segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

ONTEM, HOJE E AMANHÃ


Há dois dias em cada semana com os quais nunca deveríamos nos preocupar: dois dias nos quais deveríamos ficar livres de quaisquer ansiedades ou medos.

O primeiro é o dia de ontem com os seus erros e acertos; seus pecados e tropeços, suas feridas e todas as suas dores. Ontem passou e não está mais sob nosso controle. 

Nem todo o dinheiro do mundo pode trazer o ontem de volta. Não podemos desfazer um único gesto que fizemos; nem apagar qualquer palavra que dissemos. Ontem apenas já era.

O outro dia da semana com o qual não devemos nos preocupar é o amanhã: com as suas adversidades, seus fardos, suas grandes aspirações ou os seus grandes fiascos. O amanhã está além do nosso controle.

Amanhã o sol nascerá como sempre, seja com todo o seu esplendor ou então escondido atrás de um firmamento de nuvens. E até que o sol nasça - amanhã - não devemos ter isso em conta, simplesmente porque o amanhã ainda não existe.

Resta-nos, então, somente um dia. Hoje. Podemos, homens e mulheres, somente lutar as batalhas diárias - do dia de hoje. O que significa no dia de hoje ou libertar ou sobrecarregar a nossa vida com o lastro de ontem ou de amanhã.

Não é a experiência de hoje que nos prostra e nos faz sucumbir, mas os remorsos e as amarguras de ontem ou os temores e angústias que podem nos aguardar o amanhã.

Ontem nunca conheceu o Hoje; Hoje nunca conhecerá o Amanhã. Basta-nos, portanto, viver um dia de cada vez. Viver o Hoje, sempre.

(autor desconhecido; tradução do autor do blog)

domingo, 30 de janeiro de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Minha boca anunciará todos os dias vossas graças incontáveis, ó Senhor!' (Sl 70)

 30/01/2022 - Quarto Domingo do Tempo Comum

10. O GRANDE MILAGRE DE JESUS EM NAZARÉ 


A dimensão messiânica de Jesus tinha acabado de ser revelada aos moradores da aldeia de Nazaré, onde Jesus vivera até a juventude, como o filho do carpinteiro (evangelho do domingo anterior). Quase ao término do segundo ano de sua pregação pública e após o batismo por João, Jesus retorna às suas origens para proclamar aos seus conterrâneos que Ele é o Messias prometido das Escrituras. E aí vai experimentar, se não pela primeira vez, talvez a rejeição mais dolorosa, pois oriunda daqueles que lhe eram mais próximos, mais conhecidos, que com Ele conviveram cotidianamente por quase trinta anos.

Jesus havia aberto o livro profético de Isaías nas passagens relativas às previsões messiânicas (Is 61, 1ss). Na sua oratória, embora não se tenha transcrição alguma do conteúdo de sua fala, Jesus certamente teria explicado, com suma riqueza de doutrina e de detalhes, o texto do profeta, como se pode depreender do testemunho do evangelista: 'Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca' (Lc 4,22). À margem o tesouro da doutrina exposta, aquele evento proclamara a chegada do Ungido, do Messias revelado pelos tempos nas Sagradas Escrituras. E a portentosa revelação fôra proclamada pelas palavras finais do Mestre: 'Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabaste de ouvir' (Lc 4, 21).

Mas os seus, ainda que admirados de sua pregação e oratória, não vão entendê-Lo. Eles O têm apenas no espectro da perplexidade e de certa admiração e querem ser testemunhas de desmedidos milagres, de feitos muito mais extraordinários daqueles ocorridos em Cafarnaum e por toda a Galileia. Para os homens de Nazaré daquele tempo, faltou a caridade e sem a caridade (conforme 1 Cor 13, 1-13), tudo se torna incomensuravelmente vão. Jesus foi para eles apenas uma sombra de admiração, tolhida pela incredulidade e covardia de tantos que preferiram, por puro preconceito, perder o convite à plena conversão. Da certeza de que um profeta não é bem recebido em sua terra (Lc 4, 24), Jesus vai revelar publicamente na sinagoga a dureza daqueles corações.

Movidos pelo ódio, e por ódio diabólico, agarraram Jesus não apenas com o intuito de expulsar o filho do carpinteiro da pequena aldeia, mas de matar o Salvador, atirando-o do alto de um precipício às portas da cidade. Dominado pela turba enfurecida e em frenesi para cometer um crime dantesco, Jesus manifestou-lhes certamente o extraordinário milagre que queriam ver. Mais tarde, Jesus iria aceitar com submissão o ódio dos homens na sua Paixão e Morte de cruz. Mas ali, ainda não chegara a sua hora. Sob o influxo de sua divindade, Jesus fez calar naqueles homens todos os espíritos ensandecidos e reduziu à impotência os seus frêmitos de ira e 'passando pelo meio deles, continuou o seu caminho' (Lc 4, 30).

sábado, 29 de janeiro de 2022

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XXIV)

 

Capítulo XXIV

Duração do Purgatório - O Duelista - Padre Schoofs e a Aparição em Antuérpia

O exemplo a seguir mostra não só a longa duração da punição infligida por certas faltas, mas também a dificuldade em declinar a Justiça Divina em favor daqueles que cometeram faltas dessa natureza. A história da Ordem da Visitação menciona, entre as primeiras religiosas daquele Instituto, Irmã Marie Denise, chamada no mundo Maria Marignat. Ela era muito caridosa e devotada às almas do Purgatório, e sentia-se particularmente atraída a recomendar a Deus, de maneira especial aqueles que haviam ocupado altas posições no mundo, pois sabia por experiência os perigos a que as suas posições os expunham. Um certo príncipe, cujo nome não é revelado, mas que se acredita pertencer à Casa da França, foi morto em um duelo, e Deus permitiu que ele aparecesse à irmã Denise para pedir-lhe a ajuda da qual tanto necessitava. Ele revelou então que não havia sido condenado, embora o seu crime merecesse condenação. Graças a um ato de contrição perfeita que fez no momento da morte, foi salvo; mas, como punição por sua vida e morte temerosas, havia sido condenado ao mais rigoroso castigo do Purgatório até o Dia do Juízo Final.

A irmã, tomada pela caridade e profundamente tocada pelo estado daquela alma, ofereceu-se generosamente como vítima de expiação em sua intenção. Mas é impossível dizer o que ela teve que sofrer por muitos anos em consequência desse ato heroico. O pobre príncipe não a deixou descansar e a fez participar de todos os seus tormentos. Ela completou o seu sacrifício pela morte; mas, antes de morrer, confidenciou à sua superiora que, em troca de tanta expiação, conseguira para o seu protegido a remissão de apenas algumas horas de sofrimento. 

Quando a superiora expressou o seu espanto com esse resultado, que lhe pareceu totalmente desproporcional a tudo que a irmã havia padecido, a irmã Denise respondeu: 'Ah! minha querida mãe, as horas do Purgatório não são computadas como as da Terra; anos de dor, cansaço, pobreza ou doença neste mundo não são nada comparados a uma hora de sofrimento do Purgatório. Já é muito que a Divina Misericórdia nos permita exercer qualquer influência sobre a sua justiça. Eu estou menos comovida pelo estado lamentável em que vi esta alma definhar do que pelo extraordinário retorno da graça que consumou a obra de sua salvação. O ato pelo qual o príncipe morreu merecia o inferno; um milhão de outros poderiam ter encontrado a sua perdição eterna no mesmo ato em que ele encontrou a sua salvação. Ele recobrou a consciência apenas por um instante, tempo suficiente para cooperar com aquele precioso movimento de graça que o dispôs a fazer um ato de contrição perfeita. Aquele momento abençoado me parece um excesso da bondade, clemência e amor infinito de Deus'. Assim falou a Irmã Denise; ela admirou ao mesmo tempo a severidade da Justiça de Deus e a sua Infinita Misericórdia. Tanto uma quanto a outra brilharam neste exemplo da maneira mais impressionante.

