Pode nos ser surpreendente a ideia de um anjo chegar a odiar a Deus, mas há que se entender que, para eles, Deus já não representava o Bem, mas um obstáculo, uma opressão. Deus era visto como as imposições dos mandamentos, como a falta de liberdade. Ele não era visto como o Pai, mas tão somente como uma fonte de ordenamentos e imposições. O ódio deles nasceu com a energia de suas vontades resistindo, uma vez após outra, às chamadas de Deus que como um pai os buscava. Este ódio nasceu como reação lógica de uma vontade que tem de ratificar a decisão de abandonar a casa paterna, utilizando termos que nos sejam compreensíveis. Ou seja, alguém que quer sair de casa, a princípio, simplesmente quer ir embora; porém, se o pai lhe conclama uma e outra vez para não ir, o filho acaba por dizer: 'Deixe-me em paz!' Deus assim os conclamava pois sabia que, por mais tempo que as suas vontades estivessem afastadas dEle, mais ficariam arraigadas no seu afastamento. Certamente muitos anjos que haviam se afastado de Deus num primeiro momento, retornaram a Ele depois.
Esta é a grande batalha nos céus de que se fala no Apocalipse: 'Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a antiga Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos (Ap 12, 7-9). Como os anjos podem lutar entre si? Se não têm corpos, que armas podem usar? Os anjos são seres espirituais; o único combate que podem travar entre si é de natureza intelectual. As únicas armas que podem empunhar são os argumentos intelectuais. Essa batalha foi um combate intelectual. Deus enviava a graça a cada anjo para que volvesse à fidelidade ou se mantivesse nela. Os anjos [obedientes a Deus] enviavam argumentos aos [anjos] rebeldes para que retornassem à obediência. Os anjos rebeldes respondiam com razões para justificar suas posturas e para incitar a rebelião entre os [anjos] fiéis. Nesse embate intelectual de milhares de milhões de anjos, houveram baixas de ambos os lados: anjos rebeldes regressaram à obediência; anjos fiéis foram seduzidos pelas argumentações malignas.
A transformação em demônios foi progressiva. Com o transcorrer do tempo - tempo do evo - alguns [anjos rebeldes] odiaram mais a Deus, outros menos. Uns se tornaram mais soberbos, outros não tanto. Cada anjo rebelde foi-se deformando mais e mais, cada um em pecados específicos, assim como, de outro lado, os anjos fieis foram se santificando progressivamente. Anjos se santificaram mais em uma virtude, outros em outra. Cada anjo se fixou em um atributo ou outro da Divindade. Cada anjo amou com uma dada medida de amor. Por isso, no conjunto dos [anjos] fieis, começaram a ocorrer muitas distinções, de acordo com a intensidade das virtudes que cada anjo praticou mais.
Cada anjo possuía a sua própria natureza dada por Deus, mas cada um se santificou segundo uma medida própria, consoante a graça de Deus e a correspondência à sua própria Vontade. Isto é válido também, de modo oposto para os demônios. Cada um deles recebeu de Deus uma natureza, porém, cada um se deformou segundo suas próprias vontades extraviadas. Por isso, a batalha terminou quando cada um ficou obstinado em sua postura de forma irreversível. Chegou um momento em que só poderia ocorrer variações acidentais em cada ser espiritual. Em relação aos demônios, chegou um momento em que cada um ficou enrijecido na sua imprudência, na sua obstinação, no seu ódio, na sua inveja, na sua soberba, na sua egolatria... A batalha havia acabado! Poderiam seguir discutindo, falando, argumentando, exortando-se uns aos outros por milhares de anos, dizendo isso em termos humanos que, mesmo assim, somente haveria mudanças acidentais.
Foi, então, que os anjos foram admitidos à Presença Divina; aos demônios, foi-lhes permitido que se afastassem e fossem relegados à situação de prostração moral em que cada um se tinha colocado. Como se pode depreender, não foram os demônios enviados a uma masmorra em chamas e aparatos de tortura, mas que foram deixados como se encontravam, abandonados à sua própria liberdade e vontade. Não foram levados a parte alguma. Os demônios não ocupam lugar, não há onde pudessem ser levados. Não há aparatos de tortura nem chamas que os possam atormentar, nem correntes que lhes amarrem os membros. Assim também os anjos fiéis não entraram em nenhum lugar e, simplesmente, receberam a graça da visão beatífica. Tanto o céu dos anjos como o inferno dos demônios são estados. Cada anjo possui em seu interior seu próprio céu, esteja onde estiver; cada demônio, esteja onde estiver, leva dentro de seu espírito o seu próprio inferno.
O momento em que já não há mais volta é aquele em que um anjo vê a essência de Deus. Pois, depois de ver a Deus, nada mais lhe poderá fazer mudar de opinião. Depois de ter visto a Deus, ninguém jamais poderá optar por algo que lhe ofenda por mínimo que seja. Pois a inteligência compreenderia que seria como escolher ao esterco em vez de um tesouro. O pecado, depois desse momento, é impossível. O anjo, antes de entrar ao Céu, compreendia a Deus, compreendia o que era e o que significava a Sua santidade, onipotência, sabedoria, amor... Depois de ser admitido à contemplação da Essência Divina, não só compreende, mas então a vê, ou seja, vê a sua santidade, seu amor, sua sabedoria... O espírito, então, se deleita daquilo com tal amor e com tal veneração que jamais, sob nenhuma hipótese, quer apartar-se de Deus. Por isso, o pecado passa a ser impossível.
