quinta-feira, 30 de novembro de 2017

GALERIA DE ARTE SACRA (XXV)

'Na sala do Vaticano onde os papas assinavam os atos de importância capital para a sorte da humanidade – stanza delle segnature – o papa Júlio II mandou pintar, por Rafael, quatro quadros famosos. Representam eles a teologia, a filosofia, a poesia e o direito, isto é, a verdade enquanto revelação, enquanto trabalho da razão, enquanto beleza e enquanto ordem cristã. Essas quatro pinturas são um magnifico símbolo; exprimem que a humanidade só achará a felicidade, a satisfação, a ordem e a civilização, se as diversas formas da única Verdade trabalharem em harmonia, auxiliando-se mutuamente. É assim que age e trabalha a Igreja de Cristo já há dezenove séculos. E eis aí porque me ufano dessa Igreja'.
(Mons. Tihamer Toth - A Igreja Católica)

(Stanza della Segnatura)
Parede I - Teologia: 'A Disputa do Sacramento' (Rafael Sanzio, 1509)


Na primeira parede, a tela 'A Disputa do Sacramento' representa a Teologia em termos da relação entre a Igreja Triunfante no Céu e a Igreja Militante na terra. No plano superior, a Igreja Triunfante é representada por Deus acima de todos e Jesus Cristo entre a Virgem e São José rodeados de anjos, santos, profetas e apóstolos. No plano inferior, a Igreja Militante é representada por teólogos, médicos, papas e estudiosos (entre eles o Papa Júlio II, seu tio Papa Sisto VI, Dante e Bramante, entre outros). No centro do plano inferior há uma hóstia logo abaixo do Espírito Santo, indicando a real presença do Corpo de Cristo.

Parede II - Filosofia: 'A Escola de Atenas' (Rafael Sanzio, 1509/1510)


'A Escola de Atenas' exalta o culto da razão. No afresco estão representados os mais célebres filósofos e matemáticos da antiguidade, conformando um mesmo conjunto de sábios discutindo as grandes questões da filosofia. No centro da imagem, estão Platão (1) e Aristóteles (2) (imagem de detalhe à direita), os dois principais filósofos da antiguidade. Platão, o filósofo do idealismo, aponta o dedo pra cima para para indicar a natureza transcendental da sua filosofia, ao passo que Aristóteles, como filósofo do realismo, tem o braço esquerdo esticado com a palma da mão virada para o chão. 

Outros filósofos identificáveis são: Pitágoras (segurando um livro, canto esquerdo), Heráclito (escrevendo numa folha, centro inferior); Diógenes (deitado nas escadas); Euclides (inclinado até o chão, canto direito), Zoroastro (de frente) e Ptolomeu (de costas), segurando esferas celestes (canto direito); ao lado de ambos e atrás do homem de branco (área do círculo vermelho), está um personagem que representa o autorretrato do pintor (imagem em detalhe inferior). Nos nichos laterais, encontram-se as estátuas de Apolo (deus das ciências e da música na mitologia grega) e de Minerva (deusa das ciências e das artes na mitologia romana). 

Parede III - Poesia: 'O Parnaso' (Rafael Sanzio, 1510/1511)


A cena representa o Monte Parnaso, o monte sagrado situado no centro da Grécia e que, segundo a mitologia grega, era o local onde viviam o Deus Apolo (visto no plano central do arranjo, tocando um instrumento) e suas nove musas. À esquerda de Apolo (possivelmente representado com o rosto do Papa Júlio II), estão quatro musas: Melpomene, Terpsícore, Polimnia e Calíope enquanto, à sua direita, encontram-se outras cinco musas: Euterpe, Clio, Talia, Urania e Erato. Um conjunto de nove poetas contemporâneos e outros nove poetas da antiguidade estão figurados na cena, no entorno de Apolo. Embora muitos sejam de caracterização duvidosa, alguns deles são passíveis de serem identificados como Petrarca, Ovídio, Homero, Dante, Ariosto e Bocaccio, por exemplo.

Parede IV - Direito: 'A Virtude e a Lei' (Rafael Sanzio, 1511)


O afresco representa as quatro virtudes cardinais: Força, Prudência, Temperança e Justiça. Na parte superior, acima da janela, estão representadas (da esquerda para a direita) a Força, a Prudência e a Temperança como figuras femininas, rodeadas de pequenos anjos, que representam as virtudes teologais (da esquerda para a direita): caridade, fé e esperança. Ao longo das laterais do afresco, a Justiça é representada duas vezes: na lateral esquerda, pelas imagens do jurista bizantino Triboniano entregando o Pandectae (um conjunto de livros contendo normas e leis romanas) ao imperador bizantino Justiniano e, na lateral direita do afresco, pelo Papa Gregório IX (representado com o rosto de Júlio II) aprovando as Decretais que contêm disposições jurídicas de natureza geral.

Há ainda o afresco do teto que, na verdade, foi o primeiro a ser realizado, apresentando no centro o brasão da família Della Rovere (família do Papa Júlio II) e as imagens com a personificação da Teologia, Justiça, Filosofia e Poesia.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

OS MAIS BELOS LIVROS CATÓLICOS DE TODOS OS TEMPOS (6)

11. SANTA CATARINA DE SENA O DIÁLOGO

A curta vida de Catarina Benincasa (1347 - 1380) foi um portento de graças e experiências extraordinárias, que incluíram êxtases diversos, visões sobrenaturais, estigmas no corpo e um matrimônio místico com Cristo. Neste domínio do sobrenatural, a grande mística dominicana estabeleceu uma cruzada singular de atuação social e religiosa no seu tempo, traduzida em escritos marcados pela defesa intransigente da fé cristã e por uma sólida fundamentação teológica, que a tornaram santa Catarina de Sena (em 1461) e Doutora da Igreja (em 1970).  

Estes ensinamentos e esta ação social, estreitamente vinculados aos êxtases de sua vida espiritual, estão sobejamente presentes em suas obras, particularmente sob a forma de Cartas, endereçadas a todo tipo de pessoa, desde familiares até reis e papas (381 delas são conhecidas atualmente). O 'Diálogo sobre a Divina Providência' ou, mais simplesmente, 'O Diálogo', provavelmente escrito entre 1377 e 1378 constitui, entretanto, a sua obra prima, por compor uma singular e extraordinária síntese teológica do amor de Deus para com a humanidade. Os escritos eram gerados após êxtases da santa que, sendo analfabeta, ditava então os textos para 'secretários' que os transcreviam o mais fidedignamente possível. A preservação de uma clara e sistemática unidade de estilo destes textos comprovam que realmente conseguiram isso.

