quinta-feira, 25 de maio de 2017

ENQUANTO AINDA TEMOS TEMPO...

Nossa Senhora apareceu em Fátima para nos lembrar, sobretudo, da necessidade da salvação da alma. Por isso ela recomendou com insistência aos 3 pastorinhos de rezar e fazer penitência pela conversão dos pecadores: 'Muitas almas vão para o inferno porque não há quem reze e se sacrifique por elas!' 

Em Ars, um certo dia, chegou uma senhora abatida pela dor que a levava ao desespero. Poucos dias antes tinha perdido o marido tragicamente. Suicidara-se, jogando-se de cima de uma ponte, num rio. A mulher era atormentada pelo pensamento da danação do marido. Entretanto, na igreja de Ars, a pobre mulher logo se ajoelhou para rezar e chorar. Era a 1ª vez que ia a Ars. O santo Cura d'Ars, passando-lhe ao lado, sussurrou-lhe aos ouvidos: 'Ele está salvo!'. 'O quê?' - exclamou a mulher. 'Ele está salvo!' - repetiu o santo - 'Está no purgatório e precisa rezar muito por ele. Entre o parapeito da ponte e o rio teve tempo de se arrepender. Foi Nossa Senhora quem lhe obteve a graça. Lembre-se do mês de maio que fazia no quarto. Às vezes seu marido, embora não religioso, se unia à sua oração e às vezes até punha uma flor junto à imagem de Maria. Isto lhe obteve o arrependimento e o extremo perdão!'

Um dia padre Pio passava lentamente entre uma multidão de homens. Um jovem lhe gritou de longe: 'Padre, me diga uma palavra decisiva. O que devo fazer?' Padre Pio olhou-o com profundidade e lhe disse: 'Salve a tua alma!'

'As terras de um homem rico tinham tido uma boa colheita. E ele, consigo mesmo, assim pensava: como farei se não tenho mais lugar para guardar a minha colheita? Eis, disse, farei assim: demolirei os meus celeiros, construirei outros maiores, onde guardarei toda a minha colheita e os meus bens; depois direi à minha alma: ó Alma, tens uma grande reserva de bens por muitos anos; descansa, come, bebe e diverte-te! Mas Deus lhe disse: Louco! Esta mesma noite te será tirada a vida; e aquilo que preparaste pra quem será? Assim será também para quem acumula tesouros para si, mas não cuida de ter o que para Deus' (Lc 12, 16-21) 

São Bernardo dizia: 'Todo o tempo que não usamos para Deus é perdido'. A um velho eremita, um dia, perguntaram a idade. 'Tenho 50 anos', respondeu. 'Não é possível!' - respondeu o indagador - 'Tens, certamente, mais de 70'. 'É verdade' - respondeu o eremita - 'a minha idade seria na verdade 75, mas os primeiros 25 anos eu não conto, pois os passei afastado de Deus'.

Querem um bom exemplo de viver todo o tempo a serviço de Deus?  O Beato José Moscatti, grande médico napolitano, todos os dias começava a sua jornada às 5 horas da manhã, com duas horas de oração recolhida e intensa. Fazia sua meditação, participava da Santa Missa, recebia a santa comunhão e fazia um longo agradecimento. Sem estas duas horas e sobretudo sem a santa comunhão, ele dizia não ter coragem de entrar na sala médica para visitar os doentes. Logo depois das duas horas de oração, entrava nos becos de qualquer bairro da velha Nápolis, descia a qualquer gueto ou subia em qualquer porão a visitar gratuitamente doentes em condições penosas e miseráveis. Continuava a sua manhã com a escolha e com as visitas médicas em um hospital. Antes de fazer um diagnóstico, e, particularmente nos momentos de dificuldade, colocava a mão no bolso, apertava o Rosário por um momento e rezava a Nossa Senhora. Durante as visitas não era menos preocupado de recomendar aos enfermos a cura da alma, dando conselhos e avisos concretos, como aqueles de confessar-se e comungar. Ao meio dia, ao soar o sino do Ângelus, embora estando na sala médica, recitava sem falta a oração, convidando os presentes a rezarem com ele. De tarde continuava as visitas médicas em casa até o pôr do sol. Fechava seu dia com a visita ao Santíssimo Sacramento, com a recitação do Santo Rosário e as orações noturnas. Morreu durante as suas visitas médicas, amando os corpos e as almas dos enfermos. Eis um verdadeiro cristão que 'operava o bem enquanto tinha tempo' (Gl ,10).

(Excertos da obra 'Um mês com Maria' , do Pe. Stefano Maria Manelli) 

O CÉU É AQUI...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

AS 4 SERVIDÕES DO POLITEÍSMO

1. A fraqueza da inteligência humana

Há homens cuja inteligência não lhes permite ir além das coisas corpóreas e, por isso, não acreditam na existência de alguma natureza superior aos seres corpóreos. Pensam então que os mais belos e dignos seres corpóreos devem presidir o mundo e prestam um culto divino a eles. Assim consideram os astros do céu, o sol, a lua e as estrelas. Sobre eles fala o Profeta Isaías (51, 6): 'Levantai os olhos para o céu, volvei vosso olhar à terra: os céus vão desvanecer-se como fumaça, como um vestido em farrapos ficará a terra, e seus habitantes morrerão como moscas. Mas minha salvação subsistirá sempre, e minha vitória não terá fim'. 

Muitas vezes estas razões não se manifestam por palavras, mas pelos atos. Aqueles que acreditam que os astros podem modificar a vida dos homens, que para agir devem esperar certas épocas, estão aceitando que os astros dominam os homens. Contra isto adverte a Palavra: 'Não imiteis o procedimento dos pagãos; nem temais os sinais celestes, como os temem os pagãos, porquanto os deuses desses povos são apenas vaidade' (Jr 10, 2).

2. A adulação dos homens 

Muitos desejando adular reis e senhores, tributaram-lhes a honra devida a Deus. Obedecem e se submetem a eles. Há quem os endeuse após a morte, outros até em vida. Deles fala a Escritura: 'A multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem. E isto foi uma cilada para a humanidade: os homens, sujeitando-se à lei da desgraça e da tirania, deram à pedra e à madeira o nome incomunicável' (Sb 14,21). Também aqueles que obedecem aos reis mais que a Deus, constituem a essas pessoas como deuses. Adverte-nos também a Escritura: 'Convém mais obedecer a Deus que os homens' (At 5, 29). 

