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terça-feira, 30 de junho de 2026

A SÓS COM DEUS (II)


Jesus me disse: Eu sou a Vida e quero dá-la a ti; e conduz-me à sua morada para que viva nEle mesmo e participe dessa vida divina, cada vez mais intensa, tornando-me por ela, de certo modo, participante da natureza divina. Não é soberba, ó meu Deus, nem presunção, nem temerário atrevimento deste pobre coração pensar assim, desejar e esperar viver da vossa própria vida ainda neste exílio. 

Seria soberba incompreensível, se tal pensamento tivesse brotado de mim; mas fostes Vós quem me ensinastes como Pai e quem me ordenastes. Quero, humilde e obediente, seguir-vos; quero, submisso e fiel, oferecer-me inteiramente à vossa santa vontade e, por ela, alcançar tão grande felicidade.

Certamente, este viver em Deus não é fácil, nem sequer possível às nossas pequenas forças. Grandes obstáculos tendem a nos dificultar e o principal obstáculo somos nós mesmos; somos nós que os erguemos.

Para que este belo ideal e desejo de viver em Deus se realize em mim, e para que eu possa receber em plenitude a vida de Deus, é necessário que antes faça desaparecer todos os obstáculos, destrua e arranque tudo quanto em mim é miséria moral, fraqueza e maldade; é preciso por fim ao meu amor-próprio, reconhecer a minha impotência e compreender que é somente Deus - exigindo, contudo, a minha cooperação - quem me comunica a sua vida e a sua santidade. Somente negando-me deste modo e permanecendo vigilante, cheio de esperança em Deus, preparar-me-ei para receber a beleza que Deus deseja comunicar-me.

Ó meu Deus, que quereis dar-me a vossa própria vida! Fazei que eu me prepare para recebê-la, que eu a peça e vos manifeste o meu desejo de a possuir. Fazei que eu a queira de verdade; que queira eficazmente; que queira com humildade e com uma vontade firme e resoluta. Mas, por muito que eu o queira, será possível que eu possa participar da vida de Deus? Essa Vida está acima das minhas forças; porém Deus é meu Pai e me diz por Jesus Cristo: 'Quero que sejas um comigo; quero comunicar-te a minha vida. Não ponhas obstáculos; deixa-te reduzir ao nada de ti mesmo para que Eu possa dar-te a verdadeira vida'.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

quinta-feira, 25 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXII)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os outros tormentos do Inferno

Muitos acreditam que alguns dos réprobos estarão condenados, entre muitas outras dores intoleráveis, a suportar um frio terrivelmente intenso. O venerável Beda relata a seguinte história sobre um homem chamado Trithelmus. Esse homem estava gravemente doente e, certa noite, foi dado como morto. Na manhã seguinte, porém, ele recuperou a consciência para o espanto de todos os que estavam com ele, e levantou-se do leito de doença, dizendo que Deus lhe havia concedido uma prorrogação dos seus dias, para que pudesse levar uma vida diferente daquela que havia levado até então.

Depois de dividir os seus bens entre seus filhos e doar uma parte deles aos pobres, ele adotou um modo de vida totalmente diferente. Encerrando-se em uma pequena tenda à beira de um rio, passava seus dias e noites chorando. No inverno, mergulhava até o pescoço nas águas geladas do rio e, em seguida, tremendo e entorpecido pelo frio, mergulhava em água quente - um procedimento que lhe causava tanta agonia que não conseguia conter seus gritos.

Quando questionado sobre o motivo de sua conduta estranha e como ele conseguia suportar as alternâncias repentinas entre calor extremo e frio extremo, ele respondeu: 'Já vi coisas piores do que isso'. 'O que você viu?' - perguntaram-lhe os outros. E ele respondeu: 'Vi como as almas infelizes em outro mundo são lançadas de um fogo furioso para o frio glacial e, do frio glacial, de volta às chamas ardentes. Quando percebo o que elas têm de suportar, considero meus sofrimentos insignificantes como nada'. Essa história, relatada por um homem tão sério e santo como o venerável Beda, mostra quão terríveis são, de fato, os tormentos do Inferno.

Cristo nos fala das trevas do Inferno com estas palavras solenes: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Nosso Senhor fala das trevas do inferno como trevas exteriores, as mais apavorantes, as mais temíveis que possam existir. Um viajante que se perdeu na floresta e foi surpreendido pela noite sente um terror indescritível tomar conta dele. Ora, existe uma terra coberta pela sombra da morte, onde não reina a ordem, mas um horror eterno. Essa terra é o inferno. Uma escuridão opressiva pesa sobre os perdidos; prevalece uma escuridão indescritivelmente terrível.

Neste mundo, os doentes nada temem mais do que a noite, pois o tempo parece passar muito lentamente para eles, e sua dor parece duplamente penosa. Eles contam as horas, e cada uma parece tão longa quanto a noite. Como será para os habitantes do Inferno, onde a escuridão densa domina e a noite nunca dá lugar à luz do dia? Nessa escuridão horrível, os condenados jazem indefesos como cegos, ou como aqueles a quem os olhos foram cruelmente arrancados. Eles não veem nada, pois a fumaça acre arde em seus olhos, e os vapores venenosos do enxofre destroem sua visão. Sabemos quão densa é essa fumaça pelo relato de São João: 'A ele (Satanás) foi dada a chave do abismo (Inferno). E ele abriu o abismo; e a fumaça do abismo subiu como a fumaça de uma grande fornalha; e o sol e o ar foram escurecidos pela fumaça do abismo' (Ap 9,2). E ainda: 'Serão atormentados com fogo e enxofre, e a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre; nem terão descanso dia nem noite' (Ap 14,11).

Essas são, de fato, ameaças terríveis, e essa profecia anuncia, nos termos mais claros, qual será o destino daqueles que são servos do pecado e do diabo. Eles serão atormentados com fogo e enxofre a tal ponto que a fumaça de seu tormento subirá para todo o sempre. Que palavras terríveis! Ó tortura inexprimível! Considera, ó pecador desorientado, quais seriam teus sentimentos se ficasses confinado por um único dia nessa masmorra escura e fétida. Tu sabes como a fumaça pungente é desagradável aos olhos e às narinas; na verdade, ninguém consegue permanecer nela por um quarto de hora sem ser asfixiado e ficar meio cego. Se isso acontece na Terra, como será no Inferno?

A existência dos condenados se assemelha mais à morte do que à vida; é uma morte em vida, uma tortura e miséria eternas e ilimitadas. E, visto que nos é dito que a fumaça de seu tormento sobe para sempre, segue-se necessariamente que a escuridão total deve prevalecer no Inferno. A respeito desse assunto, o venerável Beda relata as experiências do homem Trithelmus (de quem já se fez menção) enquanto ele jazia em transe e era considerado morto. Ao recuperar a consciência, entre outras coisas, ele narrou o seguinte: 'Fui conduzido por um ser vestido com roupas brilhantes por uma região que me era totalmente desconhecida, até chegarmos a uma área envolta em escuridão densa, que me fez estremecer de medo e horror. Não conseguia distinguir nada além da figura do meu guia. À medida que nos adentrávamos cada vez mais nessas trevas, percebi, no meio da escuridão, um abismo de imensa extensão, cheio de fumaça e de um brilho lúgubre, cuja visão fez meus cabelos se arrepiarem de terror. Desse abismo emanavam gemidos lastimáveis, que soavam como se vários homens e mulheres estivessem sendo submetidos a torturas cruéis e à morte.

Mas o pior foi que meu guia desapareceu, deixando-me sozinho naquele lugar terrível. Não consigo descrever a apreensão agonizante que tomou conta de mim; em vão olhei ao redor na esperança de encontrar socorro ou consolo. O terror que senti foi tão grande que pensei que fosse morrer. Quando olhei para baixo, para o abismo negro, tive medo de cair nele e me perder, de corpo e alma. Pois, junto com as chamas lúgubres que se erguiam do abismo, vinham faíscas ardentes que caíam de volta nele com um ruído ensurdecedor, além de nuvens de fumaça sulfurosa que pareciam prestes, a qualquer momento, a me arrastar com elas para as profundezas do golfo de fogo. Eram todas almas perdidas que eram impulsionadas para cima como faíscas de lenha em chamas pela força do fogo subterrâneo.

