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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (I)

1. A MULHER CANANEIA

Uma mulher cananeia veio pedir a Jesus a cura da sua filha, cruelmente atormentada pelo demônio [Mt 15,21-28].

[21] Partindo dali, retirou-se Jesus para a região de Tiro e de Sidônia.
[22] E eis que uma Cananeia, que tinha saído daqueles arredores, gritou: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está miseravelmente atormentada do demônio'.
[23] Ele, porém, não lhe respondeu palavra. Aproximando-se seus discípulos, pediram-lhe: 'Despede-a porque vem gritando atrás de nós'.
[24] Ele respondeu: 'Eu não fui enviado senão às ovelhas desgarradas da casa de Israel'.
[25] Ela, porém, veio, prostrou-se diante dele, dizendo: 'Senhor, valei-me'.
[26] Ele respondeu: 'Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'.
[27] Ela replicou: 'Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos'.
[28] Então Jesus disse-lhe: 'Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como queres'. E, desde aquela hora, ficou sã a sua filha.


O texto não é de difícil compreensão, mas de interpretação e, numa abordagem descontextualizada, aparenta uma reação fria e até ofensiva de Jesus contra uma súplica de uma mãe em favor de sua filha: Jesus inicialmente não responde a sua súplica, declara ter sido enviado apenas às 'ovelhas perdidas da casa de Israel' e ainda conclui duramente que 'não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'. A pedagogia e a misericórdia de Jesus está além das duras palavras, mas na exaltação da fé consciente daquela mulher.

Há que se notar a manifestação de fé da mulher logo no início do episódio. Jesus encontra-se então em ambiente predominantemente gentio, na região de Tiro e Sidônia. A mulher é identificada como de origem cananeia [Marcos a identifica como siro-fenícia], um povo historicamente adversário de Israel e, ainda que pagã, ela reconhece de pronto a dimensão de Jesus, clamando por ele com um título messiânico inquestionável: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim!' [22], fato que não era reconhecido pela maioria dos israelitas de então. Ela configura, portanto, a primeira aproximação formal dos gentios face à missão salvífica do Redentor, amparada e movida por uma súplica ardente: 'tem piedade de mim!'. Importante destacar que ela manifesta a súplica inicial em seu próprio favor, reconhecendo-se como pobre pecadora, e não à filha doente; pois a caridade torna a dor por quem se reza parte de nós mesmos.

O silêncio inicial de Jesus [23] é deliberado, num gesto de extrair daquela fé manifesta um ato muito maior de louvor e exaltação diante a sua grande humildade. O silêncio de Deus não equivale à ausência de Deus. Sinal inequívoco de que as nossas orações passam necessariamente pela experiência do silêncio de Deus, sem que esse silêncio expresse uma recusa formal, mas como um teste e provação da autenticidade da fé e confiança em Deus daquilo que pedimos.

Arguído pelos apóstolos, ainda avessos à compaixão [23], Jesus manifesta então uma premissa de sua missão salvífica, que tinha por prioridade a salvação dos judeus [24], previamente à universalização de sua missão. A provação aumenta de grau: o silêncio agora torna-se uma razão de aparente recusa. Jesus está ali, além do ambiente judaico tradicional, diante de um ato de fé extremada de uma mulher não judia, mas pagã, e quase que como instado a fazer uma antecipação da abertura de sua missão divina aos gentios, que somente mais tarde será proclamada a todos os homens: 'Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações' (Mt 28,19).

Mas a fé que remove montanhas não desiste. Insiste. Diante o senão proposto, a súplica persiste: 'Valei-me!' [25]. E então, vem a prova mais dura. Jesus, uma vez mais, diante dos apóstolos, vai testá-la nos limites de sua fé extremada (que Jesus conhece antecipadamente) com palavras particularmente duras [26]. Jesus sabe com quem está lidando e somente uma manifestação excepcional de fé como o daquela mulher pode fazê-lo explorar ao limite a magnitude das potenciais virtudes humanas.

A resposta da mulher exprime a audácia da sua fé extraordinária e a dimensão espiritual de sua crença: 'mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos' [27]. Ela não contradiz Jesus, pelo contrário; mas justifica que, diante da superabundância das graças divinas, migalhas bastam para operar milagres e curar a sua filha. Neste contexto da graça, Jesus não apenas reconhece a grandeza da fé desta mulher cananeia, como a exalta diante de todos, numa intervenção raríssima e extraordinária [28], ainda mais que até mesmo os apóstolos foram objeto de censura do Salvador em muitas ocasiões como 'homens de pouca fé'. Aquela que começou sem aparentemente possuir direito algum termina ouvindo do próprio Cristo: 'Seja-te feito como queres!'.

Nesta passagem bíblica, a mulher cananeia não muda a vontade de Cristo pela insistência; Cristo conduz a mulher, por meio da insistência, à perfeição daquela fé mediante a qual Ele queria conceder-lhe a graça. Deus, às vezes, parece resistir justamente às almas que deseja aproximar mais de si. Cornélio a Lápide trata este episódio praticamente como um pequeno tratado sobre a oração perfeita, que incorpora dez diferentes disposições: humildade, fé, modéstia, prudência, reverência, resignação, confiança, ardor, caridade e perseverança.

