sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PADRE PIO E AS VOZES MISTERIOSAS

Durante a Primeira Guerra Mundial, a porta principal do monastério de Nossa Senhora das Graças era mantida fechada todas as noites, depois do toque da hora do Angelus. Uma barra de ferro era colocada na porta e o monastério ficava protegido contra estranhos.

Uma certa noite, o Superior do monastério, o Padre Raffaele, foi perturbado por vozes que gritavam em coro: 'Viva o Padre Pio,! Viva o Padre Pio! Viva o Padre Pio!' Descontente com aquela presença de intrusos, comunicou imediatamente ao porteiro, o irmão Gerardo, que pessoas estranhas haviam adentrado ao monastério, mesmo após as portas já fechadas. Ordenou ao irmão que fosse até elas, e as intimassem peremptoriamente a sair do local.

Assim o fez o Irmão Gerardo e, descendo ao pátio, encontrou as portas cerradas e nenhuma pessoa no interior do monastério  - 'Não há ninguém e as portas estão fechadas'. O Padre Raffaele ficou perplexo porque tinha ouvido não uma, mas várias vozes em uníssono, em claro e bom som, saudando o padre Pio: 'Viva o Padre Pio,! Viva o Padre Pio! Viva o Padre Pio!'

Ciente também que no Monastério de Nossa Senhora das Graças ocorriam diversos fatos bem incomuns e que estes fatos estavam sempre associados à pessoa do Padre Pio. O Padre Raffaele havia vivido com o Padre Pio o tempo suficiente para saber que ele vivia em uma realidade sobrenatural. Sobre ele, um dos capuchinos dizia - 'Padre Pio vive com um pé na terra e outro no céu'. Resolveu, assim, procurar o Padre Pio na manhã seguinte para discutir o assunto.

Na manhã seguinte, Padre Raffaele questionou o Padre Pio sobre as misteriosas vozes que tinha ouvido na noite anterior. - 'Todas as portas estavam fechadas e eu tive certeza de que algumas pessoas haviam entrado no monastério e gritavam: 'Viva o Padre Pio! Viva o Padre Pio! Viva o Padre Pio!' Mas quando o irmão Gerardo desceu as escadas para colocar essas pessoas para fora, não encontrou ninguém. Você pode me explicar o que pode ter acontecido?'

Padre Pio respondeu candidamente: 'Eram as almas dos soldados falecidos que haviam subido a colina e vindo ao monastério para agradecer as minhas orações. Há mais almas de mortos que de vivos que sobem a colina do monastério para pedir as minhas orações'.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

PROFECIAS DE SANTO ÂNGELO DA SICÍLIA



Profecia de Santo Ângelo da Sicília ou de Jerusalém (1185-1220)

O santo pediu ao Senhor que tivesse piedade da Igreja e livrasse Jerusalém dos seus inimigos. O Senhor contestou:

Quando meu povo conhecer seus próprios erros e contrito fizer penitência de seus pecados, abraçar a justiça e perseverar nela, virá aquele que deve livrar a cidade santa, que estabelecerá a paz nas nações e que será o consolo dos justos.

E quem será este homem - perguntou Ângelo - que deve libertar vossa cidade?

O Senhor respondeu benignamente:

Virá um Rei da antiga gente e da estirpe da França, insigne por sua piedade para com Deus, o qual será bem acolhido e amado por todos os príncipes cristãos que professam a fé ortodoxa.

Seu poder aumentará por mar e por terra: ajudará a Igreja para que recupere, seus mais indispensáveis pertences já quase todos perdidos, e unido ao Romano Pontífice, fará que a Cristandade seja purgada de seus erros, e restituirá a Igreja àquele estado no qual os bons sempre desejaram vê-la. 

Ele reunirá exércitos e os mandará aonde for necessário: grande multidão de gente armada o seguirá: e aqueles que nestes combates derramarão seu sangue em honra de meu nome terão glória e prêmio eterno. Este monarca também, havendo reunido uma poderosa frota, passará o mar e livrará a cidade santa de Jerusalém, restabelecerá meu culto e reedificará as Igrejas destruídas.

Dito isso, o Senhor desapareceu.

'Excertos da obra 'Las profecias en relacion al estado actual y al destino futuro del mundo, sobre el fin de la revolución, imperio del gran monarca e triunfos de la iglesia catolica', cap. XXVII, p. 117 - 118).

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

16 DE OUTUBRO - SANTA MARGARIDA ALACOQUE


A esta humilde religiosa da Visitação, Jesus Cristo delegou a missão de difundir ao mundo a Devoção ao seu Amantíssimo Coração (1675). Quantas dores e sacrifícios heroicos não custaram a essa pequena serva para cumprir à risca tão profundos desígnios divinos.  No último retiro antes de sua morte, eis as palavras da santa do Coração de Jesus que expressam a beleza singular de sua alma:

'No primeiro dia do retiro, a minha ocupação consistia em pensar donde provinha o meu grande desejo de morrer, pois não é próprio de uma pecadora como eu o desejar comparecer perante o seu Juiz cuja santidade penetra até aos nossos mais íntimos recessos. Como podes, pois, ó minha alma sentir tamanha alegria ao aproximar-se a morte? Tu só pensas em pôr termo ao teu desterro e exultas de gozo ao pensar que em breve sairás da tua prisão. Toma cuidado, porém, para que de uma alegria temporal, filha talvez da ignorância, e da cegueira, não precipites na tristeza eterna e desta prisão mortal e passageira não caias naquele cárcere eterno, onde se extingue a esperança. Deixemos, pois, ó minha alma, esta alegria e este desejo de morrer às almas santas e fervorosas, para as quais estão reservadas as grandes recompensas. Pensemos qual não seria a nossa sorte, se não fora a bondade de Deus para conosco ainda maior que a sua justiça. As nossas obras nenhuma outra coisa nos deixam esperar senão castigos. Poderás tu, ó minha alma, suportar eternamente a ausência d'Aquele cuja presença te causa tantas consolações e cuja privação te faz sentir tão cruéis tormentos? Meu Deus, como são difíceis essas contas! Na impossibilidade de as fazer eu mesma, volto-me para Vós que sois o meu adorável Mestre. Confio-Lhe todos os pontos sobre que devo ser julgada: as nossas regras, as nossas constituições, a nossa direção'.

'Depois de Lhe haver confiado todos os meus interesses, experimentei uma paz admirável. Jesus conservou-me muito tempo aos seus pés, como que abismada na minha nulidade, à espera da sentença que pronunciará sobre esta sua miserável criatura.'

'Sinto-me incapaz de solver as minhas dívidas; bem o vedes Vós, ó meu Divino Mestre. Ponde-me na prisão; aí ficarei contente, contanto que seja no vosso Divino Coração; e quando nEle me tiverdes encerrado, apertai-me bem com as correntes do vosso amor e conservai-me assim enquanto eu não vos pagar tudo o que vos devo; e como nunca o poderei fazer, não me solteis jamais'.

É TEMERÁRIO PEDIR GRAÇAS EXTRAORDINÁRIAS

'Os dons extraordinários não de­vem ser temerariamen­te pedidos, nem deles devem presunçosa­mente ser esperados fru­tos de obras apostólicas (Lumen Gentium, nº 33)

Quando souberdes ou ouvirdes dizer que Deus concede fa­vores [sobrenaturais] às almas, nunca Lhe supliqueis que vos leve por esse caminho, nem aspireis a is­so. Ainda que tal caminho vos pareça muito bom, devendo ser apreciado e re­verenciado, não con­vém agir assim por algumas razões. 

