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sábado, 24 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (IV)

 

A história das iniquidades do Parlamento de Paris encheria um grande volume. Apresentaremos um episódio que poderia ocupar uma página de tal obra. Em 6 de fevereiro de 1737, um ano depois de o governo das Duas Sicílias ter caído nas mãos dos Bourbons, e no mesmo ano em que o ducado da Toscana passou à Casa de Lorena, o Parlamento de Paris estava cheio de orgulho. Naquele dia, estava disposto a demonstrar, por algum ato arbitrário, seu grande poder e sua vontade soberana. Assim, suprimiu solenemente uma confraria. Que confraria era essa? A de Nossa Senhora do Livramento, que havia levado uma existência tranquila por mais de dois séculos na igreja de Saint-Étienne-des-Grès, em Paris. 'Pois bem' - disse um cidadão, que naquela noite ceava com um membro do Parlamento, dirigindo-se ao anfitrião - 'foi um ato estranho de vossa parte suprimir a boa confraria de Nossa Senhora! 'Contudo, está feito!' - foi a resposta. 

➖Mas com que fundamento? - perguntou o outro. Ela foi fundada em 1533 por bons cidadãos e cristãos, e confirmada pelas bulas de quatro Sumos Pontífices. Luís XIII, Ana da Áustria, Luís XIV, o Grande Condé e muitos outros príncipes consideraram uma honra ter seus nomes inscritos em seu registro. São Francisco de Sales e São Vicente de Paulo foram seus membros. E foi diante da imagem de Nossa Senhora do Livramento que o jovem Francisco, como sabeis, foi libertado das mais cruéis tentações. Ele prosseguia seus estudos em Paris e estava em seu décimo sexto ano de vida quando o espírito maligno lhe encheu a mente com o terrível pensamento de que pertencia ao número dos réprobos e de que jamais alcançaria o Céu. Tão terrivelmente o tentador o atormentava que ele não comia, não bebia nem repousava, e seu corpo emagrecia visivelmente. Seu preceptor, vendo-o piorar a cada dia e sentir aversão por qualquer ocupação, procurou em vão descobrir a causa de seu abatimento. O demônio que lhe sugeria essa ilusão era um daqueles chamados mudos, por causa do silêncio que impõe àqueles a quem aflige.

Francisco, embora privado daqueles doces sentimentos que o amor de Deus comunica à alma cristã, permaneceu fiel à graça e fez o possível para repelir os assaltos do maligno. Mas, quando recordava a paz e a felicidade de que desfrutara antes dessa provação, só conseguia chorar e entristecer-se. Permaneceu nessa agonia durante um mês. Depois desse tempo, sua fidelidade foi, sem dúvida, recompensada. Uma inspiração divina o conduziu à igreja de Saint-Étienne-des-Grès. Entrou e lançou-se aos pés da estátua de Nossa Senhora do Livramento e suplicou sua intercessão em seu favor: 'Alcançai-me, pela bondade de Deus, que, se eu tiver de ficar eternamente separado d’Ele, ao menos me seja permitido amá-lo aqui de todo o coração'.

Tal foi sua oração. Ele conhecia o poder do 'Lembrai-vos' e o recitou com fervor. Quando terminou, sentiu uma doce sensação apoderar-se dele e seus temores se dissiparam inteiramente. Transbordando de alegria, apressou-se em tornar pública a graça que recebera; e conservou sempre grande devoção a Nossa Senhora do Livramento e à confraria a ela vinculada, que acabais de abolir. Não deveria um testemunho como esse ter pesado em seu favor?'

➖ O decreto foi aprovado - disse o legislador.
➖ Mas considerai os aflitos, os enfermos e as mulheres em trabalho de parto, que têm grande devoção a Nossa Senhora do Livramento. Os viajantes, os prisioneiros e os atribulados de coração dirigem-lhe seus votos.
➖ Nossa lei não impede suas súplicas; apenas suprimimos a confraria.
➖Reconheço vossa consideração em não suprimir a própria Nossa Senhora - respondeu o cidadão com um sorriso malicioso. Mas a confraria era uma instituição admirável. Além do cuidado que dispensava aos enfermos e das esmolas que distribuía aos pobres, procurava, de modo especial, fazer jus ao seu título, obtendo a libertação dos prisioneiros. Todos os anos conseguia a liberdade de um grande número de pessoas presas por dívidas. A própria autoridade real havia reconhecido a utilidade de tão benemérita instituição. Confirmara sua estabilidade por meio de muitos editos reais em seu favor. Que há nela que possa provocar vosso desagrado? Suas únicas ocupações eram obras de piedade, reuniões de caridade, simples procissões e belas e edificantes cerimônias. Dizei-me: quais são vossas razões?
➖ Dar-vos-ei apenas uma, e será uma razão régia: 'Assim nos pareceu por bem'.
➖ Diante da qual, naturalmente, devo curvar-me em submissão - respondeu o bom cidadão.
E assim a confraria foi suprimida por um ato do Parlamento.

