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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

VERSUS: SANTOS DESEJOS

'A razão pela qual, nesta vida, a alma não pode ter essa paz é que seu desejo não fica saciado enquanto não chega à união com a essência divina. Enquanto é peregrina e viajante nesta vida, tem somente fome e desejo: desejo de seguir o caminho reto e fome de chegar ao seu termo e fim. Esse desejo a faz correr pelo caminho, pela estrada trilhada por Cristo crucificado, como foi dito acima; pois, se não tivesse amor ao seu fim, isto é, a Deus, não se preocuparia em conhecer o caminho.

Quero, portanto, que façais crescer o santo e verdadeiro desejo de seguir esse caminho, que vos faz chegar ao vosso destino. Sabei que ele não é obscuro, nem tenebroso, nem cheio de espinhos; pelo contrário, é luminoso, iluminado pela verdadeira luz. Jesus Cristo, que é a própria luz, abriu essa estrada com o seu Sangue. Não há nela espinhos: é perfumada, cheia de flores e de suaves frutos, de modo que, assim que a criatura começa a percorrer essa estrada e esse doce caminho, experimenta tamanha doçura que prefere a morte a abandoná-lo.

E, embora nesse caminho se vejam espinhos, que parecem ser os espinhos de muitas tribulações e ilusões do demônio, e o mundo se apresente diante de nós com sua soberba inflada, digo que a alma que se deleita nesse caminho não lhes dá importância. Faz como aquele que vai à roseira: colhe a rosa e deixa o espinho. Assim também ela deixa para trás as tribulações e angústias do mundo e colhe a rosa perfumada da verdadeira e santa paciência, colocando diante dos olhos do entendimento o Sangue do Cordeiro, que dá vida, posto à frente dessa estrada'.

'Aprendei com Cristo, a primeira e doce Verdade, que, pela fome e sede que tinha, pelo ardente desejo de nossa salvação, clamava no lenho da santíssima cruz, dizendo: 'Tenho sede!' Como se dissesse: 'Tenho mais sede e desejo de vossa salvação do que vos posso demonstrar por meio deste sofrimento finito'. Pois a dor da sede do santo desejo é infinita, enquanto o seu sofrimento é finito. Assim, Ele nos manifesta a sede que tem do gênero humano, embora também fosse corporalmente afligido pela sede.

Ó doce e bom Jesus, ao mesmo tempo manifestais a vossa sede e pedis que vos deem de beber! E quando é que pedis de beber à alma? Quando nos mostrais o vosso afeto e a vossa caridade, Senhor meu... por amor Ele deu o Sangue, e com esse mesmo amor nos pede de beber. Isto é: aquele que ama pede para ser amado e servido. É justo que aquele que ama seja amado. Então a alma dá de beber ao seu Criador quando lhe retribui amor por amor. Mas não pode retribuir-lhe por algum serviço que possa prestar diretamente a Ele, e sim por intermédio do próximo. Por isso, a alma se volta com tanta solicitude a servir o próximo naquele serviço que reconhece ser mais agradável a Deus; e nele se exercita'.

(Das Cartas de Santa Catarina de Sena)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (IV)

4. A PARÁBOLA DO BANQUETE REAL

Um rei chamou os convidados para a festa de casamento do seu filho. Muitos não foram. No banquete, um homem aceitou o convite, mas não trajava a veste adequada, e foi expulso da festa com todo rigor [Mt 22,11-14].

[11] Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa
[12] e perguntou-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu. 
[13] Então o rei disse aos que serviam: 'Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes'. 
[14] Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos'.


Na parábola do banquete de núpcias, o rei representa Deus; o banquete, a participação no seu Reino; e o traje de festa, a disposição interior correspondente ao convite recebido: conversão, fé viva e caridade. Impacta particularmente neste trecho bíblico a severidade da cena: um homem que aceitou o convite para participar do banquete é expulso dele com todo rigor e com condenação expressa pelo próprio rei.

O convite feito pressupõe necessariamente a conversão: o pecador é convidado a entrar no Reino de Deus, mas também a merecer tal privilégio, mediante a sua transformação interior pela graça divina. Muitos simplesmente recusam explicitamente a via da salvação, usufruindo desgraçadamente do livre arbítrio a eles confiado. Muitos aqui são a imensa maioria dos homens. Muitos de muitos também a perderão, por participarem do banquete real sem o traje de festa adequado. Correspondem àquela legião dos homens de almas tíbias e vacilantes, que não traduzem a fé que porventura manifestam em obras e nem as graças recebidas em conversão. 

