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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SORRISOS DE DEUS (III)

(Beato Marcel Callo, falecido em 1945)

(Beato Odoardo Focherini, falecido em 1944)

(Santa Maria Troncatti, falecida em 1969)

(Beato Giuseppe 'Pino' Puglisi, falecido em 1993)

(Beato Edward Poppe, falecido em 1924)

(Santa Dulce dos Pobres, falecida em 1992)

(Beato János Brenner, falecido em 1957)

(Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, falecida em 1959)

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ETYMOLOGIAE (IV)

 

📌Os Apóstolos (De apostolis)

1. Apóstolo (apostolus) significa 'aquele que é enviado', pois é isso que o próprio nome indica. Assim como em grego ἄγγελος significa 'mensageiro' (nuntius) em latim, assim também 'aquele que é enviado' é chamado, em grego, de 'apóstolo' (apostolus), pois Cristo os enviou para difundir o Evangelho por todo o mundo. Alguns deles penetraram até a Pérsia e a Índia, ensinando às nações e realizando grandes e incríveis milagres em nome de Cristo, a fim de que, por meio daqueles sinais e prodígios que confirmavam sua pregação, os homens acreditassem naquilo que os Apóstolos diziam e haviam visto. A maior parte deles recebe, dessas atividades, a explicação de seus nomes.

2. Pedro (Petrus) recebeu seu nome de 'pedra' (petra), isto é, de Cristo, sobre quem a Igreja está fundada. Com efeito, petra não recebe seu nome de Petrus, mas Petrus de petra, assim como 'Cristo' não é assim chamado a partir de 'cristão', mas 'cristão' a partir de 'Cristo'. Por isso o Senhor diz: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra (petra) edificarei a minha Igreja' (Mt 16,18), porque Pedro havia dito: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16). Então o Senhor lhe disse: 'Sobre esta pedra' que proclamaste 'edificarei a minha Igreja', pois 'a pedra era Cristo' (1Cor 10,4) e sobre esse fundamento o próprio Pedro também foi edificado.

3. Foi chamado Cefas porque foi constituído como cabeça (caput) dos apóstolos, pois κεφαλή em grego significa 'cabeça' e Cefas é o nome sírio de Pedro.

4. Simão 'Bar-Jonas', em nossa língua, significa 'filho da pomba', sendo um nome formado tanto do siríaco quanto do hebraico; pois Bar, na língua siríaca, significa 'filho' e 'Jonas', em hebraico, significa 'pomba'; assim, Bar-Jonas é composto de elementos das duas línguas.

5. Alguns entendem simplesmente que Simão, isto é, Pedro, é filho de João, por causa daquela pergunta (João 21,15): 'Simão, filho de João, tu me amas?' (Jo 21,15) e alguns consideram que o nome foi corrompido por um erro dos copistas, de modo que se escreveu Bar-Iona em lugar de Bar-Iohannes, isto é, 'filho de João', com a supressão de uma sílaba. 'Joana' significa 'graça do Senhor'.

6. Assim, Pedro possuía três nomes: Pedro, Cefas e Simão Bar-Jonas. Além disso, 'Simão', em hebraico, significa 'aquele que escuta'.

7. Saulo, na língua hebraica, significa 'tentação', porque, a princípio, ele esteve envolvido na provação da Igreja, pois era perseguidor; daí ter possuído esse nome enquanto perseguia os cristãos.

8. Posteriormente, mudado o nome, de Saulo fez-se Paulo, que é interpretado como 'o admirável' ou 'o escolhido'. Admirável, porque realizou muitos sinais, ou porque, do Oriente ao Ocidente, pregou o Evangelho de Cristo a todas as nações.

9. Escolhido, como diz o Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos: 'Separai-me Barnabé e Paulo para a obra para a qual os escolhi' (At 13,2). Além disso, na língua latina, Paulo (Paulus cf. paulus, 'pequeno') recebe seu nome de 'pequeno', razão pela qual ele próprio diz: 'Pois eu sou o menor de todos os apóstolos' (1Cor 15,9). Assim, quando era Saulo, era orgulhoso e altivo; quando Paulo, humilde e pequeno.