Mas a venerada imagem de Nossa Senhora do Livramento, a Rainha da confraria, permaneceu nas mãos do povo; e todos os aflitos acorriam ao seu santuário. Trata-se de uma antiga estátua de pedra negra, esculpida de maneira rudimentar e muito venerada desde o século XI. Há muitas tradições a ela associadas, mas, como se apoiam em testemunhos incertos, não as mencionaremos.

O que o Parlamento de 1737 não fizera, a Revolução de 1793 realizou: suprimiram o culto a Deus e à Santíssima Virgem e fecharam os seus templos. A igreja de Saint-Étienne-des-Grès, despojada de suas riquezas, foi vendida e demolida! Aqueles que levaram as cruzes, as imagens de prata e outras obras de latão e metal não se interessaram pela estátua de pedra de Nossa Senhora do Livramento, que não tinha valor material.

Uma piedosa senhora, a condessa de Carignan Saint-Maurice, devota serva de Nossa Senhora e muito confiante em sua proteção, encarregou uma pessoa, desconhecida naquele lugar, de comprá-la. Depois de pagar por ela, essa pessoa a levou à condessa, que a colocou num pequeno oratório de sua casa, julgando-se então em segurança. Seu nome, porém, já estava inscrito na lista dos proscritos. Foi presa e lançada no cárcere. Ali encontrou consolo na companhia da superiora, Madre Valois, e de muitas das Irmãs Hospitaleiras de São Tomás de Vilanova, que, juntamente com ela, se entregaram à compaixão de Nossa Senhora do Livramento.

Assim, essas boas mulheres rezavam e esperavam no asilo que a terna misericórdia dos revolucionários lhes proporcionara. E não esperaram em vão. Chegou o dia de sua libertação: era 4 de outubro de 1794. As Irmãs Hospitaleiras, receando não ter uma casa para onde ir, sentiam-se aflitas por se separar de sua companheira. Todos os conventos haviam sido suprimidos e seus bens confiscados; suas casas tinham sido transformadas em prisões, quartéis ou depósitos militares. Mas, por uma singular proteção da Providência, a casa das Hospitaleiras havia passado despercebida. As irmãs voltaram a ocupá-la, vestidas com trajes seculares; três meses depois, porém, foram denunciadas ao clube de seu distrito como religiosas disfarçadas. Decidiu-se imediatamente que os edifícios ocupados pela comunidade seriam vendidos e, por isso, foram cobertos de avisos de venda pública.

Ao saber disso, a senhora de Carignan fez o voto de doar sua fortuna e sua querida imagem às Irmãs Hospitaleiras, que novamente se colocou sob a proteção especial de Nossa Senhora do Livramento. Todas as irmãs se uniram a ela numa novena, e grande foi seu espanto ao ver, dez dias depois, que todos os cartazes haviam desaparecido; ninguém mais pensava na venda, e as irmãs permaneceram na posse tranquila de seu convento. O tempo passou e, por um privilégio quase único, as filhas de São Tomás de Vilanova atravessaram a Revolução nesse convento sem serem molestadas, como o foram todas as outras religiosas da cidade.

A santa imagem foi instalada na casa das Hospitaleiras em 1806 e Pio VII concedeu diversas indulgências a essa devoção. A bela capelinha na qual ela é agora venerada só foi concluída em 1830. Assim, rodeada de virgens fiéis, a imagem de Nossa Senhora do Livramento - que arrancou São Francisco de Sales das profundezas do desespero, que abriu as portas da prisão a tantos aflitos e que salvou a piedosa herança das boas Hospitaleiras - ainda protege Paris, que precisa ser libertada de tantas ciladas.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sábado, 17 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (III)

O que se segue é, mais propriamente, uma página da história eclesiástica do que uma lenda. Julgamos, porém, que um breve relato do concílio realizado em Éfeso teria lugar muito apropriado num volume dedicado à narração das maravilhas operadas pela intercessão da sempre bendita 'Mãe de Deus'. Ao confirmar à Santíssima Virgem esse sublime título, o Concílio ensinou-nos que jamais poderemos formar uma ideia demasiado elevada do poder e da majestade daquela a quem recorremos em nossas necessidades.

No século V, enquanto ilustres doutores combatiam o arianismo e todas as outras pequenas seitas que atacavam a rocha inexpugnável sobre a qual está estabelecida a cátedra de Pedro, surgiu entre os defensores da Igreja um homem de grande mérito, de palavra poderosa, de vasta erudição e respeitado pela austeridade de sua vida. Chamava-se Nestório e tornou-se patriarca de Constantinopla. Sua vaidade foi estimulada pelos grandes aplausos que recebia. Em um de seus sermões, disse ao jovem Teodósio: 'Purificai a terra das heresias, e eu vos prometo as alegrias do céu'. Era uma afirmação ousada. Ele combatia o arianismo, mas substituiu o zelo da caridade pela violência; incitou o povo contra os arianos, expulsando-os à força de suas assembleias e arrasando suas igrejas. Contudo, durante todo esse tempo, ele próprio sustentava uma doutrina errônea.

