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sábado, 24 de janeiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (77/80)

 

77. ASSIM TRATA DEUS A SEUS FILHOS

Um pio solitário dirigindo-se a Deus, a quem servia fielmente, dizia com ingênua franqueza: 'Senhor, vós me enganastes, chamando-me ao vosso serviço. Eu imaginava que só teria cruzes difíceis de suportar e dias de penitência e de pranto. Entretanto, experimento a mais doce consolação... Senhor, vós me enganastes, mas, ó feliz engano!'

78. ESTAR TRISTE NO CONVENTO?

São Francisco de Assis, quando abandonou o mundo e todos os bens que possuía por amor de Deus, embora se encontrasse quase desnudo, dizia cheio de gozo: 'Meu Deus e meu tudo' - como se dissesse: 'Tenho Deus, tenho tudo!' Mais tarde, notando que um dos seus frades andava tristonho, disse-lhe: 'Que é que tens, irmão, que estás triste? Cometeste algum pecado? Não sabes que só a culpa nos deve entristecer? Vai rezar: só aos pés de Jesus se deve gemer e pedir perdão; diante de mim e dos outros confrades não se deve fazer isso'.

São Francisco de Borja, também depois de retirar-se da corte e dar-se inteiramente a Deus, sentia consolação e felicidade, que passava noites inteiras sem poder dormir. São Filipe Néri, que também não conseguía conciliar o sono em vista do grande prazer que sentia no serviço de Nosso Senhor, dizia: 'Por favor, meu Jesus, deixai-me dormir!'

De São Francisco Xavier sabe-se que, em suas excursões apostólicas através das Índias, descobria o peito e exclamava: 'Basta, Senhor! Basta de consolações, pois o meu coração não é capaz de contê-las'. Bem dizia Santa Teresa que mais vale uma só gota dessa paz, que só Deus pode dar, do que todos os prazeres, riquezas e glórias do mundo.

São Romualdo, penitente austeríssimo, que, entretanto, viveu 120 anos, mostrava sempre o rosto tão alegre e sereno que causava alegria a todos que olhavam para ele.

79. ESCADA DE OURO PARA O CÉU

Santa Perpétua estava no cárcere, em Cartago. Após vários dias de atrozes sofrimentos, disse-lhe um irmão seu que rezasse para que Nosso Senhor lhe revelasse se teria de sofrer o martírio ou se seria libertada. A santa recolheu-se em oração e teve uma visão que ela mesma conta.

➖ Vi - disse ela - uma escada de ouro, de altura prodigiosa, que ia da terra ao céu, mas tão estreita que só uma pessoa de cada vez podia subir; os dois lados da escada eram flanqueados por espadas cortantes, lanças, foices, punhais, facões, de sorte que, se alguém subisse distraidamente e sem ter os olhos fitos para o alto, não escaparia de ser dilacerado por aquelas armas e deixaria ali pedaços de carne. Aos pés da escada achava-se um dragão, que estava pronto a lançar-se contra todo aquele que se aproximasse para subir.

A terrível visão verificou-se no cruel martírio que a mesma santa teve de suportar; mas algo semelhante sucede a todo cristão, pois que ninguém chega ao céu senão através de provas e tentações duríssimas.

80. A CULPA É DELES...

Lê-se na história de Santo Antão que, um dia, o demônio se apresentou a ele visivelmente. Estava tão furioso que parecia querer acabar com todo o gênero humano.

O santo, que não temia ataques do diabo, perguntou-lhe o que significava aquilo.
➖ Ah! - respondeu o maligno -não vês que, em toda parte, sou alvo de desprezo e de maldição?
➖Ah! entendo; mas, também, não há mal algum que não mereças, pois tu só procuras arrastar os homens à perdição, e fazer muito mal a todos.
➖ Se lhes faço mal - respondeu o diabo - é culpa deles; faço mal somente aqueles que o consentem e sou impotente contra os que me resistem. Se posso algo contra os homens, é porque eles dão ouvidos às minhas sugestões e aceitam espontaneamente os meus embustes.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (73/76)


73. CONVERSÃO DE UMA COMUNISTA

A senhorita Leer, israelita ateia de 22 anos de idade, admiradora de Liebknecht e de Rosa Luxemburgo, tomou parte na revolução de Munique com um ardor incrível. Editava um jornal e percorria cidades e vilas, fazendo propaganda revolucionária.

Após a vitória das autoridades legais, Leer foi presa e condenada à morte. Durante a noite que precedeu a sua execução, tendo-se por irremediavelmente perdida, caiu de joelhos e exclamou: 'Se há de fato um Ser supremo e se vós existis, ó meu Deus, ajudai-me, salvai-me e eu crerei em vós'.

Com efeito, na manhã seguinte conseguiu evadir-se; com o auxílio de um frade, pode transpor a fronteira e, na Holanda, na Casa das Irmãs das Santas Marta e Maria encontrou um asilo seguro. Durante um ano inteiro passou ali no mais completo retiro sob a direção do Pe. Gianeken, fundador, daquele Instituto, o qual a instruiu na fé católica. Após um ano de noviciado, foi admitida naquela congregação que tem por fim cooperar, por orações e obras de caridade, na conversão dos protestantes holandeses.

74. QUERO MORRER PELA FÉ

Houve no século passado uma furiosa perseguição contra os católicos armênios. Entre as numerosas vítimas estava um menino de doze anos apenas.

