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sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVI)

Os vitrais e as rosáceas constituem um dos elementos mais característicos da arquitetura gótica medieval. As rosáceas são grandes janelas circulares preenchidas por delicados rendilhados de pedra com vitrais. Muito além de elementos de decoração, expressam a fé católica por meio da luz transmitida que assume a cor dos vidros coloridos. Nas palavras de São Bernardo de Claraval: 'Assim como um raio de luz branca entra numa janela de vidro e sai ileso, mas adquire a cor do vidro, o Filho de Deus, que entrou no ventre castíssimo da Virgem, saiu puro, mas assumiu a cor da Virgem, isto é, a natureza de um homem e a formosura da forma humana, e revestiu-se dela'. As rosáceas das grandes catedrais francesas expressam magistralmente a beleza desta comparação.  

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Notre-Dame)

(rosácea da Catedral de Estraburgo)

(rosácea ocidental da Catedral de Amiens)

(rosácea ocidental da Catedral de Laon)

(rosácea ocidental da Catedral de Reims)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLV)

Os tapetes de Corpus Christi revelam uma tradição muito antiga, que surgiu na região dos Açores em Portugal no século XV e foi introduzida no Brasil no período colonial. Em Minas Gerais, estado que durante o Ciclo do Ouro recebeu milhares de portugueses, a tradição foi amplamente difundida e se enraizou na sociedade cristã de todas as épocas, fazendo parte da tradição religiosa mineira. Em Ouro Preto/MG, essa tradição resulta em um verdadeiro espetáculo de fé, arte e cultura, numa mistura grandiosa de beleza, devoção e encantamento.





 


sábado, 28 de março de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (XI)

Os ícones para a Festa de Todos os Santos desenvolveram-se principalmente a partir do século IX e não apresentam muitas variantes. O cenário de referência é o Paraíso, expresso pelas imagens de árvores e arbustos. A parte central do ícone representa a chamada 'nuvem de testemunhas', descrita por São Paulo em sua carta aos Hebreus (Hb 11,33-12,2), contemplando os santos de todos os tempos. O círculo que os envolve representa, na tradição cristã, a dimensão da eternidade. Os santos estão reunidos ao redor de Cristo, comumente com vestes douradas (símbolo de sua realeza) e um livro nas mãos (símbolo de sua missão profética), envolvido por uma mandorla (halo amendoado), símbolo ancestral para expressar a majestade, a glória e a divindade de Cristo nos ícones sagrados.


Os santos são representados em hierarquias distintas, incluindo apóstolos, mártires, profetas, Padres da Igreja e assim por diante, sempre num contexto de um multidão inumerável, como expresso no Apocalipse: 'uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas' (Ap 7,9). Em algumas representações, esta hierarquia é ainda muito mais rígida, buscando refletir a ordem divina dos Céus, como um grande templo celestial com Cristo reinando sobre tudo.


Abaixo do Cristo, encontra-se o Trono da Preparação, simbologia da Presença Invisível de Cristo, por meio de um trono vazio, ornado por um manto (símbolo da autoridade) e por um livro (Livro da Vida), que simboliza o julgamento final por Cristo que virá 'para julgar os vivos e os mortos' de todos os tempos. Esta simbologia universal e temporal é representada pelas figuras de Adão e Eva que se prostram sobre o trono vazio. O trono vazio é, muitas vezes, complementado pela imagem da Cruz de Cristo, sustentada por anjos ou por Santa Helena.


Na parte inferior esquerda do ícone, encontra-se o Patriarca Abraão segurando uma criança no colo, símbolo das almas dos justos, que encontram repouso no 'seio de Abraão' (Lc 16,19-31). À direita, tem-se o Patriarca Jacó, segurando um pano que ostenta o símbolo das 'Dozes Tribos de Israel', ou seja, todos os santos do Antigo Testamento, enquanto no centro está São Dimas, o ladrão penitente a quem Cristo disse na cruz: 'Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso' (Lc 23,39-43). Alternativamente, o Patriarca Isaac também é representado, com todos os patriarcas acolhendo em si as almas dos justos. Nos cantos superiores, encontram-se as imagens dos reis Salomão (à esquerda) e Davi (à direita), segurando pergaminhos com cantos sapienciais.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ATÉ QUANDO?

