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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (XI)


Dois pesquisadores matemáticos* concluíram, em publicação recente no periódico Journal of Theoretical Biology, que a probabilidade de formação de uma proteína funcional - fonte de qualquer processo vital - é de 1 em 100.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000. Por outro lado, muitas proteínas precisam interagir formando grupos para realizar uma função química específica. Na imagem no topo do texto, por exemplo, um complexo proteico (à esquerda) é analisado de acordo com as interações das várias proteínas que o compõem. Assim, mesmo ignorando a baixa probabilidade de formação de cada proteína individual, a probabilidade de formação de complexos proteicos é absurdamente baixa. Como resultado, você tem uma probabilidade extremamente baixa de que proteínas individuais possam ser produzidas por interações químicas aleatórias e, mais do que isso, uma probabilidade absurdamente baixa de que tais proteínas produzidas aleatoriamente possam formar os complexos necessários para a vida. Isso significa que a chance de tais complexos proteicos se formarem como resultado de processos aleatórios é extremamente baixa x absurdamente baixa.

Quanto mais aprendemos sobre o universo, mais percebemos que ele é produto de um projeto. De fato, há algum tempo, muitos cientistas reconhecem que o universo é finamente ajustado para a vida. Existem muitos parâmetros que governam como as coisas acontecem no universo, e todos eles têm as características necessárias para que a vida floresça. Um elétron, por exemplo, é precisamente tão negativo quanto o próton é positivo, apesar de serem partículas muito, muito diferentes. Se as cargas estivessem desalinhadas por apenas um bilionésimo de um por cento, o desequilíbrio elétrico resultante nas moléculas tornaria até mesmo objetos muito pequenos instáveis ​​demais para se formarem. A explicação mais óbvia para esse ajuste fino é que o universo foi projetado para a vida.

(Excertos do artigo 'Another Peer-Reviewed Paper Favoring Intelligent Design', de Jay Wile)

* Thorvaldsen, S., & Hössjer, O. (2020). Using statistical methods to model the fine-tuning of molecular machines and systems. Journal of Theoretical Biology, 501, Article 110352.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

PALAVRAS ETERNAS (XXVI)


'Quando os homens escolhem não acreditar em Deus, 
eles não passam a acreditar em nada, 
apenas tornam-se capazes de acreditar em qualquer coisa'

(G.K. Chesterton) 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XII)

   

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VII. Sobre como Cristo assumirá o seu Lugar no Tribunal

Preste atenção, ó leitor, ao que está por vir, e não imagine que isso não lhe diz respeito. Você certamente testemunhará tudo isso um dia com os seus próprios olhos e tudo será mil vezes mais terrível do que minha pena pode descrever. Quando Cristo, em sua carruagem de fogo, chegar ao Monte das Oliveiras, Ele permanecerá no ar, a uma altura tal que possa ser visto claramente por todos os homens, até que os Anjos tenham preparado o trono do julgamento.

O profeta Daniel descreve assim a cena: 'Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes, e tal como a pura lã era sua cabeleira; seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. Saído de diante dele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos (Dn 7,9 - 10).

Mas Cristo não julgará sozinho; os doze apóstolos estarão com Ele, de acordo com a promessa que Ele lhes fez: 'Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua majestade, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel' (Mt 19,28). Quem pode dar uma ideia da magnificência do trono de Cristo? É indescritível.

Lemos que o rei Salomão mandou construir um trono maravilhosamente belo em marfim, ricamente adornado com ouro e pedras preciosas. Este trono era tão magnífico que o escritor inspirado diz que em nenhum reino do mundo se tinha feito tal obra. Se o trono do rei Salomão era feito de materiais tão caros e trabalhado com tanta habilidade, qual será o esplendor do trono do Rei dos reis, no qual Ele se assentará em sua majestade para julgar o mundo inteiro! Nosso Senhor fala desse trono de julgamento como um trono de grande esplendor, quando diz: ''Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, Ele se sentará no seu trono glorioso'' (Mt 25, 31).

Alguma ideia da aparência desse trono pode ser obtida a partir das palavras que acabamos de citar do profeta Daniel, e também desta descrição dada por São João: 'Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono... Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus' (Ap 4,3.5). Tais são as imagens com que a Sagrada Escritura retrata o tribunal de Cristo. Quem, entre toda a humanidade, ousaria levantar os olhos para este trono de fogo? Não será ele mais deslumbrante do que os relâmpagos e os halos de fogo de uma tempestade?

O Juiz Divino sentar-se-á neste trono e o seu semblante grave será visível aos homens e aos Anjos. Todos os seres criados tremerão com reverência e admiração. São João declara isto no Apocalipse: 'Vi um grande trono branco e Aquele que nele se assentava, de cuja face a terra e o céu fugiram, e não se achou lugar para eles' (Ap 20,11). Nestas palavras, o profeta do Novo Testamento parece indicar que os céus e a terra não serão capazes de suportar o olhar do seu Juiz; que todos os seres racionais, tanto anjos como homens, tremerão ao ver o seu semblante severo.

Que os anjos também temerão e tremerão é afirmado por Santo Agostinho, na seguinte passagem de seus escritos: 'Quando Nosso Senhor diz que os poderes do céu serão abalados, Ele se refere aos anjos; pois tão terrível será o julgamento que os anjos não estarão isentos do medo; eles também tremerão e terão medo. Pois, assim como quando um juiz se senta em julgamento, seu semblante grave não apenas causa terror nos culpados diante dele, mas também intimida os oficiais que estão ao seu redor, assim também, quando toda a humanidade for levada a julgamento, os ministros celestiais compartilharão do horror e do alarme universais'. São João Crisóstomo corrobora essa afirmação quando diz: 'Todos ficarão então cheios de espanto, apreensão e terror, e até mesmo os anjos ficarão com muito medo'. Muitos outros Padres da Igreja e comentaristas das Sagradas Escrituras expressam uma opinião semelhante.

Agora, se, de acordo com a opinião de homens sábios e santos, nem mesmo os anjos estarão isentos de medo no Dia do Juízo Final, quanto mais motivo terão os santos para temer, uma vez que deverão comparecer perante o tribunal de Cristo e prestar contas rigorosas de todas as suas ações. Sim, é inequivocamente evidente, a partir do que São João diz no Apocalipse, que os santos abençoados são tomados por temor e tremor. Ele descreve como Cristo lhe apareceu e o efeito que isso teve sobre ele. 'Quando o vi, caí a seus pés como morto. E ele colocou sua mão direita sobre mim, dizendo: Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último' (Ap 1,17). 

Se o amado apóstolo ficou tão impressionado ao ver seu querido Mestre e Senhor, que viera para consolá-lo e não para julgá-lo, que caiu a seus pés como morto e não conseguiu reunir coragem para se levantar até que Cristo lhe falasse da maneira mais gentil e reconfortante, pode-se supor como os santos não ficarão aterrorizados no Dia do Juízo Final, quando contemplarem Cristo em sua majestade terrível e forem chamados a prestar contas a Ele de toda a sua vida? E, ó pobre pecador, como será então contigo e com todos os réprobos, se até mesmo os anjos e os santos tremem com a vinda do Juiz? Não há palavras que possam expressar o terror e o desânimo dos espíritos malignos e dos pecadores impenitentes, quando contemplarem o seu Divino Juiz no trono da sua majestade e souberem que Ele os julgará rigorosamente e os condenará ao inferno por toda a eternidade.