Os muçulmanos queriam forçá-lo a renegar a Jesus Cristo, mas ele resistiu corajosamente. Os carrascos ameaçaram cortar-lhe a mão; e ele estendeu a mão, dizendo:
➖ Ei-la, cortai-a!
Os bandidos cortaram-na, esperando que a dor e a vista do sangue atemorizariam o menino, obrigando-o a apostatar. 

Fizeram-lhe em seguida um curativo e disseram: 
➖ Se não queres perder a outra mão, aceita a nossa religião'. 
➖Nunca - respondeu o herói. 
Um golpe de sabre e a outra mão estava decepada. Fazem-lhe novo curativo e convidam-no a apostatar. 

A coragem do menino cristão não arrefece. Os carrascos, mais enfurecidos, dizem-lhe que, agora, será a vez de sua cabeça. O menino prontamente inclina a cabeça e diz: 
➖ Cortai-me a cabeça! Como cristão vivi, como cristão quero morrer!
A espada reluziu no ar e a cabeça da inocente vítima rolou pelo chão, enquanto sua bela alma voava triunfante para o céu. Como é belo morrer pela fé!

75. O DIVINO ENCANTADOR

Santa Maria Madalena de Pazzi, quando adolescente, sentia um grande desejo de ver a Jesus. Eis que um dia, durante um êxtase, teve essa felicidade. 

Ela mesma diz: 'Eis o meu Esposo, que antes me aparecia tão pequenino e agora o vejo na idade de doze anos com um semblante tão belo e admirável, resplandecente de serena gravidade. Este amável menino traz na sua mão direita um livro no qual quer que eu estude no tempo de trevas espirituais; e na esquerda, tem uma harpa, na qual começará a tocar, quando lhe aprouver, e cantará alguma canção de amor, a qual não faltarão nem palavras, nem conceitos. Ó quão suave melodia de sons e cânticos! Ó meu Deus, quanto sois suave e amoroso para os que vos amam!'

76. COMO SABIAM ENTRETER-SE COM DEUS!

Os santos encontravam no trato com Deus todas as suas delicias. São Caetano empregava no exercício da oração oito horas por dia; Santa Margarida, rainha da Escócia, e Santo Estêvão, rei da Hungria, quase toda a noite; Santa Francisca Romana, todo o tempo que lhe sobrava de suas ocupações ordinárias; Santa Rosa de Lima empregava na oração doze horas por dia.

São Luis Gonzaga começou a entregar-se à oração desde a mais tenra idade e nunca deixava de orar duas a três horas por dia. Quando estava na corte, para não ser interrompido pelos companheiros, ia esconder-se no lenheiro para orar. Santa Maria Madalena de Pazzi, com nove anos apenas, fazia primeiro uma hora de oração, depois duas, quatro e até noites inteiras, enquanto vivia no mundo; depois que entrou no convento, dedicava à oração todo o tempo livre concedido às religiosas.

São João Berchmans, aos onze anos, empregava no trato com Deus todo o tempo que lhe sobrava dos estudos. Qualquer canto da casa servia-lhe de oratório, e várias vezes o surpreenderam, depois da meia-noite, orando de joelhos no chão nu.

Verdadeiramente maravilhosos estes santos! Como sabiam aproveitar a graça da oração!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 27 de dezembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (69/72)

 

69. AS MULHERES DE VINSPERG

O fato é histórico. Conrado III sitiava a praça de Vinsperg, defendida por Guelfo, duque da Baviera. O cerco era tão apertado que, dentro da cidade, os habitantes passavam fome. Não havia outro recurso: ou render-se ou sucumbir.

Uma tarde, abre-se uma porta da fortaleza e, precedida de uma bandeira branca, surge uma procissão melancólica que se dirige ao campo inimigo. São as mulheres de Vinsperg, desgrenhadas, pálidas, que querem parlamentar com o Imperador. Reunidas em sua presença, falou uma em nome das outras:
➖ Senhor, a guerra não deve cevar seres indefesos, como nós mulheres; os homens é que lutaram; perdoai as mulheres e permiti, que elas se retirem da fortaleza.
➖Concedido - respondeu o Imperador - amanhã, ao sair o sol, abandonareis a cidade!
➖ Já que sois tão bom, pedimos a Vossa Majestade mais uma graça: como lembrança de nossa cidade, deixai-nos levar cada uma o que mais ame de tudo que tem no seu lar.
➖ Concedido - disse Conrado - cada mulher pode levar o que mais amar e estimar.

Na manhã seguinte, as forças sitiantes formaram-se em duas filas. Soaram os clarins. Conrado quer render homenagem às mulheres que vão retirar-se da fortaleza. Fez-se um silêncio solene. Abriram-se as portas e apareceram as mulheres. O imperador ficou atônito diante daquele espetáculo: viu cada uma das mulheres levando às costas o próprio marido...

Os soldados prestam continência. O Imperador se admira diante daquela prova de amor conjugal. Homens e mulheres são perdoados e admitidos novamente às boas graças do Imperador. Parece que, também hoje em dia, muitos maridos só se salvarão pelas orações e sacrifícios de suas virtuosas esposas...

70. O CASTIGO NÃO TARDOU

Durante o domínio comunista na província de Badajoz (Espanha), deu-se em Navalvillar de Pela um caso triste e revoltante, que não ficou sem castigo.

