Mostrando postagens com marcador Eucaristia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eucaristia. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de maio de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE TIXTLA

Em 22* de outubro de 2006, durante a missa dominical de um retiro espiritual oferecido aos fieis da Paróquia de São Martinho de Tours, em Tixtla, no México, conduzido pelo Pe. Raymundo Reyna Esteban como oficiante convidado, a Irmã Arely Marroquín observou que uma das hóstias parecia exsudar uma substância avermelhada à semelhança de sangue fresco. 

A hóstia eucarística foi cuidadosamente preservada, subdividida em amostras distintas que foram submetidas a exaustivos testes científicos, que envolveram laboratórios, cientistas e técnicas de origens diversas e independentes e em anonimato completo às conclusões dos estudos realizados pelos outros laboratórios envolvidos. 


Todos os testes confirmaram que o material analisado constituía tecido de músculo cardíaco, com identificação clara de células adiposas, glóbulos vermelhos e glóbulos brancos, indicando um metabolismo vivo e em franca manifestação. Adicionalmente, os estudos imunológicos demonstratam tratar-se de sangue humano, pertencente ao grupo sanguíneo AB. O fluxo sanguíneo foi caracterizado como proveniente do interior da hóstia para a superfície da mesma, sem quaisquer possibilidades de origem exterior à hóstia.

Em 12 de outubro de 2013, após vários anos dos estudos científicos e cuidadosa reflexão teológica, Dom Alejo Zavala Castro, bispo da diocese local, declarou o evento como um milagre eucarístico, convidando os fiéis a meditar sobre a Presença Real de Cristo e a se aproximarem da Sagrada Comunhão com maior fé, reverência e amor. A hóstia do milagre eucarístico de Tixtla permanece preservada na Paróquia de São Martinho de Tours, na diocese de Chilpancingo–Chilapa, no México, onde o milagre ocorreu, como objeto de veneração pública.

* outras referências indicam a data de 21 de outubro de 2006 (sábado)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

OS MILAGRES EUCARÍSTICOS DE CHIRATTAKONAM E VILAKKANUR

Chirattakonam (pronuncia-se Kiratakónam) é uma pequena localidade na Índia, situada no estado de Kerala, ao sul do país, conhecido pelas suas paisagens tropicais, rios e praias. Em termos geográficos, Chirattakonam é uma área rural associada à região de Thiruvananthapuram (ou Trivandrum), que é a capital do estado de Kerala. Neste local, mais especificamente na Igreja de Santa Maria (rito católico siro-malancar), ocorreu o chamado milagre eucarístico de Chirattakonam, em 28 de abril de 2001.

Neste dia, pela manhã, como ocorria normalmente todos os anos, teve início naquela paróquia a novena a São Judas Tadeu. Exatamente às 08:49h, o padre celebrante - Fr. Johnson Karnoor, pároco da igreja entre 1998 e 2007 - expôs o ostensório com o Santíssimo Sacramento para adoração pública, percebendo, logo em seguida, a presença de três pontos de sangue muito nítidos na Santa Eucaristia. Após destacar esse fato singular aos fieis presentes, exortou-os a continuarem em oração, enquanto guardava o ostensório no sacrário. No dia 30 de abril, viajou para Trivandrum e só retornou à sua paróquia para a missa da manhã do sábado seguinte, dia 05 de maio de 2001.

Ao abrir o sacrário, deparou-se com grande admiração com uma figura claramente estampada na hóstia, à semelhança de um rosto humano. Outras pessoas viam a figura também que, uma vez exposta à adoração, tornava-se cada vez mais nítida para todos. Durante a adoração, era hábito a leitura de uma passagem das Sagradas Escrituras que, naquele abençoado dia, narrava o episódio da aparição de Jesus ao incrédulo São Tomé, pedindo-lhe que tocasse as suas feridas da Paixão. Um fotógrafo foi chamado então para registrar o evento extraordinário exposto na hóstia consagrada. Com o tempo, a imagem tornou-se cada vez mais nítida e revelou-se a de um homem semelhante a Cristo, coroado de espinhos.


A imagem milagrosa foi investigada pela diocese de Trivandrum e a custódia com a hóstia permanece guardada na igreja até o presente. Este milagre eucarístico foi ratificado recentemente por outro, ocorrido em Vilakkannur, também no estado de Kerala, no sul da Índia. 

Em 15 de novembro de 2013, durante uma missa matinal de rotina na Igreja local de Cristo Rei, o padre Thomas Pathickal elevou a hóstia consagrada e, neste exato momento, uma imagem misteriosa começou a surgir sobre a superfície branca da hóstia. A imagem de um rosto inconfundivelmente humano, o qual as testemunhas reconheceram imediatamente como sendo o rosto de Jesus Cristo. Todos se ajoelharam em reverência e a notícia do acontecimento se espalhou rapidamente por toda a região.


Mais tarde, a hóstia com a imagem de Cristo foi confiada ao Núncio Apostólico na Índia e, após um cuidadoso processo de investigação, o Vaticano chancelou o evento como sendo um autêntico milagre eucarístico, que foi reconhecido oficialmente pela Igreja em 31 de maio de 2025.

sábado, 21 de março de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE BUENOS AIRES


Na noite de 18 de agosto de 1996, o padre Alejandro Pezet celebrava a Santa Missa das 19h do domingo na Igreja de Santa Maria, no bairro de Almagro, no centro comercial de Buenos Aires. Ao terminar a distribuição da Sagrada Comunhão, uma assistente aproximou-se dele para lhe dizer que havia encontrado uma hóstia descartada em um castiçal no fundo da igreja. Ao chegar ao local designado, o padre Alejandro recolheu a hóstia profanada, colocando-a num recipiente com água e guardando-a no sacrário da capela do Santíssimo Sacramento. Este procedimento da Igreja visa garantir a dissolução completa da hóstia e, assim, a consumação respeitosa da hóstia consagrada. 

