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sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVI)

Os vitrais e as rosáceas constituem um dos elementos mais característicos da arquitetura gótica medieval. As rosáceas são grandes janelas circulares preenchidas por delicados rendilhados de pedra com vitrais. Muito além de elementos de decoração, expressam a fé católica por meio da luz transmitida que assume a cor dos vidros coloridos. Nas palavras de São Bernardo de Claraval: 'Assim como um raio de luz branca entra numa janela de vidro e sai ileso, mas adquire a cor do vidro, o Filho de Deus, que entrou no ventre castíssimo da Virgem, saiu puro, mas assumiu a cor da Virgem, isto é, a natureza de um homem e a formosura da forma humana, e revestiu-se dela'. As rosáceas das grandes catedrais francesas expressam magistralmente a beleza desta comparação.  

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Notre-Dame)

(rosácea da Catedral de Estraburgo)

(rosácea ocidental da Catedral de Amiens)

(rosácea ocidental da Catedral de Laon)

(rosácea ocidental da Catedral de Reims)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLV)

Os tapetes de Corpus Christi revelam uma tradição muito antiga, que surgiu na região dos Açores em Portugal no século XV e foi introduzida no Brasil no período colonial. Em Minas Gerais, estado que durante o Ciclo do Ouro recebeu milhares de portugueses, a tradição foi amplamente difundida e se enraizou na sociedade cristã de todas as épocas, fazendo parte da tradição religiosa mineira. Em Ouro Preto/MG, essa tradição resulta em um verdadeiro espetáculo de fé, arte e cultura, numa mistura grandiosa de beleza, devoção e encantamento.





 


sábado, 30 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA


A primeira encíclica do Papa Leão XIV - Magnifica Humanitas - já está sendo descrita como a grande intervenção da Igreja Católica no debate sobre a inteligência artificial. Essa descrição é correta, dentro dos limites que estabelece. O Papa aborda o poder dos algoritmos, a automação, a substituição da mão de obra, a vigilância e a crescente concentração da influência tecnológica nas mãos de um pequeno número de atores corporativos e políticos. Mas o tema mais profundo da encíclica não é a inteligência artificial. É a pessoa humana e sua definição.

Essa é a questão subjacente a todo debate contemporâneo sobre IA, mesmo quando não expressa. Somos meramente máquinas biológicas altamente sofisticadas - conjuntos de impulsos, preferências e atividade neural à espera de replicação por sistemas mais avançados? Ou somos criaturas dotadas de capacidade moral, profundidade espiritual, criatividade, consciência e um destino transcendente que nenhum algoritmo pode imitar?

A resposta é importante porque toda tecnologia acaba se tornando uma expressão da civilização que a cria. Ferramentas nunca são meramente ferramentas. Elas carregam pressupostos embutidos sobre a natureza humana, a intenção humana e o propósito humano.

Leão compreende isso claramente. Ao longo de Magnifica Humanitas, ele adverte contra tanto o economismo quanto o cientificismo - a tendência de reduzir as pessoas a unidades de produtividade econômica ou a processos materiais inteiramente sujeitos à gestão técnica. A dignidade humana, ele insiste, não é conferida pela eficiência, pela utilidade de mercado ou pela superioridade computacional. Ela é intrínseca à própria pessoa. Isso coloca o papa em oposição direta não à tecnologia em si, mas à visão de mundo transumanista cada vez mais influente que molda grande parte do desenvolvimento tecnológico de elite e a cultura que o produz.

O transumanismo* parte de uma compreensão limitada do homem. Se a consciência é redutível ao processamento de informações, então as limitações humanas tornam-se problemas de engenharia à espera de solução. A mortalidade torna-se um defeito técnico. A dependência torna-se fraqueza. O próprio corpo torna-se hardware obsoleto à espera de atualização. Sob essa visão, o propósito da tecnologia não é mais servir à humanidade, mas transcendê-la.

Essa aspiração anima hoje uma quantidade surpreendente da retórica tecnológica contemporânea. Ouvem-se constantemente promessas de que a IA em breve superará os seres humanos não apenas no cálculo, mas também na criatividade, no discernimento, na inteligência emocional, na companhia e até mesmo no raciocínio moral. A implicação é inequívoca: a própria humanidade está se tornando um estágio intermediário ineficiente na evolução da inteligência. É difícil não perceber a ironia. Uma civilização cada vez mais incerta quanto ao significado da vida e da identidade humana propõe agora construir máquinas à sua própria imagem.

A encíclica de Leão representa um desafio direto a essa antropologia. O papa insiste que os seres humanos não podem ser compreendidos meramente através das categorias de eficiência, produtividade ou resultados mensuráveis, pois os seres humanos não são sistemas materiais autônomos. Eles possuem o que a tradição cristã clássica descreve como transcendência - uma abertura à verdade, à beleza, à bondade, ao amor, ao sacrifício e, em última instância, ao próprio Deus. Nessa perspectiva, o sentido de nossa humanidade se revela precisamente em nossa contingência e vulnerabilidade. A pessoa humana, nesse entendimento, não é superada pela máquina porque a pessoa humana não é redutível a cálculos.

Essa percepção não é anticientífica. Nem é nostálgica. Leão tem o cuidado de evitar a tentação troglodítica que muitas vezes acompanhou períodos de rápida mudança tecnológica. Ele não clama por um recuo em relação à inovação. Ele não romantiza um passado pré-tecnológico. De fato, um dos aspectos mais marcantes de Magnifica Humanitas é sua recusa em demonizar o próprio progresso.

O papa elogia explicitamente a iniciativa empreendedora como uma vocação digna. Ele reconhece que a inovação aliviou o sofrimento, ampliou as possibilidades humanas e tirou bilhões de pessoas de condições de pobreza e isolamento que seriam inimagináveis para as gerações anteriores. A preocupação da Igreja, ele deixa claro, não é com a tecnologia em si, mas com os pressupostos morais e antropológicos que orientam o seu desenvolvimento. Essa distinção é fundamental porque grande parte do debate público em torno da inteligência artificial permanece presa entre dois extremos igualmente inadequados.