O exército das almas tíbias e vacilantes deste mundo é personificado no homem que adentra ao banquete real sem a veste adequada [11]. O rei se acerca dele e o chama por 'amigo' [12], não como um traço de intimidade, mas como uma repreensão solene a alguém que estava ali como convidado, uma vez que aceitara previamente o chamado de Deus. Mas não basta ser chamado; impõe-se chamar-se, ou seja, investir alma e coração ao chamado divino. Há uma clara divisão entre o chamado e o juízo divinos, expressos pelas duas realidades distintas entre a 'sala cheia de convidados bons e maus' e 'a entrada do rei para ver os convidados'.  

O silêncio do homem [12] ratifica o seu traje inadequado (uma vez desprovido interiormente da graça apenas exterior e aparente) e sela o seu destino final da sua expulsão do banquete e exclusão definitiva da comunhão com Deus, tal como os convidados que recusaram o convite. O 'choro e ranger de dentes' [13] expressa a dor e o sofrimento dessa perda e severidade da cena ressalta a responsabilidade de cada homem diante o convite divino. 

As palavras finais do rei são particularmente duras e reverberam pelos tempos aos homens de todos os tempos: 'Muitos são chamados, e poucos são escolhidos' [14]. O convite a ingressar no banquete real é um dom da infinita misericórdia de Deus; revestir-se da graça divina é a contrapartida para poder merecer ficar no banquete na santa presença de Deus. E estes serão muitos e serão poucos. Pois embora os bons sejam numerosos em si mesmos, são poucos em comparação com os maus, assim como o trigo em comparação com a palha (Santo Agostinho).

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

INVOCAÇÃO À SANTÍSSIMA TRINDADE PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO


Ó Deus de toda bondade, Pai das misericórdias, que, pelas orações e jejuns do vosso povo fiel, vos dignastes enviar os vossos Anjos para romper os grilhões do vosso santo apóstolo Pedro e abrir as portas de sua prisão; ouvi também neste dia as orações e súplicas da vossa Igreja e enviai o vosso Anjo às almas pelas quais rezamos, para que, abertas as portas de sua prisão, sejam elas acolhidas na felicidade do seio da vossa misericórdia. Amém.

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Ó Filho de Deus, Salvador das almas, que aliviastes os três jovens na fornalha ardente, derramai o vosso orvalho celeste sobre as almas que, do meio das chamas, clamam a Vós. Somente o vosso precioso Sangue pode apagar as chamas do purgatório; fazei que ele agora se derrame sobre essas almas sofredoras e tende piedade delas, Senhor. Amém. 

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Ó Espírito de amor, tende compaixão do cruel tormento que padecem essas almas, as quais, repletas da mais pura caridade e aspirando sem cessar ao seu Deus, clamam em sua aflição: 'Tenho sede! Tenho sede do meu Deus!' - e, contudo, não podem alcançar o objeto de seu amor, nem receber sequer uma gota daquela torrente de puras delícias. Ó Espírito Santo, concedei que, depois de terem sentido as mais intensas dores do amor, possam saborear suas delícias celestes numa bem-aventurada eternidade. Amém. 

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

(The Golden Manual, 1850)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (III)

3. A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS

Um homem pediu para os seus dois filhos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse não, mas foi; o segundo disse sim, mas não foi [Mt 21,28-32].

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 
[28] Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!' 
[29] O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. 
[30] O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. 
[31] 'Qual dos dois fez a vontade do pai?' Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'O primeiro'. Então Jesus lhes disse: 'Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 
[32] Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele'.


Na parábola desse Evangelho, um pai pede aos dois filhos que trabalhem na vinha. Um responde 'não', mas depois se arrepende e vai [29]; o outro responde 'sim', mas não vai [30]. Quando Jesus pergunta qual deles fez a vontade do pai, a resposta é clara: o primeiro [31]. As palavras seguintes de Jesus são impactantes: os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus [31], algo que soaria como uma aparente aprovação ao pecado.

Num primeiro contexto, à luz do ensinamento de Jesus sobre a graça, conclui-se do texto bíblico que, ainda que a vontade seja realmente humana e livre, ela não é autossuficiente para se voltar a Deus e perseverar no bem que conduz ao Reino. Deus não age no lugar do primeiro filho, como se este fosse passivo. A graça desperta e sustenta sua conversão; ele responde livremente, arrepende-se e vai. É nesse sentido que o Catecismo diz que a graça precede e suscita a resposta livre, sem suprimi-la. Assim, a crítica de Jesus não se dirige à vontade enquanto capacidade de escolher. Dirige-se à vontade fechada em si mesma, que presume que basta dizer 'sim', mas resiste ao chamado concreto de Deus. Por outro lado, a vontade convertida reconhece sua necessidade de ajuda e se manifesta em obras. Fazer a vontade do Pai é querer e agir em resposta à graça, e não apenas confiar na força de uma resolução pessoal.