O 'Diálogo' é um clássico da espiritualidade cristã, constituindo um longo e apaixonado diálogo entre Santa Catarina e o próprio Deus, em que se traduz e se revela por inteiro uma vida de tão extremada espiritualidade que foi capaz de viver e conviver cotidianamente na intimidade com Deus. O livro relata o diálogo contínuo entre a pequena serva e Deus Pai, abrangendo temas diversos como a natureza do pecado, a missão redentora de Cristo, a criação do universo, a atuação do clero e a conversão da humanidade. 

No 'Diálogo', Jesus Cristo é descrito por Deus Pai como uma imagem absolutamente singular: Ele é a ponte de pedra que liga o Céu e a terra. Esta ponte possui três degraus, conformados pelos pés, pelo flanco e pela boca de Jesus. Elevando-se sobre estes degraus, a alma percorre o caminho da verdadeira santificação, pelo desapego aos pecados, pela prática das virtudes e do amor e pela doce e filial união com Deus. Quem não quiser passar pela ponte escolhe como caminho o rio dos pecados. A reflexão sobre estes extraordinários ensinamentos nos levam a compreender a razão e a natureza da nossa peregrinação terrena como processo contínuo de fidelidade e compromisso de mudança interior na direção de Deus, o qual chamamos de conversão.

12. SÃO JOÃO DA CRUZ A NOITE ESCURA DA ALMA

Em 'A Noite Escura da Alma', São João da Cruz (1542 - 1591) mostra  porque é um dos maiores expoentes da literatura católica mística de todos os tempos. A força e o legado da mística que pulsava no seu mundo interior são revelados particularmente pelo lirismo e complexidade da sua poesia, deixando latente ou subjacente o rigor teológico das suas reflexões. Embora tenha deixado também vários escritos em prosa, estes se resumem essencialmente a comentários ou explicações de sua poesia. 

'A Noite Escura da Alma' não é propriamente um livro, mas um poema que tem por título a expressão que aparece logo no primeiro verso: 'Em uma noite escura...', sendo composta por apenas oito estrofes e alguns comentários em prosa. Somente as duas primeiras estrofes do poema são comentadas detalhadamente pelo santo, enquanto a terceira estrofe recebe apenas uma apresentação sumária; os demais textos ficaram inconclusos e as razões desta interrupção da obra continuam  ainda desconhecidas. O poema propriamente dito pode ser dividido em três partes. Nas quatro primeiras estrofes (I-IV), aborda-se a peregrinação da amada na noite escura e ditosa, que parte para o Amado guiada pela luz que em seu coração ardia. Na quinta estrofe (V), celebra-se a chegada da amada ao 'sítio onde ninguém aparecia' e o festejado anúncio da união mística, que é descrita, então, nas três últimas e mais belas estrofes do poema. É o momento de maior densidade lírica, onde se revela por inteiro o pensamento místico do santo e a verve esplêndida do poeta, com a presença de imagens e alegorias de uma intensidade inusitada.

No poema, a Cruz é substituída pela expressão 'noite escura', que expressa numa linguagem sublime as noites, os dias, os momentos de dor, sofrimento, agonia e angústia das nossas vidas, quanto tudo que temos é nada, quando tudo em que nos sustentamos nos falta, quando tudo que tem significado e consistência de repente se transforma em névoas e fumaça. Noites escuras da alma, dons extremados de Deus para a nossa santificação pessoal, em que clamamos o Senhor, tão olvidado nos momentos de prazer e de alegria, e só encontramos o silêncio e a incrédula certeza da nossa imensa pequenez.

E, dessa miséria, o cristão é exortado a subir o Calvário, a ir de encontro à Cruz de Cristo pois, somente se entregando ao sofrimento da Cruz, é capaz de ser fonte de luz, mais brilhante que o sol do meio dia, em meio às tormentas tenebrosas deste mundo. Na Cruz, Jesus nos espera. Com a Cruz das noites escuras, nos libertamos do homem velho e do pecado e nos elevamos da terra ao encontro do Senhor, o Amado, para a posse definitiva da graça de Filhos de Deus neste mundo e herdeiros das moradas eternas.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (II)

V

DA CRIAÇÃO

Que se entende por Deus Criador de todas as coisas?
Que todas foram tiradas do nada por virtude de sua onipotência (XLIV, XLV*).

Antes de Deus ter criado o mundo, existia alguma coisa, exceto Ele mesmo?
Não, Senhor; porque só Ele existe necessariamente, e tudo o mais, em virtude do seu poder (XLIV, 1).

Quando criou Deus o mundo?
Quando aprouve ao seu divino querer (XLIV).

Podia, por consequência, deixar de criá-lo?
Sim, Senhor.

Por que o criou?
Para manifestar a sua glória (XLIV, 4).

Que devemos entender, quando dizeis que Deus criou o mundo para manifestar a sua glória?
Que se propôs dar-nos a conhecer a sua bondade, comunicando aos seres parte do bem infinito que possui.

Logo, Deus não criou o mundo por necessidade nem por ambição?
Muito ao contrário; criou-o por pura benevolência, para comunicar às criaturas parte da sua bondade infinita (XLIV, 4 a 1).

VI

DO MUNDO

Que nome tem o conjunto de todos os seres criados?
Universo ou mundo (XLVII, 4).

Logo o mundo é obra de Deus?
Sim, Senhor (XLVII, 1, 2, 3,).

Que seres completam o Universo?
Três categorias de seres distintos: os espíritos puros, os corpos e os compostos de matéria e espírito.

Deus criou-os a todos?
Sim, Senhor.

Criou-os imediatamente, sem auxílio e intervenção de pessoa alguma?
Sim, Senhor; porque só Ele pode criar (XLV, 5).

Como criou Deus o Universo?
Pelo império da sua palavra e influxo do seu amor (XL, 6).

VII

DOS ANJOS: SUA NATUREZA

Por que quis Deus que no mundo houvesse espíritos puros?
Para que fossem digno remate e coroa da obra de suas mãos (L).

