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quarta-feira, 25 de março de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XV)

      

PARTE II - O JUÍZO FINAL

X. Sobre a duração do Juízo Final

Quanto tempo durará o Juízo Final? Não é possível dar uma resposta definitiva a essa pergunta, pois trata-se de algo que ninguém sabe; contudo, pode-se supor que ocupará um período considerável. Alguns, de fato, dizem que terminará rapidamente, pois Deus poderia julgar toda a humanidade em um único instante. No entanto, essa opinião não parece ser compartilhada pelos Padres da Igreja, nem é apoiada pela Sagrada Escritura, na qual invariavelmente se fala de um dia de julgamento.

São Paulo, por exemplo, diz que: 'Deus designou um dia em que julgará o mundo com justiça' (At 17,31). E lemos nas profecias de Isaías: 'Eis que virá o dia do Senhor, um dia cruel, cheio de indignação, ira e fúria' (Is 13,9). Nestas e em muitas outras passagens da Sagrada Escritura, o Último Dia é mencionado como um dia, não como um julgamento instantâneo. O profeta Joel indica que o dia será longo, quando diz: 'O dia do Senhor é grande e muito terrível; e quem poderá suportá-lo?' (Jl 2,11). E sobre esse mesmo dia, São João, o profeta da Nova Aliança, também diz: 'Chegou o grande dia da sua ira, e quem poderá subsistir?' (Ap 6,17).

Em muitas outras passagens da Sagrada Escritura encontramos expressões semelhantes; o Dia do Juízo Final é chamado de 'o grande dia', o que provavelmente significa um dia longo. São Jerônimo defendia essa opinião, pois diz: 'O dia do Senhor será um grande dia por causa da eternidade que se seguirá a ele'. Santo Agostinho, ao falar da duração do juízo final, expressa-se assim: 'Por quantos dias se estenderá o juízo, não temos como determinar; contudo, sabemos que um período considerável é frequentemente designado nas Sagradas Escrituras como um dia'. São Tomás de Aquino concorda com Santo Agostinho neste ponto; ele apresenta vários argumentos para provar que o juízo final terá uma longa duração. E por que Deus encurtaria esse dia? Há razões abundantes para que Ele, ao contrário, o prolongue. Pois é o dia do maior triunfo de Cristo; o dia em que os santos alcançam a sua maior glória e os condenados serão submetidos à maior vergonha.

É o dia do maior triunfo de Cristo, porque Ele não só será adorado por todos os anjos e santos, mas também pelos espíritos malignos e pelas almas perdidas, e reconhecido por todos como seu Juiz. Naquele dia, todos os seus inimigos estarão aos seus pés; naquele dia, todos os seus adversários serão forçados a confessar suas ofensas contra Ele, o Árbitro Divino. Eles serão então compelidos a reconhecer a sua divindade, a sua caridade infinita, os inúmeros benefícios que Ele lhes concedeu, em troca dos quais o perseguiram, blasfemaram contra Ele e o submeteram a uma morte cruel. 

Em segundo lugar, os santos abençoados alcançarão naquele dia a sua maior glória, pois serão honrados e estimados por toda a humanidade, bem como por Deus e pelos Anjos. Pois Cristo revelará então a todos os presentes com que fidelidade eles o serviram, com que zelo abnegado trabalharam pela conversão dos pecadores. Ele revelará então as penitências secretas que realizaram, as tentações ferozes às quais resistiram. Ele revelará então as perseguições impiedosas que sofreram das mãos dos filhos deste mundo, e como todo tipo de mal foi dito contra eles injustamente. Assim, Cristo os coroará com a honra que lhes é devida, e todos os seus adversários serão confundidos.

Em terceiro lugar, naquele dia os réprobos serão submetidos à maior ignomínia e angústia. Pois o Juiz revelará todo o caráter vergonhoso e abominável de seus delitos. Ele revelará, à vista dos Anjos e dos Santos, dos demônios e dos condenados, os atos infames que eles cometeram sob o manto da escuridão. Sim, Ele derramará o cálice cheio da sua indignação sobre esses seres miseráveis que, sob a máscara da hipocrisia, ousaram profanar o próprio Santuário. Ele fará com que aqueles que corromperam a inocência sejam capturados e dispostos entre os espíritos malignos, cuja obra diabólica e três vezes amaldiçoada levaram adiante na terra.

Naquele dia, o Juiz Divino fará com que todos os pecadores impenitentes bebam profundamente do cálice da vergonha e da ignomínia, como nos diz São Basílio, quando afirma: 'A confusão que se abaterá sobre o pecador ímpio no Dia do Juízo Final será para ele uma tortura mais cruel do que se fosse lançado em um fogo ardente'. Esta é, de fato, a razão pela qual Deus determinou o Juízo Final: para que os pecadores não sejam punidos apenas pela dor que lhes caberá, mas também sejam expostos à vergonha pública. 

São Tomás de Aquino afirma: 'O pecador não merece apenas dor, mas também desgraça e ignomínia, pois esse é um castigo a que somente os seres humanos podem ser submetidos. Os animais inferiores podem ser castigados e mortos, mas não sabem o que é sofrer vergonha e desprezo'. Isso explica o fato de que qualquer pessoa que tenha um mínimo de autoestima prefere sofrer uma punição mais severa em segredo do que ser exposta à desgraça pública.

Por todas essas razões, pode-se supor que o Juízo Final se estenderá por um período considerável de tempo e, portanto, temos ainda mais motivos para tremer diante dessa perspectiva e orar fervorosamente a Deus para que, naquele grande dia, Ele não nos oprima com vergonha e confusão, mas nos conceda a graça de sua alegria e glória.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 17 de março de 2026

'DEIXAI-OS EM PAZ!'

Ó pecadores cegos e obstinados, ouçam-me agora! Abram os olhos, eu lhes imploro! Abandonem o pecado, implorem pela graça do arrependimento. Convertam-se a Deus, e imediatamente! Não esperem até amanhã; pois amanhã, a vossa situação estará ainda mais desesperadora! Ai de mim! Minhas palavras são em vão! Esses pecadores não têm nem audição, nem visão, nem entendimento. Eles podem, de fato, fazer penitência e emendar-se, pois isso nunca é impossível; mas nunca o farão, porque nunca desejarão fazê-lo. 'Deixai-os em paz' - disse Cristo aos seus discípulos a respeito dos fariseus endurecidos - 'eles são cegos'. 

Ó Senhor misericordioso, devemos deixá-los em paz? E o que será deles? Estarão perdidos para sempre. Devemos, então, ficar olhando enquanto eles correm para o inferno, sem estender a mão para salvá-los? Sim, deixem-nos em paz. Deixem-nos ir para a sua destruição, porque são cegos. Não se preocupem mais com eles; qualquer esforço gasto na tentativa de convertê-los é infrutífero; eles são cegos. 'Deixai-nos em paz!' Ó palavras terríveis! Ó palavras que não são palavras, mas sim tempestades de granizo e raios! Deixem os pecadores obstinados em paz! Não há, então, mais esperança de sua conversão? Eles são rejeitados por Deus e condenados ao inferno? Então, tudo o que posso fazer é dizer-lhes: Ai de vós! Tenho pena de vós; tenho pena de vossa condição miserável, de vossas preciosas almas; e, a menos que um milagre da graça aconteça para restaurar vossa visão espiritual, tenho pena de vós por causa da eternidade infeliz que vos espera!

Por fim, tenho uma palavra a dizer a vocês. Espero que nenhum de vocês se encontre nesse estado miserável de cegueira; e este sermão visa apenas ser uma advertência salutar para dissuadi-los de jamais cair nele. Ah, que Deus nos proteja, a vocês e a mim, disso! 'Andem enquanto têm a luz'. Agora, enquanto seus olhos estão abertos, andem com cuidado, observando rigorosamente os mandamentos divinos; trabalhem pela sua salvação com temor, humildade e amor servil a Deus; odeiem e evitem o pecado acima de todas as coisas, tanto quanto puderem. Acima de tudo, nunca criem o hábito de pecar, pois esse é o próximo passo para a obstinação. 

