo, 17 de junho de 2018

O REINO DE DEUS

Páginas do Evangelho - Décimo Primeiro Domingo do Tempo Comum


No Evangelho deste Décimo Primeiro Domingo do Tempo Comum, Jesus utiliza-se de duas parábolas para explicitar às multidões o sentido maior do Reino de Deus no mundo, consubstanciadas na mesma ideia central do trabalho fecundo e silencioso das boas sementes lançadas em terra fértil que se desenvolvem para produzir muitos frutos. A semente do Evangelho deve ser convertida em apostolado e no reino militante da Santa Igreja Católica pelos caminhos do mundo.

A primeira parábola compara o Reino dos Céus à boa semente lançada em terra fértil: 'O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra' (Mc 4, 26). Na terra que é o campo do Senhor, ou seja, o mundo, Deus planta sempre a boa semente, plena de fertilidade e capaz de produzir muitos frutos. E, enquanto todos dormem e se entregam aos seus afazeres cotidianos, a boa semente 'vai germinando e crescendo', produzindo folhas e grãos, e frutos que amadurecem e que geram outras muitas sementes. E eis que a terra boa de plantar torna-se então farta na colheita: pelas mãos dos homens e pela graça divina escondida no ventre da terra. 

A segunda parábola compara o Reino dos Céus a uma minúscula semente de mostarda: 'O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra' (Mc 4, 31). De fertilidade ímpar, a pequena semente produz um vigoroso arbusto, tão alto que as aves podem fazer ninhos em seus ramos: 'Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra' (Mc 4, 32). O Reino de Deus se desenvolve tal como a pequena semente: no escondimento, quase imperceptível na sua evolução, mas vigoroso e extraordinário na grandeza e dimensão dos seus frutos! O caminho da santificação é essencialmente simples e tranquilo, mas sempre impelido por uma torrente de bênçãos e graças.

O Reino de Deus é obra única e exclusiva do Pai. Nos mistérios insondáveis dos seus divinos desígnios, Deus arma a teia da vida e da propagação da civilização cristã através de um mundo conturbado que parece, por muitas vezes, querer abortar a semente lançada e conspurcar os seus frutos. Mas Deus utiliza de suas graças abundantes para fazer jorrar a água viva do Evangelho do chão rude e pedregoso talhado por uma humanidade pecadora e licenciosa das verdades eternas. Que o nosso propósito seja o de mostrar-nos ao Pai, não escondidos atrás das muralhas do nosso orgulho e das nossas vaidades, mas como frágeis vasos de argila, expostos como instrumentos dóceis à ação da graça divina para praticarmos sempre o bem, de forma generosa e perseverante. Supliquemos a Deus a graça de sermos fecundos nesta semeadura, deixando a Ele, e somente a Ele, a tarefa de colher os frutos dos nossos pequenos trabalhos e obras, de acordo com a sua Santa Vontade.  

sábado, 16 de junho de 2018

UM PADRE CATÓLICO E A EXPANSÃO DO UNIVERSO

O reconhecimento de que o universo está expandindo é uma das maiores descobertas da cosmologia  e tem sido comumente descrito pela chamada Lei de Hubble [Edwin Hubble (1889 - 1953)]. Em 1929, analisando as velocidades radiais de algumas galáxias, localizadas a menos de 6 milhões de anos-luz, Hubble descobriu que a relação velocidade-distância das galáxias era aproximadamente linear. Em seguida, extrapolando os estudos a galáxias ainda mais distantes (até 100 milhões de anos-luz) descobriu, em parceria com Milton Humason (1891-1972), que a relação se mantinha relativamente linear. A lei de Hubble (que já foi chamada Lei de Hubble-Humason) é expressa nos seguintes termos: 'As galáxias se afastam umas das outras a uma velocidade proporcional à sua distância'. 


A taxa de expansão dessas galáxias entre si corresponde à chamada constante de Hubble. Assim, quando mais afastada de nós estiver uma galáxia, mais rapidamente ele tende a se afastar de nós.  Esse, entretanto, não é um verdadeiro movimento das galáxias, mas uma prova de que o universo se expande por inteiro, o que resulta em uma velocidade aparente entre as galáxias. Estas informações estão presentes quase como uma unanimidade em qualquer curso básico de astronomia. Mas a descoberta de que o nosso universo encontra-se em um processo de expansão permanente tem sido atribuída também a outros cientistas, como Friedman, Lemaître, de Sitter, Robertson, Tolman e Eddington. E, com cada vez mais assertividade, a um sacerdote católico, o cientista belga Georges Lemaître (1894 - 1966).


O Pe. Lemaître nasceu em Charleroi (Bélgica), em 1894 e, desde tenra idade, manifestou tanto a vocação do cientista como a sacerdotal. Enquanto estava no seminário, a física moderna vivia a sua fase de ouro, com as descobertas da Mecânica Quântica e da Teoria da Relatividade. Antes e depois da ordenação, Lemaître se especializou e se doutorou em Física, estudando e pesquisando em renomadas universidades como a Universidade de Cambridge na Inglaterra, e o MIT e o Observatório Astronômico de Harvard, nos Estados Unidos.

(Millikan, Pe. Lemaître e Einstein) 

Em 1927, portanto, dois anos antes que Hubble, por meio de um desdobramento das equações de Einstein que descreviam o universo em termos de escalas cosmológicas, Lemaître concluiu que o universo estava em processo de expansão. O artigo original infelizmente foi publicado em francês no pouco conhecido 'Anais da Sociedade Científica de Bruxelas', comprovando a linearidade da relação velocidade-distância das galáxias e fornecendo o valor da taxa de expansão dessas galáxias*. A tradução do artigo para o inglês, na renomada revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, não continha algumas equações originais e nem a referência a um universo em expansão no texto. O próprio Lemaître cuidara da tradução e teria feito essas alterações porque pretendia apresentar a proposição da expansão do universo separadamente, em um outro artigo mais detalhado. Neste meio tempo, Hubble publicou primeiro em inglês e as honras do pioneirismo da descoberta foram dadas a ele.

* o valor da taxa de expansão seria da ordem de 675 km/s/Mpc, ao passo que Hubble chegaria a um valor um pouco menor, da ordem de 500 km/s/Mpc. Com os dados atuais, o valor assumido para este parâmetro é da ordem de 68 km/s/Mpc (sendo 1Mpc = 3,26 anos-luz). Isso significa que uma esfera imaginária de raio igual a 1Mpc, expande seu volume a uma velocidade igual a 68km por segundo; outra com raio 10 Mpc, expandiria a uma taxa de 680km por segundo, etc.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

'ONDE ERREI, SENHOR?'