'Nos últimos tempos, virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências' (2Pd 3,3)


'Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores' (Sl 1,1)

O escárnio, a blasfêmia e o escândalo são frutos da miséria humana desde a criação. E o Filho do Homem numa cruz nos ensinou que o caminho da graça não perpassa pela lixeira dos sentidos, muito menos por uma avenida de lixos em conserva.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (XI)


Dois pesquisadores matemáticos* concluíram, em publicação recente no periódico Journal of Theoretical Biology, que a probabilidade de formação de uma proteína funcional - fonte de qualquer processo vital - é de 1 em 100.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000. Por outro lado, muitas proteínas precisam interagir formando grupos para realizar uma função química específica. Na imagem no topo do texto, por exemplo, um complexo proteico (à esquerda) é analisado de acordo com as interações das várias proteínas que o compõem. Assim, mesmo ignorando a baixa probabilidade de formação de cada proteína individual, a probabilidade de formação de complexos proteicos é absurdamente baixa. Como resultado, você tem uma probabilidade extremamente baixa de que proteínas individuais possam ser produzidas por interações químicas aleatórias e, mais do que isso, uma probabilidade absurdamente baixa de que tais proteínas produzidas aleatoriamente possam formar os complexos necessários para a vida. Isso significa que a chance de tais complexos proteicos se formarem como resultado de processos aleatórios é extremamente baixa x absurdamente baixa.

Quanto mais aprendemos sobre o universo, mais percebemos que ele é produto de um projeto. De fato, há algum tempo, muitos cientistas reconhecem que o universo é finamente ajustado para a vida. Existem muitos parâmetros que governam como as coisas acontecem no universo, e todos eles têm as características necessárias para que a vida floresça. Um elétron, por exemplo, é precisamente tão negativo quanto o próton é positivo, apesar de serem partículas muito, muito diferentes. Se as cargas estivessem desalinhadas por apenas um bilionésimo de um por cento, o desequilíbrio elétrico resultante nas moléculas tornaria até mesmo objetos muito pequenos instáveis ​​demais para se formarem. A explicação mais óbvia para esse ajuste fino é que o universo foi projetado para a vida.

(Excertos do artigo 'Another Peer-Reviewed Paper Favoring Intelligent Design', de Jay Wile)

* Thorvaldsen, S., & Hössjer, O. (2020). Using statistical methods to model the fine-tuning of molecular machines and systems. Journal of Theoretical Biology, 501, Article 110352.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (X)


Deus está, como diz o Catecismo da Igreja Católica, 'além do espaço e do tempo'. Se Deus não tivesse escolhido criar o espaço e o tempo, não existiriam tais coisas como espaço e tempo; portanto, as categorias espaciais e temporais não podem ser aplicadas à própria natureza de Deus. Deus é 'eterno' não no sentido de duração ilimitada, mas no sentido de existência atemporal. Como disse São Tomás de Aquino, Deus vive no nunc stans - 'o agora que permanece imóvel'. A passagem do tempo é o ganho constante de algumas coisas e a perda de outras; mas a plenitude e a perfeição do ser que é a natureza divina não podem perder nada do que têm, nem ganhar nada do que lhes falta, pois não há nada que lhes falte. Deus não aprende nem esquece, mas compreende todas as coisas em um ato infinito, perfeito e imutável de conhecimento e compreensão. Todas as coisas estão, portanto, 'presentes' para ele, não em um passado que ele precisa resgatar da memória, nem em um futuro que ele precisa antecipar. Como disse Santo Agostinho, Deus habita 'na sublimidade de uma eternidade sempre presente'.

Isso é difícil de compreender, porque nós mesmos somos seres mutáveis em um mundo de seres mutáveis, e nossos próprios pensamentos estão em constante fluxo. Não podemos imaginar a atemporalidade. Talvez o mais próximo que possamos chegar disso seja pensar em verdades atemporais, como as verdades da matemática. Não dizemos '2 + 2 serão 4' ou '2 + 2 eram 4'. Isso seria absurdo. Em vez disso, dizemos '2 + 2 são 4'. É assim de uma forma atemporal. A atemporalidade de Deus é um significado que os teólogos viram no nome que Deus revelou a Moisés da sarça ardente: 'EU SOU O QUE SOU' ou simplesmente 'EU SOU'. 'Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU’ me enviou a vós' (Ex 3,14). E Cristo diz de si mesmo: 'Antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8,58).

Como Deus está além do espaço e do tempo, todas as coisas, onde quer que estejam localizadas no espaço e no tempo, estão igualmente presentes para ele e ele está igualmente presente para elas e é igualmente a causa de seu ser e realidade. Ele 'sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra' (Hb 1,3). Portanto, não são apenas as coisas que existiam no início dos tempos que foram criadas por Deus. Todas as coisas que já existiram ou que existirão têm sua existência proveniente de Deus. Você está, neste momento, sendo criado por Deus, pois ele está 'sustentando' a sua existência 'pelo poder da sua palavra'.

