Mostrando postagens com marcador Verdades Cristãs. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Verdades Cristãs. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIX)

          

PARTE III - O INFERNO

I. Sobre o fogo do Inferno

Apesar de, nos dias de hoje, muitos negarem a existência do Inferno ou, pelo menos, a eternidade do castigo, não consideramos que nos caiba apresentar uma série de provas de que existe um lugar chamado Inferno. No caso do leitor cristão, a quem este livro se destina, evidências dessa natureza são totalmente supérfluas, pois ele não terá naufragado em sua fé. De fato, que outras provas podem ser necessárias para a existência do Inferno e a eternidade do castigo, visto que os profetas, o próprio Cristo, os apóstolos e os Padres da Igreja, e até mesmo os turcos e os pagãos, falam disso como um fato inquestionável? Aqueles que negam a existência do Inferno devem, consequentemente, ser contados entre os tolos que dizem em seu coração que não há Deus que castigue as suas más ações.

Seria, sem dúvida, muito agradável para essas pessoas se tudo terminasse com esta vida, se não houvesse dia do Juízo Final ou se, pelo menos, as regiões infernais fossem um pouco menos intoleráveis. Isso explica por que se agarram a quaisquer argumentos aparentes com os quais se iludam e adormeçam seu medo dos castigos eternos do Inferno. Não entraremos em qualquer análise dos sofismas miseráveis com os quais esses tolos se enganam; pois o ensinamento da Igreja Católica sobre este ponto é tudo o que precisamos. Ela ensina que há um lugar ou estado de dor inigualável e sem fim reservado para os condenados.

Sabemos que realmente há fogo no Inferno, pelas palavras que Cristo dirigiu aos ímpios: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos' (Mt 25,41). Isso mostra que há fogo real no Inferno e que nele os condenados devem arder eternamente. Qual será a intensidade dessa dor está além do poder do homem descrever. Pois, de todos os variados tipos de sofrimento físico a que o homem pode ser submetido, não há nenhum tão grande, tão cruel, tão agonizante quanto aquele causado pelo fogo. Suplícios ou a amputação dos membros de um homem são exemplos de torturas terríveis, mas não se comparam à dor da queimadura. Basta tocar um ferro em brasa para sentir que dor excruciante isso causa! Em um instante a pele se desprende, a carne viva se expõe, sangue e matéria escorrem da ferida, e a dor penetra até a medula dos nossos ossos. Não se pode evitar gritar e urrar como se tivéssemos perdido os sentidos. Ora, se o contato momentâneo com o ferro em brasa causa dor tão aguda, como seria se tivéssemos de segurar um ferro em brasa por algum tempo!

Agora, imagine que você fosse condenado a ser queimado vivo por seus pecados e, durante um dia inteiro, permanecesse em meio às chamas, incapaz de morrer. Como chorarias e gemerias lastimosamente, como gritarias e rugirias alto em tua agonia, de modo que os gritos de partir o coração arrancados de ti pela tortura que suportas não apenas fariam os espectadores estremecerem, mas os encheriam de sincera compaixão. Aquele homem deveria ter, de fato, um coração de pedra para suportar olhar impassível tal espetáculo.

Em pouco tempo, tu serias queimado a tal ponto que não serias mais reconhecível, reduzido à aparência de uma brasa incandescente. Agora, reflete, ó cristão: se a ação do fogo terreno causa agonia tão intolerável, qual será a tortura do fogo do Inferno, cujo calor é incomparavelmente mais intenso e penetrante do que o de qualquer fogo com o qual estamos familiarizados? E se perguntares por que o fogo do Inferno deve exceder tanto o fogo terreno na intensidade de seu calor, há várias razões que explicam esse fato.

Em primeiro lugar, todos sabem que quanto maior o fogo, maior o calor que ele exala. A chama de uma vela de cera não é muito quente, mas se a vela inteira estiver queimando de uma só vez, a chama que dela se eleva é muito mais quente. Quando uma casa está em chamas, o calor nas imediações é muito intenso, mas se uma aldeia inteira estiver em chamas, o calor da conflagração torna-se insuportável mesmo à distância. Se tal é o efeito produzido pelo fogo da terra, que é comparativamente pequeno em sua extensão, qual será a ação do fogo do Inferno, que é incomensuravelmente maior do que qualquer incêndio visto na terra!

Em segundo lugar, um fogo confinado em uma fornalha arde com muito mais intensidade do que se estivesse ao ar livre, porque o calor, ao estar confinado, não pode escapar nem se difundir, nem ser atenuado pelo ar circundante. Se assim é, com que fúria as chamas da imensa fornalha do Inferno irão arder, com que intensidade irão brilhar! Suponha-se uma desgraça como a de um homem ser lançado em um forno de cal, ou em uma fornalha aquecida até ficar incandescente: quão terríveis seriam seus sofrimentos!

A razão seguinte pela qual o fogo do Inferno supera em intensidade de calor todos os outros fogos é que ele é aceso pelo sopro de Deus. Pois o profeta Isaías diz: 'Vede! É o nome do Senhor que vem de longe, sua cólera é ardente, uma nuvem pesada se levanta, seus lábios respiram furor, e sua língua é como um fogo devorador. Seu sopro assemelha-se a uma torrente transbordante cuja água sobe até o pescoço. Ele passará as nações no crivo destruidor' (Is 30,27-28). E ainda: 'um lugar de incineração está preparado também para Tofet [inferno], cavado, profundo e largo; palha e lenha ali há em quantidade, e o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, o acenderá' (Is 30,33).

Que descrição terrível é aqui dada do Inferno e de seu fogo torturante. Não digam que, nessas e em outras passagens conhecidas da Sagrada Escritura, as expressões empregadas são meras figuras de linguagem, pelas quais os profetas predisseram os julgamentos divinos prestes a recair sobre as nações pecadoras, e que não devem ser tomadas em sentido literal, como se referindo ao Inferno e às suas punições. Não nos iludamos. Essas imagens devem, é verdade, ser entendidas, em seu significado primário, como indicando a condenação das nações pecadoras; mas, num sentido mais amplo e elevado, de acordo com a interpretação que lhes dão os exegetas das Escrituras, são previsões do castigo judicial que, após o Juízo Final, será a sorte dos pecadores réprobos.

Santa Brígida afirma com razão em suas revelações: 'O calor do fogo do Inferno é tão grande que, se o mundo inteiro estivesse envolto em chamas, o calor de tal incêndio seria como nada em comparação com ele'. Daí aprendemos que aquele fogo terreno não tem mais semelhança com o fogo do Inferno do que a fraca chama de uma vela de cera com o calor branco de uma fornalha incandescente. Lembre-se disso, ó pecador, e leve tudo em alta consideração! São Agostinho nos diz que o fogo mais temível da terra é, em comparação com o fogo do Inferno, como uma pintura de fogo comparada a um fogo real. Quando vires um fogo, lembra-te do fogo do Inferno. E já que não suportarias colocar a mão por um único instante nesse fogo, pensa em como deve ser o calor do fogo do Inferno, que supera infinitamente o pequeno fogo que vês diante de ti. Se não consegues suportar isto, como poderás suportar o outro? 

Ficou agora claro que os condenados serão um dia lançados, de corpo e alma, na enorme e terrível fornalha do Inferno, no imenso lago de fogo, onde estarão rodeados por chamas. Haverá fogo abaixo deles, fogo acima deles, fogo por toda a parte à sua volta. Cada respiração será o sopro escaldante de uma fornalha. Essas chamas infernais penetrarão em cada parte do corpo, de modo que não haverá parte ou membro, por dentro ou por fora, que não esteja mergulhado no fogo.

Quão desesperados serão os gritos, quão agonizantes os gemidos que subirão deste abismo de tortura! 'Ai de nós, criaturas miseráveis! Ai de nós mil vezes! Estamos sendo torturados nesta chama! A dor excruciante permeia cada membro do nosso corpo; a agonia intolerável não nos deixa descanso! Se ao menos pudéssemos morrer, se ao menos pudéssemos morrer para escapar desta tortura terrível! Ai de nós, este desejo é em vão! Mortos no que diz respeito à vida da alma, mortos porque perdemos a graça, a misericórdia de Deus, estamos ainda condenados a viver, a viver para todo o sempre! Que privilégio seria para nós a morte, a aniquilação! Mas ela nos escapa; não podemos mais esperar que venha para nos libertar desta miséria, desta tortura, da fornalha do Inferno. Ai de nós, quão grande foi a nossa loucura! Por prazeres fúteis de um momento, incorremos nesta miséria intolerável, uma miséria que perdurará por toda a eternidade'.