Admitia que havia em Cristo duas naturezas que agiam em conjunto. 'Jesus Cristo' - dizia ele - 'enquanto homem, nasceu da Santíssima Virgem, sofreu e morreu; mas Cristo, enquanto Deus, dirigia o homem Jesus, ao qual estava ligado apenas por uma união moral'. Primeiramente, conseguiu o auxílio de homens fracos para pregar essa doutrina, que depois ele próprio passou a professar, no ano de 428. O povo percebeu imediatamente que ele pretendia privá-lo de sua sublime invocação de Maria como 'Santa Mãe de Deus' e levantou-se em massa contra essa inovação.

Mas a obstinação inflexível de Nestório não cedia. São Cirilo de Alexandria escreveu em vão ao patriarca infiel; igualmente infrutíferas foram as súplicas dos fiéis e as advertências e exortações do guardião da fé, o santo papa São Celestino. Nestório não atendia a nenhuma admoestação, mas perseguia seus adversários com grande furor. Foi excluído da comunhão da Igreja, mas ainda assim persistiu em seus erros.

A controvérsia tornou-se tão violenta que se julgou necessário convocar um concílio geral para condenar a heresia propagada por Nestório. Isso se fez com a anuência do imperador Teodósio, o Jovem, e o concílio foi convocado para reunir-se em Éfeso, sem dúvida por um desígnio especial da Providência onipotente, pois a bendita Mãe de nosso Salvador havia vivido naquela cidade, com o discípulo amado, depois da ascensão de seu divino Filho. A tradição desse fato foi conservada com grande fidelidade pelos efésios, conhecidos pelo fervor de sua devoção a Nossa Senhora. Alegraram-se, portanto, ao saber que de sua cidade partiria a defesa de sua sacratíssima dignidade.

No dia 7 de junho do ano de 431, duzentos e sessenta bispos estavam reunidos em Éfeso. Nestório também chegou com numerosa escolta, mas estava mais do que nunca cheio de orgulho e presunção. Como João de Antioquia e outros prelados ainda estavam a caminho para participar do concílio, sua abertura foi adiada, com algum pesar, para o dia 22, pois o dia 7 era a festa de Pentecostes. Contudo, esses prelados, sendo amigos pessoais de Nestório e não desejando presenciar sua condenação, ainda não haviam chegado quando a primeira sessão foi aberta naquele dia. Os bispos e doutores da Igreja ali reunidos dirigiram-se em procissão à igreja de Éfeso, dedicada a Deus sob o patrocínio especial de sua santa Mãe. Nesse edifício realizou-se o concílio.

Todos os habitantes da cidade se abstiveram de trabalhar e, na ânsia de conhecer a decisão dos Padres, cercaram a igreja, invocando Nossa Senhora para que dirigisse seus trabalhos e fizesse reconhecer sua dignidade. Poderia tão numerosa reunião de dignos pastores da Igreja, congregados numa cidade tão devotada a Maria, deixar de ser unânime em sua decisão? Nestório previu que não poderiam e, por isso, recusou-se a comparecer. São Cirilo presidiu o concílio como representante do Sumo Pontífice e pronunciou, em uma das sessões, um discurso do qual se seguem algumas frases:

'Salve, Maria! Tesouro do mundo!'
'Salve, Maria, Mãe de Deus! É por vós que os profetas elevam suas vozes e os pastores da Igreja celebram os louvores do Todo-Poderoso, cantando com os anjos aquele sublime cântico: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós os Magos ofereceram seus presentes, guiados por uma estrela resplandecente'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós o glorioso colégio dos apóstolos foi escolhido por nosso Redentor'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós São João exultou no ventre de sua mãe; a chama da tocha palpitou na presença da fonte da luz'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós desceu sobre a humanidade aquela graça inefável da qual fala o Apóstolo, quando diz que ela se manifestou a todos os homens'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós procedeu a verdadeira luz, da qual disse o Evangelista: Eu sou a luz do mundo'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós nasceu Aquele que venceu a morte e o inferno'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Destes à luz o Criador e Redentor dos homens, nosso guia para o reino dos céus'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós é salva toda alma fiel'.*

* Como se pode pôr em dúvida que a Santíssima Virgem tem direito a ser chamada Mãe de Deus? Pois, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, é verdadeiramente Deus, assim também a Santíssima Virgem é Mãe de Deus' (Carta de São Cirilo).


Assim, todo o discurso continha, em cada frase uma invocação a Maria, sob o título do qual se havia tentado privá-la. A questão foi decidida no primeiro dia; tão unânimes foram os Padres que não foi necessário consultar cada um individualmente, pois todos exclamaram em coro: Sancta Dei Genitrix! Mater divinæ gratiæ! Mater Creatoris! Mater Salvatoris! - 'Santa Mãe de Deus! Mãe da divina graça! Mãe de nosso Criador! Mãe de nosso Redentor!'

Alguns amigos de Nestório procuraram, de fato, defendê-lo, mas em vão: ele foi condenado. Partiu para o exílio e permaneceu obstinado, orgulhoso e inflexível até sua morte, ocorrida na Líbia, depois de haver vagado por muito tempo de cidade em cidade. Diz-se que, imediatamente após sua morte, verificou-se que sua língua havia sido devorada por vermes.

