A história das iniquidades do Parlamento de Paris encheria um grande volume. Apresentaremos um episódio que poderia ocupar uma página de tal obra. Em 6 de fevereiro de 1737, um ano depois de o governo das Duas Sicílias ter caído nas mãos dos Bourbons, e no mesmo ano em que o ducado da Toscana passou à Casa de Lorena, o Parlamento de Paris estava cheio de orgulho. Naquele dia, estava disposto a demonstrar, por algum ato arbitrário, seu grande poder e sua vontade soberana. Assim, suprimiu solenemente uma confraria. Que confraria era essa? A de Nossa Senhora do Livramento, que havia levado uma existência tranquila por mais de dois séculos na igreja de Saint-Étienne-des-Grès, em Paris. 'Pois bem' - disse um cidadão, que naquela noite ceava com um membro do Parlamento, dirigindo-se ao anfitrião - 'foi um ato estranho de vossa parte suprimir a boa confraria de Nossa Senhora! 'Contudo, está feito!' - foi a resposta.
➖Mas com que fundamento? - perguntou o outro. Ela foi fundada em 1533 por bons cidadãos e cristãos, e confirmada pelas bulas de quatro Sumos Pontífices. Luís XIII, Ana da Áustria, Luís XIV, o Grande Condé e muitos outros príncipes consideraram uma honra ter seus nomes inscritos em seu registro. São Francisco de Sales e São Vicente de Paulo foram seus membros. E foi diante da imagem de Nossa Senhora do Livramento que o jovem Francisco, como sabeis, foi libertado das mais cruéis tentações. Ele prosseguia seus estudos em Paris e estava em seu décimo sexto ano de vida quando o espírito maligno lhe encheu a mente com o terrível pensamento de que pertencia ao número dos réprobos e de que jamais alcançaria o Céu. Tão terrivelmente o tentador o atormentava que ele não comia, não bebia nem repousava, e seu corpo emagrecia visivelmente. Seu preceptor, vendo-o piorar a cada dia e sentir aversão por qualquer ocupação, procurou em vão descobrir a causa de seu abatimento. O demônio que lhe sugeria essa ilusão era um daqueles chamados mudos, por causa do silêncio que impõe àqueles a quem aflige.
Francisco, embora privado daqueles doces sentimentos que o amor de Deus comunica à alma cristã, permaneceu fiel à graça e fez o possível para repelir os assaltos do maligno. Mas, quando recordava a paz e a felicidade de que desfrutara antes dessa provação, só conseguia chorar e entristecer-se. Permaneceu nessa agonia durante um mês. Depois desse tempo, sua fidelidade foi, sem dúvida, recompensada. Uma inspiração divina o conduziu à igreja de Saint-Étienne-des-Grès. Entrou e lançou-se aos pés da estátua de Nossa Senhora do Livramento e suplicou sua intercessão em seu favor: 'Alcançai-me, pela bondade de Deus, que, se eu tiver de ficar eternamente separado d’Ele, ao menos me seja permitido amá-lo aqui de todo o coração'.
Tal foi sua oração. Ele conhecia o poder do 'Lembrai-vos' e o recitou com fervor. Quando terminou, sentiu uma doce sensação apoderar-se dele e seus temores se dissiparam inteiramente. Transbordando de alegria, apressou-se em tornar pública a graça que recebera; e conservou sempre grande devoção a Nossa Senhora do Livramento e à confraria a ela vinculada, que acabais de abolir. Não deveria um testemunho como esse ter pesado em seu favor?'
➖ O decreto foi aprovado - disse o legislador.
➖ Mas considerai os aflitos, os enfermos e as mulheres em trabalho de parto, que têm grande devoção a Nossa Senhora do Livramento. Os viajantes, os prisioneiros e os atribulados de coração dirigem-lhe seus votos.
➖ Nossa lei não impede suas súplicas; apenas suprimimos a confraria.
➖Reconheço vossa consideração em não suprimir a própria Nossa Senhora - respondeu o cidadão com um sorriso malicioso. Mas a confraria era uma instituição admirável. Além do cuidado que dispensava aos enfermos e das esmolas que distribuía aos pobres, procurava, de modo especial, fazer jus ao seu título, obtendo a libertação dos prisioneiros. Todos os anos conseguia a liberdade de um grande número de pessoas presas por dívidas. A própria autoridade real havia reconhecido a utilidade de tão benemérita instituição. Confirmara sua estabilidade por meio de muitos editos reais em seu favor. Que há nela que possa provocar vosso desagrado? Suas únicas ocupações eram obras de piedade, reuniões de caridade, simples procissões e belas e edificantes cerimônias. Dizei-me: quais são vossas razões?