'Compreendei bem isto' - diz Davi - 'vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve' (Sl 49,22). Escuta isto, ó pecador, e deixa que as lamentações dos perdidos te sirvam de lição. Imagina para ti mesmo a fossa de fogo na qual essas criaturas miseráveis têm de expiar os seus pecados. Tu aceitarias, perguntamos novamente, por qualquer quantia de dinheiro, por maior que fosse, passar um único dia imerso nessas chamas? Não, nem por todo o mundo tu aceitarias permanecer naquele fogo por uma única hora. Se assim é, por que, em nome de algum prazer pecaminoso, de algum ganho injusto, tu te lanças voluntariamente para sempre no fogo do inferno? Ó que loucura, que loucura consumada! Que Deus conceda que esses pecadores cegos sejam iluminados, para que tomem consciência da imprudência de sua conduta e se dediquem a tempo às coisas que dizem respeito à sua salvação.

ORAÇÃO

Ó Deus de justiça! Quão grande é a vossa ira e quão todo-poderoso é o vosso ódio ao pecado e ao pecador! Ai de mim e de todos aqueles que têm a terrível infelicidade de cometer pecado mortal. Que Deus me preserve de tal pecado, que seria o meio de me lançar na perdição eterna. Sofrirei de bom grado todas as coisas, as maiores tribulações temporais, as dores mais agudas, até mesmo a morte mais cruel, de modo a escapar do tormento eterno no Inferno. Este é o meu firme propósito; por isso, concedei-me a vossa graça e fortalecei-me nesta minha boa resolução.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

OS DEZ MANDAMENTOS DAS PRÁTICAS DA HUMILDADE

I

Abre os olhos da tua alma e pensa que nada tens para te mover a alguma estima de ti. De teu só tens o pecado, a debilidade, a fraqueza; e quanto aos dons da natureza e da graça que estão em ti, assim como os recebeste de Deus, que é o princípio de todo ser, assim só a Ele deves dar glória.

II

Concebe por isso um profundo sentimento do teu nada, e fá-lo crescer constantemente no teu coração, apesar do orgulho que existe em ti. Intimamente, persuade-te de que não há no mundo coisa mais vã e ridícula que o desejo de ser estimado por alguns dons que recebemos da gratuita liberalidade do Criador, pois, como diz o Apóstolo, se os recebeste, por que te glorias como se fossem teus, e não os tivesses recebido? (1Cor 4,7).

III

Pensa frequentemente na tua fraqueza, na tua cegueira, na tua vileza, na tua dureza de coração, na tua inconstância, na tua sensualidade, na tua insensibilidade para com Deus, no teu apego às criaturas e em tantas outras viciosas inclinações que nascem da tua natureza corrompida. Sirva-te isto de grande motivo para te espantares continuamente no teu nada, e seres aos teus olhos o menor e o mais vil de todos.

IV

A memória dos pecados da tua vida passada esteja sempre impressa no teu espírito. Nenhuma outra coisa consideres tão abominável como o pecado da soberba, o qual, posto em comparação, vence qualquer outro, tanto sobre a terra como no inferno: este foi o pecado que fez prevaricar os anjos no Céu e os precipitou nos abismos; este foi o que corrompeu todo o gênero humano, e que fez cair sobre a terra aquela infinita multidão de males, que durarão enquanto durar o mundo, ou, melhor dizendo, durarão toda a eternidade.

Ademais, uma alma maculada pelo pecado só é digna de ódio, de desprezo e de suplícios; vê, portanto, que estima podes fazer de ti mesmo, depois de tantos pecados dos quais te tornaste culpado.

V

Considera também que não há delito, por enorme e detestável que seja, ao qual não se incline a tua natureza corrompida, e do qual não possas fazer-te réu; e que só pela misericórdia de Deus e pelo socorro das suas divinas graças foste dele livre até hoje, segundo aquela sentença de Santo Agostinho: 'Não haveria pecado no mundo que o homem não cometesse, se a mão que fez o homem deixasse de sustentá-lo (Arl. C. 15). Chora eternamente esse deplorável estado e toma a firme resolução de te incluíres entre os mais indignos pecadores.

VI

Pensa frequentemente que cedo ou tarde vais morrer e que o teu corpo apodrecerá numa fossa; tem sempre diante dos olhos o inexorável tribunal de Jesus Cristo, onde todos necessariamente devem comparecer; medita nas eternas penas do inferno preparadas para os maus, e principalmente para os imitadores de Satanás, que são os soberbos. Considera sinceramente que, por esse véu impenetrável que esconde aos olhos mortais os juízos divinos, estás na incerteza de pertencer ou não ao número dos réprobos, que eternamente, em companhia dos demônios, serão remetidos para aquele lugar de tormentos, para serem vítimas eternas de um fogo aceso pela ira divina. Esta incerteza deve bastar por si só para conservar-te numa extrema humildade e para inspirar-te o mais salutar temor.

VII

Não te iludas pensando que poderás conseguir a humildade sem aquelas práticas que a ela estão ligadas, como os atos de mansidão, de paciência, de obediência, de ódio contra ti, de renúncia ao teu sentimento e às tuas opiniões, de arrependimento dos teus pecados e outros atos semelhantes, porque somente estas armas poderão vencer em ti o reino do amor-próprio, aquele abominável terreno onde brotam todos os vícios, onde se aninham e crescem desmedidamente o teu orgulho e a tua presunção.

VIII

Tanto quanto possível, observa o silêncio e o recolhimento, desde que isso não cause prejuízo a outrem, e, quando fores obrigado a falar, fala sempre com gravidade, com modéstia e simplicidade. E se por acaso não fores ouvido, seja por desprezo ou por qualquer outra causa, não te mostres ressentido, mas aceita essa humilhação e sofre-a com resignação e tranquilidade.

IX

Com todo o cuidado e atenção, evita proferir palavras atrevidas, orgulhosas e que indiquem pretensão de superioridade, como também qualquer frase estudada e toda a sorte de gracejos frívolos; cala sempre tudo aquilo que puder fazer com que te considerem uma pessoa de espírito e digna da estima dos outros. Nunca fales de ti sem justo motivo e nada digas que possa granjear-te honra e louvor.

X

Cuida-te de não mortificar e ferir a outrem com palavras e sarcasmos; foge de tudo o que lembra o espírito mundano. Fala pouco das coisas espirituais e não o faças em tom magistral e à maneira de repreensão, a não ser que a isso sejas obrigado pelo teu cargo ou pela caridade: contenta-te com interrogar os que delas entendem e que sabes que te podem dar conselhos oportunos; porque o querer fazer-se de mestre sem necessidade é acrescentar lenha ao fogo da nossa alma, que se consome em fumaça de soberba.
(Papa Leão XIII)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVIII)

         

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XIII. Como os bem aventurados serão levados ao Céu após o Juízo Final 

Quando a terra se abrir e engolir as almas dos condenados, então os anjos e os bem-aventurados exultarão e se alegrarão. Eles exaltarão a justiça de Deus e confessarão que os réprobos mereceram plenamente o seu destino. São João, em seu Apocalipse, oferece uma bela descrição de como os bem-aventurados se alegrarão e glorificarão a justiça de Deus.

Vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios... porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribuí-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos... Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa' (Ap 18,1-2.5-7.20).

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos'. Depois recomeçaram: 'Aleluia! Sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos'. Então, os vinte e quatro Anciãos e os quatro Animais prostraram-se e adoraram a Deus que se assenta no trono, dizendo: 'Amém! Aleluia!'. Do trono saiu uma voz que dizia: 'Cantai ao nosso Deus, vós todos, seus servos que o temeis, pequenos e grandes'... 'Aleluia! Eis que reina o Senhor, nosso Deus, o Dominador!' Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada... 'Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro' (Ap 19,1-7.9).
 