Um dos milicianos vermelhos, atirando um laço à cabeça do Cristo da Caridade e derrubando a sagrada imagem, saiu arrastando-a pelas ruas. Não contente, arrancou-lhe os olhos com ferocidade. Passados poucos dias, estando ele de guarda, sentiu que lhe fugia a vista e gritou por socorro. Quando chegaram os milicianos, que bem o conheciam, nada mais puderam fazer: o mutilador de imagens sagradas ficara completamente cego.

71. NÃO LHE SOBRARA TEMPO

Na famosa batalha de Watemberg, em que o Eleitor da Saxônia perdeu a liberdade e o nome usurpado de imperador, o combate prolongou-se por nove horas. Dizia-se que o sol havia parado, como nos tempos de Josué, sobre o campo de batalha.

O rei da França perguntou mais tarde ao Duque de Alba, que fora general do exército imperial, se era verdade o que diziam da parada do sol. O Duque então respondeu: 
➖ Majestade, naquele dia eu tive tanto que fazer na terra que não me sobrou tempo para olhar para o céu.

Quantos homens poderiam dizer a mesma coisa, embora com menos glória do que o grande general de Carlos V! Sim, a quantos homens a preocupação das coisas da terra não lhes deixa um minuto para pensar no céu! É triste, mas é um fato.

72. PEDRAS DE MÁRMORE

Conta-se que em Gênova, a soberba cidade dos ricos e famosos cemitérios, vivia uma velha vendedora de frutas, cujo maior desejo e máxima aspiração era ter, depois da morte, um formoso mausoléu. Para esse fim passava a vida ajuntando centavo por centavo, economizando, impondo-se inúmeras privações e vivendo miseravelmente.

Ajuntara, finalmente, a soma necessária e, após a morte, teve realmente a sua pedra de mármore, o seu ambicionado e rico mausoléu. Que tristeza! O fruto de todo aquele trabalho, de toda aquela vida não ia além de uma pedra para a sepultura! Que vaidade louca!

E, todavia, a maior parte dos ricos e mormente dos avarentos não são ainda mais néscios? Não vivem trabalhando, lutando e economizando para que outros, depois de sua morte, gozem de suas economias e desfrutem das suas riquezas? E eles com que se contentam? Com algumas lajes de pedras, a que pomposamente se dá o nome de mausoléu!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 13 de dezembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (65/68)

 

65. A DOR ABATE O ORGULHO

Já vistes um touro no curral? Altivo, bravio, dominador, conserva a cabeça erguida como se desafiasse o céu e a terra. Quem será capaz de sujeitá-lo? Como soberano, move impaciente de um lado para o outro a formidável arma de seus chifres afilados e reluzentes.

Mas, de repente, silva no ar um laço forte que se lhe enrosca na cabeça como uma serpente. O laço puxa-o fortemente e ele, relutando embora, tem de chegar a estaca fincada no chão e da qual pende a argola do sacrifício. O touro resiste, esperneia, ruge, mas afinal tem que ceder e baixar a cabeça, apresentando a nuca ao punhal do sangrador...

Há também homens que, na prosperidade, levantam orgulhosos a cabeça e parecem desafiar ao próprio Deus. Entretanto, um belo dia, silva o laço da dor, prende-os a argola do sacrifício e, então, não há remédio, curvam a cabeça e oferecem a cerviz ao punhal do sacrificador.

66. NA BALANÇA DA CARIDADE

Uma vez, uma pobre viúva, desfeita num mar de lágrimas, pediu a um pio sacerdote que lhe desse cem escudos para fazer casar uma filha cuja honestidade corria perigo. Afligiu-se muito o santo por não possuir aquela quantia; mas, lembrando-se de um rico negociante, seu amigo, tomou uma tirazinha de papel e nela escreveu estas palavras: 'Meu caro senhor, pelas entranhas da misericórdia de Deus, peço a V. Sa. que dê a essa pobre senhora, para uma grave necessidade que padece, tantas moedas quanto pese este papel'.

Leu o negociante o bilhete e pensou consigo: 'Se não preciso dar mais moedas do que pesa este papel, com bem poucas socorrerei a pobre'. Mas, como conhecia a santidade de seu amigo, pôs o papel no prato da balança, que, imediatamente, caiu até em baixo. Começou a por moedas no outro prato: uma, duas, cinco... e o prato com o papel não subia. Foi pondo mais e mais até que, inteirando cem escudos, a balança ficou no fiel. A viúva foi socorrida e espalhou por toda a parte a fama do prodígio.

Por aí se vê quanto pesa na balança de Deus tudo que se faz em favor dos pobres.

67. QUANTO PODE A VIRTUDE

A alma que se entrega toda a Deus e ao serviço divino não conhece fraqueza, antes é capaz das ações mais heroicas. Eis um exemplo recente. No meio dos horrores da passada guerra mundial, alguns fugitivos armênios chegaram a Roma para visitar o Papa. O chefe deles, o venerando bispo de Trapezunda, narrou ao Vigário de Cristo uma cena horrível, porém heroica.

Tropas árabes e turcas - disse ele - reuniram, nas proximidades de Erzerum, na Ásia Menor, todas as donzelas e senhoras de uma aldeia e conduziram-nas ao pequeno planalto de Kemakh. A meseta (planalto) termina num abrupto precipício e no fundo do abismo veem-se pedras enormes que o ímpeto das águas arrasta do alto da montanha. Aí chegadas, disseram os turcos às pobres prisioneiras:
➖ Agora escolhei: ou ides voluntariamente para os nossos haréns ou sereis arrojadas ao fundo deste precipício.