(Excertos do artigo 'St Augustine and the Beginnning of Time', de Stephen Barr, tradução do autor do blog)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

QUAL DELES É O SEU PERSONAGEM?

Numa noite fria, em alguma taberna à beira de uma estrada poeirenta, reuniram-se à deriva sete personagens em torno de uma mesa redonda de madeira gasta e com bancos toscos, na disposição indicada na figura abaixo. O vinho servira de pretexto para conforto térmico e para conversas um tanto filosóficas concentradas no milagre de Jesus nas Bodas de Caná.


O primeiro personagem, sentado na posição 1 à mesa, iniciou a discussão:
Nympha pudica Deum vidit, et erubuit - A água viu o seu Senhor e corou.
E emendou rapidamente:
— A frase não é minha, mas de um famoso poeta inglês do século XVII. Mas que, em minha opinião, expressa com real grandeza o primeiro milagre de Jesus, prenúncio da Santa Eucaristia.

Um segundo personagem, na posição 6 à mesa, assentiu respeitosamente e complementou:
—  Excelente a sua colocação, mas tenho a firme convicção de que Jesus fez o milagre apenas para atender as necessidades de uma situação difícil da festa. O prenúncio da eucaristia que você citou é uma interpretação equivocada dos fatos ocorridos.

O terceiro personagem a se inserir neste diálogo espiritual foi o homem baixo e atarracado da posição 4 à mesa. Ele argumentou:

— Penso que a mensagem de Jesus seja mais abstrata do que física: o vinho aqui representaria muito mais um bem a ser compartilhado entre os convivas do que a água que preenchia inicialmente as talhas. O prenúncio na verdade seria do milagre dos pães e dos peixes, cujo verdadeiro milagre não seria a sua multiplicação, mas a oferta e a partilha dos bens disponíveis em favor de todos os irmãos.

O personagem 2 à mesa foi taxativo na sua intervenção:
— Interessante a sua abordagem. No caso dos pães e dos peixes, bastaram cinco pães e dois peixes. Por que, neste caso, as talhas foram integralmente preenchidas com água? Não teria bastado um litro, meio litro de água? Existem milagres e milagres... 

O senhor de óculos e espesso bigode ao seu lado, na posição 3 à mesa, questionou os demais:
— Sim, existem milagres e milagres. E também, muitas distorções e manipulações da verdade. Ou, no presente caso, muitas simulações e muitas metáforas. Água é água. Vinho é vinho. São coisas distintas, francamente distintas. Mas não seria esse milagre a persuasão de sei lá quantas pessoas de que, ainda que bebendo água, elas o tomariam como o melhor dos vinhos?

O personagem 5 à mesa, até agora amuado e aparentemente aborrecido com o assunto, deu os ares de sua graça e presença:
— Ah finalmente uma visão racional e equilibrada dessa estória, estória porque se trata de uma fábula. Que pessoa externa se importaria por que faltaria vinho numa festa de casamento? E por que estariam à disposição na festa as tais talhas de água? Por que não teriam controlado a oferta do vinho aos convidados, a ponto do vinho acabar?

Na posição 7 à mesa, um homem particularmente magro manifestou vivamente então a sua opinião:
— Não houve milagre nenhum porque nesta festa - se é que existiu mesmo - eu apostaria que o que faltou foi água e não vinho...

Aqui estão sete personagens que conformam, no seu modo de pensar, a realidade atual e histórica da natureza humana na sua condição de criaturas de Deus e senhores do seu livre arbítrio. Você consegue definir cada um deles? Qual deles é o seu personagem? 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (III)

 SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER JUDICIÁRIO

Virgínio, um centurião romano, matou a sua própria filha Virgínia, para salvá-la de ser escravizada e desonrada por Ápio Cláudio, que então exercia o cargo de decênviro (magistrado com poder absoluto), mediante decisão de um processo judicial fraudulento, realizado no Fórum Romano, presidido pelo próprio Ápio Cláudio.

 'A Morte de Virgínia', obra do artista francês Guillaume Guillon-Lethière (1828)

Esse evento, ocorrido por volta de 449 a.C., tornou-se um exemplo clássico de abuso e de corrupção judicial, produzindo uma intensa reação do povo romano, o que levou à queda do governo tirânico dos decênviros e ao restabelecimento da República Romana.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (II)

SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER EXECUTIVO

Nero foi o imperador romano (54-68 d.C.) que iniciou as primeiras perseguições aos cristãos, sobretudo após o Grande Incêndio de Roma em 64 d.C., culpando-os pelo incêndio e submetendo-os a punições cruéis, incluindo o suplício de serem queimados vivos (como tochas humanas). Entre outras crueldades, foi responsável pelo assassinato da própria mãe e da esposa grávida.