Em primeiro lugar, por­que é falta de humil­dade desejar o que nunca merecestes; portanto, creio que não a tem muita quem assim se compor­ta... E julgo que eles (os favores sobrenatu­rais) nunca ocorrerão, uma vez que o Se­nhor, antes de conceder essas graças, dá um grande conhecimento próprio. E como entenderá sin­ceramente quem alimenta tais ambições, que já recebe grande misericórdia em não es­tar no inferno?

Em segundo lugar, porque é muito fácil haver engano ou risco de o ha­ver. O demô­nio não precisa senão de uma porta aberta para armar mil embus­tes. 

Em terceiro lugar, porque a própria imagina­ção, quando há um grande desejo, leva a pessoa a acreditar que vê e ouve aquilo que deseja, tal como os que, querendo uma coisa durante o dia e pensando muito sobre isso, sonham com ela à noite.

Em quarto lugar, porque é extremo atrevimento eu desejar es­colher um caminho, já que não sei qual o melhor. Pelo contrário, devo deixar que o Se­nhor, que me conhece, me leve por aquele que me convém, para em tudo fa­zer a sua Vontade. 

E, em quinto lugar, julgais que são poucos os sofrimentos padecid­os por aqueles a quem o Se­nhor concede essas graças? Não, são imensos e se manifestam de diversas maneiras. E sabeis vós se se­ríeis pes­soas capazes para pa­decê-los? 

Por último, porque talvez por aí mesmo onde pensais ga­nhar, perder­eis – como ocorreu a Saul, por ser rei (I Rs 15, 10-11). Enfim, irmãs, além dessas há outras. Crede-me que o mais seguro é não desejar se­não o que Deus deseja, pois Ele nos conhece e nos ama mais do que nós mesmos. E não poderemos er­rar se, com a determinação da vontade, agirmos sempre as­sim.

(Santa Teresa de Ávila)

domingo, 15 de outubro de 2017

O BANQUETE REAL

Páginas do Evangelho - Vigésimo Oitavo Domingo do Tempo Comum 


No seu ministério público, Jesus falava muitas vezes em forma de parábolas, para incutir nos homens os ensinamentos da Boa Nova, sem lhes ferir demasiado as susceptibilidades da prática consolidada sobre valores falsos ou essencialmente humanos. Neste contexto, o plano divino de salvação da humanidade é apresentado na analogia de que 'o Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir' (Mt 22, 1-2).

O convite pressupõe uma convocação; a festa foi preparada em todos os detalhes e todos os convidados têm lugares específicos reservados na mesa do banquete; a eles está destinado as iguarias mais refinadas - símbolo dos mistérios da graça associados à Visão Beatífica e à plena vida em Deus. Mas muitos 'não quiseram ir' (Mt 22, 2), começando pelos hebreus, o povo escolhido do Antigo Testamento. Muitos e muitos outros seguirão neste caminho de recusa explícita, seja pela indiferença, seja pelo envolvimento total nos seus próprios interesses pessoais e mundanos.

A reação do rei é imediata: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’ (Mt 22, 8 - 9). Diante do não do povo escolhido, o Senhor faz a opção pelos outros, os gentios do mundo, por todos os homens que acreditaram e assumiram a doutrina do seu Filho, vítima de amor sacrificada pelo triunfo da Cruz. Ir a todas as encruzilhadas e a todos os cantos do mundo é a vocação missionária da Igreja de todos os tempos, para buscar os eleitos para a grande festa do Senhor.

No banquete real, somente serão aceitos os convidados que estiverem usando o 'traje de festa' (Mt 22, 11), ou seja, estiverem revestidos do estado de graça, premissa das almas adentrarem o Reino dos Céus. Assim, até mesmo os que fizeram parte da Igreja - os convidados - mas que usufruíram de uma fé sem obras e não produziram os frutos da graça serão julgados inconvenientes no grande dia do Juízo e serão expulsos do banquete e, assim, perderão definitivamente o Reino dos Céus e serão jogados às trevas, onde só haverá choro e ranger de dentes. Nós devemos ter o firme propósito de servir a Cristo na fé e nas obras, para nos tornarmos os convivas do banquete real por toda a eternidade, tangidos pela misericórdia e não pela justiça divina, porque 'muitos são chamados, e poucos são escolhidos' (Mt 22, 14).

sábado, 14 de outubro de 2017

AS LÁGRIMAS NASCEM DO CORAÇÃO

Há lágrimas imperfeitas, que se fundamentam no temor servil. Em primeiro lugar, as lágrimas de condenação, próprias dos pecadores; em seguida, as lágrimas de medo, encontradas naqueles que deixam o pecado mortal por medo de castigo e choram; em terceiro lugar, as lágrimas de autoconsolação, derramadas pelas almas livres do pecado mortal que começam a servir-Me. Estas últimas também são imperfeitas, pois imperfeito ainda é o amor de onde procedem. 

Lágrimas perfeitas são as que procedem do homem que atingiu a perfeição do amor pelo próximo e que me ama desinteressadamente. Unidas a estas últimas estão as lágrimas de prazer, espirituais, versadas em grande suavidade, como direi mais longamente depois. Há, enfim, as lágrimas de fogo, espirituais, concedidas àqueles que desejam chorar e não conseguem. Todas essas lágrimas podem ocorrer numa única pessoa em sua caminhada do temor servil ao amor imperfeito e, depois, do amor perfeito à união. 

Deves saber que toda lágrima nasce do coração. Nenhum membro corporal é tão sensível aos impulsos do coração como os olhos; se o coração sofre, logo eles o revelam. Também quando o sofrimento do coração é causado pelos pecados, os olhos derramam lágrimas, que são de morte. São lágrimas de quem vive longe de Mim, no amor dissoluto. Como o coração Me ofende, sua dor produz morte, gera lágrimas mortais. A gravidade da culpa será maior ou menor, conforme a desordem no amor. Assim, os pecadores choram lágrimas mortais.

...

As primeiras são próprias das pessoas que vivem em pecado mortal. As lágrimas brotam do coração; como aqui a fonte está corrompida, o pranto é pecaminoso e mau, bem como todas as demais atividades.

As segundas lágrimas pertencem àqueles que começam a ter consciência dos próprios males e temem os castigos consequentes. Constitui o comum início de conversão, misericordiosamente concedido por Mim aos homens fracos e desorientados que vão se afogando pelo rio do pecado e desprezando a mensagem do Meu Filho. Infelizmente são numerosíssimos os pecadores que conscientes, sem nenhum temor, continuam no pecado. Alguns repentinamente sentem grande descontentamento de si mesmos e passam a considerarem-se dignos de castigos; outros, arrependem-se por terem Me ofendido e com bonomia se põem a servir-Me. 

De todos eles, certamente têm maior possibilidade de atingir a perfeição aqueles que se convertem com grande ardor; mas esforçando-se todos o conseguirão. Os primeiros terão de preocupar-se em não ficar no temor servil; os segundos, em não cair na tibieza. Trata-se de um acordar geral à santidade. 