Para dar uma ideia do terrível medo e alarme dos anjos caídos e dos pecadores infelizes, ouçamos o que a Sagrada Escritura diz a respeito da aparência assustadora do Juiz e da grandeza de sua ira, no primeiro capítulo do Apocalipse, onde São João nos diz: 'Vi o Filho do homem vestido com uma veste que chegava até os pés e cingida ao peito com um cinto de ouro. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como a lã branca e como a neve, e seus olhos eram como chama de fogo, e seus pés como bronze refinado, como em fornalha ardente. E sua voz era como o som de muitas águas. E da sua boca saía uma espada afiada de dois gumes, e seu rosto era como o sol brilhando em seu poder (Ap 1,13-16). Sobre a sua cabeça havia muitas diademas... Ele estava vestido com uma veste salpicada de sangue... Ele pisa o lagar do vinho da ira do Deus Todo-Poderoso, e traz escrito em sua vestimenta e em sua coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19,12-13.15-16).

Medite sobre estas palavras maravilhosas, ó cristão, e imagine seu futuro Juiz em cores vivas. Como sua aparência majestosa poderia ser descrita de forma mais vigorosa do que nas palavras que acabamos de citar? Qual deve ser o esplendor daquele rosto que se diz brilhar como o sol no seu meridiano! Qual deve ser o brilho daqueles olhos que resplandecem com santo fervor como chamas de fogo! Qual a força daquela voz que tem o som de um volume de águas! Qual deve ser a agudeza daquela língua que corta como uma espada de dois gumes! Que cabeça gloriosa deve ser aquela adornada com muitas diademas preciosas! Quão terrível deve ser aquela vestimenta salpicada de sangue! E quão digno é aquele nome real: Rei dos reis e Senhor dos senhores! Quão assustados ficaremos todos, que medo e tristeza nos dominarão quando nosso Juiz nos olhar! E imagine quais serão os sentimentos dos condenados, quando contemplarem o Juiz de todas as suas más ações; como eles se encolherão e tremerão sob o seu olhar na hora da sua justa ira!

Talvez tenhamos uma melhor concepção do que é a ira de Deus, se ouvirmos o que o profeta Isaías diz a respeito disso: 'Eis que o nome do Senhor vem de longe, sua ira arde e é pesada de suportar; seus lábios estão cheios de indignação, e sua língua como um fogo devorador; seu sopro como uma torrente transbordando até o meio do pescoço, para destruir as nações até que não reste nada' (Is 30, 27-28). Estas são, na verdade, palavras terríveis. Não indicam elas claramente com que grande ira Cristo se manifestará ao mundo? Bem podem todos os infelizes pecadores ficar dominados pelo terror, pelo desânimo e pela angústia; bem podem clamar às montanhas que caiam sobre eles e às colinas que os cubram. Agora, quando o Juiz estiver sentado no trono de sua majestade, todos os que estiverem reunidos no vale de Josafá, anjos e demônios, os redimidos e os perdidos, terão que adorar a Cristo, como diz São Paulo: 'Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo. Pois está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a Deus' (Rm 14, 10 -11).

Que cena solene e sublime será então encenada, ó meu Deus, quando todos os milhões e milhares de milhões de anjos, juntamente com os bem-aventurados, em forma visível, se prostrarão no chão, e os espíritos malignos com suas vítimas infelizes, e todos os condenados, serão forçados contra sua vontade a adorar Cristo e reconhecê-lo como seu Deus e Juiz! Essas criaturas miseráveis cairão de joelhos e inclinarão suas cabeças até o chão, sem ousar levantar os olhos, para não encontrarem o olhar irado de seu Juiz. Elas lamentarão e chorarão, cheias de consternação e desânimo indescritíveis. Com alegria, elas gostariam que a terra se abrisse e as engolisse; mais ainda, se fosse possível, elas se lançariam em um abismo sem fundo, em vez de sofrer tal humilhação. Pare e considere, ó pecador, quais seriam seus sentimentos se você estivesse entre essas almas perdidas; você ficaria oprimido pela tristeza e angústia.

São Vicente relata que um jovem de vida dissoluta sonhou certa vez que estava sendo julgado diante do tribunal de Deus e obrigado a prestar contas de sua vida mal empregada. Seu terror foi tão grande que seus cabelos ficaram completamente brancos. Se os terrores do Juízo Final vividos apenas em um sonho foram suficientes para mudar a cor dos cabelos daquele jovem, qual será, em sua opinião, o efeito que eles produzirão em você e em mim, quando estivermos presentes, não em um sonho, mas na realidade, no Juízo Final, e com nossos olhos físicos contemplarmos nosso Juiz em toda a sua santa indignação?

ORAÇÃO

Ó Juiz de infinita justiça, olhai para mim, eu vos imploro, do vosso trono no Céu, um pobre pecador, e por causa da vossa infinita compaixão, sede misericordioso comigo no dia do julgamento final. Sei que não seria capaz de resistir naquele dia terrível e que, pela vossa justa sentença, seria punido com a condenação eterna. No entanto, sei também que se um pecador implora a vossa misericórdia no tempo da graça, esta não lhe será negada. Portanto, eu vos imploro com profunda humildade e contrição, por meio da vossa amarga Paixão, que perdoeis os meus pecados e me concedeis uma sentença clemente no Dia do Juízo Final. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

OS OITO GRAUS OU VÍCIOS DO ORGULHO

'o orgulho é a mãe de todos os vícios' (Ecl 10,15)

1. Gabar-se do que se tem, como se não o tivesse recebido de Deus ou do que não se tem, ou de coisas que merecem reprovação; e isso se chama arrogância.

2. Desejar ser visto pelos homens para ser elogiado e se alegrar em agradá-los ou em ser estimado por eles; e isso é vaidade.

3. Elogiar a si mesmo, vendendo-se por aquilo que não se é, ou engrandecendo aquilo que se é, e revelando desnecessariamente aquilo sobre o qual se deveria manter silêncio; e isso é vanglória.

4. Ter um desejo desmedido por posições e dignidades; isso é ambição.

5. Empreender tarefas que excedem a própria força e capacidade, o que se chama presunção.

6. Fingir ser algo que não se é ou praticar boas ações na presença de outros somente para ser estimado; isso é hipocrisia.

7. Ser teimoso em seu próprio julgamento e preferir a sua própria opinião à dos outros, não querendo ceder a ninguém; isso é obstinação.

8. Tratar com soberba ou desdém as outras pessoas, tanto seus iguais quanto os seus superiores; isso é desprezo.

(Excertos da obra 'Manual de Piedosas Meditações', autor anônimo, Barcelona)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

E ASSIM CRUCIFICARAM JUNTAMENTE A MÃE!


Diz a Sagrada Escritura que, quando se construiu o templo de Salomão, não se ouviu nunca golpe de martelo. Ah, Templo Divino, figurado naquele mesmo templo, que agora quando vos desfazem, se ouvem tantas e tão cruéis marteladas! Fazem eco pelos vales daquele monte; mas muito maior eco faziam no coração da lastimada Mãe: no corpo do Filho davam as marteladas divididas, porque umas feriam os pés, outras a mão direita, outras a esquerda; porém na Senhora todas batiam e descarregavam juntas no mesmo lugar, porque todas feriam o coração. 

