terça-feira, 30 de novembro de 2021

SOBRE A INTERCESSÃO DE NOSSA SENHORA

'Quisera eu viver nos tempos do Anticristo' - escrevia a pequena Teresa em seu leito de agonia. Não há dúvida de que a carmelita que se ofereceu como vítima de um holocausto ao Amor Misericordioso intercederá por nós quando surgir o Anticristo, nem há dúvida que já está intercedendo especialmente em nosso tempo, em que os precursores do Anticristo se introduziram no seio da Igreja. Também não há dúvida de que sua oração está unida com a súplica infinitamente mais poderosa da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus. Aquela que esmaga a cabeça do dragão infernal em sua Imaculada Conceição e sua maternidade virginal, a que foi glorificada de corpo e alma e que reina no céu com seu Filho. Ela domina como soberana todos os tempos de nossa história e, particularmente, os momentos mais tremendos para as almas, a saber, os da vinda do Anticristo e aqueles em que seus diabólicos precursores prepararão esta vinda.

Maria se manifesta não somente como Virgem Poderosa e consoladora nos momentos de angústia para a cidade terrestre e a vida corporal, mas se mostra, sobretudo, como Virgem auxiliadora, forte como um exército em ordem de batalha, em tempos de devastação da Santa Igreja e de agonia espiritual de seus filhos. Ela é a rainha da história do gênero humano, não somente para os tempos de angústia, mas também para os tempos do Apocalipse.

A Primeira Guerra Mundial foi um desses tempos de angústia: matanças de ofensivas mal preparadas, derrota implacável sob um furacão de ferro e fogo... Quantos homens ao apertarem seus cintos saíam com a terrível certeza de perecer neste tornado alucinante sem nunca ver a vitória; mesmo às vezes, e isso era o mais atormentador, as dúvidas lhes vinham à mente a respeito do valor de seus chefes e a prudência em suas ordens. Mas, no final, em um ponto eles não tinham dúvidas e essa questão superava todas: a da autoridade espiritual. O capelão que auxiliava esses homens a serviço da pátria até sua morte era absolutamente firme em todos os artigos da fé e nunca teria pensado em adaptar pastoralmente a Santa Missa. Celebrava o Santo Sacrifício da Missa segundo o rito e as palavras antigas; celebrava com uma piedade muito mais profunda, que o sacerdote sem armas e seus paroquianos armados, poderiam ser chamados a unir, de um momento a outro, seu sacrifício de pobres pecadores com o único sacrifício do Filho de Deus que tira os pecados do mundo.

A mesma fidelidade do capelão se fundava tranquilamente na fidelidade da autoridade hierárquica que conservava e defendia a doutrina católica e o culto tradicional e não hesitava em apartar da comunhão católica os hereges e traidores. Depois, em poucos instantes talvez, na frente de batalha, os corpos iam ser esmagados, mutilados em um horror sem nome, talvez se sufocariam inexoravelmente e se asfixiariam lentamente em meio a uma camada de gás. Mas, apesar do suplício dos corpos, as almas permaneceriam intactas, sua serenidade inalterada, seu interior preservado, e o mais negro de todos os demônios, o das supremas mentiras, não deixaria escutar os seus sarcasmos. A alma não ficaria abandonada aos ataques traiçoeiros, covardemente tolerada dos pseudoprofetas da pseudoIgreja; apesar do suplício dos corpos, a alma voaria do local de uma fé protegida ao recinto luminoso da visão beatífica no paraíso.

A Primeira Guerra Mundial foi um tempo de angústia. Mas agora, entramos em um tempo do Apocalipse. Todavia, sem dúvida, ainda não chegamos ao furacão de fogo que enlouquece os corpos, mas já presenciamos a agonia das almas, porque a autoridade espiritual parece já não querer defendê-las e se desinteressa da verdade da doutrina como da integridade do culto, ao não condenar ostensivamente os culpáveis. Eis aqui a agonia das almas na Santa Igreja, solapada desde o interior por traidores e hereges ainda não exilados.

Na história, houve outros tempos do Apocalipse. Lembremo-nos, por exemplo, dos interrogatórios à Santa Joana d’Arc, privada dos sacramentos por homens da Igreja, relegada ao fundo de um calabouço escuro, sob a guarda de horríveis carcereiros. Mas as vitórias da graça sempre selam os tempos do Apocalipse. Porque embora as bestas do Apocalipse adentrem até a cidade santa e a coloquem em grande perigo, a Igreja não deixa de ser Igreja, cidade muito amada, inexpugnável para o demônio e seus asseclas, cidade pura e imaculada cuja Rainha é Nossa Senhora.