Lá embaixo, no abismo, bramiam as águas furiosamente. Que fazer naquela conjuntura? De repente, adianta-se uma das mais jovens prisioneiras, uma donzela de porte distinto. Em seus olhos arde o fogo da decisão tomada. Diante de sua alma brilha a visão divina de Cristo. Com voz firme e clara pronuncia as palavras: 'Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo' e, fazendo ao mesmo tempo o sinal da Cruz, atira-se corajosamente ao abismo.

Foi como uma voz de comando. Quando os ferozes turcos, que se tinham afastado, aproximaram-se da meseta, não encontraram ali nenhuma mulher. Todas se tinham lançado ao abismo, preferindo perder a vida, a perder a honra e o céu.

68. AS CONVERSAS LEVIANAS

São Edmundo, que mais tarde foi arcebispo de Cantuária (Inglaterra), evitava cautelosamente a companhia de jovens levianos. Estando, de uma feita, com alguns companheiros, cujas conversas iam tomando um rumo perigoso, afastou-se deles no mesmo instante. Quando ia caminhando, eis que se encontra com um jovem de formosura encantadora, em cuja fronte se lia em letras de um brilho incomparável o nome de Jesus. Disse-lhe a visão: 'Pois que te apartaste daqueles, venho eu fazer-te companhia'.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 29 de novembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (61/64)

 

61. FILHOS PREFERIDOS

Os pais não deveriam esquecer-se desta regra de ouro: tratar todos os filhos por igual, sem distinções que denotem predileção ou antipatia. O seguinte exemplo é da Sagrada Escritura.

Jacó tinha doze filhos. O pai amava aos filhos, os filhos ao pai, e os irmãos amavam-se mutuamente. Mas José foi crescendo, e Jacó 'amava mais a José que a todos os outros filhos, porque era o filho de sua velhice'. A essa altura muda-se a cena. A paz converteu-se em discórdia, o amor em ódio, a fraternidade em inveja, o sangue em vingança. Faltou a paz na família, porque faltou a igualdade no pai. A igualdade fomentava o amor; a desigualdade de trato motivou a discórdia.

Em que consistia aquela desigualdade e qual a diferença de tratamento? Que é que fez Jacó? Porventura deserdou aos outros para que José fosse o único herdeiro? Nada disso! Porventura tratava aos demais como escravos e só a José como filho? Nada disso! Pois, então, que foi que perturbou aquela paz bendita? Somente isto: Jacó fizera para José uma túnica de cores mais lindas do que para os outros filhos. Esse foi o principio da discórdia.

Notai bem: Não despiu aos outros para vestir a José. A todos provia, a todos vestia. Mas a túnica de José, por suas variegadas cores, era mais vistosa, e isso bastou. Surgiu a discórdia ou, melhor, a inveja, e um dia aquela túnica se viu manchada de sangue. José estaria morto pelas mãos de seus próprios irmãos, se a Providência divina não tivesse disposto de outro modo.

62. A VAIDADE FEMININA

Santa Rosália, em seus verdes anos, passava diariamente muito tempo, horas a fio, diante do espelho a enfeitar-se. Um dia, vendo refletir-se no espelho um Crucifixo que estava suspenso na parede oposta, pôs-se a pensar no contraste entre as suas vaidades e as humilhações do Salvador, entre o seu corpo amimado e o de Jesus dilacerado pelos açoites e espinhos... 

Movida pela graça, deixou Rosália as vaidades e vãos adornos e, daí em diante, levou urna vida de abnegação e sacrifício, chegando a uma grande santidade.

63. O CURA D’ARS E AS AVES

São João Batista Vianney, o santo cura de Ars, ouvindo uma ocasião o lindo gorjeio dos pássaros, ergueu os olhos aos céus e exclamou suspirando:
➖ Pobres avezinhas! Fostes criadas para cantar, e cantais! O homem, que foi criado para amar a Deus, não o ama! Quanta dor!

64. AJOELHAR-SE COM OS DOIS JOELHOS

Há muitos homens que, durante os atos religiosos, não se ajoelham ou ajoelham-se com um só joelho. Estão bastante errados. Dizia Santo Agostinho que ajoelhar-se diante de Deus com os dois joelhos é confessar com um a nossa fraqueza para que nos perdoe as nossas quedas; e, com o outro, a nossa necessidade para que nos estenda a mão e nos levante.

São Jerônimo diz que, com um joelho, dobramos nosso entendimento que o reconhece por Deus, e com o outro a nossa vontade que amorosamente o abraça. Santo Ambrósio dizia que, com um, reconhecemos o nosso ser miserável e, com o outro, adoramos seu ser eterno.

Dobrar um só joelho - dizia Durando - é zombar da Divindade, escarnecer do Redentor e imitar os algozes que assim o adoravam por escárnio. Significa - dizia Reynaude - que manca é a nossa piedade e manca é a nossa religião e, por isso, estamos em perigo de cair por terra. Dobremos ambos os joelhos, mormente na igreja, pois assim devemos adorar a um Senhor que, por sua grandeza e seu amor para conosco, merece a adoração de todo o nosso ser.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (57/60)

 

57. RECOMPENSA DA CARIDADE

Aquele jovem era muito virtuoso e sobretudo muito caridoso. Cheio de ilusões, andava a lutar com o pensamento de fazer-se religioso, o que o obrigaria a renunciar as riquezas e gozos do mundo. Parece que lhe faleciam as forças para tamanho sacrifício.