Essas palavras, de fato, apresentam uma perspectiva maravilhosa. Quão excelente não será o canto de triunfo dos santos quando entrarem como convidados nas bodas do Cordeiro! Quão em regozijo cantarão Aleluia! Quão fervorosamente agradecerão a Deus por tê-los livrado da condenação eterna e por tê-los contado entre os seus eleitos!

A ascensão ao Céu ocorrerá em seguida. Será que alguém ousa descrever isso também? As mais doces melodias encherão o ar. São Miguel liderará a gloriosa procissão, carregando a cruz na qual Cristo morreu. Pois a cruz e todos os outros instrumentos da Paixão serão preservados no Céu - pelo menos essa é a opinião de vários teólogos eruditos. Seguindo essas relíquias sagradas, virá o primeiro coro de Anjos, juntamente com aqueles membros da companhia dos salvos a quem a sentença de Cristo designou um lugar no mais baixo dos coros angélicos. As crianças que morreram na infância e as almas que persistiram no pecado até o fim, mas que foram salvas pela infinita misericórdia de Deus e pelo verdadeiro arrependimento de sua parte, estarão com o primeiro coro de anjos. Com que fervor elas louvarão seu Deus por sua compaixão indescritível!

Em seguida virá o coro dos arcanjos, e com eles os santos que mereceram um lugar neste segundo coro angelical. Casais tementes a Deus, viúvas devotas, além de outras pessoas piedosas que viveram no mundo, adornadas com maravilhosa beleza, louvarão e glorificarão a Deus junto com os arcanjos. Em terceiro lugar virá o coro das potências, entre os quais estarão todos os sacerdotes que levaram uma vida santa na terra. Em seguida, virá o coro dos principados, com todos os bispos e prelados santos que governaram a Igreja para a glória de Deus e a salvação daqueles que lhes foram submetidos.

O coro das virtudes virá em quinto lugar, com os doutores da Igreja e todos aqueles que, por meio de sua doutrina e pregação, converteram os incrédulos e os conduziram ao conhecimento da verdadeira fé. Em sexto lugar, virá o coro das dominações, com os confessores que sofreram grande perseguição pela fé e morreram na miséria e na indigência por amor a Cristo. O coro dos tronos seguirá em seguida, com os santos mártires que derramaram o seu sangue e de bom grado entregaram suas vidas pelo nome de Cristo.

O oitavo coro é o dos querubins, entre cujas fileiras estarão aquelas santas virgens que não apenas mantiveram sua castidade imaculada, mas que, consumidas pela caridade divina, levaram uma vida de altíssima perfeição. O nono e mais elevado dos coros angélicos é o dos serafins. Com eles estarão os santos apóstolos e servos de Cristo, que, seguindo os passos do Redentor, viveram na terra uma vida semelhante aos anjos. Em suma, a cada um dos bem-aventurados será designado o seu lugar em qualquer um dos coros angélicos cuja companhia suas virtudes o tornem mais adequado.

Quão gloriosa será a procissão dos coros, e quão melodiosos serão os cânticos celestiais que entoarão! As palavras nos faltam quando tentamos descrevê-la. E para encerrar o cortejo triunfal, virá o Rei do Céu e da terra, coroado de esplendor, Cristo, o Filho primogênito do Pai celestial, acompanhado por sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria. Ele estará rodeado de tal beleza e majestade que o Céu e a terra, e os Anjos e os homens, ficarão maravilhados. De fato, essa ascensão ao Céu será, em todos os aspectos, acompanhada de tal grandeza e glória, será tão inexprimivelmente sublime e bela, que nem mesmo os lábios de um Anjo conseguiriam dar sequer uma ideia do que poderia ser.

Considerai qual não será o êxtase dos redimidos quando se elevarem no ar, tanto em alma quanto em corpo, como se fossem espíritos puros, subindo cada vez mais alto, além dos orbes resplandecentes do Céu com seu brilho dourado, aproximando-se cada vez mais da Jerusalém celestial, a cidade de Deus. Que alegria indescritível os embriagará quando entrarem pelos portões dourados e contemplarem o esplendor e a magnificência da cidade de Deus. Quando a Rainha de Sabá viu a magnificência do palácio de Salomão, ficou sem palavras de espanto. Mas ali está alguém maior do que Salomão, e a majestade e a beleza do palácio do Rei dos reis serão infinitamente maiores do que as de qualquer monarca terreno. Daí podemos supor qual será o êxtase bem-aventurado dos abençoados, quando lhes for concedido contemplar o que Deus preparou para aqueles que o amam.

Não desejas, ó piedoso cristão, habitar com os redimidos e desfrutar das delícias indescritíveis da cidade de Deus, a Jerusalém celestial? Certamente que o desejas. Todos nós temos dentro de nós um impulso poderoso, um anseio ardente por felicidade e alegria. Não busques essa felicidade, não te esforces para garantir a alegria pela qual tua alma anseia neste vale de lágrimas. Levanta os teus olhos para a terra que está acima, que essa seja a tua meta, e um dia subirás às alturas com cânticos de júbilo. Que Deus conceda a ti e a mim que, por sua graça, esse destino feliz seja a nossa parte.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 21 de abril de 2026

QUANDO DEUS PUNE OS ÍMPIOS NESTA VIDA

A Providência Divina governa este mundo de tal maneira que não pune todos os ímpios nesta vida, mas não deixa de punir muitos deles. Se Deus punisse a todos, as pessoas poderiam imaginar que tudo acabou nesta vida, não restando nada para a próxima; e se Ele não punisse ninguém, poderiam imaginar que não há Providência para governar os assuntos humanos. Portanto, a Sabedoria Divina (que dirige todas as coisas para o bem de suas criaturas) pune algumas coisas severamente nesta vida, para que as pessoas vejam que a Providência existe (especialmente aquelas coisas tão extremas que elas mesmas clamam a Deus e imploram por vingança) e deixa outras impunes, para que entendamos que Ele reserva o seu castigo para a vida futura e que nem tudo se resolve nesta vida terrena.

Isso pode ser confirmado para alguns dos imperadores que perseguiram a Igreja, que receberam ainda aqui o que lhes era devido, particularmente durante a chamada Era dos Mártires. Assim, a divina Providência resplandece maravilhosamente, usando tiranos como ministros e instrumentos para estabelecer a Fé da sua Igreja com o sangue dos mártires e para adornar o Céu com esse glorioso exército. Pois se não houvesse tiranos, não haveria mártires; se não houvesse Décio, não haveria Lourenço. Se não houvesse Deciano, não haveria Vicente; e se não houvesse Herodes, não haveria mártires inocentes. Neste sentido, muitos reis e imperadores que martirizaram os santos da Igreja tiveram fins trágicos.

Herodes, para matar o Menino Jesus, matou os Inocentes, teve doença e morte foram terríveis;  após ter os olhos saltado das órbitas, em um banho, desesperado, apunhalou o próprio peito e se matou, depois de ter ordenado a morte do terceiro de seus filhos, após já ter matado dois deles (Antiguidades Judaicas, Flávio Josefo, Livro 16, Capítulo 13).

O segundo Herodes, que decapitou Tiago e aprisionou São Pedro, foi ferido por um anjo e morreu devorado vivo por vermes, como o próprio Josefo e São Lucas relatam. O terceiro perseguidor da Igreja (Idem, Livro 19, Capítulo 7, Atos 12) foi Nero (que martirizou São Pedro e São Paulo). Vendo que não podia escapar dos conspiradores que buscavam matá-lo, livrou-os dessa tarefa suicidando-se. O quarto, Domiciano, que exilou São João Evangelista, foi morto pelos seus próprios homens.

Valeriano, um cruel perseguidor da Igreja, foi derrotado em batalha pelo rei dos persas, que o capturou, ordenou que lhe arrancassem os olhos e o usou como apoio para os pés quando cavalgava. Aureliano foi morto pelos seus próprios homens. Décio, que martirizou São Lourenço, foi morto junto com seus filhos.