As terceiras lágrimas estão nas pessoas que superaram o temor servil e atingiram o amor e a esperança. Percebem que lhes perdoei, sentem favores e consolações. Para concordar com o coração, choram. Como são imperfeitas, conforme expliquei, trata-se de um pranto ao mesmo tempo sensível e espiritual.

As quartas lágrimas acontecem com a prática das virtudes. Crescendo o desejo da alma, a pessoa se une e se conforma à Minha vontade; quer o que Eu quero, ama profundamente o próximo. É um pranto de amor por Mim e de dor pelos pecados e prejuízos sofridos pelo próximo.

As quintas lágrimas, próprias da última perfeição, completam as anteriores. Em união com a verdade eterna, estes progridem muito no desejo santo. Por esse motivo, o demônio os teme e não consegue prejudicar-lhes a alma, seja com ofensas, pois são pacientes na caridade, seja com atrativos espirituais e materiais, por eles humildemente desprezados.


(Excertos da obra 'O Diálogo', de Santa Catarina de Sena)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

100 ANOS DE FÁTIMA - SEXTA APARIÇÃO

Fátima é o acontecimento sobrenatural mais extraordinário de Nossa Senhora e a mais profética das aparições modernas (que incluíram a visão do inferno, 'terceiro segredo', consagração aos Primeiros Cinco Sábados, orações ensinadas por Nossa Senhora às crianças, consagração da Rússiamilagre do sol e as aparições do Anjo de Portugal), constituindo a proclamação definitiva das mensagens prévias dadas pela Mãe de Deus em Lourdes e La Salette. Por Fátima, o mundo poderá chegar à plena restauração da fé e da vida em Deus, conformando o paraíso na terra. Por Fátima, a humanidade será redimida e salva, pelo triunfo do Coração Imaculado de Maria. Se os homens esquecerem as glórias de Maria em Fátima e os tesouros da graça, serão também esquecidos por Deus.

'por fim, o meu Imaculado Coração triunfará'


FÁTIMA EM FATOS E FOTOS (XIII)

61. Como se deu a sexta aparição de Nossa Senhora?

A Cova da Iria foi invadida por uma imensa multidão naquela manhã do dia 13 de outubro de 1917, movidos pela aparição em si e pela promessa do milagre da Virgem. Cerca de 70 mil pessoas se aglomeravam no local, muitos deles desde a noite anterior, protegidos da chuva incessante por roupas grossas e  botas (como era costumeiro na época, muitas mulheres estavam descalças). As pessoas ficavam praticamente confinadas pelas outras e pelo terreno completamente encharcado e lamacento. 

Por volta das dez horas da manhã, a chuva tornou-se um aguaceiro e um mar de guarda-chuvas pretos se esparramou pela charneca de Fátima. Por volta do meio dia, a chuva tornara-se mais fina e irregular e o povo agora rezava em silêncio. Um arco rústico, ladeado por um arranjo retangular de pedras arrumadas e com uma pequena abertura frontal, havia sido montado diante da pequena azinheira, a esta altura praticamente reduzida ao seu tronco central e enfeitada por flores e fitas por Maria da Capelinha. 


Lúcia foi acompanhada pela mãe que temia de fato pela vida da filha. Os pais de Francisco e Jacinta também se colocaram junto à azinheira. Passou o meio dia. Uma certa apreensão começou a tomar conta dos mais próximos às três crianças. Mas, então, olhando para o nascente, Lúcia vislumbrou o relâmpago e se pôs de joelhos, pedindo a Jacinta que fizesse o mesmo. Em seguida, viram Nossa Senhora, envolvida numa torrente de luz, pairando sobre as grinaldas de flores que ornavam a pequena azinheira.

62. Como foi o diálogo de Lúcia com Nossa Senhora nesta sexta aparição?

Com os olhos fixados na Virgem, Lúcia deu início ao diálogo da sexta aparição:

– Que é que Vossemecê me quer?
– Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para as suas casas.
– Eu tenho muitas coisas para Lhe pedir: a cura de uns doentes e a conversão de alguns pecadores... 
– Uns sim, outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. 

E tomando um aspecto singularmente triste, continuou: 

– Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido!
– Não quer mais nada de mim?
– Não quero mais nada.
– E eu também não quero mais nada.

Nossa Senhora abriu então as mãos e se elevou numa torrente de luz tão intensa, que parecia espargir pelo firmamento e empalidecer a própria luz solar. Em êxtase, as crianças viram Nossa Senhora desaparecer em meio a um turbilhão de luz.

(reconstituição ilustrativa da aparição)

63. Quais foram as visões de Lúcia ao final da sexta aparição?

Foram três as visões de Lúcia, em quadros sucessivos que se desvaneciam em sequência: 

(i) Visão da Sagrada Família: São José e o Menino Jesus em seus braços faziam gestos com as mãos em forma de cruz, como que abençoando o mundo; ao lado deles, Nossa Senhora estava vestida de branco e coberta com um manto azul (como Nossa Senhora do Rosário);

(ii) Visão de Jesus e Nossa Senhora: Jesus Cristo, como o Divino Redentor, vestido de vermelho e a abençoar o Mundo, junto a Nossa Senhora, vestida de roxo como Nossa Senhora das Dores; 

(iii) Visão de Nossa Senhora: Nossa Senhora como Nossa Senhora do Carmo.

Somente a primeira destas visões foi compartilhada pelos demais videntes. Ninguém da multidão foi testemunha de quaisquer destas visões. 

64. Quais foram os eventos que se seguiram então na Cova da Iria?

Ao final da aparição, no lado oposto do céu, as nuvens pesadas abriram-se de repente e o sol apareceu radiante. A multidão reunida na Cova da Iria, volvendo-se para trás, foi testemunha, então, de um série extraordinária de fenômenos  que ficou conhecida como 'o milagre do sol', que podem ser assim sintetizados:

(i) o sol tinha a forma de um disco luminoso, com a borda claramente delineada como um faixo luminoso e podia ser visado diretamente por longo tempo, sem cegar ou fuscar a visão das pessoas;

(ii) o sol pareceu dançar no firmamento, passando a girar aceleradamente sobre o seu eixo para, em seguida, interromper e recomeçar outras vezes esse movimento vertiginoso; 


(iii) o sol começou a irradiar luzes diferentes e cambiantes, que foram disseminadas e refletidas sobre todo o ambiente da Cova da Iria (sobre as pessoas, a paisagem, os montes e as árvores);

(iv) ao final dos eventos, o sol pareceu precipitar-se sobre a terra num movimento apocalíptico que produziu nas pessoas um enorme temor e uma impressão geral de 'fim do mundo'; interrompendo esse processo de arremetida em ziguezague, o sol retornou então à sua posição natural e passou a ser visto na sua conformação original e ofuscante à visão direta;

(v) os mesmos fenômenos foram vistos por inúmeras outras pessoas, muitas delas a quilômetros de distância da Cova da Iria.

(fotografia publicada pelo jornal  L'Osservatore Romano em 1951)

65. Como foi publicada à época a reportagem mais famosa do 'milagre do sol'?

A reportagem à época mais famosa dos extraordinários acontecimentos ocorridos em Fátima em 13 de outubro de 1917 foi feita pelo jornalista Avelino Almeida*, testemunha ocular dos acontecimentos, e publicada no dia 15/10/1917 pelo jornal 'O Século' de Lisboa. 

