segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DOCUMENTOS DE FÁTIMA (VI)

TRANSCRIÇÃO DO SEGUNDO INTERROGATÓRIO DOS VIDENTES (11/10/1917)

(pelo Pe. MANUEL NUNES FORMIGÃO)

 Interrogatório da Mãe de Lúcia


– Sua filha é parente do Francisco e da Jacinta? 
– É prima, porque meu marido é irmão da mãe deles. 
– Como soube que a Senhora apareceu à sua filha da primeira vez? Foi ela que lhe contou? 
– Tive conhecimento desse fato pela família das outras crianças, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada com receio de que lhes ralhassem. Só depois de interrogada por mim é que disse o que tinha visto. 
– Nunca repreendeu a sua filha por ir à Cova da Iria? Deu-lhe sempre inteira liberdade de lá ir, no dia 13 de cada mês? 
– Nunca a proibi de ir a esse sítio. Umas vezes perguntava-lhe se queria ir e ela respondia afirmativamente, outras vezes ela mesma dizia que ia, se eu lhe desse licença. 
– As três crianças costumam ir sozinhas ao local das aparições ou vão acompanhadas de outras crianças?
– Vão sós. Quase sempre vão também outras crianças, mas acompanhadas dos pais e ficam ao pé deles, não se juntam com a Lúcia e os primos dela. 
– As crianças guardavam gado? A quem é que ele pertencia? 
– A Lúcia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e os primos outro. Pertenciam esses rebanhos às respetivas famílias. Às vezes juntavam o gado, mas unicamente porque queriam. As ovelhas que a Lúcia guardava, já as vendi. 
– Como é que as crianças têm ido vestidas? 
– Da primeira vez iam mal arranjadas, como andam quase sempre os pastores. Das outras vezes, no dia 13 de cada mês, vão vestidas de fato claro e levam um lenço branco na cabeça. 
– Consta-me que possui um livro intitulado 'Missão Abreviada'*, e que às vezes o lê a seus filhos. É verdade?
–  É verdade; possuo esse livro e tenho-o lido a meus filhos.
– Leu a história da aparição de La Salette diante da Lúcia e de outras crianças? 
– Só diante da Lúcia e dos outros meus filhos. 
– A Lúcia falava às vezes na história de La Salette, mostrando de qualquer modo que essa história tinha produzido grande impressão no seu espírito? 
– Nunca lhe ouvi dizer nada a esse respeito, se bem me recordo. 
– Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituíssem aos pais? 
– Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas na casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima. 
– Tem vindo muita gente ver sua filha? 
– Tem vindo muita gente, quase todos os dias.

* 'Missão Abreviada' é o título de um livro do Pe. José Gonçalves Couto, publicado originalmente em 1859, com várias reimpressões. A 'Aparição de Nossa Senhora no Monte La Salette' foi publicada desde a segunda edição (1861) até a nona edição (1873) do livro.


Interrogatório de Lúcia

– Disseste-me há dias que Nossa Senhora queria que o dinheiro oferecido pelo povo fosse levado para a igreja da freguesia em dois andores. Como é que arranjam os andores e quando é que eles devem ser levados para a igreja?
– Os andores compram-se com  dinheiro oferecido e serão levados nas festas da Senhora do Rosário. 
– Sabes com certeza em que sítio é que Nossa Senhora deseja que seja edificada uma capela em sua honra? 
– Não sei ao certo, mas julgo que Ela quer a capela na Cova da Iria. 
– O que é que Ela disse que havia de fazer para que todo o povo acreditasse que ela aparecia? 
– Disse que havia de fazer um milagre. 
– Quando foi que ela disse isso?
– Disse-o umas poucas de vezes, mas só uma vez, na ocasião da primeira aparição é que lhe fiz essa pergunta. 
– Não tens medo de que o povo te faça mal se não vir nada de extraordinário nesse dia? 
– Não tenho medo nenhum. 
– Sentes dentro de ti alguma coisa, alguma força que te arraste para a Cova da Iria no dia 13 de cada mês? 
– Sinto vontade de lá ir e ficava triste se não fosse. 
– Viste alguma vez a Senhora benzer-se, rezar ou desfiar as contas do Rosário? 
– Não vi. 
– Mandou-te rezar? 
– Mandou-me rezar umas poucas de vezes. 
– Disse-te que rezasses pela conversão dos pecadores? 
– Não disse; mandou-me só rezar a Nossa Senhora do Rosário para que acabasse a guerra. 
– Viste os sinais que outras pessoas dizem ter visto, como uma estrela, rosas a despregarem-se do vestido da Senhora, etc.? 
– Não vi a estrela nem outros sinais extraordinários. 
– Ouviste algum rumor, trovão ou tremor de terra? 
– Nunca ouvi. 
– Sabes ler? 
– Não sei. 
– Andas a aprender a ler? 
– Não ando. 
– Como cumpres então a ordem que a Senhora te deu nesse sentido? 
– !....... 
– Quando dizes ao povo que ajoelhe e reze, é a Senhora que manda que o digas? 
– Não é a Senhora que manda, sou eu que quero. 
– Sempre que ela aparece, tu ajoelhas?
– Às vezes fico de pé, outras vezes ajoelho-me.
– Quando fala, a sua voz é doce e agradável? 
– É. 
– Que idade parece ter a Senhora? 
– Parece ter uns quinze anos. 
– De que cor é o cadeado do rosário? 
– É branco. 
– E a do crucifixo? 
– O crucifixo também é branco. 
– O véu cobre a testa da Senhora? 
– Não cobre. Vê-se-lhe a testa bem. 
– O esplendor que a envolve é bonito? 
– É mais bonito que a luz do sol e muito brilhante.
– A Senhora nunca te saudou com a cabeça ou com as mãos? 
– Nunca. 
– Nunca sorriu para ti? 
– Também não. 
– Costuma olhar para o povo? 
– Nunca a vi olhar para ele. 
– Ouves as conversas, rumores e gritos do povo, durante o tempo que vês a Senhora?
– Não ouço. 
– A Senhora pediu-te em maio que voltasses todos os meses até outubro à Cova da Iria? 
– Disse que voltássemos lá de mês a mês durante seis meses, no dia 13. 
– Ouviste ler a tua mãe o livro chamado 'Missão Abreviada' onde se conta a história da aparição de Nossa Senhora a um menino e uma menina?
– Ouvi. 
– Pensavas muitas vezes nessa história e falavas dela a outras crianças? 
– Não pensava nessa história nem a contei a ninguém.