'As Tochas de Nero', obra do artista polonês Henryk Siemiradzki (1876)

Em meio a revoltas militares e declarado como inimigo público, Nero fugiu de Roma e, temendo uma execução pública humilhante, cometeu suicídio, com ajuda do seu secretário, que o apunhalou. Com a sua morte, desapareceu a dinastia júlio-claudiana e o império submergiu-se numa série de guerras civis.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (I)

SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER LEGISLATIVO

Eis o homem coberto de todas as honrarias - Caio Júlio César: líder militar, imperador, cônsul, sumo sacerdote da religião oficial romana, ditador vitalício, figura de deificação oficial. Assassinado em 15 de março de 44 a.C, no Teatro de Pompeu, em Roma, esfaqueado várias vezes por um grupo de senadores romanos, que pretendiam restaurar a República Romana.

'A Morte de Júlio César', obra do artista italiano Vincenzo Camuccini (1804/1805)

O assassinato de César e a subsequente ascensão de seu sobrinho-neto Otaviano como seu herdeiro e vingador levaram a guerras civis e à ascensão do Segundo Triunvirato. Otaviano tornou-se o Imperador César Augusto. A República Romana havia chegado ao fim.

CARTÕES DE NATAL (II)

 

Eis o tempo da Feliz Espera: 
oração, oração, oração!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (X)

Dentre os ícones marianos, no âmbito da tradição bizantina, destacam-se aqueles que representam suas grandes festas: a Natividade da Mãe de Deus (8 de setembro), sua Apresentação no Templo (21 de novembro), a Anunciação (25 de março) e a Dormição da Theotokos (15 de agosto). Maria também é comumente representada nos ícones das duas festas que ela compartilha diretamente com seu Filho: a Natividade de Cristo (25 de dezembro) e a Apresentação do Senhor no Templo (2 de fevereiro).


A Koimesis (ou Kemesis) é o ícone da Dormição, ou seja, do adormecer de Maria. O ícone representa Maria deitada num leito coberto com o mesmo tecido vermelho do presépio, rodeada pelos apóstolos. Logo atrás dela, Cristo segura uma criança vestida de branco, simbolizando a alma de Maria.

Na representação abaixo, podemos explicitar melhor a riqueza dos simbolismos. O ícone, com tons dourados predominantes, mostra Maria em seu leito de morte, rodeada por uma grande gama de personagens, que incluem anjos e santos, líderes da Igreja, bispos, evangelistas, amigos e vizinhos (simbolizados pelas mulheres na janelas) e os apóstolos que chegam em nuvens (símbolo das longas viagens das missões apostólicas) circundando a Nova Sião. Aos pés da Virgem, o discípulo amado inclina-se em direção a ela, num simbolismo bíblico com a frase de Jesus ao discípulo amado na Cruz: 'Eis aí tua Mãe' (Jo, 19,27). São Pedro, à direita, faz a incensação do corpo, com São Paulo na cabeceira do leito. As velas acesas em torno do leito representam a manifestação da luz divina em um mundo de trevas.


O ícone é uma imagem de eventos distintos, embora mostrados num mesmo plano, de forma sequencial. A criança vestida de branco nos braços de Jesus simboliza a alma de Maria sendo levada ao Céu. Na parte superior da imagem, é o próprio corpo físico de Maria, levado pelos anjos, que é conduzido em direção às portas abertas do Reino Celeste, encimado pelo Anjo apocalíptico de seis asas. Um elemento icônico bastante singular está representado duas vezes na parte central da figura: são as chamadas mandorlas, estruturas amendoadas que circundam figuras sagradas. A maior abrange o reino celestial (tomada pelos anjos) e a menor constitui a aura que envolve Jesus Cristo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

ANO LITÚRGICO 2025 - 2026

Ano Litúrgico 2025-2026, de acordo com o rito católico romano, vai desde o primeiro domingo do Advento (30/11/2025) até a solenidade de Cristo Rei do Universo (22/11/2026), durante o qual a Igreja celebra todo o mistério de Cristo, desde o nascimento até a sua segunda vinda. O Ano Litúrgico 2025-2026 é o Ano A, no qual os exemplos e os ensinamentos de Jesus Cristo são proclamados a cada domingo pelas leituras principais, retiradas do Evangelho de São Mateus, com exceção de ocasiões especiais (as chamadas Festas e Solenidades do rito litúrgico), quando são utilizadas leituras específicas do Evangelho de São João.