De um lado estão os utópicos tecnológicos. Para eles, todo aumento no poder computacional representa progresso moral. Os problemas humanos tornam-se problemas de engenharia. A política torna-se gestão de sistemas. Atrito, ambiguidade, dependência e limitação são vistos menos como características permanentes da condição humana do que como erros a serem corrigidos por meio de tecnologia suficientemente avançada.

Do outro lado estão os novos reacionários - aqueles tentados a tratar a própria tecnologia moderna como um erro civilizacional. Seu instinto é o recuo: um anseio romantizado por uma era anterior, supostamente intocada pela alienação, pela burocracia e pela mediação tecnológica. Ambas as visões interpretam mal o problema porque ambas interpretam mal a pessoa humana. O desafio que a civilização moderna enfrenta não é se possuiremos tecnologias poderosas. Já as possuímos. A verdadeira questão é se nossas tecnologias permanecerão subordinadas a uma visão coerente do florescimento humano. Uma civilização livre e verdadeiramente virtuosa requer mais do que inovação. Ela requer um pluralismo enraizado em uma compreensão duradoura da dignidade humana.

A encíclica de Leão aponta precisamente para essa possibilidade. Sua defesa reiterada das instituições intermediárias - famílias, igrejas, escolas, associações voluntárias, comunidades locais e iniciativa empreendedora - reflete a compreensão de que a civilização não é construída exclusivamente por meio de regulamentação centralizada ou gestão burocrática ou tecnológica. Ela é construída por meio da cultura. E a cultura depende, em última instância, da antropologia. A questão decisiva da era da IA, portanto, não é simplesmente o que as máquinas são capazes de fazer. É para que servem os seres humanos. Qual é o seu telos?

Se o homem é meramente um organismo computacional avançado, então sistemas artificiais cada vez mais sofisticados tornar-se-ão naturalmente a medida da inteligência, da produtividade e da autoridade social. Nessas condições, a humanidade acabará por parecer sempre obsoleta segundo os seus próprios padrões. Mas se a pessoa humana possui uma dignidade irredutível fundamentada na transcendência - se ela está orientada não apenas para o consumo e a eficiência, mas para a verdade, a beleza, a virtude, a adoração e o amor - então nenhuma máquina, por mais poderosa que seja, pode substituí-la.

As máquinas podem nos superar em velocidade, memória, previsão e cálculo. Elas podem realizar inúmeras tarefas melhor do que nós. Mas não podem se arrepender. Não podem se sacrificar por outra pessoa. Não podem contemplar a beleza por si mesma. Não podem amar. Não podem buscar a Deus. Uma civilização que esqueça isso pode tornar-se tecnologicamente magnífica, mas espiritualmente exaurida. Uma civilização que se lembre disso ainda poderá construir tecnologias dignas do homem.

* movimento filosófico e científico que defende o uso da tecnologia e da ciência para aprimorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano

(Robert A. Sirico, em First Things, 29/05/2026, tradução do autor do blog)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

STAT CRUX DUM VOLVITUR ORBIS

A expressão Stat Crux dum volvitur orbis - 'A cruz permanece enquanto o mundo gira' - é o lema oficial da Ordem dos Cartuxos, fundada por São Bruno em 1084. Num mundo onde tudo muda, onde as verdades são relativizadas e a fé é contestada a cada instante, a Cruz de Cristo é a única coisa que permanece firme e inabalável. A Cruz não é apenas símbolo de sofrimento: é o caminho para a verdadeira liberdade. Liberta do pecado, do egoísmo, da escravidão do mundo. Abraçá-la significa crer que - mesmo que tudo ao redor desabe - Deus permanece fiel. Seu amor não muda. Suas promessas se cumprem e são eternas. Veja os cinco passos de como aplicar essa verdade eterna na vida cotidiana, num mundo em que tudo muda a toda hora.

1. Oração centrada na Cruz

  • Dedique diariamente um momento à contemplação do Crucifixo. 
  • Medite sobre a Paixão de Cristo: em suas chagas estão as suas. 
  • Reze a Via Sacra toda sexta-feira – ou ao menos na Quaresma. 
  • Invoque o Espírito Santo para que lhe revele o que Deus quer lhe mostrar por meio da Cruz. 

2. Discernimento à luz da Cruz

  • Antes de cada decisão importante: Qual escolha me aproxima mais de Cristo Crucificado?
  • Não escolha o que é mais confortável, mas o que leva ao amor verdadeiro, ao sacrifício, à verdade. 

3. Acolhimento da própria cruz

  • Cada um carrega uma cruz: não a desperdice.
  • Ofereça-a unida à Cruz de Cristo - pelos outros, pela Igreja, pela conversão do mundo.
  • Não rejeite a cruz: ela purifica e liberta.

4. Estabilidade espiritual em tempos de confusão

  • Permaneça fiel aos sacramentos - especialmente à Confissão e à Eucaristia. 
  • Esteja enraizado na doutrina sã - alimentada pela Palavra de Deus e pelo Magistério fiel da Igreja. 
  • Evite modismos espirituais e ideologias passageiras. 
  • Pergunte-se sempre: Isto está em conformidade com a Cruz de Cristo e com a Igreja fundada por Ele?

5. Viver com o olhar na eternidade

  • A Cruz nos recorda que a vida não termina aqui.
  • Cada sofrimento, cada esforço, unido a Cristo, tem valor eterno. 
  • A Cruz conduz à Ressurreição - não se esqueça disso nos momentos escuros.
(excertos de texto publicado originalmente em Catholicus.eu em português)

terça-feira, 28 de abril de 2026

OS FRUTOS ATUAIS DA GRANDE APOSTASIA

De acordo com as palavras de São Paulo, 'haverá apostasia e o homem da iniquidade será revelado'. Em outras palavras, o Homem da Iniquidade nasce de uma apostasia ou pelo menos chega ao poder por meio de uma apostasia, ou é precedido por uma apostasia. Ou seja, ele não existiria se não fosse por uma apostasia. É isso que diz o texto inspirado; agora, observemos, como se pode ver na história, como o curso da Providência nos permite interpretar essa predição.