Uma noite, estando de caminho à igreja, chega-se a ele um pobre e pede-lhe uma esmola por amor de Deus. O jovem instintivamente mete a mão no bolso. Está vazio. Saíra de casa sem uma moeda sequer. Mas não hesita. Sem perda de tempo desata um cinturão de seda bordado de filigranas de prata, e entrega-o ao pobre. Este agradece o rico presente e continua o seu caminho. 

Chegando à igreja de Nossa Senhora, vai o jovem orar na Capela das Almas e qual não é o seu espanto ao ver o Cristo na cruz cingido com aquele cinturão de seda e filigranas de prata e sorrindo para ele! Desde aquele instante dissiparam-se-lhe as dúvidas sobre a vocação. Sai da igreja e vai seguro bater ao convento dos dominicanos, onde viveu tão santamente que mereceu o título de Beato Jordão de Saxônia.

Tudo que derdes ao pobre recebe-o Jesus Cristo. O Coração divino é medianeiro de vossas moedas. Elas serão o preço com que um dia comprareis o céu.

58. SIGAMOS A LUZ DA FÉ

Hoje vou contar-vos um caso maravilhoso. São Severino, apóstolo da Noruega, pregava a fé cristã entre aqueles povos idólatras. Poucos se convertiam.

Um dia, então, para confirmar a uns e converter a outros, convidou a todos, cristãos e idólatras, para uma assembleia na igreja. Cada um devia trazer uma vela. Quando os viu todos reunidos, com suas velas apagadas nas mãos, o santo bispo ajoelhou-se diante do altar e rezou em voz alta: 'Senhor e Deus verdadeiro, dignai-vos manifestar a estes fieis a luz do vosso conhecimento e fazei-lhes compreender como os que vos conhecem se diferenciam dos que nunca vos conheceram'. Ao terminar a oração, e no mesmo instante, acenderam-se por si mesmas as velas dos cristãos, continuando apagadas as dos idólatras. Esse prodígio converteu à fé cristã aquele povo.

E o prodígio renova-se diariamente. Os incrédulos, os hereges, os inimigos da Igreja passam por este mundo com suas velas apagadas. Demos graças a Deus pela luz da fé e sigamos o caminho que ela nos mostra.

59. O CRISTÃO PRECISA LUTAR

Cipião, o grande general romano, ganhara uma batalha. Descansava do fragor da luta à sombra de uma árvore no campo. Seus soldados rodeiam-no com veneração e carinho. Um deles mostra-lhe com orgulho seu escudo:
➖ Vede - disse ele - esta obra de arte em que o cinzel esculpiu figuras maravilhosas, sendo ao mesmo tempo tão forte que contra ele se partem, como frágeis canas, os dardos dos inimigos.
➖ Muito bonito e muito forte - comentou Cipião - porém, o soldado romano não há de por sua confiança só no escudo, mas principalmente em sua espada.

Grande verdade! Assim deve proceder, também, o soldado de Cristo. O cristão faz bem em defender-se com o escudo da confiança em Deus, mas empunhando sempre a espada da luta. Confiar e lutar! É o único meio de sair vitorioso.

60. O SANTO, A MONJA E AS RÃS

São João da Cruz, grande diretor de almas, estava a discorrer com certa freira sobre assuntos espirituais.
Aquela era urna monjinha leiga, humilde e simples, como se vê pela pergunta infantil que fez ao santo.
➖ Por que será, senhor padre que, quando eu passo perto do poço d’água da horta, as rãs que estão à beira mergulham depressa no poço?

O santo sorriu ao ouvir aquela pergunta tao ingênua e aproveitou a ocasião para dar à monjinha uma lição proveitosa.
➖ Olha, minha filha, as rãs mergulham no poço porque ali buscam sua defesa e segurança; ali não temem os inimigos. Tu podes aprender delas esta lição: quando vires que se aproxima uma criatura que pode te fazer mal, mergulha depressa em Deus e estarás segura e tranquila, pois ninguém poderá então fazer-te qualquer dano.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (51/56)


51. O QUE PODE O AMOR À FÉ CRISTÃ (I)

Em Damasco, na Síria, durante a perseguição religiosa de 1860, disseram os turcos a um menino cristão de catorze anos:
➖ Ou você se faz muçulmano, ou lhe cortamos a cabeça!
➖ Cortem-me a cabeça, se quiserem - respondeu o menino - mas eu sou e serei sempre cristão.
No mesmo instante aqueles bárbaros cumpriram a ameaça e a Igreja contou com mais um mártir.

52. O QUE PODE O AMOR À FÉ CRISTÃ (II)

Venâncio, rapaz de quinze anos, foi denunciado como cristão a Antíoco, governador da cidade de Camerino. Confessou a sua fé sem fazer caso de promessas nem de ameaças. O governador mandou açoitá-lo e depois metê-lo no cárcere. Para ali mandou um homem enganador e astuto, chamado Átalo, o qual disse que também fôra cristão, mas abandonara a fé por ver que era uma loucura privar-se dos bens presentes por uma esperança vã de futuros e deixar o que se possui pelo que nunca há de chegar. Repeliu-o Venâncio e desfez seus embustes.