E Jesus menciona, então, que publicanos e prostitutas precedem os chefes religiosos no Reino [31]. Lida isoladamente, a frase pode soar como um manifesto estranho em favor da vida pecaminosa em relação à vida religiosa. No versículo seguinte, a aparente contradição é desfeita: os cobradores de impostos e as prostitutas, apesar dos seus graves pecados, responderam sim à conversão ao acatarem as palavras de João Batista, ao contrário dos interlocutores de Jesus [32]. Jesus não elogia a cobrança injusta ou a prostituição; Jesus não atribui mérito ao pecado, mas à conversão do pecador como resposta ao chamado da graça divina.

A menção a exemplos de pecadores extremados tem uma função: mostrar aos chefes religiosos que sua condição respeitada não lhes garante a entrada no Reino. A comparação é entre pecadores que acolhem o chamado de Deus e pessoas que, apesar de sua posição religiosa, recusam esse chamado. Também não significa que todos os publicanos e todas as prostitutas se converteram, nem que todos os chefes religiosos estavam excluídos (Jesus usa o termo 'precedem' entre uns e outros). O contexto aqui é universal: Jesus explicita que a ação da vontade ao chamado da graça é para todos e que a conversão é tarefa contínua que se impõe tanto para quem caiu gravemente em pecado como para quem se considera justo. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

ONDE ESTÁS, QUANDO NÃO ESTÁS CONTIGO?

 


1. Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é a nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.

2. O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.

3. Portanto, grandes progressos farás se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (I)

1. A MULHER CANANEIA

Uma mulher cananeia veio pedir a Jesus a cura da sua filha, cruelmente atormentada pelo demônio [Mt 15,21-28].

[21] Partindo dali, retirou-se Jesus para a região de Tiro e de Sidônia.
[22] E eis que uma Cananeia, que tinha saído daqueles arredores, gritou: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está miseravelmente atormentada do demônio'.
[23] Ele, porém, não lhe respondeu palavra. Aproximando-se seus discípulos, pediram-lhe: 'Despede-a porque vem gritando atrás de nós'.
[24] Ele respondeu: 'Eu não fui enviado senão às ovelhas desgarradas da casa de Israel'.
[25] Ela, porém, veio, prostrou-se diante dele, dizendo: 'Senhor, valei-me'.
[26] Ele respondeu: 'Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'.
[27] Ela replicou: 'Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos'.
[28] Então Jesus disse-lhe: 'Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como queres'. E, desde aquela hora, ficou sã a sua filha.


O texto não é de difícil compreensão, mas de interpretação e, numa abordagem descontextualizada, aparenta uma reação fria e até ofensiva de Jesus contra uma súplica de uma mãe em favor de sua filha: Jesus inicialmente não responde a sua súplica, declara ter sido enviado apenas às 'ovelhas perdidas da casa de Israel' e ainda conclui duramente que 'não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'. A pedagogia e a misericórdia de Jesus está além das duras palavras, mas na exaltação da fé consciente daquela mulher.

Há que se notar a manifestação de fé da mulher logo no início do episódio. Jesus encontra-se então em ambiente predominantemente gentio, na região de Tiro e Sidônia. A mulher é identificada como de origem cananeia [Marcos a identifica como siro-fenícia], um povo historicamente adversário de Israel e, ainda que pagã, ela reconhece de pronto a dimensão de Jesus, clamando por ele com um título messiânico inquestionável: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim!' [22], fato que não era reconhecido pela maioria dos israelitas de então. Ela configura, portanto, a primeira aproximação formal dos gentios face à missão salvífica do Redentor, amparada e movida por uma súplica ardente: 'tem piedade de mim!'. Importante destacar que ela manifesta a súplica inicial em seu próprio favor, reconhecendo-se como pobre pecadora, e não à filha doente; pois a caridade torna a dor por quem se reza parte de nós mesmos.

O silêncio inicial de Jesus [23] é deliberado, num gesto de extrair daquela fé manifesta um ato muito maior de louvor e exaltação diante a sua grande humildade. O silêncio de Deus não equivale à ausência de Deus. Sinal inequívoco de que as nossas orações passam necessariamente pela experiência do silêncio de Deus, sem que esse silêncio expresse uma recusa formal, mas como um teste e provação da autenticidade da fé e confiança em Deus daquilo que pedimos.

Arguído pelos apóstolos, ainda avessos à compaixão [23], Jesus manifesta então uma premissa de sua missão salvífica, que tinha por prioridade a salvação dos judeus [24], previamente à universalização de sua missão. A provação aumenta de grau: o silêncio agora torna-se uma razão de aparente recusa. Jesus está ali, além do ambiente judaico tradicional, diante de um ato de fé extremada de uma mulher não judia, mas pagã, e quase que como instado a fazer uma antecipação da abertura de sua missão divina aos gentios, que somente mais tarde será proclamada a todos os homens: 'Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações' (Mt 28,19).