Diocleciano, a besta mais cruel, que se fez venerar como um deus, caiu em tamanha perdição e loucura que foi forçado a abandonar a Coroa e o Cetro e viver como um homem comum. Maximiano, seu companheiro, também o abandonou e viveu como ele; e mesmo assim, não lhe foi permitido viver, pois Maxêncio, seu filho, que queria tomar o Império, o expulsou de Roma. De lá, fugiu e buscou a proteção de Constantino, seu genro. E, sendo nobremente recebido por ele, tramou uma traição contra o imperador. Isso foi descoberto, e por isso foi punido com a morte, a desonra e a infâmia. Suas estátuas e medalhas foram ordenadas a serem destruídas onde quer que estivessem, e os nomes dos estabelecimentos públicos que levavam seu nome foram ordenados a serem mudados. 

Maxêncio, seu filho, herdeiro dos vícios e da crueldade do pai, morreu por um milagre especial e pela vontade divina. Porque, tendo construído uma ponte falsa sobre um rio perto de Roma, para que o imperador Constantino, ao chegar, afundasse no rio, este, como que num acesso de loucura, esquecendo-se do que havia tramado, colocou os pés sobre o cavalo e, atravessando a ponte, caiu e se afogou.

Maximino, também um dos mais cruéis perseguidores da Igreja, foi derrotado em batalha pelo próprio Constantino e escapou fugindo de seu exército para o meio dos aguadeiros. Portanto, indignado com os adivinhos que lhe prometeram a vitória, ordenou que fossem mortos. E por essa afronta, Deus o castigou com uma doença gravíssima, com suas entranhas inchando e apodrecendo; e em seu peito surgiu uma ferida que, pouco a pouco, se espalhou por todo o seu corpo, além das outras feridas que já tinha, das quais jorravam vermes. E com eles exalava um odor tão terrível que ninguém, nem mesmo os cirurgiões, conseguia se aproximar dele. E vendo que seus médicos não conseguiam curá-lo nem lhe fazer nenhum bem, mas, ao contrário, fugiam dele por causa de seu odor abominável, ordenou que muitos deles fossem mortos. Finalmente, perdendo a visão e compreendendo melhor a feiura de seus sofrimentos, pôs fim à sua vida perversa com uma morte dolorosa.

Licínio, que governou no Oriente na época de Constantino, que perseguiu a Igreja não menos cruelmente que seus predecessores, insurgindo-se contra Constantino, também foi morto por ele em batalha.

Depois disso, Juliano, o Apóstata (que, com outras novas artes, travou uma guerra ainda mais cruel contra a Igreja), pôs fim ao seu império e à sua vida em poucos dias, morrendo na guerra contra os persas, deixando seu exército em grande perigo; nem seus deuses, nem seus adivinhos e encantadores, em quem depositava toda a sua confiança, puderam lhe valer qualquer proveito.

Valente, o Ariano, um grande perseguidor dos católicos, foi derrotado pelos godos em batalha; e, quando escondido em uma cabana, esta foi incendiada e assim ele morreu, como mereciam os seus atos.

Esses foram os fins e destinos crueis de muitos daqueles que pegaram em armas contra a religião cristã e isso constitui um argumento considerável a favor da verdade e da santidade da Igreja.

(Excertos da obra Introdução ao Símbolo da Fé', do Frei Luís de Granada, Espanha, 1730)

sábado, 18 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVII)

        

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XII. Como os condenados lamentarão e serão lançados no inferno

Sabemos, pelo testemunho das próprias palavras de Cristo que, aos condenados, será permitido falar com Ele, depois de terem recebido sua sentença. Então (isto é, após a sentença ter sido pronunciada), Ele nos diz: 'Eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te servimos? (Mt 25,44).

Quando as almas perdidas perceberem que não há mais nenhum resquício de esperança de que sua terrível sentença de condenação possa ser atenuada, elas, em seu desespero, proferirão horríveis imprecações: 'malditos sejam os pais que nos deram à luz; malditos sejam todos aqueles que nos levaram ao pecado; malditos sejam todos os homens que viveram conosco nesta terra; maldito seja Aquele que nos criou; maldito seja o sangue de Cristo, com o qual fomos redimidos; malditos sejam todos os santos de Deus!'

O que fará o Juiz Divino quando os ouvir injuriar a Deus dessa maneira chocante? Quando Ele próprio, diante do conselho judaico, reconheceu que era o Filho de Deus, o sumo sacerdote Caifás rasgou suas vestes e clamou em alta voz: 'Ele blasfemou; agora que ouviram a blasfêmia, o que pensam?' E o povo, respondendo, disse: 'Ele é digno de morte'. A mesma cena se repetirá agora, só que será mil vezes mais terrível. Quando Cristo ouvir essas blasfêmias, Ele exclamará, em santa indignação: 'Eles blasfemaram contra Deus, amaldiçoaram a mim e aos meus santos! Vocês mesmos ouviram, agora o que pensam?' Então, todos os anjos e santos responderão: 'Eles são dignos da morte eterna, das dores eternas do inferno! Levai-os para o lugar do tormento, levai-os para o fogo eterno!'

Então se cumprirá o que está predito no livro da Sabedoria: 'O Juiz Divino tomará o zelo como sua armadura e armará a criatura para a vingança dos seus inimigos. Ele vestirá a justiça como couraça e tomará o verdadeiro julgamento em vez de um elmo. Ele tomará a equidade como escudo invencível e afiará a sua ira severa como lança, e o mundo inteiro lutará com Ele contra os insensatos. Então, raios sairão diretamente das nuvens, como de um arco bem tensionado. Serão disparados e voarão em direção ao alvo. E granizo espesso será lançado sobre eles pela ira que lança pedras; as águas do mar se enfurecerão contra eles, e os rios correrão juntos de maneira terrível. Um vento poderoso se levantará contra eles e, como um redemoinho, os dividirá; e a sua iniquidade transformará toda a terra em um deserto, e a maldade derrubará os tronos dos poderosos' (Sb 5,18-24).

Com estas palavras terríveis, a Sagrada Escritura, o livro da verdade eterna, descreve a sagrada indignação com que o Juiz supremo castigará os condenados enquanto ainda estiverem na terra. Todos os elementos - trovões, relâmpagos, tempestades de granizo, as ondas furiosas do oceano, redemoinhos e tempestades - enfim, todos os poderes da natureza tornar-se-ão instrumentos para executar a vingança de Deus sobre aqueles que se rebelaram contra Ele, contra os miseráveis abandonados cuja existência na terra tem sido uma longa e terrível afronta ao seu Criador. Pois, em suas palavras e obras, blasfemaram contra Ele, o Deus de infinita santidade, poder e bondade amorosa. Ofenderam deliberadamente o Criador e Mantenedor do reino da natureza; por isso, toda a natureza se levantará contra eles em vingança.

Agora, quando Cristo derramar sobre esses seres infelizes toda a fúria das forças da natureza em sua raiva vingativa e primitiva, a terra se abrirá sob seus pés, e eles, juntamente com todos os demônios, serão engolidos. São João, no Apocalipse, diz: 'E um anjo poderoso pegou uma pedra, como que uma grande mó, e a lançou no mar, dizendo: com tal violência como esta será derrubada Babilônia, a grande cidade, e não será mais encontrada' (Ap 18,21). Não significam estas palavras proferidas pelo Anjo que todas as almas perdidas descerão ao inferno com o ímpeto de uma pedra de moinho que afunda até o fundo do abismo de águas para o qual é lançada? Ó terrível queda dos condenados! Quem pode pensar nisso sem estremecer! Ai daqueles para quem ela está preparada; melhor teria sido para eles nunca terem nascido! Assim serão precipitados e o inferno abrirá, como um dragão feroz, suas mandíbulas para devorá-los e os engolirão, conforme a profecia de Isaías: 'Por isso, o inferno se alargará e abrirá desmesuradamente a boca. O esplendor de Sião e sua multidão barulhenta, seu alvoroço e sua alegria nele desaparecerão' (Is 5,14). 

