domingo, 23 de julho de 2017

O REINO DE DEUS (I)

Páginas do Evangelho - Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum


No Evangelho deste Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum, Jesus encontra-se ainda numa barca, às margens do mar da  Galileia, falando à multidão. E vai se utilizar de três diferentes parábolas para descrever o Reino de Deus aos homens. 

A primeira parábola é a do campo semeado de trigo e de joio: 'O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo' (Mt 13, 24). No campo do Senhor, ou seja, o mundo, Deus planta sempre a boa semente, plena de fertilidade e capaz de produzir muitos frutos. Mas o Maligno interveio e 'enquanto todos dormiam' (Mt 13, 25), contaminou o campo com a erva inútil. O mal sempre triunfa quando o bem não se manifesta ou se recolhe. No mundo dos homens, ambas as plantas germinam igualmente e convivem igualmente, os Filhos da Luz (o trigo) e os herdeiros do Mal (o joio). E não serão separados nas vinhas do Senhor, mas apenas na colheita final: 'Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!' (Mt 13, 30). Pois o bem é a prática da virtude que há de superar o mal e o mal pode ser sempre reparado antes da colheita.

A segunda parábola compara o Reino dos Céus a uma minúscula semente de mostarda: 'O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo' (Mt 13, 31). De fertilidade ímpar, a pequena semente produz um vigoroso arbusto, tão alto que as aves podem fazer ninhos em seus ramos. O Reino de Deus se desenvolve tal como a pequena semente: no escondimento, quase imperceptível na sua evolução, mas vigoroso e extraordinário na grandeza e dimensão dos seus frutos! O caminho da santificação é essencialmente simples e tranquilo, mas impelido por uma torrente de bênçãos e graças.

A terceira parábola compara o Reino dos Céus a uma porção de fermento: 'O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado' (Mt 13, 33). A mistura do bem e do mal no mundo é resultado do campo semeado pelas boas e más sementes; a ação do bem é a de fomentar os ensinamentos evangélicos, atuando como fermento de transformação e transfiguração das almas semeadas nas vinhas do Senhor.

MEDITAÇÕES PARA A SEMANA (SÃO JOÃO BOSCO) - I

Domingo

A finalidade do homem

De joelhos, dizei:

'Meu Deus, eu me arrependo de todo o coração por Vos ter ofendido; peço-vos a graça de compreender as verdades que vou meditar e de inflamar-me de amor por Vós.Virgem Santíssima, Mãe de Jesus, rogai por mim'.

I. Considera, meu filho, que Deus te criou à sua imagem e semelhança, que te deu uma alma e um corpo, sem que da tua parte houvesse para isso nenhum mérito. Ademais, pelo batismo, Deus te fez seu filho, te amou sempre e te ama ainda como Pai amoroso; o único fim para o qual te criou é para que O ames e sirvas a Ele nesta vida, e desse modo possas merecer um dia ser eternamente feliz com Ele no Paraíso.

Não penses que vives neste mundo para divertir-te, enriquecer-te, comer, beber e dormir, como os animais irracionais; pois o fim para o qual foste criado é infinitamente mais nobre e mais sublime; ou seja, para amar e servir a Deus nesta vida, e salvar assim a tua alma. Se procederes desse modo, que consolo sentirás na hora da morte! Mas, se pelo contrário, não pensares seriamente em servir a Deus, que remorsos não sentirás naquele instante, em que reconhecerás claramente que as riquezas e os prazeres, que tanto procuraste na terra, só serviram para encher de amarguras teu coração, fazendo-te ver o dano que causaram à tua alma!

Por isso, meu filho, não queiras ser daqueles que só pensam em satisfazer o corpo com atos, palavras e divertimentos censuráveis; e no fim da vida se encontrarão em grande perigo de perdição eterna. O secretário de um rei da Inglaterra morreu exclamando: 'Infeliz de mim! Gastei tanto papel para escrever as cartas de meu senhor, e não empreguei sequer uma folha de papel para anotar meus pecados e fazer uma boa confissão!'

II. Verás melhor a importância do teu fim se considerares que tua salvação eterna ou tua eterna condenação dependem de ti. Se salvas tua alma, muito bem, serás feliz para sempre; mas se a perdes, perdes tudo: alma, corpo, Céu, Deus que é teu fim... E para toda a eternidade serás desgraçado! Não imites a loucura dos desgraçados que dizem: 'Vou cometer agora este pecado, mas depois me confessarei'. Não te enganes a ti mesmo com tais palavras, porque o Senhor amaldiçoa o homem que peca na esperança de obter perdão.

Lembra-te de que os condenados que estão no inferno tinham a intenção de mais tarde se converter, e apesar disso se perderam por toda a eternidade. Estás seguro de que Deus te concederá tempo para te confessares? Quem te garante que não morrerás logo depois de pecar e que tua alma não será precipitada imediatamente no inferno? Não achas que seria loucura se te feristes gravemente, na esperança de encontrar depois um médico que te curasse? Renuncia, pois, ao pensamento enganador de só mais tarde te consagrares ao serviço de Deus; hoje mesmo detesta e abandona o pecado, que é o maior de todos os males e que, desviando-te do teu fim último, te priva de todos os bens.

III. Quero também que conheças um terrível laço de que se serve o demônio para prender e levar à perdição grande número de cristãos: é deixar que se instruam na religião, mas que depois não a pratiquem. Sabem perfeitamente que Deus os criou para amá-Lo e servir a Ele; e no entanto empregam todo o tempo em lavrar a própria ruína eterna! De fato quantas pessoas vemos no mundo que pensam em tudo, menos na sua salvação!

Se se diz a um jovem que frequente os sacramentos, que faça um pouco de oração, etc., logo responde: 'Tenho outras coisas que fazer, tenho que trabalhar, que me divertir...'. Ó infeliz! E não tens uma alma para salvar? Quanto a ti, jovem católico que lês estas considerações, não te deixes enganar pelo demônio; promete a Deus que de agora em diante todas as tuas palavras, pensamentos e ações se orientarão para a salvação da tua alma.

Grave loucura seria procurares com tanto afinco o que deve acabar em pouco tempo e te esqueceres da eternidade que não tem fim. São Luís Gonzaga poderia ter gozado de todos os prazeres, honras e riquezas deste mundo, mas renunciou a todos eles dizendo: 'De que me servem essas coisas para a vida eterna?' Conclui tu também com este pensamento: 'Tenho uma alma; se a perco, perco tudo. Ainda que ganhasse o mundo inteiro à custa de minha alma, de que me aproveitaria?

De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder sua alma? Se chego a ser um grande homem, um ricaço, se consigo atingir a celebridade como sábio que domina todas as ciências e todas as artes do mundo, mas depois perco minha alma, de que me adiantarão todas essas coisas? A própria sabedoria de Salomão não me valeria de nada se me condenasse.

Diz, pois assim: 'Deus me criou para salvar a minha alma, e quero salvá-la a todo custo; amar a Deus e salvar minha alma serão, a partir de agora, o único objetivo de todos os meus cuidados. Trata-se de ser eternamente feliz ou eternamente desgraçado; devo estar resolvido a perder tudo para me salvar. Meu Deus, perdoai os meus pecados e não permitais que jamais tenha o desgraça de Vos ofender novamente; ajudai-me com vossa santa graça para que Vos possa amar e servir fielmente. Maria, minha esperança, rogai por mim'.

sábado, 22 de julho de 2017

22 DE JULHO - SANTA MARIA MADALENA


Maria Madalena. Para se fazer distinção do nome Maria tão comum entre os habitantes de Israel (esse era o nome, por exemplo, da irmã de Moisés), os textos bíblicos nomeavam as diferentes Marias por um acréscimo singular do personagem - assim, Maria Madalena é a Maria de Magdala, povoado situado às margens do Lago da Galileia e próximo à cidade de Tiberíades. Eis as pouquíssimas referências a ela nas Sagradas Escrituras:

[Lc 8, 2-3]: 'Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses'.

[Jo 19, 25]: 'Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena'.

[Mc 15,40-41; 47]: 'Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam'.

[Mc 16, 1; 5-6; 9-10]: 'Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus... Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram... Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos'.