Os habitantes de Éfeso, que ouviram as aclamações antes de lhes ser anunciada a decisão, logo deduziram o resultado, e grande foi sua alegria. Quando, ao término do sermão, os bispos e os Padres saíram da igreja, todos se reuniram e os acompanharam de volta às suas moradas, ao som de conjuntos musicais, levando tochas e ramos de louro e cobrindo de flores o chão das ruas iluminadas em honra daquela ocasião. As mulheres e as crianças prostravam-se, beijando as vestes dos prelados, entoando-lhes louvores e exaltando Nossa Senhora, em cuja honra a cidade ressoou durante toda a noite com os clamores: 'Viva Maria, Mãe de Deus!'

Desde então, à saudação angélica - 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco' - e às palavras de Santa Isabel, por ocasião da Visitação - 'Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus' - acrescentou-se, desde então, a conclusão adotada pelo Concílio de Éfeso: 'Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém'.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sábado, 10 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (II)

 

Maria! Quantas encantadoras lendas estão ligadas ao doce nome de Maria! Eis uma que geralmente é considerada uma narrativa piedosa ou parábola.

Nos primeiros tempos do cristianismo, um piedoso eremita, grande aos olhos de Deus, mas pouco conhecido dos homens - embora São Bernardo tenha pronunciado duas vezes um panegírico em sua honra e composto o ofício para a sua festa - vivia às margens do rio Aube, numa floresta da região de Champagne. Os antigos gauleses haviam adorado ali uma de suas sombrias divindades, que os romanos substituíram por Saturno. Por isso, o lugar era chamado Saturniacum quando o eremita, de nome Victor de Plancy, chegou e construiu uma capela e uma pequena ermida.

Numerosos acontecimentos milagrosos se seguiram a essa obra. Entre os mais surpreendentes estavam as conversões: almas entregues à perdição eram resgatadas para o céu; e corações antes enregelados pelo egoísmo e corrompidos por práticas viciosas inflamavam-se de caridade e produziam tais flores de virtude que até o mundo se via obrigado a admirá-las. São fenômenos que deixam a mente perplexa, mas que a fé explica facilmente.

O santo sentia que as horas que passava sozinho em sua cela eram as mais doces de sua vida. A única criatura viva perto dele era um pardal manso, que alimentava e estimava, considerando-o um símbolo da solidão. Devotado com ternura à Santíssima Virgem, o santo eremita a invocava incessantemente; e as únicas palavras que pronunciava em voz alta eram: Ave Maria! Acostumado a ouvir essas palavras, e somente elas, o pardal aprendeu a repeti-las. Grande foi a alegria do eremita quando, pela primeira vez, a ave pousou em seu ombro e lhe exclamou ao ouvido: Ave Maria!

A princípio, imaginando que algum espírito santo tivesse vindo em missão divina, o eremita caiu de joelhos, reverente. Mas a ave continuou a chilrear Ave Maria! Ave Maria! e ele logo percebeu de onde vinham aquelas doces palavras. O pássaro, que surgira como uma distração inocente, tornou-se um amigo - quase um irmão - uma criatura de Deus que rezava. Victor redobrou os cuidados com ele e, desde então, sua solidão tornou-se agradavelmente mais leve.

A modesta ave, a quem as pessoas deram o nome de 'Pequeno Monge', parecia compartilhar a alegria de seu dono. Ao amanhecer, seu primeiro canto era Ave Maria! Quando Victor lhe lançava migalhas, o passarinho cantava uma ação de graças feita de ave-marias; e, quando o eremita se ajoelhava para suas devoções, pousava em seu ombro e sussurrava suavemente: Ave Maria! Victor cultivava um pequeno jardim. Se, por um instante, perdesse de vista o objeto constante de seus pensamentos, o fiel pardal, pousado numa árvore, logo o faria recordar com seu Ave Maria!


Os cristãos da região, que procuravam o santo eremita em suas aflições e dúvidas, estimavam muito o passarinho. Quando ele os saudava com sua pequena oração, não podiam deixar de considerá-la uma graça milagrosa concedida ao eremita por Nossa Senhora. Quando estava livre, o pardal fazia voos curtos pelos campos. Se Victor, em suas caminhadas meditativas, se afastava da cela mais do que de costume, a ave logo o fazia lembrar-se dela, chilreando uma Ave Maria!

Certo dia de primavera, enquanto Victor jazia enfermo em sua esteira, abriu a pequena porta da cela, e seu amiguinho saiu voando, como de costume. Poucos minutos depois, ele viu, alarmado, um gavião perseguir seu querido pardal. A ave de rapina abriu o bico e estendeu as garras para agarrá-lo e devorá-lo. Já quase sentindo as garras afiadas do inimigo, o pequeno pássaro gritou: Ave Maria! Diante daquele prodígio, o gavião, assustado e aterrorizado, interrompeu a perseguição. O manso pardal teve tempo de voltar à cela; caiu sobre o peito de Victor, chilreou debilmente uma última Ave Maria e morreu.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sábado, 3 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (I)


Em tempos antigos, vivia em um vilarejo em Hainaut, entre Valenciennes e Maubeuge ('onde' - diz a antiga crônica - 'Deus era servido com lealdade, e sua santa Mãe dignamente honrada'), uma moça simples do campo, cuja juventude e graça, candura e gentileza, atraíam a estima geral dos moradores do vilarejo. Ela cresceu pouco versada em assuntos mundanos, mas caminhando confiantemente diante de Deus em inocência e verdade, sem sonhar com o mal.