10. Por isso dizemos: 'daqui a pouco (paulo) te verei', isto é, depois de um breve espaço de tempo. E, porque se fez pequeno, ele próprio diz (cf. 1 Coríntios 15,8): 'Pois eu sou o último [de todos] os apóstolos' (1Cor 15,8) e ainda: 'A mim, o menor de todos os santos' (Ef 3,8). Assim, tanto Cefas quanto Saulo foram chamados por um nome mudado, para que fossem verdadeiramente novos até mesmo em seus nomes, à semelhança de Abraão e Sara.

11. André, irmão de Pedro segundo a carne foi seu coerdeiro segundo a graça; de acordo com sua etimologia hebraica, 'André' significa 'o belo' ou 'aquele que responde'; além disso, na língua grega, é chamado 'o viril', a partir da palavra que significa 'homem' (cf. grego ἀνήρ, genitivo ἀνδρός, 'homem').

12. João, com certa presciência profética, recebeu merecidamente seu nome, pois este significa 'aquele em quem está a graça' ou 'graça do Senhor'. Com efeito, Jesus o amou mais plenamente que aos outros apóstolos.

13. Tiago, filho de Zebedeu, recebeu do seu pai o seu sobrenome; deixando o seu pai, seguiu com seu irmão João o verdadeiro Pai. Estes irmãos foram chamados Boanerges que significa 'Filhos do Trovão' (Mc 3,17), pela força e grandeza de sua fé. Este Tiago é o filho de Zebedeu, irmão de João que, segundo se sabe, foi morto por Herodes depois da Ascensão do Senhor.

14. Tiago de Alfeu recebe esse sobrenome para ser distinguido do outro Tiago, chamado filho de Zebedeu, pois este segundo é filho de Alfeu. Assim, ambos receberam seus sobrenomes de seus pais.

15. Este é Tiago Menor, que no Evangelho é chamado irmão do Senhor, porque Maria, esposa de Alfeu, era irmã da mãe do Senhor; e o evangelista João deu àquela Maria o sobrenome 'de Cleopas', a partir do nome de seu pai, atribuindo-lhe esse nome quer pela nobreza de sua família, quer por alguma outra razão. Além disso, 'Alfeu', na língua hebraica, significa 'o milésimo' ou, em latim, 'o instruído'.

16. Filipe significa 'boca das lâmpadas' [a luz recebida de Cristo] ou 'boca das mãos' [a pregação dessa luz]. Tomé significa 'o abismo' ou 'o gêmeo', razão pela qual, em grego, também é chamado Dídimo. Bartolomeu, 'filho daquele que sustenta as águas' ou 'filho daquele que me sustenta'. Este nome é siríaco, não hebraico.

17. 'Mateus', em hebraico, significa 'aquele que foi agraciado'. Este mesmo homem também foi chamado Levi, por causa da tribo da qual descendia. Além disso, em latim recebeu o nome de 'publicano' em razão de seu ofício, pois foi escolhido dentre os publicanos e chamado ao apostolado.

18. Simão, o Cananeu, para ser distinguido de Simão Pedro, recebe seu nome da cidade galileia de Caná, onde o Senhor transformou a água em vinho. É este que outro evangelista designa como 'o zelota' pois, com efeito, 'Caná' significa 'zelo'.

19. Judas de Tiago, que em outro lugar é chamado Lebeu, possui um nome simbólico derivado da palavra que significa 'coração', que, no diminutivo, podemos traduzir como 'pequeno coração'. Outro evangelista chama este Judas de Tadeu (Mt 10,3). A história eclesiástica relata que ele foi enviado a Edessa, ao rei dos Abgaros.

20. Judas Iscariotes recebeu seu nome ou da cidade em que nasceu, ou da tribo de Issacar, trazendo em seu próprio nome, como certo presságio do futuro, a indicação de sua condenação; pois 'Issacar' significa 'pagamento', significando assim o preço recebido pelo traidor, pelo qual vendeu o Senhor, conforme está escrito em relação ao seu pagamento, 'as trinta moedas de prata, o preço em que fui avaliado por eles (Mt 27,9).