 Interrogatório de Jacinta

– A Senhora recomendou que rezassem o terço? 
– Recomendou.
– Quando?
– Quando apareceu pela primeira vez. 
– Ouviste também o segredo ou foi só a Lúcia que o ouviu?
– Eu também ouvi. 
– Quando o ouviste? 
– Da segunda vez, no dia de Santo António. 
– Esse segredo é para serem ricos? 
– Não é. 
– É para serem bons e felizes? 
– É. É para bem de todos três. 
– É para irem para o Céu? 
– Não é. 
– Não podes revelar o segredo?
– Não posso. 
– Por quê? 
– Porque a Senhora disse que não disséssemos o segredo a ninguém. 
– Se o povo soubesse o segredo, ficava triste? 
– Ficava. 
– Como tinha a Senhora as mãos? 
– Tinha-as erguidas. 
– Sempre erguidas? 
– Às vezes volta as palmas para o céu. 
– A Senhora disse em maio que queria que fossem à Cova da Iria mais vezes? 
– Disse que queria que fôssemos lá durante seis meses, de mês a mês, até que em outubro dissesse o que queria. 
– Ela tem na cabeça algum resplendor?
– Tem. 
– Podes olhar bem para o rosto? 
– Não posso, porque faz mal aos olhos. 
– Ouviste sempre bem o que a Senhora disse? 
– Da última vez não ouvi tudo por causa do barulho que o povo fazia. 

 Interrogatório de Francisco

– Que idade é que tens? 
– Tenho nove anos feitos.
– Só vês a Senhora ou ouves também o que Ela diz? 
– Só a vejo, não ouço nada do que Ela diz. 
– Tem algum clarão em volta da cabeça?
– Tem. 
– Podes olhar bem para a cara dela? 
– Posso olhar, mas pouco, por causa da luz. 
– Tem alguns enfeites no vestido? 
– Tem uns cordões de ouro. 
– De que cor é o crucifixo do rosário? 
– É branco. 
– E a cadeia do rosário? 
– Também é branca. 
– O povo ficava triste se soubesse o segredo? 
– Ficava.

[Documentação Crítica de Fátima - Seleção de Documentos (1917 - 1930), Doc. 11]

domingo, 24 de setembro de 2017

NAS VINHAS DO SENHOR

Páginas do Evangelho - Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum


Estamos na fase final da pregação pública de Jesus; depois da longa preparação dos discípulos e das premissas do seu Evangelho, aproxima-se o momento do sacrifício do Cordeiro Imolado para a salvação do mundo. Resta ao Senhor pouco tempo para consolidar, entre os seus, os fundamentos da Igreja e das realidades do Reino dos Céus. E, numa parábola magnífica, Jesus nos ensina que Deus nos chama a todos à perfeição e concede o mesmo prêmio de salvação eterna, independentemente de quando os seus escolhidos encontraram definitivamente o caminho da graça. 

'O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha' (Mt 20, 1-2). Desde o batismo, desde a primeira hora, desde 'a madrugada' dos tempos, somos chamados a partilhar e compartilhar a glória de Deus nas vinhas do Senhor, como fieis da Igreja, como discípulos do Cristo, como filhos de Deus. No mundo dos homens, desde o batismo nos tornamos herdeiros potenciais da graça, operários da messe a caminho do Céu.

Mas o mundo nos empurra e confunde a caminhada da graça; as aspirações humanas nos tolhem e retêm os propósitos de santificação. Ficamos à mercê dos tempos e dos contratempos. Deus não nos abandona nunca e, como o patrão persistente e incansável, volta pela manhã, pelo meio-dia, pela tarde, pelo final do dia, à espera do 'sim' filial, pela conversão definitiva, pelo retorno do filho pródigo. Na parábola dos operários da vinha, todos receberam igualmente o mesmo prêmio, o mesmo pagamento, mesmo os que foram chamados por último: 'cada um deles também recebeu uma moeda de prata' (Mt 20, 10). Porque a medida da justiça de Deus não é feita pelas medidas humanas: a misericórdia de Deus é infinita para os que O amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam prontamente ao chamado à vinha e tornaram-se, assim, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus.