Ela, a Rainha Imaculada, é a que abreviará os sinistros anos do Anticristo através de Jesus Cristo, seu Filho. E ainda, mais do que nunca, ela nos obterá durante esse tempo a graça de perseverar e nos santificar. Ela nos preservará a parte da autoridade espiritual legítima que absolutamente precisamos. Sua presença no Calvário, em pé próxima da cruz, nos anuncia isso infalivelmente. Ela estava de pé próxima da cruz de seu Filho, o próprio Filho de Deus, para unir-se mais perfeitamente ao seu Sacrifício redentor e merecer toda a graça para seus filhos adotivos. 

Toda a graça: a graça para enfrentar-nos as tentações e tribulações semeadas até nas vidas mais unidas; mas também a graça de perseverar, de voltar a levantar-se e santificar-se nas piores provas, provas de exaustão do corpo e as provas mais negras da agonia da alma, tempos em que a cidade carnal é invadida e os tempos em que a Igreja de Jesus Cristo deve resistir a auto-destruição. Ao estar em pé próxima da cruz de seu Filho, a Virgem Maria, cuja alma foi trespassada por uma espada de dor, a divina Virgem exausta e atônita como nenhuma criatura nunca será, nos dará a entender, sem dúvida, que será capaz de sustentar os redimidos nas provações mais terríveis com uma intercessão materna, de toda pura e poderosa. Esta Virgem muito doce e Rainha dos mártires nos persuade de que a vitória está oculta na própria Cruz e que muito depressa se manifestará; a brilhante manhã da Ressurreição logo surgirá sobre o dia sem fim da Igreja triunfante.

Na Igreja de Jesus, presa do modernismo até em sua cabeça, o sofrimento das almas e a queimadura do escândalo alcançam uma intensidade comovente. Tal drama é sem precedentes, mas a graça do Filho de Deus Redentor é mais profunda do que este drama. E nada interrompe a intercessão do Imaculado Coração de Maria, que alcança toda a graça. Nas almas mais abatidas e mais próximas da morte, a Virgem Maria intervém dia e noite para colocar fim, misteriosamente, a este drama e também misteriosamente romper as cadeias que o demônio acreditava ser inquebráveis: Solve vincla reis - Aos réus desata os grilhões.

Todos nós, a quem Nosso Senhor Jesus Cristo, por uma marca especial de honra, chama à fidelidade em meio a novos perigos e em uma forma de luta que nunca havíamos experimentado – luta contra os precursores do Anticristo infiltrados na Igreja – voltemos ao essencial: nossa fé. Lembremo-nos que cremos na divindade de Jesus, na maternidade divina e na maternidade espiritual de Maria Imaculada. Consideremos um pouco a plenitude de graça e sabedoria escondida no coração do Filho de Deus feito homem e que flui eficazmente em todos aqueles que creem. Consideremos também a plenitude de doçura e da intercessão que é privilégio exclusivo do Imaculado Coração de Maria. Rezemos como as crianças a Nossa Senhora e façamos a experiência inefável que os tempos do Anticristo são tempos de vitória: vitória da Redenção plena de Jesus Cristo e da intercessão soberana de Maria.

(Artigo do Pe. Roger Thomas Calmel, dominicano francês, 1975)

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XX)

 

Capítulo XX

Diversidade das Dores - Rei Sancho e Rainha Guda - Santa Lidwina e a a Alma Transpassada - Santa Margarida Maria e o Leito de Fogo

Segundo os santos, existe uma grande diversidade nos tormentos das penas do Purgatório. Embora o fogo seja o principal instrumento de tormento, há também o tormento do frio, o tormento imposto aos membros e o tormento aplicado aos diferentes sentidos do corpo humano. Esta diversidade de sofrimentos parece corresponder à natureza dos pecados, cada um dos quais exige o seu próprio castigo, segundo estas palavras: Quia per quce peccat quis, per hcec et torquetur - 'Pelas mesmas coisas que se peca, se é atormentado' (Sb 11,17). Acolhe ser assim em relação aos castigos, uma vez que a mesma diversidade existe em relação á concessão das recompensas. No Céu cada um recebe segundo as suas obras e, como diz o Venerável Beda, cada um recebe a sua coroa e o seu manto de glória. Enquanto que, para o mártir, tem o esplendor da púrpura, para o confessor, possui o brilho de uma alvura deslumbrante.