No dia 26 de agosto, quando o sacrário foi aberto, verificou-se surpreendentemente que a hóstia consagrada não se havia dissolvido mas, pelo contrário, assumira um aspecto de uma substância sanguinolenta. Inteirado dos fatos, o então Arcebispo de Buenos Aires Dom Jorge Bergoglio - mais tarde o Papa Francisco - determinou que a hóstia fosse fotografada profissionalmente. As fotos, datadas de 6 de setembro de 1996, mostram a hóstia então transformada em um pedaço de carne sangrenta. Diante destes fatos extraordinários e com a devida cautela contra o sensacionalismo e injunções imediatas, a hóstia permaneceu protegida no Tabernáculo em segredo por três anos. E permaneceu sempre com a mesma natureza e aspecto da condição inicial.


Diante destas evidências, o  Cardeal Bergoglio decidiu que era mais do que necessária uma abordagem científica dos eventos e, para garantir uma maior independência e credibilidade à investigação, contatou profissionais externos do clero e da academia da Argentina. Assim, o neuropsicólogo boliviano Ricardo Castañón Gómez foi foi encarregado para coordenar os trabalhos da investigação científica da hóstia, com a participação decisiva de Ron Tesoriero*, um leigo australiano já então bastante conhecido por estudar cientificamente e divulgar relatos de milagres eucarísticos ao redor do mundo. Nessa empreitada, foram envolvidos diferentes laboratórios e especialistas, com destaque para a participação do médico legista e patologista americano Dr. Frederick Zugibe de Nova York. 

* Ron Tesoriero publicou estes fatos em livro: 'My Human Heart: Where Science and Faith Collide' - Meu Coração Humano: Onde a Ciência e a Fé se Encontram


Em 20 de abril de 2004, uma amostra da hóstia ensanguentada foi examinada ao microscópio pelo Dr. Zugibe em Nova York, sem que o mesmo soubesse da sua origem (na linguagem científica, o chamado 'procedimento cego'), que relatou as seguintes conclusões:

'O coração é a minha área de atuação. Isto é carne. Esta carne é tecido muscular cardíaco, miocárdio, da parede do ventrículo esquerdo, próximo à área das válvulas. É o músculo que dá ao coração seus batimentos e ao corpo sua vida. Este músculo cardíaco está inflamado. Perdeu suas estrias e está infiltrado por glóbulos brancos. Os glóbulos brancos normalmente não são encontrados no tecido cardíaco. Essas células são produzidas pelo corpo e escapam do sangue, infiltrando-se no tecido para tratar traumas ou lesões. 

A presença desses glóbulos brancos no tecido me diz duas coisas: Em primeiro lugar, este coração sofreu uma lesão traumática. Houve comprometimento do suprimento sanguíneo para o coração. Isso não é diferente do que já vi quando alguém é golpeado violentamente no peito, na região do coração. Em segundo lugar, este coração estava vivo. Este coração pertence a uma pessoa viva, não a uma pessoa morta. Estou vendo uma fotografia de um coração vivo. Posso datar a lesão. Posso datar quando ocorreu a interrupção do fluxo sanguíneo. Aconteceu 3 dias antes da imagem capturada na lâmina microscópica'.

A Igreja nos ensina que a Eucaristia é uma memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Quando recebemos a Comunhão, recebemos Jesus no momento de sua Ressurreição, três dias após a sua Paixão. No relatório final, o especialista complementa assim as suas análises:

'Os tecidos do coração sofreram alterações degenerativas do miocárdio, possivelmente devido à obstrução de uma artéria coronária que fornece nutrientes e oxigênio a uma área do músculo cardíaco. Essa obstrução pode ser resultado de um forte golpe no peito sobre o coração'.

(Igreja de Santa Maria / Buenos Aires)

Eventos preliminares em celebrações eucarísticas nesta mesma igreja dão a entender uma perspectiva em escala do evento maior. Com efeito, em maio de 1992, fragmentos de hóstia consagrada foram encontrados no altar e, uma vez colocados em água dentro do sacrário, não se dissolverem, passando a apresentar coloração avermelhada semelhante a sangue. Poucos dias depois, foram constatadas também gotas de sangue nas patenas durante a comunhão. Posteriormente, em julho de 1994, durante uma missa para as crianças, uma gota de sangue foi vista fluindo pela lateral da âmbula do sacrário. Os eventos de 1992, 1994 e 1996 constituem, assim, três milagres eucarísticos distintos e sucessivos na Igreja de Santa Maria em Buenos Aires.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SANTARÉM

Em Santarém, cerca de 45km de Fátima, um milagre eucarístico que ainda hoje persiste na história, antecipou por quase 700 anos as aparições de Nossa Senhora em Fátima. A data exata do milagre é desconhecida, mas comumente enquadrada aproximadamente na primeira metade do século XIII (as referências mais comuns situam o evento nos anos de 1247 ou 1266). O extraordinário se mantém intacto, ainda que o cenário e os personagens tenham sido desfeitos como poeira pelo tempo.

O fato singular tem início com um sacrilégio, envolvendo uma esposa infeliz e um marido infiel. Diante a situação de um casamento em crise profunda, a infeliz esposa buscou auxílio com uma feiticeira, que lhe prometeu ajuda no amor conjugal mediante a entrega por ela de uma hóstia consagrada. A mulher dirigiu-se, então, à Igreja de Santo Estêvão, participou normalmente da comunhão mas não engoliu a hóstia, removendo-a às escondidas da boca e, após envolvê-la por um véu, se dispôs a levá-la para o feitiço proposto. Durante o trajeto, entretanto, a hóstia começou a sangrar abundantemente, manchando o véu que a cobria com tal viva exposição, que a mulher mudou imediatamente de ideia, dirigiu-se apressadamente para casa e, na falta de uma opção melhor, guardou toda a peça em um pequeno baú.

Durante a madrugada, a casa foi tomada por uma intensa luz brilhante que se irradiava do baú; em pânico, a mulher confessou o seu pecado ao marido e ambos se prostraram cheios de temor diante o baú até o amanhecer, quando o pároco local foi chamado e inteirado dos fatos. A Sagrada Hóstia foi então transferida em procissão para a Igreja de Santo Estêvão, sendo conservada dentro de uma custódia feita de cera para preservar o sangue derramado.

Um outro evento extraordinário seguiu-se ao primeiro. Ao se abrir o sacrário contendo a custódia para uma solenidade de adoração pública da hóstia milagrosa, constatou-se que a mesma encontrava-se agora encerrada em uma píxide de cristal, juntamente com o precioso sangue, e com a cera envolvente desfeita em pedaços. No século XVIII, a hóstia foi transferida para um ostensório de ouro e prata que simula a irradiação original com 33 raios de luz, onde permanece até hoje. 