[Jo 20, 1-2; 18]: 'No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! ... Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado'.

Ela é a figura bíblica 'Maria de Magdala', da qual Jesus havia expulsado sete demônios. Esta acepção não implica a interpretação direta de 'uma grande pecadora'. O fato de ter-se livrado de 'sete demônios' (sete é o número da perfeição, da plenitude) implica que ela foi curada de todos os seus males tanto físicos (enfermidades) como espirituais (pecados, estes de naturezas quaisquer). É absolutamente forçada e despropositada a conjectura de que Maria Madalena pudesse ter sido uma 'prostituta' na sua condição pregressa antes do seu encontro com Jesus. Desta interpretação espúria, nasceram inúmeras outras lendas e desdobramentos fantasiosos da participação e do envolvimento desta mulher singular na vida pública de Jesus e dos seus apóstolos. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

DEZ VIAS PARA A SANTIFICAÇÃO DIÁRIA

1. Dedicar um tempo de oração pessoal todos os dias

Temos que falar com Jesus para descobrirmos a sua santíssima vontade. Na oração, conhecemos melhor a Deus e a nós mesmos. Devemos ser generosos com Deus e dedicar 15 ou 30 minutos de diálogo, contemplação ou meditação. A oração bem feita ajuda-nos a começarmos o dia alegres e dispostos a reavivar a fé e o amor.

2. Escolher uma intenção para cada dia

Oferecer nossas orações, nossos esforços e nossos trabalhos do dia. Podem ser intenções particulares como uma pessoa doente, pela conversão dos pecadores ou pela santificação dos sacerdotes e seminaristas, etc. Quando nos concentramos numa intenção concreta, se torna mais fácil rezar.

3. Rezar o Rosário ou o Terço todos os dias

Ao rezarmos o terço ou o rosário todos os dias, confiamos mais diretamente na presença e no auxilio de nossa Senhora em nossas vidas, em nossas decisões e em nossos problemas e desafios de cada dia. Assim no rosário meditamos os principais mistérios de nossa fé. Os frutos de nossas orações: alegria espiritual, paz, iluminação de nossa mente, dependem do modo como rezamos. Devemos rezar bem.

4. Ler a bíblia todos os dias (Lectio Divina)

A Palavra de Deus deve ser o alimento principal de nossa vida de oração. É a luz da Palavra de Deus que nos guia pela estrada da felicidade verdadeira. Se não tomarmos cuidado corremos o risco de sabermos mais de futebol, de novela, de internet do que de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

5. Conhecer os mandamentos e as promessas que Deus fez ao seu povo

Isso é o mínimo para um discípulo de Cristo. Seria uma vergonha dizermos que somos cristãos e não sabermos nem mesmo os dez mandamentos. Quem conhece e medita os mandamentos e as promessas do Senhor evita as decisões que conduzem ao pecado que é o grande inimigo de nossa salvação. É de grande proveito e de grande paz interior saber discernir bem entre o que agrada e o que ofende a Deus.

6. Fazer a confissão mensal

Ajuda-nos a manter pura e limpa nossa alma e a não relaxar no nosso combate contra o pecado. Ajuda-nos a vencer nossos vícios mais enraizados e a formar melhor nossa consciência. Se percebêssemos o grandioso valor da confissão, na qual são perdoados nossos pecados, seriamos mais fortes na fé e mais penitentes.

7. Fazer mortificações

É necessário porque nos ajuda a dominarmos nossos instintos humanos que tantas vezes nos arrastam para o pecado. Todos, sabemos que 'a carne é fraca'; por isso, é preciso observar as ocasiões que temos durante o dia para fazer alguma renúncia. Todo sacrifício que suportamos durante o dia deve estar unido ao sacrifício de Cristo na Cruz pois assim se transforma em salvação para muitas almas. O jejum é um meio simples e eficaz de por em prática este espírito de penitência e renúncia por um bem maior.

8. Praticar a caridade para com o nosso próximo

O que nos torna mais semelhantes a Jesus é o amor que temos a Deus e aos nossos irmãos. 'A caridade de Cristo nos impele'. Devemos estar atentos para ajudar os que nos rodeiam, sejam nas suas necessidades materiais ou nas suas necessidades espirituais com uma presença amiga, orante e solidária. Se não pusermos em prática o novo mandamento do amor não seremos verdadeiros discípulos de Cristo: 'Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos' (Jo 13, 35).

9. Fazer pequenos atos de humildade

Todos temos em nós a tendência para o orgulho, a tendência de enxergarmo-nos melhores que os outros e cheios de direitos e razões diante dos que nos rodeiam. A humildade é uma virtude, pois sempre que nos humilhamos em ações concretas conhecemos o nada que somos e o muito que é Deus. Não podemos esquecer o exemplo que Jesus deixou quando lavou os pés dos discípulos. Ele nos ensinou a repetir sempre esse gesto de humildade que expressa o nosso serviço aos irmãos: 'O Filho do Homem veio para servir e não para ser servido' (Mt 20,28).

10. Fazer um exame de consciência diário

Através do exame de consciência diário, vamos nos conhecendo melhor. Quais os nossos vícios, nossos defeitos, em quais atitudes durante o dia faltei com amor, com o respeito, com a humildade? É importante terminar o exame de consciência com um pequeno ato de contrição pedindo a Deus o seu perdão e sua misericórdia pelas faltas que cometemos ao longo do dia.

Ato de Contrição

Meu Pai, pequei contra Vós. Já não sou digno de ser chamado Vosso filho. Tende piedade de mim, que sou pecador. Quero fazer todo o esforço para não pecar mais. Amém.

(por São Vicente Palotti, comentários adicionais disponíveis no blog confrariadesaojoaobatista)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

AS NASCENTES DE FÁTIMA

Desde a época das aparições e sobretudo depois que os videntes afirmaram ter a Senhora manifestado a sua vontade de que se edificasse uma capela na Cova da Iria, a piedade dos fiéis desejou cada vez mais ardentemente levantar no local sagrado um monumento grandioso em honra da augusta Mãe de Deus. O projeto acolhido com mais entusiasmo é o da construção de um templo no cimo do outeiro que domina a Cova da Iria, no sítio onde os videntes diziam ter visto o primeiro relâmpago precursor da aparição de treze de maio. 

Pouco tempo após as aparições, uma comissão de habitantes das imediações da Cova da Iria resolveu, por devoção e para memória dos acontecimentos, mandar levantar, às expensas suas, uma pequena capela ao pé do local onde estava a azinheira, em cuja copa pousara os pés a misteriosa Senhora Aparecida. Quando, mais tarde, a autoridade eclesiástica tomou conta da capela e autorizou que nela se celebrasse o culto público, a devoção e o entusiasmo dos fiéis cresceram sem medida e para logo se aventaram planos grandiosos e imponentes de construções maravilhosas como as de Lourdes. 

O Senhor Bispo de Leiria tomou a seu cargo a direção suprema de todos os traçados de planos e de todos os trabalhos que deviam fazer da charneca árida e deserta uma esplendorosa cidade da Virgem. Para estas obras, assim como para os peregrinos que às centenas de milhares acorriam à Fátima, para os animais que os transportavam até ali e para atender os pedidos de inúmeros fiéis que mais tarde de toda a parte solicitavam continuamente remessas de água por mera devoção ou para a cura de enfermidades próprias ou alheias, era absolutamente necessário que na Cova da Iria houvesse água e água com abundância. 

Mas num raio de muitos quilômetros não aparece água na Fátima senão em pequena quantidade proveniente da chuva e recolhida em lagoas, poços e cisternas. Por isso uma comissão de habitantes daquela povoação tomou a iniciativa de mandar proceder a sondagens nos terrenos adjacentes à capela comemorativa das aparições. A primeira sondagem foi feita em nove de novembro de mil novecentos e vinte e um, depois da primeira missa campal, a uma distância de quarenta metros da capela. 