*  nasceu em Sintra em 10 de novembro de 1873 e faleceu em Lisboa em 2 de de agosto de 1932.

O texto descrevia o ambiente local, a chuva torrencial, a grande multidão e o chamado 'milagre do sol'. A manchete principal e os respectivos subtítulos da reportagem eram os seguintes:

COISAS ESPANTOSAS! COMO O SOL BAILOU AO MEIO DIA EM FÁTIMA

As aparições da Virgem – Em que consistiu o sinal do céu – Muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre – A guerra e a paz


Seguia-se então uma fotografia com os três videntes e o texto extenso, do qual são destacados os seguintes excertos relativos ao chamado 'milagre do sol':

... 'A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se – asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha dele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zênite. 

O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espetadores que se encontram mais perto se ouve gritar: – 'Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!' Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas – o sol 'bailou', segundo a típica expressão dos camponeses...

... 'E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior número confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porém, declaram ter visto o rosto risonho da própria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artifício, que ele baixou quase a ponto de queimar a terra com os seus raios... Há quem diga que o viu mudar sucessivamente de cor...'

Um relato adicional pormenorizado dos eventos feito pelo mesmo jornalista, mas complementado por um grande número de fotografias da multidão presente na Cova da Iria, foi publicado posteriormente pela revista 'Illustração Portugueza', na sua edição de 29 de outubro de 1917, sob o título 'O Milagre de Fátima'.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA APARECIDA

Jubileu de 300 anos de Nossa Senhora Aparecida

A história é bem conhecida: em 1717, Dom Pedro de Almeida Portugal e Vasconcelos (Conde de Assumar), efetivado como governador das Capitanias de São Paulo e Minas Gerais, viajou de navio de Portugal a Santos, com grande comitiva. Tomando posse do governo em São Paulo, seguiu rumo às minas de ouro em Minas Gerais, fazendo uma longa parada em Guaratinguetá, no período de 17 a 30 de outubro. Para a recepção do ilustre viajante, foram-lhe servidos os melhores pratos da culinária local, incluindo os saborosos pescados do Rio Paraíba do Sul.

Para a nobre tarefa de pescar uma grande quantidade de peixes, foram convocados os pescadores Domingos Alves Garcia, seu filho João Alves e Felipe Pedroso, cunhado de Domingos, entre outros. Entretanto, mesmo com o conhecimento enorme que tinham dos melhores pontos de pesca, não conseguiam nada. Mas algo extraordinário estava para ocorrer. Na rede lançada, surgiu primeiro uma pequena imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça, que foi recolhida e guardada com zelo pelos pescadores no fundo do barco. E eis que, numa nova investida, mais abaixo no rio, sem nada de peixe, veio a cabeça da imagem. Um objeto de dimensões tão reduzidas coletado do leito largo e vigoroso do Paraíba do Sul! E, surpresa ainda maior, novas investidas da rede trouxeram agora cardumes de peixes, em tão grande quantidade, repetindo-se, no largo do Porto de Itaguaçu, o milagre de Cristo no Mar da Galileia.


Cientes dos fatos extraordinários ocorridos, os pescadores locais recuperaram a imagem e passaram a venerá-la em suas casas, como imagem peregrina, até que a mesma foi colocada em pequeno oratório na casa de Atanásio Pedroso, filho de Felipe, e depois, com o culto já generalizado na ‘Nossa Senhora Aparecida’, erigiu-se uma pequena capela de sua devoção em Itaguaçu, com o apoio do Padre José Alves Vilela, pároco da Igreja de Santo Antônio de Guaratinguetá. Sob a sua coordenação, a devoção recebeu a aprovação episcopal e foi construída, então, a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no chamado Morro dos Coqueiros, inaugurada em 1745, apenas 28 anos após o achado da imagem. Em torno da igreja, implantou-se rapidamente uma comunidade que constitui hoje a cidade de Aparecida. A igreja tornou-se de imediato centro de romarias e de devoções marianas de toda a natureza.


Com a intensa participação popular e, pela ausência de sacerdotes no Brasil, optou-se pela solicitação de auxílio junto a comunidades religiosas europeias. Em 1894, com a chegada dos padres redendoristas alemães, as atividades religiosas, os cultos e as romarias tornaram-se muito mais organizados, favorecendo muito a rápida difusão da evangelização e a consolidação da igreja como santuário de frequente peregrinação. Tais eventos culminaram com a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida em 8 de setembro de 1904 (com manto azul e coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, ofertados pela Princesa Isabel em visita ao santuário em 6 de novembro de 1888) e com a elevação do santuário à condição de Basílica Menor em 29 de abril de 1908. Em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI outorgou o título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do BrasilEm 1967, ano da comemoração do jubileu dos 250 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o Papa Paulo VI ofertou ao Santuário Nacional da Padroeira do Brasil uma Rosa de Ouro, ato repetido pelo Papa Bento XVI em 2007. O dia da Padroeira do Brasil é celebrado em 12 de outubro, feriado nacional. 

As enormes e crescentes manifestações populares exigiram a construção de uma nova basílica, com dimensões e infraestrutura compatíveis com o maior centro de peregrinação espiritual do Brasil que se tornou Aparecida. Desta forma, entre 1955 e 1980, foi construída a atual Basílica, inaugurada a 04 de julho de 1980 pelo Papa João Paulo II e elevada a Santuário Nacional em 1984. Que continua a receber milhares de peregrinos, infindáveis romarias, em agradecimento, louvor e veneração à Virgem Padroeira do Brasil. Na Sala das Promessas, em meio a milhares de ex-votos, tem-se uma ideia da admirável senda de prodígios e milagres alcançados por tantos romeiros e fieis, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida.


Em Aparecida, ao contrário de tantos outros centros de peregrinação mariana, a Virgem fez-se aparecer apenas sob a forma de uma pobre e pequena imagem de terracota de 38cm de altura, sem quaisquer visões, mensagens ou prodígios sobrenaturais, para falar aos simples, aos humildes, aos fracos, aos desvalidos, que as almas simples, despojadas de valores intrinsecamente humanos e entregues somente à confiança e à misericórdia de Deus por Maria, são as glórias dos Céus.


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA

Ó Senhora da Conceição Aparecida, que fizestes tantos milagres que comprovam vossa poderosa intercessão junto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, obtende para nossas famílias as graças de que tanto necessitam. Defendei-nos da violência, das doenças, do desemprego e, sobretudo, do pecado, que nos afasta de Vós. Protegei nossos filhos de tantos fatores de deformação da juventude. E concedei a todos os membros de nossas famílias a graça de poderem trilhar o caminho de perfeição e de paz ensinado por Vosso Divino Filho, que afirmou: "Disse-vos estas coisas para que tenhais paz em Mim. Haveis de ter aflições no mundo; mas tende confiança, Eu venci o mundo!" Amém

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

GALERIA DE ARTE SACRA (XXIII)

Uma das obras clássicas da fase madura do grande pintor renascentista Rafael Sanzio é a composição denominada 'A Madona do Peixe', menção à presença do jovem Tobias segurando um peixe, referência, por sua vez, à seguinte passagem do Velho Testamento (Livro de Tobias):

'O pai cego levantou-se e pôs-se a correr, tropeçando. Dando então a mão a um criado, foi ao encontro de seu filho. Abraçou-o e beijou-o, fazendo o mesmo sua mulher, e ambos começaram a chorar de alegria. Só se assentaram depois de terem adorado e agradecido a Deus. Tobias tomou então o fel do peixe e pô-lo nos olhos de seu pai. Depois de ter esperado cerca de meia hora, começou a sair-lhe dos olhos uma belida branca como a membrana de um ovo. Tobias tomou-a e a arrancou dos olhos de seu pai, o qual recobrou instantaneamente a vista' (Tb 11, 10- 15).