Onde errei, Senhor?
se falei o Vosso nome e, em Vosso nome, falei aos homens,
se me alegrei de falar por Vós,
se me ufanei de gritar por Vós,
se me vangloriei de usar o Vosso Santo Nome.

Onde errei, Senhor?
quando me ouviram, não foi por falar de Vós?
quando me temeram, não foi por gritar por Vós?
quando me louvaram, não foi por cantar por Vós?
quando me seguiram, não foi por Vossa causa?

Onde errei, Senhor?
quando empunhei a minha bíblia, não foi por Vós?
quando dominei os evangelhos, não fui outro evangelista?
quando decorei cada versículo da bíblia, não fui outro Jesus?
quando persegui os ímpios não estavas comigo?

Onde errei, Senhor?
não pratiquei a caridade como ensinastes?
não ataquei com rigor Vossos inimigos?
não admoestei tantos a abandonar os vícios?
não prometi o inferno a tantos que não Vos seguissem?

Onde errei, Senhor?
não prometi riqueza aos que Vos servissem?
não profetizei tantas coisas em Vosso Nome?
não pratiquei curas e milagres nas minhas pregações?
não expulsei demônios no meu templo?

Onde errei, Senhor?
se tomei a Vossa Palavra como única medida,
se naveguei toda a minha vida como pastor e guia,
se Vos tomei como única mediação e salvação,
se combati com rigor a igreja que ousava ser a Vossa,
se neguei as heresias dos que Vos chamavam Senhor, Senhor!

Onde errei, Senhor?
se não pratiquei o culto blasfemo de imagens,
se não rezei para santos e santas de altares,
se não me apeguei a sacramentos inventados,
se nunca ousei chamar Nossa Senhora de Mãe de Deus...

Por que, Senhor, Vós me condenastes?

(Um trovão terrível irrompeu e fez calar o ímpio desgraçado)

'Maldito! Nunca fizestes nada que fosse da Vontade do Meu Pai, que está nos Céus; tudo isso que fizestes serviu para a vossa vanglória humana e não para a Minha Glória. Não servistes à Minha Igreja, Santa e Católica, mas a denegristes com a vossa torpe heresia. Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticastes a iniquidade!'

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O QUE É A FÉ?


A Fé não é um sentimento, a Fé não é da ordem natural.

A Fé é um assentimento de nosso espírito à verdade revelada por Deus; é um bem que não deriva de nossa natureza, mas lhe é dado para curá-la.

A Fé é essencialmente purificante – Fide purificans corda – Purificando pela Fé os corações (At 15,9).

A Fé esclarece o espírito e o despoja do erro; levanta o homem caído, recoloca-o no caminho de Deus: a Fé põe as bases da obra da salvação, encaminha o homem para o bem.

A Fé é essencialmente fortificante. Confortus fide, diz São Paulo (Rm 4,20); e ainda, Fide stas – se estás em pé, é pela Fé (id. 11,20).

A Fé é vivificante: 'o justo vive da Fé', diz São Paulo (Gl 3,11).

A Fé é o princípio de um mundo novo, regenerado em Jesus Cristo Nosso Senhor; a Fé é a luz que anuncia os esplendores da eternidade onde veremos Deus; a Fé é a mãe da santa Esperança e da divina Caridade.

A Fé é sobre a terra, a fonte pura de todas as verdadeiras consolações. É ainda São Paulo quem nos diz: Simul consolari per eam quae invicem est, fidem vestram atque meam –Consolemo-nos juntos na Fé que nos é comum, a vós e a mim (Rm 1,12)... e ainda: Saluta eos qui nos amant in fide – Saudai os que nos amam na Fé.

(Excertos da obra 'Cartas Sobre a Fé', do Pe. Emmanuel - André)

terça-feira, 12 de junho de 2018

ORAÇÃO PARA VIVER COM ALEGRIA

Senhor, dai-me uma boa digestão e também algo para digerir.

Dai-me a saúde do corpo e o bom humor necessário para mantê-la.

Dai-me Senhor, uma alma simples que saiba aproveitar tudo o que é bom e que nunca se assuste diante do mal, mas, pelo contrário, encontre sempre a maneira de por cada coisa no seu lugar.

Dai-me uma alma que não conheça o tédio, as murmurações, as mágoas e as lamentações; e não permitais que me preocupe excessivamente com a coisa complicada demais que se chama 'eu'.

Dai-me Senhor, o senso do bom humor.

Concedei-me a graça de apreciar tudo o que é divertido para descobrir na vida um pouco de alegria e também para partilhá-la com os outros. 

Amém.

(São Thomas More)

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CATECISMO MAIOR DE PIO X (VII)

Os hebreus sob os juízes

56. Tendo os hebreus liderados por Josué apoderado da Palestina, não mais a abandonaram; sendo regidos segundo a lei de Moisés, ou pelos anciãos do povo, ou por juízes e, mais tarde, por reis. Os juízes eram pessoas (entre elas duas mulheres: Débora e Jael) suscitadas e escolhidas por Deus de tempos em tempos para livrar os hebreus, sempre que caíam sob a dominação de seus inimigos como punição por seus pecados.

57. Os dois juízes mais famosos foram Sansão e Samuel. Sansão, dotado de uma força extraordinária e maravilhosa, durante muitos anos molestou e causou mil estragos aos filisteus, inimigos de Deus muito poderosos. Traído depois e perdidas suas prodigiosas forças, reuniu as que lhe restavam para sacudir e derrubar um templo de seus inimigos, sob cujos escombros foi sepultado com muitos deles. Samuel, o último dos juízes, venceu os filisteus e, por ordem de Deus, reuniu o povo que se revoltou e exigiu um rei que, em sua presença, escolheu e consagrou Saul, da tribo de Benjamim, primeiro rei de todo o povo hebreu.

Os hebreus sob os reis

58. Saul reinou muitos anos mas, após os dois primeiros anos, foi rejeitado por Deus por causa de uma gravíssima desobediência, e um jovem chamado Davi, da tribo de Judá, foi ungido e consagrado rei e, mais tarde, tornou-se célebre matando em um único combate um gigante filisteu chamado Golias, que insultou o povo de Deus posto em ordem de batalha.

59. Saul, derrotado pelos filisteus, foi dado a morte. Então, subiu ao trono Davi, que reinou sobre o povo de Deus por quarenta anos. Acabou por conquistar toda a Palestina, subjugando os infiéis que ali estavam, e, especialmente, assenhorou-se da cidade de Jerusalém, que ele escolheu para cadeira de sua corte e capital de todo o reino.

60. A Davi sucedeu Salomão, que foi o homem mais sábio que já existiu. Edificou o templo de Jerusalém e gozou de longo e glorioso reinado. Mas, nos últimos anos de sua vida, em razão das artes insidiosas de mulheres estrangeiras, caiu em idolatria, e alguns temem por sua salvação eterna.