Ainda assim, nas sementeiras da graça, fomentaram-se os espinhos da discórdia e da inveja, por parte dos operários que se julgaram injustiçados com o pagamento equivalente: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’ (Mt 20, 12). Pelo olhar da inveja humana, a misericórdia infinita de Deus teria que ter dimensões paralelas e distintas; a inveja obscurece o valor da graça daquele que a recebeu mais cedo pela concessão da mesma graça concedida ao que chegou mais tarde a ela nos caminhos da vida e, tantas vezes por isso, 'os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos' (Mt 20, 16). Porque a inveja mata e aniquila as sementes da graça recebida e é a caridade comum entre todos que produz, em todos, os mesmos frutos de vida eterna, nas vinhas do Senhor.

sábado, 23 de setembro de 2017

LUZ NAS TREVAS DA HERESIA PROTESTANTE (XXI / Final)

Ao iniciar este trabalho de respostas, eu disse, na Introdução, que 'atacar a crença dos outros não é provar a autenticidade de sua própria crença'. Nas páginas precedentes tenho atacado o protestantismo e refutado as objeções* que ele formula, provando assim a doutrina legítima, autêntica e divina, da Igreja Católica, Apostólica, Romana.

O protestante que ler estas respostas deve ficar convencido, tanto pelo raciocínio do seu bom senso, como pelas mil provas da Sagrada Escritura, que o protestantismo é um erro, uma heresia, o antípoda da religião verdadeira, enquanto a Igreja Católica segue integralmente os ensinos, os preceitos, os conselhos e as intuições de Jesus Cristo.

Não receio repetir que as respostas dadas são absolutamente irrefutáveis. Não há uma única resposta que não esteja baseada e firmada no texto sagrado do Evangelho, como o leitor pode ver. Nenhum sofisma, nenhuma interpretação ambígua ou incerta entra nestas páginas. É a Sagrada Escritura, clara nas suas expressões e clara na sua interpretação. É um trabalho de exegese séria, que não admite réplica, porque a palavra de Deus, no seu sentido óbvio, é indiscutível. Possa este livrinho ser um raio de luz para nossos pobres irmãos separados, – os protestantes, – como para os próprios católicos.

Os primeiros precisam de luz para ver; os segundos precisam dela para ver melhor. Os primeiros precisam ver o erro que professam e a verdade que ignoram; os segundos devem ver o erro, para evitá-lo, e a verdade, para continuarem a seguirem, com convicção e desassombro. Peço ao divino Mestre, pela intercessão da Virgem Imaculada, ser para todos os que ele disse de si mesmo a Tomé: via, veritas et vita (Jo 14, 6): o caminho, a verdade e a vida.

O caminho é a moral ensinada por Jesus Cristo.
A verdade é o dogma revelado por ele.
A vida é a união com ele pela graça divina.
É o tríplice laço que prende o homem a Deus:
A moral dirige as faculdades e as ações.
O dogma nutre-lhe o espírito e o coração.
A graça transforma-lhe a alma.
A moral é o indicador do caminho.
O dogma é o indicador da verdade.
A graça é o indicador da vida.
Pela moral o homem faz o bem.
Pelo dogma, o homem segue a verdade.
Pela graça, o homem se transforma.

Pelo bem, feito na verdade, o homem se transforma em santo. Sejamos, pois, santos, como Deus é santo – Sancti estote, quia ego sanctus sum (Lv 11, 14).

* Estas 'objeções' foram propostas por 'um crente' como um desafio público ao Pe. Júlio Maria e que foi tornado público durante as festas marianas de 1928 em Manhumirim, o que levou às refutações imediatas do sacerdote, e mais tarde, mediante a inclusão de respostas mais abrangentes e detalhadas, na publicação da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', ora republicada em partes neste blog.

(Excertos da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', do Pe. Júlio Maria de Lombaerde)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

BREVIÁRIO DIGITAL (LIX) - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (VII)

 Docet IESVS; concitantur contra eum Iudaei

51. Evangelho (Jo 7): Jesus ensina e os judeus conspiram contra Ele

Mittunt Iudaei ministros, ut IESVM comprehendant

52. Evangelho (Jo 7): Os judeus mandam prender Jesus

Liberatur Adultera

53. Evangelho (Jo 8): Jesus e a mulher adúltera

Docet IESVS in templo

54. Evangelho (Jo 8): Jesus ensinando no templo

Incredulis predicit damnationem IESVS

55. Evangelho (Jo 8): Jesus prega a condenação dos incrédulos

Acerrima confutatio Iudaeorum, & eorum contra IESVM conatus

56. Evangelho (Jo 8): A discussão e as confrontações dos judeus contra Jesus

Sanatur Caecus natus

57. Evangelho (Jo 9): A cura do homem cego 

De Pastore bono, ostio, ostiario, ouili

58. Evangelho (Jo 10): Jesus, o Bom Pastor

Malitiose Iudaei IESVM interrogare aggrediuntur

59. Evangelho (Jo 10): Os judeus voltam a confrontar Jesus

Explicat doctrinam de traditionibus

60. Evangelho (Mt 15, Mc 7): Jesus ensina sobre a tradição

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DOCUMENTOS DE FÁTIMA (V)

TRANSCRIÇÃO DO PRIMEIRO INTERROGATÓRIO DOS VIDENTES (27/09/1917)

(pelo Pe. MANUEL NUNES FORMIGÃO)


⧫ Interrogatório de Francisco

– Que é que tens visto na Cova da Iria nos últimos meses? 
– Tenho visto Nossa Senhora.
– Onde aparece ela? 
– Em cima duma carrasqueira. 
– Aparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?
– Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira. 
– Vem devagar ou depressa? 
– Vem sempre depressa. 
– Ouves o que ela diz à Lúcia? 
– Não ouço. 
– Falaste alguma vez com a Senhora? Ela já te dirigiu a palavra? 
– Não, nunca lhe perguntei nada; fala só com a Lúcia.
– Para quem olha ela, também para ti e para a Jacinta, ou só para a Lúcia?
– Olha para todos três; mas olha durante mais tempo para a Lúcia. 