Continuando o assunto da longa duração do Purgatório, relataremos aqui um caso de ocorrência mais recente. O padre Philip Schoofs, da Companhia de Jesus, falecido em Fouvain em 1878, relatou o seguinte fato, ocorrido em Antuérpia durante os primeiros anos de seu ministério naquela cidade. Ele acabara de pregar uma missão e retornara ao Colégio de Notre Dame, então situado na Rue L'Empereur, quando lhe disseram que alguém o esperava no salão. Descendo imediatamente ao salão, encontrou ali dois jovens irmãos, acompanhados por uma criança pálida e doentia de cerca de dez anos.

'Padre' - dizia um deles - 'aqui está uma pobre criança que adotamos e que merece nossa proteção porque é boa e piedosa. Nós o alimentamos e o educamos e há mais de um ano que ele faz parte da nossa família, onde é feliz e goza de boa saúde. Nestas últimas semanas, no entanto, ele começou a ficar mais magro e a definhar, ficando no estado em que se vê agora'. E qual é a causa dessa mudança?' - perguntou o padre. 'É medo' - responderam - 'a criança é despertada todas as noites por aparições. Um homem, ele nos garante, apresenta-se diante dele e ele o vê tão distintamente quanto nos vê em plena luz do dia. Esta é a causa de seu contínuo medo e inquietação. Viemos, padre, pedir-lhe alguma solução'.

'Meus caros' - respondeu o padre Schoofs - 'em Deus há solução para todas as coisas. Comecem, ambos, fazendo uma boa confissão e comunhão, e implorem a Deus que os livre de todo mal, e nada temam. Quanto a você, meu filho, faça bem as suas orações e depois durma tão profundamente que nenhum fantasma possa acordá-lo'. Ele então os dispensou, dizendo-lhes que voltassem caso algo mais acontecesse. Duas semanas se passaram e eles voltaram novamente. 'Padre' - disseram eles - 'seguimos as suas orientações e, ainda assim, as aparições continuam como antes: a criança sempre vê o mesmo homem aparecer'. 'A partir desta noite' - disse o padre Schoofs - 'vigiem na porta do quarto da criança, providos de papel e tinta para escrever as respostas. Quando a criança avisá-lo da presença daquele homem perguntem, em nome de Deus, quem ele é, a hora de sua morte, onde ele viveu e por que ele voltou'.

No dia seguinte eles voltaram, trazendo o papel onde estavam escritas as respostas que haviam recebido. 'Vimos' - disseram eles - 'o homem que aparece para a criança'. Descreveram-no como um velho, do qual só podiam ver o busto, e ele usava um traje dos velhos tempos. Ele lhes disse o seu nome e a casa em que morava em Antuérpia. Morreu em 1636, seguira a profissão de banqueiro nessa mesma casa que, no seu tempo, compreendia ainda as duas casas que hoje se podem ver situadas à direita e à esquerda. Observemos aqui que alguns documentos que comprovam a exatidão dessas indicações foram descobertos nos arquivos da cidade de Antuérpia. Acrescentou que estava no Purgatório e que poucas orações haviam sido feitas por ele. Ele então implorou às pessoas da casa que oferecessem a Sagrada Comunhão por ele e, finalmente, pediu que uma peregrinação fosse feita a Notre Dame des Fievres e outra a Notre Dame de la Chapelle, em Bruxelas. 'Você fará bem em atender a todos esses pedidos' - disse o padre Schoofs - 'e se o espírito retornar, antes de falar com ele, exija que ele diga o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo'.

Eles realizaram as boas obras indicadas com toda piedade possível, e muitas conversões ocorreram. Quando tudo terminou, os jovens retornaram. 'Padre, ele rezou' - disseram eles ao padre Schoofs - 'com um tom de fé e piedade indescritíveis. Nunca ouvimos ninguém orar assim. Que reverência no Pai Nosso! Que amor na Ave Maria! Que fervor no Credo! Agora sabemos o que é orar. Então ele nos agradeceu por nossas orações; ele ficou muito aliviado e disse que teria sido libertado inteiramente se uma assistente em nossa loja não tivesse feito uma comunhão sacrílega. Nós relatamos essas palavras para a pessoa. Ela ficou pálida, reconheceu a sua culpa então, e correndo ao seu confessor, apressou-se a reparar o seu crime'.

'Desde aquele dia' - acrescenta o padre Schoofs - 'aquela casa nunca teve problemas. A família que a habita prosperou rapidamente e hoje é rica. Os dois irmãos continuaram a se comportar de maneira exemplar e irmã deles tornou-se religiosa em um convento, do qual atualmente é superiora'. Tudo nos leva a crer que a prosperidade daquela família foi fruto do socorro prestado à alma que partiu. Após dois séculos de punição, restava a esta alma apenas uma pequena parte da expiação e a realização de algumas boas obras que ele pediu. Quando isso se realizou, ele foi libertado e desejou mostrar a sua gratidão obtendo as bênçãos de Deus sobre os seus benfeitores.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

VERSUS: OLHAR DA ALMA X OLHAR DE DOR

'que ilumine os olhos do vosso coração, para que compreendais a que esperança fostes chamados, e quão rica e gloriosa é a herança que Ele reserva aos santos' (Ef 1,18)





'Deus enxugará toda lágrima de seus olhos' (Ap 7,16)


quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

SOBRE A NATUREZA DA MORTE

Penso que é útil inquirir sobre a natureza da morte, se esta deve ser classificada como coisa boa ou má. Se for considerada isoladamente, sem dúvida, deve ser contada como coisa má, porque tudo que for oposto a vida não pode ser coisa boa. Mais ainda, como diz o sábio: 'Deus criou o ser humano incorruptível e o fez à imagem de sua própria natureza: foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na os que são do seu partido' (Sb 2,24). Com estas palavras, São Pedro concorda quando diz: 'Pois como o pecado entrou no mundo por um só homem e, através do pecado, a morte; e a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram' (Rm 5,12). Se Deus não fez a morte, certamente ela não pode ser boa, porque tudo que Deus fez é bom, de acordo com as palavras do Gênesis: 'E Deus viu tudo quanto havia feito e achou que era muito bom' (Gn 1,31).

Embora a morte não possa ser considerada como um bem em si mesma, a sabedoria de Deus a temperou como se assim fosse, pois através da morte recebemos muitas graças. Davi exclama: 'É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus fieis' (Sl 116, 14), e a Igreja assim proclama na liturgia sobre Jesus: 'Quem por sua morte destruiu nossa morte e, pela sua ressurreição, reconquistou a vida'. Agora, a morte que destruiu a morte e reconquistou a vida não pode ser outra coisa que muito boa. Portanto, senão toda morte pode ser dita boa, pelo menos algumas o são. Por isso Santo Ambrósio não hesitou em escrever um livro intitulado 'Sobre as vantagens da morte', no qual ele claramente prova que a morte, embora produzida pelo pecado, possui vantagens peculiares.