O ano litúrgico compreende dois tempos distintos: os chamados tempos fortes que incluem AdventoNatalQuaresma e Páscoa, durante os quais certos mistérios particulares da obra redentora e salvífica de Cristo são celebrados e o chamado Tempo Comum, no qual celebramos o Mistério de Cristo em sua totalidade, ou seja, encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão do Senhor. 

O Tempo Comum é subdividido em duas partes. A primeira parte começa no dia seguinte à festa do Batismo de Jesus (11/01/2026) e vai até a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas (18/02/2026), quando tem início a Quaresma. A segunda parte do Tempo Comum recomeça na segunda-feira depois de Pentecostes (24/05/2026) e se estende até o sábado que antecede o primeiro domingo do Advento (29/11/2026), quando tem início um novo Ano Litúrgico, compreendendo sempre um período de 33 ou 34 semanas.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A CIÊNCIA DE DEUS (IX)

Blaise Pascal (1623-1662) foi um matemático, físico, filósofo e inventor católico, com contribuições relevantes na geometria, mecânica dos fluidos, acústica, teoria das probabilidades, filosofia, teologia e no desenvolvimento do método científico. Em honra a tantas e relevantes contribuições científicas, o nome Pascal foi dado à unidade de pressão no Sistema Internacional de Unidades, como lei física (princípio geral da hidrostática), ao triângulo de Pascal e à famosa Aposta de Pascal, argumento filosófico formulado na sua obra Pensées (Pensamentos) que, embora não tenta provar que Deus existe, mostra que crer em Deus seria a escolha mais racional, considerando risco e benefício (como uma tomada de decisão baseada no critério da incerteza).

sábado, 22 de novembro de 2025

SÃO JOÃO BOSCO E O RAMALHETE DE VIRTUDES

Na noite em que estive em Lanzo, chegada a hora de repousar, aconteceu-me que tive o seguinte sonho. É um sonho que não tem nenhuma relação com outros sonhos...

[No sonho, São João Bosco deparou-se, em um lugar esplêndido e de suma beleza, diante de uma imensa multidão de jovens, muitos conhecidos deles dos tempos do Oratório, que caminhava em sua direção, tendo à frente São Domingos Sávio, travando-se então um intenso diálogo entre eles, parcialmente transcrito abaixo].

Sávio me apresentou um magnífico ramalhete que tinha nas mãos. Nele havia rosas, violetas, girassóis, gencianas, lírios, sempre-vivas e, entre as flores, espigas de trigo. Oferecendo-as me disse:
➖ Observa!
➖ Vejo, mas nada entendo - respondi.
➖ Dá este ramalhete a teus filhos para que possam oferecê-lo ao Senhor quando chegar o momento; procura que todos o tenham; a ninguém lhe falte nem o deixe tirar. Podes estar certo de que com ele terão o suficiente para ser felizes.
➖ Mas, que significa esse ramalhete de flores?
➖ Consulta a Teologia; ela te dirá e te dará a explicação.
➖ A Teologia, estudei-a eu, mas não saberia como tirar dela o significado do que me apresentas.
➖ Pois tens estrita obrigação de saber tudo isso.
➖ Vamos, tira-me da minha ansiedade, explica-me tu!
➖ Vês estas flores? Representam as virtudes que mais agradam ao Senhor.
➖ Quais são?
➖A rosa é símbolo da caridade; a violeta, da humildade; o girassol, da obediência; a genciana, da penitência e da mortificação; as espigas, da comunhão freqüente; o lírio indica a bela virtude da qual está escrito: Erunt sicut Angeli Dei in caelo, a castidade. E a sempre-viva significa que todas essas virtudes devem durar sempre, ela simboliza a perseverança.

➖ Ora bem, meu caro Sávio: tu, que durante toda a tua vida praticaste todas essas virtudes, diz-me: o que foi que mais te consolou na hora da morte?
➖ Que te parece que possa ser? - respondeu Sávio.
➖ Foi talvez ter conservado a bela virtude da pureza?
➖ Não; não é só isso.
➖ Alegrou-te talvez teres a consciência tranquila?
➖ Isso é bom, porém não é o melhor.
➖ Por acaso teu consolo terá sido a esperança do Paraíso?
➖ Também não.
➖ Pois então! O haver entesourado muitas boas obras?
➖ Não, não!
➖ Então, qual foi teu consolo na última hora? - perguntei, entre confuso e suplicante, vendo que não conseguia adivinhar seu pensamento.
➖ O que mais me confortou no transe da morte foi a assistência da poderosa e amável Mãe do Salvador. Diz isto a teus filhos: que não se esqueçam de invocá-la emquanto estão em vida. 