Quem pode retratar o desespero dos condenados, a fúria com que, no abismo profundo e sombrio do inferno, procurarão, em sua raiva, rasgar-se e dilacerar-se entre si? Que palavras podem descrever os uivos e gemidos que ecoarão por aquele lugar de tormento? Está além do poder do homem conceber. Pois se a Sagrada Escritura nos diz que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem ainda subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam, não se poderá também dizer que o homem não pode formar qualquer ideia do que Deus preparou para aqueles que tão frequentemente, tão deliberadamente, o insultaram? E se as alegrias do Céu superam toda a nossa capacidade de descrição, não serão também os tormentos do inferno inconcebivelmente inimagináveis?

Reflita sobre isso, ó leitor, reflita com frequência, e não desperdice a tua vida em prazeres fúteis, mas procura salvar a tua alma. Clama a Deus com todo o fervor do teu coração e implora que Ele te conceda uma sentença favorável no dia do Juízo Final, dizendo em oração fervorosa.

ORAÇÃO

Deus justíssimo e Juiz de todos os homens, muitas vezes e gravemente eu vos ofendi e nada tenho a esperar da vossa justiça senão castigo severo. No entanto, eis que vos confesso as minhas faltas; delas me arrependo e abomino, propondo firmemente, a partir de agora, ser-vos sempre fiel. Por isso, suplico-vos, pela vossa infinita misericórdia, que eu seja perdoado dos meus pecados, livrado da morte que condena e me torne merecedor da felicidade eterna. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

A FONTE DA INFINITA MISERICÓRDIA

 

Alma necessitada de misericórdia,
seja quem for e onde quer que esteja,
saiba que todas as riquezas da Divina Misericórdia
estão prontas para você, contidas e ofertadas,
no Santíssimo Sacramento do Altar.

Caminhe até o sacrário,
ou procure a custódia que exibe o Corpo de Cristo,
– um banquete para os seus olhos –
e  adore ali o mistério da Divina Misericórdia.
Abra por inteiro o seu coração, 
na plenitude da disposição interior, 
para acolher a poderosa torrente de Misericórdia
destinada a você e, por meio de você, 
àqueles cujas dores e fraquezas
você escolheu ou lhes foi dado suportar.

Adore o Sangue e a Água que, ainda agora,
jorram do Lado Sagrado
com uma frescura e uma pureza que nunca envelhecem.
Adore os dons do Espírito Santo
e anseie recebê-los hoje e sempre, 
como a Alma da tua alma,
ou seja, a própria Vida da tua vida.
A Fonte da Divina Misericórdia
está escondida no Sacramento do Altar.

Perto da Fonte Eucarística,
você encontrará Maria, a Mater Misericordiae.
Ela nunca se cansa de comunicar às almas
a abundância da Divina Misericórdia.
Tão próxima está ela da Fonte,
que é como se ela e a Fonte fossem uma coisa só:
tudo o que jorra da Fonte passa por ela,
e está em seu poder direcionar o fluxo da Divina Misericórdia
para quem ela quiser.
O seu Filho confia tanto em seu Coração maternal
que lhe confiou tudo,
permitindo-lhe dispensar livremente da sua Misericórdia para com as almas.

Alma devotada à Divina Misericórdia,
adore Aquele que está presente como Misericórdia
no Sacramento do Altar.
A Divina Misericórdia entra no mundo pelo Santíssimo Sacramento,
pois nele está o Coração de Jesus, a fonte da sua Misericórdia,
e seu Lado traspassado, a fonte da Divina Misericórdia,
a porta pela qual a Divina Misericórdia entra no universo
e espraia abundantemente sobre as almas
para purificá-las, santificá-las e glorificá-las.

Alma submersa em misérias,
se deseja experimentar a Divina Misericórdia,
aproxime-se da Presença Eucarística do Transpassado;
permanece na luz do seu Rosto Eucarístico;
mantenha-se recolhido e confiante diante do seu Lado Aberto.
Ali, você nunca será decepcionado em sua esperança.
Pois com Ele está a Misericórdia e a redenção abundante,
e Ele perdoará todos os seus pecados.
Cada tabernáculo que abriga o seu adorável Corpo e Sangue
coloca à sua disposição e a de todos os seus filhos,
a Fonte da infinita Misericórdia de Deus.

(A Inesgotável Misericórdia de Deus, do site Vultus Christi)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A SANTIFICAÇÃO DA MATERNIDADE

Contemplei durante muito tempo, na célebre abadia de Melk, à beira do Danúbio, as pinturas da abóbada que representam a fé, a esperança e a caridade. São três mulheres: a fé traz a cruz e o cálice, a esperança a âncora de salvação, a caridade é uma mãe rodeada de filhos - um ·deles abraça-a, o outro beija-a e o terceiro brinca ao seu lado... Todas as aspirações da mulher encontram na família a sua mais bela plenitude.

O cetro do mundo pertence a quem pode dar a vida a um novo ser e, por isso, podem as mulheres olhar com desdém para o grandioso edifício de São Pedro de Roma ou qualquer outra construção tão impressionante como essa. Elas trouxeram ao mundo algo de mais senhorial e mais belo: o templo para uma alma imortal! A mulher trabalha no lar, mas o seu silencioso labor reflete-se em todo um povo. Transmite todo o tesouro da cultura aos filhos e aos netos, edifica o futuro e não só o futuro terreno; já que a sua ação penetra na eternidade até ao coração de Deus. 

Sem ela não há família, sem ela não há pátria. Sem ela perder-se-iam as fontes mais ricas da energia da humanidade; sem ela desapareceriam a bondade, o amor e a compaixão. É o humilde cajado em que se apoia o homem, cansado de peregrinar pelos poeirentos caminhos da vida. É o soldado desconhecido do contínuo dia a dia. A mão que embala uma criança, guia o leme do mundo e tudo quanto no mundo vive e morre, teve a sua origem numa mulher.

'O homem vem à vida através da mulher' - diz São Paulo e, por isso, nas obras dos homens sempre se vislumbra a imagem de uma mulher. O homem pode encontrar-se numa situação elevada e brilhante, de destaque perante a história, ou numa profunda obscuridade. A mulher, como imagem do valor eternamente duradouro, vai criando no silêncio vidas novas, traça-lhes o caminho e deita a semente num campo que nunca foi lavrado. 

Nos traços da mãe está impressa a face do povo que há de vir. Uma moça, pouco depois de ser mãe, dizia-me: 'A passagem da mulher para mãe é mais importante que a passagem de adolescente para mulher'. Na maternidade, encontra a sua solução esse problema premente e angustiante que tantas sombras projeta nos dias da juventude, o problema da aparição do amor e da mútua harmonia dos amores. O matrimônio serve para realizar essa harmonia e resolve o problema da mulher, porque é na maternidade que ela consegue alcançar a sua felicidade em clima apropriado à sua natureza. 

A vida da mulher é mais silenciosa e recolhida que a do homem, mas do fogo do lar pode ela fazer fogo de um altar sagrado onde oferecer-se, dia a dia, silenciosamente, até ao holocausto. Quando contemplo uma cruz coroada de rosas, penso no meu íntimo: este é o símbolo da vida da mulher, a cruz escondida entre as rosas! A vida e a vocação da mulher não são sempre rosas, mas também não são sempre cruz. Lado a lado, caminham rosas e cruz. Em resumo, viver para os outros, procurar por todos os meios a felicidade dos outros, ainda que se desfaça em sangue o coração!

Uma frase de León Bloy é digna de ser meditada: 'Quanto mais santa é uma mulher, tanto mais é mulher'. E também tem valor permanente o pensamento de Schiller: 'Honra a mulher! Ela tece rosas no caminho da vida, tece o feliz vínculo do amor e, oculta sob o véu da graça, alimenta vigilante, com mãos sagradas, o eterno fogo dos nobres sentimentos'.

Excertos da obra 'A Mãe', do Cardeal Mindszenty (1956)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVI)

       

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XI. Sobre a proclamação da sentença sobre os bons e os maus

O que foi dito até agora a respeito do Juízo Final é, de fato, algo terrível, mas o que está por vir é ainda maior: estamos prestes a falar da sentença pronunciada sobre os ímpios e de como eles serão lançados no inferno. Isso é tão terrível que nada em toda a eternidade pode ser comparado a tal horror.