Se vocês já o são - que Deus nos livre! - pecadores habituais, presos por um amor desmedido a qualquer criatura, tomem imediatamente uma resolução heróica e, por meio de penitência rápida, libertem-se desse estado, 'para que as trevas não os alcancem'. Já fizeram penitência? Então, mantenham-se fiéis a ela e certifiquem-se de nunca mais cometer outro pecado mortal. Talvez o próximo pecado que cometerem seja aquele que despertará tanto a ira e a indignação de Deus que, de acordo com seus decretos insondáveis e, ao mesmo tempo, justíssimos, Ele retirará a sua luz de vocês e os deixará na cegueira, presos em seus próprios desejos. 

Digam a si mesmos todas as manhãs e noites: Quantos pecados eu não cometi durante a minha vida? Não é hora de eu deixar de pecar agora? Ah, detestem seus pecados passados e arrependam-se de todo o coração por terem ofendido a Deus. Quantos são aqueles que, embora seus pecados sejam menos numerosos que os seus, estão agora em estado de cegueira ou estão de fato no inferno! Agradeço a Deus por ter permitido que sua consciência os atormente e por não ter retirado sua luz de vocês. Não peçam mais para que, após esta vida, possam chegar ao pleno gozo da felicidade em uma eternidade feliz. Amém.

(Excertos da obra 'The Penitent Christian', do Pe. Francis Hunolt, 1889)

sábado, 14 de março de 2026

DIÁLOGO DO HOMEM DOENTE COM CRISTO CONSOLADOR


O homem doente:

Senhor, o dia avança e o sol já começa a declinar: tuas palavras e a tua graça me sustentaram até esta hora, mas novas provações surgem ao meio-dia e, por assim dizer, torrentes ainda mais intensas de sofrimento. Vejo a agitação da vida a meu redor, ouço sons distantes que me falam dos trabalhos diligentes e úteis dos meus semelhantes. O sofrimento e a fraqueza me obrigam a levar uma vida egoísta, assim como o prazer causa egoísmo nos outros. Esse pensamento me enche de tristeza e humilhação, pois, ó meu Deus, Tu me deste um coração para amar-te e uma vontade de trabalhar para a tua glória e o bem dos meus semelhantes.

Por que sou, então, tão impotente, enquanto anseio por servir-te, ou por que o amor e o anseio espirituais sobrevivem à força para exercê-los? Senhor, apaga este fogo sagrado que arde sem propósito em meu coração e apenas torna ainda mais pesado o fardo de uma vida inútil.

Cristo, o Consolador:

A experiência do sofrimento não te ensinou nada, meu filho? Escuta as minhas palavras e guarda-as no coração. De todas as coisas que o homem deve aprender, a mais oculta e misteriosa é o sofrimento. Por mais terno que seja o coração de um homem, ou por mais apurado que seja o seu instinto, ele nunca compreenderá os sofrimentos alheios, a menos que ele próprio tenha sofrido; falará deles como um cego falaria das cores. Daí a incapacidade comum daqueles que nunca conheceram o sofrimento de consolar aqueles que sofrem. Nada pode suprir essa falta; nem o afeto mais caloroso, nem a devoção mais completa. Somente a experiência pessoal pode derrubar a barreira e nos dar a graça de consolar os outros.

Não sentiste isso muitas vezes, meu filho? Que consolo encontraste em teus momentos de fraqueza por parte daquelas pessoas alegres e prósperas a quem a sorte sorriu ininterruptamente? Muitos deles te amavam de verdade e desejavam sinceramente te ajudar; mas, por mais sábias e gentis que fossem suas palavras, faltava sempre aquela palavra que te traria consolo. Essa palavra misteriosa, essa gota de unção sagrada, nada pode ensiná-la à alma a não ser um conhecimento pessoal do sofrimento.

Essa lei é tão profunda e tão universal que até mesmo Eu, que possuo todo o conhecimento, quis sentir todos os segredos da miséria humana na fraqueza da carne, para que assim pudesse tornar-me para o homem aquele Consolador experiente de quem ele tanto necessita em momentos de angústia. Minha participação em suas dores atrai os homens poderosamente a mim; e quando o fogo da provação se abate sobre eles, não é para a contemplação da minha glória no Monte Tabor que se voltam, mas para a minha Cruz no Calvário. Lá, vendo em meus membros sagrados os sulcos de suas próprias aflições, dizem com confiança inabalável: 'Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa ter compaixão de nossas fraquezas; mas um que, em tudo, foi tentado como nós, sem pecado' (Hb 4,15). Esta ciência do sofrimento é tão importante que nada pode compensar a falta dela. Aquele que não a possui, que tenha cuidado ao tentar lidar com as dores dos outros; mas aquele que a possui pode fazer todas as coisas, pois carrega dentro de si um poder de cura.

Aquele que sofreu, que passou por longos anos de dor e aflição, de ansiedade desgastante, de desânimos secretos, de esperanças frustradas e lágrimas solitárias - tal pessoa, se não recebeu sua alma em vão, deve doravante percorrer o mundo como um sacramento vivo do meu consolo. Tal pessoa não pode deixar de exercer uma influência reconfortante sobre as almas sofredoras. Os doentes, os entristecidos, os aflitos, reconhecem-no imediatamente entre os outros homens. Outros podem falar, mas ele é o único que detém o segredo daquela palavra-chave, que encontra o caminho para o coração ferido e age como bálsamo sobre as suas feridas.

Tal pessoa é gentil, terna, paciente diante da dor. Ele sabe que um doente se tornou novamente uma criança e que, se precisa de palavras encorajadoras para despertar as energias adormecidas de sua mente, por outro lado, sua fraqueza requer a indulgência, a tranquilidade e a vigilância de uma mãe. Aquele que foi ensinado pelo próprio sofrimento possui a arte de conduzir suavemente as almas doentes a pensamentos sobre mim. Ele não fará, como alguns fazem, de seu zelo um pretexto para uma dureza que, por si só, provoca e desperta oposição. 'A cana quebrada Ele não quebrará, e o pavio fumegante Ele não apagará' (Is 43,3).

Portanto, alegra-te, ó meu filho, por teres conhecido o que é sofrer, e conforta-te por ainda seres chamado a sofrer; esta iniciação ao sofrimento é um tesouro inefável. Em breve irás procurar os aflitos; ou, se não puderes ir em busca deles, eles virão a ti. Acolhe os aflitos como enviados a ti por mim; acolhe-os como aqueles por quem aprendeste, trabalhaste e sofreste; acolhe-os como aqueles que confiei aos teus cuidados neste mundo. Não precisarás de palavras ensaiadas para falar com eles; abre teu coração e mostra-lhes as cicatrizes de tuas próprias feridas; diz-lhes que sabes o que é sofrer; ouve a história de suas provações e responde-lhes com a plenitude de teu coração. 

Rico neste tesouro de consolo, poderás ir sem medo entre os pobres e os aflitos. Tuas dores desaparecerão diante das dores deles, teus sofrimentos se desvanecerão diante dos sofrimentos deles; esquecer-te-ás de ti mesmo ao ministrar aos outros e, quando a noite chegar, ficarás surpreso ao sentir uma nova vida brotando dentro de ti; e dirás a mim em tua gratidão: 'Senhor, o que é isto que me aconteceu?  Para onde Tu me tens conduzido, e o que eu tenho feito? Não sei como isso aconteceu, mas enquanto me esforçava por fazer algo pelos outros, parece que, na verdade, estava fazendo tudo por mim mesmo; ao tentar curá-los, estava curando minhas próprias feridas; ao procurar consolar os aflitos, enxugava minhas próprias lágrimas; ao me esforçar para acalmar suas dores, perdi a amargura das minhas; ao dar o pouco que tinha, encontrei tudo'.