Foi então o santo atirado aos leões que não lhe fizeram mal algum. Sofreu inauditos tormentos. Cansavam-se os verdugos de atormentá-lo, e ele não se cansava de padecer por Jesus Cristo. Por fim foi decapitado e entrou glorioso no céu. Sua festa celebra-se em toda a Igreja no dia 18 de maio.

53. O QUE PODE O AMOR À FÉ CRISTÃ (III)

Ao conde José Mlodeki, durante a feroz perseguição iniciada em 1863 pelo governo russo contra os católicos poloneses, despojaram-no de todos os bens, e logo lhe prometeram devolvê-los caso renunciasse á fé católica. Seus bens estavam avaliados em grande fortuna.
➖ À minha fé não se põe preço - respondeu altivamente - fiquem vocês com a minha fortuna; fico eu com a minha fé.

54. O QUE PODE O AMOR À FÉ CRISTÃ (IV)

São Francisco Solano, aos trinta anos de idade, foi um dia visitar Montilla, cidade que o vira nascer. Sua primeira visita foi à igreja paroquial de São Tiago. Ali, dirigindo-se a pia batismal, onde se tornara cristão, ajoelhou-se e rezou o Credo com a fronte apoiada sobre a pedra da pia.

55. O QUE PODE O AMOR À FÉ CRISTÃ (V)

João Henrique Fabre, um dos mais eminentes entomólogos, chamado o Homero dos insetos, dizia: 'Não posso afirmar que creio em Deus, porque eu o vejo. Sem Ele nada compreendo, sem Ele tudo são trevas. Antes me arrancarão a vida que a fé em Deus'.
E Newton inclinava a cabeça toda vez que os seus lábios proferiam o santo nome de Deus.

56. O QUE PODE O AMOR À FÉ CRISTÃ (VI)

Achando-se Schopenhauer, aquele grande renegado, em seu leito de agonia, ouviram-no exclamar: 'Meu Deus! meu Deus!'
Ao que o seu médico lhe perguntou:
➖ O que é isso? Em tua filosofia também há Deus?
➖ Ah! - respondeu o filósofo - nos sofrimentos, a filosofia sem Deus é insuficiente!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (47/50)


47. SANTO ANTONIO DE PÁDUA E A CRUZ

Santo Antônio de Pádua, ainda menino, servia de acólito na igreja da Sé, em Lisboa. Um dia, estando no coro, apareceu-lhe o diabo em forma horrível. Ó menino, sem se amedrontar, fez devotamente o sinal da cruz na grade. O diabo fugiu no mesmo instante. A cruz ficou impressa no mármore, como se este fôra de cera.

48. MORREU COM OS BRAÇOS EM CRUZ

Em 1937, na perseguição comunista, uma distinta senhora de Málaga (Espanha) foi presa pelos vermelhos. Sabendo que ia morrer, entregou a uma companheira uns objetos de ouro que levava consigo escondidos, e disse-lhe: 'Isto é para o Exército espanhol'. 

Depois, despedindo-se, pediu a todos que lhe perdoassem suas culpas e subiu ao caminhão com outras sete senhoras, das quais três eram freiras. No momento de ser fuzilada, ajoelhou-se e, segurando com ambas as mãos o Crucifixo, gritou: 'Viva Cristo-Rei! Viva a Espanha!'

Os vermelhos arrancaram-lhe das mãos à viva força o Crucifixo e o atiraram com raiva ao chão. No momento, porém, da descarga, aquela santa senhora abriu os braços em cruz, a fim de morrer como o Redentor.

49. COMO MORRE UM AVARENTO

Em Paris, estava um velho avarento estendido em seu leito de agonia. Trabalhara sem cessar durante toda a vida, não só nos dias úteis mas também nos domingos e festas de preceito, e isso para amontoar riquezas e mais riquezas. A sua divisa parece ter sido esta: 'Ouro, por ti eu vivo; por ti eu morro!'

Como estava prestes a expirar, pediu que lhe colocassem nas mãos muitas moedas de ouro. Fizeram-lhe a vontade e, assim, expirou. As moedas rolaram pelo chão. Estava morto, afinal, o gozo do ouro... Em nós, deve morrer o pecado. É palavra de São Paulo: 'Nós, cristão, devemos estar mortos para o pecado'.

50. COMO PREGAVA SÃO VICENTE

São Vicente Ferrer percorria as casas em seu ardente apostolado por cidades e vilas. Quando sua voz cheia de santa unção ameaçava castigos ou prometia prêmios eternos, os ouvintes rompiam em soluços e de seus olhos brotavam lágrimas de arrependimento. Ninguém resistia à sua palavra de fogo. 

Uma vez teve de pregar diante de um senhor de muitas posses numa festa solene e aparatosa. São Vicente esqueceu-se naquele dia de beber em suas fontes costumeiras e consultou autores, folheou livros eruditos e preparou períodos eloquentes. O sermão saiu de seus lábios perfeito, magnífico.

Aquele grande senhor quis ouvi-lo de novo no dia seguinte. O santo, arrependido de sua vaidade da véspera, foi prostrar-se, como era seu costume, aos pés do Crucifixo, e preparou-se na meditação e na presença de Deus. Subiu ao púlpito e pregou. Sua palavra foi como sempre cheia de calor e de unção. 