3. A afeição carnal aos filhos e parentes 

Alguns, levados por excessivo amor aos parentes, levantam-lhes estátuas após a morte e, assim, são conduzidos a prestar culto divino àquelas estátuas. Também os que amam os filhos mais que a Deus revelam pelos seus atos que acreditam em muitos deuses. São Paulo nos adverte: 'Quanto a questões tolas, genealogias, contendas e disputas relativas à lei, foge delas, porque são inúteis e vãs' (Tt 3, 9).

4. A malícia do demônio 

Este, desde o início, quis ser igual a Deus: 'Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembléia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo' (Is 14, 13). Até hoje não revogou essa vontade e esforça-se para que os homens o adorem e lhe ofereçam sacrifícios. Não lhe satisfaz a oferta de animais, mas deleita-se quando lhe é prestado o culto devido a Deus. Ele mesmo falou a Cristo: 'Dar-te-ei toda terra se de joelhos me adorares' (Mt 4, 9). 

Para que sejam adorados como deuses, se disfarçam de ídolos, Sobre eles fala a Escritura: 'os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Mas foi o Senhor quem criou os céus' (Sl 95, 5); 'as coisas que os pagãos sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus. E eu não quero que tenhais comunhão com os demônios' (1Cor 10, 20). Os que praticam a feitiçaria e se entregam aos sortilégios acreditam nos demônios como se eles fossem deuses, porque pedem aos demônios o que só se pode pedir a Deus, como revelações e conhecimentos sobre coisas futuras.

Como tudo isto é falso, devemos acreditar que há somente um Deus.

(Excertos da obra 'Sermão sobre o Credo', de São Tomás de Aquino)

terça-feira, 23 de maio de 2017

AS SETE COLUNAS DA IGREJA DOMÉSTICA (II)

'A Sabedoria edificou sua casa, talhou sete colunas' (Pv 9, 1)

SEGUNDA COLUNA: A ORAÇÃO EM FAMÍLIA

Em todas as famílias, isto era um hábito respeitado. Onde é que se pratica ainda hoje? A forte coluna está fendida e frequentemente já derrubada. Que espetáculo era para o céu e a terra ver outrora a mãe, de manhã muito cedo, juntar para a oração as mãos do filhinho menor! Pintores e escultores daí hauriam sempre novos motivos para sua arte. E como era tocante quando, através das janelas fechadas das casas de campo, pelas estradas da aldeia, ressoavam as vozes claras dos pequeninos, unidas em coro harmonioso às vozes de tenor e baixo dos adultos e mais velhos, na oração da noite.

Uma boa parte da vida católica do povo e da família perdeu-se juntamente com a oração em comum. Desprezaram-na levianamente, como aos valiosos cofres e móveis do tempo antigo. Peças cheias de poesia e valor! Quem sente mais esta perda do que o cura de almas e o sacerdote? Quando dantes o padre se chegava aos pequeninos, que consolo isso lhe dava! Como cálices desabrochados de flores, descerrados para o bem e para as coisas divinas, iam radiantes ao seu encontro! Eram boa terra da parábola do Evangelho, que dá fruto cento por um.

Que sucede hoje frequentemente? A palavra do sacerdote já não acha muitas vezes lugar nos corações infantis, ressoa sem eco, como se fôra proferida no vácuo. A culpa é do lar paterno. Já não é mais a doce paragem da fé. Invadiu-o espírito do mundo, que não pensa senão em causas fúteis e desatinadas, quando não pecaminosas.

Que importa a alma? Por isso pai e mãe já não rezam mais em comum com os filhos a oração da manhã e a da noite. E, entretanto é tão imensamente importante para a vida e o caráter das crianças! Quem quer o bem dos filhos, deve voltar ao hábito antigo, ao velho costume cristão: a oração em comum aos pés da cruz, principalmente de manhã e à noite. É a moldura que orla o quadro da tarefa diária. Se a moldura é bonita e boa, realça também o quadro, que só assim adquire o devido valor e impressiona sempre melhor.

A esse respeito deve-se notar uma coisa: para uma boa oração da manhã é preciso antes de tudo a boa intenção. O principal não são as palavras. Não é necessária ser tampouco uma oração de 13 ou 40 horas. Em minha opinião, pode-se dizer enérgica e sumariamente, como aquele velho granadeiro diante do leito: 'Senhor, aqui estou!' - contanto que essa prece parta do coração e seja efetivamente uma boa intenção. O pensamento: 'Tudo para glória de Deus', a intenção de servir a Deus com o trabalho diário, é decisivo. Dá ao trabalho de cada dia, com a moldura acima, ao mesmo tempo um áureo brilho e valor. Nos tempos antigos se falava de um maravilhoso bastão, que transformava em puro ouro tudo em que tocava. Histórias da carochinha!

Entretanto aqui se torna verdade, fazei a boa intenção de manhã e tudo o que fizerdes, comer e beber, o repouso e o trabalho, tudo se tornará uma oração. Tudo se faz então a serviço de Deus. Adquire direito à recompensa eterna, contanto somente que seja realizado em estado de graça. À noite seja o cerne das orações diante da imagem do Crucificado, uma verdadeira contrição por amor de Deus e o bom propósito. Isto fecha a moldura e é ao mesmo tempo o melhor meio de apagar todas as faltas e manchas do quadro e da moldura. 

Se de fato a morte nos surpreendesse realmente durante a noite, não careceríamos temê-la, pois nos encontraria em estado de graça santificante. A perfeita contrição, o pensamento 'Sinto meu querido Salvador, ter-Vos tornado duro o presépio e pesada a Vossa cruz; por preço algum mais um novo pecado grave!'; este pensamento na oração da noite nos restitui a paz espiritual perdida e põe-nos nas mãos uma chave de ouro do céu. Estaríamos salvos para a eternidade, se morrêssemos repentinamente.

Demais justamente a oração da noite em comum tem um encanto especial. O dia passou. Como o jovem viajante fatigado, que chegando à meta, atira por terra o farnel, contente de ter achado um lugarzinho de repouso, assim pais e filhos põem seus cuidados e fadigas aos pés do Crucificado, Ele, que por amor de nós carregou o peso da cruz, queria livrar-nos dessa penosa carga e animou-nos a entregar-lhe tudo: 'Lança ao Senhor todos os teus cuidados!' Ele quer carregá-los. À sombra da cruz é tão bom descansar, sobretudo quando o dia está quente ou tempestuoso.