E que quer isso dizer?
Que eles são a porção mais formosa, nobre e perfeita do Universo.

Que coisa é um espírito?
É uma substância completa, que não está unida à matéria, nem tem relação com ela (L, 3).

São muito numerosos os espíritos?
Sim Senhor; numerosíssimos (L, 3).

Excede o seu número ao de todas as demais naturezas criadas?
Sim, Senhor (Ibid.).

Para que tantos?
Porque era conveniente que na obra de Deus o perfeito sobrepujasse ao imperfeito (Ibid.).

Qual é o nome comum a todos os espíritos puros?
É o de Anjos.

Por que?
Porque são os enviados de que o Senhor se serve para o governo das demais criaturas.

Podem os anjos unir-se substancialmente a um corpo, assim como as almas humanas?
Não, Senhor; e se bem que em algumas ocasiões tenham aparecido em forma humana, não tinham de homens, mais que a aparência exterior (LI, 1, 2, 3).

Estão os Anjos em algum lugar?
Sim, Senhor (LII, 4).

Onde moram habitualmente?
No céu (LXI).

Podem trasladar-se de um lugar para outro?
Sim, Senhor (LIII, 1).

Necessitam de tempo para trasladar-se?
Não, Senhor; podem fazê-lo instantaneamente quaisquer que sejam as distâncias (LIII, 2).

Podem, se assim o desejam, abandonar lentamente um lugar e ocupar outro da mesma forma?
Sim, Senhor; porque o movimento angélico consiste na atuação sucessiva em lugares distintos ou em diversas partes do mesmo lugar (LIII, 3).

VIII

VIDA ÍNTIMA DOS ANJOS

Em que consiste a vida íntima dos anjos?
Suposto que são espíritos puros, consiste em conhecer e amar.

Que espécie de conhecimento possuem?
Conhecimento intelectual (LIV).

Não possuem também conhecimento sensitivo como os homens?
Carecem absolutamente dele (LIV, 5).

Por que?
Porque não se dá conhecimento sensitivo sem corpo orgânico e os anjos são incorpóreos (Ibid.).

O conhecimento intelectual dos anjos é mais perfeito do que o nosso?
Sim, Senhor.

Por que?
Porque nem o seu conhecimento tem origem nas espécies tomadas do mundo exterior, nem a sua ciência progride mediante o raciocínio, pois que abrange de uma só visão os princípios e as consequências (LV, 2 LVIII, 3, 4).

A ciência dos anjos é infinita?
Não, Senhor; porque é finita a sua natureza; unicamente Deus, Ser infinito, possui ciência infinita.

Conhecem o conjunto das criaturas?
Sim, Senhor; porque o exige a sua qualidade de espíritos puros (LV, 2).

Sabem o que acontece no mundo?
Sim, Senhor; porque o vêem nas suas espécies naturais, à medida que vai sucedendo (Ibid.).

Conhecem os pensamentos e os segredos dos corações?
Não, Senhor; porque, sendo pensamentos e afetos livres, não concorrem necessariamente com a mudança e sucessão das coisas (LVII, 4).

Como podem chegar a conhecê-los?
Pela revelação divina ou pela manifestação do agente (Ibid.).

Sabem o futuro?
Sem revelação especial, não Senhor.

Que coisas amam os anjos necessariamente?
A Deus sobre todas as coisas, a si mesmos e às criaturas, exceto quando o pecado contraria ou destrói na ordem sobrenatural a livre propensão do amor natural (LX).

IX

DA CRIAÇÃO DOS ANJOS

Criou Deus imediatamente a todos os anjos?
Sim, Senhor; porque todos são espíritos puros e não podiam de outro modo vir à existência (LXI, 1).

Quando foram criados?
No princípio dos tempos e no mesmo instante que os elementos do mundo material (LXI, 3).

Foram criados os anjos nalgum lugar corpóreo?
Sim, Senhor; porque assim convinha aos desígnios da divina Providência.

Como chamamos o lugar em que foram criados?
Chamamo-lo ordinariamente céu e também céu empíreo (LXI, 4).

Que coisa é o céu empíreo?
Um lugar ameníssimo, pleno de luz e resplendor, resumo e compêndio das maiores delícias do mundo corporal (Ibid.).

O céu empíreo é o mesmo que o céu dos bem-aventurados ou simplesmente céu?
Sim, Senhor (Ibid.).

X

DA TENTAÇÃO DOS ANJOS

Em que estado foram criados os anjos?
No estado de graça (LXII, 3).

Que entendeis quando afirmais que foram criados em estado de graça?
Que no primeiro instante da sua criação, receberam, conjuntamente com a natureza, a graça santificante que os fazia filhos adotivos de Deus e, por seu mérito, podiam alcançar a glória eterna (LXII, 1, 2, 3).

Foi necessário que os anjos merecessem a glória por virtude de algum ato livre?
Sim, Senhor (LXII, 4).

Em que consistiu aquele ato de seu livre alvedrio?
Em seguir o movimento da graça que os inclinava a submeter-se a Deus por inteiro, para receberem dEle com acatamento e ação de graças, o dom da glória que lhes havia prometido (Ibid.).

Necessitaram muito tempo para escolher, debaixo do influxo da graça, a submissão ou a rebeldia?
Um só instante.

Feita a devida escolha, foram imediatamente admitidos ao gozo da bem-aventurança?
Sim, Senhor (LXII, 5).

XI

DA QUEDA DOS ANJOS

Permaneceram fiéis todos os anjos na prova meritória, a que Deus os submeteu?
Não, Senhor (LXIII, 2, 3).

Por que recusaram alguns submeter-se a Deus?
Por sentimento de orgulho, por quererem ser como Deus e gozar a felicidade, independentemente das divinas disposições (LXIII, 2, 3).

Este ato de soberba foi pecado grave?
Foi tão grande que provocou imediatamente a ira divina.

E Deus, justamente indignado, que fez para castigá-los?
Precipitou-os no inferno para que ali padeçam tormentos eternos (LXIV, 4).