O historiador João Vasquez, em crônica do ano 940, relata como Sancho, Rei de Leão, apareceu à Rainha Guda, sua esposa, e pela piedade dela, foi libertado do Purgatório. Sancho, que levara uma vida verdadeiramente cristã, foi envenenado por um de seus súditos. Após a sua morte, a Rainha Guda passou seu tempo orando e intercedendo por orações em intenção da alma do rei. Não contente por ter oferecido muitas missas nessa intenção, para que pudesse chorar e velar perto dos queridos restos mortais, a rainha tomou o véu no convento de Castela, onde o corpo de seu marido havia sido sepultado. Num sábado, enquanto rezava aos pés da Santíssima Virgem, recomendando-lhe a alma do seu falecido marido, Sancho apareceu-lhe - mas em que condições! Bom Deus! Ele estava vestido com roupas de luto e usava uma fileira dupla de correntes em brasa em volta da cintura. Depois de agradecer a sua piedosa viúva por seus sufrágios, ele a conjurou para continuar no seu trabalho de caridade. 'Ah! se você soubesse, Guda, o que eu sofro' - disse a ela - 'você faria ainda mais'. No abismo de graças da Divina Misericórdia, eu te conjuro: ajude-me, querida Guda; ajude-me, pois sou devorado por essas chamas'. 

A Rainha redobrou então as suas orações e boas obras; distribuiu esmolas entre os pobres, fez com que fossem celebradas missas em todas as partes do país e deu ao convento um magnífico ornamento para ser usado no altar. Ao final de quarenta dias, o rei lhe apareceu novamente. Ele havia sido aliviado do cinturão ardente e de todos os seus outros sofrimentos. No lugar de suas vestes de luto, usava agora um manto de alvura deslumbrante, adornado com o ornamento que Guda dera ao convento. 'Eis-me aqui, querida Guda' - disse ele - 'graças às suas orações, fui libertado de todos os meus sofrimentos. Que você seja abençoada para sempre. Persevere em sua santificação; medite frequentemente sobre a severidade das dores da outra vida e sobre as alegrias do Paraíso, onde estarei à sua espera'. Com essas palavras, desapareceu, deixando a piedosa Guda envolta em profunda consolação.

Um dia, uma mulher, bastante desconsolada, foi dizer a Santa Lidwina que havia perdido o irmão. 'Meu irmão acabou de falecer', disse ela, 'e venho recomendar a sua pobre alma à sua instituição de caridade. Ofereça a Deus por ele algumas orações e uma parte dos seus sofrimentos devidos à sua doença'.  A santa doente prometeu a ela de rezar pelo irmão e, algum tempo depois, em um de seus frequentes êxtases, foi conduzida por seu anjo da guarda às masmorras subterrâneas, onde viu com extrema compaixão os tormentos das pobres almas mergulhadas nas chamas. Uma delas em particular atraiu a sua atenção. Ela a viu atravessada por vergas de ferro. Seu anjo disse a ela que era a alma do irmão falecido da mulher que lhe havia pedido orações. 'Se você' - acrescentou o anjo - 'quiser pedir qualquer graça em seu favor, isto não será recusada a você'. 'Eu peço então' - respondeu - 'que ele seja libertado daqueles horríveis ferros que o transpassam'. Imediatamente ela os viu retirados do pobre sofredor, que então foi removido desta prisão especial e colocado naquela ocupada pelas almas que não haviam incorrido em nenhum tormento particular. 

A irmã do defunto retornou pouco depois junto a Santa Lidwina, que a fez conhecer a condição de seu irmão falecido e exortou-a a ajudá-lo, multiplicando as suas orações e esmolas pelo repouso de sua alma. Ela mesma ofereceu a Deus as suas súplicas e sofrimentos, até que finalmente a alma dele foi libertada (Vida de Santa Lidwina). 

Lemos na Vida da Bem-aventurada Margarida Maria que uma alma foi submetida em um leito de tormentos por causa da sua indolência durante a vida; ao mesmo tempo, foi submetida a um tormento particular em seu coração, por causa de certos sentimentos perversos e em sua língua, como punição por suas palavras pouco caridosas. Além disso, ela teve que suportar uma dor terrível de natureza totalmente diferente, causada nem pelo fogo nem pelo ferro, mas pela visão de uma alma condenada. 