A obra foi encomendada por Geronimo del Doce para a capela de Santa Rosa de Lima no Mosteiro de San Domenico (Casa Maggiore dell'Ordine dei Predicatori) em Nápoles / Itália. O peixe é uma alusão direta ao sacramento do batismo, sinal de Cristo. A cura do cego por meio do fel de peixe nos lembra de Cristo curando o homem cego por meio de uma pasta de saliva e pó. 

Um primeiro esboço da composição (26,7 cm x 26,4 cm), feito em giz vermelho sobre papel branco (obra atualmente em Florença na Itália),  representa a Virgem Maria ao centro, com o Menino Jesus no colo, com o jovem Tobias aos pés da virgem, amparado pelo Arcanjo Rafael (o anjo que lhe havia revelado a forma de curar a cegueira do pai com o fel do peixe), e ladeada por São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim, segurando as Sagradas Escrituras, abertas no Livro de Tobias.


Um segundo esboço (25,8 cm x 21,3 cm) encontra-se atualmente em um museu de Edinburgh na Escócia, detalhando melhor o arranjo (por exemplo, a presença do leão, símbolo de São Jerônimo, aos pés do santo) e o contexto geral da composição.


A impressão final em preto e branco (26,2 cm x 21,6 cm) mostra a composição completa, com todos os detalhes das expressões, vestimentas e posições relativas das figuras presentes (British Museum, na Inglaterra).


A obra final (215 cm x 158 cm), em óleo sobre tela (originalmente óleo sobre madeira) encontra-se atualmente no Museu do Prado, em Madri/Espanha.

FOTO DA SEMANA

'A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam'
(Jo 1, 5)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

CONFIANÇA E ESPERANÇA EM DEUS

✓ Arme-se contra mim o céu, amotinem-se a terra e os elementos; declarem-me guerra todas as criaturas; nada temo; basta-me saber que estou com Deus e que Deus está comigo. 

✓ Nunca nosso bom Deus nos abandona senão para melhor nos reter. Nunca nos deixa senão para nos guardar melhor; nunca luta conosco, senão para se entregar a nós e nos abençoar. 

Como seríamos felizes se, submetendo nossa vontade a Deus, O adorássemos quando nos envia tanto tribulações quanto consolações, crendo que os diversos sucessos que nos envia a sua divina mão são para utilidade nossa, para nos purificar na sua santa caridade.

Ruja, pois, a tempestade; não morrereis porque estais com Jesus. Se vos assaltar o temor, gritai: Ó meu Salvador, salvai-me! Dar-vos-á a mão; apertai-a e ide, contentes sem filosofar sobre o vosso mal. Enquanto São Pedro confiou, não o submergiu a tempestade; mas quando temeu, afogou-se.

O temor é um mal ainda maior do que o próprio mal. Quanto a mim, há ocasiões em que me parece não ter mais força para resistir, e que, se se apresentasse a ocasião, sucumbiria; mas então mais confio em Deus, e por mais certo tenho que em presença da ocasião Deus me revestiria com a sua força e devoraria os meus inimigos como argueiros.

Sirvamos, pois, hoje a Deus e Ele amanhã providenciará. Cada dia terá seu cuidado, pois, Deus, que reina hoje, reinará amanhã. Ou não vos enviará males, ou se vos enviar, dar-vos-á a coragem precisa para os suportar. Se sois tentados, não desejeis ser livres das tentações. É bom que as experimentemos, para termos ocasião de as combater e colher vitórias. Isto serve para praticar as virtudes mais excelentes e estabelecê-las solidamente na alma.

Para caminhar seguramente nesta vida, é preciso caminhar sempre entre o temor e a esperança; entre o temor dos juízos de Deus, que são abismos impenetráveis, e a esperança da sua misericórdia, que é sem número e sem medidas, ultrapassando todas as suas obras. É preciso temer os seus divinos juízos, mas sem desânimo, assim como se animar à vista da sua misericórdia. 

✓ O nosso primeiro mal é que nos temos em grande apreço, e se nos acomete algum pecado ou imperfeição, eis-nos admirados, confusos, impacientes, porque pensávamos estar bons, resolutos e tranquilos; e, portanto, quando vemos que não é assim, quando caímos por terra, eis-nos perturbados e ofendidos de nos deixarmos enganar. Se soubéssemos o que somos, em lugar de nos admirar de cairmos, admirar-nos-íamos estar de pé um só dia ou uma só hora.

✓ Esforçai-vos por fazer com perfeição o que fizerdes, e quando estiver feito, não penseis mais nisso; mas pensai no que tendes para fazer, caminhando com singeleza na via do Senhor, sem atormentar o espírito. Convém odiar os defeitos, não com um ódio cheio de despeito, mas com um ódio tranquilo; olhai-os com paciência e fazei-os servir para vos humilharem na vossa estima. Considerai os vossos defeitos com mais dó do que indignação, mais humildade do que severidade, e conservai o coração cheio de um amor doce, sossegado e terno. 

✓ É comum nos que começam a servir a Deus e que ainda não têm experiência da carência da graça e das vicissitudes espirituais, que, quando lhes falta o gosto desta devoção sensível e desta amável luz que os encaminhava nas vias do Senhor, logo perdem as forças e caem em uma grande tristeza e pusilanimidade de coração.

(Excertos da obra 'Pensamentos Consoladores', de São Francisco de Sales)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE OUVI CONTAR (XVIII)

Há muitos anos, num reino distante, vivia um rei muito poderoso e cujo reinado se estendia muito além do alcance de sua visão. Este rei tinha quatro esposas*.

A quarta esposa era, de longe, quem o rei amava mais. Ela era de uma beleza singular e para ela o rei devotava a maior parte do seu tempo, cobrindo-a e cercando-a com as túnicas mais valiosas, as jóias mais resplendentes e as iguarias mais tentadoras. Para ela, dirigiu sempre o que podia ter mais do que tudo, e para ela destinava nada além do que existia de melhor.

O rei amava muito também a sua terceira esposa. Ela era a mais deslumbrante de todas e o rei ficava eufórico quando a ostentava junto consigo, nas cerimônias oficiais ou em viagens a outros reinos. Mas o rei tinha um certo ciúme desta esposa e, assim, a cobria de agrados e cuidados no temor de que pudesse vir a perdê-la.

Em relação à segunda esposa, o rei a amava de uma forma muito terna e especial. Não era a mais bela e nem a mais deslumbrante das esposas, mas nenhuma delas se equiparava a esta em termos de uma ouvinte interessada, confidente extremada, sincera amizade. Em todos os momentos conturbados, em todas as decisões difíceis, era à segunda esposa quem o rei devotava toda atenção e zelo afetivo.