(Excertos da obra 'Counsels to the Sick", do Abade Henri Perreyve [1831 - 1865])

quarta-feira, 11 de março de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIV)

     

PARTE II - O JUÍZO FINAL

IX. Sobre como terá início o Juízo Final

Quando os Anjos e os Santos, além de toda a companhia dos demônios e dos condenados, estiverem prostrados diante de seu Juiz em humilde adoração, Ele abrirá os lábios e, com voz alta, proferirá estas ou outras palavras semelhantes: 'Ouçam, ó céus, a minha voz; ouça, ó terra, as palavras que vou proferir; ouçam, ó anjos, ouçam, ó demônios, ouçam também, todos vós, pecadores, pois anuncio a cada um e a todos vós que eu, Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus e da Virgem Maria, vosso Criador, vosso Redentor, vosso soberano Senhor, estou prestes a exercer meu ofício de Juiz.

Com infinita paciência, tenho suportado as vossas inúmeras iniquidades: o tempo da graça já passou, o tempo da justiça chegou. Cada um será recompensado de acordo com as suas obras. Aqueles que fizeram o bem irão comigo para a vida eterna, e aqueles que fizeram o mal serão lançados no abismo do tormento e da angústia eternos. Toda a criação verá e reconhecerá que sou um Deus justo, que não julgo segundo as aparências, mas segundo a medida do que cada homem mereceu'.

Palavras como estas sairão da boca do Juiz e serão pronunciadas com tal majestade que todos os homens tremerão e se estremecerão. Todos os miseráveis pecadores começarão a chorar e lamentar-se novamente, de modo que a própria terra poderá ser movida pela compaixão. 'Ai de nós, pobres coitados' - exclamarão em uma só voz - 'como podemos ficar diante da face do nosso Juiz! Montanhas, caiam sobre nós, e rochas, cubram-nos e escondam-nos da face daquele que está sentado no trono e da ira do Cordeiro. Pois o grande dia da sua ira chegou, e quem poderá resistir?'

E como em todo tribunal deve estar presente um acusador para apresentar as acusações contra o indivíduo que será julgado, assim também neste julgamento geral os anjos e os demônios serão os acusadores da humanidade. São Miguel se levantará primeiro e dirá: 'Juiz justíssimo, trago uma acusação contra esses milhões de pecadores, que contaminaram a terra a tal ponto com seus maus feitos, que Vós, em vossa santa indignação, considerastes adequado purificá-la com fogo; eu vos invoco agora para punir esses transgressores de acordo com a vossa justiça'.

Então Lúcifer, falando em nome de todos os espíritos malignos, levantará a voz com um rugido como o de um leão e acusará toda a humanidade em conjunto: 'Justíssimo Juiz dos vivos e dos mortos, eu apresento uma acusação contra todos os seres humanos aqui reunidos. Uma vez que pareceu justo à vossa severa justiça banir-me e a todos os Anjos que se juntaram a mim do Céu por causa de um único pecado, e condenar-nos à condenação eterna, é justo incluir toda a humanidade nesta mesma condenação e, assim, lanceis todos os homens aqui presentes no abismo do Inferno. Pois não há um único indivíduo aqui que não tenha cometido pecado e transgredido a vossa Lei'.

Então Cristo responderá à acusação desta forma: 'Será feito como pedis, ó anjos e demônios; todos os homens devem comparecer perante o meu tribunal, e cada um receberá o que lhe é devido: castigo para os ímpios, recompensa para os bons'. Quando todos aqueles que Cristo escolheu para compartilhar com Ele o seu ofício de Juiz tiverem tomado seus lugares, com os seus apóstolos tendo precedência sobre todos os outros, o julgamento terá início. Pelo que diz o apóstolo São Paulo, parece que ninguém, nem mesmo os santos, estará isento dessa provação: 'Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo' (Rm 14,10).

Esta apresentação perante o tribunal de Cristo encherá todos de temor. Ninguém estará livre disso; mesmo os justos o sentirão em certa medida, assim como os infelizes pecadores. Mesmo que os justos não tenham consciência de nenhum pecado, não estarão isentos de apreensão. São Paulo diz isto, falando de si mesmo: 'De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor' (1Cor 4,4). Com isso, o apóstolo aparentemente quer dizer: 'Minha consciência não me reprova, mas isso não prova que eu seja um dos justos; devo esperar para ver qual será a sentença que o Juiz eterno proferirá sobre mim'. Na verdade, todo homem ficará tão aterrorizado ao ver pela primeira vez o Juiz irado que, como São João, cairá aos seus pés como morto.

Parece-me que o julgamento dos bons será feito mais ou menos desta maneira: os Anjos da Guarda conduzirão aqueles que foram confiados aos seus cuidados ao tribunal e então os justos se prostrarão diante de Deus em humilde adoração. O inimigo maligno começará então a acusá-los e apresentará tudo o que puder contra eles. Mas o anjo da guarda defenderá o seu protegido e apresentará todas as suas boas obras, suas penitências e suas virtudes, colocando-as na balança da justiça divina. E se elas não forem muito leves, Cristo o vestirá com a nova túnica, a vestimenta do esplendor e o coroará com a diadema do reino eterno. Quem pode dizer a medida desta glória então! Como todos os justos se alegrarão por estarem entre os bem-aventurados! Com que esplendor o coro dos Anjos os felicitará e exultará com eles em júbilo feliz. E como todos os que ainda aguardam a sua sentença se maravilharão com a glória que lhes pertence e desejarão partilhá-la entre si.

ORAÇÃO

Jesus, cheio de bondade, em nome de todos os santos e eleitos, a quem Vós destinastes para desfrutar da felicidade eterna, eu imploro, em nome da vossa infinita bondade, possa eu estar entre os vossos santos no Dia do Juízo Final. Embora seja realmente indigno dessa graça, pela vossa maior honra e louvor, peço-vos que manifestei sobre mim a vossa misericórdia infinita e não me rejeiteis, pobre pecador que sou. E eu imploro a vocês, santos de Deus, que me ajudem a alcançar a vossa companhia abençoada. Sei que a vossa intercessão é poderosa o suficiente junto a Deus para levá-lo a olhar para mim com compaixão e ser infinitamente misericordioso comigo no julgamento da minha vida. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIII)

    

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VIII. Sobre como a aparição de Cristo será terrível no Dia do Juízo Final e a hediondez do pecado mortal

O leitor pode, por acaso, estar inclinado a perguntar a razão pela qual Cristo, o mesmo Cristo que viveu entre nós na Terra com toda a gentileza e mansidão, deveria ter uma aparência tão terrível quando vier para ser nosso Juiz? Há muitas razões pelas quais Cristo, nessa qualidade, julgará a humanidade com tanta severidade. A principal delas é porque Ele foi gravemente ofendido pelos pecados dos homens.

Os teólogos afirmam que todo pecado mortal é, em si mesmo, um mal infinito e uma afronta infinita à majestade divina. É uma ofensa de tal magnitude que nem a língua dos anjos nem a dos homens são capazes de descrevê-la. Entende-se, portanto, que, como em todo pecado mortal há uma malícia tão profunda, ele deve ferir profundamente o Coração Divino de Jesus e provocar nele uma justa ira contra o indivíduo que cometeu tal pecado. E para que fique mais evidente quão justa é a ira de Deus, quando despertada pelo pecado mortal, convém explicar mais claramente quão grande é o insulto oferecido a Deus pelo pecado voluntário. 