Pão, mesa, migalhas. Uma migalha basta para a superabundância da graça. Aplicada espiritualmente à Eucaristia, essa imagem torna-se particularmente expressiva porque Cristo não está parcialmente presente numa pequena porção da Hóstia consagrada, mas por inteiro. Em outra passagem dos evangelhos, Jesus manifesta igualmente um extraordinário elogio de fé a outro gentio, o centurião romano: 'Em ninguém em Israel encontrei tamanha fé' (Mt 8,10). Aqueles para quem bastavam as migalhas, serão no futuro os convivas da mesa posta, das benesses e misericórdias de Deus: 'Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus' (Ef 2,19).

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVII)

William Dyce
(1806–1864) foi um pintor escocês particularmente interessante para quem aprecia arte cristã tradicional, ocupando uma posição singular na pintura britânica do século XIX como um artista especializado sobretudo em temas religiosos e medievais. Dyce procurava conciliar correção acadêmica, beleza formal e sentimento religioso, evitando muitas vezes o sentimentalismo teatral que aparece em parte da pintura religiosa oitocentista. Essa dimensão religiosa não era apenas temática. Dyce tinha profundo interesse pela liturgia e pela música sacra. Em 1841 fundou a Motett Society, dedicada ao estudo, execução e republicação de música eclesiástica dos séculos XVI e XVII. 

Abaixo, apresenta-se a reprodução de algumas das suas obras mais clássicas, sendo apenas a última delas uma obra não sacra.

Davi no deserto*

Nossa Senhora e o Menino Jesus

Cristo, Homem das Dores*

Lamentação sobre o Cristo Morto

São João conduz Nossa Senhora após a Crucificação

O encontro de Jacó e Raquel

Baía de Pegwell, Kent** - uma recordação de 5 de outubro de 1858

* Davi, representado como um jovem pastor, e Jesus são retratados em paisagens inspiradas nas Terras Altas da Escócia, em vez de nos cenários próprios do contexto bíblico.
** A pintura mostra membros de sua família recolhendo conchas na praia, diante das falésias de Kent.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SALMO 22


O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.
Pelos prados e campinas verdejantes, ele me leva a descansar. 
Para as águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças. 

Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra do seu nome. 
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; 
estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança.

Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do inimigo,
e com óleo vós ungis minha cabeça;
o meu cálice transborda.

Felicidade e todo bem hão de seguir-me por toda a minha vida;
e na casa do Senhor habitarei pelos tempos infinitos. 

(Salmo 22,1-6; tradução de acordo com o Lecionário da CNBB)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PORQUE HOJE É A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS

 

Ó SENHOR, CONCEDEI-ME AMAR-VOS COM TODA A MINHA ALMA E MENTE!


Ó Senhor, não me priveis de vossos abençoados dons celestiais,
Ó Senhor, defendei-me e livrai-me dos tormentos eternos,
Ó Senhor, se pequei com minha mente, com meus pensamentos, com minhas palavras ou minhas ações, perdoai-me e curai minha alma,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, livrai-me da ignorância, do esquecimento, da covardia e do tédio,
Ó Senhor, não me deixeis cair e livrai-me de toda tentação,
Ó Senhor, iluminai meu coração obscurecido pelos desejos do maligno,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, como homem que sou, pequei, mas Vós, como Deus amado e benevolente, tende piedade da minha alma, vendo as fraquezas do meu coração,
Ó Senhor, enviai vossa Misericórdia em meu auxílio, para que eu possa glorificar vosso Santo Nome,
Ó Senhor Jesus Cristo, inscrevei vosso servo no Livro da Vida e concedei-me uma morte em paz,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó meu Deus! Embora eu não tenha feito nada de bom, estendei vossa mão, ajudai-me com vossa graça para começar a fazer todo o bem,
Ó Senhor, cobri meu coração fraco com o orvalho de vosso amor,
Ó Senhor do céu e da terra, lembrai-vos de mim, vosso servo pecador, impuro e frio de coração, em vosso reino,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, aceitai meu sincero arrependimento,
Ó Senhor, pelo bem da minha alma, não me abandoneis,
Ó Senhor, afastai-me para longe das tentações,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei-me pensamentos nobres e puros,
Ó Senhor, concedei-me as lágrimas do arrependimento, a memória da morte e a sensação de paz,
Ó Senhor, concedei-me humildade, caridade e obediência para agir em vosso nome,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei-me a confissão e o perdão dos meus pecados,
Ó Senhor, concedei-me paciência, magnanimidade e doçura,
Ó Senhor, colocai em mim a fonte de todas as bênçãos e o temor de vós em meu coração,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei que eu possa amar-vos com todo o meu coração e toda a minha alma, e que eu sempre obedeça à vossa palavra,
Ó Senhor, protegei-me dos provocadores, dos demônios, das paixões corporais e de tudo o que não me leva a Vós,
Ó Senhor, eu sei que agis como desejais; assim, seja feita em mim, pecador, a vossa vontade, porque bendito sois para todo o sempre.
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente! Amém.