Divisão do reino

61. Sucedeu ao Rei Salomão seu filho Roboão. Por não querer este aliviar a carga duríssima dos impostos cobrados por seu pai, dez tribos se lhe rebelaram, que tomaram por rei a Jeroboão, chefe dos rebeldes e somente duas tribos permaneceram fiéis a Roboão, as de Judá e Benjamim. O povo hebreu viu-se deste modo dividido em dois reinos, o reino de Israel e o reino de Judá. Estes dois reinos não se uniram mais, mas cada um teve a sua própria história.

Reino de Israel e sua destruição

62. Os reis de Israel, em número de 19, todos perversos e impregnados de idolatria, que arrastaram a maior parte do povo das tribos, governaram durante duzentos e cinquenta e quatro anos. Finalmente, em punição por suas enormes iniquidades, parte do povo foi disperso, parte levado cativo para a Assíria por Salmaneser, rei da Síria, e o reino de Israel caiu para não mais se levantar. (a.C 722). Para repovoar o país, foram enviadas colônias de gentios, que foram associados em tempos posteriores a alguns israelitas que retornaram do exílio e a alguns maus judeus, e juntos formaram depois um povo, que se chamou samaritano, inimigo acérrimo da nação judaica. Entre os israelitas levados cativos a Nínive, capital da Assíria, havia Tobias, varão santíssimo de quem se encontra nos Livros Sagrados uma história particular, própria para fazer-nos cobrar a alta estima do santo temor de Deus e das disposições de sua providência.

Reino de Judá e cativeiro na Babilônia

63. Os reis de Judá, em número de 20, dos quais alguns foram piedosos e bons e outros ímpios, reinaram durante trezentos e oitenta e oito anos.

64. No tempo de Manassés, um dos últimos reis de Judá, aconteceu o que está escrito no livro que se intitula de Judite, a qual, matando Holofernes, capitão general do rei dos assírios daquele tempo, livrou a cidade de Betúlia e toda a Judeia. Mais tarde, outro rei dos assírios, Nabucodonosor, pôs fim
ao reino de Judá; apoderou-se de Jerusalém e a destruiu totalmente, junto com o templo de Salomão; fez prisioneiro e arrancou os olhos de seu último rei, Zedequias, levando o povo cativo para a Babilônia.

Daniel

65. Durante o cativeiro babilônico viveu o profeta Daniel. Escolhido com outros jovens hebreus para ser educado e depois destinado ao serviço pessoal do rei, com sua virtude conquistou a estima e o afeto de Nabucodonosor, principalmente depois de ter interpretado um sonho que este tivera e que depois esquecera. Ele também foi muito amado pelo rei Dario, mas seus adversários acusaram-no de adorar o seu Deus, desobedecendo ao edito real que o proibia, e lograram que fosse arrojado ao fosso dos leões, dos quais Deus o livrou milagrosamente.

(Do Catecismo Maior de Pio X)

domingo, 10 de junho de 2018

'QUEM FAZ A VONTADE DE DEUS: ESSE É MEU IRMÃO'

Páginas do Evangelho - Décimo Domingo do Tempo Comum


Jesus estava em Cafarnaum, pouco depois de ter descido das montanhas onde fizera a escolha dos seus doze apóstolos (Mc 3, 13 - 19) e diante dele, como outras tantas vezes durante a vida pública do Senhor, uma enorme multidão se aglomerava, ansiosa por ouvir os seus ensinamentos, as explicações sobre textos das Sagradas Escrituras, para serem testemunhas oculares de prodígios e milagres ou por mera curiosidade de conhecer aquele profeta extraordinário.

Nesta ocasião em especial, os próprios parentes de Jesus estavam presentes e, assoberbados pelos anelos e compromissos humanos, foram incapazes de perceber a dimensão sobrenatural da vida pública daquele homem que lhes era tão próximo e, por isso, foram capazes de imputar a Jesus como que um estado de pura confusão mental. Como sempre, os mestres da lei foram muito mais longe nos ilimitados domínios da blasfêmia: 'diziam que ele (Jesus) estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios, ele expulsava os demônios' (Mc 3, 22).

Jesus evidencia o caráter absurdo e contraditório de tais alegações, desmascarando-lhes o desvario da razão e a dureza dos seus corações, totalmente impermeáveis à ação dos dons e carismas do Espírito Santo. Neste propósito de impenitência tácita e obstinada, aqueles homens rejeitaram todas as investidas divinas de acolhida e de perdão, tornando-se réus de condenação eterna, porque 'quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno' (Mc 3, 28).  Ainda que pecadores ao extremo, todos somos passíveis do perdão e da misericórdia de Deus, desde que estejamos comprometidos pelo firme propósito do reconhecimento humilde e da dor sincera pelos pecados cometidos. A nossa salvação não pode prescindir destes princípios da fé cristã.

Durante esta explanação, Jesus é informado então da chegada da sua mãe e dos seus parentes, que estavam à sua procura. Esta mãe de amor e de doçura também se afligia diante da tormentosa multidão que envolvia Jesus, diante das acusações dos mestres da lei e das insanidades feitas pelos seus próprios parentes. Mas Jesus vai lhes responder: 'Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?' (Mc 3, 33). E Ele mesmo vai lhes revelar a supremacia absoluta das relações familiares de ordem espiritual sobre estas mesmas relações de caráter natural: 'Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe' (Mc 3, 35). Nossa Senhora é a mãe de Jesus e a mãe de Deus, não apenas porque O gerou e foi para Ele mãe cuidosa e extremada mas, principalmente, porque cumpriu à perfeição, nessa missão materna, a santa vontade de Deus.

sábado, 9 de junho de 2018

PÁGINAS CATÓLICAS ESQUECIDAS (I)

Dizem os protestantes que são cristãos, que querem o cristianismo puro. E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudo-cristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos.

Há, não o nego, protestantes de boa fé, os quais, equivocados, serão cristãos, e crerão em Jesus Cristo e na sua doutrina, e não refletirão sobre as origens do protestantismo. Não falo desta classe de protestantes que, como se vê, são protestantes por equívoco, por engano e por ignorância. Falo do protestantismo em si e, afirmo sem receio, que o protestantismo não é cristianismo, nem puro, como eles imaginam, nem impuro, nem de espécie alguma.

A Igreja Romana antes de 1521 – Reflita alguns instantes, meu caro amigo, e se é realmente amante da verdade, preste atenção ao que lhe vou dizer. Antes de 1521, a Igreja Romana era igreja verdadeira cristã, e desta verdade ninguém duvidava em todo o mundo. Ela apresentava sua sucessão clara e sem interrupção desde São Pedro, São Lino, Santo Anacleto, e assim toda a série dos papas e sucessores de São Pedro até Leão X. Ninguém se lembrava de protestar, a ninguém ocorria sequer a ideia de duvidar. Todos aqueles que queriam ser cristãos sabiam perfeitamente que a Igreja Romana era a verdadeira Igreja, a religião cristã.