Imagine as três Pessoas Divinas da Santíssima Trindade de um lado, com seus tesouros infinitos de graça e glória e, do outro lado, o espírito do mal com todos os castigos e tormentos do Inferno; e um homem parado no meio, entre os dois, debatendo consigo mesmo se deve honrar a Deus fazendo a sua vontade ou se deve agir em violação à sua vontade, causando assim a alegria do demônio. Se o homem comete o pecado, ele age contra Deus, e Deus considera sua ação exatamente como se ele tivesse proferido estas palavras blasfemas, ou outras da mesma natureza:

'Eu realmente acredito, ó Deus, que fui criado pelo vosso poder todo-poderoso, redimido pela vossa misericórdia, feito filho predileto pela vossa generosidade, sei que Vós me prometestes a vida eterna, toda a doce bem-aventurança do Céu. Também estou bem ciente de que este Satanás amaldiçoado, vosso grande inimigo e meu, está preparado para me privar de tudo o que é bom e me lançar na perdição eterna. E, no entanto, porque Satanás me tenta agora, porque me sugere um pensamento de impureza, um desejo de vingança, um movimento de inveja, prefiro ceder a esse impulso e, assim, tornar-me merecedor de castigo eterno, do que resistir e repelir a sugestão maligna e, assim, merecer o Céu no futuro e as graças espirituais agora. Portanto, deliberadamente e por minha própria vontade, afasto-me de Vós, ó Deus; sigo por escolha própria este demônio odioso, a quem obedeço em vez de Vós. Embora sejais meu Deus e meu Senhor, embora tenhais nos proibido de transgredir a vossa lei, embora o pecado seja uma ofensa infinita contra Vós, não me importo, cometeria este pecado de qualquer maneira, não desistiria dele mesmo sendo uma grande afronta a Vós. Mais ainda, se eu pudesse fazer tudo o que a malícia do meu coração me permite, eu roubaria de Vós a vossa divindade, eu vos destituiria do vosso trono e, em vosso lugar, eu colocaria o pecado e o passaria a adorar como meu deus. Eu amo o pecado, desejo deleitar-me nele e encontrar nele a minha única felicidade'.

Blasfêmias como as expressas nessas palavras são terríveis e não podem ser lidas sem um arrepio na alma. No entanto, todo homem que, deliberadamente e desafiando a lei de Deus, comete um pecado mortal é culpado de blasfemar contra Deus da mesma maneira. Não é de se admirar, então, que Deus se sinta tão profundamente ofendido pelo pecado mortal. Mas ainda não mostramos toda a extensão da malícia do pecado, que vai ainda mais longe; ele é duplamente ofensivo a Deus porque o pecador não apenas manifesta desprezo por Deus Pai, mas também despreza o seu amado Filho, a Segunda Pessoa da Trindade Divina. 

Com cada pecado deliberado, o pecador parece dizer: 'É verdade que Vós tornastes homem por mim, que me procurastes por trinta e três anos, como uma ovelha perdida; que suportastes fome e sede, calor e frio, e todo tipo de dificuldades por minha causa, enquanto Satanás não fez nada disso por mim; pelo contrário, ele me persegue dia e noite e se esforça para me enganar. Apesar des er assim, prefiro pertencer a ele do que a Vós. Prefiro agradá-lo e vos entristecer. É verdade, ó meu Redentor, que por minha causa fostes açoitado, coroado de espinhos, pregado na cruz e morto em meio a torturas amargas; mas, apesar de tudo isso, não vos dou graças. Mais ainda, embora saiba que com os meus pecados eu vos açoito, vos crucifico, vos mato novamente, não abandonarei os meus pecados; pisarei em vosso precioso sangue e adorarei Satanás em vez de Vós; farei dele meu amigo mais querido e farei o possível para lhe satisfazer'.

Mais uma vez pergunto: essas declarações não são blasfemas ao extremo? Não mostram a mais negra ingratidão da parte do pecador para com o seu Salvador? É difícil imaginar que um cristão entristeça seu Redentor de maneira tão vergonhosa. E, no entanto, há muitos milhares que, se não em palavras, pelo menos em ações, dirigem tais palavras ao seu Salvador.

Em terceiro lugar, o pecador audacioso ultrapassa e desafia o Espírito Santo de Deus, pois suas ações equivalem a expressões como estas: 'Vós, ó Espírito Santo, certamente santificastes a minha alma e a purificastes no sangue de Cristo, embelezando-a com a vossa graça. Sei que a vossa graça santificadora é tão preciosa que toda alma que é adornada por ela passa a se tornar filha do Pai celestial, irmã do Filho Divino, esposa do Espírito Santo, morada da Santíssima Trindade, templo da soberana Divindade, herdeira da felicidade eterna, amiga dos Anjos e Santos, mas - por que me preocuparia com essas prerrogativas sublimes, por que me importaria com essa pérola inestimável e essa joia valiosa? Fora com elas; jogarei essa pérola, essa joia valiosa, aos cães e aos porcos, ou seja, às minhas más paixões. Sacrificarei tudo por elas, servirei ao pecado e viverei no pecado'.

Não vês agora, ó leitor, como o pecado é odioso, como a natureza do pecador é chocante, como é infinita a ofensa contra Deus, o desprezo por Deus que é algo inseparável do pecado? Não estás convencido de que Deus tem motivos justos para sentir santa indignação contra o pecado e os escravos do pecado, e para condenar o pecador à condenação eterna? E se a ira de Deus, que é infinito em santidade e justiça, é despertada a tal ponto por um único pecado mortal, quão grande deve ser a ira e a ofensa do Justo e Santo contra os milhões e milhões de pecados vergonhosos e sem pudor cometidos diariamente não só pelos judeus e pagãos, mas também pelos cristãos! Toda essa ira, todo esse sentimento de dignidade ultrajada pelo insulto oferecido, que o pecador desperta no Coração de Deus, será guardado até o Dia do Juízo Final. O santo sacrifício da Missa e a poderosa intercessão dos santos ainda impedem o braço Divino de executar a vingança.

Mas quando a humanidade tiver enchido a medida de suas iniquidades, o dia da ira chegará. Ninguém pode imaginar quão terrível será o derramamento da ira de Deus sobre os pecadores. Nos Salmos, lemos: 'Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?' (Sl 89,11). Ai de nós, pobres pecadores! Então, pela primeira vez, experimentaremos devidamente o que fizemos e o quanto ofendemos profundamente a Deus com nossos graves pecados. A ira de Deus é tão ilimitada que nem a Mãe de Deus, nem todos os Anjos e Santos têm poder para diminuí-la ou contê-la; ela se voltará com santo zelo e distribuirá a cada homem o que ele merece com rigorosa justiça. Ouçam o que o próprio Juiz diz sobre isso, sobre a sua ira, pela boca do profeta Ezequiel: 'Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti a minha cólera, vou julgar-te de acordo com o teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas as tuas práticas abomináveis. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor' (Ez 7,3-4). .

Estas são palavras verdadeiramente terríveis e a ameaça que contêm é das mais assustadoras. Ó quão implacável será o julgamento com que Deus, ofendido por tão inúmeras transgressões, convocará então toda a humanidade. Ai de mim e ai de ti, se nos encontrarmos entre a multidão incontável dos pecadores, e Deus não puder, na sua justiça, poupar-nos! O que faremos para não cairmos nas mãos do Juiz irado? Devemos abandonar o caminho da iniquidade e, agora, enquanto ainda há tempo, fazer as pazes com o Juiz a quem ofendemos. Vamos manifestar de vez em quando um sincero arrependimento pelos nossos pecados, mediante a oração abaixo ou outras orações similares de profundo pesar pelas ofensas e faltas cometidas.

ORAÇÃO

Juiz de infinita justiça dos vivos e dos mortos, reconheço que pequei contra Vós muitas vezes e gravemente. Abandonei-vos, ó meu Pai do Céu; crucifiquei-vos, ó meu Redentor; entristeci o Espírito Santo e desperdicei as vossas graças. Fiz isso pelos inúmeros pecados que cometi em pensamentos, palavras e ações e, por minhas transgressões, incorri na pena da morte eterna. Mas, como Vós não desejais a morte do pecador, mas que ele se converta e viva, deixai-me experimentar desde agora o efeito da vossa justiça, que está sempre unida à vossa misericórdia. Todas as provações que me enviardes nesta vida serão recebidas com gratidão e acolhidas com suavidade, na medida em quiserdes me castigar com a vossa severidade paternal, para que, no Dia do Juízo Final, eu possa encontrar a vossa misericórdia e alcançar um lugar entre os vossos eleitos. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SOBRE A BATALHA ESPIRITUAL CONTRA OS VÍCIOS

Na luta que devemos empreender contra os vícios, devemos empregar a mesma tática com que estes nos assaltam. Para isso, urge descobrir qual o vício que mais nos subjuga e iniciar contra ele a luta principal. Que cada um, com toda a atenção e diligência da mente, bem como com a máxima vigilância, observe suas investidas. Dirijamos, então, contra ele os dardos dos jejuns cotidianos, golpeando-o com frequentes suspiros e gemidos do coração; invoquemos contra ele o labor das vigílias e das meditações espirituais, as incessantes orações com lágrimas derramadas perante Deus, implorando-lhe que, de modo especial e para sempre, extinga esses ataques.