Vejamos como a Beata Margarida* o descreve em seus escritos. 'Eu vi em um sonho' - diz ela - 'uma de nossas irmãs que havia morrido algum tempo antes. Ela me disse que sofreu muito no Purgatório, mas que Deus infligiu a ela um sofrimento que superava todas as outras dores, mostrando-lhe um de seus parentes próximos precipitado no Inferno. Com essas palavras, acordei e senti como se meu corpo estivesse machucado da cabeça aos pés, de forma que era com dificuldade que eu conseguia me mover. Como não devemos acreditar nos sonhos, não dei muita atenção a este, mas a alma da religiosa me forçou a considerá-lo apesar de tudo. A partir daquele momento, não me deu descanso e dizia-me incessantemente: 'Reze a Deus por mim; ofereça a Ele os seus sofrimentos unidos aos de Jesus Cristo, para aliviar os meus; me dê tudo o que você fizer até a primeira sexta-feira de maio, quando você, por favor, comungue em minha intenção'. Fiz assim, com a permissão da minha Superiora.

Nesse ínterim, a dor que essa alma sofredora me causou aumentou a tal ponto que não pude encontrar conforto nem repouso. A obediência obrigou-me a buscar um pouco de descanso em minha cama; mas mal havia repousado, ela pareceu aproximar-se de mim, dizendo: 'Você reclina-se à vontade em sua cama; olha aquela em que me deito e onde suporto sofrimentos intoleráveis'. ' Eu vi aquele leito de fogo e só de pensar nisso estremeço. A parte superior e inferior eram de pontas agudas e flamejantes que perfuravam a carne. Ela me disse então que isso se devia à sua preguiça e negligência na observância das regras. 'Meu coração está dilacerado' - ela continuou - 'e me causa os mais terríveis sofrimentos por meus pensamentos de desaprovação e crítica aos meus superiores. Minha língua é devorada por vermes e, por assim dizer, arrancada de minha boca continuamente, pelas palavras que proferi contra a caridade e minha pouca consideração pela regra do silêncio. Ah! Oxalá todas as almas consagradas a Deus me vissem nestes tormentos. Se eu pudesse mostrar a eles o que está preparado para aqueles que vivem negligentemente sua vocação, seu zelo e fervor seriam inteiramente renovados e eles evitariam aquelas faltas que agora me fazem sofrer tanto'.'

Diante dessa visão, derreti-me em lágrimas. 'Ai de mim!' - disse ela - 'um dia passado por toda a comunidade em observância exata iria curar minha boca ressecada; outro, vivido na prática da santa caridade, curaria minha língua; e um terceiro, passado sem qualquer murmúrio ou desaprovação aos superiores, curaria meu coração machucado; mas ninguém pensa em me aliviar'. Depois de ter oferecido a Comunhão que ela me pediu, ela me disse que os terríveis tormentos haviam diminuído muito, mas ela ainda tinha que permanecer muito tempo no Purgatório, condenada a sofrer as dores por aquelas almas que viveram mornas ao serviço de Deus. 'Quanto a mim' - acrescenta a bem-aventurada Margarida Maria - 'descobri que estava livre de meus sofrimentos que, como ela me havia dito, não diminuiriam a menos que ela própria fosse aliviada' (Languet, Vida da B. Margarida).

* canonizada em 13 de maio de 1920.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

domingo, 28 de novembro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

'Senhor meu Deus, a Vós elevo a minha alma!' (Sl 24)

 28/11/2021 - Primeiro Domingo do Advento

1. 'FICAI ATENTOS PARA FICARDES DE PÉ' 


Hoje começa um novo ano litúrgico da Santa Igreja com o Tempo do Advento, período que os cristãos são conclamados a viver em plenitude as graças da expectativa, da conversão e da esperança, à espera do Senhor Que Vem. O Ano Litúrgico 2021-2022 é o Ano C, no qual os exemplos e ensinamentos de Jesus Cristo são proclamados a cada domingo pelas leituras do Evangelho de São Lucas.

O Tempo do Advento compõe-se de um período de quatro semanas, representando os séculos de espera da humanidade pela vinda do Redentor. A primeira semana é dedicada aos Novíssimos do homem e à segunda vinda de Nosso Senhor. A segunda e a terceira semanas são dedicadas ao Precursor João Batista e a quarta semana, à preparação para o nascimento já próximo do Salvador (no Natal). Nesse período, a liturgia se reveste de austeridade, utilizando-se de paramentos roxos, retirando as flores de ornamentação das igrejas e omitindo-se o canto do Glória durante a Santa Missa.