Mas a fé que remove montanhas não desiste. Insiste. Diante o senão proposto, a súplica persiste: 'Valei-me!' [25]. E então, vem a prova mais dura. Jesus, uma vez mais, diante dos apóstolos, vai testá-la nos limites de sua fé extremada (que Jesus conhece antecipadamente) com palavras particularmente duras [26]. Jesus sabe com quem está lidando e somente uma manifestação excepcional de fé como o daquela mulher pode fazê-lo explorar ao limite a magnitude das potenciais virtudes humanas.

A resposta da mulher exprime a audácia da sua fé extraordinária e a dimensão espiritual de sua crença: 'mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos' [27]. Ela não contradiz Jesus, pelo contrário; mas justifica que, diante da superabundância das graças divinas, migalhas bastam para operar milagres e curar a sua filha. Neste contexto da graça, Jesus não apenas reconhece a grandeza da fé desta mulher cananeia, como a exalta diante de todos, numa intervenção raríssima e extraordinária [28], ainda mais que até mesmo os apóstolos foram objeto de censura do Salvador em muitas ocasiões como 'homens de pouca fé'. Aquela que começou sem aparentemente possuir direito algum termina ouvindo do próprio Cristo: 'Seja-te feito como queres!'.

Nesta passagem bíblica, a mulher cananeia não muda a vontade de Cristo pela insistência; Cristo conduz a mulher, por meio da insistência, à perfeição daquela fé mediante a qual Ele queria conceder-lhe a graça. Deus, às vezes, parece resistir justamente às almas que deseja aproximar mais de si. Cornélio a Lápide trata este episódio praticamente como um pequeno tratado sobre a oração perfeita, que incorpora dez diferentes disposições: humildade, fé, modéstia, prudência, reverência, resignação, confiança, ardor, caridade e perseverança.

Pão, mesa, migalhas. Uma migalha basta para a superabundância da graça. Aplicada espiritualmente à Eucaristia, essa imagem torna-se particularmente expressiva porque Cristo não está parcialmente presente numa pequena porção da Hóstia consagrada, mas por inteiro. Em outra passagem dos evangelhos, Jesus manifesta igualmente um extraordinário elogio de fé a outro gentio, o centurião romano: 'Em ninguém em Israel encontrei tamanha fé' (Mt 8,10). Aqueles para quem bastavam as migalhas, serão no futuro os convivas da mesa posta, das benesses e misericórdias de Deus: 'Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus' (Ef 2,19).

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVII)

William Dyce
(1806–1864) foi um pintor escocês particularmente interessante para quem aprecia arte cristã tradicional, ocupando uma posição singular na pintura britânica do século XIX como um artista especializado sobretudo em temas religiosos e medievais. Dyce procurava conciliar correção acadêmica, beleza formal e sentimento religioso, evitando muitas vezes o sentimentalismo teatral que aparece em parte da pintura religiosa oitocentista. Essa dimensão religiosa não era apenas temática. Dyce tinha profundo interesse pela liturgia e pela música sacra. Em 1841 fundou a Motett Society, dedicada ao estudo, execução e republicação de música eclesiástica dos séculos XVI e XVII. 

Abaixo, apresenta-se a reprodução de algumas das suas obras mais clássicas, sendo apenas a última delas uma obra não sacra.

Davi no deserto*

Nossa Senhora e o Menino Jesus

Cristo, Homem das Dores*

Lamentação sobre o Cristo Morto

São João conduz Nossa Senhora após a Crucificação

O encontro de Jacó e Raquel

Baía de Pegwell, Kent** - uma recordação de 5 de outubro de 1858

* Davi, representado como um jovem pastor, e Jesus são retratados em paisagens inspiradas nas Terras Altas da Escócia, em vez de nos cenários próprios do contexto bíblico.
** A pintura mostra membros de sua família recolhendo conchas na praia, diante das falésias de Kent.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SALMO 22


O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.
Pelos prados e campinas verdejantes, ele me leva a descansar. 
Para as águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças. 

Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra do seu nome. 
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; 
estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança.

Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do inimigo,
e com óleo vós ungis minha cabeça;
o meu cálice transborda.

Felicidade e todo bem hão de seguir-me por toda a minha vida;
e na casa do Senhor habitarei pelos tempos infinitos. 

(Salmo 22,1-6; tradução de acordo com o Lecionário da CNBB)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PORQUE HOJE É A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS

 

Ó SENHOR, CONCEDEI-ME AMAR-VOS COM TODA A MINHA ALMA E MENTE!