É impossível triunfar sobre qualquer paixão, se antes não compreendermos que nossa diligência e nosso esforço jamais poderão alcançar-nos a vitória nessa luta. Contudo, toda a obra de purificação exige cuidado e solicitude incessantes, dia e noite. No entanto, ao sentir-se alguém liberto, novamente esquadrinhe todos os recantos do coração com a mesma meticulosidade e surpreenda aquele que entre os outros vícios percebe ser o mais pernicioso. É indispensável, então, que se lance mão de todas as armas espirituais para combatê-lo. Desse modo, depois de vencidos os mais poderosos, mais facilmente serão superados os restantes, e a luta contra os mais fracos passa a ser vitoriosa.

... Por uma tática semelhante, superadas as paixões mais violentas, nos dispomos gradualmente a combater as mais fracas, obtendo assim, sem riscos, uma completa vitória. Contudo, não julguemos que, ao orientarmos nossa luta específica contra um vício particular, olhando com negligência os dardos de outros, sejamos feridos com facilidade por um golpe inesperado. Isso é impossível; pois, quem se preocupa com a purificação de seu coração e, com esse intuito, lança mão de todas as forças de sua alma para libertar-se de determinado vício, envolve todos os outros no mesmo ódio e se mantém vigilante contra todos eles.

A que título mereceria alguém a vitória desejada sobre uma paixão, se depois se tornasse indigno da recompensa prometida aos puros de coração, por se ter contaminado com outros vícios? Mas, quando tivermos feito da luta contra determinada paixão nosso principal propósito, passaremos a rezar nessa intenção, com zelo e solicitude a fim de merecermos a graça de uma vigilância mais cuidadosa e assim alcançarmos uma rápida vitória.

(Excertos da obra 'Conferências', de João Cassiano, monge do século V)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (XI)


Dois pesquisadores matemáticos* concluíram, em publicação recente no periódico Journal of Theoretical Biology, que a probabilidade de formação de uma proteína funcional - fonte de qualquer processo vital - é de 1 em 100.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000. Por outro lado, muitas proteínas precisam interagir formando grupos para realizar uma função química específica. Na imagem no topo do texto, por exemplo, um complexo proteico (à esquerda) é analisado de acordo com as interações das várias proteínas que o compõem. Assim, mesmo ignorando a baixa probabilidade de formação de cada proteína individual, a probabilidade de formação de complexos proteicos é absurdamente baixa. Como resultado, você tem uma probabilidade extremamente baixa de que proteínas individuais possam ser produzidas por interações químicas aleatórias e, mais do que isso, uma probabilidade absurdamente baixa de que tais proteínas produzidas aleatoriamente possam formar os complexos necessários para a vida. Isso significa que a chance de tais complexos proteicos se formarem como resultado de processos aleatórios é extremamente baixa x absurdamente baixa.

Quanto mais aprendemos sobre o universo, mais percebemos que ele é produto de um projeto. De fato, há algum tempo, muitos cientistas reconhecem que o universo é finamente ajustado para a vida. Existem muitos parâmetros que governam como as coisas acontecem no universo, e todos eles têm as características necessárias para que a vida floresça. Um elétron, por exemplo, é precisamente tão negativo quanto o próton é positivo, apesar de serem partículas muito, muito diferentes. Se as cargas estivessem desalinhadas por apenas um bilionésimo de um por cento, o desequilíbrio elétrico resultante nas moléculas tornaria até mesmo objetos muito pequenos instáveis ​​demais para se formarem. A explicação mais óbvia para esse ajuste fino é que o universo foi projetado para a vida.

(Excertos do artigo 'Another Peer-Reviewed Paper Favoring Intelligent Design', de Jay Wile)

* Thorvaldsen, S., & Hössjer, O. (2020). Using statistical methods to model the fine-tuning of molecular machines and systems. Journal of Theoretical Biology, 501, Article 110352.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

PALAVRAS ETERNAS (XXVI)


'Quando os homens escolhem não acreditar em Deus, 
eles não passam a acreditar em nada, 
apenas tornam-se capazes de acreditar em qualquer coisa'

(G.K. Chesterton) 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XII)

   

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VII. Sobre como Cristo assumirá o seu Lugar no Tribunal

Preste atenção, ó leitor, ao que está por vir, e não imagine que isso não lhe diz respeito. Você certamente testemunhará tudo isso um dia com os seus próprios olhos e tudo será mil vezes mais terrível do que minha pena pode descrever. Quando Cristo, em sua carruagem de fogo, chegar ao Monte das Oliveiras, Ele permanecerá no ar, a uma altura tal que possa ser visto claramente por todos os homens, até que os Anjos tenham preparado o trono do julgamento.

O profeta Daniel descreve assim a cena: 'Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes, e tal como a pura lã era sua cabeleira; seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. Saído de diante dele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos (Dn 7,9 - 10).

Mas Cristo não julgará sozinho; os doze apóstolos estarão com Ele, de acordo com a promessa que Ele lhes fez: 'Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua majestade, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel' (Mt 19,28). Quem pode dar uma ideia da magnificência do trono de Cristo? É indescritível.

Lemos que o rei Salomão mandou construir um trono maravilhosamente belo em marfim, ricamente adornado com ouro e pedras preciosas. Este trono era tão magnífico que o escritor inspirado diz que em nenhum reino do mundo se tinha feito tal obra. Se o trono do rei Salomão era feito de materiais tão caros e trabalhado com tanta habilidade, qual será o esplendor do trono do Rei dos reis, no qual Ele se assentará em sua majestade para julgar o mundo inteiro! Nosso Senhor fala desse trono de julgamento como um trono de grande esplendor, quando diz: ''Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, Ele se sentará no seu trono glorioso'' (Mt 25, 31).

Alguma ideia da aparência desse trono pode ser obtida a partir das palavras que acabamos de citar do profeta Daniel, e também desta descrição dada por São João: 'Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono... Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus' (Ap 4,3.5). Tais são as imagens com que a Sagrada Escritura retrata o tribunal de Cristo. Quem, entre toda a humanidade, ousaria levantar os olhos para este trono de fogo? Não será ele mais deslumbrante do que os relâmpagos e os halos de fogo de uma tempestade?

O Juiz Divino sentar-se-á neste trono e o seu semblante grave será visível aos homens e aos Anjos. Todos os seres criados tremerão com reverência e admiração. São João declara isto no Apocalipse: 'Vi um grande trono branco e Aquele que nele se assentava, de cuja face a terra e o céu fugiram, e não se achou lugar para eles' (Ap 20,11). Nestas palavras, o profeta do Novo Testamento parece indicar que os céus e a terra não serão capazes de suportar o olhar do seu Juiz; que todos os seres racionais, tanto anjos como homens, tremerão ao ver o seu semblante severo.

Que os anjos também temerão e tremerão é afirmado por Santo Agostinho, na seguinte passagem de seus escritos: 'Quando Nosso Senhor diz que os poderes do céu serão abalados, Ele se refere aos anjos; pois tão terrível será o julgamento que os anjos não estarão isentos do medo; eles também tremerão e terão medo. Pois, assim como quando um juiz se senta em julgamento, seu semblante grave não apenas causa terror nos culpados diante dele, mas também intimida os oficiais que estão ao seu redor, assim também, quando toda a humanidade for levada a julgamento, os ministros celestiais compartilharão do horror e do alarme universais'. São João Crisóstomo corrobora essa afirmação quando diz: 'Todos ficarão então cheios de espanto, apreensão e terror, e até mesmo os anjos ficarão com muito medo'. Muitos outros Padres da Igreja e comentaristas das Sagradas Escrituras expressam uma opinião semelhante.