A hóstia apresenta um formato irregular, assemelhando-se à carne, com delicadas veias que percorrem toda a sua extensão, com uma quantidade associada de sangue seco e endurecido. O sangue se liquefez por diversas vezes ao longo dos séculos e a hóstia permanece intacta mesmo quase oito séculos depois. São Francisco Xavier, que visitou o santuário antes de partir para as suas missões, foi um dos muitos que testemunharam diretamente esse sinal extraordinário dos Céus.


A pequena casa onde o milagre ocorreu foi transformada em uma capela (atual Ermida), sendo agora o local de partida da procissão anual da festa litúrgica (comumente no Segundo Domingo da Páscoa, embora o aniversário do milagre seja celebrado no dia 22 de fevereiro), que refaz o trajeto da hóstia milagrosa até a igreja de Santo Estêvão que, após investigação formal e aprovação das autoridades da Igreja, foi renomeada como 'Igreja do Santíssimo Milagre'. Em 1997, a igreja foi elevada a santuário diocesano. Vários papas (Pio IV, São Pio V, Pio VI e Gregório XIV) concederam privilégios especiais e indulgências aos peregrinos e visitantes devotos do Santíssimo Milagre de Santarém.


VER MILAGRES EUCARÍSTICOS - PÁGINA DE SENDARIUM

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AMSTERDÃ - II

Em 24 de maio de 1452, a então já bastante desenvolvida cidade de Amsterdã foi praticamente devastada por um incêndio de grandes proporções, facilitado em larga escala pelas suas construções tipicamente de madeira com telhados de palha. O fogo destruiu não apenas moradias, mas também prédios públicos, igrejas e edifícios de maneira geral, causando enormes prejuízos e uma quase completa ruína da cidade. 

Quando o incêndio atingiu a capela construída no local do milagre eucarístico de 1345 (Nieuwezijds Kapel ou 'Capela da Cidade Nova'), muitos moradores tentaram salvar a Hóstia Milagrosa da destruição pelo fogo, sem êxito, devido à rápida propagação das chamas. Toda a igreja desabou e foi reduzida a cinzas. Mas um segundo milagre iria envolver a Hóstia Milagrosa, mais de 100 anos depois. No dia seguinte, em meio aos destroços do incêndio, o baú-relicário que continha a Hóstia foi encontrado completamente intacto, contra todas as expectativas possíveis. A hóstia havia sido preservada do fogo uma segunda vez.

(gravura da Nieuwezijds Kapel, datada de 1663)

A renovação extraordinária do Milagre Eucarístico de Amsterdã elevou a cidade a centro de peregrinação religiosa de toda a Europa a partir de então e uma nova capela foi construída no local, substituindo a capela original. Durante o século XVI, porém, Amsterdã passou pela Reforma Protestante e, como consequência, muitas igrejas foram profanadas e muitos símbolos católicos foram roubados e destruídos, incluindo a própria Hóstia Milagrosa, furtada e nunca mais recuperada. Em 1578, a Nieuwezijds Kapel foi confiscada pelo governo protestante e o culto católico foi proibido. A capela foi readaptada para diferentes fins ao longo dos tempos, sendo completamente demolida em 1908.

(baú-relicário da Hóstia Milagrosa)

Os únicos objetos remanescentes do segundo milagre são o baú-relicário que continha a Sagrada Hóstia e documentos oficiais que atestam o milagre. Ainda hoje e todos os anos, a comunidade católica refaz a procissão solene em honra do milagre (a chamada Stille Omgang ou Procissão Silenciosa) que percorre em silêncio o mesmo trajeto original da procissão medieval, na véspera do Domingo de Ramos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AMSTERDÃ - I


Amstelredam (Amsterdã) surgiu a partir de uma barragem construída no século XIII na foz do rio Amstel. O milagre eucarístico de Amsterdã ocorreu em 13 de março de 1345, quando a atual capital da Holanda não passava ainda de uma vila simplória conformada por um canal que contornava umas poucas ruas, casas e becos, alinhadas com cabanas de pescadores, uma igreja e um mosteiro. Numa casa simples às margens do canal, um pescador chamado Ysbrant Dommer, em seu leito de morte, fez chamar um sacerdote para receber os últimos sacramentos da Igreja. Após ouvir a confissão do homem, o padre o abençoou com os óleos da Extrema Unção e lhe deu a Comunhão.

Assim que o padre se foi, o pobre homem começou a tossir violentamente e, incapaz de qualquer contenção, acabou por vomitar a Hóstia recebida com todo o alimento do estômago. A Hóstia vomitada e ainda intacta foi lançada então em uma lareira acesa, desaparecendo em meio às chamas intensas, de acordo com o rito litúrgico medieval de se tratar a Eucaristia quando esta era expelida ou impossibilitada de ser consumida reverentemente.

No dia seguinte, porém, revolvendo-se as brasas e cinzas do fogo anterior, a Hóstia foi encontrada ainda perfeitamente intacta, sem quaisquer sinais de queima ou mudanças de forma ou de cor, mas tão somente branca, clara e brilhante como saída das mãos do sacerdote da comunhão. A Hóstia foi então recolhida cuidadosamente com um pano limpo e guardada em uma pequena arca, dando-se ciência então dos fatos ao sacerdote do dia anterior. Pedindo discrição a todos, o padre levou a Hóstia para a igreja paroquial de São Nicolau, colocando-a num píxide guardado no sacrário. Por espantoso que pareça, no dia seguinte, a Hóstia desapareceu do sacrário e foi reencontrada na pequena arca onde havia sido guardada originalmente. Levada novamente à Igreja, repetiu-se pela segunda vez o seu reaparecimento no local original onde fôra guardada.


A terceira vez que a Hóstia foi levada à igreja local ocorreu em meio a uma solene procissão e adoração eucarística, depois de ampla divulgação pública destes extraodinários eventos. As investigações oficiais, com amplo relato de testemunhas, foram conduzidas e atestadas pelo Bispo de Utrecht. Em carta pastoral, o bispo ratificou oficialmente como autêntico o milagre eucarístico ocorrido na pequena vila de Amsterdã, autorizando em seguida a exposição e a veneração pública da Hóstia. A casa do pescador - que recuperou a saúde - tornou-se local de peregrinação e, mais tarde, em 1347, foi transformada em capela (Heilige Stede ou 'Lugar Santo').