⧫ Interrogatório de Jacinta

– Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada mês desde maio para cá? 
– Tenho visto. 
– Donde é que ela vem?
– Vem do Céu, do lado do sol. 
– Como está vestida?
– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça tem um manto, também branco. Em volta da cintura há uma fita doirada que desce até à orla do vestido. 
– Usa botas ou sapatos? 
– Não usa botas nem sapatos. 
– Então tem só meias? 
– Parece que tem meias, mas talvez os pés sejam tão brancos que pareçam trazer meias calçadas. 
– De que cor são os cabelos? 
– Não se lhe veem os cabelos, que estão cobertos com o manto. 
– Traz brincos nas orelhas?
– Não sei, porque não se lhe veem também as orelhas. 
– Qual é a posição das mãos? 
– As mãos estão postas sobre o peito, com os dedos voltados para cima. 
– As contas estão na mão direita ou na mão esquerda?
–  ........  (a esta pergunta a criança responde primeiro que estavam na mão direita mas, em seguida, devido a insistência da minha parte, mostra-se confusa quanto a resposta correta).
– O que é que a Senhora recomendou à Lúcia com mais empenho? 
– Mandou que rezássemos o terço todos os dias. 
– E tu reza-o? 
– Rezo-o todos os dias com o Francisco e a Lúcia. 

⧫ Interrogatório de Lúcia

– É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria? 
– É verdade. 
– Quantas vezes te apareceu já? 
– Cinco vezes, sendo uma cada mês. 
– Em que dia do mês? 
– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezenove, no sítio dos Valinhos. 
– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?
– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não é exato.
– Donde é que ela vem? Das bandas do nascente?
– Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira é que toma a direção donde nasce o sol. 
– Quanto tempo se demora? Muito ou pouco? 
– Pouco tempo. 
– O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Ave Maria, ou mais? 
– Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez não chegasse para rezar o terço). 
– Da primeira vez que a viste não ficaste assustada? 
– Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal. Disse: 'não tenham medo que eu não vos faço mal'.
 – Como é que está vestida? 
– Tem um vestido branco, que desce até um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido. 
– O vestido não tem enfeites?
– Veem-se nele, na parte anterior, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reúnem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo. 
– Tem algum cinto ou alguma fita?
– Não tem.
– Usa brincos nas orelhas?
– Usa umas argolas pequenas e de cor amarela.
– Qual das mãos segura as contas?
– A mão direita. 
– Eram um terço ou um rosário?
– Não reparei bem. 
– Terminavam por uma cruz? 
– Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas. A cadeia era também branca.
– Perguntaste-lhe alguma vez quem era? 
– Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de outubro.
– Não lhe perguntaste de onde vinha? 
– Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu. 
– E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?
– Da segunda vez, a treze de junho. 
– Sorriu alguma vez ou mostrou-se triste?
– Nunca sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria.
– Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações? 
– Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo. 
– Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria? 
– Não disse nada a esse respeito. 
– É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse? 
– É certo. 
– Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros? 
– A todos três. 
– Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor? (A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta).
– Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade? 
– Não é; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo. Não o quis enganar. 
– A Senhora mandou que aprendesses a ler?
– Mandou, sim, da segunda vez que apareceu. 
– Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler? 
– Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa. 
– O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira? 
– Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova. 
– Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?
– Não sei: ela não o disse.
– Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?  
– Estou.
– No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?
– Vem também São José com o menino, e será concedida a paz ao mundo.
– E fez mais alguma revelação?
– Declarou que no dia 13 fará com que todo a povo acredite que ela realmente aparece.
– Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?
– É que ela às vezes cega.
– Ensinou-te alguma oração?
– Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.
– Sabes de cor essa oração?
– Sei.
– Diz lá...
– Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem. 

⧫ Alguns Apontamentos Finais do Sacerdote 

Das respostas das crianças e mais ainda da sua atitude e modo de proceder em todas as circunstâncias em que se têm encontrado, resulta, com uma clareza, que parece excluir toda a dúvida, a sua perfeita e absoluta sinceridade. Não é verosímil que três crianças de tão tenra idade, uma delas apenas com sete anos, rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam tão obsediadas com perguntas e interrogatórios de toda a ordem e ameaçadas pelos representantes da autoridade eclesiástica e da autoridade civil e por tantas pessoas a quem elas devem respeito e consideração. Nenhuma consideração, nenhum temor é capaz de demovê-las de afirmar que veem Nossa Senhora.

Mas serão as crianças vítimas de uma alucinação? Estarão iludidas, julgando ouvir, e não ouvindo, julgando ver, e não vendo? Verificar-se-á no caso sujeito a hipótese de auto-sugestão? Mas como, se nada autoriza semelhante suposição, de todo o ponto gratuita? Não se trata de uma só testemunha, são três. Não se trata de adultos, mais sujeitos a alucinações, mas de crianças. E que crianças! Crianças de tenra idade, dotadas de perfeita saúde, e que não manifestam o mais pequeno sintoma de histerismo, segundo a declaração de um médico consciencioso que as examinou cuidadosamente.