Assim, o novo ano litúrgico começa com o anúncio por Jesus de sua Segunda Vinda gloriosa aos homens dos tempos finais: 'eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória' (Lc 21, 27), manifestação que será precedida por eventos portentosos: 'Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas' (Lc 21, 25 - 26). Jesus exorta, então, a todos os seus discípulos (os Apóstolos e os homens em geral) sobre a necessidade da estrita vigilância, na oração constante e na confiança de uma vida de plenitude cristã, diante das coisas do mundo, que passam e repassam no cotidiano de nossas vidas, mas que não têm valores de eternidade: 'Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra' (Lc 21, 34 - 35).

Vigiar significa essencialmente não pecar, não ofender a Santidade de Deus com as misérias e as fragilidades humanas, não conspurcar a Infinita Pureza da alma, que nos foi legada um dia, com a lama dos prazeres, frivolidades e maldades de uma vida profanada pelos valores do mundo. Porque haverá o dia do juízo, no qual os homens serão levados ou deixados para trás: ''ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem' (Lc 21, 36). Vigiar é viver na confiança absoluta aos ditames de Divina Providência: 'levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima' (Lc 21, 28). Vigiar é estar preparado para que sejam santos todos os dias de nossa vida para que Deus escolha, dentre eles, o mais belo, para receber de volta as almas vigilantes que Ele próprio desenhou para a eternidade.

sábado, 27 de novembro de 2021

ANO LITÚRGICO 2021 - 2022

Ano Litúrgico 2021-2022, de acordo com o rito católico romano, vai desde o primeiro domingo do Advento (28/11/2021) até a última semana do Tempo Comum, iniciada no domingo da Festa de Cristo Rei (20/11/2022), durante o qual a Igreja celebra todo o mistério de Cristo, desde o nascimento até a sua segunda vinda. O Ano Litúrgico 2021-2022 é o Ano C, no qual os exemplos e ensinamentos de Jesus Cristo são proclamados a cada domingo pelas leituras principais retiradas do Evangelho de São Lucas, com exceção de ocasiões especiais (as chamadas Festas e Solenidades do rito litúrgico) quando são utilizadas leituras específicas do Evangelho de São João. 

O ano litúrgico compreende dois tempos distintos: os chamados tempos fortes que incluem Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, durante os quais certos mistérios particulares da obra redentora e salvífica de Cristo são celebrados e o chamado Tempo Comum, no qual celebramos o Mistério de Cristo em sua totalidade, ou seja, encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão do Senhor. 

O Tempo Comum é subdividido em duas partes. A primeira parte começa no dia seguinte à festa do Batismo de Jesus e vai até a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, quando tem início a Quaresma. A segunda parte do Tempo Comum recomeça na segunda-feira depois de Pentecostes e se estende até o sábado que antecede o primeiro domingo do Advento, quando tem início um novo Ano Litúrgico, compreendendo sempre um período de 33 ou 34 semanas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O ESPÍRITO DA CRUZ


O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-se; acha-se bom o que Ele nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por quê? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; é muito raro. 

Não se tem comumente o espírito da Cruz. Assim que se tem algum sofrimento, depressa se diz: 'Meu Deus, livrai-me disto, livrai-me disto'; faz-se novenas para se ficar livre. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos.

É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Pe. Emmanuel-André)

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

UNA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA

 

Santa Igreja, Romana, Católica: una, excelsa, divina, imortal. Que conservas a fé apostólica e as promessas da vida eterna!



Nós te amamos! Nós somos teus filhos! Em teu seio queremos viver. E, da luz que nos dás entre os brilhos, nos teus braços maternos morrer!

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O NÚMERO DOS PECADOS QUE CONDENAM...

A misericórdia de Deus é infinita; mas apesar desta misericórdia, quantos não se condenam todos os dias! Deus cura ao que tem boa vontade. Perdoa os pecados, mas não pode perdoar a vontade de pecar. A medida dos pecados que Deus quer perdoar não é igual para todos. A um perdoa Deus cem pecados, a outro mil; aquele outro, porém, será condenado ao inferno depois do segundo pecado.

Quantos não há que o Senhor condenou logo depois da primeira queda! Refere São Gregório que um menino de cinco anos foi lançado no inferno quando dizia uma blasfêmia. A Santíssima Virgem revelou à serva de Deus Benedita de Florença, que o primeiro pecado foi a condenação de uma menina de doze anos. A mesma desgraça aconteceu a um menino de oito anos, que morreu e foi condenado logo depois do primeiro pecado. Lemos no Evangelho de São Mateus, que o Senhor, achando estéril uma figueira, cujos frutos procurava colher pela primeira vez, a amaldiçoou imediatamente, e que a árvore secou.