...Não há razões para temer que tal apostasia esteja sendo gradualmente preparada, se acumulando e amadurecendo em nossos dias? Não existe, neste exato momento, um esforço específico em quase todas as partes do mundo para se viver sem religião, mais ou menos evidente aqui e ali, mas mais visível e sedimenatdo nas regiões mais civilizadas e poderosas? Não há um consenso recente de que um estado não tem nada a ver com religião, que esta diz respeito apenas à consciência individual? O que equivale a dizer que podemos deixar a Verdade desaparecer da face da Terra sem fazer nada para impedi-la. Não existe um movimento vigoroso e unificado em todos os países com o objetivo de privar a Igreja de Cristo de seu poder e posição? Não existe um esforço febril e persistente para se livrar da necessidade da religião nos assuntos públicos? 

Por exemplo, a tentativa de abolir os juramentos sob o pretexto de serem demasiado sagrados para os assuntos do dia a dia, em vez de garantir que sejam proferidos de forma mais reverente e apropriada. Não haveria uma tentativa de educar sem religião, isto é, colocando todas as formas de religião no mesmo nível? Não haveria uma tentativa de reforçar a temperança e todas as virtudes que dela decorrem, sem religião, por meio de sociedades baseadas em meros princípios de utilidade? De ​​fazer da conveniência, e não da verdade, o fim e o padrão das decisões do Estado e da constituição das leis; de fazer dos números, e não da Verdade, o critério para defender ou rejeitar este ou aquele artigo de fé, como se as Escrituras fornecessem uma base para sustentar que muitos estão certos e poucos estão errados? 

De privar a Bíblia do seu significado primordial, para nos fazer pensar que ela tem cem significados, todos igualmente verdadeiros ou, por outras palavras, que ela não tem significado algum, que é letra morta e que pode ser desconsiderada? Substituir a religião como um todo, na medida em que é externa e objetiva, expressa em leis e palavras escritas, por algo meramente subjetivo, confinando-a aos nossos sentimentos internos e, assim, dada a sua instabilidade e variabilidade, destruindo, em última instância, a religião?

(Excertos de "Quatro Sermões sobre o Anticristo', proferidos pelo Cardeal John H. Newman em 1873!)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O DESTINO FINAL DOS PRIMEIROS 32 PAPAS



Século I

1º Papa – São Pedro – bispo de Roma no período de 37 a 67
Morto por Nero – imperador romano no período de 41 a 68

2º Papa – São Lino – de 69 a 79
Morto por Vespasiano – imperador romano no períodode 69 a 79

3º Papa – São Cleto – de 79 a 92
Morto por Domiciano – imperador romano no período de 81 a 96

Século II

4º Papa – São Celemente – de 92 a 101
Morto por Trajano – imperador romano no período de 98 a 117

5º Papa – Santo. Evaristo – de 101 a 107
Morto por Trajano – imperador romano no período de 98 a 117

6º Papa – Santot. Alexandro – de 107 a 116
Morto por Trajano – imperador romano no período de 98 a 117

7º Papa – São Xisto – de 116 a 125
Morto por Adriano – imperador romano no período de 117 a 138

8º Papa – São Telésforo – de 125 a 138 
Morto por Adriano – imperador romano no período de 117 a 138

9º Papa – Santo Higino – de 138 a 142
Morto por Antonino – imperador romano no período de 138 a 161

10º Papa – São Pio I – de 142 a 155
Morto por Antonino – imperador romano no período de 138 a 161

11º Papa – Santo Aniceto – de 155 a 166
Morto por Marco Aurélio – imperador romano no período de 161 a 180

12º Papa – Santo Sotero – de 166 a 174
Morto por Marco Aurélio – imperador romano no período de 161 a 180

13º Papa – Santo Eleutério – de 174 a 189 
Morto por Cômodo -  imperador romano no período de 180 a 193

14º Papa – SãoVitor I – de 189 a 199
Morto por Septímio Severo – imperador romano no período de 193 a 211

Século III
 
15º Papa – São Zeferino – de 199 a 217
Morto por Caracala – imperador romano no período de 211 a 217

16º Papa – São Calixto I – de 217 a 222
Morto por Heliogábalo - imperador romano no período de 218 a 222

17º Papa – Santo Urbano I – de 222 a 230
Morto por Alexandre Severo - imperador romano no período de 222 a 235

18º Papa – São Ponciano – de 230 a 235
Morto por Alexandre Severo - imperador romano no período de 222 a 235

19º Papa – Santo Antero – de 235 a 236
Morto por Maximino - imperador romano no período de 235 a 238

20º Papa – São Fabiano de 236 a 250
Morto por Décio - imperador romano no período de 249 a 251

21º Papa – São Cornélio – de 251 a 253
Morto por Treboniano – imperador romano no período de 251 a 253

22º Papa – São Lúcio – de 253 a 254
Morto por Valeriano – imperador romano no período de 253 a 260

23º Papa – Santo Estêvão – de 254 a 257
Morto por Valeriano – imperador romano no período de 253 a 260

24º Papa – São Xisto II – de 257 a 258
Morto por Valeriano – imperador romano no período de 253 a 260

25º Papa – São Dionísio – de 259 a 268
Não sofreu o martírio

26º Papa – São Félix – de 269 a 274
Morto por Aureliano – imperador romano no período de 270 a 275

27º Papa – São Eutiquiano – de 275 a 283
Não sofreu o martírio

28º Papa – São Caio – de 283 a 293
Não sofreu o martírio

Século IV

29º Papa – São Marcelino – de 296 a 304
Não sofreu o martírio

30º Papa – São Marcelo I – de 308 a 309
Morto por Constâncio - imperador romano no período de 305 a 311

31º Papa – Santo Eusébio – de 309 a 310
Desterrado por Maxêncio - imperador (usurpador) romano no período de 306 a 312

32º Papa – São Melquíades – de 311 a 314
Não foi martirizado; o seu papado ocorreu justamente na transição entre as perseguições aos cristãos e a legalização da fé no Império Romano, especialmente após o Edito de Milão (313), promovido por Constantino I, o Grande – o primeiro imperador cristão (306 a 337).

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ATÉ QUANDO?