Há ainda outra razão que prova que a morte, mesmo sendo um mal em si mesma, pode, pela graça do Senhor, produzir muitas bênçãos. Em primeiro lugar, há esta grande benção: a morte põe um fim nas misérias da vida. Jó eloquentemente reclama dos males do seu estado atual: 'o homem nascido da mulher vive pouco tempo e é cheio de muitas misérias; é como uma flor que germina e logo fenece, uma sombra que foge sem parar' (Jó 14,1-2). E o Livro de Eclesiastes diz: 'E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida, e mais feliz que uns e outros o aborto que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol' (Ecle 4,2-3). E ainda se encontra: 'Penosa ocupação foi dada a todos os mortais e pesado jugo oprime os filhos de Adão, desde o dia em que saem do ventre de sua mãe até o dia da volta para a mãe comum: objeto de suas reflexões e temor do seu coração é a descoberta do que os espera, o dia do seu fim' (Eclo 40,1-2). O Apóstolo também fala sobre as misérias da vida: 'Infeliz que eu sou! Quem me libertará deste corpo de morte?' (Rm 7,24)

Destes testemunhos encontrados nas Sagradas Escrituras fica claro que a morte tem uma grande vantagem: nos livrar dos problemas desta vida. Mas ela ainda possui uma mais alta vantagem, porque é o portão de saída de uma prisão e entrada no Paraíso. Isto foi revelado por Nosso Senhor a São João quando, por sua fé, encontrava-se exilado na ilha de Patmos: 'Eu ouvi uma voz do céu, que dizia: Escreve: Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem' (Ap 14,13).

Realmente abençoada é a morte dos santos, que por ordem do Rei Eterno liberta as suas almas da prisão da carne e as conduz aos reinos celestiais, onde as almas dos justos repousam de todos os seus trabalhos, e como recompensa de todos os seus bons trabalhos, recebem a coroa da glória. Para as almas no purgatório, a morte também não é pouco benefício, pois as livra do medo da morte e dá certeza de um dia virem a possuir a felicidade eterna. Até para os pecadores, a morte representa uma vantagem: faz com que deixem de pecar, prevenindo-os de aumentar ainda mais as suas punições. Por conta destas excelentes vantagens, a morte para os homens bons não parece terrível, ao contrário, é fruto do amor de Deus. São Paulo assegura: 'Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro' (Fl 1,21) e na Primeira Epístola aos Tessalonicenses, afirma: 'Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança' (1Ts 4,13).

Vivia há algum tempo atrás uma senhora muita santa, chamada Catarina Adorna, de Gênova. Era tão inflamada pelo amor de Cristo, que entre tantos ardentes desejos, o que mais solicitava era ser 'dissolvida' e, então, partir para o seu Amado. Apaixonada pela morte, como era, sempre afirmava ser a mais bela e adorável coisa, reclamando apenas que a morte fugia dela que a desejava, mas encontrava a outros que dela fugiam. Por estas considerações podemos concluir que a morte, quando produzida pelo pecado, é coisa ruim; mas, pela graça de Cristo que sofreu a morte por nossa causa, tornou-se de muitas maneiras saudável, amável e desejável.

(Excertos da obra 'A Arte de Morrer Bem', de São Roberto Belarmino)

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

OS GRANDES DOCUMENTOS DA IGREJA (III)

Carta Encíclica HUMANI GENERIS [12 de agosto de 1950]

Papa Pio XII (1939 - 1958)

Sobre as falsas opiniões que ameaçam a doutrina católica


INTRODUÇÃO

1. As dissensões e erros do gênero humano em questões religiosas e morais têm sido sempre fonte e causa de intensa dor para todas as pessoas de boa vontade e, principalmente, para os filhos fieis e sinceros da Igreja; mas, de maneira especial, o continuam sendo hoje em dia, quando vemos combatidos até os próprios princípios da cultura cristã.

2. Não é de admirar que haja constantemente discórdias e erros fora do redil de Cristo. Pois, embora possa realmente a razão humana, com suas forças e sua luz natural, chegar de forma absoluta ao conhecimento verdadeiro e certo de Deus, único e pessoal, que sustém e governa o mundo com sua providência, bem como ao conhecimento da lei natural, impressa pelo Criador em nossas almas, entretanto, não são poucos os obstáculos que impedem a razão de fazer uso eficaz e frutuoso dessa sua capacidade natural. De fato, as verdades que se referem a Deus e às relações entre os homens e Deus transcendem por completo a ordem dos seres sensíveis e, quando entram na prática da vida e a conformam, exigem o sacrifício e a abnegação própria. Ora, o entendimento humano encontra dificuldades na aquisição de tais verdades, já pela ação dos sentidos e da imaginação, já pelas más inclinações, nascidas do pecado original. Isso faz com que os homens, em semelhantes questões, facilmente se persuadam de ser falso e duvidoso o que não querem que seja verdadeiro.

3. Por isso deve-se defender que a revelação divina é moralmente necessária para que, mesmo no estado atual do gênero humano, todos possam conhecer com facilidade, com firme certeza e sem nenhum erro, as verdades religiosas e morais que não são por si inacessíveis à razão.

4. Ademais, por vezes, pode a mente humana encontrar dificuldade mesmo para formar juízo certo sobre a credibilidade da fé católica, não obstante os múltiplos e admiráveis indícios externos ordenados por Deus para se poder provar certamente, por meio deles, a origem divina da religião cristã, exclusivamente com a luz da razão. Isso ocorre porque o homem, levado por preconceitos ou instigado pelas paixões e pela má vontade, não só pode negar a evidência desses sinais externos, mas também resistir às inspirações sobrenaturais que Deus infunde em nossas almas.

I. FALSAS DOUTRINAS ATUALMENTE EM VOGA

5. Se olharmos para fora do redil de Cristo, facilmente descobriremos as principais direções que seguem não poucos dos homens de estudo. Uns admitem sem discrição nem prudência o sistema evolucionista, que até no próprio campo das ciências naturais não foi ainda indiscutivelmente provado, pretendendo que se deve estendê-lo à origem de todas as coisas e, com ousadia, sustentam a hipótese monista e panteísta de um mundo submetido a perpétua evolução. Dessa hipótese se valem os comunistas para defender e propagar seu materialismo dialético e arrancar das almas toda noção de Deus.

6. As falsas afirmações de semelhante evolucionismo pelas quais se rechaça tudo o que é absoluto, firme e imutável, vieram abrir o caminho a uma moderna pseudo-filosofia que, em concorrência contra o idealismo, o imanentismo e o pragmatismo, foi denominada existencialismo, porque nega as essências imutáveis das coisas e não se preocupa mais senão com a 'existência' de cada uma delas.

7. Existe igualmente um falso historicismo, que se atém só aos acontecimentos da vida humana e, tanto no campo da filosofia como no dos dogmas cristãos, destrói os fundamentos de toda verdade e lei absoluta.

8. Em meio a tanta confusão de opiniões nos é de algum consolo ao ver os que hoje, não raramente, abandonando as doutrinas do racionalismo em que haviam sido educados, desejam voltar aos mananciais da verdade revelada e reconhecer e professar a palavra de Deus conservada na Sagrada Escritura como fundamento da ciência sagrada. Contudo, ao mesmo tempo, lamentamos que não poucos desses, quanto mais firmemente aderem à palavra de Deus, tanto mais rebaixam o valor da razão humana; e quanto mais entusiasticamente enaltecem a autoridade de Deus revelador, tanto mais asperamente desprezam o magistério da Igreja, instituído por nosso Senhor Jesus Cristo para defender e interpretar as verdades reveladas. Esse modo de proceder não só está em contradição aberta com a Sagrada Escritura, como ainda pela experiência se mostra equívoco. Tanto é assim que os próprios 'dissidentes' com frequência se lamentam publicamente da discórdia que entre eles reina em questões dogmáticas, a tal ponto que se veem obrigados a confessar a necessidade de um magistério vivo.