Agora, se, de acordo com a opinião de homens sábios e santos, nem mesmo os anjos estarão isentos de medo no Dia do Juízo Final, quanto mais motivo terão os santos para temer, uma vez que deverão comparecer perante o tribunal de Cristo e prestar contas rigorosas de todas as suas ações. Sim, é inequivocamente evidente, a partir do que São João diz no Apocalipse, que os santos abençoados são tomados por temor e tremor. Ele descreve como Cristo lhe apareceu e o efeito que isso teve sobre ele. 'Quando o vi, caí a seus pés como morto. E ele colocou sua mão direita sobre mim, dizendo: Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último' (Ap 1,17). 

Se o amado apóstolo ficou tão impressionado ao ver seu querido Mestre e Senhor, que viera para consolá-lo e não para julgá-lo, que caiu a seus pés como morto e não conseguiu reunir coragem para se levantar até que Cristo lhe falasse da maneira mais gentil e reconfortante, pode-se supor como os santos não ficarão aterrorizados no Dia do Juízo Final, quando contemplarem Cristo em sua majestade terrível e forem chamados a prestar contas a Ele de toda a sua vida? E, ó pobre pecador, como será então contigo e com todos os réprobos, se até mesmo os anjos e os santos tremem com a vinda do Juiz? Não há palavras que possam expressar o terror e o desânimo dos espíritos malignos e dos pecadores impenitentes, quando contemplarem o seu Divino Juiz no trono da sua majestade e souberem que Ele os julgará rigorosamente e os condenará ao inferno por toda a eternidade.

Para dar uma ideia do terrível medo e alarme dos anjos caídos e dos pecadores infelizes, ouçamos o que a Sagrada Escritura diz a respeito da aparência assustadora do Juiz e da grandeza de sua ira, no primeiro capítulo do Apocalipse, onde São João nos diz: 'Vi o Filho do homem vestido com uma veste que chegava até os pés e cingida ao peito com um cinto de ouro. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como a lã branca e como a neve, e seus olhos eram como chama de fogo, e seus pés como bronze refinado, como em fornalha ardente. E sua voz era como o som de muitas águas. E da sua boca saía uma espada afiada de dois gumes, e seu rosto era como o sol brilhando em seu poder (Ap 1,13-16). Sobre a sua cabeça havia muitas diademas... Ele estava vestido com uma veste salpicada de sangue... Ele pisa o lagar do vinho da ira do Deus Todo-Poderoso, e traz escrito em sua vestimenta e em sua coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19,12-13.15-16).

Medite sobre estas palavras maravilhosas, ó cristão, e imagine seu futuro Juiz em cores vivas. Como sua aparência majestosa poderia ser descrita de forma mais vigorosa do que nas palavras que acabamos de citar? Qual deve ser o esplendor daquele rosto que se diz brilhar como o sol no seu meridiano! Qual deve ser o brilho daqueles olhos que resplandecem com santo fervor como chamas de fogo! Qual a força daquela voz que tem o som de um volume de águas! Qual deve ser a agudeza daquela língua que corta como uma espada de dois gumes! Que cabeça gloriosa deve ser aquela adornada com muitas diademas preciosas! Quão terrível deve ser aquela vestimenta salpicada de sangue! E quão digno é aquele nome real: Rei dos reis e Senhor dos senhores! Quão assustados ficaremos todos, que medo e tristeza nos dominarão quando nosso Juiz nos olhar! E imagine quais serão os sentimentos dos condenados, quando contemplarem o Juiz de todas as suas más ações; como eles se encolherão e tremerão sob o seu olhar na hora da sua justa ira!

Talvez tenhamos uma melhor concepção do que é a ira de Deus, se ouvirmos o que o profeta Isaías diz a respeito disso: 'Eis que o nome do Senhor vem de longe, sua ira arde e é pesada de suportar; seus lábios estão cheios de indignação, e sua língua como um fogo devorador; seu sopro como uma torrente transbordando até o meio do pescoço, para destruir as nações até que não reste nada' (Is 30, 27-28). Estas são, na verdade, palavras terríveis. Não indicam elas claramente com que grande ira Cristo se manifestará ao mundo? Bem podem todos os infelizes pecadores ficar dominados pelo terror, pelo desânimo e pela angústia; bem podem clamar às montanhas que caiam sobre eles e às colinas que os cubram. Agora, quando o Juiz estiver sentado no trono de sua majestade, todos os que estiverem reunidos no vale de Josafá, anjos e demônios, os redimidos e os perdidos, terão que adorar a Cristo, como diz São Paulo: 'Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo. Pois está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a Deus' (Rm 14, 10 -11).

Que cena solene e sublime será então encenada, ó meu Deus, quando todos os milhões e milhares de milhões de anjos, juntamente com os bem-aventurados, em forma visível, se prostrarão no chão, e os espíritos malignos com suas vítimas infelizes, e todos os condenados, serão forçados contra sua vontade a adorar Cristo e reconhecê-lo como seu Deus e Juiz! Essas criaturas miseráveis cairão de joelhos e inclinarão suas cabeças até o chão, sem ousar levantar os olhos, para não encontrarem o olhar irado de seu Juiz. Elas lamentarão e chorarão, cheias de consternação e desânimo indescritíveis. Com alegria, elas gostariam que a terra se abrisse e as engolisse; mais ainda, se fosse possível, elas se lançariam em um abismo sem fundo, em vez de sofrer tal humilhação. Pare e considere, ó pecador, quais seriam seus sentimentos se você estivesse entre essas almas perdidas; você ficaria oprimido pela tristeza e angústia.

São Vicente relata que um jovem de vida dissoluta sonhou certa vez que estava sendo julgado diante do tribunal de Deus e obrigado a prestar contas de sua vida mal empregada. Seu terror foi tão grande que seus cabelos ficaram completamente brancos. Se os terrores do Juízo Final vividos apenas em um sonho foram suficientes para mudar a cor dos cabelos daquele jovem, qual será, em sua opinião, o efeito que eles produzirão em você e em mim, quando estivermos presentes, não em um sonho, mas na realidade, no Juízo Final, e com nossos olhos físicos contemplarmos nosso Juiz em toda a sua santa indignação?

ORAÇÃO

Ó Juiz de infinita justiça, olhai para mim, eu vos imploro, do vosso trono no Céu, um pobre pecador, e por causa da vossa infinita compaixão, sede misericordioso comigo no dia do julgamento final. Sei que não seria capaz de resistir naquele dia terrível e que, pela vossa justa sentença, seria punido com a condenação eterna. No entanto, sei também que se um pecador implora a vossa misericórdia no tempo da graça, esta não lhe será negada. Portanto, eu vos imploro com profunda humildade e contrição, por meio da vossa amarga Paixão, que perdoeis os meus pecados e me concedeis uma sentença clemente no Dia do Juízo Final. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

OS OITO GRAUS OU VÍCIOS DO ORGULHO

'o orgulho é a mãe de todos os vícios' (Ecl 10,15)

1. Gabar-se do que se tem, como se não o tivesse recebido de Deus ou do que não se tem, ou de coisas que merecem reprovação; e isso se chama arrogância.

2. Desejar ser visto pelos homens para ser elogiado e se alegrar em agradá-los ou em ser estimado por eles; e isso é vaidade.

3. Elogiar a si mesmo, vendendo-se por aquilo que não se é, ou engrandecendo aquilo que se é, e revelando desnecessariamente aquilo sobre o qual se deveria manter silêncio; e isso é vanglória.

4. Ter um desejo desmedido por posições e dignidades; isso é ambição.

5. Empreender tarefas que excedem a própria força e capacidade, o que se chama presunção.

6. Fingir ser algo que não se é ou praticar boas ações na presença de outros somente para ser estimado; isso é hipocrisia.

7. Ser teimoso em seu próprio julgamento e preferir a sua própria opinião à dos outros, não querendo ceder a ninguém; isso é obstinação.

8. Tratar com soberba ou desdém as outras pessoas, tanto seus iguais quanto os seus superiores; isso é desprezo.

(Excertos da obra 'Manual de Piedosas Meditações', autor anônimo, Barcelona)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

E ASSIM CRUCIFICARAM JUNTAMENTE A MÃE!