Que nome têm os anjos rebeldes e condenados ao inferno?
Chamam-se demônios (LXIII, 4).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).

domingo, 26 de novembro de 2017

JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

Páginas do Evangelho - Solenidade de Cristo Rei


Jesus Cristo é o Rei do Universo. Como Filho Unigênito de Deus, Ele é o herdeiro universal de toda a criação, senhor supremo e absoluto de toda criatura e de toda a existência de qualquer criatura, no céu, na terra e abaixo da terra. A realeza de Cristo abrange, portanto, a totalidade do gênero humano, como expresso nas palavras do Papa Leão XIII: 'Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que juridicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro' (Encíclica Annum Sacrum, 1899).

E, neste sentido, o domínio do seu reinado é universal e sua autoridade é suprem e absoluta. Cristo é, pois, a fonte única de salvação tanto para as nações como para todos os indivíduos. 'Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do Céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos' (At 4, 12). O livre-arbítrio permite ao ser humano optar pela rebeldia e soberba de elevar a criatura sobre o Criador, mas os frutos de tal loucura é a condenação eterna.

A realeza de Cristo é, entretanto, principalmente interna e de natureza espiritual. Provam-no com toda evidência as palavras da Escritura acima referidas, e, em muitas circunstâncias, o proceder do próprio Salvador. Quando os judeus, e até os Apóstolos, erradamente imaginavam que o Messias libertaria seu povo para restaurar o reino de Israel, Jesus desfez o erro e dissipou a ilusória esperança. Quando, tomada de entusiasmo, a turba, que O cerca O quer proclamar rei, com a fuga furta-se o Senhor a estas honras, e oculta-se. Mais tarde, perante o governador romano, declara que seu reino 'não é deste mundo'. Neste reino, tal como no-lo descreve o Evangelho, é pela penitência que devem os homens entrar. Ninguém, com efeito, pode nele ser admitido sem a fé e o batismo; mas o batismo, conquanto seja um rito exterior, figura e realiza uma regeneração interna. Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz. Foi para adquirir a Igreja que Cristo, enquanto 'Redentor', verteu o seu sangue; para isto é, que, enquanto 'Sacerdote', se ofereceu e de contínuo se oferece como vítima. Quem não vê, em consequência, que sua realeza deve ser de índole toda espiritual? (Encíclica Quas Primas de Pio XI, 1925).

Cristo Rei se manifesta por inteiro pela Sua Santa Igreja e, por meio dela, e por sua paixão, morte e ressurreição, atrai para Si a humanidade inteira, libertada do pecado e da morte, que será o último adversário a ser vencido. E quando voltar, há de separar o joio do trigo, as ovelhas e o cabritos, uns para a glória eterna, outros para a danação eterna: 'Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda... estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna' (Mt 25, 31 - 33.46).

sábado, 25 de novembro de 2017

VERSUS: TODO SANTO É HOMEM ANTES DE SER SANTO

'Todo santo é homem antes de ser santo e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem'

São Francisco de Assis x São Tomás de Aquino

Eles viam um mesmo problema a partir de ângulos diferentes, um sob a ótica da simplicidade; o outro, da sutileza. São Francisco julgava que era suficiente dizer o que sentia aos maometanos para convencê-los a não adorar Maomé. São Tomás ficava examinando todo tipo de distinção e de dedução, por menor que fosse, sobre o absoluto ou o acidente, só para evitar que os maometanos entendessem Aristóteles de maneira errada.

(as duas imagens mais antigas de São Francisco de Assis)

São Francisco era um homenzinho fisicamente frágil e ativo, magro como um barbante e vibrante como a corda de um arco, e, em seus movimentos, parecia uma flecha saindo do arco. Toda sua vida foi uma série de saltos e carreiras: disparar atrás de um mendigo; ir depressa, despido, para a floresta; entrar escondido no navio desconhecido; aparecer de repente na tenda do sultão e oferecer-se para se jogar no fogo. Em termos de aparência, ele deve ter sido como uma folha outonal esquelética e fina, amarronzada, dançando eternamente no vento, mas a verdade é que ele era o próprio vento.

São Francisco era tão agitado e até irrequieto que os eclesiásticos diante dos quais ele de repente aparecia julgavam-no louco. 

O paradoxal em São Francisco era que, não obstante sua paixão por poemas, desconfiava bastante dos livros.

São Francisco era bem vívido em seus poemas e bem descuidado em seus documentos.

São Francisco era o filho de um comerciante, ou mercador de classe média, e embora toda sua vida fosse uma revolta contra a atividade mercantil do pai, mesmo assim conservou algo da agilidade e da adaptabilidade social que faz o mercador zumbir como uma colmeia ... O maior de todos os inimigos do ideal do ‘ir-conseguir’ (do empreendedor aquisitivo), São Francisco por certo deixou de lado o ‘conseguir’, mas nunca parou de ‘ir’.


São Tomás era um homem imenso e bem sólido, gordo, lento e de gestos controlados; muito amável e magnânimo, mas não muito sociável; tímido, mesmo se ignorarmos a humildade do santo; e distraído, mesmo sem levar em conta suas casuais e cuidadosamente escondidas experiências de êxtase ou de transe.


São Tomás controlava tanto suas emoções que os professores das escolas que ele frequentou regularmente o julgaram tolo. Na verdade, ele era o tipo de aluno, não incomum, que preferia ser um tolo a ter seus sonhos pessoais invadidos por tolos mais ativos ou animados.

O que havia de notável a respeito de São Tomás era sua adoração pelos livros, sua vida dedicada aos livros. Ele levou exatamente a vida do estudioso de Os Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, que preferia ter mil livros de Aristóteles, e sua filosofia, do que qualquer riqueza que o mundo pudesse lhe dar. Quando lhe perguntaram o que mais tinha a agradecer a Deus, ele respondeu simplesmente: ‘Entendi todas as páginas que li’.

São Tomás dedicou toda a vida a documentar sistemas completos de literaturas, pagã e cristã, e de vez em quando, nas horas vagas, escrevia um hino.

São Tomás, por outro lado, veio de um mundo em que poderia ter se dedicado ao lazer, e continuou a ser um desses homens para os quais o trabalho tem algo da placidez do lazer. Trabalhava com muita dedicação, mas provavelmente ninguém diria que era uma pessoa apressada. Trazia em si algo indefinível que distingue as pessoas que trabalham sem precisar trabalhar... por exemplo, era possível que houvesse algo disso em sua cortesia e paciência.