II. INFILTRAÇÃO DESSES ERROS NO PENSAMENTO CATÓLICO

9. Os teólogos e filósofos católicos, que têm o grave encargo de defender e imprimir nas almas dos homens as verdades divinas e humanas, não devem ignorar nem desatender essas opiniões que, mais ou menos, se apartam do reto caminho. Pelo contrário, é necessário que as conheçam bem; pois não se podem curar as enfermidades antes de serem bem conhecidas; ademais, nas mesmas falsas afirmações se oculta por vezes um pouco de verdade; e, por fim, essas opiniões falsas incitam a mente a investigar e ponderar com maior diligência algumas verdades filosóficas ou teológicas.

10. Se nossos filósofos e teólogos somente procurassem tirar esse fruto daquelas doutrinas, estudando-as com cautela, não teria motivo para intervir o magistério da Igreja. Embora saibamos que os doutores católicos em geral evitam contaminar-se com tais erros, consta-nos, entretanto, que não faltam hoje os que, como nos tempos apostólicos, amando a novidade mais do que o devido e também temendo que os tenham por ignorantes dos progressos da ciência, intentam subtrair-se à direção do sagrado Magistério e, por esse motivo, acham-se no perigo de apartar-se insensivelmente da verdade revelada e fazer cair a outros consigo no erro.

11. Existe também outro perigo, que é tanto mais grave quanto se oculta sob a capa de virtude. Muitos, deplorando a discórdia do gênero humano e a confusão reinante nas inteligências dos homens e guiados por imprudente zelo das almas, sentem-se levados por interno impulso e ardente desejo a romper as barreiras que separam entre si as pessoas boas e honradas; e propugnam uma espécie de 'irenismo' que, passando por alto as questões que dividem os homens, se propõe não somente a combater em união de forças contra o ateísmo avassalador, senão também a reconciliar opiniões contrárias, mesmo no campo dogmático. E, como houve antigamente os que se perguntavam se a apologética tradicional da Igreja constituía mais impedimento do que ajuda para ganhar almas a Cristo, assim também não faltam agora os que se atreveram a propor seriamente a dúvida de que talvez seja conveniente não só aperfeiçoar mas também reformar completamente a teologia e o método que atualmente, com aprovação eclesiástica, se emprega no ensino teológico, a fim de que se propague mais eficazmente o reino de Cristo em todo o mundo, entre os homens de todas as civilizações e de todas as opiniões religiosas.

12. Se tais propugnadores não pretendessem mais do que acomodar, com alguma renovação, o ensino eclesiástico e seus métodos às condições e necessidades atuais, não haveria quase nada que temer; contudo, alguns deles, arrebatados por imprudente 'irenismo', parecem considerar como óbice para restabelecer a unidade fraterna justamente aquilo que se fundamenta nas próprias leis e princípios legados por Cristo e nas instituições por ele fundadas, ou o que constitui a defesa e o sustentáculo da integridade da fé, com a queda do qual se uniriam todas as coisas; sim, mas somente na ruína comum.

13. Os que, ou por repreensível desejo de novidade ou por algum motivo louvável, propugnam essas novas opiniões, nem sempre as propõem com a mesma intensidade, nem com a mesma clareza, nem com idênticos termos, nem sempre com unanimidade de pareceres; o que hoje ensinam alguns mais encobertamente, com certas cautelas e distinções, outros mais audazes propalarão amanhã abertamente e sem limitações, para escândalo de muitos, em especial do clero jovem, e com detrimento da autoridade eclesiástica. Mais cautelosamente é costume tratar dessas matérias nos livros que são postos à publicidade, já com maior liberdade se fala nos folhetos distribuídos privadamente e nas conferências e reuniões. E não se divulgam somente estas doutrinas entre os membros de um e outro clero, nos seminários e institutos religiosos, mas também entre os seculares, principalmente aqueles que se dedicam ao ensino da juventude.

III. CONSEQUÊNCIAS

1. Desprezo da teologia escolástica

14. Quanto à teologia, o que alguns pretendem é diminuir o mais possível o significado dos dogmas e libertá-­los da maneira de exprimi-los já tradicionalmente na Igreja, e dos conceitos filosóficos usados pelos doutores católicos, a fim de voltar, na exposição da doutrina católica, às expressões empregadas pela Sagrada Escritura e pelos santos Padres. Esperam que, desse modo, o dogma, despojado de elementos que chamam extrínsecos à revelação divina, possa comparar-se frutuosamente com as opiniões dogmáticas dos que estão separados da unidade da Igreja, e que, por esse caminho, se chegue pouco a pouco à assimilação do dogma católico e das opiniões dos dissidentes.

15. Reduzindo a doutrina católica a tais condições, creem que se abre também o caminho para obter, segundo exigem as necessidades atuais, que o dogma seja formulado com as categorias da filosofia moderna, quer se trate do imanentismo, ou do idealismo, ou do existencialismo, ou de qualquer outro sistema. Alguns mais audazes afirmam que isso se pode e se deve fazer também em virtude de que, segundo eles, os mistérios da fé nunca se podem expressar por conceitos plenamente verdadeiros, mas só por conceitos aproximativos e que mudam continuamente, por meio dos quais a verdade se indica, é certo, mas também necessariamente se desfigura. Por isso não pensam ser absurdo, mas antes, pelo contrário, creem ser de todo necessário que a teologia, conforme os diversos sistemas filosóficos que no decurso do tempo lhe servem de instrumento, possa substituir os antigos conceitos por outros novos; de sorte que, de maneiras diversas e até certo ponto opostas, porém, segundo eles, equivalentes, faça humanas aquelas verdades divinas. Acrescentam que a história dos dogmas consiste em expor as várias formas que sucessivamente foi tomando a verdade revelada, de acordo com as várias doutrinas e opiniões que através dos séculos foram aparecendo.

16. Pelo que foi dito é evidente que tais esforços não somente levam ao relativismo dogmático, mas já de fato o contém, pois o desprezo da doutrina tradicional e de sua terminologia favorece tal relativismo e o fomenta. Ninguém ignora que os termos empregados, tanto no ensino da teologia como pelo próprio magistério da Igreja, para expressar tais conceitos podem ser aperfeiçoados e enriquecidos. É sabido também que a Igreja não foi sempre constante no uso dos mesmos termos. Ademais, é evidente que a Igreja não se pode ligar a qualquer efêmero sistema filosófico; entretanto, as noções e os termos que os doutores católicos, com geral aprovação, foram compondo durante o espaço de vários séculos para chegar a obter alguma inteligência do dogma não se assentam, sem dúvida, sobre bases tão escorregadias. Fundam-se realmente em princípios e noções deduzidas do verdadeiro conhecimento das coisas criadas; dedução realizada à luz da verdade revelada, que, por meio da Igreja, iluminava, como uma estrela, a mente humana. Por isso, não há que admirar terem sido algumas dessas noções não só empregadas mas também sancionadas por concílios ecumênicos; de sorte que não é lícito apartar-se delas.

17. Abandonar, pois, ou repelir, ou negar valor a tantas e tão importantes noções e expressões que homens de talento e santidade não comuns, com esforço multissecular, sob a vigilância do sagrado magistério e com a luz e guia do Espírito Santo, conceberam, expressaram e aperfeiçoaram para exprimir as verdades da fé cada vez com maior exatidão, e substituí-las por noções hipotéticas e expressões flutuantes e vagas de uma filosofia moderna que, assim como a flor do campo, hoje existe e amanhã cairá, não só é de suma imprudência, mas também converte o dogma numa cana agitada pelo vento. O desprezo dos termos e noções que os teólogos escolásticos costumam empregar leva naturalmente a abalar a teologia especulativa, a qual, por fundar-se em razões teológicas, eles julgam carecer de verdadeira certeza.