Sem o dom da memória, e ainda menos com o do conhecimento, a jovem do vilarejo conhecia apenas uma oração, que era - JESUS e MARIA! E mesmo quando seus lábios cessavam de se mover, o eco desses doces nomes flutuava em seu coração.*

* 'Esta curta oração, Jesus e Maria! é fácil de lembrar; ela preenche docemente a mente e é extremamente poderosa na hora da necessidade'  (Tomás de Kempis).

Acompanhai-me agora na lenda popular. O diabo - a quem nossos pais, por mais ignorantes que julguemos que tenham sido, percebiam estar agindo em vários momentos e em diferentes circunstâncias nas quais nós, com nosso orgulho intelectual, não permitimos que ele tenha qualquer papel, deixando de reconhecer o demônio que anda continuamente rugindo ao redor, procurando a quem devorar - o diabo, então, não podia contemplar, sem fúria, a constante e simples piedade desta pobre jovem, tão confiante, tão ingênua, tão simples e tão bela. Ele, portanto, buscou a sua ruína.

Ele atraiu muitos jovens apaixonados para cortejá-la. Com sua curta e simples, mas poderosa oração, ela os repelia sem sequer suspeitar de suas intenções. 'Esses camponeses são sujeitos enfadonhos e estúpidos' - disse o diabo, que, como muitos outros, julgava os talentos daqueles que empregava pelo sucesso de seus próprios planos.


Ele então despertou as paixões dos galanteadores na corte do Conde Guilherme VI. O mais nobre deles, tendo ouvido falar dos encantos da jovem aldeã, veio para a vizinhança ricamente vestido e ofereceu-lhe a homenagem dos seus elogios. A poderosa oraçãozinha triunfou sobre os cortesãos assim como havia feito sobre os rústicos camponeses. O coração humilde a sussurrava com uma firme esperança. Como lhe havia sido ensinado, ela acreditava piamente que Jesus era o seu Deus e Maria, a sua padroeira.

'Bem, isto é espantoso!' - disse o diabo: 'não me resta outra alternativa senão ir eu mesmo e ver o que posso fazer'. Ele sabia que a inocência é defendida pela proteção divina e que Deus guarda os corações simples. Ele estava enfurecido. Assumiu, então, a forma humana, diz a tradição, e apresentou-se diante da jovem. Ele possuía a aparência mais sedutora e os modos mais cativantes; e a conversa dele era tão animada que a jovem ficou encantada com ele; e ficou tão dominada pela confusão que ele lhe causava que se esqueceu de sua santa oração.

O demônio alegrou-se secretamente e redobrou os seus esforços até que, acreditando ter assegurado a sua presa, perguntou despretensiosamente à simples garota: 'Qual é o seu nome, bela jovem?' Por que o diabo fez essa pergunta? E o que teria motivado tal indagação? 'Maria!' - respondeu ela. Ao som deste nome, que é canal de graça e fonte de força, o demônio sobressaltou-se e desapareceu. Surpresa e alarmada com o sumiço repentino dele, a pobre jovem percebeu o perigo que havia corrido. Mas ela havia sido salva e nunca mais a sua curta e doce oração - JESUS e MARIA! - saiu da sua mente.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ETYMOLOGIAE (V)

 

📌As Leis divinas e as Leis Humanas (De legibus divinis et humanis)

1. Todas as leis são divinas ou humanas. As leis divinas fundamentam-se na natureza; as leis humanas, nos costumes. Por essa razão, as leis humanas podem divergir entre si, pois leis diferentes convêm a povos diferentes. Fas é a lei divina; ius é a lei humana. Atravessar a propriedade de um estranho é permitido pela lei divina; não é permitido pela lei humana.

2. Como a jurisprudência, as leis e os costumes diferem entre si (Quid differunt inter se ius, leges, et mores). Ius é um termo geral, e a lei é um aspecto do ius. Chama-se ius porque é justo (iustus). Todo o ius consiste em leis e costumes.

3. A lei é uma norma escrita. O costume é um uso comprovado pelo tempo, ou uma lei não escrita; pois lei (lex, genitivo legis) recebe seu nome de 'ler' (legere), porque é escrita. O costume (mos) é um uso de longa data, derivado igualmente dos 'hábitos morais' (mores, plural de mos). O 'direito consuetudinário' (consuetudo) é um determinado sistema de justiça estabelecido pelos hábitos morais, que é tomado como lei quando falta uma lei; e não importa se ele existe por escrito ou pela razão, pois a razão também confere validade à lei.

4. Além disso, se a lei se fundamenta na razão, então será lei tudo aquilo que estiver de acordo com a razão - desde que esteja de acordo com a religião, seja conforme à boa ordem dos costumes e contribua para o bem-estar. O direito consuetudinário (consuetudo) recebe esse nome porque está em 'uso comum' (communis usus).