Ó Senhor, não me priveis de vossos abençoados dons celestiais,
Ó Senhor, defendei-me e livrai-me dos tormentos eternos,
Ó Senhor, se pequei com minha mente, com meus pensamentos, com minhas palavras ou minhas ações, perdoai-me e curai minha alma,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, livrai-me da ignorância, do esquecimento, da covardia e do tédio,
Ó Senhor, não me deixeis cair e livrai-me de toda tentação,
Ó Senhor, iluminai meu coração obscurecido pelos desejos do maligno,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, como homem que sou, pequei, mas Vós, como Deus amado e benevolente, tende piedade da minha alma, vendo as fraquezas do meu coração,
Ó Senhor, enviai vossa Misericórdia em meu auxílio, para que eu possa glorificar vosso Santo Nome,
Ó Senhor Jesus Cristo, inscrevei vosso servo no Livro da Vida e concedei-me uma morte em paz,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó meu Deus! Embora eu não tenha feito nada de bom, estendei vossa mão, ajudai-me com vossa graça para começar a fazer todo o bem,
Ó Senhor, cobri meu coração fraco com o orvalho de vosso amor,
Ó Senhor do céu e da terra, lembrai-vos de mim, vosso servo pecador, impuro e frio de coração, em vosso reino,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, aceitai meu sincero arrependimento,
Ó Senhor, pelo bem da minha alma, não me abandoneis,
Ó Senhor, afastai-me para longe das tentações,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei-me pensamentos nobres e puros,
Ó Senhor, concedei-me as lágrimas do arrependimento, a memória da morte e a sensação de paz,
Ó Senhor, concedei-me humildade, caridade e obediência para agir em vosso nome,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei-me a confissão e o perdão dos meus pecados,
Ó Senhor, concedei-me paciência, magnanimidade e doçura,
Ó Senhor, colocai em mim a fonte de todas as bênçãos e o temor de vós em meu coração,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei que eu possa amar-vos com todo o meu coração e toda a minha alma, e que eu sempre obedeça à vossa palavra,
Ó Senhor, protegei-me dos provocadores, dos demônios, das paixões corporais e de tudo o que não me leva a Vós,
Ó Senhor, eu sei que agis como desejais; assim, seja feita em mim, pecador, a vossa vontade, porque bendito sois para todo o sempre.
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente! Amém.

(São João Crisóstomo)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ἀληθινός

ἀληθής e ἀληθινός são palavras gregas comumente traduzidas com significado semelhante, no sentido de verdadeiro; real; genuíno; conforme a verdade ou fiel (em alguns contextos). A rigor, entretanto, há uma nuance de diferenciação fundamental entre ambas as palavras:

ἀληθής → significa verdadeiro em oposição ao falso; veraz, sincero, conforme os fatos.
ἀληθινός → significa verdadeiro no sentido de autêntico, perfeito, definitivo, em oposição ao que é apenas figurado ou aproximado.

Estas palavras aparecem diversas vezes no Novo Testamento, muitas vezes traduzidas do mesmo modo, mas são nos escritos de São João (Evangelho, Cartas, Apocalipse) que estas palavras se repetem várias vezes, e suas distinções são particularmente realçadas. Por exemplo:

Jo 3,33:
Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro [ὁ θεὸς ἀληθής ἐστιν] [verdadeiro, fiel]

Jo 5, 31:
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [ἡ μαρτυρία μου οὐκ ἔστιν ἀληθής] [verdadeiro, digno de aceitação]

Jo 17,3:
'Para que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo' [ἵνα γινώσκωσίν σε τὸν μόνον ἀληθινὸν Θεὸν, καὶ ὃν ἀπέστειλας Ἰησοῦν Χριστόν].

Por que João utiliza aqui o termo ἀληθινός (na verdade, sua flexão gramatical ἀληθινὸν)? Porque quer transmitir o sentido de que está falando do 'único Deus autêntico e verdadeiro, o único que é realmente Deus'.

Para João, ἀληθινός designa aquilo que é: autêntico; perfeito; definitivo; pleno da verdade e, no seu Evangelho, vai reproduzir sempre esse termo quando se refere sobre a verdadeira Luz (Jo 1,9); o verdadeiro Pão (Jo 6,32); a verdadeira Videira (Jo 15,1); o verdadeiro adorador (Jo 4,23); o verdadeiro Deus (Jo 17,3). É um vocabulário tipicamente joanino.

É imprescindível entender as nuances destas palavras gregas em contextos joaninos aparentemente similares. Quando Jesus fala em Jo 6,32: 'Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão [ὁ ἄρτος... ὁ ἀληθινός] do céu', está falando do pão único e autêntico pão que é Cristo (realidade definitiva) em contraste com o maná do deserto (mera figura do pão).