O rei convivia com a primeira esposa, mas seria forçoso demais dizer que ele a amava. Ela não tinha a beleza, nem o esplendor, nem o discernimento das demais esposas. É verdade que ela estava sempre presente, e que nunca pleiteara coisa alguma para si. Mas essa humildade e esse escondimento não agradavam o rei, pois estes definitivamente não combinavam com as suas regalias de honras e poder. A quarta esposa era apenas formal, e o rei não lhe dava atenção maior do que saber que ela existia e que convivia com as suas demais esposas.

********************

Chegando à velhice, coberto de honrarias e louvores, o rei veio a adoecer gravemente de uma doença desconhecida e muito contagiosa. A certeza da morte iminente se apoderou dele e, com maior temor ainda, se defrontava com a ideia de morrer daí a pouco e sozinho. Que lhe adiantava agora tantos reinos e súditos, posses e domínios? Nada. O que lhe restava de verdade no último suspiro de vida - assim pensou - eram as suas amadas esposas.

Mandou, então, que lhe chamassem a quarta esposa, a mais bela, a mais amada. Mas quem lhe apareceu foi uma criada para lhe dizer: '- A rainha está ocupada em preparar-vos novas iguarias e não poderá estar em vossa presença neste momento'. A resposta da amada atingiu o rei como uma punhalada no coração. Mandou, então, que chamassem a segunda esposa, sua musa esplendorosa. E, novamente, foi a criada quem lhe deu a resposta da segunda esposa:  'Infelizmente não posso, meu senhor, que esplendor pode existir em ficar ao lado de um leito de morte?' Uma segunda punhalada o atingiu no coração.

A terceira esposa! 'Mandem que ela venha me ver imediatamente e fique comigo', ela que tantas vezes me devotou atenção e acolhimento! E eis que, mais uma vez, a criada se aproxima do leito de morte para anunciar ao rei: 'Ela não pode estar ao vosso lado agora, porque os médicos assim o recomendaram, pois a vossa doença é muito contagiosa'. Uma terceira punhalada o atingiu no coração.

Desconsolado e roído nos estertores do fim, o rei clamou pela primeira esposa, sem expectativa nenhuma, sem maiores consolos. E, mal tendo feito a solicitação, eis que diante dele se prostra a primeira esposa, objeto de sua desconsideração de uma vida inteira. É ela que toma nas suas as mãos do rei, é ela que o consola nos últimos momentos, é ela que permanece com ele até o seu último suspiro, é ela que o perdoa sem lhe exigir o gesto de perdão.

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Na verdade, todos nós somos reis e temos quatro esposas na vida. A nossa quarta esposa é o nosso corpo. A ele damos tudo e por ele tudo fazemos, no afã de satisfazer os seus caprichos e os seus desejos. Mas não importa o que façamos, a nossa consciência - a criada dos avisos - vai nos lembrar que ele será a primeira coisa que vamos perder na hora da nossa morte. 

Nossa terceira esposa são os nossos bens, status e riqueza. Que buscamos com tanta ânsia a vida toda, e que nos encheram de júbilo e ostentação diante dos outros, que nos levaram a posições dominadas pelo brilho fácil do orgulho, da vaidade, das honrarias que passam. A consciência vai nos alertar: quando você morrer, de que lhe servirá todos estes valores mundanos?

A nossa segunda esposa é a nossa família e os nossos amigos. Não importa o quanto eles estiveram ao nosso lado nesta vida, eles não poderão ser solidários conosco na passagem da morte. Nós estaremos sozinhos. A única coisa que ainda vamos ter conosco - a primeira esposa - é a nossa alma, justamente a esposa que teremos mais negligenciado e deixada no ostracismo, ainda que sempre estivesse conosco, sem nos abandonar sequer um único instante. Portanto, cultive, fortaleça e ame profundamente a sua primeira esposa - a sua alma - porque ela será a única a estar contigo na sua morte e a única que continuará fielmente ao teu lado por toda a eternidade!

(texto de autor desconhecido, reescrito e adaptado pelo autor do blog)

* na verdade, trata-se uma outra readaptação de um texto similar ao publicado em 'Histórias Que Eu Ouvi Contar' (XIV) neste blog.

domingo, 8 de outubro de 2017

A PARÁBOLA DOS VINHATEIROS HOMICIDAS

Páginas do Evangelho - Vigésimo Sétimo Domingo do Tempo Comum



O Evangelho deste domingo apresenta mais um evento relativo aos enfrentamentos públicos de Jesus com os mestres da lei e os anciãos do Templo, na terça-feira santa, logo após o júbilo messiânico vivido pelo povo de Jerusalém naquele Domingo de Ramos. Nenhum outro apóstolo detalhou, com maior precisão e rigor, estes últimos acontecimentos que antecederam a Paixão e Morte de Nosso Senhor, do que São Mateus.

Àqueles homens duros de coração, letrados nos textos das Sagradas Escrituras e sabedores por excelência que 'a vinha do Senhor é a casa de Israel' (refrão do salmo 79), Jesus vai proclamar a perda e a devastação desta vinha, que será abandonada pelo seu dono e deixada à mercê das sarças e dos espinhos que a tornarão 'inculta e selvagem' (Is 5, 6). E que, mais além, será restaurada e tornada cultura de raro louvor porque 'o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos' (Mt 21, 43). Trata-se de um testemunho explícito de que o juízo de Deus extrapola apenas o plano individual, mas alcança a dimensão de povos e nações e, portanto, de toda a humanidade por gerações.

A vinha do Senhor foi preparada, cercada, cuidada com zelo; depois, arrendada a vinhateiros para que dela cuidassem com o mesmo esmero e dela produzissem muitos frutos bons. Mas eis que estes maus zeladores corromperam a obra de Deus e produziram na vinha apenas frutos de injustiça e de iniquidade. Sabedores dos suas omissões e desvarios, e ensandecidos pela cobiça e pelo orgulho, fazem morrer não apenas os enviados do Senhor (os grandes profetas), mas o próprio filho do Senhor da vinha. Diante de passagens tão explícitas àqueles tempos e àqueles personagens, estes não parecem perceber que resumem a própria condenação nas suas próprias palavras: (o senhor da vinha) 'mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo' (Mt 21, 41).

Nesta parábola Jesus nos interpela, a cada um de nós, a zelar pela vinha que somos, com zelo extremado de salvação eterna, fugindo das ciladas das vaidades e do orgulho humano dos vinhateiros homicidas. Não podemos matar em nós o puro amor cristão, não podemos matar os dons recebidos e as virtudes do coração, não podemos matar a graça santificadora do batismo, não podemos matar em nós a herança do Reino de Deus; mas devemos nos ocupar 'com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor' (Fl 4, 8) porque, nas vinhas do Senhor, somente florescem as videiras que produzem frutos de vida eterna.

sábado, 7 de outubro de 2017

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO


A palavra Rosário vem do latim Rosarium, que significa 'Coroa de Rosas'. Nossa Senhora é a Rosa das rosas, Rainha das rainhas, sendo chamada, então, Rosa Mística (como é invocada na Ladainha Lauretana), Rainha das Rosas de todas as devoções, Nossa Senhora do Rosário. Se, a cada Ave Maria, adorna-se a Mãe de Deus com uma rosa espiritual, o Rosário adorna Maria com uma Coroa de todas as Rosas.