Mas também não se deve omitir a oração antes e depois da refeição. Em parte alguma se manifesta mais a nobreza da alma espiritual, a realeza do homem sobre a matéria, sua primazia sobre as demais criaturas, que na oração antes e depois das refeições. Lá está um pobre operário sentado no caminho, sobre um monte de pedras, para o almoço. O filho traz-lhe ao posto de trabalho a singela refeição, numa marmita; antes de comer, o operário tira o gorro, faz em silêncio o sinal da santa cruz e reza como no lar, a oração para antes da refeição.

Não é como se nesse momento sagrado um diadema invisível cingisse a fronte do homem, como se toda a criatura irracional escutasse respeitosa as palavras que ele dirige por elas ao Altíssimo, em agradecimento e súplica? Acho que o pobre operário em prece revela mais realeza e soberania que o rico em seu palácio, de coroa e cetro, mas que não ora. 

Servir a Deus é reinar! Aqui esta palavra se torna pura verdade, pois a grandeza moral e a verdadeira natureza predominante do espírito sobre tudo quanto é corporal se manifestam na oração antes e depois das refeições. É um novo laço também que aí se ata entre pais e filhos. Do Pai celeste passa o olhar grato da criança para aqueles que aqui na terra lhe foram intermediários de todo o bem. Vê as mãos calosas do pai, que se juntam cheias de gratidão ao céu e sente o seu próprio dever de gratidão para com o pai e mãe...

(Excertos da obra 'As colunas de tua Casa - um Plano para a Felicidade da Família', do Vigário José Sommer, 1938, com revisão do texto pelo autor do blog)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

22 DE MAIO - SANTA RITA DE CÁSSIA


A santa, que padeceu uma vida doméstica de sofrimentos e provações, tornou-se a advogada dos desesperados e a padroeira das causas impossíveis. Filha única de pais já envelhecidos - Antonio Mancini e Amata Ferri - Margherita (que ficou Rita) nasceu no vilarejo de Roccaporena, na região de Cascia, na Úmbria (centro da Itália) em 1381. Inclinada à vida religiosa, cedeu às tratativas paternas e aos rigores da época, desposando, logo após a adolescência um homem chamado Paulo Ferdinando, com o qual teve dois filhos.

Sua vida matrimonial, entretanto, foi um período de enormes provações e humilhações em relação ao marido, sempre violento e agressivo. Depois de muitas orações pelo marido, este se converteu e passaram a formar uma igreja doméstica até que uma tragédia a desfez por completo: Paulo foi assassinado numa ato de vingança devido às suas desavenças passadas. Outra tragédia se anunciava: os dois filhos estavam decididos a vingar a morte do pai. Rita preferiu perdê-los do que eles ao Céu e ofereceu as suas vidas a Deus antes de cometerem tal crime. Com efeito, cerca de um ano após a morte do pai, ambos faleceram, arrependidos do sentimento de vingança.

Rita ficou, então, sozinha no mundo e buscou, sem sucesso, a vida religiosa, por já ter vivido uma união matrimonial por 18 anos. A opção por converter-se em uma monja agostiniana foi-lhe repetidamente negada. Entregando a sua vocação nas mãos de Deus e sobrecarregando-se em orações, alcançou a causa impossível por um milagre extraordinário. Certa feita, foi conduzida por três pessoas à capela interna do mosteiro, totalmente fechado e a altas horas da noite: São João Batista (também concebido na velhice dos pais), Santo Agostinho (fundador da ordem agostiniana) e São Nicolau de Tolentino (religioso agostiniano). Diante do relato e dos fatos sobrenaturais, Rita foi aceita na ordem, dedicando o resto da sua vida aos votos de pobreza, obediência e castidade. 

A sua extrema capacidade de servir, obedecer e aceitar mesmo o que aparentemente poderia ser improvável pode ser compreendido no milagre que transformou um ramo seco, regado periodicamente e com grande diligência pela santa, numa videira que produziu muitos e muitos frutos. Ou, quase no final de sua vida, com a roseira que, sob os seus cuidados, floriu viçosa em pleno inverno rigoroso. Por 15 anos, estigmatizada, padeceu os sofrimentos e as dores de uma ferida repugnante na testa, que expelia pus e que exalava mau odor, o que a a levou a uma vida de isolamento e de absoluto confinamento numa cela do convento.

Aos 76 anos, Santa Rita de Cascia (adaptado como Cássia) faleceu no convento, em 22 de maio de 1457, sem deixar quaisquer registros escritos, mas os exemplos heroicos de uma vida de santidade. Morta, a ferida tornou-se limpa e passou a exalar um odor perfumado. Foi beatificada em 1627, ocasião em que o seu corpo mostrou-se no mesmo estado quando da sua morte, mais de cento e cinquenta anos antes. Seu corpo atualmente repousa no Santuário de Cascia, desde 18 de maio de 1947, numa urna de prata e cristal.  Exames médicos recentes efetuados no corpo confirmaram os traços de uma ferida óssea (osteomielite) na testa. A santa das causas impossíveis foi canonizada em 24 de maio de 1900, sob o pontificado do Papa Leão XIII.

(urna de cristal com o corpo de Santa Rita de Cássia)

Santa Rita de Cássia, rogai por nós!

domingo, 21 de maio de 2017

'NÃO VOS DEIXAREI ÓRFÃOS, EU VIREI A VÓS'

Páginas do Evangelho - Sexto Domingo da Páscoa


A liturgia deste Sexto Domingo da Páscoa é centrada na ação santificadora do Espírito Santo, nas almas e na vida da Igreja, como primícias da Festa de Pentecostes que se aproxima. A graça santificante, que nos torna filhos adotivos de Deus, nos é atribuída pela apropriação do Divino Espírito Santo, na chamada 'inabitação trinitária', que procede e se faz na encarnação do próprio Deus, Uno e Trino, em nossas almas.

Estamos inseridos no contexto dos capítulos do Evangelho de São João, que integram o chamado 'testamento espiritual' de Cristo, que reproduzem o longo discurso feito por Jesus aos seus discípulos, logo após o banquete pascal, e no qual o Senhor expõe e revela, de forma abrangente e maravilhosa, a síntese e a essência dos seus ensinamentos e da sua doutrina. Doutrina que se resume no amor sem medidas, no chamado a viver plenamente a presença de Jesus Ressuscitado em nossas vidas, como testemunhas da fé e da fidelidade aos seus mandamentos: 'Se me amais, guardareis os meus mandamentos' (Jo 14, 15). 