(São João Crisóstomo)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ἀληθινός

ἀληθής e ἀληθινός são palavras gregas comumente traduzidas com significado semelhante, no sentido de verdadeiro; real; genuíno; conforme a verdade ou fiel (em alguns contextos). A rigor, entretanto, há uma nuance de diferenciação fundamental entre ambas as palavras:

ἀληθής → significa verdadeiro em oposição ao falso; veraz, sincero, conforme os fatos.
ἀληθινός → significa verdadeiro no sentido de autêntico, perfeito, definitivo, em oposição ao que é apenas figurado ou aproximado.

Estas palavras aparecem diversas vezes no Novo Testamento, muitas vezes traduzidas do mesmo modo, mas são nos escritos de São João (Evangelho, Cartas, Apocalipse) que estas palavras se repetem várias vezes, e suas distinções são particularmente realçadas. Por exemplo:

Jo 3,33:
Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro [ὁ θεὸς ἀληθής ἐστιν] [verdadeiro, fiel]

Jo 5, 31:
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [ἡ μαρτυρία μου οὐκ ἔστιν ἀληθής] [verdadeiro, digno de aceitação]

Jo 17,3:
'Para que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo' [ἵνα γινώσκωσίν σε τὸν μόνον ἀληθινὸν Θεὸν, καὶ ὃν ἀπέστειλας Ἰησοῦν Χριστόν].

Por que João utiliza aqui o termo ἀληθινός (na verdade, sua flexão gramatical ἀληθινὸν)? Porque quer transmitir o sentido de que está falando do 'único Deus autêntico e verdadeiro, o único que é realmente Deus'.

Para João, ἀληθινός designa aquilo que é: autêntico; perfeito; definitivo; pleno da verdade e, no seu Evangelho, vai reproduzir sempre esse termo quando se refere sobre a verdadeira Luz (Jo 1,9); o verdadeiro Pão (Jo 6,32); a verdadeira Videira (Jo 15,1); o verdadeiro adorador (Jo 4,23); o verdadeiro Deus (Jo 17,3). É um vocabulário tipicamente joanino.

É imprescindível entender as nuances destas palavras gregas em contextos joaninos aparentemente similares. Quando Jesus fala em Jo 6,32: 'Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão [ὁ ἄρτος... ὁ ἀληθινός] do céu', está falando do pão único e autêntico pão que é Cristo (realidade definitiva) em contraste com o maná do deserto (mera figura do pão).

Mas, quando Jesus profere as palavras: 'Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue, verdadeiramente bebida' (Jo 6,55), João não usa nem ἀληθής e nem ἀληθινός, mas uma terceira forma da mesma família - ἀληθῶς - que é um advérbio, significando em verdade; de fato; verdadeiramente. Essa construção coloca a ênfase não na qualidade do alimento, mas na realidade da afirmação: a carne de Cristo é, de fato, alimento, e seu sangue é, de fato, bebida. A Presença Real na Eucaristia não é uma fantasia; é VERDADEIRAMENTE o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que alimenta as nossas almas na Missa, para nos cobrir de bênçãos e graças e nos abrir desde agora as portas para a eterna felicidade no céu!

quinta-feira, 23 de julho de 2026

ORAÇÃO: OBSECRO TE, DULCISSIME DOMINE IESU CHRISTE

 

Obsecro te, dulcissime Domine Iesu Christi, ut passio tua sit virtus mea, qua muniar, protegar, atque defendar. Vulnera tua sint mihi cibus potusque, quibus pascar, inebrier atque delecter. Aspersio Sanguinis tui sit mihi ablutio omnium delictorum meorum. Mors tua sit mihi vita indeficiens, Crux tua sit mihi gloria sempiterna. In his sit mihi refectio, exsultatio, sanitas et dulcedo cordis mei: Qui vivis et regnas in saecula saeculorum. Amen.


Dulcíssimo Senhor, Jesus Cristo, que a vossa Paixão seja o poder que me fortaleça, proteja e defenda. Que as vossas Chagas sejam alimento e bebida que me nutram, me inebriem e me deleitem. Que a aspersão do vosso Sangue me purifique de todos os meus pecados. Que a vossa Morte seja a minha vida perene e a vossa cruz seja a minha glória eterna. Que isso seja a minha consolação, o meu refrigério, a minha alegria, a pureza e o deleite do meu coração, eu suplico a Vós, que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A EUCARISTIA


1. 'Eu fui um grão de trigo semeado no ventre virginal da minha Santíssima Mãe (cf. Jo 12,24); saí dele tenro e fresco, como um trigo em broto; cresci sob ventos e sóis intensos de trabalhos, caminhos e perseguições; e quando tinha quase trinta anos, os maus lançaram a sua foice sobre mim, e fui cortado desta vida, moído e atormentado, e transformado em farinha para que dela se fizesse este pão sagrado, do qual e pelo qual digo: 'Quem me comer, viverá por mim' (Jo 6,58). E tendo custado tão caro entregar-me como alimento aos homens, e estando fechado e depositado em lugar tão pequeno para que melhor possam me comer, prestam tão pouca atenção aos meus trabalhos e ao meu grande amor e à grande necessidade que têm de mim, que alguns nem sequer querem vir à minha casa; e se outros vêm, contentam-se em reverenciar-me quando sou consagrado e elevado na missa; mas preparar suas consciências, lutar contra suas paixões para virem puros à minha mesa e me receberem e se alegrarem comigo, muito poucos há'.