O Grande Argumento – O grande argumento de Santo Agostinho contra os hereges donatistas era este, belíssimo: 'Contai os sacerdotes desde a mesma Sé de Pedro, examinai como se foram sucedendo sem interrupção: esta é a pedra que não vencem as soberbas portas (os soberbos poderes) do inferno, isto é, esta é a Igreja de Cristo, da qual disso o mesmo Jesus Cristo que não a venceriam os poderes do inferno'. E acrescentava: 'O fato que me prende e retém na Igreja Católica é a sucessão de sacerdotes, que nunca foi interrompida desde a mesma Sé de Pedro Apóstolo até o presente episcopado' (queria dizer, desde São Pedro até o Pontífice que, no seu tempo, regia a Igreja). E como Santo Agostinho tem pensado e pensam sempre todos os cristãos, a saber, que a Igreja verdadeira vem dos Apóstolos. Claro está que assim é; de outra maneira não será a Igreja de Cristo, mas outra qualquer. Como porém não pode haver duas Igrejas de Cristo, aquela outra será forçosamente falsa.

Onde estavam os protestantes antes do século XVI? – Onde estava Lutero? Onde Zwinglio? Onde estava Calvino? Onde estava Henrique VIII e todos os demais reformadores?.Eles mesmos, até o dia da sua rebelião, eram católicos, estavam na Igreja Católica e, por isso mesmo, eram cristãos. E de repente, a alturas tantas, que havia de dar na veneta a esses homens escandalosos? Por motivo de melindres, de enfados e de soberbas, emproa-se Lutero e diz com altivez: 'Eu não obedeço à Igreja Católica, separo-me dela! Eu, Martinho Lutero, digo que esse cristianismo não é o verdadeiro! Eu, Martinho Lutero, descobri que essa Igreja Católica, à qual pertence todo o mundo cristão, não é cristã!'

E sem mais, o frade apóstata se separa da Igreja Católica e da videira verdadeira, que trazia sua origem desde os Apóstolos até então havia existido. Atrás de Lutero, se foram precipitando Zwinglio, que era um homem perdido e fora escorraçado de sua paróquia pela sua libertinagem; um Calvino, tipo orgulhoso, marcado com o ferrete de ignomínia e por certo delito nefando; um Henrique VIII, homem de sete mulheres, adúltero e uxoricida; e Carlostadio [Andreas Karlstadt (1480-1541)], de quem, dizia Melanchton [Philipp Mellanchton (1497-1560)],  que era homem brutal, ignorante, mais amigo das tabernas que dos livros; e Ecolampadio [Johannes Ecolampadio (1482-1531)], e Osiandro [Andreas Osiander (1498-1552)], e Bucero [Martín Bucero (1491 -1551)], e Farel [Guilherme Farel (1489 -1565)] e Beza [Theódore de Bèze (1519 -1605)], todos eles conhecidos pela sua vida desregrada e péssimos costumes.

Considere sinceramente este apostolado – Porque se o amigo chega a perceber a força deste argumento, verá como basta para pulverizar o protestantismo. O protestantismo não é religião cristã. Se o fosse, proviria dos Apóstolos, e por meio deles havia de mostrar-nos que está unido a Jesus Cristo. O protestantismo porém tem a data do seu nascimento, que é o ano de 1521. O protestantismo vem de Lutero, e Lutero não é Jesus Cristo; vem de Zwinglio, e Zwinglio não é Jesus Cristo; vem de Henrique VIII, e Henrique VIII não é Jesus Cristo! Meu Deus, que diferentes de Jesus Cristo são todos estes monstros infames, e quão contrários a Ele! Os protestantes são Luteranos, Calvinistas, Anglicanos, Zwinglianos, Metodistas, Batistas, tudo o que quiserem, Cristãos porém de modo nenhum! Apostólicos? De maneira nenhuma!

(Excertos da obra 'Raios de Sol', com correções, do Pe. Armando Lochu, São Paulo, 1933)

quinta-feira, 7 de junho de 2018

VERSUS: CRUZ X CRUCIFIXO


Esse problema da dor tem um símbolo e o símbolo é a cruz. Mas por que seria a cruz o símbolo perfeito do sofrimento? Porque ela é feita de duas barras: uma horizontal e outra vertical. A barra horizontal é a barra da morte; é como a linha da morte nos eletro-encefalogramas: reta, prostrada. A barra vertical é a barra da vida: ereta, de pé, firmada para o alto. O cruzamento de uma barra sobre a outra significa a contradição entre a vida e a morte, entre a alegria e o sofrimento, sorriso e lágrimas, prazer e dor, nossa vontade e a vontade de Deus.

O único modo de se fazer uma cruz é sobrepor a barra da alegria sobre a barra do sofrimento. Em outras palavras: nossa vontade é a barra horizontal, enquanto a vontade de Deus é a barra vertical, na medida em que nós sobrepomos nossos desejos e nossas vontades contra a vontade de Deus, formamos assim uma cruz. Desse modo, a cruz se torna o símbolo da dor e do sofrimento. Todavia, se a cruz é o símbolo perfeito do problema da dor, o crucifixo então é a sua solução. A diferença entre a cruz e o crucifixo é Cristo. 

Uma vez que Nosso Senhor, que é por si só o Amor, sobe na cruz, Ele nos revela como o amor pode ser transformado pelo amor num alegre sacrifício, como aqueles que semeiam em lágrimas podem colher com alegria, como aqueles que choram podem ser confortados, como aqueles que sofrem com Ele podem também reinar com Ele e como aqueles que carregam suas cruzes, por uma breve Sexta Feira da Paixão, possuirão a felicidade por um eterno Domingo de Ressurreição. O Amor é o ponto de interseção onde a barra horizontal da morte e a barra vertical da vida reconciliam-se na doutrina de que toda a vida vem através da morte.

É aqui que a solução de Nosso Senhor se diferencia de todas as outras soluções para o problema da dor, até mesmo daquelas pseudo-soluções que se mascaram sob o nome de 'cristãs'. O mundo tenta resolver o problema da dor de duas maneiras: ou negando-o ou tentando torná-lo insolúvel. O problema da dor é negado por um peculiar processo de auto-hipnotismo que costuma inculcar nas pessoas a ideia de que a dor é imaginária. Tenta-se torná-lo insolúvel através de uma tentativa de fuga e, por essa razão, o homem moderno sente que é melhor pecar do que sofrer. Nosso Senhor, ao contrário, não nega a dor e nem tenta escapar dela. Ele a encara e ao agir assim Ele nos prova que o sofrimento não é alheio nem mesmo ao Deus que se fez homem.