Tendo começado os trabalhos de manhã, ao meio dia já todos os operários saciavam a sede com a água que jorrou abundante da rocha viva. Nos últimos meses de verão, a água quase desapareceu, depois que recomeçaram os trabalhos destinados a tornar maior a capacidade do poço, vendo-se apenas lacrimejar uma das paredes. Em princípios de novembro de mil novecentos e vinte e dois, concluídas as obras do primeiro poço, que tem agora muitos metros de profundidade, a água límpida da nascente, rebentando com força, em seguida às primeiras chuvas do outono, encheu totalmente o vasto reservatório, como tiveram ocasião de ver os numerosos fiéis que em treze desse mês visitaram o lugar das aparições. 

Nos últimos anos, por ordem da autoridade eclesiástica, foram abertos mais dois poços, um de cada lado do poço primitivo, os quais fornecem água abundante que chega para satisfazer a sede dos peregrinos e as exigências da sua devoção, para as obras que incessantemente se estão realizando no local das aparições, para as necessidades da população, já numerosa, da povoação da Cova da Iria e até para ser expedida em latas para muitas terras de Portugal e do estrangeiro. 

Coisa singular! O segundo poço, mais largo e mais fundo que o primeiro, foi mandado fazer para receber as águas que no inverno transbordavam, como era costume, do poço primitivo. Logo que ficou concluído, a meia altura e no fundo, jorrou água em tanta quantidade que o encheu por completo dentro de poucas horas. Nos primeiros tempos após as aparições, muitas pessoas que não acreditavam na sobrenaturalidade dos acontecimentos maravilhosos, e entre elas alguns sacerdotes, protestavam que só acreditariam se, naquele terreno árido e estéril, aparecesse água, como apareceu em Lourdes, junto do rochedo de Massabielle. A realização daquilo que reputavam impossível abalou profundamente, como era natural, estes cristãos de pouca fé, muitos dos quais se tornaram mais tarde grandes devotos de Nossa Senhora de Fátima e apóstolos ardorosos do seu culto. 

(Documentação Crítica de Fátima - Seleção de Documentos 1917 - 1930)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

BREVIÁRIO DIGITAL (LVI) - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (IV)



Parte I - Nascimento, Infância e Início da Vida Pública de Jesus

 De ieiunio

21. Evangelho (Mt 6): Sobre o jejum 

 De thesaurizatione

22. Evangelho (Mt 6): 'Não ajunteis tesouros na terra...'

Docet Christus fiduciam habendam Deo

23. Evangelho (Mt 6): Jesus ensina como ter fé em Deus


Docet Christus Estote misericordes

24. Evangelho (Mt 7. Lc 6): 'Sede misericordiosos...'

Cauendum a falsis Prophetis 

25. Evangelho (Mt 7. Lc 6): 'Guardai-vos dos falsos profetas...'

 Mundatur Leprosus

26. Evangelho (Mt 8. Mc 1. Lc 5): A cura de um leproso

Sanatur seruus Centurionis

27. Evangelho (Mt 8. Lc 7): A cura do servo do centurião

 Ad Naim suscitatur filius Viduae

28. Evangelho (Mt 8. Lc 7): A ressurreição do filho da viúva de Naim

 Sedat porcellam maris IESVS

29. Evangelho (Mt 8. Mc 4. Lc 8): Jesus acalma o mar revolto


Sanatur paralyticus

30. Evangelho (Mt 9. Mc 2. Lc 5): A cura do paralítico

terça-feira, 18 de julho de 2017

CARTAS A MEU PAI (VIII)

Pai:


Estive há pouco em um retiro espiritual e busquei, no isolamento e afastamento do mundo, estar mais perto de Vós e experimentar o deleite profundo da Vossa paz. Foi neste retiro que conheci muitos dos Vossos filhos muito queridos e que, passageiros do mundo, são herdeiros ansiosamente esperados por Vós nas moradas eternas. Talvez D. tenha um melhor pressentimento disso, pois só tem este anelo por princípio e ambição. E quisera eu poder dizer a ele como é belo e majestoso o lugar que lhe está reservado na eternidade e como eu posso ver este lugar com tanta clareza como via então o seu rosto durante as orações do dia. 

Na manhã do segundo dia, ao final da manhã, D. me pediu para conversarmos sobre a oração e como ela devia ser oferecida a Deus. Na conversa com ele, Vos chamei, ó Pai, vos chamei 'apenas' de Deus. Falei a ele que Deus ouve todas as nossas orações, todas sem exceção. O problema está na oração que fazemos, quase sempre na súplica de que Deus afaste os problemas, as tentações e os males de nós. Como somos tolos em pedir isso! Por acaso Deus nos criou como criaturas inermes num paraíso terrestre, como mera passagem às eternas bem aventuranças? Não, definitivamente não. Os que plangem suas vidas nesta terra numa toada tranquila e segura são aqueles que só vão ter nesta vida a ventura etérea do que seria a verdadeira felicidade. Os eleitos da graça avançam no mundo em meio a obstáculos duríssimos e trazem a dor e o sofrimento como lastros...

Não devemos pedir apenas soluções e não problemas; não devemos pedir apenas conquistas e não desafios; não devemos pedir apenas bonanças e milagres; nós temos tudo isso que pedimos a toda hora, todos os dias, mesmo que não compreendamos ou saibamos ver as benesses de Deus. Deus nos pede a contrapartida da graça, a fuga do pecado, a perseverança do caminho, a consistência da fé. As tentações não nos são dadas para as quedas, mas para alcançarmos patamares mais elevados da graça. Deus não quer remover os nossos desafios, mas quer que nós os superemos por meio dEle. Deus faz milagres todos os dias, mas Ele quer usar a nossa matéria frágil para fazê-los e para nos tornar santos! Por acaso Jesus não usou da saliva e do pó para curar o cego? Não encheu as talhas de água para que se convertessem em vinho? E Deus não fez Moisés brandir o cajado para abrir ao meio as águas do Mar Vermelho? 

A oração não é um jogo de bate e volta impelido pela conduta humana. Ela nasce da manifestação do homem em se colocar na presença de Deus para enfrentar o desafio concreto de se ter uma vida cristã no meio do mundo. Ela implica o cumprimento decidido e perseverante da Santa Vontade de Deus em relação a nós, numa súplica não de remover, mas de superar os problemas e, particularmente as vias de pecado, por meio de nossos dons, talentos, habilidades, sabedoria. Essa é a água, a saliva, o pó, o cajado do nosso 'eu'. Com eles e, somente com eles, vamos nos libertar da cegueira, das limitações do nosso ser, dos 'mares vermelhos' que se levantam diante de nós. E, por meio deles e somente por meio deles, Deus nos conduzirá às bem aventuranças eternas e fará conosco os milagres mais extraordinários para isso. Para os incrédulos e os sábios deste mundo, Deus não tem respostas.

R.

('Cartas a Meu Pai' são textos de minha autoria e pretendem ser uma coletânea de crônicas que retratam a realidade cotidiana da vida humana entranhada com valores espirituais que, desapercebidos pelas pessoas comuns, são de inteira percepção pelo personagem R. As pessoas e os lugares, livremente designados apenas pelas suas iniciais, são absolutamente fictícios).

segunda-feira, 17 de julho de 2017

FOTO DA SEMANA

'Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém' (2 Pe 3, 10)

domingo, 16 de julho de 2017

A PARÁBOLA DO SEMEADOR

Páginas do Evangelho - Décimo Quinto Domingo do Tempo Comum


No Evangelho deste domingo, Jesus nos ensina a força e a eficácia da Palavra de Deus, lançada aos homens pelo semeador, imagem do apóstolo. Palavra que fecunda e irriga de graças a terra inteira, e que produz muitos frutos de salvação, pois assim diz o Senhor: 'Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la' (Is 55, 10 - 11).

Jesus se coloca em uma barca, às margens do mar da Galileia e fala à multidão, reunida na praia, por meio de uma parábola: 'Ouvi, portanto, a parábola do semeador' (Mt 13, 8). A Palavra de Deus é um tesouro de bênçãos e graças, que somente se revela na luz do Cristo, na pureza de uma consciência devotada às coisas do Alto, no despojamento do eu e na entrega ao discernimento espiritual de ver, ouvir e entender as coisas de Deus com o coração (profecia de Isaías). Os mistérios do Reino dos Céus são revelados apenas aos pequeninos, aos puros de coração, aos Filhos da Luz.