Só Deus sabe o que sofri; um suor frio banhou todo o meu corpo. Enquanto permanecia ali nessa agonia, sem saber para onde me virar, ouviram-se, bem acima da minha cabeça, gargalhadas, misturadas a choro amargo e uivos. À medida que aquele barulho se aproximava, vi vários demônios que traziam consigo cinco almas indefesas, as quais perseguiam e atormentavam. Os demônios estavam exultantes, zombando e rindo; as almas estavam em desespero, proferindo lamentos e gritos de angústia lancinante. Imagine quais foram meus sentimentos ao ouvir seus gritos e observar que os demônios malditos se aproximavam cada vez mais.

Quando chegaram bem perto de mim, fiquei tão dominado pelo terror que pensei que fosse desmaiar, e acredito que, se Deus não tivesse me fortalecido, eu teria morrido ali mesmo. Pois os demônios me lançavam olhares com seus olhos ardentes de maneira tão assustadora, e as pobres almas me imploravam por ajuda de forma tão comovente, que eu me sentia dividido entre o medo e a compaixão, e meu coração parecia prestes a se partir. Quando as almas foram levadas de mim, foram precipitadas nas profundezas do abismo pelos espíritos malignos com tanta violência que o céu e a terra pareciam tremer, e uma nuvem de faíscas voou para cima de tal forma que temi que elas me cobrissem. Por fim, para minha grande dor e pavor, vários espíritos malignos se aproximaram de mim, exalando raiva e fúria, e fazendo como se fossem me arrastar com eles para o abismo negro.

Então, em pânico absoluto, chorei, gritei e implorei por ajuda de algum lugar; pois, naquela densa escuridão, não via nada além de demônios zombeteiros, o abismo escancarado e as chamas crepitantes, e não sabia para onde me voltar em busca de salvação. Quando minha angústia estava no auge, meu guia reapareceu; ele me resgatou dos meus inimigos e me conduziu para fora daquele lugar escuro, imundo e horrível. Ele me disse, além disso, que eu deveria retornar ao meu corpo e que deveria dar a conhecer ao maior número possível de meus semelhantes a existência dessa terra de terrível escuridão'.

Além da obscuridade sinistra que prevalece no Inferno, causada pela fumaça sufocante que se eleva em nuvens densas do lago de enxofre, há aida a presença de demônios assustadores que aumentam a dor e o tormento dos condenados. Lemos na lenda de Santo Antônio, o Eremita, que os demônios frequentemente apareciam para ele sob várias formas, atormentando-o e aterrorizando-o de maneiras indescritíveis. Às vezes, assumiam a forma de feras, leões, ursos, dragões ou cães selvagens; outras vezes, apareciam em forma humana, como homens de aparência feroz, mulheres belas ou monstros de aspecto hediondo. Às vezes, eles o espancavam e maltratavam de forma tão bárbara que o deixavam meio morto; outras vezes, causavam-lhe tal terror com suas estranhas aparições espectrais que, se Deus e seu anjo da guarda não tivessem vindo em seu auxílio, ele teria expirado imediatamente.

Ora, se fizeram tudo isso a um homem de vida santa, sobre o qual não tinham nenhum poder legítimo, o que não farão no Inferno aos pecadores ímpios que estão completamente à sua mercê? Sem dúvida, esses espectros diabólicos, assumindo a forma de animais selvagens, se lançarão sobre os infelizes pecadores e os maltratarão vergonhosamente. Isso será um novo sofrimento para eles. Ninguém pode imaginar que novos terrores e tormentos a engenhosidade desses espíritos do Inferno inventará para atormentar os condenados e derramar sobre eles a sua malícia diabólica.

Se temes essa escuridão e todos os horrores que a acompanham, cuida para que temas as obras das trevas, sobre as quais Cristo diz: 'Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam repreendidas' (Jo 3, 20). Mas se tu amas as trevas e buscas as trevas para que possas pecar com maior impunidade, não será um ato de injustiça da parte de Deus lançar-te nas trevas eternas e, ao morreres, dizer aos demônios: 'Porque durante toda a sua vida ele amou as trevas e as obras das trevas, amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes'.

Oxalá todos os pecadores obstinados pudessem ver isso e considerar os terríveis tormentos que aguardam os descuidados e indiferentes. Pois naquilo em que pecamos, também seremos punidos. E como em nossos dias há tantos cristãos mornos e negligentes que não têm o menor zelo pela religião ou pelos exercícios religiosos, os exortamos a terem cuidado para que não sejam um dia lançados no fogo do inferno por ordem daquele que se autodenomina Deus zeloso, e que é o único a ser temido, pois Ele pode 'destruir tanto o corpo quanto a alma no inferno'. Portanto, considerem, ó cristãos frios e descuidados, que destino os aguarda. Na verdade, se refletissem sobre esses tormentos terríveis, entrariam imediatamente em uma nova vida. Em vez de serem cristãos mornos, preguiçosos, negligentes e frios, tornariam-se rapidamente servos de Deus zelosos, ativos, escrupulosos e fervorosos.

Fora, então, com toda a tibieza, toda a indiferença na grande questão da nossa salvação. Quem quer que sejas, tu que lês isto, resolve cumprir teus deveres como cristão com toda a seriedade. Aproxima-te dos sacramentos com mais frequência do que tens feito até agora; assiste à missa com mais frequência do que até agora, sê mais assíduo e fervoroso na oração do que até agora. Pensa com mais frequência em Deus e nas coisas últimas. Assim, tu superarás a indiferença, a frieza que se apoderou de ti; farás de Deus teu amigo; a esperança da felicidade eterna surgirá dentro de ti e se tornará uma certeza abençoada. Que Deus conceda, por sua graça, que assim seja contigo e comigo!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 16 de junho de 2026

SOBRE BENS E AS OBRIGAÇÕES DE COMPARTILHAR OS BENS

Bens:

1. Bens necessários à vida: são aqueles sem os quais não se pode viver; todos os demais bens são supérfluos à vida.

2. Bens necessários para um dado estado de vida:  são aqueles necessários para a manutenção deste estado de vida; bens supérfluos a este estado de vida são todos os demais.

3. Bens necessários para a manutenção adequada do estado de vida: são aqueles necessários para garantir uma manutenção adequada de um estado de vida; fora disso, todo o resto constitui bens supérfluos no seu sentido mais amplo.

Obrigações

(i) Se alguém estiver em extrema necessidade, sem o necessário para a própria sobrevivência, devemos ajudar com bens das classes 2 e 3; não precisamos dar o que precisamos para a nossa própria sobrevivência.

(ii) Se alguém estiver em grave necessidade, mas não carente do essencial para sobreviver, devemos ajudar com bens da classe 3. 

(iii) Se alguém estiver em necessidade modesta, devemos ajudar algumas pessoas em alguns momentos, sem discriminar com precisão casos individuais, pois há muitos que podem ajudar e as necessidades impostas são relativamente modestas e comuns.

[Pe. William Most (1914 - 1999), sacerdote e teólogo americano]

quinta-feira, 11 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXI)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os odores repugnantes do Inferno

Para que nada falte às aflições do Inferno, com as quais as almas perdidas são atormentadas, Deus, em sua ira, decretou que essa prisão horrível fosse permeada por um fedor abominável, como castigo para aqueles que, quando na Terra, se deleitavam excessivamente com o uso de perfumes requintados.

A profecia de Isaías se cumprirá assim: 'Em vez de um aroma agradável, haverá um fedor' (Is 3,24). A matéria animal em decomposição emite um odor tão horrível que ninguém gosta de se aproximar dela. Mas se imaginarmos não uma única carcaça em decomposição, mas centenas de milhares amontoadas, o ar em um raio de quilômetros ficaria tão contaminado que causaria a morte de todos nas proximidades.