Com o grande afluxo de peregrinos, decidiu-se erguer um templo maior em local próximo, chamado Nieuwezijds Kapel (em tradução livre, Capela da Cidade Nova), construído entre 1347 e 1351, no então bairro do chamado 'lado novo' de Amsterdã, que passou a guardar a Hóstia Milagrosa em um baú-relicário, convertendo-se, assim, no santuário oficial do Milagre Eucarístico de Amsterdã. Deste modo, antes de Amsterdã ser conhecida internacionalmente como porto e cidade comercial, ela tornou-se um famoso local de peregrinação na Idade Média, graças a este milagre eucarístico.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

ORAÇÃO DE AÇÃO DE GRAÇAS APÓS A COMUNHÃO


Dou-vos graças, Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno, a vós que, sem merecimento algum da minha parte, mas como fruto da vossa misericórdia, vos dignastes saciar-me, sendo eu pecador e vosso indigno servo, com o sagrado corpo e com o precioso sangue do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eu vos peço que esta comunhão não seja para mim mais uma falta digna de castigo, mas uma súplica eficaz para alcançar o meu perdão; que seja a armadura da minha fé e o escudo da minha boa vontade; que me livre dos meus vícios e apague os meus maus desejos; mortifique a minha concupiscência; aumente em mim a caridade e a paciência, a humildade, a obediência e todas as virtudes. Que seja a minha firme defesa contra as ciladas de todos os meus inimigos, tanto visíveis como invisíveis; serene e regule perfeitamente todos os meus impulsos, da carne e do meu espírito; una-me firmemente a vós, que sois o único e verdadeiro Deus e que seja enfim a feliz consumação do meu destino.

Dignai-vos, Senhor, eu vos suplico, conduzir-me, a mim pecador, ao inefável banquete onde Vós, com o vosso Filho e o Espírito Santo, sois para os vossos santos luz verdadeira, plenitude de graças e alegria eterna, cúmulo de delícias e bem aventuranças e felicidade perpétua. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

(São Tomás de Aquino)

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

AQUELA GOTA DE ÁGUA...


A gota de água, que o sacerdote, durante a eucaristia, coloca no cálice com vinho, possui um profundo significado litúrgico, representando a união da humanidade e da divindade de Cristo, simbolizando a união dos fiéis ao sacrifício eucarístico. Essa gota de água representa o povo de Deus e se unirá ao Sangue de Nosso Senhor, pois logo o vinho se transformará em Sangue no altar. Desta forma, somos partícipes da graça divina porque somos essa gota d'água imersa no meio da imensa onda da Graça Santificante de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao unirem-se no cálice, a água e o vinho compõem juntos a humanidade e a divindade, a íntima associação da Igreja ao sacrifício de Cristo. Em cada missa, este mistério se renova e, assim, Nosso Senhor poderia ter santificado muitos outros mundos, gerações e gerações sem fim, muitíssimo mais do que aquelas que foram e que serão santificadas.

'A Eucaristia é também o sacrifício da Igreja. A Igreja, que é o corpo de Cristo, participa da oferta da sua Cabeça. Com Cristo, ela mesma é oferecida inteira. Ela se une à sua intercessão junto ao Pai por todos os homens. Na Eucaristia, o sacrifício de Cristo se torna também o sacrifício dos membros do seu Corpo. A vida dos fiéis, seu louvor, seu sofrimento, sua oração, seu trabalho, são unidos aos de Cristo e à sua oferta total, e adquirem assim um valor novo. O sacrifício de Cristo presente no altar dá a todas as gerações de cristãos a possibilidade de estarem unidos à sua oferta' (Catecismo da Igreja Católica, 1368).

'Se houver apenas água, sem vinho, nós estamos sozinhos, sem Cristo. E se houvesse só vinho sem água, estaria Cristo sozinho sem nós'

 (São Cipriano de Cartago)

quinta-feira, 19 de junho de 2025

CORPUS CHRISTI 2025

 

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

terça-feira, 25 de março de 2025

ORAÇÃO PARA ANTES DA COMUNHÃO


Deus eterno e todo-poderoso, eis que me aproximo do sacramento do vosso Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo. Impuro, venho à fonte da misericórdia; cego, à luz da eterna claridade; pobre e indigente, ao Senhor do céu e da terra. Imploro, pois, a abundância da vossa liberalidade, para que vos digneis curar a minha fraqueza, lavar as minhas manchas, iluminar a minha cegueira, enriquecer a minha pobreza, vestir a minha nudez.

Que eu receba o Pão dos Anjos, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, com o respeito e a humildade, a contrição e a devoção, a pureza e a fé, o propósito e a intenção que convêm à salvação da minha alma.

Dai-me que receba não só o sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, mas também o seu efeito e a sua força. Ó Deus de mansidão, fazei-me acolher com tais disposições o Corpo que o vosso Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo, recebeu da Virgem Maria, que seja incorporado ao seu Corpo Místico e contado entre os seus membros. 

Ó Pai cheio de amor, fazei que, recebendo agora o vosso Filho sob o véu do sacramento, possa na eternidade contemplá-la face a face. Vós, que viveis e reinais na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

(São Tomás de Aquino)

sábado, 7 de setembro de 2024

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AVIGNON

Avignon, cidade situada na região sul da França e cortada pelo rio Ródano, é a única cidade que recebeu oficialmente o papado fora de Roma em toda história. Disputas pelo poder envolvendo o rei francês Filipe IV, levaram o papado para a França. O período histórico de 1309 a 1377 ganhou o nome de Papado de Avignon e esta permanência dos papas na região provençal constitui um dos períodos mais conturbados da história da Igreja. Foram sete papas franceses em um período de 68 anos.

Desde o século XII, a região do sul da França era cenário do desenvolvimento intenso de um dos maiores movimentos heréticos da Idade Média, o chamado catarismo ou heresia albigense, que negava a existência de um único Deus e a presença real de Cristo na sagrada eucaristia, propagando a salvação fundamentada apaenas no conhecimento direto de Deus.