Jesus é o Semeador; a Palavra de Deus feita Carne, Sangue e Revelação. As sementes da graça devem ser acolhidas, endossadas, vividas, transmitidas, compartilhadas. Almas de apóstolo, eis a síntese da nossa fé cristã, pois também somos semeadores da Palavra de Deus: 'A verdade sai de minha boca, minha palavra jamais será revogada: todo joelho deve dobrar-se diante de mim, toda língua deve jurar por mim' (Is 45,23). 

A Palavra de Deus é semente lançada ao mundo para se tornar fruto de salvação. No coração enrijecido dos que renegam o Cristo, a semente é vã pois foi lançada em terra estéril, à beira do caminho. Há sementes que morrem sem germinar entre pedras ou entre espinhos, sem encontrar raízes ou luz, sufocadas pelas paixões do mundo, estancadas por qualquer revés, entregues à própria sorte de suas enormes fragilidades. As sementes que dão fruto são aquelas acolhidas na terra fértil do coração humilde e da alma temente a Deus, regadas e cuidadas com zelo e perseverança, firmadas em raízes profundas e alimentadas pela luz do Cristo. Sementes da graça que vão produzir frutos em abundância: 'Um dá cem, outro sessenta e outro trinta' (Mt 13, 23).

sábado, 15 de julho de 2017

GLÓRIAS DE MARIA: MÃE E FORMOSURA DO CARMELO


No dia 16 de julho de 1251, São Simão Stock suplicava a intercessão de Nossa Senhora  para resolver problemas da Ordem Carmelita quando teve uma visão da Virgem que, trazendo o Escapulário nas mãos, lhe disse as seguintes palavras:

"Filho diletíssimo, recebe o Escapulário da tua Ordem, sinal especial de minha amizade fraterna, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem com este Escapulário não padecerão o fogo do Inferno. É sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos, e aliança de paz para sempre". 


Imposição e Uso do Escapulário

- Qualquer padre pode fazer a bênção e imposição do Escapulário à pessoa.

2 - A bênção e a imposição valem para toda a vida e, portanto, basta receber o Escapulário uma única vez.

- Quando o Escapulário se desgastar, basta substituí-lo por um novo.

- Mesmo quando alguém tiver a infelicidade de deixar de usá-lo durante algum tempo, pode simplesmente retomar o seu uso, não sendo necessária outra bênção.

5 - Uma vez recebido, o Escapulário deve ser usado em todas as ocasiões (inclusive ao dormir), preferencialmente no pescoço.

6 - Em casos de necessidade de retirada do Escapulário, como no caso de doenças e/ou internações em hospitais, a promessa de Nossa Senhora se mantém, como se a pessoa o estivesse usando.

7 - Mesmo um leigo pode fazer a imposição do Escapulário a uma pessoa em risco de morte, bastando recitar uma oração a Nossa Senhora e colocar na pessoa um escapulário já bento por algum sacerdote.

8 - O Escapulário pode ser substituído por uma medalha que tenha, de um lado, o Sagrado Coração de Jesus e, do outro, uma imagem de Nossa Senhora (por autorização do Papa São Pio X).
Oração a Nossa Senhora do Carmo
     Ó Virgem do Carmo e mãe amorosa de todos os fiéis, mas especialmente dos que vestem vosso sagrado Escapulário, em cujo número tenho a dita de ser incluído, intercedei por mim ante o trono do Altíssimo. 

          Obtende-me que, depois de uma vida verdadeiramente cristã, expire revestido deste santo hábito e, livrando-me do fogo do inferno, conforme prometestes, mereça sair quanto antes, por vossa intercessão poderosa, das chamas do Purgatório.

        Ó Virgem dulcíssima, dissestes que o Escapulário é a defesa nos perigos, sinal do vosso entranhado amor e laço de aliança sempiterna entre Vós e os vossos filhos. Fazei, pois, Mãe amorosíssima, que ele me una perpetuamente a Vós e livre para sempre minha alma do pecado. 

       Em prova do meu reconhecimento e fidelidade, ofereço-me todo a Vós, consagrando-Vos neste dia os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração e todo o meu ser. E porque Vos pertenço inteiramente, guardai-me e defendei-me como filho e servidor vosso. Amém.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

AS SETE COLUNAS DA IGREJA DOMÉSTICA (VII)

'A Sabedoria edificou sua casa, talhou sete colunas' (Pv 9, 1)

SÉTIMA COLUNA: A ALEGRIA

A alegria nunca deve propriamente sair de casa, pois é como a delicada flagrância que paira sobre montes e vales, feita da luz do sol e do aroma das flores. A alegria é a luz do sol na menor das choupanas. Tudo brilha à sua luz. Casa sem alegria pode-se chamar de 'prisão'. Com a alegria tudo respira liberdade e luz, flagrância e força.

'Da árvore da vida a força sacrossanta,
Doce prazer de dar e bondade que encanta.
Tudo aceita animosa e a tudo renuncia,
Sente-se forte e livre e feliz a alegria!'
(R. Bern.)

Pode acaso a alegria faltar em casa? Não deve ser como na Igreja, onde os tons jubilosos não se desvanecem de todo, nem sequer no dia de Finados e na Sexta-feira da Paixão? Mesmo por entre lágrimas ela sabe cantar ainda o jubiloso Benedictus e o exultante Magnificat. Houve uma vez um tempo e não está muito longe, em que a alegria fixara residência no círculo da família.

Ela acompanhava ao trabalho cada um dos membros da família, com eles se sentava à mesa e no meio deles permanecia, quando, à noite, voltavam do trabalho e conversavam à luz do candeeiro. Era esta a sua hora como um eixo harmonioso do dia e tanto mais belo e harmonioso, quanto mais árduo e penoso fora o trabalho do dia. Como isso elevava o espírito de família e o sentimento da união familiar! Como moços e velhos aguardavam ansiosos aquelas noites em que se reunia a família em torno da mesa e, sobretudo nos domingos e dias santos, que eram sempre dias de festa de sol para a família! Acima de tudo estava nesses dias certamente o culto divino.

Da vida de Hermam von Mallinckrodt sabe-se que toda a família assistia junta ao ofício divino da paróquia. Na volta para a casa, conversavam pais e filhos regularmente sobre as ideias do sermão de domingo e depois era uma alegria geral até que, à noite, uma leitura comum de qualquer livro religioso encerrava o dia. Assim o faziam nos tempos antigos milhares de famílias católicas... A alegria, o espírito familiar prendiam ao lar moços e velhos. O centro - o sol, em torno do qual tudo se movia, o imã que tudo atraia a si, era a mãe. Dela emanava sobre todas as coisas uma luz áurea, de modo que o marido e os filhos esqueciam a taverna e os amigos e as filhas em parte alguma gostavam tanto de estar como no lar, junto da mãe.

A cerimônia de certas festas e acontecimentos domésticos tornava mais profundo o doce encanto do lar paterno: batizado, comunhão das crianças, aniversários, festa onomástica, especialmente da mãe, eram dias luminosos e alegres no decorrer do ano. Festas da Igreja, como Páscoa, Pentecostes, Advento, com seus maravilhosos cânticos, o mês de Maria, São João, Santo Antônio e São Pedro e, sobretudo a bela e querida festa de Natal não eram menos do que o ponto de partida de muitas alegrias domésticas. Como florzinhas no campo, brotavam por toda a parte e, por moços e velhos, eram colhidas com prazer.

Além disso, havia sempre ocasião para enriquecer-nos de conhecimentos e por em prática certas outras habilidades. As flores e plantas do mato e do campo tornavam-se-nos familiares e, mesmo para o mundo das estrelas, o dedo materno dirigia as nossas vistas. Explicava-nos o percurso dos planetas e muitas constelações da abóbada celeste nos indicava, contando também em partes as lendas populares a respeito. Certamente o ensino materno não provinha de ciência e cálculo astronômico; ela nada sabia de análise espectral e dos métodos delicados para exame dos corpos celestes; mas nós lhe devemos, ao lado dos primeiros conhecimentos de astronomia, a predileção pelo céu estrelado e, o que é de mais valor, aquela liberdade de espírito que se afasta da fria e ímpia divinização da natureza, prostrando-nos ao contrário em adoração diante do poder criador de Deus, que em parte alguma se mostra mais brilhante que nas maravilhas da noite e no curso dos astros.