2. 'Quereis que Deus seja todo vosso? Sejais então todo dele. Não ousais? Como sois duros, cegos que sois, que temeis vos trocar por Deus? Por que temeis entregar-vos a Ele e oferecer-vos à sua vontade? Se, pelo que vos dais, Ele se entrega por si mesmo e, ainda assim, não ousaríeis? Pois isso é comungar, e isto é o significado e o ato da comunhão'.


3. 'Que confusão para nós, que nos contentamos com uma missa assistida de passagem, apressadamente, sem amor, sem gratidão! Bem-aventurado aquele que, quando tiver Cristo em suas mãos, sentir-se como o velho Simeão'.

4. 'Ao esquecer a comunhão e a comunicação com Jesus Cristo, a fé esfria tanto que, se nada nos pressionasse, terminariamos por negar a fé... Receber o corpo de Jesus Cristo e nos unirmos agora a Ele, por meio da comunhão, é uma antecipação da união que haverá de existir entre nós e Ele nos céus'.

5. 'O sacerdote toma o pão nas mãos e pronuncia as palavras da consagração; assim que as pronuncia, já não há pão; quem entrou ali no lugar do pão? Jesus Cristo. Pois, quando vierem comungar, considerem que vocês são o pão que se converterá em Jesus Cristo, para que digam como o apóstolo São Paulo: Vivo eu, mas não eu, e sim Jesus Cristo em mim' (Gl 2,20).

6. 'Meu caro irmão, e se soubesses que graça tão grande te concedeu Jesus Cristo ao permanecer aqui para te sustentar! Guarda em teu peito o Santíssimo Sacramento, comunga com frequência, aproxima-te do santo altar de Jesus Cristo e roga-lhe com muita devoção: 'Senhor, estou nesta tribulação; Senhor, estou nesta fadiga; esta tentação me cansa; esta desonra me cerca; Senhor, estou morno, estou fraco, estou frio; Senhor, pois tu és o verdadeiro fogo, acende a minha alma com o teu amor; inflama, meu Senhor, as minhas entranhas na caridade'. Pede-lhe, que se com boa fé lhe pedires, Ele te concederá'.

7. 'E, acima de tudo, aproximemo-nos do fogo que acende e arde, que é Jesus Cristo, nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento. Abramos a boca da alma, que é o desejo, e vamos sedentos à fonte de água viva; pois, sem dúvida, ao colocarmos o mel na boca, algo provaremos, e o fogo no íntimo nos aquecerá. E depois e antes de comungar, tenhamos algum preparativo; e os melhores são a fé certa de que vamos receber Jesus Cristo, nosso Senhor, e o pensamento e o amor de sua paixão, pois é em sua memória que o ato se realiza. Corramos, pois, atrás de Deus, que não nos deixará; Ele está pregado na cruz; ali o encontraremos com toda a certeza; coloquemo-lo em nosso coração e fechemos as portas para que Ele não nos deixe.'

(São João de Ávila)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CORPUS CHRISTI 2026

 

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

sábado, 23 de maio de 2026

TRÊS PESSOAS DISTINTAS E UM ÚNICO DEUS

Vi um grande palácio de magnitude incompreensível, semelhante ao céu sereno, no qual havia inúmeras pessoas assentadas e vestidas com roupas brancas e resplandecentes como os raios do sol. No palácio, vi um trono maravilhoso no qual estava sentado um homem mais resplandecente que o sol, de beleza incompreensível, e Senhor de imenso poder, cujo esplendor era também incompreensível em extensão, largura e profundidade. Ao lado do assento do trono, havia uma Virgem que brilhava com admirável resplendor e usava uma coroa preciosa. Todos os presentes serviam àquele que estava sentado no trono, louvando-o com hinos e cânticos, e honravam com reverência aquela Virgem, como Rainha dos céus.

Então, aquele que estava no trono me disse com voz majestosa: Eu sou o Criador do céu e da terra, um único Deus verdadeiro com o Pai e com o Espírito Santo; porque o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus; e, apesar de tudo isso, não são três deuses, mas três pessoas distintas e um único Deus. Mas agora, você poderá me perguntar: se são três pessoas, por que não são três deuses? Ao que respondo que Deus é o próprio poder, a própria sabedoria e a própria bondade, de quem provém todo o poder abaixo e acima do céu, toda a sabedoria e toda a piedade que se possa imaginar. Assim, pois, Deus é trino e uno; trino em pessoas e uno em essência. Porque poder e sabedoria é o Pai, de quem procedem todas as coisas, e que é poderoso acima de tudo, não por ninguém, mas por si mesmo e eternamente.