Mas, quando Jesus profere as palavras: 'Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue, verdadeiramente bebida' (Jo 6,55), João não usa nem ἀληθής e nem ἀληθινός, mas uma terceira forma da mesma família - ἀληθῶς - que é um advérbio, significando em verdade; de fato; verdadeiramente. Essa construção coloca a ênfase não na qualidade do alimento, mas na realidade da afirmação: a carne de Cristo é, de fato, alimento, e seu sangue é, de fato, bebida. A Presença Real na Eucaristia não é uma fantasia; é VERDADEIRAMENTE o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que alimenta as nossas almas na Missa, para nos cobrir de bênçãos e graças e nos abrir desde agora as portas para a eterna felicidade no céu!

quinta-feira, 23 de julho de 2026

ORAÇÃO: OBSECRO TE, DULCISSIME DOMINE IESU CHRISTE

 

Obsecro te, dulcissime Domine Iesu Christi, ut passio tua sit virtus mea, qua muniar, protegar, atque defendar. Vulnera tua sint mihi cibus potusque, quibus pascar, inebrier atque delecter. Aspersio Sanguinis tui sit mihi ablutio omnium delictorum meorum. Mors tua sit mihi vita indeficiens, Crux tua sit mihi gloria sempiterna. In his sit mihi refectio, exsultatio, sanitas et dulcedo cordis mei: Qui vivis et regnas in saecula saeculorum. Amen.


Dulcíssimo Senhor, Jesus Cristo, que a vossa Paixão seja o poder que me fortaleça, proteja e defenda. Que as vossas Chagas sejam alimento e bebida que me nutram, me inebriem e me deleitem. Que a aspersão do vosso Sangue me purifique de todos os meus pecados. Que a vossa Morte seja a minha vida perene e a vossa cruz seja a minha glória eterna. Que isso seja a minha consolação, o meu refrigério, a minha alegria, a pureza e o deleite do meu coração, eu suplico a Vós, que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A EUCARISTIA


1. 'Eu fui um grão de trigo semeado no ventre virginal da minha Santíssima Mãe (cf. Jo 12,24); saí dele tenro e fresco, como um trigo em broto; cresci sob ventos e sóis intensos de trabalhos, caminhos e perseguições; e quando tinha quase trinta anos, os maus lançaram a sua foice sobre mim, e fui cortado desta vida, moído e atormentado, e transformado em farinha para que dela se fizesse este pão sagrado, do qual e pelo qual digo: 'Quem me comer, viverá por mim' (Jo 6,58). E tendo custado tão caro entregar-me como alimento aos homens, e estando fechado e depositado em lugar tão pequeno para que melhor possam me comer, prestam tão pouca atenção aos meus trabalhos e ao meu grande amor e à grande necessidade que têm de mim, que alguns nem sequer querem vir à minha casa; e se outros vêm, contentam-se em reverenciar-me quando sou consagrado e elevado na missa; mas preparar suas consciências, lutar contra suas paixões para virem puros à minha mesa e me receberem e se alegrarem comigo, muito poucos há'.

2. 'Quereis que Deus seja todo vosso? Sejais então todo dele. Não ousais? Como sois duros, cegos que sois, que temeis vos trocar por Deus? Por que temeis entregar-vos a Ele e oferecer-vos à sua vontade? Se, pelo que vos dais, Ele se entrega por si mesmo e, ainda assim, não ousaríeis? Pois isso é comungar, e isto é o significado e o ato da comunhão'.


3. 'Que confusão para nós, que nos contentamos com uma missa assistida de passagem, apressadamente, sem amor, sem gratidão! Bem-aventurado aquele que, quando tiver Cristo em suas mãos, sentir-se como o velho Simeão'.

4. 'Ao esquecer a comunhão e a comunicação com Jesus Cristo, a fé esfria tanto que, se nada nos pressionasse, terminariamos por negar a fé... Receber o corpo de Jesus Cristo e nos unirmos agora a Ele, por meio da comunhão, é uma antecipação da união que haverá de existir entre nós e Ele nos céus'.

5. 'O sacerdote toma o pão nas mãos e pronuncia as palavras da consagração; assim que as pronuncia, já não há pão; quem entrou ali no lugar do pão? Jesus Cristo. Pois, quando vierem comungar, considerem que vocês são o pão que se converterá em Jesus Cristo, para que digam como o apóstolo São Paulo: Vivo eu, mas não eu, e sim Jesus Cristo em mim' (Gl 2,20).

6. 'Meu caro irmão, e se soubesses que graça tão grande te concedeu Jesus Cristo ao permanecer aqui para te sustentar! Guarda em teu peito o Santíssimo Sacramento, comunga com frequência, aproxima-te do santo altar de Jesus Cristo e roga-lhe com muita devoção: 'Senhor, estou nesta tribulação; Senhor, estou nesta fadiga; esta tentação me cansa; esta desonra me cerca; Senhor, estou morno, estou fraco, estou frio; Senhor, pois tu és o verdadeiro fogo, acende a minha alma com o teu amor; inflama, meu Senhor, as minhas entranhas na caridade'. Pede-lhe, que se com boa fé lhe pedires, Ele te concederá'.