Eis aí o legado de Jesus aos seus discípulos: a graça e a salvação são frutos do amor, que é manifestado em plenitude, no despojamento do eu e na estrita submissão à vontade do Pai: 'Amai ao Senhor vosso Deus com todo vosso coração, com toda vossa alma e com todo vosso espírito. Este é o maior e o primeiro dos mandamentos' (Mt 22, 37-38). A graça nasce, manifesta-se e se alimenta do nosso amor a Deus, pois 'quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele ' (Jo 14, 21). Nos mistérios insondáveis de Deus, somos transformados no batismo,  pela infusão do Espírito Santo em nossas almas, em tabernáculos da Santíssima Trindade, moradas provisórias do Pai, do Filho e do Espírito Santo, como sementes da glória antecipada das moradas eternas na Casa do Pai.  

A presença permanente da Santíssima Trindade em nossas vidas vem por meio da manifestação do Espírito Santo, o Defensor, o Paráclito, conforme as palavras de Jesus: 'Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós' (Jo 14, 18) e ainda 'eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco' (Jo 14, 16). Como templos do Espírito Santo e tabernáculos da Santíssima Trindade, somos moldados como obras de Deus para viver em plenitude o Espírito da Verdade. Sob a ação do Espírito Santo, podemos, então, trilhar livremente o caminho da santificação, até os limites de um despojamento absoluto do próprio ser para a plena manifestação da glória de Deus em nós. 

sábado, 20 de maio de 2017

CAMPANHAS DA FRATERNIDADE NO BRASIL (IV)

TERCEIRA FASE (cont.): 2000 - 2017

As premissas das campanhas da fraternidade no século XXI têm mantido o mesmo foco central nas questões e problemas sociais mais específicos à realidade do Brasil, a exemplo das campanhas anteriores. Além das campanhas tradicionais, coordenadas pela CNBB, foram realizadas, neste período, quatro Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, envolvendo as igrejas participantes do chamado Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)*: a primeira CFE com o tema 'Dignidade Humana e Paz' foi realizada no ano 2000, a segunda, em 2005, teve como tema 'Solidariedade e Paz'; a terceira, em 2010, discutiu o papel da economia na sociedade com o tema 'Economia e vida' e a quarta, realizada em 2016, contemplou com o tema 'Casa Comum, nossa responsabilidade', a discussão sobre o direito ao saneamento básico para todas as pessoas.

* que tem como membros participantes a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Presbiteriana Unida.

37. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2000

Tema: Novo Milênio sem Exclusões

Lema: Dignidade Humana e Paz

Objetivo Geral: Unir as Igrejas cristãs no testemunho comum da promoção de uma vida digna para todos, na denúncia das ameaças à dignidade humana e no anúncio do evangelho da paz.

38. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2001

Tema: Campanha da Fraternidade

Lema: Vida Sim, Drogas Não!

Objetivo Geral: Mobilizar a comunidade eclesial e a sociedade brasileira para enfrentar corajosamente o grave e complexo problema das drogas, que arruina milhares de vidas e afeta profundamente a paz social.

39. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2002



Tema: Fraternidade e os povos indígenas

Lema: Por uma terra sem males

Objetivo Geral: Motivar a conversão das pessoas, da sociedade e da própria Igreja para a solidariedade, a justiça, o respeito e a partilha, dando especial destaque, desta vez, aos povos indígenas.


40. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2003

Tema: Fraternidade e pessoas idosas

Lema: Vida, dignidade e esperança

Objetivo Geral: Motivar todas as pessoas, para que, iluminadas por valores evangélicos, sejam construtoras de novos relacionamentos, novas estruturas, que assegurem valorização integral às pessoas idosas e respeito aos seus direitos.


41. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2004


Tema: Fraternidade e água

Lema: Água, fonte de vida

Objetivo Geral: Conscientizar a sociedade que a água é fonte da vida, uma necessidade de todos os seres vivos e um direito da pessoa humana, e mobilizá-la para que este direito à água com qualidade seja efetivado para as gerações presentes e futuras.


42. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2005


Tema: Campanha da Fraternidade Ecumênica

Lema: Felizes os que promovem a paz

Objetivo Geral: Unir Igrejas cristãs e pessoas de boa vontade na superação da violência, promovendo a solidariedade e a construção de uma cultura de paz.


43. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2006


Tema: Fraternidade e Pessoas com Deficiências

Lema: Levanta-te, vem para o meio!

Objetivo Geral: Conhecer melhor a realidade das pessoas com deficiência e refletir sobre a sua situação, à luz da Palavra de Deus e da ética cristã, para suscitar maior fraternidade e solidariedade em relação às pessoas com deficiência, promovendo sua dignidade e seus direitos.

44. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2007


Tema: Fraternidade e Amazônia

Lema: Vida e missão neste chão

Objetivo Geral: Conhecer os valores e a criatividade dos povos da Amazônia e as agressões que sofrem por causa do atual modelo econômico e cultural, a fim de chamar à conversão, à solidariedade, a um novo estilo de vida e a um projeto de desenvolvimento humano baseados nos valores humanos e evangélicos.

45. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2008


Tema: Fraternidade e Defesa da Vida Humana

Lema: Escolhe, pois, a vida (Dt 30,19)

Objetivo Geral: Levar a Igreja e a sociedade a defender e a promover a vida humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, compreendida como dom de Deus e corresponsabilidade de todos, na busca de sua plenificação.


46. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2009


Tema: Fraternidade e Segurança Pública

Lema: A paz é fruto da justiça (Is 32, 17)

Objetivo Geral: Suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos.

47. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2010


Lema: Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mt 6,24)

Tema: Economia e Vida

Objetivo Geral: Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão.

48. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2011

Lema: A criação geme em dores de parto (Rm 8,22)

Tema: Fraternidade e a Vida no Planeta

Objetivo Geral: Contribuir para a conscientização das comunidades cristãs e pessoas de boa vontade sobre a gravidade do aquecimento global e das mudanças climáticas, e motivá-las a participar dos debates e ações que visam a enfrentar o problema e preservar as condições de vida no planeta.

49. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2012

Lema: Que a saúde se difunda sobre a terra (Eclo 38,8)

Tema: Fraternidade e saúde pública

Objetivo geral: o grande objetivo da campanha deste ano é refletir sobre a realidade da saúde no país em vista de uma vida saudável. Sabemos que a vida, a saúde e a doença são um mistério, verdadeiros dons de Deus, ambas relacionadas à ordem corporal e à espiritual, necessitando sempre de cura.

50. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2013

Lema: Eis-me aqui, envia-me! (Is 6,8)

Tema: Fraternidade e Juventude

Objetivo geral: acolher os jovens no contexto de mudança de época, propiciando caminhos para seu protagonismo no seguimento de Jesus Cristo, na vivência eclesial e na construção de uma sociedade fraterna, fundamentada na cultura da vida, da justiça e da paz.


51. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2014

Lema: É para a liberdade que Cristo nos libertou

Tema: Fraternidade e Tráfico Humano

Objetivo geral: identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-lo como violação da dignidade e da liberdade humana, mobilizando cristãos e a sociedade brasileira para erradicar esse mal, com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus.

52. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2015

Tema: Fraternidade: Igreja e Sociedade

Lema: Eu vim para servir ( Mc 10,45)

Objetivo geral : aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus.


53. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2016

Lema: Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca.

Tema: Casa comum, nossa responsabilidade

Objetivo Geral:  o objetivo principal da iniciativa é chamar atenção para a questão do saneamento básico no Brasil e sua importância para garantir desenvolvimento, saúde integral e qualidade de vida para todos.

54. CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2017

Lema: Cultivar e guardar a criação (Gn 2,15).

Tema: Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida

Objetivo Geral: cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho.

VÍDEOS CATÓLICOS: VÍDEOS DE FÁTIMA (I)

Outros tempos. A manifestação gloriosa da fé cristã da Espanha Católica, durante a peregrinação da imagem da Capelinha das Aparições de Nossa Senhora de Fátima à Espanha, por ocasião da realização do Congresso Mariano Diocesano de Madri, que ocorreu entre 22 de maio e 2 de junho de 1948.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

LUZ NAS TREVAS DA HERESIA PROTESTANTE (XIII)

A 11ª objeção* é dar um texto que prove que há sete sacramentos.

Vamos satisfazer ao nosso amigo crente e citar-lhe, como de costume, textos da Sagrada Escritura, da história, do bom senso e até textos protestantes. É coisa fácil, e esperamos provar claramente que há deveras sete sacramentos, nem mais, nem menos.

I. Noções necessárias

Procuremos, em primeiro lugar, compreender bem o que é um sacramento, donde vem e para que serve. Esta simples noção fará cair já a maior parte das objeções como, perante a exposição clara da verdade, dissipam-se todos os erros. O catecismo diz que um sacramento é um sinal sensível, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, para produzir a graça em nossas almas e santificá-las. Desta definição resulta que três coisas são exigidas para constituir um sacramento. São:

1° Um sinal sensível, representativo da natureza da graça produzida. Deve ser sensível porque, se não pudéssemos percebê-lo, deixaria de ser um sinal. Este sinal sensível consta sempre de matéria e de forma, isto é, da matéria empregada e das palavras pronunciadas pelo ministro do sacramento.

2° Deve ser instituído por Jesus Cristo, porque só Deus pode ligar a um sinal visível a faculdade de produzir graça. Jesus Cristo, durante a sua vida mortal, instituiu pessoalmente os sete sacramentos, deixando apenas à Igreja o cuidado de estabelecer ritos secundários, realçá-los com cerimônias, sem tocar-lhes na substância.

3° Para produzir a graça, isto é, para distribuir-nos os efeitos e méritos da redenção que Jesus Cristo mereceu por nós, na cruz. Os sacramentos comunicam esta graça, por virtude própria, independente das disposições daquele que os administra ou recebe. Esta qualidade, chamada pela teologia ex opere operato, distingue os sacramentos da oração, das boas obras e dos sacramentais, que tiram a sua eficácia ex opere operantes das disposições do sujeito.

Compreendidas estas noções, temos de provar agora verdades negadas pelos protestantes. Primeiro, que há sacramentos – segundo, que há sete sacramentos.

II. Há sacramentos

Os amigos protestantes ensinam – e isso unicamente para contradizer a Igreja Católica – que os sacramentos são meras cerimônias exteriores, testemunhando que a graça está na alma, sem o poder de infundi-la. É um erro fundamental e grosseiro. Para provar irrefutavelmente a necessidade dos sacramentos, é preciso recorrer à sublime doutrina da graça ou da nossa vida sobrenatural. Verdade que os protestantes não negam em seu princípio, mas em seus meios. Os sacramentos são, de fato, os meios, os canais, para transmitir-nos a graça divina, os merecimentos de Jesus Cristo.

Antes de tudo, notemos que a religião de Cristo não é simplesmente um meio, é antes de tudo um princípio. Os homens sabem inventar meios; só Deus pode fixar princípios. Pela adição de princípios aos meios humanos, ele faz ato de Deus: cria. Esta criação nas almas chama-se a graça. A graça, que a teologia define como um dom sobrenatural de Deus, por causa dos méritos de Jesus Cristo, como meio de salvação, é tudo na religião católica, é sua seiva, o seu sopro, a sua alavanca.

Arquimedes concebe uma máquina para suspender o mundo, mas falta-lhe um ponto de apoio e uma alavanca. Descartes sonha o mecanismo do universo, mas falta-lhe a matéria e o movimento. Jesus Cristo quer levantar as almas a Deus, e nada lhe falta, ele concebe e ele faz. São Tomás, na sua linguagem de águia, resolve tudo nestas palavras do ofício do Santíssimo Sacramento: O filho único de Deus, misericordiosamente cioso de tornar-nos participantes da sua divindade, tomou nossa natureza para que Deus, feito homem, fizesse dos homens deuses - ut homines deos faceret factus homo (Lect. IV).

III. Vida sobrenatural

A vida sobrenatural existe e existindo, ela é obrigatória para o homem. É a ordem estabelecida por Deus. Queira ou não queira, o homem tem de viver da graça ou de perder-se miseravelmente. Quando um Deus vem a este mundo, sofre e morre para transmitir ao homem o preço, o resgate dos seus méritos, o homem não pode subtrair-se a tamanho amor; há de escolher: ou Cristo ou o demo, ou a vida de Cristo que é a graça, ou a vida da carne que é o vício; a salvação ou a perdição.