(Excertos da obra 'São Tomás de Aquino - O Boi Mudo', de G.K. Chesterton)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

BREVIÁRIO DIGITAL - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (IX)

De singulari inhumanitate serui regii & ingratitudine
71. Evangelho (Mt 18): O servo ingrato

De conuentione ex denario diurno
72. Evangelho (Mt 20): O salário justo

De Diuite Epulone
73. Evangelho (Lc 16): O rico epulão

De morte Epulonis & Lazari
74. Evangelho (Lc 16): A morte de Lázaro e do rico epulão

Ex inferno interpellat Abrahamum Epulo frustra
75. Evangelho (Lc 16): O apelo inútil do rico epulão condenado ao inferno


Mittuntur nuncii a sororibus de graui morbo Lazari
76. Evangelho (Jo 11): As irmãs enviam mensageiros a Jesus sobre a doença grave de Lázaro

Venit IESVS Bethaniam
77. Evangelho (Jo 11): Jesus chega à Betânia

Suscitat Lazarum IESVS
78. Evangelho (Jo 11): A ressurreição de Lázaro

Concilium de nece IESV
79. Evangelho (Jo 11): O conselho de fariseus trama contra Jesus

Praenunciat IESVS suam crucem Apostolis
80. Evangelho (Mt 20, Mc 10, Lc 18): Jesus preanuncia aos apóstolos sua morte na Cruz

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DIÁLOGO SOBRE OS ESCRÚPULOS DA CONSCIÊNCIA

Diretor: Conheço os males de que a vossa pobre alma sofre; compadeço-me deles do fundo de minhas entranhas; qui­sera curá-los; mas sabeis qual seria o meio disso, depois de tudo o que acabais de ler?

O escrupuloso: Não; ignoro-o e desejo vivamente que me ensineis.

Diretor: Tende uma confiança sem li­mites na misericórdia divina pela me­diação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que derramou o seu sangue por vós, que vos procurou como uma ovelha desgarrada através das sarças e dos espinhos, e que quis expiar pessoalmente os vossos peca­dos para vos dar a paz e a salvação. Poderíeis desesperar e perder confiança à vista do que Deus fez por vós, dando-vos Seu Filho, que se fez a Si mesmo vítima por vós? Que há que não obtenhais pela mediação de Jesus Cristo? Que há que não acheis nEle? Força, luz, justiça, santidade, con­solação, perseverança; porquanto Jesus Cristo é um dom universal em quem estão encerrados todos os outros dons e todos os tesouros da graça. 'Dando-nos seu Filho', diz São Paulo, 'Deus não nos deu todas as coisas com Ele' (Rm 8, 33). Deu-no-lo para ser o suplemento universal de todas as nossas misérias, de toda a nossa in­dignidade. E que quereríamos que Deus fizesse a mais para nos inspirar sentimentos de confiança e de amor? Que pode Ele acres­centar a admirável economia da redenção, da religião, dos sacramentos, da mediação da Santíssima Virgem, de tantos caminhos abertas à vossa confiança?

O escrupuloso: Mas eu não mereço se­não os repúdios e a indignação de Deus; todas as minhas orações são más e Deus não pode escutar-me.

Diretor: Mas Jesus Cristo, o Filho úni­co do Pai, que intercede por nós, que por nós oferece o preço dos seus méritos, do seu sangue e dos seus trabalhos, não me­rece bem ser escutado em nosso favor? Poderíamos crer que tal Pai pudesse re­cusar alguma coisa a tal Filho que lhe oferece tal preço? Este pensamento não seria injurioso tanto ao Pai como ao Filho?

O escrupuloso: Os meus pecados passa­dos, que são tão numerosos, as minhas fraquezas presentes e futuras me assus­tam.

Diretor: E que são todos os vossos pe­cados comparados com a misericórdia de Deus e com os merecimentos de Jesus Cristo? Serão outra coisa a não ser como uma gota de água comparada com o ocea­no? Abri os livros santos, e vede a gran­de maravilha da misericórdia divina para com pecadores tais como Davi, Zaqueu, Saulo, inimigo declarado de Jesus Cristo, São Pedro perjuro, Madalena prostituída, o bom ladrão, etc. Que tendes a temer de­pois de tantos exemplos, após tantos san­tos que reinam no céu, e que, antes da sua conversão, foram mais culpados do que vós?

O escrupuloso: Mas esses eram santos e não miseráveis como eu, que estou tão longe de me aproximar das virtudes deles!

Diretor: Seria um erro crer que os santos não foram o que vós sois, e que vós não podeis ser o que eles são. Os san­tos tiveram as mesmas tentações, as mes­mas fraquezas, as mesmas dificuldades, as mesmas paixões, os mesmos inimigos que vós, e vós tendes as mesmas graças, os mesmos socorros, os mesmos meios, as mesmas esperanças que eles. É só, como eles, terdes plena confiança; tendes só que usar dos socorros que vos são oferecidos e chegareis à mesma felicidade que eles.

O escrupuloso: Longe estou de ousar es­perá-lo: estou sobejamente convencido da imensidade das minhas misérias para es­perar essa ventura.

Diretor: Permiti-me fazer-vos aqui uma observação que não vos será inútil, espero-o: é que devemos desconfiar dessa desconfiança que parece nascer do senti­mento das nossas misérias e que, muitas vezes, não passa de uma falsa humildade e de um verdadeiro orgulho. O bom es­pírito produz bons frutos e o mau espí­rito produz maus frutos; é por aí que se deve fazer o discernimento deles, e é por aí também que se deve distinguir a ver­dadeira da falsa humildade; uma e outra nascem da convicção das nossas misérias e da nossa indignidade; mas os frutos que uma e outra produzem são bem diferen­tes. 