'Nos últimos tempos, virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências' (2Pd 3,3)


'Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores' (Sl 1,1)

O escárnio, a blasfêmia e o escândalo são frutos da miséria humana desde a criação. E o Filho do Homem numa cruz nos ensinou que o caminho da graça não perpassa pela lixeira dos sentidos, muito menos por uma avenida de lixos em conserva.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SOBRE A HERESIA 'EVANGÉLICA'

Quem chamar hereges de evangélicos deve morder a língua para que o diabo não se alegre com o fato de os inimigos do Evangelho e da Cruz de Cristo usarem um nome contrário às suas obras; pois os hereges devem ser chamados pelo nome, de modo que é horrível até mesmo nomear aqueles que o são e que encobrem o veneno mortal que destilam com o véu de um remédio que os curaria...'
(Santo Inácio de Loyola)

A primeira característica da heresia anti-litúrgica é o ódio pela Tradição nas fórmulas do culto divino. Não se pode negar esta característica especial em todos os hereges, desde Vigilâncio até Calvino, e a razão é fácil de se explicar. Todo sectário, querendo introduzir uma nova doutrina, encontra-se inevitavelmente na presença da Liturgia, que é a tradição em seu mais alto poder, e não consegue encontrar repouso até ter feito calar esta voz, até estarem rasgadas as páginas que contêm a fé dos séculos passados. Com efeito, como se estabeleceram e se mantiveram em meio às massas o luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo? Tudo se consumou através da substituição dos livros e fórmulas antigos por livros e fórmulas novos.
(P. Guéranger)

Ninguém pode, mesmo que o queira, submeter-se a Cristo e estar em comunhão com a Igreja Celeste, se não se submete ao pontífice, e não está em comunhão com a Igreja Militante. Com efeito, diz Cristo: 'O que vos ouve, a mim ouve' (Lc 10,16). Ademais, assim como Cristo é a suma cabeça, quanto ao influxo interior (pois ele mesmo influi em seus membros sentido e movimento, isto é, a fé e a caridade), assim o papa é a suma cabeça na Igreja Militante, quanto ao influxo exterior da doutrina da fé e dos sacramentos. Também a Igreja Triunfante está unida à Igreja Militante e, na verdade, elas são uma só; portanto, ninguém pode querer separar-se de uma sem que se separe da outra.
(São Roberto Belarmino)

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

ATÉ QUANDO?

 

Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus (2Ts 2,3-4).

Faça atos diários de desagravo e reparação a Deus nestes tempos tremendos da história humana! Oração, oração, oração!

(texto na página principal do blog)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

FELIZ E SANTO NATAL EM CRISTO!

Desejo a todos os nossos amigos e visitantes um Santo e Feliz Natal! 

CÂNTICO DE NATAL

Ó meu Menino Jesus, 
sede a minha esperança!
Que na gruta da vossa Belém 
eu possa renascer também
como uma outra criança!  

Ó meu Menino Jesus,  
sede minha santa alegria!
Que o meu presépio se faça 
banhando minha alma na graça
de uma pobre estrebaria!

Ó meu Menino Jesus, 
sede minha força e minha fé!
Que a mãe que me vela agora
seja a mesma Nossa Senhora 
da família de Nazaré!

Ó meu Menino Jesus, 
sede farol e minha luz!
Que este Natal de abraços,
se faça caminho de passos
que passam diante da Cruz! 

Ó meu Menino Jesus, 
sede a alma do meu viver!
Que este Natal me converta
em dom, partilha e oferta
para os que vão renascer!
E em dom, oferta e partilha,
onde ainda hoje não brilha
a luz do vosso nascer! 

Ó meu Menino Jesus, 
sede minha paz e todo bem!
Que eu viva a bem aventurança 
de adorar Deus feito criança
numa gruta de Belém!

(Arcos de Pilares)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (III)

 SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER JUDICIÁRIO

Virgínio, um centurião romano, matou a sua própria filha Virgínia, para salvá-la de ser escravizada e desonrada por Ápio Cláudio, que então exercia o cargo de decênviro (magistrado com poder absoluto), mediante decisão de um processo judicial fraudulento, realizado no Fórum Romano, presidido pelo próprio Ápio Cláudio.

 'A Morte de Virgínia', obra do artista francês Guillaume Guillon-Lethière (1828)

Esse evento, ocorrido por volta de 449 a.C., tornou-se um exemplo clássico de abuso e de corrupção judicial, produzindo uma intensa reação do povo romano, o que levou à queda do governo tirânico dos decênviros e ao restabelecimento da República Romana.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (II)

SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER EXECUTIVO

Nero foi o imperador romano (54-68 d.C.) que iniciou as primeiras perseguições aos cristãos, sobretudo após o Grande Incêndio de Roma em 64 d.C., culpando-os pelo incêndio e submetendo-os a punições cruéis, incluindo o suplício de serem queimados vivos (como tochas humanas). Entre outras crueldades, foi responsável pelo assassinato da própria mãe e da esposa grávida.

'As Tochas de Nero', obra do artista polonês Henryk Siemiradzki (1876)

Em meio a revoltas militares e declarado como inimigo público, Nero fugiu de Roma e, temendo uma execução pública humilhante, cometeu suicídio, com ajuda do seu secretário, que o apunhalou. Com a sua morte, desapareceu a dinastia júlio-claudiana e o império submergiu-se numa série de guerras civis.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (I)

SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER LEGISLATIVO

Eis o homem coberto de todas as honrarias - Caio Júlio César: líder militar, imperador, cônsul, sumo sacerdote da religião oficial romana, ditador vitalício, figura de deificação oficial. Assassinado em 15 de março de 44 a.C, no Teatro de Pompeu, em Roma, esfaqueado várias vezes por um grupo de senadores romanos, que pretendiam restaurar a República Romana.