Mesmo esse fedor, porém, quando comparado ao fedor do Inferno, parece nada, ou melhor, um odor agradável. O húms que exala do Inferno provém principalmente do próprio lugar que é, por natureza, uma região das mais horríveis e imundas. Nenhuma lufada de ar puro jamais pode penetrar nas paredes hermeticamente fechadas daquela prisão. Além disso, todo o Inferno é um lago de enxofre e piche em chamas, e todos sabem quão repugnantes são os vapores que eles exalam. 

'Os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os fornicadores, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão sua parte na lagoa que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte' (Ap 21,8). O profeta da Nova Aliança fala aqui de um lago cheio de água estagnada, imunda e fétida, para a qual não há saída. Ele acrescenta que esse lago está cheio de enxofre ardente, do qual se eleva uma fumaça densa, como diz em outro lugar: 'A fumaça dos seus tormentos subirá para todo o sempre'.

Os próprios corpos dos réprobos são tão imundos e repugnantes que exalam um odor extremamente ofensivo, pior do que qualquer fedor neste mundo. Segundo São Boaventura, o corpo de um único réprobo contaminaria tanto o ar na terra a ponto de causar a morte de todos os seres vivos que se aproximassem dele. Se um único corpo exala um fedor tão horrível, que exalação será a que se eleva de muitos milhões desses seres miseráveis?

Conta-se que o tirano Maxêncio costumava, como castigo, mandar amarrar um homem vivo a um cadáver, rosto a rosto e membro a membro, até que a infeliz vítima desmaiasse, ou mesmo morresse pelo contato com o corpo morto e em decomposição. Essa é, de fato, uma tortura na qual ninguém consegue pensar sem estremecer. Quão pior será no Inferno, onde os corpos jazem próximos uns dos outros, sem qualquer esperança de serem separados. Por mais repugnante que seja esse fedor, ele se intensifica consideravelmente com a presença dos demônios que, naturalmente, são muito mais repulsivos ao olfato do que os corpos dos condenados.

Lemos na vida de São Martinho que o maligno lhe apareceu em certa ocasião, e o fedor que encheu a sala era tão insuportável que o santo disse para si mesmo: 'Se um único demônio tem um odor tão repugnante, como será o fedor no Inferno, onde há milhares de demônios todos juntos?' Quanto sofrimento esse fedor abominável deve causar aos condenados! Como deve agravar sua angústia e dor! 

Pois deve ser pestilento além de qualquer descrição, surgindo como surge de tantas fontes diferentes: o próprio Inferno, os corpos dos condenados, os demônios, os vermes e répteis, o fogo de piche e enxofre, todos e cada um deles mais fedorentos às narinas dos condenados. Julgai, pelo que foi dito, quão insuportáveis devem ser os odores combinados de todas essas coisas. Ai dos infelizes seres condenados a respirar tal atmosfera! Ai dos pobres pecadores que têm de habitar nela por eras sem fim! Eles devem sucumbir a ela, devem estar constantemente à beira da morte. Ó meu Deus, eu vos imploro pela vossa infinita clemência, poupai-me de um destino tão terrível!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 9 de junho de 2026

'TUDO PASSA!'

Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós também! Dos sábios e justos, diz Isaías, que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está passando.

Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando. Os mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores sempre remudando-se, ora secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já foram povoados, e os povoados de agora, já foram desertos.

Mas olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens. Tudo está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães, outros a entrar nos ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram; estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está enfeitando um vivo, parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam; aqui conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito, gemendo o que riram, e sangrando-se do que comeram...

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. E que turba-multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou a morrer, ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são de lá...

E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios, que vão buscar muito longe coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é: espécies, sedas, ouro.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos, dali a nada tudo achareis virado. O rico já é pobre, o plebeu já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já são outras cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajes, outras leis, outros homens... Lembra-te, tudo passa!

Pe. Manuel Bernardes (Sermões)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XX)

           

PARTE III - O INFERNO

II. Sobre a fome e a sede padecidos no Inferno

Assim como os crimes pelos quais o pecador, nesta vida, provoca a ira de Deus são de vários tipos, também as dores do inferno, pelas quais esses crimes serão punidos, variam em sua natureza. Sabemos que os homens muitas vezes pecam por intemperança, entregando-se avidamente à comida e à bebida. Consequentemente, Deus designou uma pena severa para esse pecado no outro mundo. Cristo o prediz, de fato, com estas palavras: 'Ai de vós que estais saciados, pois tereis fome' (Lc 6,25).

Quando Nosso Senhor pronuncia a palavra 'Ai', Ele sempre pretende ameaçar ou predizer alguma grande calamidade. Consideremos por um momento o que isso realmente significa neste caso. É impossível para nós formarmos uma ideia verdadeira das dores da fome, porque nunca as sentimos. Se durante um dia inteiro alguém não tem nada para comer, o tempo parece muito longo e a pessoa deseja muito algum alimento. E se alguém fosse privado de qualquer alimento por dois ou três dias, que miséria seria! Mas se um homem não tivesse absolutamente nada para comer durante uma semana inteira e fosse deixado à mercê da fome, o que seria dele?

Em tempos de escassez e fome, fica-se horrorizado ao ver quais são os efeitos produzidos pela fome e que terrível flagelo é a escassez de alimentos. Pois, para acalmar as dores insuportáveis da fome, as pessoas devoram tudo o que conseguem encontrar: grama, folhas, animais imundos e repugnantes; sim, os homens chegaram até a se alimentar da carne de seus semelhantes, mães sacrificaram seus filhos, e sabe-se que alguns roeram sua própria carne. E quando os pobres infelizes famintos não têm mais nada, vagam como sombras de si mesmos, pálidos e emaciados como a própria morte.

Eles arrastam uma existência moribunda até que todas as suas forças se esgotem; finalmente, pela tortura da fome, perdem os sentidos; deliram, gritam e uivam, e morrem da mais miserável das mortes. Se tais são os efeitos da fome na Terra, como será a fome que se experimentará no Inferno?

Se a falta de comida por apenas alguns dias causa tal tortura, como será uma fome contínua e sem fim? Quem pode pensar sem horror na fome sofrida no Inferno! Ai daqueles que tiverem de suportá-la. O profeta Isaías testemunha a existência de uma fome real e efetiva no Inferno, nesta passagem da Sagrada Escritura: Deus assim fala pela boca do profeta: 'Porque eu chamei e vocês não responderam, falei e vocês não ouviram; eis que os meus servos comerão e vocês terão fome; eis que os meus servos beberão e vocês terão sede. Meus servos se alegrarão e vós ficareis confusos; meus servos louvarão com alegria no coração e vós chorareis de tristeza no coração, e uivareis de dor no espírito' (Is 65, 12-14). 

Quem pode dizer quão terrível será essa fome no Inferno? O salmista diz dos inimigos de Deus que sofrerão fome como cães (Sl 58,7). Os réprobos serão então constantemente atormentados pela fome mais voraz, por uma fome tão grande que excederá além da medida a fome suportada em tempos de fome, por uma fome que os atormentará para sempre.

O que vocês fizeram, ó infelizes pecadores! Vocês trouxeram sobre si mesmos esta dor eterna. Se tivessem feito penitência nesta vida, não teriam se tornado presas desta fome eterna. Mas vocês desejaram comer e se saciar em vida; consequentemente, agora devem suportar o que Cristo predisse que seria o seu destino: 'Ai de vocês que estão saciados, pois terão fome'.

Que tomem isto especialmente a sério aqueles que costumam negligenciar deliberadamente a observância dos jejuns prescritos e comer carne nos dias de abstinência. Pois quem come carne nos jejuns da Igreja sem necessidade e sem ter sido dispensado, comete um pecado grave. Fazer isso equivale a desafiar a Igreja e excluir-se voluntariamente de sua bênção. E aquele que persiste nesse pecado, e não se arrepende sinceramente dele, não pode esperar a felicidade eterna. O que poderia ser mais imprudente e insensato do que, por uma satisfação tão desprezível, expor-se ao perigo da perdição eterna! Ó pecador obstinado, para onde vais! Pensa na fome sem fim que será suportada no Inferno e tem piedade da tua própria alma!