A verdadeira humildade vem de Deus e leva também a Deus. Como ela é um dom de Deus, fortalece a alma e dá-lhe um novo vigor, uma prontidão e uma liberdade santa para rogá-lo e servi-lo: o espírito de Deus não pode enfraquecer nem desanimar as almas, torná-las mais desconfiantes da bondade de Deus, mais pe­sadas, mais inquietas, mais covardes na oração e no cumprimento dos outros deveres da religião: esses maus frutos não po­dem, pois, vir senão da operação do espí­rito maligno. Tomai cuidado nisso, e des­confiai. Santa Teresa dizia às suas reli­giosas: 'Guardai-vos de certas humildades acompanhadas de inquietações que o de­mônio nos põe no espírito; elas causam à alma uma aflição que a confrange, que a agita, que a atormenta, e que lhe é inteira­mente difícil de suportar. Com isso, o de­mônio pretende persuadir-nos de que te­mos humildade, e ao mesmo tempo fazer-nos perder a confiança que devemos ter em Deus'... 'Quando, estiverdes neste es­tado', acrescenta ela, 'o mais que puderdes desviai o vosso pensamento da considera­ção da vossa miséria, e levai-o a consi­derar o quanto é grande a misericórdia de Deus, qual é o amor que Ele nos dedica, e o que Lhe aprouve sofrer por vós'.

Efetivamente, a desconfiança, embora se cubra com as aparências da humildade e da convicção da miséria, da fraqueza e da indignidade do homem, é realmente or­gulho. Senão, vede: Deus conhece infini­tamente melhor do que nós as nossas fra­quezas, a nossa malignidade, a nossa in­dignidade; mas, apesar disso, manda-nos esperar na sua misericórdia e nos mere­cimentos de Jesus Cristo; ordena-nos lançar fora as dúvidas, todos os pensa­mentos que atacam ou enfraquecem a es­perança, como os que atacam a fé, a cas­tidade; anima-nos por sua palavra e por suas promessas; e não é um grande orgulho não lhe obedecermos, não escutar­mos a sua palavra e rejeitarmos as suas consolações? Ele nos oferece suas graças, declara-nos que se considerará ofendido se dermos ouvido às nossas desconfianças; ameaça-nos se não esperarmos na sua bon­dade... Então não é orgulho pretender alguém desculpar-se com o fato de ser demasiado indigno e de haver abusado demais das suas graças e da sua paciência?

O escrupuloso: Mas então o que devo fa­zer? Dignai-vos traçar-me o caminho e eu o seguirei.

Diretor: Primeiramente, como já vos disse, deveis ter uma grande confiança em Deus, visto ser ela a fonte de toda sorte de bens, visto enraizar, nutrir e fortificar as virtudes, amenizar as penas, enfraquecer as tentações, duplicar a co­ragem, dar nascimento a todas as boas obras, e ser para a alma como um pa­raíso de bênção e uma espécie de felici­dade antecipada. Diz o profeta Jeremias: 'Feliz o homem que põe sua confiança no Senhor e de quem o Senhor é a espe­rança!' (Jer 17, 7).

A confiança fraca e tímida torna a piedade trêmula e vacilante; é sustada pe­los mais pequenos obstáculos, é retardada pelo menor contratempo, desalentada pe­las mais leves contradições. Ora, uma es­perança tímida e trêmula torna também hesitantes e tímidas as orações que dela nascem e, por conseguinte, incapazes de obter muito. Torna a gratidão menos viva, o amor menos ativo, abre a sua porta às tentações, rouba à alma a paz, enche-a do espírito das trevas, fortifica a oposi­ção natural às virtudes cristãs, serve aos desígnios pérfidos do demônio contra nos­sa alma. Não admitis estas verdades?

O escrupuloso: Admito-as perfeitamente.

Diretor: Penetrado de confiança em Deus, deveis ter uma grande confiança no vosso guia espiritual. Deveis abrir-lhe o vosso coração, e, uma vez que vos houver­des revelado a ele, ficai convencido de que ele só quer o bem e a salvação de vossa alma; que o lugar onde ele está, o minis­tério que ele desempenha, o Deus cujo lugar ele ocupa, a responsabilidade que ele assume sobre si, são garantias bastante poderosas de que ele cumpre o seu dever para conosco. Escutai-o em tudo; obede­cei às decisões dele, às suas prescrições, às suas proibições, aos seus conselhos, co­mo ao próprio Deus.

O escrupuloso: Sinto que é esse o caminho mais curto; mas como obedecer contra a própria consciência?

Diretor: A vossa consciência pode en­ganar-vos; a vossa obediência nunca vos enganará. A vossa consciência pode ser trevosa e Jesus Cristo, falando pelo seu ministro, é a luz e a Verdade; foi ele quem nos disse que escutássemos aquele que ocupa o seu lugar. E foi ele quem advertiu o seu ministro de contar com o seu di­reito, dizendo-lhe: 'Quem vos escuta a mim escuta'.

O escrupuloso: Sou presa de mil tenta­ções.

Diretor: Deveis convencer-vos bem de que, se sois tentado, é porque o Senhor vos ama, é por que sois agradável aos olhos dEle, é porque Ele quer purificar-vos ca­da vez mais, aumentar os vossos merecimentos, experimentar a vossa fidelidade, e tornar mais brilhante a vossa coroa. 'Deixai correr o vento das tentações', diz São Francisco de Sales, 'e não penseis que o cicio das folhas seja o tilintar das ar­mas. Ficai bem persuadido de que todas as tentações do inferno não poderiam man­char um espírito que não gosta delas'. Pensai que Deus é um pai terno e que Ele não permitirá a provação senão na medida em que ela vos for útil. 

Pensai ainda em que os maiores santos, como Santo Antão, São Jerônimo e vários outros, foram mais tentados do que vós, e que saíram vitoriosos; não vos deixeis abater pelo te­mor; lembrai-vos de que para um pecado mortal é preciso que a matéria seja gra­ve, o conhecimento pleno e inteiro, a von­tade expressa. Nas tentações contra a pu­reza ou contra a fé, não vos detenhais a produzir com esforço atos dessas virtudes: volvei-vos para Deus por um terno olhar de confiança: invocai a Santíssima Virgem, tão boa, tão misericordiosa para conosco; en­tregai-vos a alguma ocupação exterior, e ficai em paz, aguardando que Jesus Cristo mande a tempestade e o mar se acal­marem.

O escrupuloso: Mas estou sempre distraí­do diante de Deus; não posso fazer oração; daí vem que não faço nenhum progresso.

Diretor: Não vos perturbeis com isso; quanto mais penosa é a oração, tanto mais meritória. Retiramos dela menos satisfa­ção, é verdade; mas é por isso mesmo que ela é mais agradável a Deus. Lembrai-vos de que Jesus Cristo orou sem consolação durante a sua dolorosa agonia. 