'A Morte de Júlio César', obra do artista italiano Vincenzo Camuccini (1804/1805)

O assassinato de César e a subsequente ascensão de seu sobrinho-neto Otaviano como seu herdeiro e vingador levaram a guerras civis e à ascensão do Segundo Triunvirato. Otaviano tornou-se o Imperador César Augusto. A República Romana havia chegado ao fim.

sábado, 8 de novembro de 2025

UM NÃO AO QUINTO DOGMA MARIANO

O Dicastério para a Doutrina da Fé do Vaticano - principal órgão doutrinário da Igreja - publicou na terça feira passada (04/11/2025), a Nota Doutrinal Mater Populi Fidelis, visando esclarecer e alertar aos fieis católicos a utilização relativa de alguns títulos marianos, particularmente o de 'correndentora' e de 'medianeira de todas as graças'. As reações e as polêmicas foram imediatas e intensas ao teor da publicação, sancionada pelo Papa Leão XIV, positivas de um lado e massivamente críticas de outro, abrangendo o meio católico e repercutindo também em larga escala em outros domínios religiosos e na mídia em geral. 

Antes de mais nada, é imperioso lembrar que a Virgem Maria é contemplada com quatro dogmas pela Igreja - a Maternidade Divina, a Imaculada Conceição, a Virgindade Perpétua e a Assunção ao Céu - e por dezenas de títulos de honra e louvor como Nossa Senhora de muitos nomes, Mãe dos homens, Mãe da Igreja, Advogada Nossa, Corredentora do gênero humano, Medianeira Universal, Rainha da Paz, Rainha dos Apóstolos, Senhora de todos os Povos e muitos outros. Alguns destes títulos específicos têm sido objeto de novas proposições dogmáticas (o quinto dogma da Virgem Maria), enquanto outros estão intimamente arraigados à tradição, às orações e à própria liturgia da Igreja. A polêmica gerada pela Nota Doutrinal é que ela confronta diretamente aqueles títulos que têm sido objeto de novas proposições dogmáticas à Virgem Maria -  'correndentora' e 'medianeira de todas as graças'.

Do 'Fazei tudo o que Ele vos disser' (Jo 2, 5) ao 'Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra' (Lc 1, 38), e 'me chamarão bem-aventurada todas as gerações' (Lc 1, 48) e ainda 'Depois apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol' (Ap 12,1), estão delimitadas claramente, por um lado, a condição de serva e discípula do seu Filho e, por outro lado, uma bem aventurança e uma graça inaudita por parte de Deus. Da terra, exala o perfume de todas as virtudes da obra prima de Deus (que nortearam os quatro dogmas da Igreja sobre ela). Do Céu, pairam sobre as águas a Vontade de Deus. Se Deus quer, que razões 'dogmáticas, pastorais ou ecumênicas' podem obscurecer 'a mulher vestida de sol' (revestida do próprio Cristo por ser a Mãe de Deus)? 

A Nota Doutrinal, por mais que perambule por citações eruditas e relevantes, não responde e nem se detém nos aspectos cruciais destes títulos ainda não dogmáticos da Mãe de Deus: explicar que 'correndentora' não é 'Redentora' - um abismo teológico paira sobre as águas porque a ação de Nossa Senhora não tem e não poderia ter a medida do mérito e da satisfação infinita inseridas na Redenção de Cristo. Na mesma medida, 'mediadora de todas as graças' é uma mediação por Cristo, em Cristo e por Cristo, secundária e subordinada à Vontade Divina. Vontade Divina que quis que a Redenção de Cristo e a salvação dos homens passasse por aquela que Deus ousou chegar mais perto dele.

Objeções, questionamentos e argumentos plausíveis podem ser expostos em confronto a estes títulos, sob bases doutrinárias ou teológicas de naturezas diversas (nunca ecumênicas, é óbvio), inclusive e particularmente em relação à cooperação de Nossa Senhora na obra redentora de Jesus Cristo. Não há necessariamente heresia ou descalabro nisso, e tais elementos não 'rebaixam' a grandeza da Virgem Maria. Todos os dogmas marianos proclamados foram, com certeza, objeto de contradições e muitas discussões teológicas que foram, entretanto, contra-argumentadas, contestadas e descartadas, muitas vezes simplesmente esmagadas como heresias e ideologias funestas. 

No contexto atual, nada disso se impõe, mas tem-se meramente um reducionismo teológico e doutrinário que resume por inteiro o teor do documento, assinado por alguém de direito e por direito contestado, cujo texto arroga postulados muito negativos, críticos e ofensivos aos títulos marianos: 'sempre inoportuno'; 'especial prudência' e 'analogia remota' e para introduzir mais um título de relevância secundária - 'mãe do povo fiel' - que parece mais uma simples concessão ao escarcéu protestante e ecumênico. Não acho boa coisa contestar assim, com este arsenal limitado e enviesado, os Padres da Igreja, os Escolásticos, a Tradição da Igreja, um Leão XIII e um Pio XII ou o santo Papa Pio X, mas a Igreja nunca navega neste mundo sobre calmarias e vento a favor.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

GALERIA DE ARTE SACRA (XLIII)

Na época medieval, era um procedimento bastante comum decorar as paredes internas das catedrais com tapeçarias preciosas, reproduzindo comumente eventos da vida de Jesus Cristo, Nossa Senhora ou de algum santo. A tapeçaria presente na Catedral de Reims, muito famosa pela quantidade de peças e qualidade da composição, exibe passagens diversas da vida de Nossa Senhora. As tapeçarias da vida de Nossa Senhora foram doadas à Catedral de Reims pelo Arcebispo Robert de Lenoncourt em 1530, contemplando um conjunto total de 17 painéis independentes.

I. Árvore de Jessé [árvore genealógica de Jesus Cristo]
II. Joaquim e Ana expulsos do Templo [por não ter filhos]
III. Encontro de Joaquim e Ana diante do Portão Dourado [a pedido do anjo que profetiza o nascimento da Virgem]
IV. Nascimento de Maria
V. Apresentação de Maria no Templo
VI. Perfeições de Maria [Imaculada Conceição. Modelo e Pefeição da Graça]
VII. José e os Pretendentes de Maria [escolha divina por José]
VIII. Casamento de Maria e José
IX. A Anunciação a Maria
X. A visitação de Maria a Santa Isabel
XI. A Natividade [nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo]
XII. A Adoração dos Reis Magos
XIII. A Apresentação de Jesus no Templo
XIV. A Fuga para o Egito
XV. Parentesco de Maria - As Três Marias [Maria, Maria de Jacobé, Maria de Salomé]
XVI. Dormição da Virgem
XVII. Assunção de Maria

Como exemplo ilustrativo, a figura abaixo apresenta a Tapeçaria VI - As Perfeições de Maria, um tributo à sua Imaculada Conceição, cuja devoção especial ganhou popularidade durante os séculos XV e XVI. 