Além da fome, os condenados sofrem a sede mais ardente, que está além do poder das palavras para descrever. Todos sabem quão terríveis são os sofrimentos causados pela sede: são simplesmente insuportáveis. Aqueles que são atormentados pela sede beberão das fontes mais impuras, e se nada puder ser obtido para saciar sua sede, o resultado será uma morte lenta e dolorosa. A sede sofrida pelas almas perdidas é infinitamente maior, mais intensa, mais dolorosa do que qualquer sede experimentada na terra, por maior que seja. Se um homem mortal pudesse senti-la mesmo que por um breve período, desmaiaria e morreria imediatamente.

Nunca há descanso ou trégua para os condenados; eles são levados de um tormento a outro incessantemente. Isso provoca sede. Mas o calor do fogo do Inferno, no qual ardem dia e noite, para todo o sempre, é a principal causa da sede intolerável que os consome. Eles estão imersos em chamas e nunca obtêm o alívio de um gole de água. Meu Deus, quão grande deve ser a sede deles! É insuportável, e ainda assim eles precisam suportá-la. Ouça o apelo lastimável de uma alma perdida implorando fervorosamente pela graça de uma única gota de água: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar a minha língua; pois estou atormentado nesta chama' (Lc 16,24). 

'Deus misericordiosíssimo, peço apenas água; anseio por apenas uma gota de água para dar alívio momentâneo à minha língua em chamas. Tu não recusarás um pedido tão moderado, Tu que és louvado por todas as tuas criaturas como a própria bondade'. Mas esta súplica é em vão. Deus faz ouvidos moucos à voz do seu apelo. Nem uma única gota de água é dada para mitigar os seus sofrimentos. É possível, ó meu Deus, que Tu possas ser tão severo? Pai de compaixão, por que não queres ouvir a oração deles? Tua justiça e Teu ódio ao pecado não te permitem ceder; eles te obrigam a punir o pecado eternamente e da maneira mais terrível.

Mas nos é dito que os condenados não apenas são atormentados por fome e sede excessivas, como também são alimentados com chamas e obrigados a beber do cálice da ira divina. 'Se alguém adorar a besta, também beberá do vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre. E a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre' (Ap 14,10). No livro de Moisés também lemos: 'O vinho deles é o fel dos dragões e o veneno das víboras, que é incurável' (Dt 32,33).

Reflita, ó pecador, sobre esta agonia indescritível. Fogo e enxofre serão o alimento dos condenados e a sua bebida, o vinho da ira de Deus. O que pode exceder tal tortura? Meu Deus, quão rigoroso és! Quão severos são os teus castigos! Pensem, vós, pecadores, que agora bebeis em excesso, pensai qual é o vinho preparado para vós no futuro, pensai na terrível sede que vos consumirá por toda a eternidade. Se não suportais ter sede por um dia, como suportareis a sede ardente da qual nunca obtereis alívio? Refleti sobre isso em vosso coração e não vos entregueis mais à vossa intemperança. Abandonai esse vício, que infalivelmente vos arrastará para a perdição.

São Paulo fecha expressamente a porta do Céu para vocês, quando diz: 'Os bêbados não herdarão o reino de Deus' (1Cor 6,10). Aí está a sentença, pronunciada contra vocês de antemão. Se continuarem a seguir o caminho do mal, não poderão alegar ignorância quanto ao destino ao qual serão condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIX)

          

PARTE III - O INFERNO

I. Sobre o fogo do Inferno

Apesar de, nos dias de hoje, muitos negarem a existência do Inferno ou, pelo menos, a eternidade do castigo, não consideramos que nos caiba apresentar uma série de provas de que existe um lugar chamado Inferno. No caso do leitor cristão, a quem este livro se destina, evidências dessa natureza são totalmente supérfluas, pois ele não terá naufragado em sua fé. De fato, que outras provas podem ser necessárias para a existência do Inferno e a eternidade do castigo, visto que os profetas, o próprio Cristo, os apóstolos e os Padres da Igreja, e até mesmo os turcos e os pagãos, falam disso como um fato inquestionável? Aqueles que negam a existência do Inferno devem, consequentemente, ser contados entre os tolos que dizem em seu coração que não há Deus que castigue as suas más ações.

Seria, sem dúvida, muito agradável para essas pessoas se tudo terminasse com esta vida, se não houvesse dia do Juízo Final ou se, pelo menos, as regiões infernais fossem um pouco menos intoleráveis. Isso explica por que se agarram a quaisquer argumentos aparentes com os quais se iludam e adormeçam seu medo dos castigos eternos do Inferno. Não entraremos em qualquer análise dos sofismas miseráveis com os quais esses tolos se enganam; pois o ensinamento da Igreja Católica sobre este ponto é tudo o que precisamos. Ela ensina que há um lugar ou estado de dor inigualável e sem fim reservado para os condenados.

Sabemos que realmente há fogo no Inferno, pelas palavras que Cristo dirigiu aos ímpios: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos' (Mt 25,41). Isso mostra que há fogo real no Inferno e que nele os condenados devem arder eternamente. Qual será a intensidade dessa dor está além do poder do homem descrever. Pois, de todos os variados tipos de sofrimento físico a que o homem pode ser submetido, não há nenhum tão grande, tão cruel, tão agonizante quanto aquele causado pelo fogo. Suplícios ou a amputação dos membros de um homem são exemplos de torturas terríveis, mas não se comparam à dor da queimadura. Basta tocar um ferro em brasa para sentir que dor excruciante isso causa! Em um instante a pele se desprende, a carne viva se expõe, sangue e matéria escorrem da ferida, e a dor penetra até a medula dos nossos ossos. Não se pode evitar gritar e urrar como se tivéssemos perdido os sentidos. Ora, se o contato momentâneo com o ferro em brasa causa dor tão aguda, como seria se tivéssemos de segurar um ferro em brasa por algum tempo!

Agora, imagine que você fosse condenado a ser queimado vivo por seus pecados e, durante um dia inteiro, permanecesse em meio às chamas, incapaz de morrer. Como chorarias e gemerias lastimosamente, como gritarias e rugirias alto em tua agonia, de modo que os gritos de partir o coração arrancados de ti pela tortura que suportas não apenas fariam os espectadores estremecerem, mas os encheriam de sincera compaixão. Aquele homem deveria ter, de fato, um coração de pedra para suportar olhar impassível tal espetáculo.

Em pouco tempo, tu serias queimado a tal ponto que não serias mais reconhecível, reduzido à aparência de uma brasa incandescente. Agora, reflete, ó cristão: se a ação do fogo terreno causa agonia tão intolerável, qual será a tortura do fogo do Inferno, cujo calor é incomparavelmente mais intenso e penetrante do que o de qualquer fogo com o qual estamos familiarizados? E se perguntares por que o fogo do Inferno deve exceder tanto o fogo terreno na intensidade de seu calor, há várias razões que explicam esse fato.

Em primeiro lugar, todos sabem que quanto maior o fogo, maior o calor que ele exala. A chama de uma vela de cera não é muito quente, mas se a vela inteira estiver queimando de uma só vez, a chama que dela se eleva é muito mais quente. Quando uma casa está em chamas, o calor nas imediações é muito intenso, mas se uma aldeia inteira estiver em chamas, o calor da conflagração torna-se insuportável mesmo à distância. Se tal é o efeito produzido pelo fogo da terra, que é comparativamente pequeno em sua extensão, qual será a ação do fogo do Inferno, que é incomensuravelmente maior do que qualquer incêndio visto na terra!

Em segundo lugar, um fogo confinado em uma fornalha arde com muito mais intensidade do que se estivesse ao ar livre, porque o calor, ao estar confinado, não pode escapar nem se difundir, nem ser atenuado pelo ar circundante. Se assim é, com que fúria as chamas da imensa fornalha do Inferno irão arder, com que intensidade irão brilhar! Suponha-se uma desgraça como a de um homem ser lançado em um forno de cal, ou em uma fornalha aquecida até ficar incandescente: quão terríveis seriam seus sofrimentos!