Vemos assim que a dor desempenha um papel definitivo na vida. É sem dúvida um fato marcante que nossas sensibilidades são mais desenvolvidas para a dor do que para o prazer e nossa capacidade de sofrer excede nossa capacidade de alegrarmo-nos. O prazer cresce até chegar a um ponto de saciedade e nós sentimos que, se passasse daquele ponto, tornar-se-ia uma verdadeira tortura. A dor, ao contrário, continua crescendo e crescendo mesmo quando já choramos 'o bastante'. Ela atinge um ponto em que nós sentimos que não poderíamos mais suportar e ela vai se descarregando até matar.

Eu penso que o motivo pelo qual nós possuímos mais capacidade para a dor do que para o prazer é porque talvez Deus pretendia que aqueles que levam uma vida moral correta deveriam beber até a última gota do cálice da amargura aqui nesse mundo, porque no Céu não existe mais amargor. Por outro lado, aqueles que são moralmente bons nunca gozam o máximo do prazer aqui embaixo porque sabem que uma felicidade muito maior os aguarda no Céu. Mas deixando de lado as conjecturas, seja lá qual for a razão, a verdade que permanece é que, na cruz, Nosso Senhor demonstra um tipo de Amor que não pode tomar outra forma quando é contraposto ao mal, senão a forma de dor.


Para vencer o mal com o bem, uma pessoa deve sofrer injustamente. A lição do crucifixo então é que a dor nunca pode ser separada ou isolada do amor. O crucifixo não significa dor; significa sacrifício. Em outras palavras, ele nos diz em primeiro lugar que dor é sacrifício sem amor e em segundo, que sacrifício é dor com amor. Primeiro, dor é sacrifício sem amor. A crucifixão não é a glorificação da dor pela dor. A atitude cristã da mortificação algumas vezes é mal interpretada como sendo uma idealização da dor, como se nos tornássemos mais agradáveis a Deus quando sofremos do que quando nos alegramos.

Não! A dor em si mesma não possui nenhuma influência santificante! O efeito natural da dor é nos individualizar, centralizar nossos pensamentos em nós mesmos e fazer de nossa enfermidade o pretexto pra tudo quanto é conforto e atenção. Todas as aflições do corpo, tais como penitências e mortificações em si mesmo não tendem a tornar o homem melhor. Aliás, frequentemente tornam o homem pior. Quando a dor é divorciada do amor ela leva o homem a desejar que os outros estejam como ele está, ela o torna cruel, cheio de ódio, amargura. Quando a dor não é santificada, ela deixa cicatrizes, queima todas as mais finas sensibilidades da alma deixando-a brutalmente desfigurada. Dor como simples dor então não é um ideal: torna-se uma maldição quando é separada do amor pois, ao invés de tornar uma alma melhor, a torna pior.

Agora contemplemos o outro lado da figura. A dor não é para ser negada e nem para fugirmos dela. É para ser encarada com amor e vivida como sacrifício. Analise sua própria experiência e verá que muitas vezes seu coração e mente lhe dizem que o amor é capaz de superar de algum modo seus sentimentos naturais acerca da dor, que algumas coisas que poderiam parecer dolorosas tornam-se alegria quando você percebe que podem beneficiar o próximo.

Em outras palavras, o amor pode transformar a dor em sacrifício agradável, o que é sempre uma alegria. Se você perde por exemplo, uma certa quantidade de dinheiro, tal perda não poderia ser aliviada pela compreensão de que talvez aquele dinheiro foi encontrado por uma pobre alma que tinha mais necessidade do que você? Se sua cabeça está latejando de dor e seu corpo extenuado por uma noite de vigília ao lado da cama de seu filho doente, não seria essa dor aliviada pelo pensamento de que foi através desse amor e devoção que aquela criança conseguiu superar a enfermidade? Você jamais poderia ter sentido aquela alegria e nem ter tido a mínima ideia do tamanho do seu amor se você tivesse se negado a fazer aquele sacrifício. E se o seu amor não estivesse presente, então aquele sacrifício teria sido apenas dor, incômodo e aborrecimento.

A verdade gradualmente emerge quando percebemos que a nossa profunda felicidade consiste no sentimento de que o bem ou o benefício do próximo foi conquistado através do nosso sacrifício. O motivo por que a dor é amarga é porque não temos ninguém para amar e por quem nós deveríamos sofrer. O amor é a única força do mundo que pode tornar a dor suportável e a faz mais do que suportável ao transformá-la na alegria do sacrifício.


Agora, se a escória da dor pode ser transformada no ouro do sacrifício pela alquimia do amor, então daí se segue que nosso amor se torna mais profundo, a sensação de dor diminui e cresce nossa alegria no sacrifício. Mas não podemos esquecer que não existe amor maior do que o amor dAquele que entregou a sua própria vida por seus amigos. Portanto, quanto mais intensamente nós amarmos os seus santos propósitos, quanto mais zelosos formos por seu Reino, quanto mais devotados formos pela maior glória de Nosso Senhor e Salvador, mais nos alegraremos em qualquer sacrifício que possa trazer uma só alma para seu Sacratíssimo Coração. Tal é o motivo pelo qual São Paulo se gloriava em suas enfermidades e alegrias e que os Apóstolos se alegravam quando podiam sofrer por Jesus, por quem eles tanto amavam.

Não é de se admirar que os maiores santos sempre disseram que a melhor e maior das graças que Deus havia concedido-lhes era o mesmo privilégio concedido ao seu Divino Filho: ser usado e sacrificado por uma causa mais elevada. Nada poderia dar-lhes maior satisfação do que renovar a vida de Cristo em suas próprias vidas, cobrir seus corpos com os mesmos sofrimentos sofridos por Cristo em sua dolorosa Paixão. O mundo tenta eliminar a dor. O crucifixo a transforma através do amor recordando-nos que a dor vem do pecado enquanto o sacrifício vem do amor e que não há nada mais nobre do que o sacrifício.

O mundo não pode dispensar o Cristo em sua cruz. Eis o motivo porque o mundo é triste: por que se esqueceram de Cristo e da sua Paixão. E quanto desperdício de dor há neste mundo! Quantas cabeças que padecem dos mais diversos tipos de dor sem jamais terem se unido à Cabeça coroada de espinhos pela redenção do mundo; quantos pés latejam de dor sem jamais terem se aliviado pelo amor dAquele cujos pés subiram descalços a colina do calvário; quantos corpos feridos existem que não conhecem o amor de Cristo por eles. Esses não conhecem o amor que pode aliviar suas dores. 