A tapeçaria é dominada por Deus Pai, declarando Maria como critura toda pura e sem mancha de imperfeição - Tota pulchra es amica mea et macula non est in te (Ct 4,7). No centro da imagem, vemos Maria tecendo, ladeada por dois anjos que trazem pão e vinho. Ela está sentada num jardim, cujos umbrais são encimados por bandeiras que exibem o brasão das catedrais de Reims. Os dois unicórnios, à direita e à esquerda das colunas, simbolizam a virgindade de Maria. Entre Deus Pai e o Jardim, podemos ver os sete anjos da criação e, nos cantos inferiores direito e esquerdo, encontramos figuras de profetas anônimos proclamando a grandeza de Maria.

A riqueza dos detalhes e a magnitude do trabalho, cuja origem exata é desconhecida, são retratadas na figura abaixo, que apresenta uma peça da Tapeçaria XI do conjunto - A Natividade.  

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

OS GRANDES DOCUMENTOS DA IGREJA (XXV)

Carta Encíclica AUGUSTISSIMAE VIRGINIS MARIAE 

 [12 de setembro de 1897]

Papa Leão XIII (1878 - 1903)

sobre o Rosário de Nossa Senhora


Exortação à devoção para com Maria

1. Quem quer que considere o grau sublime de dignidade e de glória a que Deus elevou a augustíssima Virgem Maria, facilmente pode compreender que vantagem traz à vida pública e privada o contínuo desenvolvimento e a sempre mais ardente difusão do seu culto. De fato, Deus escolheu-a desde a eternidade para vir a ser Mãe do Verbo, que se encarnaria; e, por este motivo, entre todas as criaturas mais belas na ordem da natureza, da graça e da glória, Ele a distinguiu com privilégios tais, que a Igreja com razão aplica a ela aquelas palavras: 'Saí da boca do Altíssimo, primogênita antes de toda criatura' (Ecli 24, 5). Quando, pois, se iniciou o curso dos séculos, aos progenitores do gênero humano, caídos na culpa, e aos seus descendentes, contaminados pela mesma mancha, ela foi dada como penhor da futura reconciliação e da salvação.

2. Depois, o Filho de Deus, por sua vez, fez sua santíssima Mãe objeto de evidentes demonstrações de honra. De fato, durante a sua vida privada, Ele escolheu-a como sua cooperadora nos dois primeiros milagres por Ele operados. O primeiro foi um milagre de graça, e teve lugar quando, à saudação de Maria, a criança exultou no seio de Isabel; o segundo foi um milagre na ordem da natureza; e teve lugar quando, nas bodas de Caná, Cristo transformou a água em vinho. Chegado, depois, ao termo da sua vida pública, quando estava em via de estabelecer e selar com o seu sangue divino o Novo Testamento, Ele confiou-a ao seu Apóstolo predileto, com aquelas suavíssimas palavras: 'Eis aí tua mãe!' (Jo 19, 27).

Portanto, nós, que, embora indignamente, representamos na terra Jesus Cristo, Filho de Deus, enquanto tivermos vida nunca cessaremos de promover a glória dela. E, como sentimos que, pelo peso grande dos anos, a nossa vida não poderá durar ainda muito, não podemos deixar de repetir a todos os nossos filhos e a cada um deles em particular as últimas palavras que Cristo nos deixou como testamento, enquanto pendia da cruz: 'Eis aí tua Mãe!'. Oh! como nos consideraríamos felizes se as nossas recomendações chegassem a fazer com que cada fiel não tivesse na terra nada mais importante ou mais caro do que a devoção a Nossa Senhora, e pudesse aplicar a si mesmo as palavras que João escreveu de si: 'O discípulo tomou-a consigo' (Jo 19, 27).

3. Ora, ao aproximar-se o mês de outubro, não queremos que, nem também este ano, Veneráveis Irmãos, vos falte uma nossa Carta, para, com o ardor de que somos capazes, recomendar de novo a todos os católicos quererem ganhar para si mesmos e para Igreja, tão trabalhada, a proteção da Virgem, com a recitação do Rosário. Prática esta que, no descambar deste século, por divina disposição se tem maravilhosamente afirmado, para despertar a esmorecida piedade dos fiéis; como claramente atestam notáveis templos e célebres santuários dedicados à Mãe de Deus.

4. Depois de havermos dedicado a esta divina Mãe o mês de Maio com o dom das nossas flores, consagremos-lhe também, com afeto de singular piedade, o mês de Outubro, que é mês dos frutos. De fato, parece justo dedicar estes dois meses do ano àquela que disse de si: 'As minhas flores tornaram-se frutos de glória e de riqueza' (Ecli 24, 23).

A Confraria do Rosário

5. O espírito de associação, fundado na própria índole da natureza humana, talvez nunca tenha sido tão vivo e universal como agora. E certamente ninguém condenaria isto; se muitas vezes essa naturabilíssima tendência natural não fosse orientada para o mal: isto é, se os ímpios, movidos por um mesmo intento, não se reunissem em sociedades de vários gêneros, 'contra o Senhor e o seu Messias' (Sl 2, 2). Por outro lado, entretanto, pode-se discernir, e certamente com grandíssima alegria, que, também entre os católicos cresce o amor às associações pias: associações bem compactas, que se tornam como que famílias, nas quais os membros estão de tal forma ligados entre si pelo vínculo da caridade cristã, a ponto de parecerem, antes, de serem verdadeiramente irmãos.

E, de fato, se se elimina a caridade de Cristo, não pode haver fraternidade, como já energicamente demonstrava Tertuliano, dizendo: 'Somos vossos irmãos por direito de natureza, natureza que é mãe comum, se bem que sejais muito pouco homens, por serdes maus irmãos. Mas quão melhor convém o nome e a dignidade de irmãos àqueles que reconhecem por seu pai comum Deus, àqueles que se imbuíram do mesmo espírito de santidade, e que, embora nascidos do mesmo seio da comum ignorância, depois se nutriram da mesma luz de verdade!' (Tertuliano, Apolog. c. 39).