Gravemos na mente a definição da graça, dada por Santo Agostinho (Sermo 133, cap. XI): 'A graça é como o prazer que nos atrai. Não há nada de duro, na santa violência com que Deus nos atrai, tudo é suave e benfazejo'. Esta palavra é admirável: A graça é um verdadeiro poder atrativo, que prevém à vontade, a estimula e a leva a Deus, a atrai por deleitação interior, e faz amar, como por instinto, Aquele que a nossa razão devia amar acima de tudo: Deus. Este termo atrativo parece novo em teologia, entretanto ele é a expressão da palavra de Jesus: 'Ninguém pode vir a mim, se Aquele que me enviou não o atrair' (Jo 8,22). E esta outra: 'Uma vez levantado da terra, atrairei tudo a mim – omnia traham ad meipsum (Jo 12,32).

IV. O que é a graça

A graça em seu princípio é, pois, a vida de Deus em nós: Participatio quaedam naturae divinae, diz São Tomás. Para comunicar-nos a sua vida, Deus podia agir imediatamente sobre a nossa alma; ele o faz às vezes. A simples elevação dos nossos corações, pela oração, podia produzir este efeito, mas além desta ação imediata de Deus sobre a alma, além do meio da oração, Deus instituiu meios particulares para comunicar-nos as suas graças, meios obrigados, indispensáveis: estes meios são os sacramentos.

Vejamos esta necessidade; está admiravelmente descrita por São Paulo. Escute bem, amigo protestante, ou melhor, tome a sua Bíblia e leia este capítulo admirável de SãoPaulo aos Romanos (cap. 6): 'Permanecemos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum (6,1). Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos (8). O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça' (14). Há pois duas vidas em nós: a vida do pecado e a da graça. Ora, esta graça é o dom de Deus, proveniente dos méritos de Jesus Cristo. 

É a seiva desta grava que deve circular em nós: Nós somos os ramos, Cristo é o tronco (Jo 15, 4-5). Deve haver união completa, íntima entre os meios de transmissão da graça e a alma que recebe esta graça, como há união completa entre o troco e os ramos. Na oração e nas boas obras, esta união completa não existe; deve haver outro meio e este meio são os sacramentos. Os sacramentos tornam-se, neste sentido, os canais transmissores da graça divina às almas - canais estabelecidos por Jesus Cristo, e portanto necessários.

V. Há sete sacramentos

É um dogma da nossa fé que os sacramentos existem, e que estes sacramentos são em número de sete, conforme o definiu o Concílio de Trento, condenando a tese protestante. Se alguém disser que os sacramentos não foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, ou que são mais de sete, ou menos, a saber: batismo, crisma, eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio, contra ele seja o anátema (Sessão 7, cânone 1).

São, pois, sete os sacramentos, nem mais, nem menos, contra os protestantes que nunca tiveram de acordo entre si sobre este ponto. No século XVI, os amigos protestantes rejeitaram os sete sacramentos. Rejeitar em palavras é fácil, como é fácil rejeitar a existência da cadeia para os malfeitores; o que não impede que aí acabem às vezes. Depois admitiram dois: batismo e eucaristia; dois, três ou quatro: os dois acima, e mais a penitência e a ordem. Hoje em dia, os ritualistas conservam os sete; as demais seitas reconhecem apenas o batismo e um simulacro de eucaristia. Bastaria este desacordo e esta contínua vacilação para mostrar o erro protestante.

A verdade não muda, caro protestante; só o erro anda sempre claudicando, sempre hesitando e sempre mudando. A Igreja Católica sempre ensinou e sempre ensinará que há sete sacramentos, porque assim recebeu o ensino dos apóstolos, tanto pela Tradição, como pelo Evangelho, e assim o vai transmitindo aos séculos. Nunca houve discussão a este respeito na Igreja, embora não encontremos nos primeiros séculos a enumeração metódica, que hoje empregamos na citação dos sacramentos.

Três argumentos temos às mãos para provar a tese dos sete sacramentos, e todos três são irrefutáveis: 1° A crença dos séculos. 2° o bom senso. 3° O Evangelho. Recorramos a estes argumentos.

  • A crença secular
O primeiro argumento da crença popular desta verdade parece remontar ao século V. A doutrina dos sete sacramentos encontra-se explicitamente nas seitas dos nestorianos e nos monofisistas, que se separaram da Igreja no século V. Não é admissível que estes hereges não tenham recebido da Igreja Romana o número de sete sacramentos. Se a conservaram como nós, é porque tal doutrina era um patrimônio comum, transmitido pela tradição apostólica e conhecido por todos, de modo que teria sido imprudente negar o que todos aceitavam como indiscutível.

  • O bom senso
Lembro ao meu amigo protestante que Deus, sendo o autor da razão humana ou bom senso, e o autor dos sacramentos, deve existir entre estes dois um perfeito acordo. É apenas argumento de conveniência, é certo, mas este argumento tem o seu valor pela analogia perfeita que estabelece entre as leis da vida natural e as da vida sobrenatural. São Tomás explica admiravelmente esta analogia. Os sete sacramentos reunidos são necessários e bastam para a vida, conservação e prosperidade espiritual, quer do corpo inteiro da Igreja, quer de cada membro em particular.

Os cinco primeiros são estabelecidos para o aperfeiçoamento pessoal, os dois últimos para o governo e a multiplicação da Igreja. Na ordem natural, para o aperfeiçoamento pessoal, é preciso: 1° nascer; 2° fortificar-se; 3° alimentar-se; 4ª curar-se na enfermidade; 5° refazer-se nos achaques da velhice. Para o aperfeiçoamento moral a humanidade carece de: 1° Autoridade para governar. 2° Propagação para perpetuar-se.

Tal é a ordem natural. Temos os mesmos elementos na ordem espiritual:

1° O batismo é o nascimento da graça.
2° A crisma é o desenvolvimento da graça.
3° A eucaristia é o alimento da alma.
4° A penitência é a cura das fraquezas da alma.
5° A extrema-unção é o restabelecimento das forças espirituais.
6° A ordem gera a autoridade sacerdotal.
7° O matrimônio assegura a propagação dos católicos e das suas doutrinas.