Quando o Juiz supremo tiver sondado os corações de todos os homens e pesado todas as suas ações na balança da justiça, quando tudo tiver sido revelado e manifestado ao mundo inteiro, Ele proferirá sentença sobre os bons e sobre os maus. Primeiro, Ele voltará um rosto bondoso para os seus eleitos (que estarão à sua direita) e dirigirá a eles as palavras consoladoras: 'Vinde, ó benditos do meu Pai, possuí o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e me visitastes; estava na prisão e viestes ter comigo' (Mt 25,34-36).

'Vocês foram fiéis a mim até o fim das suas vidas. Desprezaram o mundo e todas as coisas do mundo, amaram-me e buscaram acima de tudo promover a minha glória. Sofreram muito enquanto estavam na terra, realizaram árduas obras de penitência, foram desprezados e oprimidos pelos adeptos do mundo e pelos ímpios. Mas agora o tempo do sofrimento terminou e o tempo da felicidade começa; vossa tristeza se transformará em alegria, alegria eterna que nenhum homem poderá tirar de vós. Vinde, pois, ó meus amigos, vinde, vós, abençoados e escolhidos do meu Pai celestial, vinde do trabalho para o descanso, vinde da tristeza para a alegria, vinde dos reinos das trevas para as regiões da luz, vinde da terra para o Céu. Vinde e possuí a pátria celestial, pela qual tantas vezes ansiastes, vinde e reinai comigo para sempre, pois por vossas boas obras merecestes esta recompensa. Vossa felicidade perdurará enquanto eu for Deus, e na minha presença desfrutareis da bem-aventurança do Céu por toda a eternidade'.

Os corações dos eleitos transbordarão de alegria, consolo e deleite ao ouvirem estas palavras amorosas. Eles erguerão os olhos para o rosto benigno de seu Juiz e dirão a Ele com alegria e gratidão: 'Deus e Senhor misericordioso, vossa bondade para conosco é infinita, e vossa generosidade não conhece limites. Como merecemos receber de Vós uma tal recompensa? O que fizemos para merecer a felicidade sem fim? É somente por vossa misericórdia e caridade infinita que Vós nos acolheis em vosso reino de glória. Sede bendito para sempre; nossa boca exaltará a vossa majestadade para sempre!'

Depois disso, Cristo ordenará aos seus Anjos que tragam todos os santos diante de si. E, à medida que se aproximarem do seu trono, Ele as revestirá com uma vestimenta de glória, brilhante e bela, de modo que brilhem como estrelas. Sobre suas cabeças, colocará coroas de ouro de brilho incomparável e, em suas mãos, colocará lírios, rosas, ramos de palmeira e um cetro, para simbolizar a vitória que alcançaram sobre o mundo, a carne e o demônio.

Os perdidos testemunharão a glória e a exaltação dos santos. Ouvirão seus gritos de triunfo, e isso lhes será como fel e absinto. Rangerão os dentes de raiva e remorso; todo o prazer que sentiam em seus pecados agora se foi. Chorarão e lamentarão, e dirão, em meio a soluços de profundo desespero: 'Ai de nós, quão infelizes, quão miseráveis somos! O que fizemos! Vede aqueles a quem outrora desprezávamos, agora tão felizes, tão extasiados, tão honrados e glorificados, e nós, que os desprezávamos, estamos agora tão infelizes, tão miseráveis, tão desonrados, marcados para sempre com todos os sinais de reprovação! E, no entanto, poderíamos ter conquistado para nós o mesmo destino glorioso que eles; o trabalho e a dificuldade não teriam sido além de nossas forças. Mas nós, em nossa maldita loucura, desperdiçamos o Bem Supremo e nos privamos da felicidade eterna em troca de prazeres sem valor e passageiros. Ó que loucura, que insanidade da nossa parte! Como pudemos nos deixar deslumbrar a tal ponto pelas vis devassidões do mundo!'

Depois que esses seres infelizes tiverem lamentado sua miséria por um tempo considerável, a trombeta voltará a emitir um som poderoso. Esse toque da trombeta anunciará a sentença proferida sobre os réprobos e imporá silêncio a todos os presentes. Então, o Juiz se voltará para os ímpios e, olhando para eles com um rosto inflamado de santa ira, dirá: 'Ó pecadores tolos e cegos! Chegou agora o dia terrível de que vos falei quando estava na terra: o dia, a hora do julgamento. Agora está diante de vós Aquele a quem sempre vos mostrastes inimigos. Em vossa presunção arrogante, causastes todo tipo de dor e dano a mim, à minha Igreja, aos meus irmãos e irmãs, a todos os filhos de Deus. Contemplem as feridas que me infligiram; contemplem o lado que perfuraram; contemplem a Cruz na qual me cravaram; contemplem o pilar no qual me açoitaram e, ao qual, nos anos seguintes, amarraram a minha Igreja, minha esposa imaculada, século após século, lacerando e rasgando sua carne com o açoite de vossa zombaria insolente, vossa incredulidade, vossos escândalos, vossas seduções, vossos atos infames de todo tipo'.

'Por amor a vós, desci do Céu e, por amor a vós, suportei as crueldades da morte. E, no entanto, o meu amor, tão maravilhoso em sua extensão, não despertou resposta em vossos corações, não encontrou amor em troca; pelo contrário, rejeitastes-me com desprezo e ódio quando me apresentei à porta de vossos corações como um suplicante, desejoso de obter admissão ali. Quantas vezes Eu vos chamei e vós não quisestes me ouvir. Estendi as minhas mãos para vós, mas vós vos afastastes do meu abraço. Recorri a ameaças, visitei-vos com muitos castigos amorosos, mas vós não quisestes curvar o vosso pescoço orgulhoso sob o meu jugo suave. Escolhestes deliberadamente servir ao demônio como vosso deus e, por isso, partilhareis agora o seu destino e estareis com ele no abismo da condenação por toda a eternidade. Eu também rirei da vossa destruição. Eis que os meus servos, todos os justos, comerão e se fartarão, enquanto vós passareis fome eternamente. Aos meus servos será dado beber em abundância, enquanto vós tereis sede, e a vossa sede nunca será saciada. Os meus servos se alegrarão e vós chorareis. Meus servos exultarão em êxtase perpétuo e vós gritareis em agonia e desespero. Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e os seus anjos. Pois tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era estrangeiro e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes, fiquei doente e na prisão e não me visitastes'.

Este veredito, pronunciado pelo Juiz justo, atingirá os ouvidos dos condenados como um trovão; eles cairão prostrados no chão, oprimidos por estas palavras terríveis, e então lançarão tal grito de desespero e raiva, que os próprios Céus e a terra tremerão com o som: 'Ai de nós, malditos e miseráveis que somos! Agora seremos banidos da presença de Deus e dos santos para toda a eternidade! Teremos de arder para sempre e sempre com os demônios nas chamas do inferno! Ide para o fogo eterno! Ó que sentença terrível dos lábios do nosso Juiz! Fogo eterno! Tormento eterno! Nenhuma esperança de salvação! Ai de nós, pecadores miseráveis; ai de nós, ai de nós!

Assim, as almas perdidas se queixarão, chorarão e se lamentarão. Contudo, o tempo da graça já passou; a sentença foi proferida; não há mais misericórdia, nem clemência para elas. 'Compreendam estas coisas, vós que vos esquecestes de Deus; para que Ele não vos arrebate e não haja quem vos livre (Sl 49,22). Sim, compreendam isso, ó infelizes pecadores, e zelem para que um destino semelhante não vos alcance. Pensem em como se sentiriam se estivessem entre esses réprobos. Considerem o que desejariam ter feito e o que dariam como preço de resgate, se fosse possível serem libertados. Pois bem, façam agora o que desejariam ter feito então. Confessem e lamentem seus pecados enquanto ainda há tempo e supliquem a Deus que os preserve do tormento sem fim.