Dar-se-á o caso, não raro sucedido, de uma intervenção diabólica? O anjo das trevas transforma-se algumas vezes em anjo de luz, para enganar os crentes. Verificar-se-á isso agora? ... Mas como explicar a concorrência de tantos milhares de pessoas, a sua fé viva e a piedade ardente, a modéstia e compostura que mostram em todos os seus atos, o silêncio e recolhimento da multidão, as conversões numerosas e retumbantes ocasionadas pelos acontecimentos?

Resta, pois, uma única solução. Serão os acontecimentos de Fátima obra de Deus? É cedo demais para responder com segurança a esta pergunta. A Igreja ainda não interveio, nomeando a respectiva comissão de inquérito. Quando o fizer, a missão desta comissão será relativamente fácil de cumprir. No próximo dia 13 de outubro, ou tudo se desfará como por encanto, ou novas provas, inteiramente concludentes, virão confirmar as que já existem em favor da realidade das aparições da Virgem.

[Documentação Crítica de Fátima - Seleção de Documentos (1917 - 1930), Doc. 10]

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O ESPÍRITO DA CRUZ


Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com frequência. Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz. Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão.

O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz? O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a Sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a Sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a Sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-Se; acha-se bom o que nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por que? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; é muito raro. Não o tendes muito, o espírito da Cruz. Posso bem dizer-vo-lo, há muito tempo que vos conheço, desde que estou convosco. Tende-lo menos do que o tivestes outrora.

Logo que tendes algum sofrimento, depressa dizeis: 'Meu Deus, livrai-me disto'; fazeis novenas para vos libertardes. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos. É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Excertos do último sermão pronunciado pelo Pe. Emmanuel-André, na festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro de 1902, seis meses antes de morrer; postagem publicada originalmente em catolicosribeiraopreto.com).

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

EXERCÍCIOS DO AMOR DIVINO A JESUS (Parte II)

34 exercícios de amor a Jesus, propostos por São João Eudes, em honra e devoção aos 34 anos de sua vida; um ano no ventre de Maria e 33 de sua vida nesta terra.




PARTE II

9. Eu me entrego a Vós, Amor Irresistível, e me abandono inteiramente ao Vosso poder; vinde, vinde até mim e prostrai por terra tudo o que não seja de Vosso agrado; estabelecei em mim em plenitude o Vosso domínio celestial. Se para isso acontecer, o sofrimento é a premissa, entrego-me a Vós para padecer todos os martírios e tormentos mais dolorosos. Não me abandoneis! Livrai-me de tudo quanto Vos desagrada, meu Salvador, nada disso me importa. Porque o que realmente quero é Vos amar, ó meu Jesus, e Vos amar com perfeição, a qualquer custo e sobre todas as coisas.

10. Deus de Amor, que sois tão generoso, tão amoroso, que sois amor e dedicais tanto amor por mim, que também eu possa Vos amar assim! Que o Céu inteiro se converta em um incêndio de amor por Vós!

11. Quem poderá me impedir de Vos amar, Amor sem Medidas, depois de conhecer Vossa bondade infinita? Seria o  meu corpo? Antes se tornasse apenas pó. Seriam os meus pecados passados? Eu os faria submergir no oceano do Vosso Precioso Sangue. Tomai o meu corpo e a minha alma: fazei-me um homem das dores para que se apaguem em mim tudo o me impeça de Vos amar plenamente. Seria por acaso o mundo? Ou as criaturas? Mas não; eu renuncio, com todas as minhas forças, a qualquer afeto sensível às coisas criadas. Consagro inteiramente o meu coração e os meus afetos a Jesus Cristo, meu Criador e meu Deus.

Com efeito, Jesus não aclamou este mundo; pelo contrário, Ele disse que não era deste mundo, nem os seus, e nem seguia as medidas deste mundo. Assim, mundo, renuncio às tuas vontades e desprezo os teus prazeres como se fosse do mundo como um excomungado, como um anticristo, como um inimigo de meu senhor Jesus Cristo! Não anseio por nenhum dos teus louvores e mesuras, teus devaneios e tuas vaidades, nada do que possas me oferecer. Por que tudo isso é utopia, é nada. Quero sentir horror ao espírito mundano, ao teu comportamento, valores e concessões reprováveis. Eu quero odiar as tuas escolhas tanto quanto odeias e persegues a Jesus Cristo. Eis aí o meu adeus, mundo, adeus a tudo que não seja de Deus! De hoje em diante, escolho Jesus como o meu mundo, minha glória, meu tesouro, minhas graças, meu tudo.

Nada almejo a não ser Jesus; que se cerrem meus olhos às coisas do mundo e que eles se volvam por inteiro a Jesus. Não quero agradar e ser agradado a não ser para Jesus. Quero me alegrar em seu amor e no cumprimento de sua vontade; não quero sentir tristeza, a não ser por tudo aquilo que ofende e se opõe ao seu Divino Amor. Ou amar ou morrer, ou melhor, morrer e amar. Morrer para tudo o que não seja Jesus; amar o próprio Amor por inteiro, amar Jesus.

12. Jesus, Senhor dos meus amores, fui criado e colocado neste mundo apenas para Vos amar. Quão nobre, santo e excelso o fim para o qual fui criado! A que graça e a que dignidade fostes elevado, meu pobre coração, para ser parte da própria glória divina! Pois se Deus existe para Se contemplar e amar a Si mesmo, fostes feito para amar esse mesmo Deus e se ocupar eternamente em amá-Lo. Que seja bendito e amado para todo o sempre o Senhor da Vida que me deu um coração capaz de amá-Lo. Deus do meu coração: se Vós me criastes para Vos amar em perfeição, que eu viva para Vos amar sempre e cada dia mais, para Vos amar a esta perfeição! Ou amar ou morrer. Que não me seja dada a vida, a não ser para Vos amar. Jesus, prefiro antes padecer mil mortes do que perder o Vosso amor!