Tudo isso acabou? Definitiva e irremediavelmente? É verdade que a indústria, a vida de ganância moderna, o espírito do materialismo, que com ela se insinuou, feriu profundamente a vida familiar. A horrível carência de moradias aumentou a miséria. A alegria quer espaço, tempo e sol e também um lugar para o recreio das crianças. Em escuras alcovas e estreitas mansardas, em casernas sem ar e sem luz, tem de desvanecer-se. Mais ainda, porém, que tudo nos prejudicou a moderna avidez de prazeres. Sobretudo a mocidade é arrebatada ao lar pelos divertimentos. Há muito que a distração e o recreio não vêm mais, como repouso necessário após o trabalho, mas para muitos são o alvo e o fim do trabalho. Para poder gozar o mais possível, trabalham, esforçam-se durante a semana e sacrificam por fim a alegria e a felicidade da família.

Os 'estabelecimentos de diversões', gente interessada no negócio, providenciam para que não se tenha descanso. Sempre novas sensações açoitam os nervos, embriagam os homens, para que 'se inebriem do desejo imoderado do gozo e no gozo de novo se consumam de desejos veementes'. As reuniões de sociedades e a fúria dos esportes fazem o resto para que o espírito de família não medre mais e a felicidade familiar se despedace.

Se carece haver associações, jamais entretanto devem tornar-se coveiros da vida de família. Acaso são nossas associações católicas sempre isentas desta censura? Em lugar de todos os preparativos 'de um sucesso extraordinário', despertai em vossos consórcios o senso da verdadeira alegria, ajudai-os a conseguir a verdadeira formação do caráter da alma, num tempo sem espiritualidade como o atual. Isso seria proveitoso à vida de família. 

Pois afinal é na verdade um pequeno sacrifício de renúncia e domínio sobre si mesmo, um único cigarro que não se fuma ou um salário que se põe intacto sobre a mesa familiar têm mais valor que uma dúzia inteira de festas estrondosas, vale também mais que uma bola de futebol atirada à altura de uma torre ou um canal atravessado a nado. Como os homens são caprichosos! Procuramos alegria como a mariposa busca a luz! Somente muitas vezes a procuramos onde ela não se acha: nos prazeres pagos da cidade, nos lugares enfumaçados, perfumados, para onde nos atraem os cartazes berrantes e a música estridente do jazz-band. Quem quer alegrias reais, tem de sair dos muros da cidade e da supercultura e voltar ao doce caminho do lar, ao seio livre da natureza criada por Deus e da família, pois do contrário anda no caminho errado e não as encontra.

(Excertos da obra 'As colunas de tua Casa - um Plano para a Felicidade da Família', do Vigário José Sommer, 1938, com revisão do texto pelo autor do blog)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

100 ANOS DE FÁTIMA

Fátima é o acontecimento sobrenatural mais extraordinário de Nossa Senhora e a mais profética das aparições modernas (que incluíram a visão do inferno, 'terceiro segredo', consagração aos Primeiros Cinco Sábados, orações ensinadas por Nossa Senhora às crianças, consagração da Rússiamilagre do sol e as aparições do Anjo de Portugal), constituindo a proclamação definitiva das mensagens prévias dadas pela Mãe de Deus em Lourdes e La Salette. Por Fátima, o mundo poderá chegar à plena restauração da fé e da vida em Deus, conformando o paraíso na terra. Por Fátima, a humanidade será redimida e salva, pelo triunfo do Coração Imaculado de Maria. Se os homens esquecerem as glórias de Maria em Fátima e os tesouros da graça, serão também esquecidos por Deus.

'por fim, o meu Imaculado Coração triunfará'


FÁTIMA EM FATOS E FOTOS (VII)

31. Como se deu a terceira aparição de Nossa Senhora?

A terceira aparição de Nossa Senhora, no início da tarde de 13 de julho de 1917, ocorreu de forma similar às duas primeiras, mas na presença de uma multidão muito maior que as anteriores, estimada desta vez em mais de duas mil pessoas. No centro da multidão e diante da azinheira, as três crianças rezavam o terço e olhavam ansiosas o céu em direção ao nascente. O pai de Francisco e Jacinta, Manuel Marto, encontrava-se ao lado das crianças desde o início da aparição e é dele o testemunho de ter visto uma espécie de nuvem de fumo se debruçar sobre a azinheira no momento em que Lúcia alertou a multidão para que se tirassem os chapéus ante a chegada de Nossa Senhora.

32. Como foi o diálogo de Lúcia com Nossa Senhora nesta terceira aparição?

Assim como na segunda aparição, assim que viu Nossa Senhora, Lúcia perguntou:

– Vossemecê que me quer? 
– Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem; que continueis a rezar o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do mundo e o fim da guerra porque só Ela lhes poderá valer.
–  Queria pedir-lhe para nos dizer quem é e para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.
– Continueis a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o que quero e farei um milagre que todos hão de ver para acreditarem.

Lúcia fez então uma série de pedidos em intenções pela cura ou conversão de algumas pessoas, ao que Nossa Senhora responde que os pedidos deverão ser atendidos no prazo de um ano, mas insiste sempre na oração do terço, principalmente em família. No final deste diálogo de pedidos de intenções, Nossa Senhora, com expressão muito séria, diz à Lúcia:

– Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: 'Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria'.

Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados; o reflexo da luz que espargiam de suas mãos parecia penetrar a terra. Na sequência, as três crianças experimentaram a visão do inferno, assim descrita pelas palavras de Lúcia:

Vimos como um mar de fogo. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa... [Lúcia, Quarta Memória]

Suspensa a visão aterradora do inferno e estremecidos de medo, as crianças volveram imediatamente os olhos para Nossa Senhora em busca de conforto que, as contemplando com imensa ternura, revelou à Lúcia um longo testemunho:

– Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. 

Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a Comunhão Reparadora dos Primeiros Sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz. Se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da fé , etc.

Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo. Quando rezardes o terço, dizei depois de cada mistério: 'Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem'

Seguiu-se um instante de silêncio, quebrado então por Lúcia:

– Vossemecê não me quer mais nada?
– Não, hoje não te quero mais nada.

E como de costume, Nossa Senhora começou a elevar-se em direção ao nascente até desaparecer na imensa distância do firmamento [Lúcia, Quarta Memória].

33. O que constitui os chamados Primeiro Segredo e Segundo Segredo de Fátima?


Do conjunto de mensagens que Nossa Senhora e Mãe de Deus revelou ao mundo em Fátima, as revelações feitas nesta terceira aparição foram sistematizadas em três partes distintas, numa abordagem que ficou mundialmente conhecida como Segredo de Fátima. As duas primeiras partes do Segredo foram formalmente reveladas por Lúcia em 1941, nas suas Terceira e Quarta Memórias e são as seguintes: 

(i) Primeiro Segredo: a perda eterna das almas e a visão do inferno 

Nossa Senhora, após ensinar às crianças uma oração pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos, abriu as mãos e o reflexo dos raios de luz, que delas emanavam, pareceu penetrar a terra, revelando as visões do Inferno e do espantoso número de almas que são condenadas à danação eterna pela submissão ao pecado, assim descritas nas terríveis palavras de Lúcia: 

'... e vimos como que um mar de fogo: mergulhados neste fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas, que delas mesmo saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa...' 

(foto dos três videntes na tarde de 13/07/1917, após a visão do inferno)

(ii) Segundo Segredo: castigos universais e os meios para evitá-los

A segunda parte do Segredo, revelada às crianças na sequência imediata da visão do Inferno, consiste no anúncio do advento de grandes castigos para a humanidade, caso os homens não se convertessem e, principalmente, os meios de salvação colocados à disposição de todos e capazes de reorientar e modificar completamente as perspectivas previstas para as futuras gerações: a oração do Rosário, a prática dos Cinco Primeiros Sábados, a Devoção ao Imaculado de Maria e, de forma muito particular, a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, fato que, uma vez não ocorrendo, implicaria que os erros da Rússia seriam espalhados pelo mundo inteiro, levando inclusive ao aniquilamento de algumas nações.