7. 'E, acima de tudo, aproximemo-nos do fogo que acende e arde, que é Jesus Cristo, nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento. Abramos a boca da alma, que é o desejo, e vamos sedentos à fonte de água viva; pois, sem dúvida, ao colocarmos o mel na boca, algo provaremos, e o fogo no íntimo nos aquecerá. E depois e antes de comungar, tenhamos algum preparativo; e os melhores são a fé certa de que vamos receber Jesus Cristo, nosso Senhor, e o pensamento e o amor de sua paixão, pois é em sua memória que o ato se realiza. Corramos, pois, atrás de Deus, que não nos deixará; Ele está pregado na cruz; ali o encontraremos com toda a certeza; coloquemo-lo em nosso coração e fechemos as portas para que Ele não nos deixe.'

(São João de Ávila)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CORPUS CHRISTI 2026

 

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

sábado, 23 de maio de 2026

TRÊS PESSOAS DISTINTAS E UM ÚNICO DEUS

Vi um grande palácio de magnitude incompreensível, semelhante ao céu sereno, no qual havia inúmeras pessoas assentadas e vestidas com roupas brancas e resplandecentes como os raios do sol. No palácio, vi um trono maravilhoso no qual estava sentado um homem mais resplandecente que o sol, de beleza incompreensível, e Senhor de imenso poder, cujo esplendor era também incompreensível em extensão, largura e profundidade. Ao lado do assento do trono, havia uma Virgem que brilhava com admirável resplendor e usava uma coroa preciosa. Todos os presentes serviam àquele que estava sentado no trono, louvando-o com hinos e cânticos, e honravam com reverência aquela Virgem, como Rainha dos céus.

Então, aquele que estava no trono me disse com voz majestosa: Eu sou o Criador do céu e da terra, um único Deus verdadeiro com o Pai e com o Espírito Santo; porque o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus; e, apesar de tudo isso, não são três deuses, mas três pessoas distintas e um único Deus. Mas agora, você poderá me perguntar: se são três pessoas, por que não são três deuses? Ao que respondo que Deus é o próprio poder, a própria sabedoria e a própria bondade, de quem provém todo o poder abaixo e acima do céu, toda a sabedoria e toda a piedade que se possa imaginar. Assim, pois, Deus é trino e uno; trino em pessoas e uno em essência. Porque poder e sabedoria é o Pai, de quem procedem todas as coisas, e que é poderoso acima de tudo, não por ninguém, mas por si mesmo e eternamente.

Poder e sabedoria é também o Filho, igual ao Pai, mas não como poder originado de si mesmo, sim poderosamente e inefavelmente gerado pelo Pai, que é princípio do princípio, e jamais separado do Pai. Poder e sabedoria é também o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, eterno com o Pai e com o Filho, e igual em majestade e poder. Há, portanto, um único Deus e três pessoas, porque uma só é a natureza das três, uma só a operação e a vontade, e uma só a glória e o poder; um só em essência e distintos na propriedade das pessoas. Pois todo o Pai está no Filho e no Espírito Santo, e o Filho no Pai e no Espírito Santo, e o Espírito Santo em ambos numa única natureza da Divindade; não antes nem depois, mas de uma maneira inefável, onde nada há anterior nem posterior, nada maior ou menor que o outro ou de outra espécie, mas tudo inefável e igual; por essa razão está sabiamente escrito que Deus é admirável e muito digno de louvor.

Deus, pois, enviou seu Verbo à Virgem Maria por meio de seu anjo Gabriel; mas, no entanto, o mesmo Deus que enviava e era enviado com o anjo, estava em Gabriel e na Virgem antes da missão de Gabriel. Mas, assim que o anjo proferiu aquelas palavras, o Verbo assumiu a carne da Virgem. Esse Verbo sou eu, que estou falando contigo. O Pai enviou-me ao seio da Virgem, mas não de tal forma que os anjos ficassem privados da visão e da presença da minha divindade, mas sim que eu, o Filho, que com o Pai e com o Espírito Santo estive no ventre virginal, era o mesmo no céu com o Pai e com o Espírito Santo na presença dos anjos, governando e mantendo tudo, embora a minha humanidade, assumida apenas por mim, repousasse no ventre de Maria.