Os sete sacramentos são, deste modo, como outros tantos socorros, dispostos ao longo do caminho da vida, para a infância, a juventude, a idade madura e a velhice; para as duas principais carreiras que se oferecem: sacerdócio e casamento. Não se pode negar que a analogia é admirável e estabelece que deve haver sete sacramentos. Se houvesse menos, faltaria qualquer coisa; se houve mais haveria supérfluo; todas as necessidades estão preenchidas.

  • O Evangelho
Para o protestante, escravo da letra da Bíblia, o último argumento deve ser o mais decisivo. Estarão expressos no Evangelho os sete sacramentos? Perguntará o amigo protestante. Perfeitamente. O que derrota o pobre protestante é o seu apego estreito à letra e ao número. Nosso Senhor não citou o número de sete sacramentos; só os sacramentos, e o protestante, não encontrando o algarismo 7, começa logo a gritar que não há sete sacramentos.

A culpa seria assim de Jesus Cristo, que não pronunciou o número 7, como não pronunciou a palavra sacramento. Mas diga-me, meu caro crente: o senhor acredita no mistério da Santíssima Trindade, sendo três as pessoas distintas, em uma natureza divina: o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Acredita? Não deveria acreditar, pois Jesus Cristo nunca pronunciou o algarismo três, falando da Santíssima Trindade.

Ele fala do Pai, do Filho e do Espírito Santo e não pronuncia o número três. E, entretanto, o meu inteligente protestante conclui: O Pai é um. O Filho é dois. O Espírito Santo é três e conclui que há três pessoas em Deus. Mas por que não faz o mesmo cálculo quando se trata dos sacramentos? O Evangelho não fala de sete sacramentos, mas vai enumerando todos os sete, instituídos por Jesus Cristo. São sete, nem mais nem menos: e a Igreja, apoiada nos argumentos comprovativos, colhidos nos Evangelhos, de cada sacramento, demonstra que são sete, nem mais, nem menos.

E se os protestantes não aceitam o número de sete, por que aceitam o número de dois ou três, tratando-se dos sacramentos, visto estes números não figurarem no Evangelho? É preciso ser consequente: ou tudo ou nada, desde que não há razão que milite em favor de um número determinado.

VI. Os textos da Bíblia

É tempo de citar os textos pedidos que provam a existência dos sete sacramentos. Citando um texto que se refere a cada um em particular, fica provada a existência dos sete, até o meu amigo protestante achar um algarismo que diminua este número, ou prove que um deles não foi obra de Cristo, enfim encontrar mais um outro que satisfaça às condições exigidas, sem redundar num dos sacramentos já existentes.

1° BATISMO

Sua instituição e preceito estão positivamente marcados nos seguintes textos: 'Em verdade vos digo', disse Jesus a Nicodemos, 'quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus' (Jo 3,5). 'Ide, ensinai a todas as gentes, disse Jesus a seus discípulos, batizando-as, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo' (Mt 28, 19). 'O que crer e for batizado, será salvo, promete o Salvador' (Mc 16,61). 'Recebe o batismo e lava os teus pecados', disse Ananias a Saulo (At 22,16). Os apóstolos administravam o batismo a todos os que desejavam alistar-se na religião nova. Três mil pessoas recebem o batismo das mãos de São Pedro, no dia de pentecostes (At 2, 38-41). O batismo é, pois, um sacramento instituído por Jesus Cristo.

2° A CRISMA

Como nova instituição divina, as Escrituras marcam os elementos constitutivos da crisma. Os atos dos apóstolos provam que o seu rito exterior consiste na imposição das mãos: os apóstolos Pedro e João, enviados a Samaria, punham as mãos sobre os que tinham sido batizados, e recebiam estes o Espírito Santo (At 8, 12-17). Do mesmo modo, São Paulo, vindo a Éfeso, batizou, em nome de Jesus, discípulos de João e a eles impôs as mãos, para que o Espírito Santo baixasse sobre eles (At 19, 1-6). 

Segundo estes textos, compreende-se claramente que Pedro e João de um lado, e Paulo de outro, deram o Espírito Santo, pela imposição das mãos. Ora, uma tal prática seria ridícula, se eles o fizessem, fora da vontade e das prescrições do Mestre, donde se deve concluir necessariamente que o próprio Nosso Senhor tenha instituído o sacramento da crisma numa ocasião que a Sagrada Escritura não refere. Tal é, aliás, a opinião de muitos teólogos protestantes menos tolos do que os nossos pastores de hoje. Quanto ao uso cristão, verdadeiramente antigo, da imposição das mãos, diz o luterano Marhainehe, os apóstolos não o teriam certamente introduzido sem que recebessem a ordem divina. A crisma, diz o grande Leibniz, o luzeiro protestante, completa a obra começada pelo batismo (Leib. 1, p. 215.). A crisma é, pois, um sacramento instituído por Jesus Cristo.

3ª A EUCARISTIA

Tendo provado a existência deste sacramento com numerosos textos no capítulo XV da presente obra [Parte XII do texto no blog], é inútil repetir as mesmas verdades. A eucaristia, por sua vez, é um sacramento instituído por Jesus Cristo, em que ele nos dá o seu próprio corpo e o seu próprio sangue, como alimento das nossas almas: 'Aquele que come o meu corpo e bebe o meu sangue, esse fica em mim e eu nele' (Jo 6, 57-59).

4° A CONFISSÃO

Outra verdade já provada no capítulo XIV desta obra [Parte XI do texto no blog]. 'Os pecados serão perdoados aos que vós perdoardes, e serão retidos os que vós retiverdes', diz o Mestre. O rito exterior encontra-se na confissão dos pecados e na absolvição judiciária. Quanto ao preceito de confessar-se, é positivo; São Paulo escreve: 'Deus nos confiou o ministério da reconciliação, pôs em nós a palavra de reconciliação, logo fazemos o ofício de embaixadores em nome de Cristo' (2 Cor 5, 18-20). A confissão, por sua vez, é também um sacramento instituído pelo próprio Jesus, para comunicar aos pecadores arrependidos o perdão das suas faltas.

5° A EXTREMA-UNÇÃO

É o quinto sacramento instituído por Jesus Cristo, sem que saibamos em que época o instituiu. A Sagrada Escritura, como para a crisma, nos transmite apenas o rito exterior e o efeito produzido. O Evangelho diz que à ordem do Senhor, os apóstolos expeliam muitos demônios e ungiam com óleo a muitos enfermos e os curavam (Mc 6,13). Eis um fato, é a ordem do Senhor. 