Poder e sabedoria é também o Filho, igual ao Pai, mas não como poder originado de si mesmo, sim poderosamente e inefavelmente gerado pelo Pai, que é princípio do princípio, e jamais separado do Pai. Poder e sabedoria é também o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, eterno com o Pai e com o Filho, e igual em majestade e poder. Há, portanto, um único Deus e três pessoas, porque uma só é a natureza das três, uma só a operação e a vontade, e uma só a glória e o poder; um só em essência e distintos na propriedade das pessoas. Pois todo o Pai está no Filho e no Espírito Santo, e o Filho no Pai e no Espírito Santo, e o Espírito Santo em ambos numa única natureza da Divindade; não antes nem depois, mas de uma maneira inefável, onde nada há anterior nem posterior, nada maior ou menor que o outro ou de outra espécie, mas tudo inefável e igual; por essa razão está sabiamente escrito que Deus é admirável e muito digno de louvor.

Deus, pois, enviou seu Verbo à Virgem Maria por meio de seu anjo Gabriel; mas, no entanto, o mesmo Deus que enviava e era enviado com o anjo, estava em Gabriel e na Virgem antes da missão de Gabriel. Mas, assim que o anjo proferiu aquelas palavras, o Verbo assumiu a carne da Virgem. Esse Verbo sou eu, que estou falando contigo. O Pai enviou-me ao seio da Virgem, mas não de tal forma que os anjos ficassem privados da visão e da presença da minha divindade, mas sim que eu, o Filho, que com o Pai e com o Espírito Santo estive no ventre virginal, era o mesmo no céu com o Pai e com o Espírito Santo na presença dos anjos, governando e mantendo tudo, embora a minha humanidade, assumida apenas por mim, repousasse no ventre de Maria.

Eu, que sou um único Deus, não me desdenho de falar contigo para encontrar o meu amor e para fortalecer a santa fé cristã. E mesmo que te pareça que a minha humanidade está junto a ti e fala contigo, mais certo é que a tua alma e a tua inteligência estão comigo e em mim, pois nada me é impossível, nada me é difícil no céu nem na terra. Eu sou como um poderoso Rei que, quando chega à cidade com seu exército, tudo preenche e ocupa; da mesma forma, minha graça preenche e fortalece todos os teus membros. Estou em ti e fora de ti, e embora fale contigo, sou, no entanto, o mesmo na glória. O que me é difícil, a mim, que com meu poder sustento todas as coisas, com minha sabedoria disponho tudo e com minha virtude supero tudo? Eu, um único Deus com o Pai e com o Espírito Santo, sem princípio e sem fim, que pela salvação dos homens assumi a carne humana, permanecendo intacta a divindade, sofri verdadeiramente, ressuscitei e subi aos céus; agora, na verdade, estou falando contigo.

Eu sou o verdadeiro Imperador e Senhor. Não há senhor mais excelente do que eu, nem houve antes de mim, nem haverá depois de mim; mas todo domínio vem de mim e por mim. Eu sou, portanto, o verdadeiro Senhor, e ninguém deve chamar-se verdadeiro senhor, a não ser eu sozinho, porque de mim procede todo poder e domínio, e ninguém pode resistir ao meu poder.

(Das Profecias e Revelações de Santa Brígida)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

POEMAS PARA REZAR (LXIV)

 

LOUVOR DIANTE DA CRUZ

Nesta tarde, Cristo do Calvário,
vim implorar-te por minha alma aflita
e, refém de ver a minha sorte, só agora
meu olhar se volta para a cruz bendita.

Como reclamar dos meus pés cansados
Quando os teus são chagas retorcidas?
Como mostrar-te as minhas mãos vazias
Quando as tuas estão cheias de feridas?

Como explicar-te agora a minha solidão
Quando estás erguido e sozinho nesta cruz?
Como explicar-te quem andou nas trevas
de um coração que tinha tanta luz?

Agora já não me lembro de mais nada,
perdeu-se o lamento e toda mágoa ruim,
E o ímpeto da súplica que aflorava
Afogou-se por inteiro dentro de mim.

Peço então só não te pedir mais nada,
ficar aqui junto à tua imagem morta,
Aprendendo com a dor que a dor apenas
É a chave santa da tua santa porta!

(Original em espanhol, autor desconhecido, livre tradução do autor do blog)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

AS 10 APARIÇÕES DE JESUS RESSUSCITADO


E a eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus [At 1,3]

I. Aparição a Maria Madalena (Maria de Magdala)

Entretanto, Maria se conservava do lado de fora perto do sepulcro e chorava. Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: 'Mulher, por que choras?'. Ela respondeu: 'Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram'. Ditas essas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: 'Mulher, por que choras? Quem procuras?' Supondo ela que fosse o jardineiro, res­pondeu: 'Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar'. Disse-lhe Jesus: 'Maria!' Voltando-se ela, exclamou em hebraico: 'Rabôni!' (que quer dizer Mestre) [Jo 20,11-18].

Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios [Mc 16,9].
 
II.  Aparição a Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago), Joana e outras mulheres 

Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a ou­tra Maria [a mãe de Tiago conforme Mc 16,1, incluindo Joana em outras versões] foram ver o túmulo... Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: 'Salve!' Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés. Disse-lhes Jesus: 'Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia, pois é lá que eles me verão' [Mt 28,1.10].

Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa [LC 24,10].

III. Aparição a Pedro

Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam. Todos diziam: 'O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão' [Lc 24,34].

Ele foi visto por Pedro (Cefas) e depois pelos Doze [1Cor 15,5].

IV. Aparição a Cleofas e outro discípulo a caminho de Emaús

Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles... Então, se lhes abriram os olhos e o reconheceram... mas ele desapareceu [Lc 24,13-15.31]

V. Aparição aos onze discipulos exceto Tomé

Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas ele lhes disse: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho' [LC 24,36-39].

Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: 'A paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor [Jo 20,19-20].

VI. Aparição aos onze discípulos incluindo Tomé

Oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco!'... Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!' [Jo 20,26.29].

VII. Aparição a sete discípulos no Mar de Tiberíades

Depois disso, tornou Jesus a ma­nifestar-se aos seus discípulos junto ao lago de Tibería­des... Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos [Jo 21,1-2].

VIII. Aparição aos onze discípulos em uma montanha da Galileia

Os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando o viram, adoraram-no... 'Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo' [Mt 26,16-17.20].

IX. Aparição a Tiago

Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os apóstolos [1Cor 15,7].

X. Aparição aos onze discípulos em Betânia, na sua Ascensão ao Céu

Depois os levou (os onze discípulos) para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu [Lc 24,50-51].

'Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo'. Dizendo isso, elevou-se da (terra) à vista deles e uma nuvem o ocultou aos seus olhos [At 1,8-9].

sábado, 28 de março de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (XI)

Os ícones para a Festa de Todos os Santos desenvolveram-se principalmente a partir do século IX e não apresentam muitas variantes. O cenário de referência é o Paraíso, expresso pelas imagens de árvores e arbustos. A parte central do ícone representa a chamada 'nuvem de testemunhas', descrita por São Paulo em sua carta aos Hebreus (Hb 11,33-12,2), contemplando os santos de todos os tempos. O círculo que os envolve representa, na tradição cristã, a dimensão da eternidade. Os santos estão reunidos ao redor de Cristo, comumente com vestes douradas (símbolo de sua realeza) e um livro nas mãos (símbolo de sua missão profética), envolvido por uma mandorla (halo amendoado), símbolo ancestral para expressar a majestade, a glória e a divindade de Cristo nos ícones sagrados.


Os santos são representados em hierarquias distintas, incluindo apóstolos, mártires, profetas, Padres da Igreja e assim por diante, sempre num contexto de um multidão inumerável, como expresso no Apocalipse: 'uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas' (Ap 7,9). Em algumas representações, esta hierarquia é ainda muito mais rígida, buscando refletir a ordem divina dos Céus, como um grande templo celestial com Cristo reinando sobre tudo.


Abaixo do Cristo, encontra-se o Trono da Preparação, simbologia da Presença Invisível de Cristo, por meio de um trono vazio, ornado por um manto (símbolo da autoridade) e por um livro (Livro da Vida), que simboliza o julgamento final por Cristo que virá 'para julgar os vivos e os mortos' de todos os tempos. Esta simbologia universal e temporal é representada pelas figuras de Adão e Eva que se prostram sobre o trono vazio. O trono vazio é, muitas vezes, complementado pela imagem da Cruz de Cristo, sustentada por anjos ou por Santa Helena.


Na parte inferior esquerda do ícone, encontra-se o Patriarca Abraão segurando uma criança no colo, símbolo das almas dos justos, que encontram repouso no 'seio de Abraão' (Lc 16,19-31). À direita, tem-se o Patriarca Jacó, segurando um pano que ostenta o símbolo das 'Dozes Tribos de Israel', ou seja, todos os santos do Antigo Testamento, enquanto no centro está São Dimas, o ladrão penitente a quem Cristo disse na cruz: 'Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso' (Lc 23,39-43). Alternativamente, o Patriarca Isaac também é representado, com todos os patriarcas acolhendo em si as almas dos justos. Nos cantos superiores, encontram-se as imagens dos reis Salomão (à esquerda) e Davi (à direita), segurando pergaminhos com cantos sapienciais.