2. Desprezo do magistério da Igreja

18. Desgraçadamente, esses amigos de novidades facilmente passam do desprezo da teologia escolástica ao pouco caso e até mesmo ao desprezo do próprio magistério da Igreja, que tanto prestígio têm dado com a sua autoridade àquela teologia. Apresentam este magistério como empecilho ao progresso e obstáculo à ciência; e já existem acatólicos que o consideram como freio injusto, que impede alguns teólogos mais cultos de renovar a teologia. Embora este sagrado magistério, em questões de fé e moral, deva ser para todo teólogo a norma próxima e universal da verdade (visto que a ele confiou nosso Senhor Jesus Cristo a guarda, a defesa e a interpretação do depósito da fé, ou seja, das Sagradas Escrituras e da Tradição divina), contudo, por vezes se ignora, como se não existisse, a obrigação que têm todos os fieis de fugir mesmo daqueles erros que se aproximam mais ou menos da heresia e, portanto, de observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu tais falsas opiniões. Alguns há que de propósito desconhecem tudo quanto os sumos pontífices expuseram nas encíclicas sobre o caráter e a constituição da Igreja, a fim de fazer prevalecer um conceito vago, que eles professam e dizem ter tirado dos antigos Padres, principalmente dos gregos. Os sumos pontífices, dizem eles, não querem dirimir questões disputadas entre os teólogos; e, assim, cumpre voltar às fontes primitivas e explicar com os escritos dos antigos as modernas constituições e decretos do magistério.

19. Esse modo de falar pode parecer eloquente, mas não carece de falácia. Pois é verdade que os romanos pontífices em geral concedem liberdade aos teólogos nas questões controvertidas entre os mais acreditados doutores; porém, a história ensina que muitas questões que antes eram objeto de livre discussão já não podem ser discutidas.

20. Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério. Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para o qual valem também aquelas palavras: 'Quem vos ouve, a mim ouve' (Lc 10, 16); e, na maioria das vezes, o que é proposto e inculcado nas encíclicas, já por outras razões pertence ao patrimônio da doutrina católica. E, se os romanos pontífices em suas constituições pronunciam de caso pensado uma sentença em matéria controvertida, é evidente que, segundo a intenção e vontade dos mesmos pontífices, essa questão já não pode ser tida como objeto de livre discussão entre os teólogos.

21. Também é verdade que os teólogos devem sempre voltar às fontes da revelação; pois, a eles cabe indicar de que maneira 'se encontra, explícita ou implicitamente' na Sagrada Escritura e na divina Tradição o que ensina o magistério vivo. Ademais, ambas as fontes da doutrina revelada contêm tantos e tão sublimes tesouros de verdade que nunca realmente se esgotarão. Por isso, com o estudo das fontes sagradas rejuvenescem continuamente as sagradas ciências; ao passo que, pelo contrário, a especulação que deixa de investigar o depósito da fé torna-se estéril, como vemos pela experiência. Entretanto, isto não autoriza a fazer da teologia, mesmo da chamada positiva, uma ciência meramente histórica. Pois, junto com as sagradas fontes, Deus deu à sua Igreja o magistério vivo para esclarecer também e salientar o que, no depósito da fé, não se acha senão obscura e como que implicitamente. E o divino Redentor não confiou a interpretação autêntica desse depósito a cada um dos fieis, nem mesmo aos teólogos, mas exclusivamente ao magistério da Igreja. Se a Igreja exerce esse múnus (como o tem feito com frequência no decurso dos séculos pelo exercício, quer ordinário, quer extraordinário desse mesmo ofício), é evidentemente falso o método que pretende explicar o claro pelo obscuro; antes, pelo contrário, faz-se mister que todos sigam a ordem inversa. Eis porque nosso predecessor de imortal memória, Pio IX, ao ensinar que é dever nobilíssimo da teologia mostrar como uma doutrina definida pela Igreja está contida nas fontes, não sem grave motivo acrescentou aquelas palavras; 'com o mesmo sentido com o qual foi definida pela Igreja' [Pio IX, Inter Gravissimas, de 28 de outubro de 1870].

3. Desprezo das Sagradas Escrituras

22. Voltando às novas teorias de que acima tratamos, alguns há que propõem ou insinuam nos ânimos muitas opiniões que diminuem a autoridade divina da Sagrada Escritura. Pois atrevem-se a adulterar o sentido das palavras com que o concílio Vaticano define que Deus é o autor da Sagrada Escritura, e renovam uma teoria já muitas vezes condenada, segundo a qual a inerrância da Sagrada Escritura se estende unicamente aos textos que tratam de Deus mesmo, ou da religião, ou da moral. Ainda mais, sem razão falam de um sentido humano da Bíblia, sob o qual se oculta o sentido divino, que é, segundo eles, o único infalível. Na interpretação da Sagrada Escritura não querem levar em consideração a analogia da fé nem a tradição da Igreja; de modo que a doutrina dos santos Padres e do Sagrado magistério deveria ser aferida por aquela das Sagradas Escrituras explicadas pelos exegetas de modo puramente humano; o que seria preferível a expor a sagrada Escritura conforme a mente da Igreja, que foi constituída por nosso Senhor Jesus Cristo guarda e intérprete de todo o depósito das verdades reveladas.

23. Além disso, o sentido literal da Sagrada Escritura e sua exposição, que tantos e tão exímios exegetas, sob a vigilância da Igreja, elaboraram, deve ceder lugar, segundo essas falsas opiniões, a uma nova exegese a que chamam simbólica ou espiritual; por meio dela, os livros do Antigo Testamento, que seriam atualmente na Igreja uma fonte fechada e oculta, se abririam finalmente para todos. Dessa maneira, afirmam, desaparecerão todas as dificuldades que somente encontram os que se atêm ao sentido literal das Escrituras.

24. Todos veem quanto se afastam essas opiniões dos princípios e normas de hermenêutica justamente estabelecidos por nossos predecessores de feliz memória, Leão XIII, na encíclica Providentissimus e Bento XV, na encíclica Spiritus Paraclitus e também por nós mesmos, na encíclica Divino Afflante Spiritu.

4 . Erros subsequentes

25. E não há que admirar terem essas novidades produzido frutos venenosos em quase todos os capítulos da teologia. Põe-se em dúvida que a razão humana, sem o auxílio da divina revelação e da graça divina, possa demonstrar a existência de Deus pessoal, com argumentos tirados das coisas criadas; nega-se que o mundo tenha tido princípio e afirma-se que a criação do mundo é necessária, pois procede da necessária liberalidade do amor divino; nega-se também a Deus a presciência eterna e infalível das ações livres dos homens; opiniões de todo contrárias às declarações do concílio Vaticano [Const. Dei Filius - Concílio Vaticano I].

26. Alguns também põem em discussão se os anjos são pessoas; e se a matéria difere essencialmente do espírito. Outros desvirtuam o conceito de gratuidade da ordem sobrenatural, sustentando que Deus não pode criar seres inteligentes sem ordená-los e chamá-los à visão beatífica. E não só isso, mas, ainda, passando por cima das definições do concílio de Trento, destrói-se o conceito de pecado original juntamente com o de pecado em geral, como ofensa a Deus, e também o da satisfação que Cristo ofereceu por nós. Nem faltam os que defendem que a doutrina da transubstanciação, baseada como está num conceito filosófico já antiquado de substância, deve ser corrigida; de maneira que a presença real de Cristo na santíssima eucaristia se reduza a um simbolismo, no qual as espécies consagradas não são mais do que sinais externos da presença espiritual de Cristo e de sua união íntima com os fieis, seus membros no corpo místico.