Terminado o sermão, disse-lhe aquele senhor de muitas posses :
➖ Hoje gostei mais do seu sermão; o senhor falou com outra convicção e com outro ardor...
➖ Senhor - replicou humildemente o santo - ontem pregou Vicente, hoje pregou Jesus Cristo! Sapienti sat...

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 4 de outubro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (43/46)

 

43. UMA VERDADEIRA EDUCADORA

Aos 20 de março de 1869 morria no Tirol (Austria) uma educadora por nome Joana da Cruz. Depois que ela deu o último suspiro, todos diziam: 'Morreu uma santa! Sim, morreu uma santa!'

Os que haviam frequentado a sua escola gostavam de contar a impressão que sentiam cada vez que a viam entrar na classe. 'Parecia-nos - diziam - que era Jesus que entrava. Falava como Jesus. Comportava-se como Jesus. De seus olhos e de todo o seu ser resplandecia a imagem de Jesus'. Aquela santa educadora revestira-se realmente de Jesus Cristo.

44. A TENTAÇÃO E O SINAL DA CRUZ

Santa Margarida, mártir, era uma donzela de rara beleza. Aos dezesseis anos de idade, dirigiu-se a seu pai, que era pagão, e disse-lhe: 
➖ Meu pai, quero confiar-lhe um segredo. O senhor é sacerdote dos ídolos; eu, porém, sou batizada e creio em Jesus Cristo.

Imediatamente apoderou-se daquele homem um furor selvagem. Atirou-se sobre a filha, como uma fera e logo mandou enviá-la ao cárcere. Na prisão apareceu-lhe o demônio, murmurando-lhe ao ouvido: 'Ora, vamos, não seja tola. Você é jovem e bela. Aí bem perto a espera um noivo pagão, rico e nobre; com ele você viverá dias felizes. Abandone a Jesus'.

Quereis saber o que fez Margarida nessa terrível tentação, nesse perigo iminente de perder a sua alma? Devotamente fez o sinal da cruz e, no mesmo instante, o demônio desapareceu. Aproximou-se dela o Anjo da Guarda e a consolou. Passados alguns dias foi Margarida conduzida ao lugar do martírio. 

Diante daquela juventude radiante, daquela formosura encantadora, o algoz ficou comovido e a espada vacilou em sua mão. Iria ele desistir de dar o golpe? Iria ela perder, a palma do martírio? Margarida fez o sinal da cruz e disse: 'Dê o golpe, irmão; a cruz é minha força!'
Inclinou a cabeça e colheu a palma do martírio. A cruz deu-lhe a Vitória.

45. POR QUE A MORTIFICAÇÃO?

São Nilo, antes de sua conversão, pecara contra a santa pureza. Converteu-se. E desde a sua conversão jamais comeu carne, jamais bebeu vinho ou outra bebida alcoólica. Comia somente legumes e frutas, bebia somente água. Renunciou, igualmente, ao seu leito macio e dormia sobre tábuas. A sua penitência, a sua mortificação foi sincera, foi perseverante; nunca mais recaiu nas antigas faltas.

Dizem os mestres espirituais que o uso de muita carne torna o homem sensual e propenso ao pecado; o vinho por sua vez, e em geral as bebidas alcoólicas, são a causa de graves tentações impuras.

46. O PODER DA CRUZ

O caso que vou contar é engraçado, mas dá-nos uma preciosa lição sobre o poder da santa cruz. Tinham os monges de certo convento o sagrado dever de descer todos os dias à igreja e, ali, sentando-se o Abade em sua grande cadeira de superior, e eles nos bancos do presbitério, cantavam os louvores de Deus.

Sucedeu que, um dia, o santo Abade Leufrido se achava adoentado em seu pobre leito e não pode descer para presidir ao oficio em sua igreja. O demônio, que vive rodeando também os santos e servos de Deus, achou que era chegada a ocasião de todos os monges lhe prestarem reverência. Tomou, pois, o hábito e a figura do Abade, desceu com os outros ao presbitério e sentou-se depressa na grande cadeira com ar de importância. Todos os monges fizeram-lhe reverência; mas um deles, chegando atrasado por vir da cela do Abade, viu com espanto outro Leufrido ali sentado.

Voltando imediatamente à cela do superior, disse alvoroçado:
➖ Dom Abade, que é isso? Estais ao mesmo tempo em dois lugares? Acabo de encontrar-vos sentado no presbítero, e estais aqui... o que é isso?
Caiu o Abade na conta do diabólico estratagema e, sentindo-se com forças bastante, foi depressa à igreja; mas, antes de entrar, no presbitério, traçou o sinal da cruz em todas as portas e janelas. Entrou, depois, no presbitério e, armado de um bom chicote molhado em água benta, começou a açoitar o fingido Abade.

O demônio fugiu espavorido e Leufrido 0 seguiu. O demônio queria passar por uma porta e, embora estivesse aberta, voltou correndo; aproximou-se de uma janela, e não conseguiu passar, porque em toda parte encontrava pela frente o sinal da cruz. O Abade surrou o demônio a valer; os monges riam-se a bandeiras despregadas; e o diabo escapou, afinal, por uma chaminé! É que o santo se esquecera de fazer ali o sinal sagrado...