➖ Dar-vos-ei apenas uma, e será uma razão régia: 'Assim nos pareceu por bem'.
➖ Diante da qual, naturalmente, devo curvar-me em submissão - respondeu o bom cidadão.
E assim a confraria foi suprimida por um ato do Parlamento.
Mas a venerada imagem de Nossa Senhora do Livramento, a Rainha da confraria, permaneceu nas mãos do povo; e todos os aflitos acorriam ao seu santuário. Trata-se de uma antiga estátua de pedra negra, esculpida de maneira rudimentar e muito venerada desde o século XI. Há muitas tradições a ela associadas, mas, como se apoiam em testemunhos incertos, não as mencionaremos.
O que o Parlamento de 1737 não fizera, a Revolução de 1793 realizou: suprimiram o culto a Deus e à Santíssima Virgem e fecharam os seus templos. A igreja de Saint-Étienne-des-Grès, despojada de suas riquezas, foi vendida e demolida! Aqueles que levaram as cruzes, as imagens de prata e outras obras de latão e metal não se interessaram pela estátua de pedra de Nossa Senhora do Livramento, que não tinha valor material.
Uma piedosa senhora, a condessa de Carignan Saint-Maurice, devota serva de Nossa Senhora e muito confiante em sua proteção, encarregou uma pessoa, desconhecida naquele lugar, de comprá-la. Depois de pagar por ela, essa pessoa a levou à condessa, que a colocou num pequeno oratório de sua casa, julgando-se então em segurança. Seu nome, porém, já estava inscrito na lista dos proscritos. Foi presa e lançada no cárcere. Ali encontrou consolo na companhia da superiora, Madre Valois, e de muitas das Irmãs Hospitaleiras de São Tomás de Vilanova, que, juntamente com ela, se entregaram à compaixão de Nossa Senhora do Livramento.
Assim, essas boas mulheres rezavam e esperavam no asilo que a terna misericórdia dos revolucionários lhes proporcionara. E não esperaram em vão. Chegou o dia de sua libertação: era 4 de outubro de 1794. As Irmãs Hospitaleiras, receando não ter uma casa para onde ir, sentiam-se aflitas por se separar de sua companheira. Todos os conventos haviam sido suprimidos e seus bens confiscados; suas casas tinham sido transformadas em prisões, quartéis ou depósitos militares. Mas, por uma singular proteção da Providência, a casa das Hospitaleiras havia passado despercebida. As irmãs voltaram a ocupá-la, vestidas com trajes seculares; três meses depois, porém, foram denunciadas ao clube de seu distrito como religiosas disfarçadas. Decidiu-se imediatamente que os edifícios ocupados pela comunidade seriam vendidos e, por isso, foram cobertos de avisos de venda pública.
Ao saber disso, a senhora de Carignan fez o voto de doar sua fortuna e sua querida imagem às Irmãs Hospitaleiras, que novamente se colocou sob a proteção especial de Nossa Senhora do Livramento. Todas as irmãs se uniram a ela numa novena, e grande foi seu espanto ao ver, dez dias depois, que todos os cartazes haviam desaparecido; ninguém mais pensava na venda, e as irmãs permaneceram na posse tranquila de seu convento. O tempo passou e, por um privilégio quase único, as filhas de São Tomás de Vilanova atravessaram a Revolução nesse convento sem serem molestadas, como o foram todas as outras religiosas da cidade.
A santa imagem foi instalada na casa das Hospitaleiras em 1806 e Pio VII concedeu diversas indulgências a essa devoção. A bela capelinha na qual ela é agora venerada só foi concluída em 1830. Assim, rodeada de virgens fiéis, a imagem de Nossa Senhora do Livramento - que arrancou São Francisco de Sales das profundezas do desespero, que abriu as portas da prisão a tantos aflitos e que salvou a piedosa herança das boas Hospitaleiras - ainda protege Paris, que precisa ser libertada de tantas ciladas.
(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)





