34. O que se pode inferir sobre a terceira parte do Segredo de Fátima? 

A terceira parte do segredo, escrita por Lúcia em janeiro de 1944, nunca foi inserida no contexto de suas memórias publicadas. Mas a última frase das mensagens reveladas é bastante singular: 'Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, etc...'. Este etc... sugere que o texto da terceira parte do Segredo estaria a seguir (lembrando que a segunda parte sucedeu imediatamente a revelação da primeira parte). Mas a própria frase parece desconectada do contexto anterior, pois a referência específica (situação em Portugal) confronta com o texto prévio (dimensão universal dos castigos), de forma que pode se interpretar esta frase já no contexto da terceira parte do Segredo.

Se em Portugal o dogma da fé será mantido (e se esta afirmativa assume um caráter de tal relevância que mereça uma menção especial na mensagem), é razoável deduzir que este fato – a perda da fé – atingirá dimensões inconcebíveis no âmbito da história humana e terá proporções mundiais. Nesta concepção, a terceira parte da mensagem referir-se-ia à questão de uma apostasia generalizada e sem paralelo na história da humanidade. Uma crise de fé de tal relevância deveria estar intimamente relacionada a uma gravíssima crise da própria Igreja de Cristo e isto explicaria a não divulgação pública desta terceira e última parte do Segredo. 

A terceira parte do segredo constitui essencialmente, portanto, a revelação de uma profunda crise de fé e crise da Igreja, com a perda substancial da Verdade revelada, substituída por um sem número de doutrinas heréticas no campo dogmático e da moral e implementação de falsas liturgias, com profundo impacto nos valores do cristianismo autêntico e concessões crescentes ao permissivismo moral, ao agnosticismo e ao ateísmo. 


35. Que correlação interliga diretamente os Três Segredos de Fátima?

Na própria mensagem de Fátima, o Segredo aparece como três partes distintas de um todo, ou seja, existe uma relação direta e comum interligando as três partes do Segredo em uma única mensagem. Numa síntese geral, o primeiro segredo teve como foco a salvação pessoal do homem; o segundo segredo teve como foco a salvação da humanidade e o terceiro segredo teve por foco a salvação da cristandade, da própria fé cristã, da própria Igreja.

Neste contexto, a crise de fé e a apostasia universal (terceira parte do Segredo) seriam os fatores de condenação ao Inferno de um grande número de almas (primeira parte) e a causa fundamental para a sucessão de castigos que se abateriam sobre o mundo (segunda parte). Desta forma, a terceira parte constituiria, na verdade, a causa dos eventos descritos nas primeiras duas partes reveladas (perda das almas, representada nas aparições pela Visão do Inferno e os castigos universais, caso não se concretizassem a conversão dos homens). Para evitar e desfazer esta sincronia de males e tragédias, os meios disponibilizados por Nossa Senhora seriam, então, o Santo Rosário, a Consagração dos Cinco Primeiros Sábados e a Devoção ao Imaculado Coração de Maria.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A CONTRIÇÃO PERFEITA É A CHAVE DE OURO DO CÉU

Como se obtém a contrição perfeita

Põe-te diante de um crucifixo, na igreja ou na casa de tua habitação, ou senão imagina que o tens diante de ti, e, chorando de compaixão à vista das feridas do Senhor, pensa uns momentos com fervor: Quem é este que está pendente da Cruz e sofrendo nela? — É Jesus, meu Deus e Salvador. O que sofre? — As mais terríveis dores no corpo, tem-no ensanguentado e coberto de feridas; a alma, tem-na lacerada pelas dores e afrontas. Por que sofre tudo isso? — Pelos pecados dos homens e também pelos meus pecados; em meio de suas amarguradas dores, também pensa em mim, também sofre por mim, também quer expiar os meus pecados.

Entretanto, deixa que o sangue redentor do Salvador, quente ainda, caia sobre ti, gota a gota, e pergunta a ti mesmo como tens correspondido ao teu Salvador, tão atormentado por ti. Pensa um momento, recorda teus pecados, e esquece-te, se quiseres, do Céu, do inferno, e arrepende-te principalmente porque são eles que a tão miserando estado reduziram o teu Salvador; promete-lhe que não tornarás a crucificá-Lo com mais pecados e, por fim, reza, pausadamente e com fervor, acompanhando com sentimento interno, as palavras de alguma fórmula da contrição.

Mas é possível alcançar com facilidade a contrição perfeita? 

Antes de tudo, é verdade que, para a contrição perfeita, se requer mais do que para a imperfeita, que é a de que se necessita para a Confissão. Contudo, porém, ajudado com a graça de Deus, pode qualquer um alcançar a contrição perfeita, bastando que deveras a deseje, porque a verdadeira contrição está na vontade e não no sentimento. Tudo se reduz a termos o devido motivo de arrependimento, quer dizer, que nos arrependamos porque amamos a Deus sobre todas as coisas e, por seu amor, detestamos os nossos pecados; nisto, e não na duração ou intensidade da dor, está a contrição perfeita. 

Digo isto, porque muitas vezes se confunde a contrição perfeita com certa contrição que há, altíssima e sublime, não se advertindo que a contrição perfeita tem seus graus e degraus, e que, para que o seja, não é necessário que chegue à contrição altíssima e firmíssima de São Pedro, de Madalena, de São Luiz Gonzaga e de outros santos: muito bom seria isso, mas não é necessário; um grau mais baixo de contrição perfeita e verdadeira basta para perdoar os pecados. 

Além disso, advertirás uma coisa, que me parece te animará e te dará confiança para poderes alcançar a contrição perfeita. Antes de Jesus Cristo, na Lei antiga, por espaço de 4.000 anos, foi a contrição perfeita o único meio que tiveram os homens para alcançarem o perdão dos pecados e entrarem no Céu. E hoje mesmo a milhões e milhões de pagãos e hereges que só e unicamente pela contrição perfeita, podem sair do pecado. Portanto, se é verdade, como é, que Deus não quer a morte do pecador, parece natural que não haja exigido para a contrição perfeita ato demasiadamente difícil, mas antes que esteja ao alcance de todos. 

Pois, se podem alcançar a perfeita contrição tantos e tantos que vivem e morrem afastados, é verdade que sem culpa sua, da corrente da graça e da Igreja Católica, ser-te-á isto a ti difícil, a ti, que tens a grande dita de ser cristão e católico, a ti, que tens muito mais graças e estás mais instruído do que eles? E ainda te digo mais: muitas vezes, sem o saber ou sem o pensar, tens realmente contrição perfeita; quando, por exemplo, ouves piedosamente a santa Missa, quando fazes com devoção a Via-Sacra, quando meditas com fervor diante de uma imagem de Jesus Crucificado ou do Sagrado Coração, ou assistes à pregação da palavra divina. 

Além disso, muitas vezes pode-se exprimir com poucas palavras o amor mais ardente e a mais profunda contrição, atendendo só ao sentido e ao motivo (o amor de Deus). Por exemplo, com estas jaculatórias: 'Deus meu e meu tudo!'; 'Meu Jesus, misericórdia!'; 'Ó meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas!'; 'Meu Deus, compadecei-Vos de mim pecador!', etc.

Que efeitos produz a contrição perfeita? 

Efeitos verdadeiramente admiráveis! Se és pecador, perdoa-te imediatamente os pecados e isto de cada vez e ainda antes de receberes o sacramento da Confissão; necessário é, porém, que tenhas vontade de confessá-los mais tarde (vontade esta que já está incluída na contrição perfeita). E este efeito é produzido pela contrição perfeita e verdadeira não só em perigo de morte, mas sempre e quando a excitamos no coração; de modo que o pecador, ao mesmo tempo que lhe são remidas as penas do inferno, recobra os méritos passados e, de inimigo de Deus, se faz seu filho e herdeiro do Céu. 