27. Alguns não se consideram obrigados a abraçar a doutrina que há poucos anos expusemos numa encíclica e que está fundamentada nas fontes da revelação, segundo a qual o corpo místico de Cristo e a Igreja católica romana são uma mesma coisa [Carta. Enc. Mystici Corporis Christi, 1943]. Outros reduzem a uma fórmula vã a necessidade de pertencer à Igreja verdadeira para conseguir a salvação eterna. E outros, malmente, não admitem o caráter racional da credibilidade da fé cristã.
 
28. Sabemos que esses e outros erros semelhantes serpenteiam entre alguns filhos nossos, desviados pelo zelo imprudente ou pela falsa ciência; e nos vemos obrigado a repetir-lhes, com tristeza, verdades conhecidíssimas e erros manifestos, e a indicar-lhes, não sem ansiedade, os perigos de erro a que se expõem.

5. Desprezo da filosofia escolástica

29. É coisa sabida o quanto estima a Igreja a humana razão, à qual compete demonstrar com certeza a existência de Deus único e pessoal, comprovar invencivelmente os fundamentos da própria fé cristã por meio de suas notas divinas, expressar de maneira conveniente a lei que o Criador imprimiu nas almas dos homens, e, por fim, alcançar algum conhecimento, por certo frutuosíssimo, dos mistérios. Mas a razão somente poderá exercer tal oficio de modo apto e seguro se tiver sido cultivada convenientemente, isto é, se houver sido nutrida com aquela sã filosofia, que é já como que um patrimônio herdado das precedentes gerações cristãs e que, por conseguinte, goza de uma autoridade de ordem superior, porquanto o próprio Magistério da Igreja utilizou os seus princípios e os seus fundamentais assertos, manifestados e definidos lentamente por homens de grande talento, para comprovar a mesma revelação divina. Essa filosofia, reconhecida e aceita pela Igreja, defende o verdadeiro e reto valor do conhecimento humano, os inconcussos princípios metafísicos, a saber, os da razão suficiente, causalidade e finalidade, e a posse da verdade certa e imutável.

30. É verdade que, em tal filosofia, expõem-se muitas coisas que, nem direta, nem indiretamente, se referem à fé ou aos costumes e que, por isso mesmo, a Igreja deixa à livre disputa dos peritos; entretanto, em outras muitas, não existe tal liberdade, principalmente no que diz respeito aos princípios e aos fundamentais assertos que há pouco recordamos. Mesmo nessas questões fundamentais, pode-se revestir a filosofia com mais aptas e ricas vestes, reforçá-la com mais eficazes expressões, despojá-la de certos modos escolares menos adequados, enriquecê-la com cautela com certos elementos do progressivo pensamento humano; contudo, jamais é licito derrubá-la ou contaminá-la com falsos princípios, ou estimá-la como um grande monumento, mas já fora de moda. Pois a verdade e sua expressão filosófica não podem mudar com o tempo, principalmente quando se trata dos princípios que a mente humana conhece por si mesmos, ou daqueles juízos que se apoiam tanto na sabedoria dos séculos como no consenso e fundamento da revelação divina. Qualquer verdade que a mente humana descobre, procurando com retidão, não pode estar em contradição com outra verdade já alcançada, pois Deus, verdade suprema, criou e rege a humana inteligência, de tal modo que não opõe cada dia novas verdades às já adquiridas, mas, apartados os erros que porventura se tiverem introduzido, edifica a verdade sobre a verdade, de forma tão ordenada e orgânica como vemos estar constituída a própria natureza da qual se extrai a verdade. Por esse motivo o cristão, seja filósofo, seja teólogo, não abraça apressada e levianamente qualquer novidade que no decurso do tempo se proponha, mas deve sopesá-la com suma diligência e submetê-la a justo exame ,a fim de que não venha perder a verdade já adquirida ou a corrompa, com grave perigo e detrimento da mesma fé.

31. Se tudo quanto expusemos for bem considerado, facilmente se compreenderá porque a Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam instruídos nas disciplinas filosóficas, segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico, visto que, através da experiência de muitos séculos, conhece perfeitamente que o método e o sistema do Aquinate se distinguem, por seu valor singular, tanto para a educação dos jovens quanto para a investigação das mais recônditas verdades, e que sua doutrina está afinada como que em uníssono com a divina revelação e é eficacíssima para assegurar os fundamentos da fé e para recolher de modo útil e seguro os frutos do são progresso.

32. É, pois, altamente deplorável que hoje em dia desprezem alguns a filosofia que a Igreja aceitou e aprovou, e que, imprudentemente, a tachem de antiquada em suas formas e racionalística, como dizem, em seus processos. Pois afirmam que essa nossa filosofa defende erroneamente a possibilidade de uma metafísica absolutamente verdadeira, ao passo que eles sustentam, contrariamente, que as verdades, principalmente as transcendentes, só podem ser expressas por doutrinas divergentes que mutuamente se completam, embora pareçam opor-se entre si. Pelo que, concedem que a filosofia ensinada em nossas escolas, com a lúcida exposição e solução dos problemas, com a exata precisão de conceitos e com as claras distinções, pode ser conveniente preparação ao estudo da teologia, como de fato o foi adaptando-se perfeitamente à mentalidade medieval; creem, porém, que não é o método que corresponde à cultura e às necessidades modernas. Acrescentam, ainda, que a filosofia perene é só a filosofia das essências imutáveis, enquanto a mente moderna deve considerar a 'existência' de cada um dos seres e a vida em sua fluência contínua. E, ao desprezarem esta filosofia, enaltecem outras, antigas ou modernas, orientais ou ocidentais, de forma tal a parecer insinuar que toda filosofia ou doutrina opinável, com o acréscimo de algumas correções ou complementos, se for necessário, harmonizar-se-á com o dogma católico; o que nenhum fiel pode duvidar seja de todo falso, principalmente quando se trata dos errôneos sistemas chamados imanentismo, ou idealismo, ou materialismo, seja histórico, seja dialético, ou também existencialismo, tanto no caso de defender o ateísmo, quanto no de impugnar o valor do raciocínio metafísico.

33. Por fim, acusam a filosofia ensinada em nossas escolas do defeito de atender só à inteligência no processo do conhecimento, sem levar em conta o papel da vontade e dos sentimentos. O que certamente não é verdade; de fato, a filosofia cristã jamais negou a utilidade e a eficácia das boas disposições de toda alma para conhecer e abraçar plenamente os princípios religiosos e morais; ainda mais, sempre ensinou que a falta de tais disposições pode ser a causa de que o entendimento, sufocado pelas paixões e pela má vontade, se obscureça a ponto de não mais ver como convém. E o Doutor Comum crê que o entendimento é capaz de perceber de certo modo os mais altos bens correspondentes à ordem moral, tanto natural como sobrenatural, enquanto experimentar no íntimo certa afetiva 'conaturalidade' com esses mesmos bens, seja ela natural, seja fruto da graça; e claro está quanto esse conhecimento, por assim dizer, subconsciente, ajuda as investigações da razão. Porém, uma coisa é reconhecer a força dos sentimentos para auxiliar a razão a alcançar conhecimento mais certo e mais seguro das realidades morais, e outra, o que intentam esses inovadores, ou seja, atribuir às faculdades volitiva e afetiva certo poder de intuição, e afirmar que o homem, quando, pelo exercício da razão, não pode discernir o que deva abraçar como verdadeiro, recorra à vontade, mediante a qual escolherá livremente entre as opiniões opostas, com inaceitável mistura de conhecimento e de vontade.