ORAÇÃO

Ó Deus misericordiosíssimo, Vós nos dissestes pela boca do vosso profeta: 'No tempo aceitável, eu te ouvirei, e no dia da salvação, eu te ajudarei' (Is 49,8). Eis que agora é o dia da salvação; por isso, invoco-vos e, com a maior confiança e do fundo do meu coração, suplico-vos que me concedais graça e ajuda na medida das minhas necessidades, para que eu não seja rejeitado. Pois os mortos não vos louvam, ó Senhor, nem aqueles que descem ao inferno, mas os vivos, nós que vivemos em vossa santa presença, exaltaremos o vosso santo nome para sempre. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 25 de março de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XV)

      

PARTE II - O JUÍZO FINAL

X. Sobre a duração do Juízo Final

Quanto tempo durará o Juízo Final? Não é possível dar uma resposta definitiva a essa pergunta, pois trata-se de algo que ninguém sabe; contudo, pode-se supor que ocupará um período considerável. Alguns, de fato, dizem que terminará rapidamente, pois Deus poderia julgar toda a humanidade em um único instante. No entanto, essa opinião não parece ser compartilhada pelos Padres da Igreja, nem é apoiada pela Sagrada Escritura, na qual invariavelmente se fala de um dia de julgamento.

São Paulo, por exemplo, diz que: 'Deus designou um dia em que julgará o mundo com justiça' (At 17,31). E lemos nas profecias de Isaías: 'Eis que virá o dia do Senhor, um dia cruel, cheio de indignação, ira e fúria' (Is 13,9). Nestas e em muitas outras passagens da Sagrada Escritura, o Último Dia é mencionado como um dia, não como um julgamento instantâneo. O profeta Joel indica que o dia será longo, quando diz: 'O dia do Senhor é grande e muito terrível; e quem poderá suportá-lo?' (Jl 2,11). E sobre esse mesmo dia, São João, o profeta da Nova Aliança, também diz: 'Chegou o grande dia da sua ira, e quem poderá subsistir?' (Ap 6,17).

Em muitas outras passagens da Sagrada Escritura encontramos expressões semelhantes; o Dia do Juízo Final é chamado de 'o grande dia', o que provavelmente significa um dia longo. São Jerônimo defendia essa opinião, pois diz: 'O dia do Senhor será um grande dia por causa da eternidade que se seguirá a ele'. Santo Agostinho, ao falar da duração do juízo final, expressa-se assim: 'Por quantos dias se estenderá o juízo, não temos como determinar; contudo, sabemos que um período considerável é frequentemente designado nas Sagradas Escrituras como um dia'. São Tomás de Aquino concorda com Santo Agostinho neste ponto; ele apresenta vários argumentos para provar que o juízo final terá uma longa duração. E por que Deus encurtaria esse dia? Há razões abundantes para que Ele, ao contrário, o prolongue. Pois é o dia do maior triunfo de Cristo; o dia em que os santos alcançam a sua maior glória e os condenados serão submetidos à maior vergonha.

É o dia do maior triunfo de Cristo, porque Ele não só será adorado por todos os anjos e santos, mas também pelos espíritos malignos e pelas almas perdidas, e reconhecido por todos como seu Juiz. Naquele dia, todos os seus inimigos estarão aos seus pés; naquele dia, todos os seus adversários serão forçados a confessar suas ofensas contra Ele, o Árbitro Divino. Eles serão então compelidos a reconhecer a sua divindade, a sua caridade infinita, os inúmeros benefícios que Ele lhes concedeu, em troca dos quais o perseguiram, blasfemaram contra Ele e o submeteram a uma morte cruel. 

Em segundo lugar, os santos abençoados alcançarão naquele dia a sua maior glória, pois serão honrados e estimados por toda a humanidade, bem como por Deus e pelos Anjos. Pois Cristo revelará então a todos os presentes com que fidelidade eles o serviram, com que zelo abnegado trabalharam pela conversão dos pecadores. Ele revelará então as penitências secretas que realizaram, as tentações ferozes às quais resistiram. Ele revelará então as perseguições impiedosas que sofreram das mãos dos filhos deste mundo, e como todo tipo de mal foi dito contra eles injustamente. Assim, Cristo os coroará com a honra que lhes é devida, e todos os seus adversários serão confundidos.

Em terceiro lugar, naquele dia os réprobos serão submetidos à maior ignomínia e angústia. Pois o Juiz revelará todo o caráter vergonhoso e abominável de seus delitos. Ele revelará, à vista dos Anjos e dos Santos, dos demônios e dos condenados, os atos infames que eles cometeram sob o manto da escuridão. Sim, Ele derramará o cálice cheio da sua indignação sobre esses seres miseráveis que, sob a máscara da hipocrisia, ousaram profanar o próprio Santuário. Ele fará com que aqueles que corromperam a inocência sejam capturados e dispostos entre os espíritos malignos, cuja obra diabólica e três vezes amaldiçoada levaram adiante na terra.

Naquele dia, o Juiz Divino fará com que todos os pecadores impenitentes bebam profundamente do cálice da vergonha e da ignomínia, como nos diz São Basílio, quando afirma: 'A confusão que se abaterá sobre o pecador ímpio no Dia do Juízo Final será para ele uma tortura mais cruel do que se fosse lançado em um fogo ardente'. Esta é, de fato, a razão pela qual Deus determinou o Juízo Final: para que os pecadores não sejam punidos apenas pela dor que lhes caberá, mas também sejam expostos à vergonha pública. 

São Tomás de Aquino afirma: 'O pecador não merece apenas dor, mas também desgraça e ignomínia, pois esse é um castigo a que somente os seres humanos podem ser submetidos. Os animais inferiores podem ser castigados e mortos, mas não sabem o que é sofrer vergonha e desprezo'. Isso explica o fato de que qualquer pessoa que tenha um mínimo de autoestima prefere sofrer uma punição mais severa em segredo do que ser exposta à desgraça pública.

Por todas essas razões, pode-se supor que o Juízo Final se estenderá por um período considerável de tempo e, portanto, temos ainda mais motivos para tremer diante dessa perspectiva e orar fervorosamente a Deus para que, naquele grande dia, Ele não nos oprima com vergonha e confusão, mas nos conceda a graça de sua alegria e glória.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 17 de março de 2026

'DEIXAI-OS EM PAZ!'

Ó pecadores cegos e obstinados, ouçam-me agora! Abram os olhos, eu lhes imploro! Abandonem o pecado, implorem pela graça do arrependimento. Convertam-se a Deus, e imediatamente! Não esperem até amanhã; pois amanhã, a vossa situação estará ainda mais desesperadora! Ai de mim! Minhas palavras são em vão! Esses pecadores não têm nem audição, nem visão, nem entendimento. Eles podem, de fato, fazer penitência e emendar-se, pois isso nunca é impossível; mas nunca o farão, porque nunca desejarão fazê-lo. 'Deixai-os em paz' - disse Cristo aos seus discípulos a respeito dos fariseus endurecidos - 'eles são cegos'. 

Ó Senhor misericordioso, devemos deixá-los em paz? E o que será deles? Estarão perdidos para sempre. Devemos, então, ficar olhando enquanto eles correm para o inferno, sem estender a mão para salvá-los? Sim, deixem-nos em paz. Deixem-nos ir para a sua destruição, porque são cegos. Não se preocupem mais com eles; qualquer esforço gasto na tentativa de convertê-los é infrutífero; eles são cegos. 'Deixai-nos em paz!' Ó palavras terríveis! Ó palavras que não são palavras, mas sim tempestades de granizo e raios! Deixem os pecadores obstinados em paz! Não há, então, mais esperança de sua conversão? Eles são rejeitados por Deus e condenados ao inferno? Então, tudo o que posso fazer é dizer-lhes: Ai de vós! Tenho pena de vós; tenho pena de vossa condição miserável, de vossas preciosas almas; e, a menos que um milagre da graça aconteça para restaurar vossa visão espiritual, tenho pena de vós por causa da eternidade infeliz que vos espera!

Por fim, tenho uma palavra a dizer a vocês. Espero que nenhum de vocês se encontre nesse estado miserável de cegueira; e este sermão visa apenas ser uma advertência salutar para dissuadi-los de jamais cair nele. Ah, que Deus nos proteja, a vocês e a mim, disso! 'Andem enquanto têm a luz'. Agora, enquanto seus olhos estão abertos, andem com cuidado, observando rigorosamente os mandamentos divinos; trabalhem pela sua salvação com temor, humildade e amor servil a Deus; odeiem e evitem o pecado acima de todas as coisas, tanto quanto puderem. Acima de tudo, nunca criem o hábito de pecar, pois esse é o próximo passo para a obstinação. 