A razão seguinte pela qual o fogo do Inferno supera em intensidade de calor todos os outros fogos é que ele é aceso pelo sopro de Deus. Pois o profeta Isaías diz: 'Vede! É o nome do Senhor que vem de longe, sua cólera é ardente, uma nuvem pesada se levanta, seus lábios respiram furor, e sua língua é como um fogo devorador. Seu sopro assemelha-se a uma torrente transbordante cuja água sobe até o pescoço. Ele passará as nações no crivo destruidor' (Is 30,27-28). E ainda: 'um lugar de incineração está preparado também para Tofet [inferno], cavado, profundo e largo; palha e lenha ali há em quantidade, e o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, o acenderá' (Is 30,33).

Que descrição terrível é aqui dada do Inferno e de seu fogo torturante. Não digam que, nessas e em outras passagens conhecidas da Sagrada Escritura, as expressões empregadas são meras figuras de linguagem, pelas quais os profetas predisseram os julgamentos divinos prestes a recair sobre as nações pecadoras, e que não devem ser tomadas em sentido literal, como se referindo ao Inferno e às suas punições. Não nos iludamos. Essas imagens devem, é verdade, ser entendidas, em seu significado primário, como indicando a condenação das nações pecadoras; mas, num sentido mais amplo e elevado, de acordo com a interpretação que lhes dão os exegetas das Escrituras, são previsões do castigo judicial que, após o Juízo Final, será a sorte dos pecadores réprobos.

Santa Brígida afirma com razão em suas revelações: 'O calor do fogo do Inferno é tão grande que, se o mundo inteiro estivesse envolto em chamas, o calor de tal incêndio seria como nada em comparação com ele'. Daí aprendemos que aquele fogo terreno não tem mais semelhança com o fogo do Inferno do que a fraca chama de uma vela de cera com o calor branco de uma fornalha incandescente. Lembre-se disso, ó pecador, e leve tudo em alta consideração! São Agostinho nos diz que o fogo mais temível da terra é, em comparação com o fogo do Inferno, como uma pintura de fogo comparada a um fogo real. Quando vires um fogo, lembra-te do fogo do Inferno. E já que não suportarias colocar a mão por um único instante nesse fogo, pensa em como deve ser o calor do fogo do Inferno, que supera infinitamente o pequeno fogo que vês diante de ti. Se não consegues suportar isto, como poderás suportar o outro? 

Ficou agora claro que os condenados serão um dia lançados, de corpo e alma, na enorme e terrível fornalha do Inferno, no imenso lago de fogo, onde estarão rodeados por chamas. Haverá fogo abaixo deles, fogo acima deles, fogo por toda a parte à sua volta. Cada respiração será o sopro escaldante de uma fornalha. Essas chamas infernais penetrarão em cada parte do corpo, de modo que não haverá parte ou membro, por dentro ou por fora, que não esteja mergulhado no fogo.

Quão desesperados serão os gritos, quão agonizantes os gemidos que subirão deste abismo de tortura! 'Ai de nós, criaturas miseráveis! Ai de nós mil vezes! Estamos sendo torturados nesta chama! A dor excruciante permeia cada membro do nosso corpo; a agonia intolerável não nos deixa descanso! Se ao menos pudéssemos morrer, se ao menos pudéssemos morrer para escapar desta tortura terrível! Ai de nós, este desejo é em vão! Mortos no que diz respeito à vida da alma, mortos porque perdemos a graça, a misericórdia de Deus, estamos ainda condenados a viver, a viver para todo o sempre! Que privilégio seria para nós a morte, a aniquilação! Mas ela nos escapa; não podemos mais esperar que venha para nos libertar desta miséria, desta tortura, da fornalha do Inferno. Ai de nós, quão grande foi a nossa loucura! Por prazeres fúteis de um momento, incorremos nesta miséria intolerável, uma miséria que perdurará por toda a eternidade'.

'Compreendei bem isto' - diz Davi - 'vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve' (Sl 49,22). Escuta isto, ó pecador, e deixa que as lamentações dos perdidos te sirvam de lição. Imagina para ti mesmo a fossa de fogo na qual essas criaturas miseráveis têm de expiar os seus pecados. Tu aceitarias, perguntamos novamente, por qualquer quantia de dinheiro, por maior que fosse, passar um único dia imerso nessas chamas? Não, nem por todo o mundo tu aceitarias permanecer naquele fogo por uma única hora. Se assim é, por que, em nome de algum prazer pecaminoso, de algum ganho injusto, tu te lanças voluntariamente para sempre no fogo do inferno? Ó que loucura, que loucura consumada! Que Deus conceda que esses pecadores cegos sejam iluminados, para que tomem consciência da imprudência de sua conduta e se dediquem a tempo às coisas que dizem respeito à sua salvação.

ORAÇÃO

Ó Deus de justiça! Quão grande é a vossa ira e quão todo-poderoso é o vosso ódio ao pecado e ao pecador! Ai de mim e de todos aqueles que têm a terrível infelicidade de cometer pecado mortal. Que Deus me preserve de tal pecado, que seria o meio de me lançar na perdição eterna. Sofrirei de bom grado todas as coisas, as maiores tribulações temporais, as dores mais agudas, até mesmo a morte mais cruel, de modo a escapar do tormento eterno no Inferno. Este é o meu firme propósito; por isso, concedei-me a vossa graça e fortalecei-me nesta minha boa resolução.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

OS DEZ MANDAMENTOS DAS PRÁTICAS DA HUMILDADE

I

Abre os olhos da tua alma e pensa que nada tens para te mover a alguma estima de ti. De teu só tens o pecado, a debilidade, a fraqueza; e quanto aos dons da natureza e da graça que estão em ti, assim como os recebeste de Deus, que é o princípio de todo ser, assim só a Ele deves dar glória.

II

Concebe por isso um profundo sentimento do teu nada, e fá-lo crescer constantemente no teu coração, apesar do orgulho que existe em ti. Intimamente, persuade-te de que não há no mundo coisa mais vã e ridícula que o desejo de ser estimado por alguns dons que recebemos da gratuita liberalidade do Criador, pois, como diz o Apóstolo, se os recebeste, por que te glorias como se fossem teus, e não os tivesses recebido? (1Cor 4,7).

III

Pensa frequentemente na tua fraqueza, na tua cegueira, na tua vileza, na tua dureza de coração, na tua inconstância, na tua sensualidade, na tua insensibilidade para com Deus, no teu apego às criaturas e em tantas outras viciosas inclinações que nascem da tua natureza corrompida. Sirva-te isto de grande motivo para te espantares continuamente no teu nada, e seres aos teus olhos o menor e o mais vil de todos.

IV

A memória dos pecados da tua vida passada esteja sempre impressa no teu espírito. Nenhuma outra coisa consideres tão abominável como o pecado da soberba, o qual, posto em comparação, vence qualquer outro, tanto sobre a terra como no inferno: este foi o pecado que fez prevaricar os anjos no Céu e os precipitou nos abismos; este foi o que corrompeu todo o gênero humano, e que fez cair sobre a terra aquela infinita multidão de males, que durarão enquanto durar o mundo, ou, melhor dizendo, durarão toda a eternidade.

Ademais, uma alma maculada pelo pecado só é digna de ódio, de desprezo e de suplícios; vê, portanto, que estima podes fazer de ti mesmo, depois de tantos pecados dos quais te tornaste culpado.

V

Considera também que não há delito, por enorme e detestável que seja, ao qual não se incline a tua natureza corrompida, e do qual não possas fazer-te réu; e que só pela misericórdia de Deus e pelo socorro das suas divinas graças foste dele livre até hoje, segundo aquela sentença de Santo Agostinho: 'Não haveria pecado no mundo que o homem não cometesse, se a mão que fez o homem deixasse de sustentá-lo (Arl. C. 15). Chora eternamente esse deplorável estado e toma a firme resolução de te incluíres entre os mais indignos pecadores.