34. Nem há que admirar se ponham em perigo, com essas novas opiniões, as duas disciplinas filosóficas que, pela sua própria natureza, estão estreitamente relacionadas com a doutrina católica, a saber, a teodiceia e a ética, cuja função acreditam não seja demonstrar coisa alguma acerca de Deus ou de qualquer outro ser transcendente, mas antes mostrar que os ensinamentos da fé sobre Deus, ser pessoal, e seus preceitos, estão inteiramente de acordo com as necessidades da vida e que, por isso mesmo, todos devem aceitá-los para evitar a desesperação e obter a salvação eterna; tudo isso está em oposição aberta aos documentos de nossos predecessores Leão XIII e Pio X e não se pode conciliar com os decretos do concílio Vaticano [I]. Não haveria, certamente, tais desvios da verdade que deplorar se também no terreno filosófico todos olhassem com a devida reverência ao magistério da Igreja, ao qual compete, por divina instituição, não só custodiar e interpretar o depósito da verdade revelada, mas também vigiar sobre as disciplinas filosóficas para que os dogmas católicos não sofram dano algum da parte das opiniões não corretas.

6. Erros relativos a certas ciências positivas

35. Resta-nos agora dizer algo acerca de algumas questões que, embora pertençam às disciplinas a que é costume chamar-se positivas, entretanto, se entrelaçam mais ou menos com as verdades da fé cristã. Não poucos rogam insistentemente que a religião católica tenha em máxima conta tais ciências; o que é certamente digno de louvor quando se trata de fatos na realidade demonstrados, mas que hão de admitir-se com cautela quando se trata de hipóteses, ainda que de algum modo apoiadas na ciência humana, que tocam a doutrina contida na sagrada Escritura ou na tradição. Se tais conjecturas opináveis se opõem direta ou indiretamente à doutrina que Deus revelou, então esses postulados não se podem admitir de modo algum.

36. Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os dogmas da fé. Porém, certas pessoas, ultrapassam com temerária audácia essa liberdade de discussão, agindo como se a própria origem do corpo humano a partir de matéria viva preexistente fosse já certa e absolutamente demonstrada pelos indícios até agora achados e pelos raciocínios neles baseados, e como se nada houvesse nas fontes da revelação que exigisse a máxima moderação e cautela nessa matéria.

37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que, depois de Adão, tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.

38. Da mesma forma que nas ciências biológicas e antropológicas, há alguns que também nas ciências históricas ultrapassam audazmente os limites e cautelas estabelecidos pela Igreja. De modo particular, é deplorável a maneira extraordinariamente livre de interpretar os livros históricos do Antigo Testamento. Os fautores dessa tendência, para defender a sua causa, invocam indevidamente a carta que há não muito tempo a Comissão Pontifícia para os estudos bíblicos enviou ao arcebispo de Paris. Essa carta adverte claramente que os onze primeiros capítulos do Gênesis, embora não concordem propriamente com o método histórico usado pelos exímios historiadores greco-latinos e modernos, não obstante, pertencem ao gênero histórico em sentido verdadeiro, que os exegetas hão de investigar e precisar; e que os mesmos capítulos, com estilo singelo e figurado, acomodado à mente do povo pouco culto, contêm as verdades principais e fundamentais em que se apoia a nossa própria salvação, bem como uma descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. Mas, se os antigos hagiógrafos tomaram alguma coisa das tradições populares (o que se pode certamente conceder), nunca se deve esquecer que eles assim agiram ajudados pelo sopro da divina inspiração, a qual os tornava imunes de todo erro ao escolher e julgar aqueles documentos.

39. Todavia, o que se inseriu na Sagrada Escritura tirado das narrações populares, de modo algum deve comparar-se com as mitologias e outras narrações de tal gênero, as quais procedem mais de uma ilimitada imaginação do que daquele amor à simplicidade e à verdade que tanto resplandece nos livros do Antigo Testamento, a tal ponto que os nossos hagiógrafos devem ser tidos neste particular como claramente superiores aos antigos escritores profanos.

IV. DIRETRIZES

40. Sabemos, é verdade, que a maior parte dos doutores católicos que, com sumo proveito trabalham nas universidades, nos seminários e nos colégios religiosos, estão muito longe desses erros que hoje aberta e ocultamente se divulgam, ou por certo afã de novidades, ou por imoderado desejo de apostolado. Porém, sabemos também que tais opiniões novas podem atrair os incautos, e, por isso mesmo, preferimos nos opor aos começos do que oferecer remédio a uma enfermidade inveterada.

41. Pelo que, depois de meditar e considerar largamente diante do Senhor, para não faltar ao nosso sagrado dever, mandamos aos bispos e aos superiores religiosos, onerando gravissimamente suas consciências, que com a máxima diligência procurem que, nem nas classes, nem nas reuniões, nem em escritos de qualquer gênero, se exponham tais opiniões de modo algum, nem aos clérigos, nem aos fieis cristãos.

42. Saibam quantos ensinam em institutos eclesiásticos que não poderão em consciência exercer o oficio de ensinar, que lhes foi confiado, se não receberem religiosamente as normas que temos dado e se não as cumprirem escrupulosamente na formação dos discípulos. E procurem infundir nas mentes e nos corações dos mesmos aquela reverência e obediência que eles próprios em seu assíduo labor devem professar ao magistério da Igreja.

43. Esforcem-se com todo o alento e emulação por fazer avançar as ciências que professam; mas, evitem também ultrapassar os limites por nós estabelecidos para salvaguardar a verdade da fé e da doutrina católica. Às novas questões que a moderna cultura e o progresso do tempo suscitaram, apliquem sua mais diligente investigação, entretanto, com a conveniente prudência e cautela; e, finalmente, não creiam, cedendo a um falso 'irenismo', que os dissidentes e os que estão no erro possam ser atraídos com pleno êxito, a não ser que a verdade íntegra que está viva na Igreja seja ensinada por todos sinceramente, sem corrupção nem diminuição alguma.

V. CONCLUSÃO

44. Fundados nessa esperança, que vossa pastoral solicitude ainda aumentará, concedemos, de todo o coração, como penhor dos dons celestiais e em sinal de nossa paterna benevolência, a todos vós, veneráveis irmãos, ao vosso clero e ao vosso povo, a bênção apostólica.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

TESOURO DE EXEMPLOS (125/127)


125. OLÁ! VOCÊ VIROU CAROLA?

Pedro Jorge Frassati, falecido santamente em Turim em 4 de abril de 1925, era filho de um ilustre embaixador. Muito rico, conservou, entretanto, sua inocência, sua fé e um coração extremamente sensível às misérias alheias. Tornou-se um campeão de Cristo e um apóstolo do bom exemplo. Frassati não era desses que só praticam a religião quando encerrados dentro de quatro paredes. A propósito lê-se em sua biografia o seguinte fato.

Um dia, ao sair de uma igreja, conservava ainda na mão o seu rosário. Um conhecido passando por ali justamente naquele momento e, não perdendo a ocasião, diz-lhe, mofando:
➖ Olá, Jorge! você virou carola?
E Jorge, sem se perturbar, respondeu prontamente:
➖ Não; eu continuo apenas um bom cristão; e disso não me envergonho, antes me glorio.