Estendi então com ardor as mãos para segurar aquele santo filho; mas suas mãos pareciam aéreas e nada pude tocar.
➖ Que loucura! Que estás fazendo? - me disse Sávio sorrindo.
➖ Temo que te vás - exclamei. Mas, não estás aqui com teu corpo?
➖  Com o corpo, não. Recuperá-lo-ei no último dia.
➖ Mas, que são, então, esses traços que me fazem ver em ti a figura de Domingos Sávio?
➖Quando, por permissão divina, uma alma separada do corpo aparece diante de algum mortal, apresenta-se com a forma exterior do corpo que em vida animou, com todas as suas feições exteriores, embora muito embelezadas, e assim as conserva até que volte a unir-se a ele, no dia do Juízo Universal. Então o levará consigo para o Paraíso. É por isso que te parece que tenho mãos, pés e cabeça; mas tu não podes segurar-me porque sou puro espírito. Esta é só uma forma exterior pela qual me podes conhecer.

➖Compreendo - respondi - mas escuta. Ainda uma pergunta? Meus jovens estão todos no reto caminho da salvação? Diz-me alguma coisa para que possa bem dirigi-los.
➖ Os filhos que a Divina Providência te confiou podem ser divididos em três categorias. Vês estas três listas? Olha-as!

E me estendeu a primeira.

Olhei a primeira; encabeçava-a a palavra invuinerati [ilesos], que continha o nome daqueles aos quais o demônio não pôde ferir, e que não mancharam a inocência com culpa alguma. Eram em grande número e os vi todos. A muitos já conhecia, outros era a primeira vez que via, e certamente virão ao Oratório nos anos futuros. Caminhavam direitos por um caminho estreito, apesar de serem alvo de flechas, espadas e lanças que por todos os lados choviam sobre eles. Essas armas formavam como que uma sebe ao longo das duas bordas do caminho, e os combatiam e molestavam sem entretanto feri-los.

Então Sávio me deu a segunda lista, cujo título era vulnerati [feridos], ou seja, os que haviam estado na desgraça de Deus mas, uma vez postos em pé, haviam curado suas feridas arrependendo-se e confessando-se. Eram em maior número que os primeiros, e haviam sido feridos no sendeiro da vida pelos inimigos que os flanqueavam durante sua viagem. Li a lista e vi todos. Muitos iam curvados e desanimados.

Sávio tinha ainda na mão a terceira lista. Encabeçava-a a epígrafe: Lassati in via iniquitatis [caídos na via da iniquidade]. Nela estavam escritos os nomes dos que estavam na desgraça de Deus. Eu estava impaciente para conhecer o segredo, pelo que estendi a mão. Mas Sávio me disse com vivacidade:

➖ Não, espera um momento e ouve. Se abrires essa folha, dela sairá um tal mau cheiro que nem tu nem eu poderemos suportar. Os Anjos têm que se retirar com asco e horror, e o próprio Espírito Santo sente repugnância pela horrível hediondez do pecado.
➖ Mas como pode ser isso - observei - se Deus e os Anjos são impassíveis? Como podem sentir o mau cheiro da matéria?
➖ Quanto melhores e mais puras são as criaturas, tanto mais se acercam aos espíritos celestiais; pelo contrário, quanto pior, mais desonesto e torpe é alguém, tanto mais se afasta de Deus e dos Anjos, os quais, por sua vez, se afastam dele, que se converteu num objeto de náusea e repugnância.

Passou-me então a terceira lista.

Toma-a - disse - abre-a e aproveita-te dela para o bem de teus jovens; mas não te esqueças do ramalhete que te dei; que todos o tenham e conservem. Isto dito, e depois de entregar-me a lista, retirou-se apressadamente, em meio de seus companheiros, quase como se estivesse fugindo de algo.

Abri então a lista; não vi nenhum nome, mas no mesmo instante me foram apresentados de chofre todos os indivíduos nela escritos, como se na realidade eu visse suas pessoas. Com quanta tristeza os contemplei a todos! A maior parte eu conhecia e pertencem ao Oratório e aos outros colégios. Vi muitos que parecem bons, que parecem até os melhores dentre os companheiros, e sem embargo não o são!