VI

Pensa frequentemente que cedo ou tarde vais morrer e que o teu corpo apodrecerá numa fossa; tem sempre diante dos olhos o inexorável tribunal de Jesus Cristo, onde todos necessariamente devem comparecer; medita nas eternas penas do inferno preparadas para os maus, e principalmente para os imitadores de Satanás, que são os soberbos. Considera sinceramente que, por esse véu impenetrável que esconde aos olhos mortais os juízos divinos, estás na incerteza de pertencer ou não ao número dos réprobos, que eternamente, em companhia dos demônios, serão remetidos para aquele lugar de tormentos, para serem vítimas eternas de um fogo aceso pela ira divina. Esta incerteza deve bastar por si só para conservar-te numa extrema humildade e para inspirar-te o mais salutar temor.

VII

Não te iludas pensando que poderás conseguir a humildade sem aquelas práticas que a ela estão ligadas, como os atos de mansidão, de paciência, de obediência, de ódio contra ti, de renúncia ao teu sentimento e às tuas opiniões, de arrependimento dos teus pecados e outros atos semelhantes, porque somente estas armas poderão vencer em ti o reino do amor-próprio, aquele abominável terreno onde brotam todos os vícios, onde se aninham e crescem desmedidamente o teu orgulho e a tua presunção.

VIII

Tanto quanto possível, observa o silêncio e o recolhimento, desde que isso não cause prejuízo a outrem, e, quando fores obrigado a falar, fala sempre com gravidade, com modéstia e simplicidade. E se por acaso não fores ouvido, seja por desprezo ou por qualquer outra causa, não te mostres ressentido, mas aceita essa humilhação e sofre-a com resignação e tranquilidade.

IX

Com todo o cuidado e atenção, evita proferir palavras atrevidas, orgulhosas e que indiquem pretensão de superioridade, como também qualquer frase estudada e toda a sorte de gracejos frívolos; cala sempre tudo aquilo que puder fazer com que te considerem uma pessoa de espírito e digna da estima dos outros. Nunca fales de ti sem justo motivo e nada digas que possa granjear-te honra e louvor.

X

Cuida-te de não mortificar e ferir a outrem com palavras e sarcasmos; foge de tudo o que lembra o espírito mundano. Fala pouco das coisas espirituais e não o faças em tom magistral e à maneira de repreensão, a não ser que a isso sejas obrigado pelo teu cargo ou pela caridade: contenta-te com interrogar os que delas entendem e que sabes que te podem dar conselhos oportunos; porque o querer fazer-se de mestre sem necessidade é acrescentar lenha ao fogo da nossa alma, que se consome em fumaça de soberba.
(Papa Leão XIII)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVIII)

         

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XIII. Como os bem aventurados serão levados ao Céu após o Juízo Final 

Quando a terra se abrir e engolir as almas dos condenados, então os anjos e os bem-aventurados exultarão e se alegrarão. Eles exaltarão a justiça de Deus e confessarão que os réprobos mereceram plenamente o seu destino. São João, em seu Apocalipse, oferece uma bela descrição de como os bem-aventurados se alegrarão e glorificarão a justiça de Deus.

Vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios... porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribuí-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos... Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa' (Ap 18,1-2.5-7.20).

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos'. Depois recomeçaram: 'Aleluia! Sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos'. Então, os vinte e quatro Anciãos e os quatro Animais prostraram-se e adoraram a Deus que se assenta no trono, dizendo: 'Amém! Aleluia!'. Do trono saiu uma voz que dizia: 'Cantai ao nosso Deus, vós todos, seus servos que o temeis, pequenos e grandes'... 'Aleluia! Eis que reina o Senhor, nosso Deus, o Dominador!' Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada... 'Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro' (Ap 19,1-7.9).
 
Essas palavras, de fato, apresentam uma perspectiva maravilhosa. Quão excelente não será o canto de triunfo dos santos quando entrarem como convidados nas bodas do Cordeiro! Quão em regozijo cantarão Aleluia! Quão fervorosamente agradecerão a Deus por tê-los livrado da condenação eterna e por tê-los contado entre os seus eleitos!

A ascensão ao Céu ocorrerá em seguida. Será que alguém ousa descrever isso também? As mais doces melodias encherão o ar. São Miguel liderará a gloriosa procissão, carregando a cruz na qual Cristo morreu. Pois a cruz e todos os outros instrumentos da Paixão serão preservados no Céu - pelo menos essa é a opinião de vários teólogos eruditos. Seguindo essas relíquias sagradas, virá o primeiro coro de Anjos, juntamente com aqueles membros da companhia dos salvos a quem a sentença de Cristo designou um lugar no mais baixo dos coros angélicos. As crianças que morreram na infância e as almas que persistiram no pecado até o fim, mas que foram salvas pela infinita misericórdia de Deus e pelo verdadeiro arrependimento de sua parte, estarão com o primeiro coro de anjos. Com que fervor elas louvarão seu Deus por sua compaixão indescritível!

Em seguida virá o coro dos arcanjos, e com eles os santos que mereceram um lugar neste segundo coro angelical. Casais tementes a Deus, viúvas devotas, além de outras pessoas piedosas que viveram no mundo, adornadas com maravilhosa beleza, louvarão e glorificarão a Deus junto com os arcanjos. Em terceiro lugar virá o coro das potências, entre os quais estarão todos os sacerdotes que levaram uma vida santa na terra. Em seguida, virá o coro dos principados, com todos os bispos e prelados santos que governaram a Igreja para a glória de Deus e a salvação daqueles que lhes foram submetidos.

O coro das virtudes virá em quinto lugar, com os doutores da Igreja e todos aqueles que, por meio de sua doutrina e pregação, converteram os incrédulos e os conduziram ao conhecimento da verdadeira fé. Em sexto lugar, virá o coro das dominações, com os confessores que sofreram grande perseguição pela fé e morreram na miséria e na indigência por amor a Cristo. O coro dos tronos seguirá em seguida, com os santos mártires que derramaram o seu sangue e de bom grado entregaram suas vidas pelo nome de Cristo.

O oitavo coro é o dos querubins, entre cujas fileiras estarão aquelas santas virgens que não apenas mantiveram sua castidade imaculada, mas que, consumidas pela caridade divina, levaram uma vida de altíssima perfeição. O nono e mais elevado dos coros angélicos é o dos serafins. Com eles estarão os santos apóstolos e servos de Cristo, que, seguindo os passos do Redentor, viveram na terra uma vida semelhante aos anjos. Em suma, a cada um dos bem-aventurados será designado o seu lugar em qualquer um dos coros angélicos cuja companhia suas virtudes o tornem mais adequado.

Quão gloriosa será a procissão dos coros, e quão melodiosos serão os cânticos celestiais que entoarão! As palavras nos faltam quando tentamos descrevê-la. E para encerrar o cortejo triunfal, virá o Rei do Céu e da terra, coroado de esplendor, Cristo, o Filho primogênito do Pai celestial, acompanhado por sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria. Ele estará rodeado de tal beleza e majestade que o Céu e a terra, e os Anjos e os homens, ficarão maravilhados. De fato, essa ascensão ao Céu será, em todos os aspectos, acompanhada de tal grandeza e glória, será tão inexprimivelmente sublime e bela, que nem mesmo os lábios de um Anjo conseguiriam dar sequer uma ideia do que poderia ser.

Considerai qual não será o êxtase dos redimidos quando se elevarem no ar, tanto em alma quanto em corpo, como se fossem espíritos puros, subindo cada vez mais alto, além dos orbes resplandecentes do Céu com seu brilho dourado, aproximando-se cada vez mais da Jerusalém celestial, a cidade de Deus. Que alegria indescritível os embriagará quando entrarem pelos portões dourados e contemplarem o esplendor e a magnificência da cidade de Deus. Quando a Rainha de Sabá viu a magnificência do palácio de Salomão, ficou sem palavras de espanto. Mas ali está alguém maior do que Salomão, e a majestade e a beleza do palácio do Rei dos reis serão infinitamente maiores do que as de qualquer monarca terreno. Daí podemos supor qual será o êxtase bem-aventurado dos abençoados, quando lhes for concedido contemplar o que Deus preparou para aqueles que o amam.