A forma destas utilíssimas sociedades, constituídas entre os católicos, é a mais variada: círculos, caixas rurais, recreatórios festivos, patronatos para a proteção da juventude, irmandades, e muitíssimos outros, todos instituídos com nobilíssimos intentos. Certamente, todas estas associações têm nomes, formas e fins próprios e imediatos modernos, mas são antiquíssimas na substância, pois se lhes podem distinguir os vestígios desde os inícios do cristianismo. Mais tarde foram reforçadas com leis, distinguidas com divisas próprias, enriquecidas de privilégios, ordenadas ao culto divino nas igrejas, ou então destinadas ao bem das almas e ao alívio dos corpos, e designadas com nomes diversos, segundo os tempos. E, com o correr do tempo, o seu número aumentou tanto, que, sobretudo na Itália, não há cidade, aldeia ou paróquia que não as tenhas muitas, ou ao menos uma.

6. Ora, entre essas associações não hesitamos em dar um lugar eminente à confraria que toma o nome do santo Rosário. Com efeito, se se considerar a sua origem, ela figura entre as mais antigas; porquanto é fama que a haja fundado o próprio Patriarca São Domingos; depois, se se lhe considerarem os privilégios, ela é riquíssima deles pela munificência dos nossos predecessores. Por último, forma e como que alma dessa instituição é o Rosário mariano, cuja eficácia já havemos, em outras circunstâncias, longamente tratado.

Eficácia do Rosário recitado em comum

7. Mas a eficácia e o valor do Rosário aparecem ainda maiores se o considerarmos como um dever imposto à confraria que dele tira o nome. Na verdade, ninguém ignora o quanto é necessária para todos a oração, não porque com ela se possam modificar os divinos decretos, mas porque, como diz São Gregório: 'Os homens, com a oração, merecem receber aquilo que Deus onipotente desde a eternidade decidiu dar-lhes' (Dialogorum Libros 1, c. 8). E Santo Agostinho acrescenta: 'Quem sabe bem rezar, sabe também viver bem' (In Psalmos 118).

E a oração justamente alcança a sua eficácia máxima em impetrar o auxílio do Céu, quando é elevada publicamente, com perseverança e concórdia, por muitos fiéis que formem um só coro de suplicantes. Isto resulta evidente dos Atos dos Apóstolos, onde se diz que os discípulos de Cristo, à espera do Espírito Santo prometido, 'perseveravam unânimes na oração' (At 1,14).

Os que oram deste modo certissimamente obterão sempre o fruto da sua oração. E isto justamente se verifica entre os confrades do santo Rosário. Com efeito, assim como a oração do Ofício divino feita pelos sacerdotes é uma oração pública e contínua, e por isto eficacíssima; assim também, em certo sentido, é pública, contínua e comum a oração dos confrades do Rosário: definido este, em razão disto, por alguns Pontífices Romanos, 'O Breviário da Virgem'.

8. Depois, conforme já dissemos, como as orações públicas têm uma excelência e uma eficácia maiores do que as privadas, por isto a Confraria do Rosário também foi chamada pelos escritores eclesiásticos 'milícia orante, alistada pelo Patriarca Domingos, sob as insígnias da divina Mãe'; isto é, daquela que a Sagrada Escritura e os fastos da Igreja saúdam como vencedora do demônio e de todas as heresias. E isto porque o Rosário mariano liga com um vínculo comum todos aqueles que podem associar-se a ela, fazendo-os, como que irmãos e co-milicianos.

E assim eles formam uma fortíssima falange, inteiramente armada e pronta a repelir os assaltos dos inimigos, quer internos, quer externos. Por isto, os membros desta pia associação podem com razão aplicar a si mesmos aquelas palavras de São Cipriano: 'Nós temos uma oração pública e comum, e, quando oramos, não oramos por um simples indivíduo, mas pelo povo todo, porque, quantos somos, formamos uma coisa só' (São Cipriano, De Oratione Dominica).

9. Aliás, a história da Igreja atesta a força e a eficácia destas orações, recordando-nos a derrota das forças turcas na batalha naval de Lepanto, e as esplêndidas vitórias alcançadas no século passado sobre os mesmos turcos em Temesvar, na Hungria, e perto da ilha de Corfu. Do primeiro fato permanece como monumento perene a festa de Nossa Senhora das Vitórias, instituída por Gregório XIII, e depois consagrada e estendida à Igreja universal por Clemente XI, sob o nome de festa do Rosário.

Justificação do Rosário

10. Pelo fato, pois, de estar esta milícia orante 'alistada sob a bandeira da divina Mãe', ela adquire uma nova força e se ilustra de nova alegria, como sobretudo demonstra, na recitação do Rosário, a frequente repetição da saudação angélica depois da oração dominical. Esta prática, longe de ser incompatível com a dignidade de Deus - como se insinuasse que nós devemos confiar mais em Maria Santíssima do que no próprio Deus - tem, ao contrário, uma particularíssima eficácia para o comover e no-lo tornar propício. De fato, a fé católica nos ensina que nós devemos orar não só a Deus, mas também aos santos (Concilum Tridentinum Sessio 25), embora de maneira diferente: a Deus, como fonte de todos os bens; aos santos, como intercessores.

'De dois modos pode-se dirigir a alguém um pedido' - diz São Tomás - 'com a convicção de que ele possa atendê-lo ou com a persuasão de que ele possa impetrar aquilo que se pede'. Do primeiro modo só oramos a Deus, porque todas as nossas preces devem ser dirigidas à consecução da graça e da glória, que só Deus pode dar, como é dito no salmo: 'A graça e a glória dá-a o Senhor' (Sl 83,12). Da segunda maneira apresentamos o mesmo pedido aos santos anjos e aos homens; não para que, por meio deles, Deus venha a conhecer os nossos pedidos, mas para que, pela intercessão deles e pelos seus méritos, as nossas preces sejam atendidas.