terça-feira, 10 de março de 2026

LADAINHA A JESUS MISERICORDIOSO POR UMA MORTE SANTA


Jesus Cristo, nosso Senhor, Deus de bondade e misericórdia, aqui me tendes em vossa presença, humilhado e contrito de coração; recomendo-vos a minha hora derradeira, e a sorte que depois dela me espera. Quando os meus pés imóveis me avisarem de que meu caminho neste mundo está prestes a terminar:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando as minhas mãos, trêmulas e entorpecidas, não puderem já apertar o Crucifixo e, contra a minha vontade, o deixarem cair sobre o meu leito de dor:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os meus olhos, apagados e amortecidos, horrorizados à vista da morte iminente, cravarem em vossa imagem meus olhares abatidos e moribundos:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os meus lábios, frios e trêmulos, pronunciarem pela derradeira vez o vosso adorável nome:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando o meu rosto, pálido e arroxeado, já mover à compaixão e ao susto as pessoas presentes, e os meus cabelos, revoltos e banhados do suor da morte, derem o sinal de que se apressa o termo dos meus dias:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os meus ouvidos, prestes a fecharem-se para sempre às conversações dos homens, se abrirem para ouvir de vossa boca a irrevogável sentença, que decidirá a minha sorte por toda a eternidade:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando a minha imaginação, perturbada por fantasmas horrendos e aterradores, cair em mortal angústia, e meu espírito, abalado e confuso à vista das próprias iniquidades e receoso da vossa justiça, lutar contra o anjo das trevas, que há-de querer tirar-me a esperança na vossa misericórdia e precipitar-me no abismo do desespero:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando o meu coração, fraco e angustiado com as dores da doença, for surpreendido pelos horrores da morte e se achar exausto e cansado com os esforços feitos para triunfar dos inimigos da minha salvação:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando deitar as últimas lágrimas, prenúncio da minha destruição, recebei-as, ó meu Jesus, em sacrifício de expiação, para que assim morra vítima de penitência; e naquele terrível momento:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os parentes e amigos, apinhados ao redor de mim, se enternecerem à vista do meu lastimoso estado, e invocarem vossa misericórdia em meu favor:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando, perdido o uso dos sentidos e apagada de toda minha vista, gemer no meio das ânsias da agonia extrema e na crise da morte:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os últimos impulsos do meu coração obrigarem a minha alma a sair do corpo, recebei-a como prova de um vivo anseio de ir ter convosco; e diante deVós:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando a minha alma sair para sempre deste mundo, e deixar o meu corpo pálido, frio e sem vida, aceitai a destruição do meu ser como uma homenagem que desde há ofereço à vossa Divina Majestade, e naquela hora:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando, finalmente, a minha alma comparecer diante de Vós e contemplar pela primeira vez o imortal esplendor da vossa Majestade, não a expulseis de vossa presença: mas dignai-vos recebê-la no seio amoroso da vossa misericórdia infinita, para que possa cantar eternamente os vossos louvores e, por isso:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

ORAÇÃO DE SÃO BOAVENTURA


Transpassai, dulcíssimo Senhor Jesus, a medula de minha alma com o suave e salutar dardo do vosso amor, com a verdadeira, pura e santíssima caridade apostólica, a fim de que a minha alma desfaleça e se desfaça sempre só com o amor e o desejo de vos possuir; que por Vós suspire, e desfaleça por achar-se nos átrios da vossa casa, ansiando separar-se do corpo para se unir a Vós. Fazei que minha alma tenha fome de Vós, Pão dos anjos, Alimento das almas santas, Pão nosso de cada dia, cheio de força, de toda a doçura e sabor, e de todo suave deleite. 

Ó Jesus, a quem os anjos desejam contemplar, tenha sempre o meu coração fome de Vós, e o interior de minha alma transborde com a doçura do vosso sabor; tenha sempre sede de Vós, fonte de vida, manancial de sabedoria e de ciência, rio de luz de luz eterna, torrente de delícias, abundância da Casa de Deus; que vos anseie, que vos procure, que vos encontre; que para Vós caminhe e a Vós alcance.

Que em Vós pense, de Vós fale, e todas as minhas ações encaminhe para a honra e glória do vosso nome, com humildade e discrição, com amor e deleite, com facilidade e afeto, com perseverança até o fim; para que só Vós sejais sempre minha esperança, meu gozo, meu descanso e minha tranquilidade, minha paz, minha suavidade, meu perfume, minha doçura, meu sustento, meu alimento, meu refúgio, meu auxílio, minha sabedoria, minha herança, minha posse e o meu tesouro, no qual estejam sempre fixos e firme e inabalavelmente arraigados a minha alma e o meu coração. Amém.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

FELIZ E SANTO NATAL EM CRISTO!

Desejo a todos os nossos amigos e visitantes um Santo e Feliz Natal! 

CÂNTICO DE NATAL

Ó meu Menino Jesus, 
sede a minha esperança!
Que na gruta da vossa Belém 
eu possa renascer também
como uma outra criança!  

Ó meu Menino Jesus,  
sede minha santa alegria!
Que o meu presépio se faça 
banhando minha alma na graça
de uma pobre estrebaria!

Ó meu Menino Jesus, 
sede minha força e minha fé!
Que a mãe que me vela agora
seja a mesma Nossa Senhora 
da família de Nazaré!