Não desejas, ó piedoso cristão, habitar com os redimidos e desfrutar das delícias indescritíveis da cidade de Deus, a Jerusalém celestial? Certamente que o desejas. Todos nós temos dentro de nós um impulso poderoso, um anseio ardente por felicidade e alegria. Não busques essa felicidade, não te esforces para garantir a alegria pela qual tua alma anseia neste vale de lágrimas. Levanta os teus olhos para a terra que está acima, que essa seja a tua meta, e um dia subirás às alturas com cânticos de júbilo. Que Deus conceda a ti e a mim que, por sua graça, esse destino feliz seja a nossa parte.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 21 de abril de 2026

QUANDO DEUS PUNE OS ÍMPIOS NESTA VIDA

A Providência Divina governa este mundo de tal maneira que não pune todos os ímpios nesta vida, mas não deixa de punir muitos deles. Se Deus punisse a todos, as pessoas poderiam imaginar que tudo acabou nesta vida, não restando nada para a próxima; e se Ele não punisse ninguém, poderiam imaginar que não há Providência para governar os assuntos humanos. Portanto, a Sabedoria Divina (que dirige todas as coisas para o bem de suas criaturas) pune algumas coisas severamente nesta vida, para que as pessoas vejam que a Providência existe (especialmente aquelas coisas tão extremas que elas mesmas clamam a Deus e imploram por vingança) e deixa outras impunes, para que entendamos que Ele reserva o seu castigo para a vida futura e que nem tudo se resolve nesta vida terrena.

Isso pode ser confirmado para alguns dos imperadores que perseguiram a Igreja, que receberam ainda aqui o que lhes era devido, particularmente durante a chamada Era dos Mártires. Assim, a divina Providência resplandece maravilhosamente, usando tiranos como ministros e instrumentos para estabelecer a Fé da sua Igreja com o sangue dos mártires e para adornar o Céu com esse glorioso exército. Pois se não houvesse tiranos, não haveria mártires; se não houvesse Décio, não haveria Lourenço. Se não houvesse Deciano, não haveria Vicente; e se não houvesse Herodes, não haveria mártires inocentes. Neste sentido, muitos reis e imperadores que martirizaram os santos da Igreja tiveram fins trágicos.

Herodes, para matar o Menino Jesus, matou os Inocentes, teve doença e morte foram terríveis;  após ter os olhos saltado das órbitas, em um banho, desesperado, apunhalou o próprio peito e se matou, depois de ter ordenado a morte do terceiro de seus filhos, após já ter matado dois deles (Antiguidades Judaicas, Flávio Josefo, Livro 16, Capítulo 13).

O segundo Herodes, que decapitou Tiago e aprisionou São Pedro, foi ferido por um anjo e morreu devorado vivo por vermes, como o próprio Josefo e São Lucas relatam. O terceiro perseguidor da Igreja (Idem, Livro 19, Capítulo 7, Atos 12) foi Nero (que martirizou São Pedro e São Paulo). Vendo que não podia escapar dos conspiradores que buscavam matá-lo, livrou-os dessa tarefa suicidando-se. O quarto, Domiciano, que exilou São João Evangelista, foi morto pelos seus próprios homens.

Valeriano, um cruel perseguidor da Igreja, foi derrotado em batalha pelo rei dos persas, que o capturou, ordenou que lhe arrancassem os olhos e o usou como apoio para os pés quando cavalgava. Aureliano foi morto pelos seus próprios homens. Décio, que martirizou São Lourenço, foi morto junto com seus filhos.

Diocleciano, a besta mais cruel, que se fez venerar como um deus, caiu em tamanha perdição e loucura que foi forçado a abandonar a Coroa e o Cetro e viver como um homem comum. Maximiano, seu companheiro, também o abandonou e viveu como ele; e mesmo assim, não lhe foi permitido viver, pois Maxêncio, seu filho, que queria tomar o Império, o expulsou de Roma. De lá, fugiu e buscou a proteção de Constantino, seu genro. E, sendo nobremente recebido por ele, tramou uma traição contra o imperador. Isso foi descoberto, e por isso foi punido com a morte, a desonra e a infâmia. Suas estátuas e medalhas foram ordenadas a serem destruídas onde quer que estivessem, e os nomes dos estabelecimentos públicos que levavam seu nome foram ordenados a serem mudados. 

Maxêncio, seu filho, herdeiro dos vícios e da crueldade do pai, morreu por um milagre especial e pela vontade divina. Porque, tendo construído uma ponte falsa sobre um rio perto de Roma, para que o imperador Constantino, ao chegar, afundasse no rio, este, como que num acesso de loucura, esquecendo-se do que havia tramado, colocou os pés sobre o cavalo e, atravessando a ponte, caiu e se afogou.

Maximino, também um dos mais cruéis perseguidores da Igreja, foi derrotado em batalha pelo próprio Constantino e escapou fugindo de seu exército para o meio dos aguadeiros. Portanto, indignado com os adivinhos que lhe prometeram a vitória, ordenou que fossem mortos. E por essa afronta, Deus o castigou com uma doença gravíssima, com suas entranhas inchando e apodrecendo; e em seu peito surgiu uma ferida que, pouco a pouco, se espalhou por todo o seu corpo, além das outras feridas que já tinha, das quais jorravam vermes. E com eles exalava um odor tão terrível que ninguém, nem mesmo os cirurgiões, conseguia se aproximar dele. E vendo que seus médicos não conseguiam curá-lo nem lhe fazer nenhum bem, mas, ao contrário, fugiam dele por causa de seu odor abominável, ordenou que muitos deles fossem mortos. Finalmente, perdendo a visão e compreendendo melhor a feiura de seus sofrimentos, pôs fim à sua vida perversa com uma morte dolorosa.

Licínio, que governou no Oriente na época de Constantino, que perseguiu a Igreja não menos cruelmente que seus predecessores, insurgindo-se contra Constantino, também foi morto por ele em batalha.

Depois disso, Juliano, o Apóstata (que, com outras novas artes, travou uma guerra ainda mais cruel contra a Igreja), pôs fim ao seu império e à sua vida em poucos dias, morrendo na guerra contra os persas, deixando seu exército em grande perigo; nem seus deuses, nem seus adivinhos e encantadores, em quem depositava toda a sua confiança, puderam lhe valer qualquer proveito.

Valente, o Ariano, um grande perseguidor dos católicos, foi derrotado pelos godos em batalha; e, quando escondido em uma cabana, esta foi incendiada e assim ele morreu, como mereciam os seus atos.

Esses foram os fins e destinos crueis de muitos daqueles que pegaram em armas contra a religião cristã e isso constitui um argumento considerável a favor da verdade e da santidade da Igreja.

(Excertos da obra Introdução ao Símbolo da Fé', do Frei Luís de Granada, Espanha, 1730)

sábado, 18 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVII)

        

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XII. Como os condenados lamentarão e serão lançados no inferno

Sabemos, pelo testemunho das próprias palavras de Cristo que, aos condenados, será permitido falar com Ele, depois de terem recebido sua sentença. Então (isto é, após a sentença ter sido pronunciada), Ele nos diz: 'Eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te servimos? (Mt 25,44).

Quando as almas perdidas perceberem que não há mais nenhum resquício de esperança de que sua terrível sentença de condenação possa ser atenuada, elas, em seu desespero, proferirão horríveis imprecações: 'malditos sejam os pais que nos deram à luz; malditos sejam todos aqueles que nos levaram ao pecado; malditos sejam todos os homens que viveram conosco nesta terra; maldito seja Aquele que nos criou; maldito seja o sangue de Cristo, com o qual fomos redimidos; malditos sejam todos os santos de Deus!'