Quanto às distrações, quando não vos houverdes prestado a elas consciente e voluntariamente, não vos detenhais a procu­rar qual lhes possa ser a causa, nem se de algum modo destes lugar a elas; lançai-vos nos braços de Jesus Cristo e con­vertei em merecimentos o que é uma fon­te de apreensões. Fazei uso frequente das orações jacula­tórias; estes dardos inflamados têm a vir­tude de elevar depressa o coração para Deus e de abrir o coração de Deus às nossas necessidades. Elas são curtas, fá­ceis, podem ser feitas em toda parte e em todo tempo e sem direções, visto que mui­tas vezes é só uma palavra. Não vos entregueis a mortificações ex­cessivas. 

São Jerônimo nos ensina que, quando o demônio não consegue desviar uma alma do amor do bem, trata de im­peli-la a mortificações de um rigor exces­sivo, a fim de que ela fique esmagada por elas, e assim perca o vigor necessário ao seu adiantamento espiritual. Várias almas piedosas caem nesta armadilha; e eis aí por que São Francisco de Sales, que soube guardar um meio termo tão sensato entre o relaxamento e o rigorismo, e cujos con­selhos fazem autoridade, disse: 'Concito-vos a conservardes cuidadosamente a vos­sa saúde, pois Deus exige de vós esse cui­dado, e a poupardes vossas forças para empregá-las melhor no seu serviço; de feito, é melhor conservar mais forças corporais do que é preciso, do que arruiná-las mais do que é preciso; porquanto po­de-se sempre enfraquecê-las quando se quiser, mas nem sempre se pode repará-las quando se quer'. Concedei-vos, pois, as cuidados necessários para poderdes servir melhor a Deus. Não debiliteis demasiadamente o vosso espírito pelo jejum: porquanto não faríeis com isso senão torná-lo mais fraco e, assim, mais exposto aos ataques do inimigo.

O escrupuloso: O que mais aflição me causa é aproximar-me do tribunal sagrado.

Diretor: Esse tribunal que temeis é, no entanto, o tribunal da misericórdia, e não deveríeis aproximar-vos dele senão com confiança e serenidade. Aquele que ocupa o lugar de Jesus Cristo tem ordem de receber-vos, de perdoar-vos, de conso­lar-vos, de misturar suas lágrimas às vos­sas, de vos abrir enfim as portas do céu. Ah! não façais desse sacramento de amor e de remissão um sacramento de tortura e de angústias; ah! que quer o Senhor senão quebrar os nossos grilhões, restituir à nossa alma a sua liberdade, a sua paz, a sua doce alegria, para com nova cora­gem trilharmos os caminhos da salvação? É preciso arrepender-se dos próprios pe­cados, mas não se perturbar com eles; é preciso ser humilhado, mas não desespe­rado. 

Depois da confissão, conservai-vos, pois, calmo, e gozai do fruto do sacramento; não deis acesso a mil temores so­bre a validade do sacramento, sobre o vos­so exame, sobre a vossa contrição; a verdadeira contrição é obra do amor, e o amor age na calma: reinem, pois, no vosso coração o amor e a confiança. Agradecei a Deus, prometei-lhe emendar-vos. Espe­rai que, por sua graça, cumprireis as vos­sas resoluções, e, ainda que devêsseis re­cair cem vezes, não cesseis de prometer e de esperar. Se Deus não vos dá o senti­mento da vossa contrição, é para provar o mérito da obediência, que deve bastar para vos tranquilizar sobre a vossa recon­ciliação perfeita. Diz São Francisco de Sales: 'Grande poder é diante de Deus o poder querer, e vós tendes a contrição pelo sim­ples fato de desejardes tê-la. Não a sentis? Não importa! o fogo que está sob a cinza não se vê, não se sente; e, no en­tanto, esse fogo existe. Crede, pois, com humildade, obedecei com coragem, e tereis uma dupla recompensa'.

O escrupuloso: Eu bem teria necessidade dos vossos conselhos, pois tremo sempre e estou sempre prestes a abandonar a co­munhão.

Diretor: São Francisco de Sales diz que há duas espécies de pessoas que devem comungar com frequência: os perfeitos, pa­ra se unirem mais intimamente à fonte de toda perfeição e os imperfeitos, para tra­balhar por atingi-la; os fortes, para não se tornarem fracos e os fracos para se tornarem fortes; os doentes, para se­rem curados; e os que estão com saúde, para não caírem em doença. Dizeis que as vossas imperfeições, a vossa fra­queza, as vossas misérias, vos tornam in­digno de comungar com frequência, e eu vos digo que justamente por essa razão é que deveis comungar amiúde, a fim de que Aquele que possui tudo vos dê o que vos falta. Tomai, pois, o vosso quinhão nos conselhos desse grande diretor.

E não creiais que não colheríeis nenhum fruto da comunhão porque não vedes crescerem as vossas virtudes; basta que Deus o veja, e nem é mesmo bom que o vejais. Contentai-vos com saber que ela produz sempre um grande fruto, que é o de manter-vos em estado de graça. Precavei-vos de atormentar-vos, acredi­tando que estais mal preparado e que abu­sais de tão grande sacramento, porque vos sentis frio e indiferente e como que sem nenhum sentimento; isso são provações que Deus vos envia para exercitardes a vossa fé e aumentardes os vossos méritos. Sucede com as securas na comunhão como sucede com as que experimentamos na oração. Tende sempre o desejo; o desejo, diz São Gregório, diante de Deus equivale à obra.

Não sois digno! Mas, propriamente fa­lando, quem é que é digno, e quem o será jamais? Então seria preciso renunciar à comunhão, e renunciar também a todos os exercícios de piedade; é justamente o que o inimigo da salvação pede; mas Jesus Cristo, ao contrário, convida-nos a re­cebê-lo amiúde, e faz do seu corpo um pão de cada dia. Um justo pavor não é censurável, bem longe disto; mas é pre­ciso ter o cuidado de temperá-lo pela con­sideração da misericórdia de Deus. No Evangelho, Jesus Cristo não disse: 'Vinde a mim vós que sois perfeitos'; disse: 'Vin­de a mim vós todos que estais trabalha­dos pela angústia e carregados do fardo das vossas penas, e eu vos aliviarei'.