Quantos corações que sofrem e padecem porque não possuem aquele amor do Sacratíssimo Coração; quantas almas que só conseguem enxergar a cruz ao invés do crucifixo! Almas que possuem dor sem sacrifício, almas que nunca aprendem que é pela falta de amor que a dor cresce, almas que perdem a alegria do sacrifício porque não sabem o que é amar. Ó quão doce é o sacrifício daqueles que sofrem porque amam o Amor que sacrificou-se por eles numa cruz. Apenas para essas almas é possível compreender os santos propósitos de Deus, apenas aqueles que caminham pela noite escura são capazes de contemplar as estrelas.

(Venerável Fulton Sheen)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XIII)

IX

DOS DONS, COMPLEMENTOS DAS VIRTUDES

É suficiente que o homem possua as virtudes de que temos falado, para que possa alcançar a eterna Bem-aventurança?
Não, Senhor; necessita além disso dos dons do Espírito Santo (LXVIII)*.

Que se entende por dons do Espírito Santo?
Certas disposições habituais e infusas que fazem o homem dócil e submisso às inspirações e movimentos interiores com que o Espírito de Deus o guia e encaminha para a felicidade eterna (LXVIII, 1, 2, 3).

Por que, além das virtudes, necessita o homem dos dons do Espírito Santo?
Porque está elevado, como dissemos, à vida da graça, e para que as suas ações alcancem nesta ordem a perfeição precisa, é necessário um auxílio direto e especial de Deus, com que se leve a bom termo o que, com o exercício das virtudes, só se pode iniciar; pois os dons do Espírito Santo preparam e dispõem para receber esta ação de Deus (LXVIII, 2).

Quantos são os dons do Espírito Santo?
São sete (LXVIII, 4).

Quais são?
Sabedoria, entendimento, ciência, conselho, piedade, fortaleza e temor de Deus (Ibid).

X

DAS BEM-AVENTURANÇAS E FRUTOS DO ESPÍRITO SANTO, RESULTANTES DOS DONS E VIRTUDES

Possui o homem, adornado com as virtudes e dons do Espírito Santo, tudo o que de sua parte necessita para levar uma vida perfeita na ordem sobrenatural?
Sim, Senhor.

Podemos dizer que a sua vida, neste caso, é na terra já o começo da que depois há de levar no céu?
Sim, Senhor; e em atenção a isso falamos, neste mundo das bem-aventuranças e dos frutos do Espírito Santo.

Que entendeis por bem-aventuranças?
Os atos das virtudes e dos dons, conforme as enumerou Jesus Cristo, como consta do Evangelho, que, por sua presença na alma, ou pelos merecimentos que em sua virtude entesoura, são como uma antecipação e um penhor da vida eterna (LXIX, 1).

Que entendeis por frutos do Espírito Santo?
As boas ações de ordem sobrenatural que, realizadas sob a inspiração do Espírito Santo, têm a virtude de produzir prazer e alegria quando se praticam (LXX, 2).

São distintas das bem-aventuranças?
Distingamos: enquanto significam o bem supremo do homem, não, Senhor, porque neste sentido se confundem com o fruto por excelência, que é a bem-aventurança celestial. Pela mesma razão, podem identificar-se com as bem-aventuranças aqui na terra. Porém, distinguem-se em que as bem-aventuranças são obras excelentes e perfeitas, e ao fruto lhe basta a razão de obra boa, sem ser perfeita (LXX, 2).

Quais são as bem-aventuranças e qual a sua recompensa?
São as seguintes: Bem-aventurados os pobres de Espírito, porque deles é o reino do céu; bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça, porque serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos do coração, porque verão a Deus. bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus (LXIX, 2-4).

Quais são os frutos do Espírito Santo?
Caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência e castidade (LXX, 3).

Donde consta a sua existência?
Da Epístola de São Paulo aos Gálatas (V, 22, 23).

Onde se enumeram as bem-aventuranças?
A enumeração completa lê-se em São Mateus (Mt 5, 3-13). Encontra-se outra, se bem que incompleta, em São Lucas (LC 6, 20-22).

Consigna São Mateus e reproduz São Lucas outra bem-aventurança, que seria a oitava?
Sim, Senhor; e é a bem-aventurança dos que sofrem perseguição por amor à Justiça, porém, se põe a modo de resumo e conclusão das sete anteriores, nas quais está incluída (LXXXIX, 3 ad 5).

Há, neste mundo, alguma coisa mais proveitosa para o homem do que o exercício assíduo dos dons e virtudes conducentes às bem-aventuranças e frutos do Espírito Santo?
Não, Senhor.

XI

DOS VÍCIOS, FONTE E ORIGEM DOS ATOS PECAMINOSOS

Há. neste mundo, algum método de vida oposto ao que acabamos de descrever?
Sim, Senhor; a vida do vício e do pecado (LXXI-LXXIX).

Que entendeis por vício?
O estado do homem que vive em pecado (LXXI, 1-6).

Que entendeis por pecado?
Um ato ou omissão voluntária em matéria ilícita (Ibid).

Quando devemos dizer que um ato ou omissão voluntária é pecaminoso?
Quando é contrário ao bem de Deus, ao bem próprio ou ao do nosso próximo (LXXII, 4).

Como é possível que possa o homem querer coisas opostas ao bem de Deus, ao seu próprio bem e ao do seu próximo?
Porque pode querer um bem incompatível com aqueles bens (LXXI, 2).

Que bens podem ser estes incompatíveis com o de Deus, o próprio e o do próximo?
Os que deleitam os sentidos ou lisonjeiam a ambição e o orgulho (LXXII, 2, 3; LXXVII, 5).

Por que pode o homem querer semelhantes bens?
Porque os sentidos têm a faculdade de inclinar-se para o que proporciona prazeres, antecipando-se ao exercício da inteligência e da vontade, ou arrastando estas duas faculdades para o seu partido, se elas não se opõem, podendo e devendo fazê-lo (LXXIII, 2 ad 3).

Qual é, por conseguinte, a raiz, a origem, e, em certo modo, a razão de todos os pecados humanos?
A prossecução desatenta dos bens sensíveis e temporais.

Como se chama o estado que inclina o homem a procurar sem razão, nem medida, os bens sensíveis?
Chama-se cobiça ou concupiscência (LXXVII, 1-5).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).

terça-feira, 5 de junho de 2018

PALAVRAS DE SALVAÇÃO




Muitos que se dizem cristãos querem viver afortunadamente no mundo junto com o pecado, vivendo na inimizade com Deus, não frequentando igrejas, não rezando, não praticando os sacramentos, não resguardando os feriados e festas religiosas; e, mesmo assim, esperam que Deus os torne prósperos e felizes... Tolos! Será que são incapazes de pensar que é exatamente o pecado que torna miseráveis e infelizes os povos?