O que fará o Juiz Divino quando os ouvir injuriar a Deus dessa maneira chocante? Quando Ele próprio, diante do conselho judaico, reconheceu que era o Filho de Deus, o sumo sacerdote Caifás rasgou suas vestes e clamou em alta voz: 'Ele blasfemou; agora que ouviram a blasfêmia, o que pensam?' E o povo, respondendo, disse: 'Ele é digno de morte'. A mesma cena se repetirá agora, só que será mil vezes mais terrível. Quando Cristo ouvir essas blasfêmias, Ele exclamará, em santa indignação: 'Eles blasfemaram contra Deus, amaldiçoaram a mim e aos meus santos! Vocês mesmos ouviram, agora o que pensam?' Então, todos os anjos e santos responderão: 'Eles são dignos da morte eterna, das dores eternas do inferno! Levai-os para o lugar do tormento, levai-os para o fogo eterno!'

Então se cumprirá o que está predito no livro da Sabedoria: 'O Juiz Divino tomará o zelo como sua armadura e armará a criatura para a vingança dos seus inimigos. Ele vestirá a justiça como couraça e tomará o verdadeiro julgamento em vez de um elmo. Ele tomará a equidade como escudo invencível e afiará a sua ira severa como lança, e o mundo inteiro lutará com Ele contra os insensatos. Então, raios sairão diretamente das nuvens, como de um arco bem tensionado. Serão disparados e voarão em direção ao alvo. E granizo espesso será lançado sobre eles pela ira que lança pedras; as águas do mar se enfurecerão contra eles, e os rios correrão juntos de maneira terrível. Um vento poderoso se levantará contra eles e, como um redemoinho, os dividirá; e a sua iniquidade transformará toda a terra em um deserto, e a maldade derrubará os tronos dos poderosos' (Sb 5,18-24).

Com estas palavras terríveis, a Sagrada Escritura, o livro da verdade eterna, descreve a sagrada indignação com que o Juiz supremo castigará os condenados enquanto ainda estiverem na terra. Todos os elementos - trovões, relâmpagos, tempestades de granizo, as ondas furiosas do oceano, redemoinhos e tempestades - enfim, todos os poderes da natureza tornar-se-ão instrumentos para executar a vingança de Deus sobre aqueles que se rebelaram contra Ele, contra os miseráveis abandonados cuja existência na terra tem sido uma longa e terrível afronta ao seu Criador. Pois, em suas palavras e obras, blasfemaram contra Ele, o Deus de infinita santidade, poder e bondade amorosa. Ofenderam deliberadamente o Criador e Mantenedor do reino da natureza; por isso, toda a natureza se levantará contra eles em vingança.

Agora, quando Cristo derramar sobre esses seres infelizes toda a fúria das forças da natureza em sua raiva vingativa e primitiva, a terra se abrirá sob seus pés, e eles, juntamente com todos os demônios, serão engolidos. São João, no Apocalipse, diz: 'E um anjo poderoso pegou uma pedra, como que uma grande mó, e a lançou no mar, dizendo: com tal violência como esta será derrubada Babilônia, a grande cidade, e não será mais encontrada' (Ap 18,21). Não significam estas palavras proferidas pelo Anjo que todas as almas perdidas descerão ao inferno com o ímpeto de uma pedra de moinho que afunda até o fundo do abismo de águas para o qual é lançada? Ó terrível queda dos condenados! Quem pode pensar nisso sem estremecer! Ai daqueles para quem ela está preparada; melhor teria sido para eles nunca terem nascido! Assim serão precipitados e o inferno abrirá, como um dragão feroz, suas mandíbulas para devorá-los e os engolirão, conforme a profecia de Isaías: 'Por isso, o inferno se alargará e abrirá desmesuradamente a boca. O esplendor de Sião e sua multidão barulhenta, seu alvoroço e sua alegria nele desaparecerão' (Is 5,14). 

Quem pode retratar o desespero dos condenados, a fúria com que, no abismo profundo e sombrio do inferno, procurarão, em sua raiva, rasgar-se e dilacerar-se entre si? Que palavras podem descrever os uivos e gemidos que ecoarão por aquele lugar de tormento? Está além do poder do homem conceber. Pois se a Sagrada Escritura nos diz que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem ainda subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam, não se poderá também dizer que o homem não pode formar qualquer ideia do que Deus preparou para aqueles que tão frequentemente, tão deliberadamente, o insultaram? E se as alegrias do Céu superam toda a nossa capacidade de descrição, não serão também os tormentos do inferno inconcebivelmente inimagináveis?

Reflita sobre isso, ó leitor, reflita com frequência, e não desperdice a tua vida em prazeres fúteis, mas procura salvar a tua alma. Clama a Deus com todo o fervor do teu coração e implora que Ele te conceda uma sentença favorável no dia do Juízo Final, dizendo em oração fervorosa.

ORAÇÃO

Deus justíssimo e Juiz de todos os homens, muitas vezes e gravemente eu vos ofendi e nada tenho a esperar da vossa justiça senão castigo severo. No entanto, eis que vos confesso as minhas faltas; delas me arrependo e abomino, propondo firmemente, a partir de agora, ser-vos sempre fiel. Por isso, suplico-vos, pela vossa infinita misericórdia, que eu seja perdoado dos meus pecados, livrado da morte que condena e me torne merecedor da felicidade eterna. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

A FONTE DA INFINITA MISERICÓRDIA

 

Alma necessitada de misericórdia,
seja quem for e onde quer que esteja,
saiba que todas as riquezas da Divina Misericórdia
estão prontas para você, contidas e ofertadas,
no Santíssimo Sacramento do Altar.

Caminhe até o sacrário,
ou procure a custódia que exibe o Corpo de Cristo,
– um banquete para os seus olhos –
e  adore ali o mistério da Divina Misericórdia.
Abra por inteiro o seu coração, 
na plenitude da disposição interior, 
para acolher a poderosa torrente de Misericórdia
destinada a você e, por meio de você, 
àqueles cujas dores e fraquezas
você escolheu ou lhes foi dado suportar.

Adore o Sangue e a Água que, ainda agora,
jorram do Lado Sagrado
com uma frescura e uma pureza que nunca envelhecem.
Adore os dons do Espírito Santo
e anseie recebê-los hoje e sempre, 
como a Alma da tua alma,
ou seja, a própria Vida da tua vida.
A Fonte da Divina Misericórdia
está escondida no Sacramento do Altar.

Perto da Fonte Eucarística,
você encontrará Maria, a Mater Misericordiae.
Ela nunca se cansa de comunicar às almas
a abundância da Divina Misericórdia.
Tão próxima está ela da Fonte,
que é como se ela e a Fonte fossem uma coisa só:
tudo o que jorra da Fonte passa por ela,
e está em seu poder direcionar o fluxo da Divina Misericórdia
para quem ela quiser.
O seu Filho confia tanto em seu Coração maternal
que lhe confiou tudo,
permitindo-lhe dispensar livremente da sua Misericórdia para com as almas.

Alma devotada à Divina Misericórdia,
adore Aquele que está presente como Misericórdia
no Sacramento do Altar.
A Divina Misericórdia entra no mundo pelo Santíssimo Sacramento,
pois nele está o Coração de Jesus, a fonte da sua Misericórdia,
e seu Lado traspassado, a fonte da Divina Misericórdia,
a porta pela qual a Divina Misericórdia entra no universo
e espraia abundantemente sobre as almas
para purificá-las, santificá-las e glorificá-las.

Alma submersa em misérias,
se deseja experimentar a Divina Misericórdia,
aproxime-se da Presença Eucarística do Transpassado;
permanece na luz do seu Rosto Eucarístico;
mantenha-se recolhido e confiante diante do seu Lado Aberto.
Ali, você nunca será decepcionado em sua esperança.
Pois com Ele está a Misericórdia e a redenção abundante,
e Ele perdoará todos os seus pecados.
Cada tabernáculo que abriga o seu adorável Corpo e Sangue
coloca à sua disposição e a de todos os seus filhos,
a Fonte da infinita Misericórdia de Deus.

(A Inesgotável Misericórdia de Deus, do site Vultus Christi)