Para celebrar a vitória da Igreja contra a heresia albigense, o então rei Luís VIII fez construir a Capela de Santa Cruz, em honra ao Santíssimo Sacramento. Mais ainda, promoveu e participou ativamente de uma procissão ao Santíssimo Sacramento que percorreu várias ruas da cidade e foi encerrada na capela recém-construída, durante a Festa da Exaltação da Santa Cruz em 14 de setembro de 1226. Desde então, teve início a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento nesta igreja e, para a salvaguarda dessa devoção, foi instituída a chamada Confraria Real dos Penitentes Cinzentos de Avignon.


Cerca de duzentos anos depois, no final de novembro de 1433, a região foi assolada por chuvas torrenciais que produziram cheias históricas do rio Ródano e a inundação completa das áreas ao seu redor. As águas subiam sem parar e os penitentes da confraria, responsáveis pela devoção eucarística na Capela de Santa Cruz, temeram fortemente pela inundação da igreja. Dois membros da confraria decidiram, então, acessar a igreja por barco e resgatar a custódia contendo o Santíssimo Sacramento antes do pior. Diante deles, entretanto, a situação era bem mais crítica, pois uma muralha de água de quase 1,8m de altura já submergia o local e a própria porta frontal do templo.

Ao adentrarem na igreja, porém, os dois religiosos foram tomados por um estupor sem tamanho: à semelhança da partição das águas do Mar Vermelho, as águas da enchente conformavam dois paredões laterais próximos às paredes internas do templo, mantendo irretocavelmente seco o espaço central da igreja situado desde a porta frontal até o altar, conservando-se intacta, assim, a custódia contendo as hóstias consagradas da ação da enchente.


Após prostarem-se em oração e jubilosos com tal milagre, recolheram o Santíssimo e o conduziram a uma outra igreja em terreno mais elevado e protegido da inundação. A notícia do milagre espalhou-se rapidamente e centenas de pessoas foram testemunhas dele. A confraria franciscana instituiu a celebração do milagre desde então na capela, todos os anos, no dia de Santo André Apóstolo, 30 de novembro. Neste dia, antes da bênção do Santíssimo Sacramento, canta-se ali o Cântico que Moisés teria composto após a travessia do Mar Vermelho (Ex 15, 1-18):

'Cantarei ao Senhor, porque ele manifestou sua glória. Precipitou no mar cavalos e cavaleiros. O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico; foi ele quem me salvou. Ele é o meu Deus – eu o celebrarei; o Deus de meu pai – eu o exaltarei. O Senhor é o herói dos combates, seu nome é Javé. Lançou no mar os carros do faraó e o seu exército; a elite de seus combatentes afogou-se no mar Vermelho; o abismo os cobriu; afundaram-se nas águas como pedra. A vossa (mão) direita, ó Senhor, manifestou sua força. Vossa direita aniquilou o inimigo. Por vossa soberana majestade derrotais vossos adversários; desencadeais vossa cólera, e ela os consome como palha. Ao sopro de vosso furor amontoaram-se as águas; levantaram-se as ondas como muralha, solidificaram-se as vagas no coração do mar. Dizia o inimigo: perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo, satisfarei meu desejo de vingança, desembainharei a espada, minha mão os destruirá. Ao sopro de vosso hálito o mar os sepultou; submergiram como chumbo na vastidão das águas. Quem entre os deuses é semelhante a vós, Senhor? Quem é semelhante a vós, glorioso por vossa santidade, temível por vossos feitos dignos de louvor, e que operais prodígios? Apenas estendestes a mão, e a terra os tragou. Conduzistes com bondade esse povo, que libertastes; e com vosso poder o guiastes à vossa morada santa. Ao ouvir isso, estremeceram os povos. Um pavor imenso apoderou-se dos filisteus; os chefes de Edom ficaram aterrados; a angústia tomou conta dos valentes de Moab; tremeram de medo todos os habitantes de Canaã. Caíram sobre eles o terror e a angústia, o poder do vosso braço os petrificou, até que tivesse passado o vosso povo, Senhor, até que tivesse passado o povo que adquiristes para vós. Vós o conduzireis e o plantareis na montanha que vos pertence, no lugar que preparastes para vossa habitação, Senhor, no santuário, Senhor, que vossas mãos fundaram. O Senhor é rei para sempre, sem fim!'.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

SERMÕES DO CURA D'ARS (XX)





SOBRE A SANTA COMUNHÃO

 'E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo' 
(Jo 6,51)

Quem de nós, meus caros irmãos, poderia pensar que Jesus Cristo, por amor às suas criaturas, poderia chegar ao ponto de alimentar as nossas almas com o seu adorável corpo e o seu precioso sangue, se Ele próprio não nos tivesse assegurado esse fato? Uma alma pode receber o seu Criador, e quantas vezes quiser! Ó abismo de bondade e amor de Deus por suas criaturas! Quando o Redentor se revestiu da nossa carne, diz São Paulo, escondeu a sua divindade e levou a sua humilhação até à morte ignominiosa. Mas no adorável Sacramento da Eucaristia, Ele, no seu amor e misericórdia sem limites, esconde também a sua humanidade.

Vede, caros irmãos, do que é capaz o amor de um Deus pelas suas criaturas! De todos os Sacramentos não há nenhum que se possa comparar com a Sagrada Eucaristia. É verdade que no Batismo recebemos a adoção de Deus e alcançamos um título para o eterno reino dos céus; no Sacramento da Penitência, as feridas da nossa alma são curadas e a amizade de Deus nos é restituída; no adorável Sacramento da Eucaristia, porém, o seu preciosíssimo sangue não só nos é aplicado, mas nos é permitido receber na realidade o próprio divino autor de toda a graça.

Mas, infelizmente, quão poucos são os que sabem valorizar a magnificência da graça de Deus! Se apreciássemos devidamente a grande bênção do nosso privilégio de receber Jesus Cristo, esforçar-nos-íamos incessantemente por merecê-la. Para dar uma idéia da grandeza desta bênção, vamos considerar: (I) a sublimidade e a importância deste Sacramento; (II) os seus efeitos e suas bênçãos.