21. Matias, que é considerado o único entre os apóstolos a não possuir sobrenome, significa 'aquele que foi agraciado' [mesma etimologia de Mateus], devendo-se entender: 'em lugar de Judas', pois foi eleito pelos apóstolos para ocupar o lugar de Judas, quando lançaram sortes para decidir entre dois homens.

22. Marcos significa 'elevado em seu mandato', especialmente por causa do Evangelho do Altíssimo que pregou.

23. Lucas significa 'aquele que se levanta' ou 'aquele que eleva' porque, depois dos outros, elevou a pregação do Evangelho.

24. Barnabé significa 'filho do profeta' ou 'filho da consolação'.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (II)

(Venerável Fulton Sheen, a ser beatificado em setembro/2026, falecido em 1979)

(Santa Teresa de Lisieux, falecida em 1897)

(Beata Sandra Sabattini, falecida em 1984)

(São João Bosco, falecido em 1888)

(Beata Alexandrina da costa, falecida em 1955)

(São Alberto Hurtado, falecido em 1952)

(Beata Chiara Badano, falecida em 1990)

(Santa Teresa de Calcutá, falecida em 1997)

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (I)

(São Padre Pio, falecido em 1968)

(São Carlo Acutis, falecido em 2006)

(Serva de Deus Anne-Gabrielle Caron, falecida em 2010)

(Santa Gianna Beretta Molla, falecida em 1962)

(São Pier Giorgio Frassati, falecido em 1925)

(São Rafael Arnaiz Barón, falecido em 1938)

(Santa Bernadete Soubirous, falecida em 1879)

(São Josemaria Escrivá, falecido em 1975)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (III)


📌Cânones dos Concílios (De canonibus Conciliorum)

1. Cânone (canon) é uma palavra grega; em latim, significa 'régua' ou 'norma' (regula). A régua recebe esse nome porque traça em linha reta (recte) e nunca se desvia. Alguns dizem que ela é assim chamada porque rege (regere), porque oferece uma norma para viver retamente (recte) ou porque corrige (corrigere) tudo o que é deformado ou perverso.

2. Os cânones dos concílios gerais começaram no tempo de Constantino pois, nos anos anteriores, enquanto grassavam as perseguições, havia pouca oportunidade para instruir o povo. 

3. Por essa razão, o cristianismo foi dilacerado por diversas heresias, pois não havia liberdade para que os bispos se reunissem em unidade até o tempo do imperador acima mencionado, que concedeu aos cristãos a faculdade de se congregarem livremente.

4. Sob Constantino, os santos Padres, reunidos de todas as partes do mundo no Concílio de Niceia, promulgaram, em conformidade com a fé evangélica e apostólica, o segundo Credo - o Credo Niceno - depois do Credo dos Apóstolos.

5. Entre os concílios da Igreja, quatro são os veneráveis sínodos que mais plenamente abrangeram toda a fé, assim como quatro são os Evangelhos e quatro os rios do Paraíso.

6. O primeiro deles, o Sínodo de Niceia, composto por 318 bispos, realizou-se durante o governo de Constantino Augusto. Nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana acerca da desigualdade da Santíssima Trindade, defendida pelo próprio Ário. Esse santo sínodo estabeleceu, por meio de seu Credo, que Deus Filho é consubstancial a Deus Pai.

7. O segundo sínodo, composto por 150 Padres, reuniu-se em Constantinopla sob Teodósio, o Velho. Condenando Macedônio, que negava que o Espírito Santo fosse Deus, demonstrou que o Espírito Santo é consubstancial ao Pai e ao Filho, dando forma ao Credo que todos os fiéis de língua latina e grega proclamam nas igrejas.