Por acaso algum temerário pode atrever a perguntar a Deus por que quer perdoar três pecados e não quatro? Neste ponto é preciso adorar os juízos divinos e dizer com o Apóstolo: Quam incomprehensibilia sunt iudicia eius, et investigabiles viae eius! – 'Quão incompreensíveis são os seus juízos, e imperscrutáveis os seus caminhos!' (Rm 11, 33). Replica talvez o pecador obstinado: Tantas vezes ofendi a Deus, e cada vez Deus me perdoou; por isso confio em que me perdoará mais este pecado. Respondo-lhe, todavia: porque não te castigou Deus até agora, segue-se que será sempre assim? Encher-se-á a medida e então virá o castigo. Ne dicas, peccavi, et quid accidit mihi triste? – 'Não digas' - avisa o Senhor - 'tenho cometido tantos pecados e Deus nunca me castigou' porque Altissimus enim est patiens redditor – 'O Altíssimo é um juiz paciente' (Ecl 5, 4). Quer dizer que virá um dia em que pagarás tudo, e quanto maior tiver sido a misericórdia, tanto maior será o castigo.

Afirma São Crisóstomo que há mais para receiar, quando Deus atura um pecador obstinado, do que quando o castiga sem detença. Com efeito, observa São Gregório, aqueles que Deus espera com mais paciência, são castigados depois com tanto mais rigor, se permanecem na sua ingratidão. Muitas vezes acontece, acrescenta o santo, que os que foram tolerados por mais longo tempo, morrem de improviso, sem terem tempo de se converter. Quanto mais Deus te houver favorecido com suas luzes, tanto maior será a tua obcecação e a tua obstinação no pecado.

É bem terrível a ameaça que o Senhor dirige aos que são surdos aos seus convites: 'Recusastes obedecer à minha voz; pois bem, eu também me rirei quando morrerdes' – Quia vocavi, et renuistis … ego quoque in interitu vestro ridebo (Pv 1, 24.26). Notem-se bem estas duas palavras: ego quoque (eu também); significam que, assim como o pecador zombou de Deus, confessando-se, prometendo e traindo-o sempre, assim o Senhor zombará dele na hora da morte. Além disso diz o Sábio: 'O imprudente que recai na sua loucura é como o cão que torna outra vez ao que tinha vomitado' (Pv 26, 11). O que Deniz, o Cartucho, explica dizendo: 'Assim como se sente náusea e horror em presença de um cão que devora o que tinha vomitado, assim Deus detesta ao que volta aos seus pecados, que na confissão tinha abominado'.

Meu Deus, eis-me aqui a vossos pés: eu sou esse animal nojento que de novo se pôs a comer os frutos que primeiro detestara. Não mereço misericórdia, Redentor meu; mas o sangue que derramastes por mim, me anima e obriga a esperar. Quantas vezes Vos ofendi e quantas vezes me perdoastes! Prometera não Vos ofender mais, e depois voltei ao que tinha vomitado, e Vós tornastes a perdoar-me. Esperarei porventura até que me mandeis ao inferno? Ou que me entregueis ao poder de meu pecado, desgraça maior ainda do que o próprio inferno? Não, meu Deus, quero emendar-me, e para Vos ser fiel, quero depositar em Vós toda a minha confiança; nas tentações quero sempre e imediatamente recorrer a Vós.

No passado fiei-me em minhas promessas e resoluções e descurei recomendar-me a Vós nas tentações. Daí proveio a minha ruína. De hoje em diante sereis Vós a minha esperança e a minha força e assim poderei tudo: Omnia possum in eo qui me confortat – 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fp 4,13). Concedei-me, pois, ó meu Jesus, pelos vossos merecimentos, a graça de me recomendar sempre a Vós e de implorar o vosso auxílio em todas as minhas necessidades. Amo-Vos, ó soberano Bem, digno de ser amado sobre todos os bens. Só a Vós quero amar, mas para isso deveis me ajudar. Vós também deveis auxiliar-me com a vossa intercessão, ó minha Mãe Maria. Guardai-me debaixo de vosso manto, e fazei que chame por vós em todas as tentações. O vosso nome será a minha defesa. 

(Excertos da obra 'Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano' - Tomo III, de Santo Afonso Maria de Ligório)