Mas, no ato de abrir a folha, espalhou-se em redor um mau cheiro tão insuportável, que imediatamente me vi assaltado por terrível dor de cabeça e por tais ânsias de vômito que me parecia estar morrendo. Obscureceu-se entretanto o ar, e nisso desapareceu a visão, nada mais eu vendo do maravilhoso espetáculo. Ao mesmo tempo ziguezagueou um raio e ressoou um trovão no espaço, tão forte e terrível que acordei sobressaltado.

(Dos Sonhos de Dom Bosco)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

CARTAS DO CLAUSTRO



Madre Maria José de Jesus nasceu em 1882, sob o nome de batismo de Honorina de Abreu, sendo a filha primogênita do historiador Capistrano de Abreu. Perdeu a mãe aos 9 anos. Em janeiro de 1911, aos 29 anos de idade, decidiu afastar-se da vida mundana para assumir a rigorosa vida monástica no Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde viveu por 48 anos, até a sua morte, em 1959.

Madre Maria José de Jesus falava sete idiomas, entre eles o latim. Traduziu para o português as obras completas de Santa Teresa d'Ávila e a Imitação de Cristo de Tomás de Kempis. Foi priora do Carmelo de Santa Teresa por 27 anos, espaçados em 9 triênios, época em que liderou um importante processo de renovação dos costumes monásticos e fundação de novos conventos. Atualmente é considerada Serva de Deus pela Igreja Católica em vista dos trâmites que buscam sua beatificação.

A opção religiosa promoveu um sensível desgosto e desaprovação no pai, de formação racionalista e agnóstico, como ele mesmo confidenciou ao amigo Mário de Alencar, em carta datada de 18 de janeiro de 1911:

Acho porém o caso dela pior que a morte: a morte é fatal; chega a hora inadiável; em resoluções como a de agora há sempre a crença, certamente errônea, de que o desenlace podia ser outro, e é isto que dói. Só agora vejo como a queria. Passo os dias sem sair, pensando nela, joguete dos sentimentos mais contraditórios, desde a indignação até as lágrimas. Só com os filhos, à hora do jantar, converso sobre ela. O receio de que qualquer estranho se possa referir ao assunto dá-me arrepios... Mas basta de Honorina. Peço-lhe que nunca mais se refira a e te assunto, se eu em primeiro lugar não o abordar.

A correspondência constituía-se no único meio possível para uma comunicação entre pai e filha, pois Capistrano, contrário ao ingresso de Honorina na vida religiosa, mostrava-se irredutível em não mais retornar ao Convento de Santa Teresa. Nas cartas enviadas ao pai, Madre Maria José buscava confortá-lo pela dor sofrida com a separação imposta pelo claustro, assegurando-lhe ter alcançado a felicidade pessoal, como nesta carta de 10 de janeiro de 1925:

Ah, meu pai, o amor paterno é essencialmente desinteressado, por isso não lamente a dor que lhe causei, porque foi a minha felicidade neste mundo e espero que também no outro. Seu sacrifício foi bem recompensado ... Creia, meu bom pai, que me sinto tão feliz na vida religiosa que constantemente estou dizendo comigo mesma: se eu, em vez de ser uma, fosse mil, não deixaria um só dos meus eus no mundo, consagraria todos a Deus; e o mesmo digo se fosse milhões e milhões, quer de mulheres, quer de homens, e ainda que tivesse segura a salvação eterna, fosse qual fosse o estado que abraçasse. Veja, meu querido pai, que sua filha está contente, e fique também contente, pois a felicidade dos filhos é a felicidade dos pais.

Mas é a conversão do pai à fé católica que vai mover Honorina em orações, devoções e pedidos diretos feitos ao pai, por meio de cartas sucessivas e recorrentes ao tema em 1913, 1914, 1917, 1919, 1923, 1924, 1925 (foram 4 cartas abordando o assunto), 1926 e 1927 (mais duas cartas).

Meu Pai tenho duas coisas a pedir-lhe, ambas espirituais. A primeira é que se aliste na Confraria de Nossa Senhora das Vitórias, que há no Colégio dos Jesuítas. O Pe. Semadini disse-me que eu o convidasse. As obrigações são só dar o nome e rezar uma Ave-Maria todos os dias. Ora, eu tenho confiança que por essa Ave-Maria, V. se venha a converter, como a tantos outros tem acontecido (11 de agosto de 2013)

Não há [nada] como a devoção a Nossa Senhora. Eu, enquanto não amei a esta boa mãe, vivi uma vida péssima, e, se não perdi minha alma, foi porque Nosso Senhor, em sua misericórdia, me conservou a vida; logo que a ela recorro, tudo o que me parecia impossível se me tornou fácil e suave, e eu não só pude viver como boa cristã, mas logo aspirei à perfeição da vida religiosa. Desde então sempre tenho amado a minha Mãe do Céu o mais possível. A Ela recorro em tudo, e Ela me tem valido sempre. Experimente, meu querido Pai, e verá como Maria se mostrará Mãe de Deus pela sua onipotência, e Mãe nossa pelo seu amor.