Com todos os instrumentos do Calvário era martirizado o coração da Senhora e todos feriam o coração da Mãe, ainda os que não feriam o corpo do Filho; por isso Simeão chamou a todos espada: Et tuam ipsius animam pertransibit gladius. Se repararmos nos instrumentos da Paixão de Cristo, acharemos que nenhum deles foi espada: pois se na Paixão não houve espada como diz Simeão à Senhora que a espada da Paixão do seu Filho lhe trespassaria a alma? Et tuam ipsius animam pertransibit gladius

É porque todos os instrumentos que concorreram na Paixão do Filho foram espada para o coração da Mãe. Para o corpo do Filho a cruz era cruz, os cravos eram cravos, os martelos eram martelos; mas para o coração da Mãe a cruz era espada, os cravos eram espada, os martelos eram espada, porque todos penetravam nas suas entranhas, e lhe atravessavam o coração. Assim crucificavam juntamente a Mãe, os que crucificavam o Filho: e justa coisa seria, ó cristãos, que nos crucificassem também a nós, e que todos nós nos crucificássemos aqui hoje com Jesus Crucificado! Olhai o que nos diz São Paulo: Qui sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis, et concupiscentiis - os que são de Cristo, crucificaram a sua carne com todos os seus vícios, e com todos os seus apetites.

(Excertos do sermão 'Prática Espiritual da Crucifixão do Senhor', do Pe. Antônio Vieira)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

AS TRÊS VIAS E O DECÁLOGO SOBRE A PAZ

I. Em primeiro lugar, esforce-se sempre para viver em paz com Deus: 'Muita paz têm os que amam a tua lei e para eles não há tropeço' (Sl 119,165).

II. Em segundo lugar, procure encontrar paz em seu próprio coração: 'Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá' (Jo 14,27).

III. Em terceiro lugar, você deve buscar viver em paz com o seu próximo: 'Por fim, irmãos, vivei com alegria. Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco' (2Cor 13,11) e ainda 'vivei em paz com todos os homens' (Rm 12, 18).

*********

1. Aprende a abnegar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.

2. Não pode ficar por muito tempo em paz quem não procura ser o menor e o mais submisso de todos.

3. Acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude.

4. Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros.

5. Quem está em boa paz de ninguém desconfia.

6. Viver em paz com pessoas ásperas, perversas e mal educadas que nos contrariam, é grande graça e ação muito louvável.

7. Não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação.

8. É necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.

9. Busca a paz verdadeira do céu, não sobre a terra, não nos homens, nem nas demais criaturas, mas só em Deus.

10. Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer, maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.

(Da Imitação de Cristo, Thomas de Kempis)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (X)


Deus está, como diz o Catecismo da Igreja Católica, 'além do espaço e do tempo'. Se Deus não tivesse escolhido criar o espaço e o tempo, não existiriam tais coisas como espaço e tempo; portanto, as categorias espaciais e temporais não podem ser aplicadas à própria natureza de Deus. Deus é 'eterno' não no sentido de duração ilimitada, mas no sentido de existência atemporal. Como disse São Tomás de Aquino, Deus vive no nunc stans - 'o agora que permanece imóvel'. A passagem do tempo é o ganho constante de algumas coisas e a perda de outras; mas a plenitude e a perfeição do ser que é a natureza divina não podem perder nada do que têm, nem ganhar nada do que lhes falta, pois não há nada que lhes falte. Deus não aprende nem esquece, mas compreende todas as coisas em um ato infinito, perfeito e imutável de conhecimento e compreensão. Todas as coisas estão, portanto, 'presentes' para ele, não em um passado que ele precisa resgatar da memória, nem em um futuro que ele precisa antecipar. Como disse Santo Agostinho, Deus habita 'na sublimidade de uma eternidade sempre presente'.

Isso é difícil de compreender, porque nós mesmos somos seres mutáveis em um mundo de seres mutáveis, e nossos próprios pensamentos estão em constante fluxo. Não podemos imaginar a atemporalidade. Talvez o mais próximo que possamos chegar disso seja pensar em verdades atemporais, como as verdades da matemática. Não dizemos '2 + 2 serão 4' ou '2 + 2 eram 4'. Isso seria absurdo. Em vez disso, dizemos '2 + 2 são 4'. É assim de uma forma atemporal. A atemporalidade de Deus é um significado que os teólogos viram no nome que Deus revelou a Moisés da sarça ardente: 'EU SOU O QUE SOU' ou simplesmente 'EU SOU'. 'Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU’ me enviou a vós' (Ex 3,14). E Cristo diz de si mesmo: 'Antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8,58).

Como Deus está além do espaço e do tempo, todas as coisas, onde quer que estejam localizadas no espaço e no tempo, estão igualmente presentes para ele e ele está igualmente presente para elas e é igualmente a causa de seu ser e realidade. Ele 'sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra' (Hb 1,3). Portanto, não são apenas as coisas que existiam no início dos tempos que foram criadas por Deus. Todas as coisas que já existiram ou que existirão têm sua existência proveniente de Deus. Você está, neste momento, sendo criado por Deus, pois ele está 'sustentando' a sua existência 'pelo poder da sua palavra'.

(Excertos do artigo 'St Augustine and the Beginnning of Time', de Stephen Barr, tradução do autor do blog)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XI)

  

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VI. Sobre a Vinda do Juiz 

O que se disse até agora, ó leitor cristão, é realmente muito assustador e terrível, mas não é nada em comparação com o que estamos prestes a considerar. Pois a vinda do Juiz será tão terrível, tão assustadora, que tudo o que está no céu e na terra tremerá e se abalará. O poder e a majestade com que Ele virá estão além do poder das palavras para descrever. Para que possamos saber algo a respeito disso e sermos capazes de formar alguma concepção, o próprio Cristo predisse a sua vinda com estas palavras: 'Quando o Filho do homem vier em sua majestade, e todos os anjos com Ele, então Ele se assentará no trono da sua majestade, e todas as nações serão reunidas diante dele' (Mt 25,31-32). E novamente: 'E verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu com grande poder e majestade' (Mt 24, 30). Assim, vemos Nosso Senhor afirmar duas vezes que Ele virá nas nuvens do céu, acompanhado por todos os seus anjos e com grande poder e majestade.

Quem poderá descrever a grandeza desse poder, o esplendor dessa majestade, o número incontável dessas hostes angelicais? Ouçam o que o salmista diz sobre o assunto: 'Um fogo irá adiante dele e queimará os seus inimigos ao redor. Os seus relâmpagos brilharam para o mundo, a terra viu e tremeu. As montanhas derreteram como cera na presença do Senhor, na presença do Senhor de toda a terra. Os céus proclamaram a sua justiça e todos os povos viram a sua glória' (Sl 96,3-6). E em outro salmo lemos: 'De Sião resplandecerá o ideal da sua beleza... Um fogo arderá diante dele, e uma tempestade poderosa o envolverá” (Sl 49,2-3). O profeta Isaías também prediz a vinda do Juiz nos seguintes termos: 'Eis que o Senhor virá com fogo, e os seus carros são como um redemoinho, para manifestar a sua ira com indignação e a sua repreensão com chamas de fogo' (Is 46,15). Além disso, o próprio Cristo declara: 'Como o relâmpago vem do Oriente e se mostra até no Ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem' (Mt 24,27).