Eu, que sou um único Deus, não me desdenho de falar contigo para encontrar o meu amor e para fortalecer a santa fé cristã. E mesmo que te pareça que a minha humanidade está junto a ti e fala contigo, mais certo é que a tua alma e a tua inteligência estão comigo e em mim, pois nada me é impossível, nada me é difícil no céu nem na terra. Eu sou como um poderoso Rei que, quando chega à cidade com seu exército, tudo preenche e ocupa; da mesma forma, minha graça preenche e fortalece todos os teus membros. Estou em ti e fora de ti, e embora fale contigo, sou, no entanto, o mesmo na glória. O que me é difícil, a mim, que com meu poder sustento todas as coisas, com minha sabedoria disponho tudo e com minha virtude supero tudo? Eu, um único Deus com o Pai e com o Espírito Santo, sem princípio e sem fim, que pela salvação dos homens assumi a carne humana, permanecendo intacta a divindade, sofri verdadeiramente, ressuscitei e subi aos céus; agora, na verdade, estou falando contigo.

Eu sou o verdadeiro Imperador e Senhor. Não há senhor mais excelente do que eu, nem houve antes de mim, nem haverá depois de mim; mas todo domínio vem de mim e por mim. Eu sou, portanto, o verdadeiro Senhor, e ninguém deve chamar-se verdadeiro senhor, a não ser eu sozinho, porque de mim procede todo poder e domínio, e ninguém pode resistir ao meu poder.

(Das Profecias e Revelações de Santa Brígida)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

POEMAS PARA REZAR (LXIV)

 

LOUVOR DIANTE DA CRUZ

Nesta tarde, Cristo do Calvário,
vim implorar-te por minha alma aflita
e, refém de ver a minha sorte, só agora
meu olhar se volta para a cruz bendita.

Como reclamar dos meus pés cansados
Quando os teus são chagas retorcidas?
Como mostrar-te as minhas mãos vazias
Quando as tuas estão cheias de feridas?

Como explicar-te agora a minha solidão
Quando estás erguido e sozinho nesta cruz?
Como explicar-te quem andou nas trevas
de um coração que tinha tanta luz?

Agora já não me lembro de mais nada,
perdeu-se o lamento e toda mágoa ruim,
E o ímpeto da súplica que aflorava
Afogou-se por inteiro dentro de mim.

Peço então só não te pedir mais nada,
ficar aqui junto à tua imagem morta,
Aprendendo com a dor que a dor apenas
É a chave santa da tua santa porta!

(Original em espanhol, autor desconhecido, livre tradução do autor do blog)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

AS 10 APARIÇÕES DE JESUS RESSUSCITADO


E a eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus [At 1,3]

I. Aparição a Maria Madalena (Maria de Magdala)

Entretanto, Maria se conservava do lado de fora perto do sepulcro e chorava. Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: 'Mulher, por que choras?'. Ela respondeu: 'Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram'. Ditas essas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: 'Mulher, por que choras? Quem procuras?' Supondo ela que fosse o jardineiro, res­pondeu: 'Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar'. Disse-lhe Jesus: 'Maria!' Voltando-se ela, exclamou em hebraico: 'Rabôni!' (que quer dizer Mestre) [Jo 20,11-18].

Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios [Mc 16,9].
 
II.  Aparição a Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago), Joana e outras mulheres 

Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a ou­tra Maria [a mãe de Tiago conforme Mc 16,1, incluindo Joana em outras versões] foram ver o túmulo... Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: 'Salve!' Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés. Disse-lhes Jesus: 'Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia, pois é lá que eles me verão' [Mt 28,1.10].

Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa [LC 24,10].

III. Aparição a Pedro

Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam. Todos diziam: 'O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão' [Lc 24,34].

Ele foi visto por Pedro (Cefas) e depois pelos Doze [1Cor 15,5].

IV. Aparição a Cleofas e outro discípulo a caminho de Emaús

Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles... Então, se lhes abriram os olhos e o reconheceram... mas ele desapareceu [Lc 24,13-15.31]

V. Aparição aos onze discipulos exceto Tomé

Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas ele lhes disse: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho' [LC 24,36-39].

Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: 'A paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor [Jo 20,19-20].

VI. Aparição aos onze discípulos incluindo Tomé

Oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco!'... Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!' [Jo 20,26.29].

VII. Aparição a sete discípulos no Mar de Tiberíades

Depois disso, tornou Jesus a ma­nifestar-se aos seus discípulos junto ao lago de Tibería­des... Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos [Jo 21,1-2].

VIII. Aparição aos onze discípulos em uma montanha da Galileia

Os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando o viram, adoraram-no... 'Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo' [Mt 26,16-17.20].

IX. Aparição a Tiago

Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os apóstolos [1Cor 15,7].

X. Aparição aos onze discípulos em Betânia, na sua Ascensão ao Céu

Depois os levou (os onze discípulos) para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu [Lc 24,50-51].

'Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo'. Dizendo isso, elevou-se da (terra) à vista deles e uma nuvem o ocultou aos seus olhos [At 1,8-9].