Se és justo, a contrição perfeita assegura-te e aumenta-te o estado de graça, apaga-te os pecados veniais que, pelo ato de contrição de caridade, detestaste; perdoa-te, sobretudo, as penas dos pecados, firmando e robustecendo-te no verdadeiro e sólido amor de Deus. Tais são as maravilhas que o amor e a misericórdia de Deus obram na alma do cristão pela contrição perfeita. Tão grandes são que, talvez, te pareçam incríveis; tratando-se do perigo de morte, já terás ouvido que se devem pedir a contrição e a dor; mas que também, em tempo de saúde e em qualquer tempo, a contrição perfeita obre tais maravilhas, mal te atreverás a acreditá-lo.

Será, pois, certa e segura esta doutrina da contrição perfeita? 

Digo-te que é tão firme e tão segura como a própria palavra de Deus. No Concilio ecumênico de Trento, onde a Igreja declarou e explicou os principais ensinamentos divinos que já eram correntes nela e eram combatidos por muitos hereges, diz-se na Sessão 14, cap. 4: 'A contrição perfeita, a contrição que procede do amor de Deus, justifica o homem e reconcilia-o com Deus ainda antes de receber o sacramento da Confissão'. Como o Concilio não diz que isto seja só em tempo de necessidade e em perigo de morte, segue-se que a contrição perfeita produz sempre este efeito. 

E, para o afirmar, apoia-se a Igreja na palavra e ensino de Jesus Cristo, que diz entre outras coisas: 'Se alguém me ama (e isto só o faz o que tem verdadeira contrição no coração), meu Pai o amará e Nós viremos a ele e faremos nele morada' (I Jo 14,23). Para que, porém, Deus possa habitar na alma, é preciso que o pecado tenha desaparecido; logo, o apagar o pecado é um dos efeitos da contrição perfeita, da contrição de caridade. Assim também o tem declarado sempre a Igreja infalível, chegando a condenar como herege, Baio, por dizer o contrário. O mesmo ensinam os Santos Padres e Doutores sagrados sem exceção e o mesmo confirma a razão, porque se, como já disse, tão grandes efeitos produzia a verdadeira contrição no Antigo Testamento, quando ainda imperava a lei do temor, quanto maior produzirá no Novo, em que impera a lei do amor!

Se a contrição perfeita destrói os pecados por que é necessário confessá-los depois? 

Sim, é verdade; a contrição perfeita faz o mesmo que a Confissão, faz com que desapareçam da alma os pecados; não o faz, porém, com independência do sacramento da Confissão, porque é necessário ter vontade de confessar mais tarde os pecados destruídos ou apagados pela contrição perfeita. E isto porque é lei de Jesus Cristo que se confessem todos os pecados, pelo menos todos os mortais, e esta lei, de forma alguma, se pode mudar. Verdade é que, se alguém não quisesse depois confessar os pecados que lhe foram perdoados pela contrição perfeita, não os contrairia novamente; mas é certo que perderia de novo o estado de graça, precisamente por faltar à obrigação de confessá-los.

É preciso confessar os pecados logo depois da contrição de caridade? 

A rigor, não é necessário; porém, de todo o coração, aconselho-te e recomendo-te que o faças; assim estarás mais seguro de ter alcançado o perdão e conseguirás, por sua vez, as grandes graças que traz consigo o sacramento da Confissão e que se chamam graças sacramentais. Talvez que alguém, tentado pelo demônio, vendo os grandes efeitos da contrição perfeita, diga: 'Pois se é tão fácil alcançar o perdão dos pecados com a contrição perfeita, já não preciso mais me confessar; peco quanto quiser, arrependo-me depois com contrição perfeita, e estou pronto. Não é assim?'

Não, de forma alguma; porque quem assim pensa não tem nem sombra de contrição. Não ama a Deus sobre todas as coisas logo que não queira em tudo e por tudo romper com o pecado mortal, nem trata seriamente de emendar a sua vida, coisa que tanto se requer para a Confissão como para a contrição perfeita; em uma palavra, falta-lhe boa vontade e, faltando-lhe esta, faltar-lhe-á a graça de Deus, sem a qual a contrição perfeita é absolutamente impossível. Poderá enganar-se a si mesmo, jamais, porém, enganará a Deus Nosso Senhor. 

Aquele que tem contrição perfeita, está inteiramente resolvido a romper com o pecado mortal; receberá logo que possa e com mais fervor do que dantes, os santos sacramentos, e com a sua boa vontade, ajudada da graça de Deus, conservar-se-á livre de pecado e se firmará mais e mais no feliz estado de filho de Deus. A quem, de modo especial, a contrição perfeita auxilia, é aos que leal e sinceramente querem adquirir e conservar o estado de graça e, sobretudo, aos que pecam por costume, isto é, aos que, ainda que tenham boa vontade, a força dos maus hábitos e a própria fraqueza os fazem cair de vez em quando; porém, de forma alguma, a contrição perfeita ajuda aos que se acolhem a ela para pecarem mais à vontade. 

E estes convertem o celestial remédio do perfeito arrependimento em narcótico fatal e em infernal veneno. Não sejas, pois, destes, leitor amado; não consintas, incauto, que graça tão preciosa como a contrição perfeita te sirva para o mal, senão para o bem, já que tão grandes bens produz na alma do cristão.

Por que é tão importante a contrição perfeita em vida? 

Porque não existe bem tão precioso quanto o estado de graça! A graça não adorna somente a alma, mas invade-a e penetra-a toda, e transforma-a em uma nova criatura, em filha de Deus e herdeira do céu. Além disso, faz com que todas as obras e trabalhos do cristão sejam meritórios para o Céu; a graça é a varinha mágica que tudo converte em ouro, porém em ouro de méritos celestiais. Pelo contrário, que triste é o estado do cristão que jaz em pecado! Todos os seus trabalhos, todas as suas orações, todas as suas boas obras ficam inúteis e sem mérito para o Céu; é inimigo de Deus e, no momento em que o tênue fio da vida se parta, cairá precipitado no inferno. 

Não será, pois, importante e necessário o estado de graça para o cristão? Pois, se o perdeste, podes recuperá-lo, principalmente de duas maneiras: (i) pela Confissão; (ii) pela contrição perfeita. A Confissão é o meio adequado e ordinário para alcançar a graça santificante. Como este meio, porém, nem sempre está ao nosso alcance, Deus deu-nos outro extraordinário, que é a contrição perfeita. Imagina que, um dia, tens a imensa desgraça de cometer um pecado mortal. Quando, passada a agitação do dia, vem o sossego da noite, a tua consciência angustiada levanta-se e clama com voz poderosa. 

Confessar-se agora... não é possível. Como remediar este estado? Pois olha, Deus põe em tuas mãos a chave de ouro que te vai abrir as portas do Céu; arrepende-te de teus pecados por verdadeiro amor de Deus, protesta-lhe firmemente não tornar a cometê-los, promete confessá-los quanto antes, e podes acreditar que estás reconciliado com Deus; deita-te tranquilo. Porém, se o cristão não conhece nem pratica a contrição perfeita, que triste estado o da alma! Em pecado mortal se deita e se levanta, e assim vive dois, três, quatro meses e mais, até a confissão seguinte. 

E talvez que, neste estado, continue por anos inteiros, sem que a profunda noite do pecado seja interrompida, nem um momento sequer, na sua alma pelos raios do sol da graça depois da Confissão. Triste estado! Viver quase sempre em pecado, inimigo de Deus, sem mérito para o Céu e em perigo de eterna condenação! Mais; quando alguém, antes de receber um sacramento, por exemplo, o da Confirmação, o do Matrimonio, se lembra de um pecado grave não perdoado, pode, pela contrição perfeita, fazer-se digno de receber o sacramento. Somente para a Comunhão, isso não basta; é necessária a Confissão. 

Também para o cristão que está em estado de graça, é importante o uso frequente da contrição perfeita. Antes de tudo, nunca podemos estar completamente seguros de que estamos em estado de graça. Porém, esta segurança aumenta e se confirma com cada ato de verdadeira contrição perfeita. Sucede, além disso, que alguém tenha dúvida sobre se consentiu em alguma tentação; estas dúvidas acovardam e desalentam a alma no caminho da virtude. Que há a fazer nestes casos? Examinar se consentimos ou não? Isso de nada aproveita. Excita-te à contrição perfeita e fica tranquilo. 