Se essa for a maneira como o Juiz virá, se chamas de fogo procederem do seu rosto, se Ele descer do céu em uma carruagem de fogo, armado com ira contra os pecadores, quem não tremerá com a sua vinda? Na verdade, todos nós vacilaremos e teremos medo. Além do terror do próprio Juiz, a visão da incontável companhia de anjos que descerá com Ele nos inspirará temor e grande alarme. Pois naquele dia nenhum anjo permanecerá no céu; todos estarão presentes como testemunhas do julgamento.

Agora, os teólogos afirmam que, no coro mais baixo dos anjos, o número de anjos é dez vezes maior do que o de todos os seres humanos que terão existido na Terra. No segundo coro, há dez vezes mais do que no primeiro, no terceiro, dez vezes mais do que no segundo, e assim por diante, de modo que o número desses seres angelicais parece infinito. Todos esses anjos, que são espíritos puros e, portanto, invisíveis à visão corporal, aparecerão então visíveis, extremamente brilhantes e gloriosos, para que também os condenados possam ver a magnificência da vinda de Cristo.

São João, em seu Apocalipse, fala assim das hostes de anjos que acompanharão o Juiz em sua vinda: 'Eu vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e aquele que estava sentado sobre ele era chamado fiel e verdadeiro, e com justiça julga e combate. E os seus olhos eram como chama de fogo, e sobre a sua cabeça havia muitas diademas ... e ele estava vestido com uma vestimenta salpicada de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus. E os exércitos que estão no céu o seguiram em cavalos brancos, vestidos de linho fino, branco e limpo. E da sua boca sai uma espada afiada de dois gumes, para que com ela possa ferir as nações. E ele as governará com vara de ferro; e pisará o lagar do vinho da ira do Deus Todo-Poderoso. E Ele tem escrito em sua vestimenta e em sua coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores' (Ap 19,11-16).

Como todos nós tremeremos, ó meu Deus, quando contemplarmos essas hostes de espíritos celestiais com seu líder real! O profeta Daniel viu uma vez um anjo e ficou tão aterrorizado com a sua aparência que caiu no chão como se estivesse morto. Se tal efeito foi produzido nele pela visão de um único anjo, cuja missão era de conforto e consolação, o que será de nós, quando tantas centenas de milhares de príncipes celestiais se aproximarem de nós com semblantes irados? São Efrém, falando sobre isso, diz: 'Os anjos estarão ali com um ar ameaçador, seus olhos brilhando com o fogo sagrado da justa indignação, despertada pelas iniquidades da humanidade'.

Agora, se a visão dos anjos, que virão para o julgamento com o Juiz Divino, é tão terrível, qual será o medo e o pavor inspirados pelo próprio Juiz, quando Ele vier com toda a ira da justiça ofendida! Assim como no Céu não há maior deleite do que a contemplação de Deus, também no Juízo Final não haverá maior dor e temor do que olhar para o Juiz irado. Antes de entrar na explicação disso, vejamos com que majestade Cristo virá para nos julgar.

A vinda de Cristo será tão terrível que nem o homem nem os anjos são capazes de descrevê-la adequadamente. Pois tudo o que é mais propício para aterrorizar o pecador será visto aqui, e nada faltará que possa realçar a majestade de Cristo. Quando um monarca faz sua entrada em uma cidade, que pompa e esplendor são exibidos ali! Melodias de música animada se misturam com o som mais solene dos sinos, saudações são disparadas, toda a população está agitada, todos esforçando os olhos para ver o monarca; primeiro vêm seus servos, depois seus conselheiros, depois os nobres da terra; por último, vem ele próprio, cercado por uma vasta multidão de pessoas.

No entanto, o que é toda essa magnificência que o mundo pode oferecer quando comparada com a majestade que acompanhará a vinda do Rei dos reis! Compare um pobre menino mendigo esfarrapado com um príncipe soberano que entra montado em uma carruagem de ouro, e teremos uma imagem fraca e insuficiente da diferença que existe entre a pompa e o esplendor deste mundo e a glória com que Cristo virá para nos julgar.

No entanto, a sua vinda não será apenas grandiosa e gloriosa além da medida, mas também será terrível em sua natureza. Se os túmulos se abriram ao som da trombeta do anjo, e o som dessa trombeta ecoou por todo o mundo, que pânico de medo tomará conta da humanidade quando os anjos que precedem o chamado triunfal de Cristo fizerem soar suas trombetas! 'O que será de nós naquele dia terrível, o Dia do Juízo Final, quando o Senhor descer com os seus anjos ao som de trombetas e toda a terra tremer de pavor?' - pergunta Santo Agostinho.

Quando Deus desceu antigamente sobre o Monte Sinai, lemos na Sagrada Escritura: 'Chegou o terceiro dia e amanheceu; e eis que se ouviram trovões, relâmpagos e uma nuvem muito densa cobriu o monte, e o som da trombeta soou muito alto, e o povo que estava no acampamento ficou com medo' (Ex 19,16). E quando todo o povo ouviu os trovões e o som da trombeta, e viu os relâmpagos e a fumaça subindo do monte, eles ficaram aterrorizados e conservava-se à distância, dizendo a Moisés: 'Fala tu conosco, e faremos tudo o que o Senhor ordenou, mas não deixes que o Senhor fale conosco, para que não morramos' (Ex 20,19).

Se tudo isso aconteceu quando Deus desceu do céu para dar a sua Lei à nação hebraica e adotá-los como seus filhos, o que você acha, ó cristão, que acontecerá quando Ele vier para exigir uma prestação de contas sobre a maneira como os seus mandamentos foram cumpridos? Se os filhos de Israel ficaram tão aterrorizados com a entrega da Lei que pensaram que morreriam de medo, que motivo não teremos nós, mortais, especialmente nós, cristãos, para tremer, já que tantas vezes transgredimos deliberadamente os mandamentos de Deus?

ORAÇÃO

Ó Deus, Juiz todo-poderoso de todos os homens, Vós descereis do Céu no Dia do Juízo Final com grande poder e majestade, para agir como justo Juiz, e o pensamento da vossa vinda me faz tremer de medo. Inspirai-me agora, eu vos imploro, um temor salutar, para que eu possa evitar o pecado e não venha a ser esmagado pela vossa santa ira. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE OS INFIÉIS E OS HEREGES

Ó santa Palavra de Deus! Ó santa Revelação! Através de ti somos admitidos nos mistérios divinos, que a razão humana nunca poderia alcançar. Nós te amamos e estamos decididos a ser submissos a ti. És tu que dás origem à grande virtude, sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 6,6); a virtude que inicia a obra de salvação do homem, e sem a qual esta obra não poderia ser continuada nem terminada. Esta virtude é a Fé.