I

Não me comprometo, caros irmãos, a descrever-vos toda a sublimidade deste Sacramento, porque isso não é possível ao homem mortal; seria como se o próprio Deus descrevesse a magnitude deste milagre. Nunca deixaremos de nos interrogar, na outra vida e por toda a eternidade, sobre o fato de a nós, homens miseráveis, ter sido permitido receber um Deus tão grande. Mas, para vos dar uma ideia das grandes bênçãos deste grande Sacramento, queridos irmãos, lembremo-nos de que Jesus Cristo, durante a sua vida terrena, nunca foi a lado nenhum sem distribuir as suas mais ricas bênçãos, e quão grandes, portanto, e preciosos devem ser os dons recebidos na Sagrada Comunhão! De fato, o maior bem do homem neste mundo consiste em receber Jesus Cristo na Sagrada Comunhão, porque a Sagrada Comunhão não é apenas proveitosa e um alimento para as nossas almas, mas também, como veremos, proveitosa para os nossos corpos.

Lemos no Evangelho que Jesus Cristo, ao entrar em casa de Isabel, embora estivesse ainda encerrado no ventre de sua Mãe, encheu Isabel e o seu filho com o Espírito Santo; de modo que João foi purificado do pecado original, e a mãe gritou: 'De onde me vem isto, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?' Deixo-vos, caríssimos irmãos, a consideração de quão maior é a sorte daqueles que, na Santa Comunhão, recebem Jesus Cristo, não só em sua casa, mas em seus corações; que podem retê-lo não só por seis meses, como Isabel, mas por todo o tempo de suas vidas. Se o santo e venerável Simeão, tendo durante tantos anos desejado ardentemente contemplar o Redentor, e por fim, tendo Jesus nos braços, foi tão arrebatado pela alegria, e tão extasiado, que clamou, num êxtase de amor 'Ó Senhor, que mais posso desejar sobre a terra, depois de ter contemplado com os meus próprios olhos o Redentor do mundo? Agora posso morrer em paz!' E ainda, caríssimos irmãos, que diferença há entre tê-lo nos braços por um momento apenas e recebê-lo no nosso coração na Sagrada Comunhão? Como não damos valor à nossa sorte! 

Quando Zaqueu ouviu falar de Jesus Cristo, teve um grande desejo de vê-lo e, diante da grande multidão que o impedia de ver, subiu a uma árvore, e o Senhor o viu e lhe disse: 'Zaqueu, desce, porque hoje entrarei em tua casa'. Ele desceu imediatamente e fez os melhores preparativos que podia para receber o Redentor. Ao entrar em sua casa, o Senhor disse: 'Hoje chegou a salvação a esta casa'. Comovido com a bondade de Jesus Cristo, Zaqueu gritou: 'Senhor, a metade dos meus bens dou aos pobres, e se eu tiver prejudicado alguém em alguma coisa, restituo-lhe quatro vezes mais'. E assim a visita de Jesus Cristo fez de um grande pecador um grande santo. Segundo o Evangelho, quando Jesus entrou em casa de São Pedro, este pediu-lhe que curasse a sua sogra, que sofria de uma febre violenta. Jesus Cristo ordenou que a febre a deixasse, e ela ficou curada imediatamente e serviu os convidados à mesa. O que é que levou o Salvador a ressuscitar Lázaro da morte, depois de ele ter estado morto durante quatro dias? Foi o fato de Lázaro o ter recebido tantas vezes em sua casa; por isso, o nosso Senhor mostrou um tal apego por ele que derramou lágrimas. 

Em outras ocasiões, Jesus foi suplicado por pessoas para salvar as suas vidas, outras pediram-lhe para curar os seus corpos, e ninguém foi embora sem ter obtido o que queria. Não é esta a prova de que Ele está sempre pronto a conceder tudo o que lhe pedimos? Que graças não derramará sobre nós quando entrar nos nossos corações, para aí fazer a sua morada? Quem pode compreender a felicidade de um cristão que, bem preparado, recebe Jesus Cristo no seu coração, e que assim se torna parte do céu?

Mas, perguntarão, por que é que a maior parte dos cristãos mostra tão pouco apreço por esta felicidade? Por que é que muitos deles pensam pouco dela, e até zombam daqueles que frequentemente participam dela? Esses pobres infelizes simplesmente nunca conheceram nem desfrutaram dessa grande felicidade. Que felicidade é para um cristão crente levantar-se do banquete sagrado e sair com o céu no coração! Afortunada é a casa em que tais cristãos habitam! Possuir em sua própria casa um tabernáculo no qual Deus está entronizado! Quereis saber, talvez, se esta felicidade é tão grande, porque é que a Igreja só nos manda comungar uma vez por ano? Esta ordem não é dada para os bons cristãos, mas para os cristãos frouxos e indiferentes, para o bem das suas pobres almas.

Na Igreja primitiva, o maior castigo para um cristão era ser privado da Sagrada Comunhão. Os primeiros cristãos podiam comungar sempre que assistiam ao Santo Sacrifício da Missa. Quando a Igreja viu que muitos cristãos negligenciavam a salvação das suas pobres almas, deu-lhes a ordem de comungar três vezes por ano, no Natal, na Páscoa e no Pentecostes, esperando que o medo de pecar contra esta ordem lhes abrisse os olhos. Mas quando, com o passar do tempo, os cristãos se tornaram ainda menos zelosos da salvação de suas almas, ela tornou seu dever receber a Santa Comunhão pelo menos uma vez por ano. Como é infeliz e cego o cristão que deve ser obrigado por lei a participar desta grande felicidade! Se, meus caros irmãos, não tivésseis outros pecados na vossa consciência senão a negligência do vosso dever pascal, estaríeis eternamente perdidos. Agora dizei-me que incentivo há para deixardes a vossa alma cair num estado tão triste? Dizeis que sois feliz e contente. Se eu pudesse acreditar em ti! Mas onde encontras a tua paz e contentamento? Será no pensamento de que a alma espera o momento da morte para ser lançada no inferno? Ou, talvez, porque o diabo é o vosso mestre? Como é cego e infeliz o homem que perdeu a fé!