5. O direito é natural, civil ou das nações. O direito natural (ius naturale) é comum a todos os povos e, por existir em toda parte pelo instinto da natureza, não é estabelecido por nenhuma disposição legal. Assim são a união entre homem e mulher, a herança e a educação dos filhos, a posse comum de todas as coisas, uma única liberdade para todos e o direito de adquirir tudo aquilo que é obtido do céu, da terra e do mar.

6. Também pertencem ao direito natural a restituição daquilo que foi confiado a alguém e do dinheiro que foi depositado, bem como a repulsão da violência pela força. Ora, isso, ou qualquer coisa semelhante, jamais é injusto, mas é considerado natural e justo.

7. O direito civil (ius civile) é aquele que cada povo ou cidade, individualmente, estabeleceu como próprio para si, por razões humanas ou divinas.

8. O direito das nações diz respeito à ocupação de territórios, à construção, às fortificações, às guerras, aos cativeiros, às escravizações, ao direito de retorno, aos tratados de paz, às tréguas, ao compromisso de não molestar as embaixadas e à proibição de casamentos entre diferentes povos. E é chamado 'direito das gentes' (ius gentium) porque quase todas as nações (gentes) fazem uso dele.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SORRISOS DE DEUS (III)

(Beato Marcel Callo, falecido em 1945)

(Beato Odoardo Focherini, falecido em 1944)

(Santa Maria Troncatti, falecida em 1969)

(Beato Giuseppe 'Pino' Puglisi, falecido em 1993)

(Beato Edward Poppe, falecido em 1924)

(Santa Dulce dos Pobres, falecida em 1992)

(Beato János Brenner, falecido em 1957)

(Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, falecida em 1959)

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ETYMOLOGIAE (IV)

 

📌Os Apóstolos (De apostolis)

1. Apóstolo (apostolus) significa 'aquele que é enviado', pois é isso que o próprio nome indica. Assim como em grego ἄγγελος significa 'mensageiro' (nuntius) em latim, assim também 'aquele que é enviado' é chamado, em grego, de 'apóstolo' (apostolus), pois Cristo os enviou para difundir o Evangelho por todo o mundo. Alguns deles penetraram até a Pérsia e a Índia, ensinando às nações e realizando grandes e incríveis milagres em nome de Cristo, a fim de que, por meio daqueles sinais e prodígios que confirmavam sua pregação, os homens acreditassem naquilo que os Apóstolos diziam e haviam visto. A maior parte deles recebe, dessas atividades, a explicação de seus nomes.

2. Pedro (Petrus) recebeu seu nome de 'pedra' (petra), isto é, de Cristo, sobre quem a Igreja está fundada. Com efeito, petra não recebe seu nome de Petrus, mas Petrus de petra, assim como 'Cristo' não é assim chamado a partir de 'cristão', mas 'cristão' a partir de 'Cristo'. Por isso o Senhor diz: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra (petra) edificarei a minha Igreja' (Mt 16,18), porque Pedro havia dito: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16). Então o Senhor lhe disse: 'Sobre esta pedra' que proclamaste 'edificarei a minha Igreja', pois 'a pedra era Cristo' (1Cor 10,4) e sobre esse fundamento o próprio Pedro também foi edificado.

3. Foi chamado Cefas porque foi constituído como cabeça (caput) dos apóstolos, pois κεφαλή em grego significa 'cabeça' e Cefas é o nome sírio de Pedro.

4. Simão 'Bar-Jonas', em nossa língua, significa 'filho da pomba', sendo um nome formado tanto do siríaco quanto do hebraico; pois Bar, na língua siríaca, significa 'filho' e 'Jonas', em hebraico, significa 'pomba'; assim, Bar-Jonas é composto de elementos das duas línguas.

5. Alguns entendem simplesmente que Simão, isto é, Pedro, é filho de João, por causa daquela pergunta (João 21,15): 'Simão, filho de João, tu me amas?' (Jo 21,15) e alguns consideram que o nome foi corrompido por um erro dos copistas, de modo que se escreveu Bar-Iona em lugar de Bar-Iohannes, isto é, 'filho de João', com a supressão de uma sílaba. 'Joana' significa 'graça do Senhor'.

6. Assim, Pedro possuía três nomes: Pedro, Cefas e Simão Bar-Jonas. Além disso, 'Simão', em hebraico, significa 'aquele que escuta'.

7. Saulo, na língua hebraica, significa 'tentação', porque, a princípio, ele esteve envolvido na provação da Igreja, pois era perseguidor; daí ter possuído esse nome enquanto perseguia os cristãos.

8. Posteriormente, mudado o nome, de Saulo fez-se Paulo, que é interpretado como 'o admirável' ou 'o escolhido'. Admirável, porque realizou muitos sinais, ou porque, do Oriente ao Ocidente, pregou o Evangelho de Cristo a todas as nações.

9. Escolhido, como diz o Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos: 'Separai-me Barnabé e Paulo para a obra para a qual os escolhi' (At 13,2). Além disso, na língua latina, Paulo (Paulus cf. paulus, 'pequeno') recebe seu nome de 'pequeno', razão pela qual ele próprio diz: 'Pois eu sou o menor de todos os apóstolos' (1Cor 15,9). Assim, quando era Saulo, era orgulhoso e altivo; quando Paulo, humilde e pequeno.