Faz com que a nossa razão se curve à Palavra de Deus. Da sua obscuridade divina surge uma luz muito mais gloriosa do que todas as conclusões da razão, por maior que seja a sua evidência. Esta virtude será o vínculo de união na nova sociedade que Nosso Senhor está agora a organizar. Para se tornar membro desta sociedade, o homem deve começar por acreditar; que ele possa continuar a ser membro. Ele nunca deve, nem por um momento, vacilar na sua fé.

Em breve ouviremos Nosso Senhor dizer estas palavras: 'Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado' (Mc 16,16). Para expressar mais claramente a necessidade da Fé, os membros da Igreja devem ser chamados pelo belo nome de Fiéis: aqueles que não acreditam, devem ser chamados de Infiéis.

Sendo a fé, então, o primeiro elo da união sobrenatural entre o homem e Deus, segue-se que esta união cessa quando a fé é quebrada, isto é, negada; e que aquele que, depois de ter estado assim unido a Deus, rompe o vínculo, rejeitando a palavra de Deus e substituindo-a pelo erro, comete um dos maiores crimes. Tal pessoa será chamada de Herege, isto é, alguém que se separa; e os fiéis tremerão diante de sua apostasia.

Mesmo que sua rebelião à Palavra Revelada recaísse sobre apenas um artigo, ainda assim se comete uma enorme blasfêmia; pois ou ele se separa de Deus como sendo um enganador, ou insinua que sua própria razão criada, fraca e limitada, é superior à Verdade eterna e infinita. Com o passar do tempo, as heresias surgirão, cada uma atacando um ou outro dogma; de modo que dificilmente uma verdade permanecerá inatacável... 

(Excertos da obra 'O Ano Litúrgico', de Dom P. Guéranger)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

AS TREVAS E AS SOMBRAS DA MORTE

Tirou-os das trevas e da escuridão (Sl 106, 14). 

São três as espécies de trevas, ou de ignorâncias:

👉 Diz o Salmista (Sl 81, 5): Não sabem nem entendem, andam nas trevas. Estas são as trevas da razão, enquanto a razão é por elas obscurecida.

👉 Há também as trevas da culpa. Diz São Paulo (Ef 5, 8): Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. E estas são trevas da razão humana não por si mesmas, mas pelos apetites, enquanto, mal dispostos pelas paixões ou por algum mau hábito, apetecem como bom o que não é o verdadeiro bem.

👉 Por fim, há as trevas da danação eterna (Mt 25, 30): E a este servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

Ora, Cristo tirou-nos das trevas por ser a luz do mundo; não era o sol criado, mas Aquele por quem foi criado o sol. Contudo, como diz Agostinho, a mesma luz que fez o sol, foi feita sob o sol, e velada pela nuvem da carne, não para que fosse obscurecida, mas para que fosse temperada. E como esta luz é universal, expulsa universalmente todas as trevas.

Assim, o que me segue não anda nas trevas, da ignorância, pois eu sou a verdade; da culpa, pois eu sou a via; da danação eterna, pois eu sou a vida.

A noite pode ser compreendida de dois modos:

👉 Pela subtração da graça atual, a qual induz o pecado mortal. Quando esta noite sobrevém, ninguém pode fazer obra meritória de vida eterna.

👉 A outra é a noite consumada, quando não apenas se é privado da graça atual, mas também da faculdade de a recuperar, pela eterna danação ao inferno, onde é profunda a noite àqueles aos quais foi dito: Ide malditos para o fogo eterno

E então ninguém poderá fazer nada, pois não há mais tempo para merecer, mas apenas para receber conforme seus méritos. Assim, enquanto viveres, faze o que tens de fazer (Ecle 9, 10): Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão, porque na sepultura, para onde te precipitas, não há nem obra, nem razão, nem ciência, nem sabedoria.

A morte é a danação no inferno (Sl 48, 15): a morte os apascenta. A sombra da morte é a semelhança da danação futura que está nos pecadores. A maior pena daqueles que estão no inferno é a separação de Deus; como os pecadores já estão separados de Deus, têm semelhança com a danação futura, assim como os justos têm semelhança com a futura beatitude.

(Excertos da obra  'Meditationes ex Operibus S. Thomae', de P. D. Mézard, publicação original do site Permanência)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

DEZ VIRTUDES EM UM ÚNICO ATO DE MORTIFICAÇÃO

Em um ato de mortificação, pode-se praticar muitas virtudes, de acordo com os diferentes fins que se propõem em cada ato como, por exemplo:

1. Aquele que mortifica o seu corpo com o propósito de controlar a concupiscência realiza um ato da virtude da temperança.

2. Se ele faz isso com o propósito de regular bem a sua vida, será um ato da virtude da prudência.

3. Se ele se mortifica com o objetivo de satisfazer os pecados cometidos de sua vida passada, será um ato da virtude de justiça.

4. Se ele o faz com a intenção de vencer as dificuldades da vida espiritual, será um ato da virtude de fortaleza.

5. Se ele praticar essa virtude da mortificação com o fim de oferecer um sacrifício a Deus, privando-se do que gosta e fazendo o que é amargo e repugnante à natureza, será um ato da virtude da religião.

6. Se ele pretende, pela mortificação, receber maior luz para conhecer os atributos divinos, será um ato da virtude de .

7. Se ele o fizer com o propósito de tornar sua salvação cada vez mais segura, será um ato da virtude de esperança.

8. Se ele se negar a si mesmo para ajudar na conversão dos pecadores e para a libertação das almas do Purgatório, será um ato da virtude de caridade para com o próximo.

9. Se ele fizer isso para ajudar os pobres, será um ato da virtude de misericórdia.

10. Se ele se mortificar para agradar mais a Deus, será um ato da virtude de amor a Deus.

Em outras palavras, pode-se colocar todas essas virtudes em prática mediante um único ato de mortificação, de acordo com o fim que se propõe ao se realizar o referido ato.

(Excertos da Autobiografia de Santo Antônio Maria Claret)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (X)

 

PARTE II - O JUÍZO FINAL

V. Sobre o Aparecimento da Cruz de Cristo nos Céus 

Quando toda a humanidade estiver reunida no vale de Josafá, a previsão de Nosso Senhor se cumprirá: 'Os homens definharão de medo e expectativa do que virá sobre toda a terra' (Lc 21,26). Pois estarão tão ansiosos e aterrorizados ante a aproximação do julgamento que, se tal coisa fosse possível, desmaiariam todos. Olharão continuamente para os céus com medo e tremor, e cada momento que a vinda do temido Juiz se atrasar servirá para aumentar a sua apreensão por este advento. Por fim, os céus se abrirão e o sinal da vitória triunfante de Cristo, o sinal da Santa Cruz, será trazido por uma multidão de anjos e exibido ao mundo inteiro.