(Dom Bosco)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

CATEQUESES SOBRE O BATISMO (V)/Final


Catequeses Mistagógicas ('de Formação') para Recém-Batizados

(São Cirilo de Jerusalém)

Quinta Catequese: A Celebração Eucarística

1. Pela benignidade de Deus, ouvistes de maneira suficiente, nas reuniões precedentes, sobre a batismo, a crisma e a participação do corpo e sangue de Cristo. Mas agora é necessário ir adiante, para coroar o edifício espiritual de vossa instrução.

2. Vistes o diácono oferecer água ao pontífice e aos presbíteros que rodeiam o altar de Deus para lavarem-se. Não a deu, absolutamente, por causa da sujeira corporal. Não é isso. Pois com o corpo sujo nem sequer teríamos entrado na igreja. Mas lavar as mãos é símbolo de que nos devemos purificar de todos os pecados e de todas as faltas. Já que as mãos são símbolo das obras, lavamo-las, indicando evidentemente a pureza e a irrepreensibilidade das obras. Não ouviste como o bem-aventurado Davi te introduziu neste mistério ao dizer: 'Lavarei as mãos entre os inocentes e andarei ao redor do teu altar, Senhor' (Sl 26, 7-8)? Então, lavar as mãos é estar limpo de pecado.

3. Depois o diácono proclama: Acolhei-vos mutuamente e dai-vos o ósculo da paz. Não suponhas que este ósculo seja como os que os amigos íntimos se dão na praça pública. Este ósculo não é assim. Mas este ósculo une as almas entre si e é para elas penhor de esquecimento de todos os ressentimentos. É sinal de que as almas se unem e afastam toda lembrança de toda injúria. Por isso Cristo disse: 'Quando fores apresentar uma oferta perante o altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois volta para apresentar a tua oferta' (Mt 5, 23-24). Então, o ósculo é reconciliação, e é por esta razão que é santo, como o bem-aventurado Paulo o proclama alhures: 'Saudai-vos uns aos outros no ósculo santo' (2Cor 13,12). E Pedro: 'Saudai-vos uns aos outros no ósculo de caridade' (1Pe 5,5).

Introdução à anáfora

4. Depois disso o sacerdote proclama: 'Corações ao alto!' Verdadeiramente, nesta hora mui tremenda, é preciso ter o coração no alto, junto de Deus, e não embaixo, na terra, nas coisas terrenas. Com autoridade, pois, o sacerdote ordena que nesta hora se abandonem todas as preocupações da vida e os cuidados domésticos e que se tenha o coração no céu, junto ao Deus benevolente. Vós então respondeis: 'Já os temos no Senhor!' assentindo à ordem por causa do que confessais. Ninguém esteja presente dizendo apenas com a boca: 'Nós os temos no Senhor', tendo a mente voltada para as preocupações da vida. Sempre devemos estar lembrados de Deus. Se isso é impossível pela fraqueza humana, naquela hora isto é o que mais deve ser procurado.

5. Depois diz o sacerdote: 'Demos graças ao Senhor'. Deveras, devemos agradecer-lhe, porque sendo indignos chamou-nos a tamanha graça que nos reconciliou, sendo seus inimigos, e nos fez dignos da adoção do Espírito. E vós dizeis: 'É digno e justo'. Pois quando damos graças nós fazemos algo digno e justo. Ele nos beneficiou não com a justiça, mas além de toda justiça, fazendo-nos dignos de grandes bens.

Anáfora, prece de louvor

6. Depois disso mencionamos o céu, a terra e o mar, o sol e a lua, os astros, toda criatura racional e irracional, visível e invisível, os anjos e arcanjos, as virtudes, dominações, principados, potestades, tronos, os querubins de muitas faces e, com vigor, dizemos com Davi: 'Celebrai comigo o Senhor' (Sl 33,1). Lembramo-nos ainda dos serafins, que Isaías, no Espírito Santo, contemplava. Estavam colocados em círculo ao redor do trono de Deus. Com duas asas cobriam o rosto, com outras duas os pés, e com mais duas voavam e diziam: 'Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos'. Por isso recitamos essa doxologia que nos foi transmitida pelos serafins, para que neste canto nos associemos aos exércitos celestes.

Epiclese

7. Depois de santificados por esses hinos espirituais, suplicamos ao Deus benigno que envie o Espírito Santo sobre os dons colocados, para fazer do pão corpo de Cristo e do vinho sangue de Cristo. Pois tudo o que o Espírito Santo toca é santificado e transformado.

Intercessões

8. Em seguida, realizado o sacrifício espiritual, o culto incruento, em presença dessa vítima de propiciação, invocamos a Deus pela paz comum das igrejas, pelo bem-estar do mundo, pelos imperadores, pelos exércitos e aliados, pelos doentes, pelos aflitos e, em geral, todos nós rezamos por todos aqueles que têm necessidade de socorro e oferecemos essa vítima.

9. Depois fazemos menção dos que adormeceram, primeiro dos patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, para que Deus, por suas preces e intercessão, aceite nossa súplica. Depois ainda rezamos pelos santos padres, bispos adormecidos e, enfim, por todos os que nos precederam, persuadidos de que será de máximo proveito para as almas, pelas quais a súplica é elevada ante a santa e tremenda vítima.

10. E quero persuadir-vos com um exemplo. Sei que muitos dizem: Que aproveita à alma que parte deste mundo com faltas ou sem elas, se é mencionada na oferenda [eucarística]? Porventura, se um rei banisse aos que se rebelaram contra ele, e se em seguida seus companheiros, trançando uma coroa, a presenteiam ao rei em favor dos condenados, não lhes concederá a remissão dos castigos? Do mesmo modo nós também, apresentando a Deus as súplicas pelos adormecidos, embora tenham sido pecadores, nós não trançamos uma coroa, mas apresentamos o Cristo imolado por nossos pecados, tornando propício em favor deles e em nosso o Deus benigno.

O 'Pater'

11. Depois disso, tu dizes aquela oração que o Salvador transmitiu aos discípulos, atribuindo a Deus, com pura consciência, o nome de Pai e dizes: 'Pai nosso, que estás nos céus'. Ó incomensurável benignidade de Deus! Aos que o tinham abandonado e jaziam em extremos males, é concedido o perdão dos males e a participação da graça, a ponto de ser invocado como Pai. 'Pai nosso que estás nos céus'. Os céus poderiam bem ser os que portam a imagem do celestial, nos quais Deus habita e vive.