O demônio, por outro lado, fica irremediavelmente atrelado à opção que escolheu, desde o momento em que Deus decide não insistir mais. Chega um momento em que Deus decide não mais enviar graças de arrependimento. Pois, cada graça de arrependimento só pode ser superada, somente pode ser vencida, arraigando-se ainda mais no ódio [a Deus]. Chega o momento, então, que Deus vê que enviar mais graças só faria com que o demônio se apegasse cada vez mais com aquilo que a sua vontade escolheu. É o o momento em que Deus-Amor dá as costas [no original espanhol, 'Dios Amor da la espalda'; aqui o autor se refere a um amigo e professor universitário que, ao ficar surpreendido com tal expressão, sugeriu inclusive a sua correção, por parecer afrontosa à misericórdia divina. O autor, entretanto, ao manter a expressão, ratifica a proposição de que Deus, em um dado momento, após várias intervenções e chamamentos à criatura rebelde, a abandona ao seu arbítrio definitivo, não lhe concedendo mais quaisquer graças de arrependimento. No momento em que ocorre essa terrível decisão, a criatura já está julgada] e deixa que o seu filho siga o seu próprio caminho. Deixa que o demônio siga a sua vida apartada de Si.
Por um lado, não se pode afirmar que existiu um momento único em que um anjo se tornou um demônio, uma vez que este processo foi lento, gradual e progressivo. Por outro lado, porém, por mais demorado que tenha sido esse processo prévio (e o posterior), há que se ter um determinado momento preciso em que o espírito angélico teve de tomar a decisão de rejeitar ou não o seu Criador. Já se fez referência que esse processo admitiu mudanças, conforme a celestial batalha angélica descrita no Apocalipse (Ap 12, 7 - 9). Porém, chegou um momento nesta batalha em que os demônios se apartaram e se apartaram ainda mais. Não teria sentido continuar insistindo; o Criador respeita a liberdade de cada um.
O demônio aparece deformado nas pinturas e esculturas e é muito adequada essa forma de representá-lo, pois é um espírito angélico deformado; segue sendo um anjo, embora com sua inteligência e vontade deformadas. No mais, segue sendo tão anjo como quando foi criado. O demônio é, definitivamente, um anjo que decidiu seguir seu destino apartado de Deus. É um anjo que quer viver livre, sem amarras. A solidão interior em que se encontrará pelos séculos dos séculos e a inveja de compreender que os [anjos] fieis gozam da Visão de um Ser Infinito fazem-no reavivar, para todo o sempre, o seu pecado. Odeia a si mesmo, odeia a Deus, odeia a todos que o levaram a se apartar de Deus.
Entretanto, nem todos padecem igualmente. Alguns anjos, durante a batalha, se deformaram mais e outros menos. Os que se deformaram mais, os mais deformados, sofrem mais. Os menos deformados, sofrem menos. Mas há que se recordar, uma vez mais, que essa deformação é apenas da sua inteligência e da sua vontade. A inteligência está deformada, obscurecida, pelas próprias razões com que cada um justificou o seu afastamento, a sua separação. A vontade impôs à inteligência a sua decisão e a inteligência se viu impelida a justificar tal decisão. A inteligência atuou como um mecanismo de justificação, de argumentação daquilo que a vontade a incitava a aceitar. Como se vê, este processo possui uma extraordinária similaridade com o processo de degradação humana.
Não nos esqueçamos que o ser humano é um espírito em um corpo. Se prescindirmos dos pecados corporais, o processo interior psicológico que leva uma pessoa boa a fazer parte da máfia, de se tornar um guarda de um campo de concentração ou um terrorista é, em suma, o mesmo. Essencialmente, os conceitos de pecado, de tentação e de progressão da própria iniquidade, são idênticos para espíritos angélicos como para espíritos humanos, pois os pecados do homem são sempre pecados de espírito, ainda que os cometa com o corpo, uma vez que o corpo é meramente um instrumento do livre arbítrio decidido pelo espírito. Assim como uma criança perpassa pela sua infância, o anjo, inicialmente ao ser criado, não tem qualquer experiência. A pessoa humana sofre tentações por outras pessoas, e o mesmo ocorre com os anjos por seus semelhantes.
O ser humano pode pecar por princípios morais, tais como o amor pela pátria, a honra de sua família ou o bem-estar de um filho. O espírito angélico também tinha em si grandes princípios intelectuais que, ainda que diferentes dos humanos, corresponderiam a um complexo de pensamentos análogos ao deste mundo que conhecemos. Nós, seres humanos, somos também seres espirituais, ainda que tenhamos um corpo. Temos que apenas olhar para dentro de nós mesmos para compreender como alguém pode submergir ao pecado, como alguém pode corromper-se e é, então, que o pecado dos anjos [rebeldes] nos acerca e já não nos parece tão incompreensível.