Estas são as palavras de Nosso Senhor a respeito deste mistério: 'Os poderes dos céus serão abalados, e então aparecerá o sinal do Filho do homem nos céus, e então todas as tribos da terra se lamentarão' (Mt 24,29-30). A Igreja Católica nos ensina qual será esse sinal do céu: o sinal da cruz aparecerá no céu, quando o Senhor vier para julgar a humanidade. Todos os Padres da Igreja concordam em interpretar esse sinal que será exibido nos céus como a cruz de Cristo. Embora a cruz na qual Nosso Senhor sofreu esteja agora dividida em inúmeras pequenas peças, até mesmo em partículas, ainda assim, pelo poder divino, ela formará mais uma vez um todo completo. Ela será trazida do Céu pelos Anjos com pompa solene; e os Anjos que a carregam serão seguidos por outros que, como afirma o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, carregarão todos os outros instrumentos da Paixão; isto é, o pilar, a lança, os açoites, o martelo, a luva de ferro, os dados, a túnica escarlate, a túnica branca, a túnica sem costuras, o santo sudário, o vaso contendo mirra e todos os outros instrumentos que foram empregados durante a Paixão, e o objetivo disso será manifestar ao mundo inteiro quantas e múltiplas foram as dores que Cristo sofreu por nossa causa.

Agora, quando toda a humanidade contemplar a santa cruz e todos os outros instrumentos sagrados da Paixão brilhando como o sol ao meio-dia, pois a cruz de Cristo resplandecerá com uma luz de brilho sem precedentes, aqueles que a contemplarem estarão sob um medo tremendo e em lamentação dolorosa. Pois a visão da santa cruz e dos outros instrumentos de tortura lhes trará à mente todas as dores terríveis que Nosso Senhor suportou, e de uma maneira tão forte e vívida que toda a sua Paixão parecerá ser reencenada diante deles. Então, o remorso mais amargo encherá o coração dos ímpios. Mas esse remorso, por maior e mais profundo que seja, será inútil, pois só veio tarde demais. Esse remorso é a companhia do desespero. Em sua angústia de alma e em seu desespero, eles exclamarão como Caim, o fratricida: 'A minha iniquidade é muita grande para que eu mereça perdão' ou como Judas, que traiu seu Senhor e Mestre: 'Pecamos, pois traímos sangue inocente'. Sim, todos os perdidos concordarão em exclamar: 'Ai de nós! Pecamos ao trair sangue inocente. Torturamos, crucificamos, matamos o Filho de Deus com os nossos pecados'. Então, todas as tribos da terra chorarão, pois perceberão o quanto ofenderam gravemente a Deus, mas os gritos de luto e de desespero que se ouvirão em toda parte serão em vão.

O que dirão os infelizes pagãos, que nunca ouviram e nunca souberam nada sobre a Paixão de Cristo? Eles lamentarão amargamente sua ignorância, dizendo: 'Ai de nós, infelizes, se tivéssemos sabido disso, nunca teríamos chegado a essa miséria. Se tivéssemos sabido o que o grande e infinito Deus fez e como sofreu tanto por nós, quão gratos teríamos sido a Ele, quão voluntariamente o teríamos servido! Fomos enganados pelos nossos falsos deuses. Não vimos neles nenhuma virtude, apenas atos vis e perversos. Contra os impulsos da consciência, imitamos os seus vícios e, por isso, estamos condenados. Não podemos queixar-nos, nem considerar-nos injustiçados pelo Deus santo e justo, porque estamos entre os réprobos. Se tivéssemos dado ouvidos à voz da nossa consciência, este não teria sido o nosso destino'.

Mas o que dirão aqueles que mataram Cristo? Pilatos, Caifás, Anás, o sumo sacerdote, assim como os judeus que gritaram: 'Crucifica-o!' e 'Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!', todos os que participaram do crime cruel e atroz de crucificar seu Deus, ao verem os instrumentos sagrados da Paixão, gritarão em desespero e desejariam ser aniquilados. Execrados e amaldiçoados até mesmo pelos condenados, eles ficarão ali, marcados como deicidas, objetos de abominação para o mundo inteiro.

Não é minha intenção discutir o que os maus cristãos, que blasfemaram contra o Filho de Deus com palavras ou ações, sentirão naquele momento; por uma questão de brevidade, deixo que você, leitor, medite sobre isso por si mesmo. Só uma coisa eu te pediria: reflita sobre o que você diria, o que você mais lamentaria, se estivesse entre os condenados e percebesse que foi a causa dos sofrimentos de Cristo e o crucificou com os seus pecados. Se pudesses sentir agora em teu coração algo da contrição que então perfuraria tua alma, certamente nunca mais, pelo resto de tua vida, cometerias qualquer pecado mortal. Se pudesses agora lamentar os sofrimentos de Cristo com pungente tristeza, obterias infalivelmente a remissão de todos os teus pecados. Portanto, adore frequentemente o seu Salvador Crucificado, lembre-se dos seus sofrimentos por sua causa e recite a seguinte oração.

ORAÇÃO

Ó Jesus, Redentor do mundo, que suportaste sofrimentos indescritíveis por mim, um miserável pecador, peço-vos que a vossa amarga Paixão e a vossa morte na cruz não sejam em vão para mim. Gravai profundamente a lembrança deles em meu coração, para que eu os tenha sempre em mente e possa evitar o pecado que foi a causa do vosso sofrimento. Assim, quando a vossa cruz aparecer brilhante e resplandecente nos Céus, no Dia do Juízo Final, que ela não seja para mim um sinal de condenação, mas de salvação, um sinal da vossa misericórdia e do vosso amor. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

'É A VOSSA FACE QUE EU PROCURO!'

Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele.

Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procurá-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e dize a Deus: 'Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro' (Sl 26,8). E agora, Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar.

Senhor, se não estais aqui, se estais ausente, onde vos procurarei? E se estais em toda parte, por que não vos encontro presente? É certo que habitais numa luz inacessível, mas onde está essa luz inacessível e como chegarei a ela? Quem me conduzirá e nela me introduzirá, para que nela eu vos veja? E depois, com que sinais e sob que aspecto vos devo procurar? Nunca vos vi, Senhor meu Deus, não conheço a vossa face.

Que pode fazer, altíssimo Senhor, que pode fazer este exilado longe de vós? Que pode fazer este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Aspira ver-vos, mas vossa face se esconde inteiramente dele. Deseja aproximar-se de vós, mas vossa morada é inacessível. Aspira encontrar-vos, mas não sabe onde estais. Tenta procurar-vos, mas desconhece a vossa face.

Senhor, vós sois o meu Deus, o meu Senhor, e nunca vos vi. Vós me criastes e redimistes, destes-me todos os meus bens e ainda não vos conheço. Fui criado para vos ver e ainda não fiz aquilo para que fui criado.

E vós, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, nos esquecereis, até quando nos ocultareis a vossa face? Quando nos olhareis e nos ouvireis? Quando iluminareis os nossos olhos, e nos mostrareis a vossa face? Quando voltareis a nós?

Olhai-nos, Senhor, ouvi-nos, mostrai-vos a nós. Dai-nos novamente a vossa presença para sermos felizes, pois sem vós somos tão infelizes! Tende piedade dos rudes esforços que fazemos para alcançar-vos, nós que nada podemos sem vós.

Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro; pois não posso procurar-vos se não me ensinais nem encontrar-vos se não vos mostrais. Que desejando eu vos procure, procurando vos deseje, amando vos encontre, e encontrando vos ame.

(Excertos da obra 'Proslógion', de Santo Anselmo)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O ESPÍRITO DA CRUZ

Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com frequência. Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz.

Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão. O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz?

O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-se; acha-se bem o que nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por que? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; por isso, é muito raro. Não o tendes muito, o espírito da Cruz. Posso bem dizer-vo-lo, há muito tempo que vos conheço, desde que estou convosco. Tende-lo menos do que o tivestes outrora.