10. Por isso dizemos: 'daqui a pouco (paulo) te verei', isto é, depois de um breve espaço de tempo. E, porque se fez pequeno, ele próprio diz (cf. 1 Coríntios 15,8): 'Pois eu sou o último [de todos] os apóstolos' (1Cor 15,8) e ainda: 'A mim, o menor de todos os santos' (Ef 3,8). Assim, tanto Cefas quanto Saulo foram chamados por um nome mudado, para que fossem verdadeiramente novos até mesmo em seus nomes, à semelhança de Abraão e Sara.

11. André, irmão de Pedro segundo a carne foi seu coerdeiro segundo a graça; de acordo com sua etimologia hebraica, 'André' significa 'o belo' ou 'aquele que responde'; além disso, na língua grega, é chamado 'o viril', a partir da palavra que significa 'homem' (cf. grego ἀνήρ, genitivo ἀνδρός, 'homem').

12. João, com certa presciência profética, recebeu merecidamente seu nome, pois este significa 'aquele em quem está a graça' ou 'graça do Senhor'. Com efeito, Jesus o amou mais plenamente que aos outros apóstolos.

13. Tiago, filho de Zebedeu, recebeu do seu pai o seu sobrenome; deixando o seu pai, seguiu com seu irmão João o verdadeiro Pai. Estes irmãos foram chamados Boanerges que significa 'Filhos do Trovão' (Mc 3,17), pela força e grandeza de sua fé. Este Tiago é o filho de Zebedeu, irmão de João que, segundo se sabe, foi morto por Herodes depois da Ascensão do Senhor.

14. Tiago de Alfeu recebe esse sobrenome para ser distinguido do outro Tiago, chamado filho de Zebedeu, pois este segundo é filho de Alfeu. Assim, ambos receberam seus sobrenomes de seus pais.

15. Este é Tiago Menor, que no Evangelho é chamado irmão do Senhor, porque Maria, esposa de Alfeu, era irmã da mãe do Senhor; e o evangelista João deu àquela Maria o sobrenome 'de Cleopas', a partir do nome de seu pai, atribuindo-lhe esse nome quer pela nobreza de sua família, quer por alguma outra razão. Além disso, 'Alfeu', na língua hebraica, significa 'o milésimo' ou, em latim, 'o instruído'.

16. Filipe significa 'boca das lâmpadas' [a luz recebida de Cristo] ou 'boca das mãos' [a pregação dessa luz]. Tomé significa 'o abismo' ou 'o gêmeo', razão pela qual, em grego, também é chamado Dídimo. Bartolomeu, 'filho daquele que sustenta as águas' ou 'filho daquele que me sustenta'. Este nome é siríaco, não hebraico.

17. 'Mateus', em hebraico, significa 'aquele que foi agraciado'. Este mesmo homem também foi chamado Levi, por causa da tribo da qual descendia. Além disso, em latim recebeu o nome de 'publicano' em razão de seu ofício, pois foi escolhido dentre os publicanos e chamado ao apostolado.

18. Simão, o Cananeu, para ser distinguido de Simão Pedro, recebe seu nome da cidade galileia de Caná, onde o Senhor transformou a água em vinho. É este que outro evangelista designa como 'o zelota' pois, com efeito, 'Caná' significa 'zelo'.

19. Judas de Tiago, que em outro lugar é chamado Lebeu, possui um nome simbólico derivado da palavra que significa 'coração', que, no diminutivo, podemos traduzir como 'pequeno coração'. Outro evangelista chama este Judas de Tadeu (Mt 10,3). A história eclesiástica relata que ele foi enviado a Edessa, ao rei dos Abgaros.

20. Judas Iscariotes recebeu seu nome ou da cidade em que nasceu, ou da tribo de Issacar, trazendo em seu próprio nome, como certo presságio do futuro, a indicação de sua condenação; pois 'Issacar' significa 'pagamento', significando assim o preço recebido pelo traidor, pelo qual vendeu o Senhor, conforme está escrito em relação ao seu pagamento, 'as trinta moedas de prata, o preço em que fui avaliado por eles (Mt 27,9).

21. Matias, que é considerado o único entre os apóstolos a não possuir sobrenome, significa 'aquele que foi agraciado' [mesma etimologia de Mateus], devendo-se entender: 'em lugar de Judas', pois foi eleito pelos apóstolos para ocupar o lugar de Judas, quando lançaram sortes para decidir entre dois homens.

22. Marcos significa 'elevado em seu mandato', especialmente por causa do Evangelho do Altíssimo que pregou.

23. Lucas significa 'aquele que se levanta' ou 'aquele que eleva' porque, depois dos outros, elevou a pregação do Evangelho.