Diz a Sagrada Escritura que, quando se construiu o templo de Salomão, não se ouviu nunca golpe de martelo. Ah, Templo Divino, figurado naquele mesmo templo, que agora quando vos desfazem, se ouvem tantas e tão cruéis marteladas! Fazem eco pelos vales daquele monte; mas muito maior eco faziam no coração da lastimada Mãe: no corpo do Filho davam as marteladas divididas, porque umas feriam os pés, outras a mão direita, outras a esquerda; porém na Senhora todas batiam e descarregavam juntas no mesmo lugar, porque todas feriam o coração. 

Com todos os instrumentos do Calvário era martirizado o coração da Senhora e todos feriam o coração da Mãe, ainda os que não feriam o corpo do Filho; por isso Simeão chamou a todos espada: Et tuam ipsius animam pertransibit gladius. Se repararmos nos instrumentos da Paixão de Cristo, acharemos que nenhum deles foi espada: pois se na Paixão não houve espada como diz Simeão à Senhora que a espada da Paixão do seu Filho lhe trespassaria a alma? Et tuam ipsius animam pertransibit gladius

É porque todos os instrumentos que concorreram na Paixão do Filho foram espada para o coração da Mãe. Para o corpo do Filho a cruz era cruz, os cravos eram cravos, os martelos eram martelos; mas para o coração da Mãe a cruz era espada, os cravos eram espada, os martelos eram espada, porque todos penetravam nas suas entranhas, e lhe atravessavam o coração. Assim crucificavam juntamente a Mãe, os que crucificavam o Filho: e justa coisa seria, ó cristãos, que nos crucificassem também a nós, e que todos nós nos crucificássemos aqui hoje com Jesus Crucificado! Olhai o que nos diz São Paulo: Qui sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis, et concupiscentiis - os que são de Cristo, crucificaram a sua carne com todos os seus vícios, e com todos os seus apetites.

(Excertos do sermão 'Prática Espiritual da Crucifixão do Senhor', do Pe. Antônio Vieira)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

AS TRÊS VIAS E O DECÁLOGO SOBRE A PAZ

I. Em primeiro lugar, esforce-se sempre para viver em paz com Deus: 'Muita paz têm os que amam a tua lei e para eles não há tropeço' (Sl 119,165).

II. Em segundo lugar, procure encontrar paz em seu próprio coração: 'Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá' (Jo 14,27).

III. Em terceiro lugar, você deve buscar viver em paz com o seu próximo: 'Por fim, irmãos, vivei com alegria. Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco' (2Cor 13,11) e ainda 'vivei em paz com todos os homens' (Rm 12, 18).

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1. Aprende a abnegar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.

2. Não pode ficar por muito tempo em paz quem não procura ser o menor e o mais submisso de todos.

3. Acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude.

4. Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros.

5. Quem está em boa paz de ninguém desconfia.

6. Viver em paz com pessoas ásperas, perversas e mal educadas que nos contrariam, é grande graça e ação muito louvável.

7. Não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação.

8. É necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.

9. Busca a paz verdadeira do céu, não sobre a terra, não nos homens, nem nas demais criaturas, mas só em Deus.

10. Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer, maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.

(Da Imitação de Cristo, Thomas de Kempis)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (X)


Deus está, como diz o Catecismo da Igreja Católica, 'além do espaço e do tempo'. Se Deus não tivesse escolhido criar o espaço e o tempo, não existiriam tais coisas como espaço e tempo; portanto, as categorias espaciais e temporais não podem ser aplicadas à própria natureza de Deus. Deus é 'eterno' não no sentido de duração ilimitada, mas no sentido de existência atemporal. Como disse São Tomás de Aquino, Deus vive no nunc stans - 'o agora que permanece imóvel'. A passagem do tempo é o ganho constante de algumas coisas e a perda de outras; mas a plenitude e a perfeição do ser que é a natureza divina não podem perder nada do que têm, nem ganhar nada do que lhes falta, pois não há nada que lhes falte. Deus não aprende nem esquece, mas compreende todas as coisas em um ato infinito, perfeito e imutável de conhecimento e compreensão. Todas as coisas estão, portanto, 'presentes' para ele, não em um passado que ele precisa resgatar da memória, nem em um futuro que ele precisa antecipar. Como disse Santo Agostinho, Deus habita 'na sublimidade de uma eternidade sempre presente'.

Isso é difícil de compreender, porque nós mesmos somos seres mutáveis em um mundo de seres mutáveis, e nossos próprios pensamentos estão em constante fluxo. Não podemos imaginar a atemporalidade. Talvez o mais próximo que possamos chegar disso seja pensar em verdades atemporais, como as verdades da matemática. Não dizemos '2 + 2 serão 4' ou '2 + 2 eram 4'. Isso seria absurdo. Em vez disso, dizemos '2 + 2 são 4'. É assim de uma forma atemporal. A atemporalidade de Deus é um significado que os teólogos viram no nome que Deus revelou a Moisés da sarça ardente: 'EU SOU O QUE SOU' ou simplesmente 'EU SOU'. 'Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU’ me enviou a vós' (Ex 3,14). E Cristo diz de si mesmo: 'Antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8,58).

Como Deus está além do espaço e do tempo, todas as coisas, onde quer que estejam localizadas no espaço e no tempo, estão igualmente presentes para ele e ele está igualmente presente para elas e é igualmente a causa de seu ser e realidade. Ele 'sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra' (Hb 1,3). Portanto, não são apenas as coisas que existiam no início dos tempos que foram criadas por Deus. Todas as coisas que já existiram ou que existirão têm sua existência proveniente de Deus. Você está, neste momento, sendo criado por Deus, pois ele está 'sustentando' a sua existência 'pelo poder da sua palavra'.

(Excertos do artigo 'St Augustine and the Beginnning of Time', de Stephen Barr, tradução do autor do blog)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XI)

  

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VI. Sobre a Vinda do Juiz 

O que se disse até agora, ó leitor cristão, é realmente muito assustador e terrível, mas não é nada em comparação com o que estamos prestes a considerar. Pois a vinda do Juiz será tão terrível, tão assustadora, que tudo o que está no céu e na terra tremerá e se abalará. O poder e a majestade com que Ele virá estão além do poder das palavras para descrever. Para que possamos saber algo a respeito disso e sermos capazes de formar alguma concepção, o próprio Cristo predisse a sua vinda com estas palavras: 'Quando o Filho do homem vier em sua majestade, e todos os anjos com Ele, então Ele se assentará no trono da sua majestade, e todas as nações serão reunidas diante dele' (Mt 25,31-32). E novamente: 'E verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu com grande poder e majestade' (Mt 24, 30). Assim, vemos Nosso Senhor afirmar duas vezes que Ele virá nas nuvens do céu, acompanhado por todos os seus anjos e com grande poder e majestade.

Quem poderá descrever a grandeza desse poder, o esplendor dessa majestade, o número incontável dessas hostes angelicais? Ouçam o que o salmista diz sobre o assunto: 'Um fogo irá adiante dele e queimará os seus inimigos ao redor. Os seus relâmpagos brilharam para o mundo, a terra viu e tremeu. As montanhas derreteram como cera na presença do Senhor, na presença do Senhor de toda a terra. Os céus proclamaram a sua justiça e todos os povos viram a sua glória' (Sl 96,3-6). E em outro salmo lemos: 'De Sião resplandecerá o ideal da sua beleza... Um fogo arderá diante dele, e uma tempestade poderosa o envolverá” (Sl 49,2-3). O profeta Isaías também prediz a vinda do Juiz nos seguintes termos: 'Eis que o Senhor virá com fogo, e os seus carros são como um redemoinho, para manifestar a sua ira com indignação e a sua repreensão com chamas de fogo' (Is 46,15). Além disso, o próprio Cristo declara: 'Como o relâmpago vem do Oriente e se mostra até no Ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem' (Mt 24,27).

Se essa for a maneira como o Juiz virá, se chamas de fogo procederem do seu rosto, se Ele descer do céu em uma carruagem de fogo, armado com ira contra os pecadores, quem não tremerá com a sua vinda? Na verdade, todos nós vacilaremos e teremos medo. Além do terror do próprio Juiz, a visão da incontável companhia de anjos que descerá com Ele nos inspirará temor e grande alarme. Pois naquele dia nenhum anjo permanecerá no céu; todos estarão presentes como testemunhas do julgamento.