Logo que tendes algum sofrimento, depressa dizeis: 'Meu Deus, livrai-me disto, livrai-me disto'; fazeis novenas para vos libertardes. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos.

É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Excertos do último sermão do Padre Emmanuel-André, proferido em 14 de setembro de 1902)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (IX)

 

PARTE II - O JUÍZO FINAL

IV. Sobre Como Todos os Homens Aguardarão a Vinda de Cristo no Vale de Josafá

Contemplemos agora as multidões reunidas no lugar do julgamento. Toda a humanidade, todos os seres humanos que já viveram na Terra, bem como todos os espíritos rebeldes que foram expulsos do Céu, serão obrigados a comparecer aqui perante o tribunal de Cristo.

Quem pode tentar enumerar essas multidões incontáveis? O número de habitantes da Terra que vivem nesta época da humanidade é de cerca de 1.400.000.000 [atuais 8.230.000.000]. Essa vasta multidão terá desaparecido em menos de meio século, e outra geração, não menos numerosa, terá tomado seu lugar e preenchido a Terra novamente. Assim continuará até o Dia do Juízo Final. Que multidões incontáveis serão levadas perante o tribunal de Cristo!

Os bons estarão todos juntos, regozijando-se na certeza de sua salvação eterna. Eles estão adornados com vestes gloriosas e brilham como as estrelas do céu. Eles se conhecem, se cumprimentam e trocam felicitações mútuas por sua sorte feliz.

Mas não assim com os maus. Os bons estão à direita e os maus à esquerda. Infelizmente, o número dos maus é muito, muito maior do que o dos bons. Tanto antes como depois da vinda de Cristo, o príncipe das trevas dominou um número muito maior de súditos do que o próprio Cristo. Ai de mim, meu Deus, que multidão imensa haverá à esquerda! O luto e a miséria entre eles serão tão incomparáveis que os bons que estão à direita ficariam, se fosse possível, profundamente comovidos com compaixão.

Pois todos esses incontáveis milhões de seres humanos derramarão sua tristeza e angústia excessivas em lamentações piedosas. Aguardando a vinda do Juiz supremo, eles permanecem juntos, separados dos justos, cheios de confusão por sua própria hediondez e, especialmente, por sua pecaminosidade, agora evidente para todos.

No entanto, acima e além de toda essa miséria, está a consternação que prevalece por causa da vinda do Juiz; é algo que está além do poder das palavras expressar. Pois agora essas criaturas infelizes se tornam plenamente conscientes de quão terríveis são os julgamentos de Deus, aos quais deram tão pouca atenção durante a sua vida. Agora, pela primeira vez, reconhecem que vergonha terrível é para eles terem seus pecados manifestados na presença de todos os Anjos e Santos, na presença também dos demônios e dos condenados. Agora, pela primeira vez, estão conscientes da natureza terrível da sentença que lhes será imposta pelo Juiz, a quem muitas vezes desprezaram insolentemente. Essas e muitas outras coisas contribuem para imbui-los de um medo indescritível da vinda do seu Juiz, de modo que tremem de terror e quase desmaiam de apreensão e alarme. 

Dirão uns aos outros em tom lamentoso: 'Ai de nós, o que fizemos! Como nos enganamos terrivelmente! Por causa das poucas e transitórias alegrias da terra, teremos que passar por uma eternidade de angústia. De que nos servem agora todas as riquezas, os prazeres voluptuosos, o orgulho, as honras do mundo? Nós, tolos, desperdiçamos os bens celestiais e eternos pelas coisas pobres e insignificantes da terra. Ai de nós, o que será de nós quando nosso Juiz aparecer! Ó montanhas, caiam sobre nós; ó colinas, cubram-nos, pois verdadeiramente seria menos intolerável para nós sermos esmagados sob o vosso peso do que ficar diante do mundo inteiro cobertos de vergonha e confusão, e contemplar o rosto irado do justo Juiz!

Pecador infeliz, quem quer que seja você que esteja lendo este texto, não se iluda com a vã esperança de que esta descrição da miséria dos perdidos seja exagerada. Eles reclamarão mil vezes mais alto, e sua dor e miséria serão indescritíveis. Aproveite o curto e precioso tempo de sua existência terrena, faça penitência, faça agora tudo o que você desejaria ter feito no Dia do Juízo Final. Peça a Deus a graça de corrigir sua vida pecaminosa, para que o dia da vinda de Cristo não seja um dia de terror indescritível para você.

Meu Deus, reconheço que, por minha vida pecaminosa, mereço ser banido da vossa presença para sempre. No entanto, me arrependo sinceramente dos meus pecados e vos peço a graça de uma verdadeira conversão, para que eu não espere a vossa vinda entre os condenados. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sábado, 6 de dezembro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (VIII)

     

PARTE II - O JUÍZO FINAL

III. Sobre Como os Bons e os Maus Serão Conduzidos ao Local do Julgamento 

De acordo com a opinião geralmente aceita, o julgamento final será realizado no vale de Josafá, não muito longe de Jerusalém. Essa opinião se baseia nas palavras do profeta Joel: 'reunirei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá' (Jl 4,2). E ainda: 'De pé, nações! Subi ao vale de Josafá, porque é ali que vou sentar-me para julgar todos os povos ao redor!' (Jl 4,12). Não é difícil alegar uma razão pela qual Cristo deveria realizar o julgamento final neste lugar, pois ali está perto do local onde Ele sofreu, e não é justo que, no mesmo lugar, Ele apareça como nosso Juiz? O Monte das Oliveiras, cenário da sua agonia, foi também o da sua gloriosa Ascensão.

Pode-se, no entanto, objetar que o vale de Josafá não poderia conter os milhões e milhões de seres humanos que serão reunidos para o julgamento. Mas quando um local é indicado como o provável teatro do Juízo Final, isso não significa necessariamente que toda a humanidade será reunida nesse espaço limitado.

Consideraremos agora de que maneira seremos reunidos para o julgamento final. Se os justos e os ímpios forem encontrados juntos nos cemitérios e em outros lugares, acontecerá o que Nosso Senhor predisse: 'Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão e separarão os maus dos justos' (Mt 13, 49). Pois, uma vez que os bons repousam entre os ímpios, segue-se que, na ressurreição, eles serão encontrados entre os maus. Assim, após a Ressurreição Geral, os santos Anjos virão e separarão os eleitos dos réprobos. São Paulo, falando sobre isso, diz: 'Porque o próprio Senhor descerá do céu com ordem, e com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus; e os mortos que estão em Cristo ressuscitarão primeiro. Então nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar Cristo nos ares' (1Ts 4,15-16). Ou seja, todos os justos serão levados nas nuvens com esplendor e grande glória pelos anjos ao lugar do julgamento. Agora imagine que visão maravilhosa será quando os santos, com seus corpos glorificados, brilhando como ouro polido à luz do sol, forem transportados pelo ar, escoltados por seus anjos da guarda! Com que exultação e alegria eles seguirão seu caminho triunfal!