E, se tiverdes de aproximar-vos da mesa sagrada, apesar do sentimento da vossa indignidade, sem outro apoio nem garan­tia senão a vossa obediência, não temais: porquanto essa disposição é uma das mais agradáveis a Deus. Se vierdes a ser assediado de tentações, não vos afasteis por isso da divina Euca­ristia; seria cederdes sem resistência à vi­tória ao inimigo. Quanto mais combates tiverdes a sustentar, tanto mais deveis munir-vos de meios de defesa. Ide, pois, ousadamente restaurar-vos com o alimen­to dos fortes, e saireis vitorioso.

O escrupuloso: Dou-vos graças por estes preciosos conselhos, sinto toda a sabedoria deles e esforçar-me-ei por fazer deles a regra da minha conduta. Se não receasse tornar-me indiscreto, quereria mesmo pedir-vos alguns outros, como sobre a resig­nação, de que tenho grande necessidade, sobre a pressa e a inquietação, e sobre uma multidão de coisas que me faltam.

Diretor:. Já que vossa alma o deseja, vou responder em poucas palavras às vos­sas questões. Primeiramente falemos da resignação. Em tudo o que vos acontece, reconhecei e adorai sempre a santa von­tade de Deus. Toda a malícia dos homens e do próprio demônio não pode produzir contra nós coisa alguma que Deus não haja permitido. O Salvador declarou que não cairia um só cabelo da nossa cabeça sem a vontade de nosso Pai celeste. As­sim, em toda situação penosa para a na­tureza, quando fordes afligido por doenças, assaltado por tentações, atormentado pe­la injustiça dos homens, elevai vossa al­ma à consideração divina e dizei a Deus com coração afetuoso e submisso: Fiat voluntas tua, seja feita a vossa vontade; faça o Senhor de mim o que quiser, como quiser e quando quiser.

É assim que tornamos fáceis de supor­tar as penas mais sensíveis e as situações mais aflitivas. Dizia Santa Maria Madale­na de Pazzi: 'Não sentis que doçura in­finita encerra esta só palavra: 'vontade de Deus'? Semelhante àquele pau mostra­do a Moisés, o qual tirava às águas o seu amargor, ela adoça tudo o que é amargo na vida'. Não somente é Deus quem nos envia as nossas penas; mas é para o bem da nossa alma e para nossa vantagem especial que Ele no-las envia: não façais, pois, objeto de queixa daquilo que deve ser um moti­vo de gratidão. Um aviso bem importante a vos dar é o de vos pordes em guarda contra a inquie­tação e contra a pressa. Só agindo tran­quilamente é que podemos servir ao Deus de paz de uma maneira que lhe seja agra­dável. Ora, esses defeitos fazem-nos per­der o pensamento de Deus em nossas ações, preocupam-nos, embaraçam-nos, fazem-nos cair na impaciência, e é por isto que São Francisco de Sales era inimigo declarado deles.

Açodando-se e agitando-se, a gente não faz mais, e faz pior. Por isto, vemos que Jesus Cristo repreendeu Marta pela sua demasiada solicitude. Quando nós fazemos as coisas bem, fazemo-las sempre bastante depressa. Contende, pois, a vossa viva­cidade, moderai-vos, fazei bem o que esti­verdes fazendo, não empreendais de mais, a fim de poderdes executar tudo. Não caiais entretanto na trilha contrária, que é a lentidão e a indolência, pois todos os ex­tremos são maus; tende, diz ainda o pio autor supracitado, tende uma atividade tranquila e uma ativa tranquilidade. São Francisco de Sales, que primava nisso, di­zia, atribuindo a pressa ao amor-próprio: 'O nosso amor-próprio é um grande tra­palhão, que quer empreender tudo e não acaba nada'. Velai, pois, sobre este ponto.

Enfim, guardai-vos de um grande ini­migo, que é a tristeza. São Francisco de Sales não receou de dizer que, depois do pecado, nada é pior do que a tristeza. E acrescentava que todo pensamento que nos perturba e nos inquieta não pode vir do Deus de paz, que faz a sua morada nas almas pacíficas. 'Sim, minha filha, digo-vos por escrito tanto quanto de boca, alegrai-vos tanto quanto puderdes fazendo tudo bem; pois é uma dupla graça para as boas obras o serem bem feitas e o se­rem feitas alegremente; e, quando eu di­go: fazendo bem, não quero dizer que, se vos suceder algum defeito, vos deis por isso à tristeza, não, por Deus, pois seria juntar defeito a defeito; mas quero dizer que persevereis em querer fazer tudo bem, e que volteis sempre ao bem logo que conhecerdes haver-vos afastado dele; e que, mediante esta fidelidade, vivais alegre pa­ra o geral. Deus esteja no vosso coração, minha filha; vivei alegre e generosa'.

Errado andaríeis, pois, em vos entregar­des à tristeza, à melancolia, e em vos ve­dardes todo divertimento: o espírito fati­ga e sombreia-se ficando sempre do­brado sobre si mesmo e, com isso, torna-se mais acessível à tristeza. Os divertimentos e as distrações são, na vida da alma, o que o tempero é na comida do corpo: precisa­mos saber proporcionar-no-los segundo as nossas necessidades. Quando, pois, sentir­des no vosso coração a aproximação da tristeza, não percais um só momento para vos distrairdes dela; fazei visitas ou procu­rai um recurso em conversas interessan­tes, em leituras variadas; passeai, cantai, fazei seja lá o que for, contanto que fecheis a porta do coração a esse perigoso inimigo. Santo Agostinho dizia: 'Amai, e fazei o que quiserdes'.

Termino exortando-vos a agirdes com uma santa liberdade cristã nas ocasiões que o exigirem, a reprimirdes em vossa pessoa todo zelo amargo e em exercerdes um zelo cheio de humildade, de pureza de intenção, de oportunidade e de grande ca­ridade; depois, tornai a piedade amável pela vossa doçura, pela vossa afabilidade, pela vossa modéstia, pelos vossos olhares, sem respeito humano, no mundo. Assim fazendo, amareis a religião, fá-la-eis amar, e atraireis a Jesus Cristo numerosos adoradores.

(Excertos da obra 'Tratado dos Escrúpulos da Consciência', pelo Abade Grimes, 1854)