Agora, os teólogos afirmam que, no coro mais baixo dos anjos, o número de anjos é dez vezes maior do que o de todos os seres humanos que terão existido na Terra. No segundo coro, há dez vezes mais do que no primeiro, no terceiro, dez vezes mais do que no segundo, e assim por diante, de modo que o número desses seres angelicais parece infinito. Todos esses anjos, que são espíritos puros e, portanto, invisíveis à visão corporal, aparecerão então visíveis, extremamente brilhantes e gloriosos, para que também os condenados possam ver a magnificência da vinda de Cristo.

São João, em seu Apocalipse, fala assim das hostes de anjos que acompanharão o Juiz em sua vinda: 'Eu vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e aquele que estava sentado sobre ele era chamado fiel e verdadeiro, e com justiça julga e combate. E os seus olhos eram como chama de fogo, e sobre a sua cabeça havia muitas diademas ... e ele estava vestido com uma vestimenta salpicada de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus. E os exércitos que estão no céu o seguiram em cavalos brancos, vestidos de linho fino, branco e limpo. E da sua boca sai uma espada afiada de dois gumes, para que com ela possa ferir as nações. E ele as governará com vara de ferro; e pisará o lagar do vinho da ira do Deus Todo-Poderoso. E Ele tem escrito em sua vestimenta e em sua coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores' (Ap 19,11-16).

Como todos nós tremeremos, ó meu Deus, quando contemplarmos essas hostes de espíritos celestiais com seu líder real! O profeta Daniel viu uma vez um anjo e ficou tão aterrorizado com a sua aparência que caiu no chão como se estivesse morto. Se tal efeito foi produzido nele pela visão de um único anjo, cuja missão era de conforto e consolação, o que será de nós, quando tantas centenas de milhares de príncipes celestiais se aproximarem de nós com semblantes irados? São Efrém, falando sobre isso, diz: 'Os anjos estarão ali com um ar ameaçador, seus olhos brilhando com o fogo sagrado da justa indignação, despertada pelas iniquidades da humanidade'.

Agora, se a visão dos anjos, que virão para o julgamento com o Juiz Divino, é tão terrível, qual será o medo e o pavor inspirados pelo próprio Juiz, quando Ele vier com toda a ira da justiça ofendida! Assim como no Céu não há maior deleite do que a contemplação de Deus, também no Juízo Final não haverá maior dor e temor do que olhar para o Juiz irado. Antes de entrar na explicação disso, vejamos com que majestade Cristo virá para nos julgar.

A vinda de Cristo será tão terrível que nem o homem nem os anjos são capazes de descrevê-la adequadamente. Pois tudo o que é mais propício para aterrorizar o pecador será visto aqui, e nada faltará que possa realçar a majestade de Cristo. Quando um monarca faz sua entrada em uma cidade, que pompa e esplendor são exibidos ali! Melodias de música animada se misturam com o som mais solene dos sinos, saudações são disparadas, toda a população está agitada, todos esforçando os olhos para ver o monarca; primeiro vêm seus servos, depois seus conselheiros, depois os nobres da terra; por último, vem ele próprio, cercado por uma vasta multidão de pessoas.

No entanto, o que é toda essa magnificência que o mundo pode oferecer quando comparada com a majestade que acompanhará a vinda do Rei dos reis! Compare um pobre menino mendigo esfarrapado com um príncipe soberano que entra montado em uma carruagem de ouro, e teremos uma imagem fraca e insuficiente da diferença que existe entre a pompa e o esplendor deste mundo e a glória com que Cristo virá para nos julgar.

No entanto, a sua vinda não será apenas grandiosa e gloriosa além da medida, mas também será terrível em sua natureza. Se os túmulos se abriram ao som da trombeta do anjo, e o som dessa trombeta ecoou por todo o mundo, que pânico de medo tomará conta da humanidade quando os anjos que precedem o chamado triunfal de Cristo fizerem soar suas trombetas! 'O que será de nós naquele dia terrível, o Dia do Juízo Final, quando o Senhor descer com os seus anjos ao som de trombetas e toda a terra tremer de pavor?' - pergunta Santo Agostinho.

Quando Deus desceu antigamente sobre o Monte Sinai, lemos na Sagrada Escritura: 'Chegou o terceiro dia e amanheceu; e eis que se ouviram trovões, relâmpagos e uma nuvem muito densa cobriu o monte, e o som da trombeta soou muito alto, e o povo que estava no acampamento ficou com medo' (Ex 19,16). E quando todo o povo ouviu os trovões e o som da trombeta, e viu os relâmpagos e a fumaça subindo do monte, eles ficaram aterrorizados e conservava-se à distância, dizendo a Moisés: 'Fala tu conosco, e faremos tudo o que o Senhor ordenou, mas não deixes que o Senhor fale conosco, para que não morramos' (Ex 20,19).

Se tudo isso aconteceu quando Deus desceu do céu para dar a sua Lei à nação hebraica e adotá-los como seus filhos, o que você acha, ó cristão, que acontecerá quando Ele vier para exigir uma prestação de contas sobre a maneira como os seus mandamentos foram cumpridos? Se os filhos de Israel ficaram tão aterrorizados com a entrega da Lei que pensaram que morreriam de medo, que motivo não teremos nós, mortais, especialmente nós, cristãos, para tremer, já que tantas vezes transgredimos deliberadamente os mandamentos de Deus?

ORAÇÃO

Ó Deus, Juiz todo-poderoso de todos os homens, Vós descereis do Céu no Dia do Juízo Final com grande poder e majestade, para agir como justo Juiz, e o pensamento da vossa vinda me faz tremer de medo. Inspirai-me agora, eu vos imploro, um temor salutar, para que eu possa evitar o pecado e não venha a ser esmagado pela vossa santa ira. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE OS INFIÉIS E OS HEREGES

Ó santa Palavra de Deus! Ó santa Revelação! Através de ti somos admitidos nos mistérios divinos, que a razão humana nunca poderia alcançar. Nós te amamos e estamos decididos a ser submissos a ti. És tu que dás origem à grande virtude, sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 6,6); a virtude que inicia a obra de salvação do homem, e sem a qual esta obra não poderia ser continuada nem terminada. Esta virtude é a Fé.

Faz com que a nossa razão se curve à Palavra de Deus. Da sua obscuridade divina surge uma luz muito mais gloriosa do que todas as conclusões da razão, por maior que seja a sua evidência. Esta virtude será o vínculo de união na nova sociedade que Nosso Senhor está agora a organizar. Para se tornar membro desta sociedade, o homem deve começar por acreditar; que ele possa continuar a ser membro. Ele nunca deve, nem por um momento, vacilar na sua fé.

Em breve ouviremos Nosso Senhor dizer estas palavras: 'Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado' (Mc 16,16). Para expressar mais claramente a necessidade da Fé, os membros da Igreja devem ser chamados pelo belo nome de Fiéis: aqueles que não acreditam, devem ser chamados de Infiéis.

Sendo a fé, então, o primeiro elo da união sobrenatural entre o homem e Deus, segue-se que esta união cessa quando a fé é quebrada, isto é, negada; e que aquele que, depois de ter estado assim unido a Deus, rompe o vínculo, rejeitando a palavra de Deus e substituindo-a pelo erro, comete um dos maiores crimes. Tal pessoa será chamada de Herege, isto é, alguém que se separa; e os fiéis tremerão diante de sua apostasia.

Mesmo que sua rebelião à Palavra Revelada recaísse sobre apenas um artigo, ainda assim se comete uma enorme blasfêmia; pois ou ele se separa de Deus como sendo um enganador, ou insinua que sua própria razão criada, fraca e limitada, é superior à Verdade eterna e infinita. Com o passar do tempo, as heresias surgirão, cada uma atacando um ou outro dogma; de modo que dificilmente uma verdade permanecerá inatacável... 

(Excertos da obra 'O Ano Litúrgico', de Dom P. Guéranger)