E quando todos se reunirem no vale de Josafá, eles se cumprimentarão com amor e se abraçarão com alegria mútua. Pense por um momento, ó cristão, como você se alegraria se tivesse a sorte de se encontrar entre o número dos abençoados. Essa felicidade ainda está ao seu alcance; se você realmente a desejar com toda a força de sua vontade, será contado nessa feliz companhia. Esforce-se para cumprir todos os seus deveres bem e fielmente, e você também um dia se juntará a essa gloriosa e triunfante procissão.

Consideraremos agora como os ímpios serão transportados para o vale de Josafá e o que os aguarda lá. Ai de mim! Seu destino é tão triste que mal me atrevo a descrevê-lo em detalhes. O que esses infelizes pecadores pensarão, o que dirão quando virem os santos anjos levando os eleitos de entre eles e transportando-os com glória e esplendor pelo ar? O Sábio nos dá uma ideia de seus pensamentos quando nos diz: 'Estes, vendo isso, ficarão perturbados com um medo terrível e se surpreenderão com a rapidez da salvação inesperada dos justos; dizendo dentro de si mesmos, arrependidos e gemendo de angústia de espírito: Estes são aqueles que nós outrora ridicularizávamos e tomávamos como parábola de opróbrio. Nós, tolos, considerávamos a vida deles loucura e o seu fim sem honra. Vede como eles estão contados entre os filhos de Deus, e o seu destino está entre os santos' (Sb 5,2-5). Como lhes causará tristeza ver aqueles que antes desprezavam tão profundamente agora honrados e amados pelos Anjos de Deus, e conduzidos por eles em glória e triunfo para encontrar Cristo. E aqueles que antes exibiam suas riquezas, que desprezavam todos os seus semelhantes em seu orgulho arrogante, agora estão entre os Anjos caídos, pobres, miseráveis, desprezados.

Quando os Anjos tiverem conduzido todos os eleitos ao vale de Josafá, eles continuarão a conduzir todos os réprobos para lá, com os espíritos malignos que se misturam com eles. Eles gritarão em alta voz: 'Fora daqui, fora para o julgamento! O Juiz dos vivos e dos mortos ordena que vocês compareçam diante Dele'. Que grito lancinante de angústia essas criaturas infelizes emitirão! Farão o possível para resistir à ordem dos Anjos, mas lutarão em vão; devem obedecer à ordem dos mensageiros de Deus. Juntamente com os espíritos malignos, os condenados serão levados à força para o lugar do julgamento. Que viagem terrível! O ar está repleto de gritos de raiva. Os espíritos das trevas, com malícia e crueldade diabólicas, já descarregam seu rancor atormentando as criaturas infelizes que o pecado tornou suas vítimas. Ouçamos o grito de desespero arrancado dos seres miseráveis: 'Que tolos fomos! Tolos impensados! Aonde nos levou o caminho da transgressão? Ai de nós! Ele nos trouxe ao severo, ao terrivelmente severo tribunal de Deus!'

Ouça, ó pecador, as lamentações dolorosas e as autoacusações dessas pobres criaturas. Cuidado para que você também não se torne um deles. Ore a Deus para que o preserve de um destino tão chocante e diga: 'Deus misericordioso, lembrai-vos do alto preço que pagou por mim e do quanto sofreu por mim. Por causa desse preço inestimável, não permitais que eu me perca, resgatai-me e acolhei-me entre as ovelhas do seu rebanho para que, com elas, eu possa louvar e glorificar a vossa bondade amorosa por toda a eternidade'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

SOBRE A VIRTUDE DA PENITÊNCIA

Certas almas, mesmo piedosas, ao ouvir a palavra penitência ou mortificação, que exprimem a mesma ideia, experimentam às vezes um sentimento de repulsa. De onde isso provém? Não deve surpreender-nos; tal sentimento tem uma origem psicológica. A nossa vontade busca necessariamente o bem em geral, a felicidade, ou algo que parece sê-lo. Pois bem, a mortificação que refreia algumas das tendências dos nossos sentidos, alguns dos nossos desejos mais naturais, aparece a tais almas como algo contrário à felicidade, daí, pois, esta repugnância instintiva na presença de tudo o que constitui a prática da renúncia de si mesmo. 

Além disso, vemos muitas vezes na mortificação um fim, quando não é mais do que um meio, meio necessário sem dúvida, indispensável, mas afinal meio. Não minimizamos o Cristianismo, ao reduzir a papel de meio a renúncia de si mesmo. O Cristianismo é um mistério de morte e de vida, mas a morte não tem outro objetivo senão o de salvaguardar a vida divina em nós: 'Não é Deus de mortos, mas de vivos'. 'Cristo, ao morrer, destruiu a morte, e ao ressuscitar, restituiu-nos a vida' (Prefácio da Missa da Páscoa). A obra essencial do Cristianismo, o fim último que persegue por si só, é uma obra de vida; o Cristianismo é a reprodução da vida de Cristo na alma. 

Assim, como já vos disse, a existência de Cristo oferece este duplo aspecto: 'entregou-se à morte pelos nossos pecados, ressuscitou a fim de nos comunicar a vida da graça' (Rm 4,25). O cristão morre a tudo o que é pecado, para viver mais intensamente da vida de Deus; a penitência, consequentemente, não é, em princípio, senão um meio para conseguir a vida. São Paulo notou isso muito bem quando disse: 'Levai sempre nos vossos corpos a mortificação de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste em nós' (2Cor 4,10). 

Que a vida de Cristo, que tem o seu princípio na graça e a sua perfeição no amor, aumente sempre em nós: esse é o objetivo e não há outro. Para conseguir isso, é necessária a mortificação; por isso, diz São Paulo: 'Os que pertencem a Cristo, em cujo número, pelo nosso batismo, nos contamos, crucificam a sua carne com os seus vícios e concupiscências' (Gl 5,24). E em outro lugar, diz ainda com linguagem mais explícita: 'Se viverdes segundo os instintos da carne, fareis morrer em vós a vida da graça; mas se mortificardes as vossas más inclinações, vivereis uma vida divina' (Rm 8,13).

(Excertos da obra 'Jesus Cristo, Vida da Alma, de Dom Columba Marmion)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

PALAVRAS ETERNAS (XXV)

 

'No tempo, uma só Fé, um só Batismo, uma só Igreja, Santa, Católica, Apostólica. Na eternidade, o Céu!'

(Manuscrito da Irmã Lúcia, excertos da obra 'Um caminho sob o olhar de Maria',
publicado pelo Carmelo de Coimbra, 2013)

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A CIÊNCIA DE DEUS (IX)

Blaise Pascal (1623-1662) foi um matemático, físico, filósofo e inventor católico, com contribuições relevantes na geometria, mecânica dos fluidos, acústica, teoria das probabilidades, filosofia, teologia e no desenvolvimento do método científico. Em honra a tantas e relevantes contribuições científicas, o nome Pascal foi dado à unidade de pressão no Sistema Internacional de Unidades, como lei física (princípio geral da hidrostática), ao triângulo de Pascal e à famosa Aposta de Pascal, argumento filosófico formulado na sua obra Pensées (Pensamentos) que, embora não tenta provar que Deus existe, mostra que crer em Deus seria a escolha mais racional, considerando risco e benefício (como uma tomada de decisão baseada no critério da incerteza).