13. Sede, Amor Divino, a vida da minha vida, a alma da minha alma e o coração do meu coração. Que eu não viva senão por Vós e em Vós. Que eu não exista senão por Vós. Que eu não tenha mais pensamentos, palavras ou ações que não sejam somente por Vós e para Vós.

14. Sede, Senhor, o anseio exclusivo do meu coração, o único anelo digno de ser desejado. Que tudo o mais fora de Vós seja nada, que nem sequer mereça minha atenção. Somente quero a Vós, somente busco a Vós, somente desejo Vos amar. Vós sois o meu tudo, e o resto é nada; nada quero olhar, anelar ou amar que não sejais Vós. Quero tão somente estar Convosco e Vos amar em todas as coisas.

15. Jesus, Vós sois o Puro Amor, o único digno do amor do Pai eterno e de toda a corte celeste; intercedei para que eu Vos ame sobre todas as coisas, e em todas elas eu Vos ame em plenitude e que tudo que seja objeto do meu amor seja por amor a Vós e para Vós.

16. Jesus, único amor do meu coração, essência de todos os meus amores! Somente Vós sois digno de amor no céu e na terra. Quando será que seremos capazes de contemplar e amar somente a Vós?

17. Jesus, único amor do meu coração, afastai-me de mim mesmo e de todas as coisas do mundo; levai-me até Vós e envolvei-me no Vosso amor, de forma tão completa e absoluta, que somente em Vós possam estar por inteiro o meu espírito e o meu coração.

(versão para o português do autor do blog)

domingo, 17 de setembro de 2017

OS LIMITES DO PERDÃO

Páginas do Evangelho - Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum


Naquele tempo em que os homens ainda hesitavam nos domínios da graça, Pedro vai se aproximar de Jesus para inquirir ao Mestre sobre os limites do perdão: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?' (Mt 18, 21). Ao propor a questão, Pedro também estabelece uma referência humana a este limite - 'sete vezes' - em termos de uma concepção firmada exclusivamente nos princípios frágeis da justiça e da tolerância dos homens. 'Sete vezes', na abordagem de Pedro, seria o limite imaginável e possível da capacidade humana de perdoar a manifestação continuada do erro.

A resposta de Jesus é desconcertante para uma medida humana do perdão: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete' (Mt 18,22). 'Setenta vezes sete' não implica meramente o valor humano do perdão multiplicado por setenta vezes; nem apenas um número particularmente elevado de se aplicar o perdão em medida abastada. É mais do que isso; Jesus pressupõe o perdão nos limites insondáveis da misericórdia infinita de Deus; o perdão verdadeiro deve ser reflexo da misericórdia que não impõe contenção de medidas e nem marcos limites.

Para ilustrar com clareza meridiana este princípio da misericórdia infinita de Deus, Jesus apresenta, então, a parábola do servo devedor de imensa fortuna que, instado a reconhecer a sua dívida, suplica ao Senhor a concessão de alternativas para quitá-la nas condições mais favoráveis possíveis. Movido pela compaixão e confiante no firme propósito de correção do seu servo, o Senhor lhe concede o perdão integral de todas as suas dívidas. Mas, saindo dali, o réu confesso de uma fortuna diante de Deus torna-se o juiz implacável diante da dívida inexpressiva do próximo: não apenas não perdoa a dívida em aberto, como leva à prisão o devedor de ninharias. Ciente de procedimento tão perverso, o Senhor se indigna e condena o servo infame com todo o rigor de sua justiça.

E Jesus conclui a parábola reforçando em que consiste a verdadeira medida do perdão ao próximo: 'perdoar de coração ao seu irmão' (Mt 18, 35). Perdoar significa 'perdoar de todo coração', sem quaisquer remanescentes de mágoa, rancor, ressentimentos. Perdoar significa aniquilar o mal feito na mesma medida do esquecimento integral da ofensa recebida. Neste contexto de graça, o nosso perdão torna-se perfeito e, tangido por sentimentos sinceros de caridade e de compaixão, atrai sobre nós, em medida insondável, a misericórdia infinita de Deus.

sábado, 16 de setembro de 2017

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA NO FUNDO DO MAR

Uma imagem de mais de 2,0 m de Nossa Senhora de Fátima repousa a 24,0 m de profundidade numa praia das Filipinas, famosa pelas práticas de mergulho, como local de oração e de peregrinação para os mergulhadores locais.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

LUZ NAS TREVAS DA HERESIA PROTESTANTE (XX)

A 20ª e última objeção* protestante do boletim citado seria de uma ingenuidade infantil se não fosse de um ridículo capcioso. O amigo protestante pede: um texto das Escrituras que prove que um homem deve ser perseguido e amaldiçoado por haver abandonado a religião em que nasceu e aceitado a religião de Jesus Cristo. 

Aqui haveria muita coisa a distinguir; assinalarei apenas os seguintes pontos:

(i) Um homem perverso deve ser perseguido e pode ser amaldiçoado: maledicti qui declinant a mandatis tuis (Sl 118, 21).

(ii) Pode-se abandonar a religião em que se nasce, tendo a certeza de ser errada e a certeza de a outra que se quer abraçar ser a verdadeira – Revertimini a viis vestris pessimis (4 Rs 17, 13).

(iii) A religião de Jesus Cristo é uma só: Dominus Deus tuus, Deus unus est (Mc 12, 24). Vamos por partes.