O Santo Rosário é a oração mais perfeita e o instrumento mais poderoso que nos é concedido pela Divina Providência para vencer o pecado e as tentações diabólicas. Com o rosário, recordamos o memorial da Paixão de Jesus Cristo e meditamos os mistérios de gozo, dor e glória de Jesus e Maria. Pelo Rosário, a terra se une aos céus, e nós a Nossa Senhora, no louvor ao Senhor nosso Deus. Com o Rosário, alcançamos a paz de coração e a salvação eterna da alma. Pelo Rosário, obtemos a remissão pela culpa e pela pena dos nossos pecados, tornamo-nos herdeiros dos méritos infinitos da Paixão de Jesus e invocamos sobre nós e nossas famílias as graças extraordinárias da Misericórdia Divina. 

A origem do Rosário é antiga, mas se formalizou por meio de uma famosa aparição de Nossa Senhora a São Domingos de Gusmão. No seu ferrenho combate e conversão dos seguidores da seita herética dos albigenses, São Domingos defrontou-se com terríveis dificuldades e perseguições, devido à dureza espiritual daquelas almas. Retirou-se, então, em oração, para um lugar ermo situado nos arredores de Toulouse e suplicou a intercessão da Virgem Maria para os bons propósitos de tão dura missão. 

As suas preces extremadas foram atendidas e o santo recebeu uma aparição de Nossa Senhora que lhe entregou o Rosário (também chamado Saltério de Maria, em referência aos 150 salmos de Davi), ensinando-o como rezá-lo e assegurando ser esta a arma mais poderosa para se ganhar as almas para o Céu. Este evento, respaldado por numerosos documentos pontifícios, é narrado na obra 'Da Dignidade do Saltério', do Bem-Aventurado Alain de la Roche (1428 – 1475), célebre pregador da Ordem Dominicana. Com o Rosário em punho, São Domingos pregou incansavelmente na França, Itália e Espanha a devoção que a própria Senhora do Rosário lhe havia ensinado, convertendo os hereges e os tíbios, e erradicando por completo naqueles países a heresia albigense.


Graças, louvores e indulgências sem conta estão associadas à oração devota do Santo Rosário. Rezai-o sempre, rezai-o todos os dias! O maior milagre que o Rosário pode nos proporcionar é nos fazer plenamente dignos das promessas de Cristo e nos elevar de criaturas humanas na terra a herdeiros diretos do Céu ainda nesta vida.

PRIMEIRO SÁBADO DE OUTUBRO


Mensagem de Nossa Senhora à Irmã Lúcia, vidente de Fátima: 
                                                                                                                           (Pontevedra / Espanha)

‘Olha, Minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todo o momento Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que a todos aqueles que durante cinco meses seguidos, no primeiro sábado, se confessarem*, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes à hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação.’
* Com base em aparições posteriores, esclareceu-se que a confissão poderia não se realizar no sábado propriamente dito, mas antes, desde que feita com a intenção explícita (interiormente) de se fazê-la para fins de reparação às blasfêmias cometidas contra o Imaculado Coração de Maria no primeiro sábado seguinte.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

EXERCÍCIOS DO AMOR DIVINO A JESUS (Parte III)

34 exercícios de amor a Jesus, propostos por São João Eudes, em honra e devoção aos 34 anos de sua vida; um ano no ventre de Maria e 33 de sua vida nesta terra.




PARTE III

18. Ó meu querido Jesus, quão amável sois Vós e quão pouco se Vos ama. O mundo não pensa em Vós e, assim, também não Vos ama; não se pensa senão em Vos ofender e a perseguir aqueles que Vos amam. Que eu, ao menos, pense em Vós e queira amar somente a Vós! Quem me dera poder amar-Vos em nome de toda a humanidade a fim de expiar a indiferença geral de tantos homens ingratos!

19. Ó Filho eterno do Pai, amável e amoroso, que se dispusestes a me amar desde toda a eternidade, razão pela qual também eu, se houvera existido eternamente, deveria também eternamente Vos amar. Não sendo isso possível, justo seria então amar-Vos desde que alcancei o uso da razão. Mas, ai de mim, bem mais tarde comecei a amar-Vos e, ainda pior, não me atreveria assegurar-Vos agora de que já Vos amo como deveria. Deus eterno que, em Vossa eternidade, nunca deixastes de me amar por um só momento, confesso que ainda não sei se ainda hoje sou capaz de Vos amar dignamente um só momento; o que sei com certeza, eivado de contrição e arrependimentos, é que não deixei nem um único dia de Vos ofender. E por que não morro de pesar e não se desfaz em mil pedaços o meu coração indigno ao mergulhar nesta minha incompreensível ingratidão? E como meus olhos permanecem insensíveis e indiferentes diante de tal tragédia espiritual, quando deveriam verter um mar de lágrimas, e lágrimas de sangue, para deplorar e estancar minha inexplicável ingratidão para com Vossa bondade infinita? Ó amor de Jesus, não quero mais ingratidão, nem mais ofensas, nem mais pecados, nem mais infidelidades para com Vós, que sois todo bondade e puro amor!

20. Ó amor eterno, desde a eternidade o Pai e o Espírito Santo Vos amam, amor do qual me alegro imensamente. Eu me uno e me desvaneço neste abismo de amor que o Vosso Pai e o Divino Espírito professam a Vós desde toda a eternidade!

21. Ó beleza eterna, ó bondade eterna, se tivesse eu neste mundo uma eternidade para amar-Vos, certamente nesse amor me demandaria por inteiro; não sendo assim, e me cabendo apenas os anos que me restam viver, com esforço ainda maior devo consagrar-me ao Vosso santo amor. Fazei que eu viva senão para amar-Vos e que não perca de vista o cumprimento deste santo propósito em nenhum instante da minha vida. Ou morrer ou amar, e mais nada... fazei que eu Vos ame eternamente e, aconteça o que acontecer, que desde agora eu seja parte deste amor oferecido a Vós por toda a eternidade. Ó eternidade de amor, ó meu Jesus tão querido, que eu seja cortado, queimado, feito pó e sujeito a sofrer outros mil tormentos nesta vida, se isso for da Vossa vontade, contanto que eu Vos possa amar por meio deles pelos séculos dos séculos!

22. Ó Rei dos séculos e dos tempos, ó Amor da minha alma, que resgatastes com o Vosso sangue todos os momentos da minha vida para Vos amar, o que tenho feito a não ser empregar o meu tempo a amar a mim mesmo, as coisas do mundo e as criaturas, desperdiçando assim um tempo precioso comprado por um preço tão elevado! É mais que tempo, ó meu Jesus, que eu passe a Vos amar de verdade, colocando toda a minha vida neste santo exercício, como se não existisse no mundo senão eu e Vós e como não houvesse mais nada a fazer senão pensar em Vós, em amar-Vos, em falar-Vos de coração para coração, sem me preocupar com o que acontece à minha volta, com o meu espírito tomado por inteiro no anelo insaciável de Vos amar cada dia mais e mais. Ó meu Jesus, inspirai em mim este desejo e tornai-o tão ardente e abrasador que se converta num anseio de puro e constante amor pela Vossa divina paixão, em querer sempre Vos servir, em Vos procurar noite e dia sem desfalecer. Convertei-me, ó meu Jesus, em um incêndio de amor pulsando de amor por Vós!