Porém, ainda que tivéssemos toda a certeza possível de que estamos em graça, que preciosa não é a contrição perfeita! Por cada ato de contrição perfeita, aumentamos este estado de graça na alma, e cada grau de graça vale mais do que todas as riquezas do mundo. Por cada ato de contrição perfeita e caridade, destroem-se os pecados veniais e as faltas que mancham a alma, e esta fica cada vez mais formosa diante de Deus. Por cada ato de contrição perfeita, são perdoadas as penas temporais dos pecados.

Por que é tão importante a contrição perfeita na morte? 

É importante sobretudo em perigo de morte repentina. Houve um grande incêndio numa cidade, e neste pereceram centenas de pessoas. Entre muitas que gemiam no pátio de uma casa, via-se um menino de doze anos que, de joelhos, pedia em voz alta a graça da contrição; explicou depois porque o fazia e suplicou que orassem com ele em voz alta. Talvez que, por seu intermédio, muitos daqueles infelizes se salvassem para sempre. Perigos como este sem conta te cercam e, quando menos o penses, podes ser vítima de uma desgraça repentina: podes, por exemplo, cair de uma árvore; podes ser atropelado por um carro na rua; podes ser surpreendido de noite, pelo fogo, na tua habitação; podes colocar mal o pé em uma escada; pode ser que, enquanto trabalhas, te falte repentinamente os sentidos e caias... levam-te moribundo à casa, vão a correr chamar o sacerdote; este, porém, tarda em chegar, e urge tanto!

Que fazer? Excita-te em seguida à contrição perfeita, arrepende-te por amor e gratidão para com Deus, e Jesus Cristo paciente salvar-te-á por toda a eternidade; a contrição perfeita terá sido para ti a chave do Céu no último momento e no último e supremo transe para a alma e para o corpo. Com isto, não desejo que alguém se aventure a deixar tudo para o último momento, à mercê de um ato de contrição perfeita, julgando ficar já por isso livre de pecado, pois é muito duvidoso que a contrição perfeita possa servir aos que têm pecado à sua sombra. 

O que deixo dito vale, antes de tudo e sobretudo, para os que têm boa vontade. Porém, haverá tempo em tais circunstâncias, para fazer um ato de contrição perfeita? Com a ajuda de Deus, sim; porque, para a contrição perfeita não se requer muito tempo, sobretudo quando antes, em tempo de saúde, nos temos exercitado nela; em um momento a podemos excitar e penetrar na alma. E como, em casos tão extraordinários, tem mais eficácia a graça de Deus, e o espírito, mais atividade no transe tremendo da morte, dos momentos se fazem horas. 

Lembra-te de que falo por experiência própria. Uma vez, a 20 de julho de 1886, estive em grande e terrível perigo de morte, seria coisa de oito ou dez segundos, o espaço para meio Pai-Nosso. Pois, em tão curto espaço de tempo, mil pensamentos cruzaram-se em minha mente; a minha vida inteira passou diante de minha alma, com rapidez incrível, e, atrás dela, o que seria de mim depois da minha morte; tudo isto, como disse, num espaço de tempo insignificante, o suficiente para meio Pai-Nosso. Por dita minha, porém, e grande favor de Deus, a quem rendo graças, não foi aquele momento para morte, mas sim para vida; do contrário, não teria podido escrever esta Chave de ouro. 

Pois, a primeira coisa que fiz, em tão terrível momento, foi o que, segundo o Catecismo, deve fazer todo o cristão em perigo de morte: excitar-se à contrição e recorrer a Deus pedindo-a e implorando-a a seu favor. E a verdade é que, naquela ocasião, creio que aprendi a amar e apreciar o valor da contrição perfeita; desde então tenho difundido, quanto me tem sido possível, o seu conhecimento e estima. E esta misericórdia, que podes exercitar na tua alma no último momento, podes exercitá-la também com os demais cristãos, teus irmãos. E quão triste é que, em tão apurado transe, não seja isto melhor compreendido! 

Acode muita gente, choram e gritam desordenadamente, e, sem saber que fazer, correm à procura do médico e do sacerdote, trazem todos os remédios que têm em casa e, entretanto, o enfermo agoniza, e, naqueles breves mas preciosos momentos, talvez não haja quem se compadeça da sua alma imortal e lhe proponha que faça um ato de contrição perfeita e o salve para sempre. Se te apresentar ocasião, vai com sossego e tranquilidade para o lado do moribundo ferido ou enfermo; se te for possível, põe-lhe o Crucifixo diante dos olhos e, com voz firme mas tranquila, pede-lhe que pense e repita com o coração o que tu vais rezar; e, feito isto, vai dizendo compassada e claramente o ato de contrição, ainda que te pareça que ele nada ouve nem entende. 

Com isto, terás feito uma obra sumamente boa e o moribundo te agradecerá eternamente no Céu. Sim, até mesmo a um herege, podes ajudar desta maneira em seus últimos momentos; não lhe fales, se queres, de Confissão, porém excita-o a que faça um ato de amor a Deus e a Jesus Crucificado e dize-lhe compassadamente o ato de contrição.

A contrição perfeita é a chave de ouro do Céu 

Cristão leitor, deixa que, olhando-te afetuosamente e apertando-te a mão, te diga de todo o coração e com a maior insistência: dá este prazer a Deus e à tua alma: faze devotadamente todas as noites, com tuas orações, um ato de contrição perfeita. Não deixes passar noite alguma sem exame de consciência e contrição, como não deixes passar manhã alguma sem purificar a intenção. Não pecarás, é claro, se o deixares de fazer alguma vez; porém tem por bom e saudável o conselho que te dou. 

E não me digas que isso de exame de consciência e contrição é coisa própria de sacerdotes e homens perfeitos e não para ti; não te escuses com o 'não tenho tempo'; quanto tempo julgas que é necessário? Meia hora? Não. Um quarto de hora? Também não; alguns poucos minutos bastam. Não costumas recitar algumas orações antes de te deitares? Pois, em seguida à tua pequena oração, pensa uns momentos nas faltas e pecados do dia que acaba de passar, e reza, pausadamente e com fervor, diante do Crucifixo, o ato de contrição. Depois podes recolher-te tranquilo. Deste ao Senhor as boas noites, e ele te respondeu: 'Boa noite, meu filho'. Ele perdoou-te misericordiosamente os teus pecados. Que te parece? Fá-lo desde esta noite e jamais te arrependerás. 

Se, nesta vida, tiveres a imensa desgraça de cometeres um pecado mortal, não permaneças mergulhado em tão grande miséria; levanta-te pela contrição perfeita, levanta-te imediatamente, ou, o mais tarde, logo que faças as tuas orações da noite; depois não demores muito em confessar-te. Finalmente, cristão da minha alma, mais tarde ou mais cedo, terás que morrer, e se, o que não te desejo, a morte te colhesse de improviso, já sabes onde está o remédio, já sabes onde está a chave do Céu. Chama imediatamente por Deus com íntima e perfeita contrição, e, se em vida te exercitares nela gostosa e devidamente, não te faltarão então tempo, vontade e graça de Deus para teres firme contrição perfeita, e a contrição perfeita te salvará. 

Porém, se antes de morrer, tens tempo para prevenir-te e preparar-te para o caminho da eternidade, que a última coisa que na terra penses e faças, com conhecimento, seja um ato de entranhado amor a Deus, teu Criador, teu Redentor, Salvador e Juiz; um ato de sincera e perfeita contrição de todos os pecados da tua vida. Feito isto, lança-te com confiança nos braços da misericórdia divina e Deus será para ti bondoso Juiz. 

Com isto, me despeço de ti, amado leitor; vê e faze o que neste livrinho tens lido. Ama e pratica a contrição perfeita, meio esplêndido de graça que a divina misericórdia põe em tuas mãos para saíres do pecado mortal em qualquer momento, e não só em perigo de morte; meio fácil, que tão grandes efeitos produz; meio supremo e único que, em caso de necessidade, salvará a tua alma; fonte, enfim, de graças na vida e na morte — verdadeira chave de ouro do Céu.

(Excertos da obra 'A Contrição Perfeita - Uma Chave de Ouro do Céu' do Pe. J.de Driesch, 1913).