I. O homem perseguido

É uma mania protestante o gritar de ser perseguido, quando não pode espalhar os seus erros ou encontrar qualquer oposição. É mania conhecida; a Bíblia diz muito bem: querem pegar a sombra e perseguem o vento (Ecli 34, 2). Os protestantes andam atacando, caluniando e blasfemando contra o catolicismo, a Santíssima Virgem, o papa, os padres, os sacramentos e os sinos da Igreja.

Os católicos cruzando os braços, sorrindo e aceitando bíblias falsificadas, tudo corre bem, mas quando um deles repele os insultos, refuta os erros, diz-lhes meia dúzia de verdades, encolhem-se e gritam que são caluniados, perseguidos e maltratados. É o ladrão, que, penetrando em casa alheia, é pego em flagrante no roubo, gritando que o dono da casa, que lhe administra umas pauladas nas costas, é um perseguidor, um algoz. 

Não, senhor, ele é um defensor em legítima defesa de seus bens. Os católicos estão no mesmo caso. A religião é de paz e de concórdia; mas também é de dignidade, de brio e de firmeza. Reagir contra o ladrão não é perseguir; é defender-se. Repelir o caluniador não é perseguir; é restabelecer a verdade perturbada. Refutar o erro não é perseguir: é manter a verdade, é fazê-la triunfar.

Defender a sua religião contra os ímpios e hereges é um ato de dignidade, de brio e de convicção, como é de brio o fato de defender a sua pátria contra o inimigo invasor. 'Os que não ouvirem a Igreja', diz o Salvador, 'devem ser considerados como gentios ou publicanos' (Mt 18, 17). 'Haverá menos rigor para Sodoma do que para aqueles que não aproveitam a minha palavra', diz ainda o Mestre (Lc 10, 13). Podemos, pois, tratar os protestantes como tratamos os gentios, não com ódio, mas com compaixão, e dizer que terríveis castigos esperam a sua revolta contra a Igreja. Isso não é perseguir: é dizer a verdade. É permitido e é dever mesmo para os católicos opor-se à invasão do protestantismo, repeli-lo como se repele o ladrão, o assassino, o lobo, que se introduz numa casa ou num rebanho.

II. Mudança de religião

Aqui, meu caro protestante, temos um ponto complexo que deve ser bem compreendido. Mudar de religião é um negócio sério! Três casos se apresentam: (i) o homem sabe que está no erro: neste caso deve mudar; (ii) o homem duvida da sua religião; neste caso deve consultar; (iii) o homem tem a certeza de estar com a verdade: neste caso deve ficar firme e inabalável. Só o segundo caso é aplicável ao ponto em discussão.

O homem duvida da sua religião. Tal dúvida pode ser uma tentação do demônio, como pode ser uma inspiração divina; pode ser também uma falta de instrução. Mas vejamos de perto. Por que duvida ele? Duvida ele porque encontra em sua religião certos pontos incompreensíveis, misteriosos? Não há razão, porque a religião, sendo divina, nunca pode ser completamente compreendida pela inteligência humana.

Duvida ele porque há abusos e fraquezas na religião? Não há razão ainda, porque, se a religião é divina, os homens que a praticam não são divinos, e apesar de sua boa vontade, podem conservar ainda abusos e cometer faltas. Duvida ele porque a sua religião não possui os caracteres da religião verdadeira? Aqui o caso é diferente. A dúvida tem sua razão de ser. É preciso orar, estudar, indagar e refletir. A solução é bastante simples para um homem culto. Basta ele procurar conhecer os sinais distintivos da religião verdadeira.

III. Os sinais da religião verdadeira

É fora de discussão a existência da religião, e que esta religião é uma só: unus Dominus, una fides, unum baptisma (Ef 4,3). Um senhor, uma fé, um batismo, diz o Apóstolo. Jesus Cristo fundou uma só Igreja: é certo, conforme a sua própria palavra: 'tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja' (Mt 16, 18). Ele chama-a minha Igreja, para indicar que só ela está fundada sobre ele e é dele.

Esta igreja, para ser conhecida entre as diversas igrejas, tem quatro caracteres próprios, que a distinguem de todas as outras. Esta igreja deve ser una, santa, católica e apostólica. Isto quer dizer que a Igreja verdadeira deve ser uma nos pontos essenciais, na fé, no culto e na constituição hierárquica. Deve ser una em sua doutrina, em seu culto e em muitos de seus membros. Deve ser católica ou universal, porquanto deve existir em todas as épocas e estar difundida pelo mundo inteiro. Deve ser apostólica, porque deve ter a sua origem dos apóstolos. Eis a pedra de toque para descobrir a Igreja verdadeira e distingui-la das seitas humanas. Queira fazer isto, caro crente, ou querendo, façamo-lo juntos.

IV. Uma comparação

O protestantismo não é um: é dividido em centenas de seitas, que professam doutrinas diferentes, nem se sujeita a um governo central ou supremo. O catolicismo é um: na fé, que nunca mudou; no culto, tendo sempre o mesmo sacrifício e os mesmos sacramentos; no governo, que é e foi sempre o sumo pontífice ou papa de Roma.

O protestantismo não é santo: em sua doutrina, que é de rancor, de ódio e de calúnia; em seu culto, rejeitando muitas coisas instituídas por Jesus Cristo; em seus membros, desde a sua separação até a presente data. O catolicismo é santo: em sua doutrina, que nada encerra de absurdo ou de indigno de Deus; no culto, possuindo todos os meios de santificação instituídos por Jesus Cristo (sacramentos, missa, festas, etc.); em seus filhos, contando milhares e milhares de virgens, de mártires e de homens santos, mostrando a sua santidade pelos milagres que operam depois da morte.