Eu conheci alguma coisa do que o mundo em sua inexperiência da verdadeira felicidade chama prazer, goro, alegria, e louvo infinitos milhões de vezes a Misericórdia Divina que em sua predileção gratuita para comigo não me deixou conhecer mais; entretanto, eu digo, mil vezes mais feliz fui chorando meus pecados com tanta dor, que o coração quase se me partia, do que nos concertos, nos teatros, nos passeios, nessas diversas vaidades que enleiam o espírito mas não lhe dão verdadeira felicidade [...] Quantas vezes me tem acontecido dormir apenas poucas horas durante a noite e de madrugada, quando o corpo mais precisado estava de descanso, ser despertada pela matraca e pular da cama logo com grande alegria, feliz de começar o dia com sacrifício. Como é feliz nossa vida toda de sacrifício, de silêncio, de oração! Não me canso de louvar a Deus que tão misericordiosamente me escolheu para tanto bem, e peço à Sua Divina Majestade que algum dia toda a minha família partilhe a mesma felicidade de conhecer, amar e servir a Deus (23 de outubro de 1917)

Não fique aborrecido comigo e permita que lhe peça, meu bom Pai, que ao menos reze todos os dias, de manhã e de noite, uma Ave-Maria encomendando a Nossa Senhora a hora de sua morte (24 de fevereiro de 1925).

Capistrano de Abreu morreu em 13 de agosto de 1927, no Rio de Janeiro, sem ter-se convertido à fé católica, a despeito de todos os esforços e sacrifícios de Honorina em favor de sua conversão. Tamanhas divergências com o pai, deixaram Madre Maria José profundamente pesarosa, mas nem assim a religiosa arrefeceu em sua esperança. No mesmo dia em que o pai faleceu, Madre Maria José escreveu à sua irmã Matilde, indicando os fundamentos de seu consolo: 

Agora, vamos rezar muito por nosso Paizinho, não é, Matilde, na certeza de que Nosso Senhor não deixou de atender a tantos sacrifícios feitos por ele durante tantos anos e principalmente nestes últimos dias (13 de agosto de 1927). 

(com excertos do artigo 'Cartas do Claustro', de Virgínia Buarque, 2004)

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A CIÊNCIA DE DEUS (VIII)

A razão ou proporção áurea é uma constante real algébrica irracional, obtida pela divisão do comprimento total de um segmento dividido em duas partes (a e b) pela parte maior. Esse resultado é sempre constante, designada pela letra grega φ (phi - lê-se 'fi"), com valor aproximado de 1,61803398875. O matemático italiano Leonardo de Pisa, conhecido como Fibonacci (1170 - 1250) ratificou no Ocidente conhecimentos prévios de que, numa sequência de números crescentes em que um dado número é a soma dos seus dois precedentes [0,1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89,144,233,377…], ao se dividir qualquer número pelo anterior, o resultado tende sempre para o número φ, com aproximação cada vez maior quanto maiores forem os números [por exemplo, a razão entre 5 e 3 é 1,666, mas a razão de 377 por 233 é de 1,618025]. 


A razão áurea é recorrente na geometria, na anatomia humana e na natureza de maneira geral, sendo, por isso, chamada de 'número de Deus'. O segmento ab, com suas partes a e b, constituindo partes integrantes de uma única coisa, representam a Santíssima Trindade; a razão áurea não admite um valor racional assim como Deus não pode ser definido com palavras humanas; não pode ser alterado de valor assim como Deus é imutável. Quando se aplicam os princípios da Razão Áurea e da sequência de Fibonacci para as dimensões de um retângulo, obtém-se a chamada 'Espiral Áurea', que corresponde à linha traçada seguindo a direção dos quadrados formados nos retângulos áureos.


O 'número de Deus' expressa a perfeição da beleza, da geometria, do arranjo, da anatomia humana (distâncias entre as diferentes partes do corpo regidas pela razão áurea), nas artes e no universo como um todo. Como φ não é um número racional, esssa perfeição nunca pode ser obtida em completude, mas sempre com níveis maiores ou menores de aproximação (como nas razões entre os números da sequência de Fibonacci).