A instituição da extrema-unção decorre destas palavras de São Tiago: 'Está entre vós alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E o Senhor o aliviará, e se estiver em algum pecado ser-lhe-á perdoado' (Tgo 5, 14-15). Nunca o Apóstolo teria prometido tais efeitos a uma unção, na enfermidade, sem firmar-se na autoridade divina da instituição deste sacramento. A extrema-unção é, pois, verdadeiramente um sacramento instituído por Jesus Cristo para aliviar os enfermos e dar-lhes o perdão das suas culpas.

6° A ORDEM

A ordem é o sacramento que dá o poder de desempenhar as funções eclesiásticas, e a graça de fazê-lo santamente; em outros termos, é o sacramento que faz os sacerdotes ou ministros de Deus. Muitos textos da Sagrada Escritura provam a existência do sacerdócio e indicam o rito da ordenação sacerdotal. Lemos de fato que Nosso Senhor fez uma seleção entre os discípulos: 'Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi', diz ele (Jo 15,16). Aos discípulos eleitos, chamados apóstolos, o divino Mestre confia as quatro atribuições particulares do sacerdócio: a) oferecer o santo sacrifício; b) perdoar os pecados; c) pregar o Evangelho e d) governar a Igreja.

1° 'Fazei isto em memória de mim' (Lc 22,19). É a ordem de reproduzir o que ele tinha feito: mudar o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue divino.
2° 'Os pecados serão perdoados aos que vós os perdoardes' (Jo 20,23). É o poder de perdoar os pecados.
3° 'Ide no mundo inteiro, pregando o Evangelho a todas as criaturas' (Mc 16, 15).
4° 'O Espírito Santo constituiu os bispos para governarem a Igreja de Deus' (At 20,28).

Eis os poderes dados por Jesus Cristo a seus ministros ou sacerdotes, representados pelos primeiros sacerdotes, que foram os apóstolos. Quando ao rito de ordenação, não é menos claramente indicado: 'Não desprezes a graça que há em ti e te foi dada por profecia pela imposição das mãos do presbitério' (1 Tm 4,14). Chama-se presbitério a reunião dos bispos e padres que concorreram para a ordenação de Timóteo, de que São Paulo foi o principal ministro, como se vê claramente na segunda epístola dirigida ao mesmo discípulo. 'Por este motivo', diz ele, 'te admoesto que reanimes a graça de Deus, que recebeste pela imposição de minhas mãos' (2 Tim 1,6).

O exemplo dos apóstolos nos mostra a transmissão dos poderes sacerdotais pela ordenação. E por onde Paulo e Barnabé passavam, ordenavam sacerdotes para cada Igreja (At 14,22). Tudo isso prova claramente que os apóstolos tinham recebido de Jesus Cristo a divina investidura de poderes, que iam assim distribuindo pela imposição das mãos: e esta investidura é o sacramento da ordem.

O castelo tão cuidadosamente arquitetado pelos pastores protestantes para esconderem o grande sacramento da ordem, que faz do sacerdote católico verdadeiro representantede Deus, com poderes divinos, cai miseravelmente diante dos textos citados, e faz aparecer a grandeza do sacerdócio católico e a baixeza do pastorado protestante, que nada é e nada vale, senão uma exploração, um meio de vida; pois, se os sacerdotes católicos recebem os seus poderes de Deus, o pastor protestante nada recebe de ninguém: ele mesmo escolhe-se, nomeia-se, e dá a si os poderes que julga ter.

7° O MATRIMÔNIO

É o último na série dos sacramentos. O casamento, que era antes de Jesus Cristo mero contrato, é um verdadeiro sacramento na nova lei. Não sabemos exatamente o tempo nem o lugar em que Jesus Cristo instituiu este sacramento; pensam os teólogos que foi nas bodas de Caná. Outros pensam que foi na ocasião em que o Salvador restaurou a unidade e a indissolubilidade primitivas quando interrogado a respeito do divórcio (Mt 19, 3-5). Outros ainda pensam que foi instituído depois da ressurreição, e promulgado por São Paulo, na epístola aos efésios (5, 25-33).

Pouco importa o tempo e o lugar, o certo é que o matrimônio foi por Nosso Senhor elevado à dignidade de sacramento, como resulta positiva a irrefutavelmente da Sagrada Escritura. 'Não separe o homem o que Deus ajuntou', disse Jesus Cristo (Mt 19,6). Este mistério, ou sacramento, é grande em relação a Cristo e à Igreja, diz São Paulo (Ef 5,32). Isso é grande em relação a Cristo, porque é instituição divina; grande em relação à Igreja, que deve mantê-lo na sua unidade e indissolubilidade.

O rito externo foi indicado por São Paulo: é a mútua tradição e aceitação do direito sobre os corpos, em ordem aos fins do casamento, formando a união santa, como é santa a união do Cristo com a sua Igreja (Ef 5,25). É mais uma bomba que pegam os nossos amigos protestantes; eles, que rejeitam o sacramento, para contentar-se unicamente com o contrato civil, preferindo – como aliás fazem sempre – a obra humana à instituição divina.

VII. Conclusão

Eis, pois, bem provada a tese em refutação do erro protestante. Há sacramentos na Igreja que são os canais para transmitir aos homens a graça divina, proveniente dos méritos de Jesus Cristo. Há sete sacramentos, nem mais, nem menos, porque há necessidade destes sete e porque um oitavo seria necessariamente repetição de um outro, e ainda porque Jesus Cristo, não consultando os protestantes, entendeu instituir sete.

Tudo isso é bem provado, tanto pela Sagrada Escritura, como pelo bom senso e pela tradição dos séculos cristãos. Só não enxerga quem não quer enxergar; e não compreende quem não quer compreender, porém a verdade é e será sempre esta. Se os protestantes não aceitam os sete sacramentos, devia-se concluir que nem sabem contar até sete. Neste caso é o pirronismo da ignorância. Pobres protestantes iludidos, quando sabereis compreender a vossa bíblia? 

* Estas 'objeções' foram propostas por 'um crente' como um desafio público ao Pe. Júlio Maria e que foi tornado público durante as festas marianas de 1928 em Manhumirim, o que levou às refutações imediatas do sacerdote, e mais tarde, mediante a inclusão de respostas mais abrangentes e detalhadas, na publicação da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', ora republicada em partes neste blog.

(Excertos da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', do Pe. Júlio Maria de Lombaerde)