Ó meu Menino Jesus, 
sede farol e minha luz!
Que este Natal de abraços,
se faça caminho de passos
que passam diante da Cruz! 

Ó meu Menino Jesus, 
sede a alma do meu viver!
Que este Natal me converta
em dom, partilha e oferta
para os que vão renascer!
E em dom, oferta e partilha,
onde ainda hoje não brilha
a luz do vosso nascer! 

Ó meu Menino Jesus, 
sede minha paz e todo bem!
Que eu viva a bem aventurança 
de adorar Deus feito criança
numa gruta de Belém!

(Arcos de Pilares)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

PROPÓSITO PARA A QUARTA SEMANA DO ADVENTO


Jesus e Maria estão de fato tão unidos que quem vê Jesus vê Maria, quem ama Jesus ama Maria e quem é devoto de Jesus também é devoto de Maria. Jesus e Maria são os dois primeiros fundamentos da religião cristã, as duas fontes vivas de todas as nossas bênçãos, os dois termos de nossa devoção e os dois pontos de referência para os quais devemos olhar em todas as nossas ações e exercícios. 

Não é verdadeiro cristão quem não tem devoção à Mãe de Jesus Cristo e de todos os cristãos. Portanto, Santo Anselmo e São Boaventura afirmam que não é possível que aqueles que não são amados por sua Santa Mãe sejam acolhidos por Jesus Cristo, assim como aqueles a quem ela dirige seu olhar benevolente não podem perecer.

Em Maria, devemos olhar e adorar o seu Filho: olhar e adorá-lo apenas a ele. Assim, de fato, ela quer ser honrada, sabendo muito bem que sozinha ela não é nada, mas que seu Filho Jesus é tudo nela: ele é seu ser, sua vida, sua santidade, sua glória, seu poder e sua grandeza. Devemos agradecer a Jesus a glória que desejava receber nela e por ela. Devemo-nos oferecer a ele e pedir-lhe que nos dê a Maria e disponha tudo para que nossa vida e nossas ações sejam consagradas para honrar a sua vida e as suas ações. Devemos pedir-lhe que compartilhe o amor que tinha por ela e suas outras virtudes. Devemos pedir a ele que nos use para honrá-la, ou melhor, para se honrar nela, da maneira que ele quiser.

Que, nesta Quarta Semana do Advento, em recolhimento anterior, possamos reconhecer e honrar Maria como Mãe de nosso Deus e depois como nossa Mãe e Soberana; agradecer-lhe por honrar, glorificar e servir a Jesus Cristo seu Filho e nosso Senhor; depender dela e pedir-lhe que nos guie em tudo o que diz respeito à nossa vida; dar-nos a ela e submeter-se a ela como escravos, implorando-lhe que tome pleno poder sobre nós, disponha de nós segundo sua boa vontade para a glória de seu Filho, e nos una a todo o amor e louvor que ela lhe tributou e lhe oferece novamente por toda a eternidade.

(São João Eudes, excertos e texto adaptado, Ouevres Complètes)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

PROPÓSITO PARA A TERCEIRA SEMANA DO ADVENTO


'Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!' (Mt 11,6)

A vigilância perseverante e a conversão sincera nos convidam a viver em plenitude a alegria cristã. Não aquela feita das frivolidades do mundo, superficial e passageira, mas aquela que nos inunda a alma de esperança e de confiança na certeza de que o Senhor está prestes a chegar. Uma alegria que nos ilumina interiormente pela presença salvadora de Deus que vem ao nosso encontro.

Felizes somos nós que cremos, que esperamos, que amamos e adoramos o Senhor da vida. Que nos desapegamos dos risos fáceis e vazios e nos rejubilamos em Cristo; preparando o coração com simplicidade e confiança, aprendemos a reconhecer que o Natal não é apenas uma data a celebrar, mas um mistério a acolher: Deus que vem para permanecer conosco.

A alegria cristã pressupõe a santa alegria da comunidade cristã e, assim, o retrato mais fiel da aleria cristã é a caridade. São João Batista, figura central deste tempo litúrgico, exorta-nos a preparar os caminhos do Senhor com gestos reais de justiça, partilha e humildade. A verdadeira alegria cristã se revela quando o coração se desapega do egoísmo e se abre ao amor.

Maria, Mãe do Advento, infundi em nossos corações a alegria que vivenciastes quando o Filho de Deus estava prestes a habitar entre nós, uma alegria bela e santa, enraizada na fé, sustentada pela esperança e compartilhada no amor ao próximo.

E que, nesta Terceira Semana do Advento, tenhamos o firme propósito de viver em plenitude a virtude da feliz caridade para com nossos irmãos. Um gesto de perdão, uma palavra de consolo, uma ação concreta em aliviar o sofrimento alheio ou um tempo dedicado aos mais necessitados tornam-se sinais concretos de que a alegria cristã, que antecede a vinda do Salvador do mundo, já habita entre nós.

CARTÕES DE NATAL (I)

 
Prostrado diante de vós, ó Maria, 
eu adoro Jesus Cristo oculto no vosso ventre!