terça-feira, 18 de julho de 2017

CARTAS A MEU PAI (VIII)

Pai:


Estive há pouco em um retiro espiritual e busquei, no isolamento e afastamento do mundo, estar mais perto de Vós e experimentar o deleite profundo da Vossa paz. Foi neste retiro que conheci muitos dos Vossos filhos muito queridos e que, passageiros do mundo, são herdeiros ansiosamente esperados por Vós nas moradas eternas. Talvez D. tenha um melhor pressentimento disso, pois só tem este anelo por princípio e ambição. E quisera eu poder dizer a ele como é belo e majestoso o lugar que lhe está reservado na eternidade e como eu posso ver este lugar com tanta clareza como via então o seu rosto durante as orações do dia. 

Na manhã do segundo dia, ao final da manhã, D. me pediu para conversarmos sobre a oração e como ela devia ser oferecida a Deus. Na conversa com ele, Vos chamei, ó Pai, vos chamei 'apenas' de Deus. Falei a ele que Deus ouve todas as nossas orações, todas sem exceção. O problema está na oração que fazemos, quase sempre na súplica de que Deus afaste os problemas, as tentações e os males de nós. Como somos tolos em pedir isso! Por acaso Deus nos criou como criaturas inermes num paraíso terrestre, como mera passagem às eternas bem aventuranças? Não, definitivamente não. Os que plangem suas vidas nesta terra numa toada tranquila e segura são aqueles que só vão ter nesta vida a ventura etérea do que seria a verdadeira felicidade. Os eleitos da graça avançam no mundo em meio a obstáculos duríssimos e trazem a dor e o sofrimento como lastros...

Não devemos pedir apenas soluções e não problemas; não devemos pedir apenas conquistas e não desafios; não devemos pedir apenas bonanças e milagres; nós temos tudo isso que pedimos a toda hora, todos os dias, mesmo que não compreendamos ou saibamos ver as benesses de Deus. Deus nos pede a contrapartida da graça, a fuga do pecado, a perseverança do caminho, a consistência da fé. As tentações não nos são dadas para as quedas, mas para alcançarmos patamares mais elevados da graça. Deus não quer remover os nossos desafios, mas quer que nós os superemos por meio dEle. Deus faz milagres todos os dias, mas Ele quer usar a nossa matéria frágil para fazê-los e para nos tornar santos! Por acaso Jesus não usou da saliva e do pó para curar o cego? Não encheu as talhas de água para que se convertessem em vinho? E Deus não fez Moisés brandir o cajado para abrir ao meio as águas do Mar Vermelho? 

A oração não é um jogo de bate e volta impelido pela conduta humana. Ela nasce da manifestação do homem em se colocar na presença de Deus para enfrentar o desafio concreto de se ter uma vida cristã no meio do mundo. Ela implica o cumprimento decidido e perseverante da Santa Vontade de Deus em relação a nós, numa súplica não de remover, mas de superar os problemas e, particularmente as vias de pecado, por meio de nossos dons, talentos, habilidades, sabedoria. Essa é a água, a saliva, o pó, o cajado do nosso 'eu'. Com eles e, somente com eles, vamos nos libertar da cegueira, das limitações do nosso ser, dos 'mares vermelhos' que se levantam diante de nós. E, por meio deles e somente por meio deles, Deus nos conduzirá às bem aventuranças eternas e fará conosco os milagres mais extraordinários para isso. Para os incrédulos e os sábios deste mundo, Deus não tem respostas.

R.

('Cartas a Meu Pai' são textos de minha autoria e pretendem ser uma coletânea de crônicas que retratam a realidade cotidiana da vida humana entranhada com valores espirituais que, desapercebidos pelas pessoas comuns, são de inteira percepção pelo personagem R. As pessoas e os lugares, livremente designados apenas pelas suas iniciais, são absolutamente fictícios).