II

Todos os Padres da Igreja nos ensinam que, pela receção de Jesus Cristo na Sagrada Comunhão, recebemos bênçãos mil vezes maiores para o tempo e para a eternidade; de fato, esta é uma verdade tão fundamental que até uma criança, à pergunta: 'Devemos desejar ardentemente receber a Sagrada Comunhão?', responderia: 'Sim, de fato'. 'E por que?' 'Por causa dos excelentes efeitos que ela produz em nós'. 'E quais são esses efeitos?' 'A Sagrada Comunhão une-nos mais intimamente a Jesus Cristo, enfraquece as nossas inclinações para o mal, fortalece em nós a vida da graça e é para nós o fundamento e o penhor da vida eterna'.

1. A Santa Comunhão une-nos mais intimamente a Jesus Cristo. Esta união é tão íntima, caríssimos irmãos, que o próprio Jesus Cristo nos diz: 'Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele, porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida'. Por conseguinte, caríssimos irmãos, ao recebermos a Sagrada Comunhão, o sangue adorável de Jesus Cristo corre realmente nas nossas veias, a sua carne é realmente misturada com a nossa; e por isso São Paulo diz: 'Não sou eu que ajo e penso, mas é Jesus Cristo que age e pensa em mim. Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim'.

2. Ao recebermos Jesus Cristo na Sagrada Comunhão, recebemos uma abundância de graças; ao recebermos Jesus Cristo, recebemos a fonte de todas as bênçãos. Aqueles que recebem Jesus Cristo sentem a sua fé fortalecida, e estão mais profundamente impregnados com as verdades da sua santa religião; percebem mais claramente a enormidade e o perigo do pecado; o pensamento do julgamento assusta-os mais; a desgraça da perda de Deus é mais percetível para eles. Na Sagrada Comunhão, a nossa coragem é fortalecida; somos fortes para combater, as nossas ações são guiadas por motivos mais puros, a nossa caridade aumenta cada vez mais. O pensamento de que levamos Jesus no nosso coração, o arrebatamento que experimentamos nesse momento feliz, une-nos e liga-nos de tal modo a Deus que o nosso coração só pensa e só deseja Deus. Este, meus caros irmãos, é um dos efeitos que a Santa Comunhão produz em nós, se formos tão felizes a ponto de receber Jesus Cristo dignamente.

3. A Sagrada Comunhão enfraquece a nossa inclinação para o mal. É muito fácil perceber isso. O preciosíssimo sangue de Jesus que corre nas nossas veias, e o seu adorável corpo que se mistura com o nosso, devem necessariamente destruir, ou pelo menos enfraquecer muito, a nossa inclinação para o mal, produzida em nós pelo pecado de Adão. É certo, caríssimos irmãos que, depois da comunhão, sentimos um novo desejo do celeste e um novo desprezo pelas coisas materiais. Como pode o orgulho entrar num coração que acaba de receber um Deus que, ao entrar nesse coração, se rebaixou até à privação de si mesmo? Um coração que recebeu um Deus tão puro, que é a própria santidade, não sentiria o maior horror ao pecado da impureza? Um cristão que recebeu Jesus Cristo, que morreu pelos seus inimigos, não desejaria mal aos que o ofenderam? Certamente que não: dar-lhe-ia prazer fazer-lhes o bem, tanto quanto estivesse ao seu alcance. Por isso, São Bernardo dizia aos seus monges: 'Meus filhos, quando vos sentirdes menos inclinados para o mal e mais inclinados para o bem, agradecei a Jesus Cristo que vos concedeu esta graça pela Sagrada Comunhão'.

4. A Sagrada Comunhão é para nós um penhor da vida eterna, isto é, a Sagrada Comunhão dá-nos a expectativa do céu, a certeza de que o céu será um dia a nossa morada. Além disso, Jesus Cristo fará com que o nosso corpo, na ressurreição, apareça tanto mais glorioso quanto mais vezes o tivermos recebido dignamente. Sim, queridos irmãos, se realmente soubéssemos apreciar a grandeza desta felicidade, não nos importaria viver a menos que nos fosse permitido receber Jesus Cristo como nosso alimento diário. Consideraríamos que todas as coisas criadas não valem a pena; desprezá-las-íamos e entregar-nos-íamos apenas a Deus, e o nosso objetivo seria tornar-nos diariamente mais dignos de o receber.

Se tais são a felicidade e as bênçãos que resultam da digna receção deste Sacramento, não deveríamos esforçar-nos por nos tornarmos dignos de o receber frequentemente? Os efeitos que vos são explicados neste discurso todos nós desejaríamos que se produzissem em nós; por isso, exorto-vos, venerai este grande Sacramento e vivei de modo a poderdes receber o vosso Senhor e Deus, e participar da sua graça e bênção para que, no fim dos tempos, sejais, segundo as suas próprias palavras, ressuscitados da morte para a vida eterna, o que vos desejo a todos. Amém.

sábado, 6 de julho de 2024

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE CASCIA

Em 1330, na região de Cascia (Itália), um sacerdote foi chamado às pressas para ministrar a Sagrada Eucaristia a um homem doente em estado terminal. Atendendo rapidamente ao pedido, o sacerdote resolveu, de forma inesperada e totalmente irreverente, levar a hóstia consagrada destinada ao doente guardada entre as páginas do seu breviário. Na casa do doente, ao abrir o breviário para ministrar ao doente a comunhão, descobriu estupefato que a hóstia não apenas se transformara num coágulo único, mas se desmanchava em grandes manchas de sangue em ambas as páginas do breviário entre as quais havia sido mantida.

Sob forte comoção e arrependimento, o sacerdote dirigiu-se imediatamente para um mosteiro agostiniano próximo de Siena, ao encontro do Frei Simone Fidati, sacerdote de piedade e santidade reconhecidas, para narrar os fatos e pedir a sua confissão. O breviário foi então recolhido e as duas páginas, manchadas de sangue e com dimensões de 52mm x 44mm, foram preservadas e destinadas à veneração interna no mosteiro. 