O protestantismo não é universal, porque não tem existido sempre (nasceu em 1518, fundado por Lutero, padre apóstata) e porque não está espalhado pelo mundo inteiro. São igrejas locais ou nacionais e não universais. O catolicismo, ao contrário, é verdadeiramente universal: (i) porque existiu sempre; (ii) porque está difundido por todo o mundo. Ele sozinho tem mais filhos e membros que todas as seitas protestantes globalmente.

O protestantismo não é apostólico, porque nascera quinze séculos depois da morte dos apóstolos e, por outro lado, não tem conseguido provar, com milagres, a existência de uma missão extraordinária para pregar. Quanto ao catolicismo, é genuinamente apostólico: (i) porque tira a sua origem dos apóstolos, aos quais remonta a história; (ii) Porque seus bispos são legítimos sucessores dos apóstolos; e em particular o Bispo de Roma, o Papa, é o sucessor de São Pedro – primeiro Bispo de Roma.

V. Aplicação

Os caracteres aqui citados podem e devem ser conhecidos por todos. Deus não pode permitir a dúvida em matéria tão grave como é a religião; e tal dúvida não pode existir numa alma sincera, num coração reto. A religião é divina e por isso não pode ser completamente compreendida por uma inteligência humana; mas nunca pode estar em contradição com esta inteligência humana, pela razão de ser Deus o autor de ambas. A contradição recairia sobre o próprio Deus.

O homem pode e deve perscrutar a religião, estudá-la, conhecê-la o melhor possível. Por meio dos quatro caracteres, qualquer um pode provar a verdade ou o erro da sua religião: está ao alcance de todos. O católico deve fazê-lo, não pela dúvida, mas para dar firmeza à sua fé. O protestante deve fazê-lo, para verificar e compreender o que está errado. Depois deste exame, o homem pode conscienciosamente abandonar a sua religião, desde que esta não satisfaça aos requisitos. Sem este exame, sem esta verificação o homem não pode abandonar a religião em que nasceu, ou que professa.

O amigo protestante deve ver, pois, que está errado. Sendo protestante, pode aceitar a religião de Jesus Cristo: a religião católica. O católico não pode de modo nenhum deixar a sua religião para fazer-se protestante. E não vale a pena mudar o nome do protestantismo, chamando-o de 'religião de Jesus Cristo'. Nunca foi, nunca há de sê-lo! A religião de Jesus Cristo é uma só: – a católica; o protestantismo pode ser chamado de 'religião de Lutero', nunca 'de Jesus Cristo', com quem não tem outra relação, senão a Bíblia que é comum a ambas, mas cuja interpretação pessoal ou eclesiástica cava um abismo entre ambas.

O protestantismo interpreta a Bíblia a seu talante, contrariamente à Bíblia. São Pedro diz que toda a profecia da Escritura não pode ser feita por interpretação própria (2 Pd 1, 20). O catolicismo escuta a Igreja para esta interpretação, conforme o ensino da Bíblia: 'o Espírito Santo colocou os bispos para governar a Igreja de Deus' (At 20, 28). 'Aquele que não escuta nem a sua consciência, nem a Igreja de Deus, deve ser tratado como um pagão', diz o divino Mestre (Mt 18, 17).

A Igreja Católica não persegue ninguém: ela é de caridade; mas refuta os erros, orando pelos que erram, conforme o conselho de Santo Agostinho: interficite errores, diligite errantes. Convém notar, entretanto, que o amor não é covardia nem traição. O protestantismo é uma heresia composta de seitas humanas, que profanam os mistérios de Deus, o que fazia dizer a Melanchthon, contemplando as águas do Elba: 'todas estas águas são insuficientes para lavar os grandes males da reforma protestante' (Cartas). Ora, deixando de condenar a heresia, a Igreja Católica não seria tolerante; seria simplesmente traidora de Deus e da sua missão, traidora da verdade. E isto é absolutamente impossível, sendo a Igreja, no dizer de São Paulo, a coluna e o firmamento da verdade (1 Tm 3, 15).

VI. Conclusão

Está vendo, caro amigo, que a sua conclusão é falsa e falsíssima: um homem não deve ser perseguido por abandonar a religião em que nasceu; mas, antes de abandonar uma religião, um homem deve examinar a religião que quer deixar e aquela que pretende abraçar, para ver qual delas satisfaz aos quatro caracteres indicados: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.

Achando que a religião em que nasceu possui estes quatro caracteres, não pode mudar, pois está na verdade. Achando que não satisfaz a estes quatro requisitos, pode e deve abandoná-la, para abraçar aquela que os possui, e que só é a religião de Jesus Cristo. Possa meu amigo crente compreender estas verdades claras e divinas, e adotá-las como regra de vida; é o único desejo daquele que procura refutar os seus erros, mas que ama a sua alma e anela em salvá-la.

* Estas 'objeções' foram propostas por 'um crente' como um desafio público ao Pe. Júlio Maria e que foi tornado público durante as festas marianas de 1928 em Manhumirim, o que levou às refutações imediatas do sacerdote, e mais tarde, mediante a inclusão de respostas mais abrangentes e detalhadas, na publicação da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', ora republicada em partes neste blog.

(Excertos da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', do Pe. Júlio Maria de Lombaerde)