23. Com que imenso amor, ó meu Jesus, cobristes os céus e a terra e o derramastes em todos os lugares e sobre todas as Vossas criaturas, amor sem medida e infinitamente digno de ser amado. Um amor infinito que, em todo lugar, dedicais ao Vosso Pai e Vosso Divino Espírito e que, com o mesmo amor, sois correspondido por eles, o mesmo amor inesgotável com que me amais e amais a todas as criaturas em todos os lugares. Concedei-me a graça de corresponder a este Vosso amor com fervor renovado a cada dia. Neste propósito, unido e conformado à Vossa Divina Majestade, elevo o meu espírito e a minha vontade a todos os lugares e aos confins do universo para, assim, poder amar-Vos, glorificar-Vos e adorar-Vos infinitas vezes pelos méritos do Vosso próprio amor e também do amor do Vosso Pai e do Espírito Santo, manifestado em todos os lugares e sobre todos os seres que se encontram no céu, na terra e até no inferno.

24. Ó bondade infinita, seria necessário para amar-Vos dignamente dispor-se de um amor infinito; quanta alegria e felicidade o meu coração experimenta ao saber que sois, ó meu bom Jesus, tão bom e tão amoroso que, ainda que todos os seres do céu e da terra se unissem por toda a eternidade, para expressar conjuntamente nosso amor por Vós, isso ainda não seria suficiente. Somente Vós, com o Pai e o Espírito Santo, podeis amar-Vos como mereceis com um amor verdadeiramente infinito!

25. Ó bondade infinita, se eu fosse o senhor de todos os corações e tivesse a capacidade afetiva de todos os homens e de todos os anjos; se eu tivesse infinitos corações com infinitas possibilidades de amar, eu deveria usá-los todos para amar Aquele que me é infinitamente amável e que se vale de todas as fontes de sabedoria, de poder, de bondade e de todas as demais perfeições divinas para me amar e aplicar as maravilhas de sua caridade infinita em relação a mim. Quão obrigado estou, portanto, em usar a minha limitação extrema para Vos amar, ó meu senhor! Eis pois, meu querido Jesus, porque devo dirigir e consumir todas as forças do meu corpo e da minha alma apenas para Vos amar! É bem pouco, reconheço e, assim, quero reunir comigo todas as forças do céu e da terra, já que me foram dadas para Vos amar. Como isso ainda é pouco, ouso valer-me de todas as potências de Vossa divindade e de Vossa humanidade, que também me legastes por amor, para Vos amar como mereceis! Eu Vos amo, ó Jesus, e Vos amo com todas as minhas forças, com todas as forças do meu corpo e da minha alma, com todas as criaturas do céu, com a Vossa divindade adorável e com a Vossa divina humanidade.

26. Mas o que eu estou fazendo, meu Deus, se eu não sou digno de Vos amar e somente Vós podeis exercer uma ação tão nobre e tão divina? É por isso que, enquanto posso, me prostro aos Vossos pés, contrito e humilhado, e me entrego inteiramente a Vós de modo que, aniquilando-me diante do vosso amor onipotente, que Vos fizestes assumir a nossa condição humana, Vos ofereço a posse de todo o meu ser. Nesta condição, Vós mesmo havereis de ser o objeto do Vosso amor na minha humilde pessoa, com um amor verdadeiramente digno de Vós; e, assim, eu também poderei doravante Vos amar, não por mim mesmo e nem pelas próprias forças do meu espírito e do meu coração, mas senão por Vós e pela onipotência do Vosso Espírito e do Vosso próprio Divino Coração.

27. Ó amabilíssimo Jesus, Vós nos assegurastes nas Sagradas Escrituras que o Pai nos ama como Ele Vos ama: dilectio qua dilexisti me em ipsis sit e que Vós nos amais com o mesmo amor que estais unido ao Pai, isto é, com um coração e um amor infinito: sicut Dilexit me Pater, et dilexi ego Vos - 'Como o Pai me ama, assim também eu vos amo' (Jo 15, 9). Depois, ordenastes que Vos amássemos da mesma forma, isto é, como Vós amais o Pai, exigindo-nos ainda a perseverança do Vosso amor,  imitando Vosso respeito ao Pai Celestial: manete in dilectione mea. Se praecepta mea servaveritis, manebite em dilectione mea, sicut et ego Patris mei praecepta servavi e maneo em ejus dilectione  - Perseverai no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor (Jo 15, 9-10). 

Mas, Senhor, Vós conheceis a minha incapacidade e impotência de Vos amar e, assim, eu Vos rogo, ó meu Deus, dai-me o que ordenais e imponde em mim o que desejais: da quod jubes, et jube quod  vis, direi como Santo Agostinho. Aniquilai em mim o meu próprio coração e o meu amor próprio, trocando-os pelo Vosso Coração e pelo Vosso Amor Divino que são os mesmos do Vosso Pai Celestial, para que doravante eu possa amar-Vos como Vós amais o Pai e Ele Vos ama. Que eu persevere em Vosso amor tal como Vós permaneceis fiel no amor ao Vosso Pai e que todas as minhas obras sejam feitas sob a luz deste mesmo amor divino! Sim, ó meu Jesus, assim Vos quero amar: com o mesmo amor eterno, infinito e sem medidas com que o Vosso Pai Vos ama e com que Vós O amais.

E é esse amor infinito do vosso Coração e é esse imenso Coração abrasado de amor que eu Vos quero oferecer e que, na realidade, ofereço como se fossem meus em vez do meu próprio coração e do meu amor imperfeito, uma vez que me foram dados por Vós juntamente com o Santíssimo Coração de Maria, sua santa Mãe, coração este mais doce, mais amado e mais amoroso de todos os que Vos adoram, em união com todos os corações que Vos amam no Céu e na terra. Estes corações também são meus pois, como ensina o Apóstolo, o Pai, ao nos conceder o inefável mistério da Pessoa do seu Filho, outorgou-nos com Ele tudo o mais que Lhe pertencia - quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit?  - '... como não nos dará também com Ele todas as coisas? (Rm 8, 32).

28. Ó Jesus, Vós sois puro no mais alto grau, a própria pureza personificada; assim, Vós me amais com um amor puríssimo. Da minha parte, eu também quero amar-Vos com o amor mais puro de que seja capaz. E, portanto, quero amar-Vos com o  Vosso próprio e puríssimo amor; e amar-vos com o mesmo amor puríssimo que amais e sois amado pelo Pai e pelo Espírito Santo, pela Vossa Mãe Santíssima, pelos Vossos Anjos e Santos. Ó Pai, ó Espírito Santo, amai o meu Salvador em meu nome e supri as limitações do meu amor nas Vossas Divinas Pessoas. Ó Mãe de Jesus, ó anjos, ó santos e santas de Jesus, vinde em meu auxílio para que possamos unir as nossas forças para amar melhor o nosso Deus e Criador. Vinde e amemos o nosso amabilíssimo Salvador, dispondo e consumindo todo o nosso ser e todas as nossas forças para amar Aquele que nos criou apenas para amá-lO.

(versão para o português do autor do blog)