E por isto, no capítulo VIII, 4 do Apocalipse se diz que 'o fumo dos aromas, pelas orações dos santos, subiu da mão do anjo à presença de Deus' (S. Thomas de Aquino, II-II q. 83, a. 4). Ora, entre todos os santos que habitam as mansões bem-aventuradas, quem poderá competir com a augusta Mãe de Deus em impetrar a graça? Quem poderá com maior clareza ver no Verbo eterno de Deus as nossas angústias e as nossas necessidades? A quem foi concedido maior poder em comover a Deus? Quem como ela tem entranhas de maternal piedade? É este precisamente o motivo pelo qual nós não oramos aos santos do Céu do mesmo modo como oramos a Deus; 'porquanto à Santíssima Trindade pedimos que tenha piedade de nós, ao passo que a todos os outros santos pedimos que roguem por nós' (S. Th., II-II q. 83, a. 4).

Em vez disto, a oração que dirigimos a Maria tem algo de comum com o culto que se presta a Deus; tanto que a Igreja a invoca com esta expressão, que se costuma endereçar a Deus: 'Tem piedade dos pecadores'. Portanto, os confrades do santo Rosário fazem muito bem em entrelaçar tantas saudações e tantas preces a Maria, como outras tantas coroas de rosas. De feito, diante de Deus Maria é 'tão grande e vale tanto que, a quem quer graças e a ela não recorre, o seu desejo quer voar sem asas'.

Os confrades do Rosário imitam os anjos

11. À confraria de que estamos falando cabe, depois, outro título de louvor, que não queremos passar em silêncio. Cada vez que na recitação do Rosário mariano consideramos os mistérios da nossa salvação, de certo modo imitamos e emulamos os ofícios outrora confiados à milícia angélica. Foram eles, os anjos, que nos tempos estabelecidos revelaram estes mistérios, nos quais tiveram grande parte e intervieram infatigavelmente, compondo o seu semblante ora segundo a alegria, ora segundo a dor, ora segundo a exaltação da glória triunfal.

Gabriel é enviado à Virgem para lhe anunciar a Encarnação do Verbo eterno. Na gruta de Belém, os anjos acompanham com os seus cantos a glória do Salvador, há pouco vindo à luz. Um anjo adverte José a fugir e a dirigir-se para o Egito com o Menino. Enquanto Jesus no Horto sua sangue por causa da sua tristeza, um anjo com a sua palavra compassiva, conforta-o.

Quando Jesus, triunfando sobre a morte, se levanta do sepulcro, anjos noticiam isso às piedosas mulheres. Anjos anunciam que Ele subiu ao Céu, e prenunciam que, de lá, Ele voltará entre as falanges angélicas, para unir a elas as almas dos eleitos, e conduzi-las consigo para entre os coros celestes, acima dos quais 'foi exaltada a santa Mãe de Deus'.

Por isto, de modo especial aos associados que praticam a devoção do Rosário se adaptam às palavras que São Paulo dirigia aos novos discípulos de Cristo: 'Chegastes ao monte de Sião e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celeste e às miríades dos anjos' (Hb 12, 22). Que pode haver de mais excelente e de mais suave do que contemplar a Deus e rogá-lo juntamente com os anjos? Como devem nutrir uma grande esperança e uma grande confiança de gozarem um dia no Céu a beatíssima companhia dos anjos aqueles que na terra, de certo modo, compartilharam o ministério deles!

Auspícios par a difusão da confraria

12. Por tais motivos, os Pontífices Romanos sempre exaltaram com grandíssimos louvores esta confraria dedicada a Maria. Entre outros, Inocêncio VIII define-a como uma 'devotíssima confraria' (Inocêncio VIII, Constitutio "Splendor Paternae Gloriae", 26 de fev. 1491). Pio V atribui à influência dela os seguintes resultados: 'Os fiéis transformaram-se rapidamente em outros homens; as trevas da heresia se dissipam; e a luz da fé católica manifesta-se" (São Pio V, Constitutio Consueverunt RR. PP., 17 set. 1569). Sisto V, observando o quanto esta instituição tem sido fecunda de frutos para a religião, professa-se devotíssimo dela; muitos outros, enfim, enriqueceram-na de preciosas e abundantíssimas indulgências, ou colocaram-na sob a sua particular proteção, inscrevendo-se nesta, e manifestando-lhe por diversos modos a sua benevolência.

13. Movidos por estes exemplos dos nossos predecessores, nós também, ó Veneráveis Irmãos, vivamente vos exortamos e vos conjuramos - como já muitas vezes temos feito - a quererdes dedicar um cuidado todo particular a esta sagrada milícia; de modo que, graças ao vosso zelo, cada dia se organizem em toda parte novas falanges. Que, pela vossa obra e da parte de clero a vós subordinado, que tem cura de almas, venha o resto do povo a conhecer e a avaliar na justa medida a grande eficácia desta confraria, e a sua vantagem em ordem à eterna salvação dos homens.

O Rosário perpétuo

14. E tanto mais insistimos em tal recomendação quanto recentemente refloriu uma belíssima manifestação de piedade mariana: o chamado Rosário 'perpétuo'. De bom grado abençoamos esta iniciativa, e vivamente desejamos que vos apliqueis com solicitude e zelo ao seu incremento. De feito, nutrimos viva esperança de que não poderão deixar de ser bastante eficazes os louvores e as preces que saem incessantemente da boca e do coração de uma imensa multidão, e que, alternando-se dia e noite pelas várias regiões do mundo, unem a harmonia das vozes à meditação das divinas verdades.

E certamente a continuidade destes louvores e destas preces foi prefigurada pelas palavras com que Ozias cantava a Judite: 'Bendita és tu, filha, ante o Senhor Deus altíssimo, sobre todas as mulheres da terra... porque Ele hoje tornou tão grande o teu nome, que o teu louvor nunca faltará nos lábios dos homens'. E a este augúrio todo o povo de Israel respondia em voz alta: 'Assim é, assim seja...' (Jd 18, 23. 25. 26).

Entrementes, como auspício dos benefícios celestes, em testemunho da nossa benevolência, de grande coração concedemos, no Senhor, a Bênção Apostólica a vós, Veneráveis Irmãos, ao clero e a todo o povo confiado à vossa fiel vigilância.