Antes de expirar - e contava então somente vinte e quatro anos de idade - Frassati fez a seguinte profissão de fé: 'Cada dia compreendo melhor a graça de ser católico. Pobres, infelizes os que não têm fé. Viver sem a fé, sem uma herança que se possa defender, sem uma verdade que se possa sustentar por um combate contínuo, não é viver, é vegetar. Não devemos vegetar, devemos viver; porque, apesar de todas as decepções, devemos lembrar-nos sempre que somos os únicos a possuir a verdade. Temos uma fé que defender, e a esperança de chegar à nossa Pátria. Para o alto os corações e avante sempre pelo triunfo do reinado de Cristo na sociedade. E Jorge Frassati foi um desses apóstolos do reino de Cristo na sociedade; foi um militante da Ação Católica, foi um combatente ardoroso até à morte.

126. A COLEGIAL QUE SE CONVERTEU

Estudava em um colégio de irmãs uma menina de treze anos apenas. Era uma alma forte; era um coração indômito. Não sei o que tinha aquela criatura, mas exercia uma influência poderosa sobre todas as colegas que viviam com ela. Quando pregava a revolução entre as suas companheiras, contra as ordens das Irmãs, a revolução estalava tumultuosa, e só a mão forte da Superiora conseguia impor de novo a disciplina.

Um dia aquela menina altiva e insolente foi severamente repreendida e castigada. Aquela tarde não poderia sair a passeio com as colegas. Tinha que ficar no colégio, escrevendo cem vezes estas palavras: 'Primeiro mandamento da lei de Deus: Amarás o senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças'.

Ficou na sala vigiada por uma professora. Pôs o papel diante de si e começou a escrever: 'Primeiro mandamento da lei de Deus: Amarás o senhor, teu Deus...' E continuou escrevendo... Logo estava cansada. Largou a pena e passou os olhos pela sala. Bem em frente, pendurada na parede, estava uma imagem de Jesus Crucificado. Contemplou-o como jamais o contemplara. Parecia-lhe que aquelas palavras que acabava de escrever, a ela eram dirigidas por aquele santo Cristo, que tinha diante dos olhos. Lentamente, solenemente, com acento de ternura, com olhos cheios de lágrimas, dizia-lhe aquele Deus amoroso: 'Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração'...

O que se passou então naquela alma forte e naquele coração indômito, que lhe saltaram as lágrimas e ali mesmo se ajoelhou e se fixaram longo tempo os olhos daquele Deus-Amor e daquela menina-revolução? Em seguida levantou-se e pediu humildemente licença à mestra para ir uns instantes à capela. Tinha sede de falar de mais perto com Deus e Deus estava ali, a dois passos dela, no sacrário.

Quando se levantou estava transformada. Desde aquele dia foi a santa do colégio. Anos mais tarde, quando o capelão e o confessor falavam dela, diziam: 'as almas ou são grandes santas ou grandes pecadoras'. Naquela tarde de sua vida começou a ser santa e o foi até o fim, até o heroísmo.

127. COMO MORRE UM VIGÁRIO

O pároco de Constantina, em terras de Sevilha, era um homem de fé ardente. Prenderam-no os bárbaros comunistas, lançaram-no numa asquerosa prisão, deram-lhe muitas pauladas, negaram-lhe todo o alimento e, por fim, fizeram em nome do comunismo o que não poderiam deixar de fazer, isto é, saquearam a casa paroquial e a igreja.

Mas foram mais longe: conduziram-no à praça pública e ali o apresentaram àqueles mesmos paroquianos pelos quais ele havia trabalhado durante vinte e seis anos. A multidão, enfurecida pelos vermelhos, saciou contra ele o seu ódio vil. Levaram-no outra vez à igreja. Cinco dias durava já o martírio; há cinco dias que não via sua querida igreja paroquial. Ao entrar nela voltou-se com grave dignidade para aqueles sacrílegos, e lhes disse:
➖ Perdoo-vos o que a mim me tendes feito; mas profanastes a igreja de Deus e sentireis o peso da justiça divina.

Aproximou-se do altar do Santíssimo e... que dor! Viu que as sagradas partículas tinham sido atiradas ao chão. Quis ajuntá-las, mas não pôde. Derrubaram-no por terra e ali mesmo o golpearam barbaramente. Quando quis dizer: 'Viva Cristo Rei!' não terminou, pois um vil assassino atravessou-lhe a cabeça com uma bala.

Alguns meses mais tarde, em 15 de dezembro, quando a cidade de Constantina caiu em poder das tropas espanholas, ordenou a câmara que desenterrassem o cadáver do pároco. Estava perfeitamente incorrupto. Tinha sobre o peito um crucifixo. Aquele santo Cristo se lhe incrustara completamente na carne. Conseguiram separá-los, mas a cruz ficou para sempre gravada no peito do mártir. Ficou incrustada a cruz em seu peito. Trazei também vós no coração o espírito de Jesus Cristo e, estou certo, não deixareis de perdoar a todos os vossos inimigos.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

domingo, 23 de janeiro de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!' (Sl 18B)

 23/01/2022 - Terceiro Domingo do Tempo Comum

9. O UNGIDO DO PAI


O Evangelho de São Lucas traduz, em larga escala, a personalidade ímpar do autor, de alguém que, embora possa não ter sido testemunha ocular dos acontecimentos narrados: 'como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra' (Lc 1, 2), elaborou uma obra regida particularmente pelo rigor da informação e por uma ordenação lógica dos eventos associados à vida pública de Jesus: 'após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado' (Lc 1, 3), o que a torna fruto do trabalho de um eminente escritor e historiador: 'Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste' (Lc 1, 4).

Desta forma, a par a semelhança e a mesma contextualização geral com os demais evangelhos sinóticos (São Mateus e São Marcos), o evangelho de São Lucas é pautado por uma visão própria, objetiva e cronológica da doutrina e dos ensinamentos públicos de Jesus (tempo presente da narrativa), inserida num contexto histórico do passado (Antigo Testamento) e do futuro (tempo da Igreja), incorporando, assim, um caráter muitíssimo pessoal e, portanto, original, à transcrição das mensagens evangélicas.

Após um preâmbulo típico do rigor objetivo do historiador, São Lucas desvela o instrumento de evangelização adotado por Jesus - a pregação pública e sua estrita observância, neste sentido, aos preceitos da Lei - a leitura, aos sábados, da palavra sagrada nas sinagogas. No seu primeiro retorno à Nazaré, foi convidado a ler e a comentar uma passagem do Livro de Isaías: 'Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor' (Lc 1, 17 - 19).

Ao recolher o rolo de pergaminho e se sentar, ao final da leitura 'todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele' (Lc 1, 20), porque, de certa forma, compreendiam a grandiosidade deste momento, que se materializou, então, com a manifestação direta e sucinta de Jesus: 'Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir' (Lc 1, 21), anunciando aos homens ser Ele o Ungido pelo Espírito Santo para fazer novas todas as coisas, para abrir os tempos do Messias esperado por todo Israel e para testemunhar aos homens a presença viva do Reino de Deus sobre a terra.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A VIDA OCULTA EM DEUS: A MODÉSTIA DA ALMA

 

A alma interior ama a paz. Suas preferências a levam a uma vida muito simples. Ela tem gostos modestos. As ocupações mais humildes da vida cotidiana não a desagradam; muito pelo contrário. Ela se dedica a eles com prazer. Trabalha seu jardim em silêncio; cuida para que seja muito limpo e bem cultivado; encoraja pequenas virtudes; interessar-se pelas folhas de grama e pela flor que se abre e se desenvolve são coisas que a encantam. Pois, no seu entendimento, nada deve ser negligenciado quando se trata de tornar o próprio coração mais agradável ao Coração de Deus e aumentar em todos os pontos a sua semelhança com o coração de Jesus.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte III - A União com Deus; tradução do autor do blog)