Se vocês já o são - que Deus nos livre! - pecadores habituais, presos por um amor desmedido a qualquer criatura, tomem imediatamente uma resolução heróica e, por meio de penitência rápida, libertem-se desse estado, 'para que as trevas não os alcancem'. Já fizeram penitência? Então, mantenham-se fiéis a ela e certifiquem-se de nunca mais cometer outro pecado mortal. Talvez o próximo pecado que cometerem seja aquele que despertará tanto a ira e a indignação de Deus que, de acordo com seus decretos insondáveis e, ao mesmo tempo, justíssimos, Ele retirará a sua luz de vocês e os deixará na cegueira, presos em seus próprios desejos. 

Digam a si mesmos todas as manhãs e noites: Quantos pecados eu não cometi durante a minha vida? Não é hora de eu deixar de pecar agora? Ah, detestem seus pecados passados e arrependam-se de todo o coração por terem ofendido a Deus. Quantos são aqueles que, embora seus pecados sejam menos numerosos que os seus, estão agora em estado de cegueira ou estão de fato no inferno! Agradeço a Deus por ter permitido que sua consciência os atormente e por não ter retirado sua luz de vocês. Não peçam mais para que, após esta vida, possam chegar ao pleno gozo da felicidade em uma eternidade feliz. Amém.

(Excertos da obra 'The Penitent Christian', do Pe. Francis Hunolt, 1889)

sábado, 14 de março de 2026

DIÁLOGO DO HOMEM DOENTE COM CRISTO CONSOLADOR


O homem doente:

Senhor, o dia avança e o sol já começa a declinar: tuas palavras e a tua graça me sustentaram até esta hora, mas novas provações surgem ao meio-dia e, por assim dizer, torrentes ainda mais intensas de sofrimento. Vejo a agitação da vida a meu redor, ouço sons distantes que me falam dos trabalhos diligentes e úteis dos meus semelhantes. O sofrimento e a fraqueza me obrigam a levar uma vida egoísta, assim como o prazer causa egoísmo nos outros. Esse pensamento me enche de tristeza e humilhação, pois, ó meu Deus, Tu me deste um coração para amar-te e uma vontade de trabalhar para a tua glória e o bem dos meus semelhantes.

Por que sou, então, tão impotente, enquanto anseio por servir-te, ou por que o amor e o anseio espirituais sobrevivem à força para exercê-los? Senhor, apaga este fogo sagrado que arde sem propósito em meu coração e apenas torna ainda mais pesado o fardo de uma vida inútil.

Cristo, o Consolador:

A experiência do sofrimento não te ensinou nada, meu filho? Escuta as minhas palavras e guarda-as no coração. De todas as coisas que o homem deve aprender, a mais oculta e misteriosa é o sofrimento. Por mais terno que seja o coração de um homem, ou por mais apurado que seja o seu instinto, ele nunca compreenderá os sofrimentos alheios, a menos que ele próprio tenha sofrido; falará deles como um cego falaria das cores. Daí a incapacidade comum daqueles que nunca conheceram o sofrimento de consolar aqueles que sofrem. Nada pode suprir essa falta; nem o afeto mais caloroso, nem a devoção mais completa. Somente a experiência pessoal pode derrubar a barreira e nos dar a graça de consolar os outros.

Não sentiste isso muitas vezes, meu filho? Que consolo encontraste em teus momentos de fraqueza por parte daquelas pessoas alegres e prósperas a quem a sorte sorriu ininterruptamente? Muitos deles te amavam de verdade e desejavam sinceramente te ajudar; mas, por mais sábias e gentis que fossem suas palavras, faltava sempre aquela palavra que te traria consolo. Essa palavra misteriosa, essa gota de unção sagrada, nada pode ensiná-la à alma a não ser um conhecimento pessoal do sofrimento.

Essa lei é tão profunda e tão universal que até mesmo Eu, que possuo todo o conhecimento, quis sentir todos os segredos da miséria humana na fraqueza da carne, para que assim pudesse tornar-me para o homem aquele Consolador experiente de quem ele tanto necessita em momentos de angústia. Minha participação em suas dores atrai os homens poderosamente a mim; e quando o fogo da provação se abate sobre eles, não é para a contemplação da minha glória no Monte Tabor que se voltam, mas para a minha Cruz no Calvário. Lá, vendo em meus membros sagrados os sulcos de suas próprias aflições, dizem com confiança inabalável: 'Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa ter compaixão de nossas fraquezas; mas um que, em tudo, foi tentado como nós, sem pecado' (Hb 4,15). Esta ciência do sofrimento é tão importante que nada pode compensar a falta dela. Aquele que não a possui, que tenha cuidado ao tentar lidar com as dores dos outros; mas aquele que a possui pode fazer todas as coisas, pois carrega dentro de si um poder de cura.

Aquele que sofreu, que passou por longos anos de dor e aflição, de ansiedade desgastante, de desânimos secretos, de esperanças frustradas e lágrimas solitárias - tal pessoa, se não recebeu sua alma em vão, deve doravante percorrer o mundo como um sacramento vivo do meu consolo. Tal pessoa não pode deixar de exercer uma influência reconfortante sobre as almas sofredoras. Os doentes, os entristecidos, os aflitos, reconhecem-no imediatamente entre os outros homens. Outros podem falar, mas ele é o único que detém o segredo daquela palavra-chave, que encontra o caminho para o coração ferido e age como bálsamo sobre as suas feridas.

Tal pessoa é gentil, terna, paciente diante da dor. Ele sabe que um doente se tornou novamente uma criança e que, se precisa de palavras encorajadoras para despertar as energias adormecidas de sua mente, por outro lado, sua fraqueza requer a indulgência, a tranquilidade e a vigilância de uma mãe. Aquele que foi ensinado pelo próprio sofrimento possui a arte de conduzir suavemente as almas doentes a pensamentos sobre mim. Ele não fará, como alguns fazem, de seu zelo um pretexto para uma dureza que, por si só, provoca e desperta oposição. 'A cana quebrada Ele não quebrará, e o pavio fumegante Ele não apagará' (Is 43,3).

Portanto, alegra-te, ó meu filho, por teres conhecido o que é sofrer, e conforta-te por ainda seres chamado a sofrer; esta iniciação ao sofrimento é um tesouro inefável. Em breve irás procurar os aflitos; ou, se não puderes ir em busca deles, eles virão a ti. Acolhe os aflitos como enviados a ti por mim; acolhe-os como aqueles por quem aprendeste, trabalhaste e sofreste; acolhe-os como aqueles que confiei aos teus cuidados neste mundo. Não precisarás de palavras ensaiadas para falar com eles; abre teu coração e mostra-lhes as cicatrizes de tuas próprias feridas; diz-lhes que sabes o que é sofrer; ouve a história de suas provações e responde-lhes com a plenitude de teu coração. 

Rico neste tesouro de consolo, poderás ir sem medo entre os pobres e os aflitos. Tuas dores desaparecerão diante das dores deles, teus sofrimentos se desvanecerão diante dos sofrimentos deles; esquecer-te-ás de ti mesmo ao ministrar aos outros e, quando a noite chegar, ficarás surpreso ao sentir uma nova vida brotando dentro de ti; e dirás a mim em tua gratidão: 'Senhor, o que é isto que me aconteceu?  Para onde Tu me tens conduzido, e o que eu tenho feito? Não sei como isso aconteceu, mas enquanto me esforçava por fazer algo pelos outros, parece que, na verdade, estava fazendo tudo por mim mesmo; ao tentar curá-los, estava curando minhas próprias feridas; ao procurar consolar os aflitos, enxugava minhas próprias lágrimas; ao me esforçar para acalmar suas dores, perdi a amargura das minhas; ao dar o pouco que tinha, encontrei tudo'.

(Excertos da obra 'Counsels to the Sick", do Abade Henri Perreyve [1831 - 1865])