Em 1389, o papa Bonifácio IX confirmou a autenticidade do milagre, concedendo indulgência especial ao culto da relíquia em 1401. Ao longo dos anos, um outro evento extraordinário transcorreu com as manchas de sangue diluídas nas páginas do breviário: elas passaram a conformar a figura de um rosto humano, reproduzindo a imagem de um homem com barba. A relíquia foi transferida do mosteiro agostiniano para a capela inferior da Basílica de Santa Rita em Cascia em 1930, onde se encontra atualmente, mantidas em um tabernáculo de cristal ladeado por dois painéis de mármore, que simulam as páginas do breviário contendo as imagens formadas do rosto humano.


quinta-feira, 6 de junho de 2024

'NO DIA QUE CHAMAMOS DIA DO SOL...'


No dia que chamamos dia do sol [domingo], nas cidades e nas aldeias todos os habitantes se reúnem num dado lugar. Lêem-se as memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas segundo o tempo de que se dispõe. Quando a leitura termina, aquele que preside toma a palavra para chamar a atenção sobre os ensinamentos recebidos e para exortar ao seu seguimento. Depois levantamo-nos e, em conjunto, apresentamos as intenções de oração. Seguidamente traz-se o pão, o vinho e a água. O presidente dirige ardentemente ao céu súplicas e ações de graças, e o povo responde com a aclamação 'Amém!, uma palavra hebraica que quer dizer: 'Assim seja!'.

Chamamos este alimento de eucaristia, e ninguém o pode tomar se não acredita na verdade da nossa doutrina e se não recebeu o banho do batismo para a remissão dos pecados e regeneração. Porque nós não tomamos este alimento como se toma um pão ou uma bebida vulgar. Do mesmo modo que, pela Palavra de Deus, Jesus Cristo nosso Salvador incarnou, tomando carne e sangue para nossa salvação, também o alimento consagrado pelas próprias palavras rezadas e, destinado a alimentar a nossa carne e o nosso sangue para nos transformar, este alimento é a carne e o sangue de Jesus incarnado: esta é a nossa doutrina. 

Os apóstolos, nas memórias que nos deixaram e que chamamos de evangelhos, transmitiram-nos a recomendação que Jesus lhes fez: Tomou o pão, abençoou e disse: 'Fazei isto em minha memória; isto é o meu corpo'. De igual modo, tomou o cálice, abençoou-o e disse: 'Isto é o meu sangue'. E em seguida deu a eles (Mt 26,26-; 1Cor 11,23-). É no dia do sol que nos reunimos todos, porque este é o primeiro dia, aquele em que Deus para fazer o mundo separou a matéria das trevas, e ainda o dia em que Jesus Cristo nosso Salvador ressuscitou dos mortos.

(Excertos da obra  'Primeira Apologia', documento que faz referência ao sacramento da eucaristia nos primórdios da cristandade [século II], por São Justino [100 - 160], filósofo e mártir) 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SEEFELD

Seefeld, uma pequena localidade situada na região do Tirol (Áustria) foi palco de um dos eventos sobrenaturais mais extraordinários do século XIV.  Este evento ocorreu na Quinta Feira Santa de 1384, na pequena igreja de Saint Oswald (São Oswaldo), erigida originalmente como uma pequena capela em 1306.


Durante a missa local, Oswald Milser, nobre e senhor de Schlossberg, aproximou-se do altar para receber a Eucaristia. Era uma pessoa muito poderosa na comunidade à época e reconhecidamente uma figura de má conduta e completamente alheia à religião católica. Ainda assim, não só adiantou-se para receber a comunhão aos pés do altar, como exigiu que o sacerdote a fizesse não com a hóstia comum oferecida aos comungantes, mas por meio da grande hóstia reservada apenas ao sacerdote celebrante. O sacerdote, refém do respeito e do temor humano, fez como lhe havia sido ordenado e compartilhou com o senhor de Schlossberg a sacrílega comunhão.


Assim que recebeu a Sagrada Hóstia, o piso de pedra começou a afundar sob os pés do homem, como se não tivesse resistência alguma. Ao mesmo tempo, a Hóstia começou a diluir-se em sangue na boca do ímpio comungante, e não podia ser consumida. Com a boca aberta e fluindo sangue, o infeliz tentou ainda agarrar-se à borda do altar no desespero da situação e, nesse momento, o sacerdote conseguiu recuperar a hóstia ensanguentada. Imediatamente, o piso retornou à sua condição estável natural e o nobre pôde recompor-se de pé, saindo do buraco do chão.


A igreja tornou-se, então, um grande centro de peregrinação religiosa na Áustria e foi ampliada entre 1423 e 1431. Em 1574,  foi construída uma capela dedicada exclusivamente à relíquia eucarística - chamada Capela do Sangue - que abriga atualmente a Hóstia milagrosa, e diversas pinturas que reproduzem o milagre. 


E essa Hóstia ensanguentada permanece incólume mesmo 640 anos após esse evento, encapsulada num ostensório guardado perto do altar da capela. Ainda hoje é possível também ver o grande buraco que se abriu no piso de pedra quando Oswald Milser afundou no chão, hoje recoberto por uma grade por questões de segurança.



Quanto ao homem destes fatos extraordinários, sua vida mudou radicalmente. Convertido e profundamente abalado pelos eventos, o senhor de Schlossberg abandonou a vida mundana e ingressou imediatamente no mosteiro de Stams onde, após dois anos de severas penitências, morreu de causas naturais.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

CORPUS CHRISTI 2024

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

ORAÇÃO: AVE VERUM CORPUS NATUM

Ave Verum Corpus Natum é um pequeno hino eucarístico que data do século XIV, cuja autoria é comumente atribuída ao Papa Inocêncio VI (pontificado de 1484 a 1492), de uso bastante frequente no passado durante a bênção do Santíssimo Sacramento. O hino possui algumas pequenas variantes, mas o texto mais comum é aquele apresentado e traduzido abaixo.

Ave verum Corpus natum
De Maria Virgine:
Vere passum, immolatum
In cruce pro homine:
Cujus latus perforatum
Fluxit aqua et sanguine:
Esto nobis praegustatum
Mortis in examine.
O Jesu dulcis!
O Jesu pie!
O Jesu fili Mariae!


Salve, ó verdadeiro Corpo,
nascido da Virgem Maria,
que verdadeiramente padeceu 
e foi imolado na cruz pelos homens,
e de cujo lado transpassado
jorraram sangue e água;
sede para nós refrigério
na dura provação da morte.
Ó doce Jesus,
ó Jesus piedoso, 
ó bom Jesus, filho de Maria!