8. O terceiro, o Primeiro Sínodo de Éfeso, composto por 200 bispos, realizou-se sob Teodósio Augusto, o Jovem. Condenou, com justa sentença de anátema, Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo; e demonstrou que, em duas naturezas, subsiste a única pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O quarto, o Sínodo de Calcedônia, composto por 630 sacerdotes, realizou-se sob o imperador Marciano. Nesse sínodo, uma sentença unânime dos Padres condenou Eutiques, abade de Constantinopla, que pregava haver uma única natureza tanto do Verbo de Deus quanto de sua carne; condenou também seu defensor Dióscoro, antigo bispo de Alexandria, e novamente Nestório, juntamente com os demais hereges. Esse mesmo sínodo proclamou que Cristo Senhor nasceu da Virgem e, consequentemente, reconhecemos que em Cristo se encontra a substância tanto da natureza divina quanto da natureza humana.

10. Estes são os quatro principais sínodos, que proclamaram com a maior plenitude a doutrina de nossa fé. E todos os outros concílios que os santos Padres, repletos do Espírito de Deus, sancionaram permanecem em pleno vigor, sustentados pela autoridade desses quatro, cujas realizações estão registradas nesta obra.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVII)

William Dyce
(1806–1864) foi um pintor escocês particularmente interessante para quem aprecia arte cristã tradicional, ocupando uma posição singular na pintura britânica do século XIX como um artista especializado sobretudo em temas religiosos e medievais. Dyce procurava conciliar correção acadêmica, beleza formal e sentimento religioso, evitando muitas vezes o sentimentalismo teatral que aparece em parte da pintura religiosa oitocentista. Essa dimensão religiosa não era apenas temática. Dyce tinha profundo interesse pela liturgia e pela música sacra. Em 1841 fundou a Motett Society, dedicada ao estudo, execução e republicação de música eclesiástica dos séculos XVI e XVII. 

Abaixo, apresenta-se a reprodução de algumas das suas obras mais clássicas, sendo apenas a última delas uma obra não sacra.

Davi no deserto*

Nossa Senhora e o Menino Jesus

Cristo, Homem das Dores*

Lamentação sobre o Cristo Morto

São João conduz Nossa Senhora após a Crucificação

O encontro de Jacó e Raquel

Baía de Pegwell, Kent** - uma recordação de 5 de outubro de 1858

* Davi, representado como um jovem pastor, e Jesus são retratados em paisagens inspiradas nas Terras Altas da Escócia, em vez de nos cenários próprios do contexto bíblico.
** A pintura mostra membros de sua família recolhendo conchas na praia, diante das falésias de Kent.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVI)

Os vitrais e as rosáceas constituem um dos elementos mais característicos da arquitetura gótica medieval. As rosáceas são grandes janelas circulares preenchidas por delicados rendilhados de pedra com vitrais. Muito além de elementos de decoração, expressam a fé católica por meio da luz transmitida que assume a cor dos vidros coloridos. Nas palavras de São Bernardo de Claraval: 'Assim como um raio de luz branca entra numa janela de vidro e sai ileso, mas adquire a cor do vidro, o Filho de Deus, que entrou no ventre castíssimo da Virgem, saiu puro, mas assumiu a cor da Virgem, isto é, a natureza de um homem e a formosura da forma humana, e revestiu-se dela'. As rosáceas das grandes catedrais francesas expressam magistralmente a beleza desta comparação.  

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Notre-Dame)

(rosácea da Catedral de Estraburgo)

(rosácea ocidental da Catedral de Amiens)

(rosácea ocidental da Catedral de Laon)

(rosácea ocidental da Catedral de Reims)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLV)

Os tapetes de Corpus Christi revelam uma tradição muito antiga, que surgiu na região dos Açores em Portugal no século XV e foi introduzida no Brasil no período colonial. Em Minas Gerais, estado que durante o Ciclo do Ouro recebeu milhares de portugueses, a tradição foi amplamente difundida e se enraizou na sociedade cristã de todas as épocas, fazendo parte da tradição religiosa mineira. Em Ouro Preto/MG, essa tradição resulta em um verdadeiro espetáculo de fé, arte e cultura, numa mistura grandiosa de beleza, devoção e encantamento.