12. 'Santificado seja teu nome'. Santo é por natureza o nome de Deus, quer o digamos ou não. Mas uma vez que naqueles que pecam por vezes é profanado, segundo o que se diz: Por vós meu nome é continuamente blasfemado entre as nações, oramos que em nós o nome de Deus seja santificado. Não que por não ser santo chegue a sê-lo, mas porque em nós ele se torna santo quando nos santificamos e praticamos obras dignas de santificação.

13. 'Venha o teu reino'. É próprio de uma alma pura dizer com confiança: Venha o teu reino. Quem ouviu Paulo dizer: 'Que o pecado não reine em vosso corpo mortal' (Rm 6,12) e se purificar em obra, pensamento e palavra, dirá a Deus: 'Venha o teu reino'.

14. 'Seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra'. Os divinos e bem-aventurados anjos de Deus fazem a vontade de Deus, como Davi dizia no salmo: 'Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos, heróis poderosos, que executais sua palavra' (Sl 103,20). Rezando, pois, com vigor, dize isto: como nos anjos se faz a tua vontade, Senhor, assim na terra se faça em mim.

15. 'Nosso pão substancial dá-nos hoje'. O pão comum não é substancial. Mas este pão é substancial, pois se ordena à substância da alma. Este pão não vai ao ventre nem é lançado em lugar escuso mas se distribui sobre todo o organismo, em proveito da alma e do corpo. O 'hoje' equivale a dizer de 'cada dia' , como também dizia Paulo: 'Enquanto perdura o hoje'.

16. 'E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores'. Temos muitos pecados. Caímos, pois, em palavra e em pensamento e fazemos muitas coisas dignas de condenação. E se dissermos que não temos pecado, mentimos (1Jo 1,8), como diz João. Fazemos com Deus um pacto pedindo-lhe nos perdoe nossos pecados como também nós perdoamos ao próximo suas dívidas. Tendo presente, portanto, o que recebemos em troca do que damos, não sejamos negligentes, nem deixemos de perdoar uns aos outros. As ofensas que se nos fazem são pequenas, simples, fáceis de reconciliar. As que nós fazemos a Deus são enormes e temos necessidade só de sua benignidade. Cuida, então, que por faltas pequenas e simples contra ti não te excluas do perdão, por parte de Deus, dos pecados gravíssimos.

17. 'E não nos induzas em tentação, Senhor'. Porventura com isto o Senhor nos ensina a pedir que de modo algum sejamos tentados? Como se encontra em outro lugar: 'Aquele que foi tentado não tem experiência' (Eclo 34,10) e ainda: 'Tende por suma alegria, meus irmãos, se cairdes em diversas provações' (Tg 1,2)? Mas jamais entrar em tentação é o mesmo que ser submerso por ela. A tentação, pois, se assemelha a uma torrente difícil de atravessar. Os que, então, não são submersos nas tentações, atravessam, como bons nadadores, sem serem arrastados pela corrente. Os que não são assim, uma vez que entram, são submersos. Assim, por exemplo, Judas, entrando na tentação da avareza, não passou a nado, mas, submergindo, afogou-se corporal e espiritualmente. Pedro entrou na tentação de negação, mas, tendo entrado, não submergiu; antes, nadando com vigor, se salvou da tentação. 

Escuta novamente, em outro lugar, o coro dos santos todos rendendo graças por terem sido subtraídos à tentação: 'Tu nos provaste, ó Deus, acrisolaste-nos como se faz com a prata. Deixaste-nos cair no laço; carga pesada puseste em nossas costas; submeteste-nos ao jugo dos tiranos. Passamos pelo fogo e pela água, mas tu nos conduziste ao refrigério' (Pv 17,10). Tu os vês falar abertamente de sua travessia sem serem vencidos? 'Tu nos conduziste ao refrigério' (Sl 19, 7). Chegar ao refrigério é ser livrado da tentação.

18. 'Mas livra-nos do Mal'. Se a expressão 'não nos induzas em tentação' significasse não sermos de modo algum tentados, não se diria: Mas livra-nos do Mal. O Mal é o demônio, nosso adversário, do qual pedimos ser libertos.

Depois, terminada a prece, dizes: 'amém', selando com este amém, que significa 'faça-se', o que se contém na oração ensinada por Deus.

Comunhão

19. Depois disso, diz o sacerdote: 'As coisas santas aos santos'. As coisas são as oferendas aí colocadas, pois receberam a vinda do Espírito Santo. Santos sois também vós, julgados dignos do Espírito Santo. As coisas santas, então, convêm aos santos. Em seguida vós dizeis: 'Um é o santo, um o Senhor, Jesus Cristo'. Verdadeiramente um é o santo, santo por natureza. Nós, porém, se santos, o somos não pela natureza, mas pela participação, ascese e prece.

20. Depois dessas coisas, ouvis o cantor que, com uma melodia divina, vos convida à comunhão dos santos mistérios, dizendo: 'Provai e vede como o Senhor é bom' (Sl 34,9). Não confieis o julgamento ao gosto corporal, mas à fé inabalável. Pois provando não provais pão e vinho, mas o corpo e sangue de Cristo que aqueles significam.

21. Ao te aproximares [da comunhão], não vás com as palmas das mãos estendidas, nem com os dedos separados; mas faze com a mão esquerda um trono para a direita como quem deve receber um Rei e no côncavo da mão espalmada recebe o corpo de Cristo, dizendo: 'Amém'. Com segurança, então, santificando teus olhos pelo contato do corpo sagrado, toma-o e cuida de nada se perder. Pois se algo perderes é como se tivesses perdido um dos próprios membros. Dize-me, se alguém te oferecesse lâminas de ouro, não as guardarias com toda segurança, cuidando que nada delas se perdesse e fosses prejudicado? Não cuidarás, pois, com muito mais segurança de um objeto mais precioso que ouro e pedras preciosas, para dele não perderes uma migalha sequer?

22. Depois de teres comungado o corpo de Cristo, aproxima-te também do cálice do seu sangue. Não estendas as mãos, mas inclinando-te, e num gesto de adoração e respeito, dize 'amém'. Santifica-te também tomando o sangue de Cristo. E enquanto teus lábios ainda estão úmidos, roça-os de leve com tuas mãos e santifica teus olhos, tua fronte e teus outros sentidos. Depois, ao esperares as orações [finais], rende graças a Deus que te julgou digno de tamanhos mistérios.

23. Conservai inviolavelmente essas tradições e vós mesmos guardai-vos sem ofensa. Não vos separeis da comunhão, nem pela mancha do pecado vos priveis desses santos e espirituais mistérios. O Deus da paz santifique-vos completamente. Conserve-se inteiro o vosso espírito, e a vossa alma e o vosso corpo sem mancha, para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo (1Ts 5,23), a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

('Quinta Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados', de São Cirilo de Jerusalém, século IV)