24. Barnabé significa 'filho do profeta' ou 'filho da consolação'.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (II)

(Venerável Fulton Sheen, a ser beatificado em setembro/2026, falecido em 1979)

(Santa Teresa de Lisieux, falecida em 1897)

(Beata Sandra Sabattini, falecida em 1984)

(São João Bosco, falecido em 1888)

(Beata Alexandrina da costa, falecida em 1955)

(São Alberto Hurtado, falecido em 1952)

(Beata Chiara Badano, falecida em 1990)

(Santa Teresa de Calcutá, falecida em 1997)

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (I)

(São Padre Pio, falecido em 1968)

(São Carlo Acutis, falecido em 2006)

(Serva de Deus Anne-Gabrielle Caron, falecida em 2010)

(Santa Gianna Beretta Molla, falecida em 1962)

(São Pier Giorgio Frassati, falecido em 1925)

(São Rafael Arnaiz Barón, falecido em 1938)

(Santa Bernadete Soubirous, falecida em 1879)

(São Josemaria Escrivá, falecido em 1975)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (III)


📌Cânones dos Concílios (De canonibus Conciliorum)

1. Cânone (canon) é uma palavra grega; em latim, significa 'régua' ou 'norma' (regula). A régua recebe esse nome porque traça em linha reta (recte) e nunca se desvia. Alguns dizem que ela é assim chamada porque rege (regere), porque oferece uma norma para viver retamente (recte) ou porque corrige (corrigere) tudo o que é deformado ou perverso.

2. Os cânones dos concílios gerais começaram no tempo de Constantino pois, nos anos anteriores, enquanto grassavam as perseguições, havia pouca oportunidade para instruir o povo. 

3. Por essa razão, o cristianismo foi dilacerado por diversas heresias, pois não havia liberdade para que os bispos se reunissem em unidade até o tempo do imperador acima mencionado, que concedeu aos cristãos a faculdade de se congregarem livremente.

4. Sob Constantino, os santos Padres, reunidos de todas as partes do mundo no Concílio de Niceia, promulgaram, em conformidade com a fé evangélica e apostólica, o segundo Credo - o Credo Niceno - depois do Credo dos Apóstolos.

5. Entre os concílios da Igreja, quatro são os veneráveis sínodos que mais plenamente abrangeram toda a fé, assim como quatro são os Evangelhos e quatro os rios do Paraíso.

6. O primeiro deles, o Sínodo de Niceia, composto por 318 bispos, realizou-se durante o governo de Constantino Augusto. Nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana acerca da desigualdade da Santíssima Trindade, defendida pelo próprio Ário. Esse santo sínodo estabeleceu, por meio de seu Credo, que Deus Filho é consubstancial a Deus Pai.

7. O segundo sínodo, composto por 150 Padres, reuniu-se em Constantinopla sob Teodósio, o Velho. Condenando Macedônio, que negava que o Espírito Santo fosse Deus, demonstrou que o Espírito Santo é consubstancial ao Pai e ao Filho, dando forma ao Credo que todos os fiéis de língua latina e grega proclamam nas igrejas.

8. O terceiro, o Primeiro Sínodo de Éfeso, composto por 200 bispos, realizou-se sob Teodósio Augusto, o Jovem. Condenou, com justa sentença de anátema, Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo; e demonstrou que, em duas naturezas, subsiste a única pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O quarto, o Sínodo de Calcedônia, composto por 630 sacerdotes, realizou-se sob o imperador Marciano. Nesse sínodo, uma sentença unânime dos Padres condenou Eutiques, abade de Constantinopla, que pregava haver uma única natureza tanto do Verbo de Deus quanto de sua carne; condenou também seu defensor Dióscoro, antigo bispo de Alexandria, e novamente Nestório, juntamente com os demais hereges. Esse mesmo sínodo proclamou que Cristo Senhor nasceu da Virgem e, consequentemente, reconhecemos que em Cristo se encontra a substância tanto da natureza divina quanto da natureza humana.

10. Estes são os quatro principais sínodos, que proclamaram com a maior plenitude a doutrina de nossa fé. E todos os outros concílios que os santos Padres, repletos do Espírito de Deus, sancionaram permanecem em pleno vigor, sustentados pela autoridade desses quatro, cujas realizações estão registradas nesta obra.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVII)

William Dyce
(1806–1864) foi um pintor escocês particularmente interessante para quem aprecia arte cristã tradicional, ocupando uma posição singular na pintura britânica do século XIX como um artista especializado sobretudo em temas religiosos e medievais. Dyce procurava conciliar correção acadêmica, beleza formal e sentimento religioso, evitando muitas vezes o sentimentalismo teatral que aparece em parte da pintura religiosa oitocentista. Essa dimensão religiosa não era apenas temática. Dyce tinha profundo interesse pela liturgia e pela música sacra. Em 1841 fundou a Motett Society, dedicada ao estudo, execução e republicação de música eclesiástica dos séculos XVI e XVII. 

Abaixo, apresenta-se a reprodução de algumas das suas obras mais clássicas, sendo apenas a última delas uma obra não sacra.

Davi no deserto*

Nossa Senhora e o Menino Jesus

Cristo, Homem das Dores*

Lamentação sobre o Cristo Morto

São João conduz Nossa Senhora após a Crucificação

O encontro de Jacó e Raquel

Baía de Pegwell, Kent** - uma recordação de 5 de outubro de 1858

* Davi, representado como um jovem pastor, e Jesus são retratados em paisagens inspiradas nas Terras Altas da Escócia, em vez de nos cenários próprios do contexto bíblico.
** A pintura mostra membros de sua família recolhendo conchas na praia, diante das falésias de Kent.