Leufrido tomou, então, a palavra e explicou aos religiosos que Deus permitira aquela cena para que eles conhecessem o poder da Cruz e, nas tentações, não deixassem de benzer-se com o sinal sagrado, que o demônio tanto teme e detesta.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (39/42)

 

39. COMO FAZ BEM A HUMILHAÇÃO

Bem poucos conhecem, mesmo de nome, São Telmo. Chamava-se, antes, Pedro González. Era muito moço, mas seu tio, o bispo de Palência, o fez cônego daquela catedral. Era o jovem cônego muito vaidoso e gostava demais das honras e dignidades. Sua vida contrastava com a de seus colegas que andavam escandalizados com a sua conduta. 

Apesar disso, seu tio conseguiu que ele fosse eleito deão do cabido. A posse foi marcada para o dia de Natal. Chegado o dia, González vestiu um elegante traje cortesão e, montando um ginete magnificamente adornado, atravessou as ruas da cidade, com grande escândalo para o povo. Entretanto Deus, em seus insondáveis desígnios, queria servir-se da vaidade de González para impor-lhe uma profunda humilhação. Queria por esse meio levá-lo a melhores sentimentos, fazendo-o sentir quão frívolas e efêmeras são as honras deste mundo.

Chegando à grande praça de Palência, quis fazer seu cavalo corcovear graciosamente, a fim de provocar admiração do público e arrancar-lhe aplausos. Largou o cavalo a toda brida mas, no meio da carreira, o animal empacou de repente, deu um pinote e lançou o cavaleiro no meio da lama. A multidão acolheu a queda com uma estrondosa gargalhada. A vaia foi tremenda. O vaidoso deão, coberto de lama até aos olhos, não ousava levantar-se do chão. Muito salutar foi, todavia, tamanha confusão. Erguendo os olhos ao céu, exclamou: 'Como este mundo, a quem eu desejava agradar, zomba de mim? Pois bem, eu me rirei dele, vou virar-lhe as costas e mudarei de vida'. Abandonou tudo, fez-se dominicano e, com o nome de Frei Telmo, viveu e morreu como santo.

40.  A RELIGIÃO MAIS ANTIGA 

Na Inglaterra, encontraram-se certa vez um protestante e um católico. Conversa vai, conversa vem, eis que o protestante, para mexer com o outro, perguntou: 
➖ O senhor não ficaria triste de ver, depois da sua morte, suas cinzas misturadas na sepultura com as desses homens que o senhor considera hereges?
➖ Não, senhor - respondeu o católico - sabe por que? No meu testamento ordenarei que cavem a minha sepultura um pouco mais funda e, assim, minhas cinzas ficarão misturadas com as de outros católicos.

41. QUANTO VALE A ALMA

Vós, os que vendeis vossa alma por um nada (por um prazer momentâneo, pelas riquezas perecíveis, pelo fumo de uma honra vã, etc), quereis saber o que ela vale? Não vo-lo direi eu; dir-vos-á um pobre índio que viveu nas florestas, mas teve a sorte de conhecer e abraçar a verdade católica. 

Morrera então o Padre Smedt; morrera, como São Francisco Xavier, com o braço cansado de batizar pagãos e rodeado de uma coroa gloriosa de novos cristãos. Após a sua morte, penetraram nas selvas, carregados de ouro e de mulheres, uns quantos missionários protestantes. Um deles, metodista, procurou conquistar para a sua seita o chefe da tribo dos yacamas, que havia sido batizado pelo venerável Smedt.

Entre o pastor e o índio entabulou-se então este diálogo:
➖ Quanto você quer para passares para a nossa religião protestante?
➖ Muito dinheiro - respondeu o pele-vermelha.
➖ Quanto? Duzentos dólares?
➖ Muito mais.
➖ Quanto, então? 500.000 dólares?
➖ Muito mais ainda.
➖ Fala, dize a soma que queres e eu a darei.

O índio fitou-o fixamente nos olhos, atirou às costas a sua manta de couro de búfalo e, levantando a mão ao céu, segredou-lhe ao ouvido:
➖ Dai-me o que vale a minha alma!

42. O MATERIALISMO HODIERNO

A geração atual, desprezando os valores do espírito, nenhum interesse mostra pela civilização ou pela cultura. O culto exagerado do corpo manifesta por demais os eczemas da alma. O resultado é o seguinte:
A geração hodierna vê que os jornais dedicam páginas inteiras aos esportes e algumas linhas aos progressos científicos e aos assuntos religiosos. Por esses jornais (e são eles os culpados!), vê-se como um jogador, um campeão de boxe, um astro ou estrela de cinema absorvem por completo a atenção mundial. 

Há sábios trabalhando no silêncio de seus gabinetes e ninguém por eles se interessa. Perguntai aos rapazes de hoje onde fica Atenas ou Sidney, Dublin ou Granada, e responderão com indiferença: não sei! Perguntai-lhes, porém, onde está Hollywood e seus olhos brilharão de entusiasmo. Perguntai a um ginasiano quem foi Michelangelo, Pasteur ou Marconi, e ele não saberá; perguntai-lhe quem foi Greta Garbo, Pola Negri ou Rodolfo Valentino e saberão até o dia em que morreram esses tais. 

Não sabem a distância que percorre a luz num segundo, mas sabem tudo sobre o recorde de natação da última Olimpíada. Não sabem nem aproximadamente a posição ou a altura do Everest, mas sabem com exatidão os recordes dos saltadores. Não saberão dizer quantos presidentes governaram o Brasil, mas dirão os nomes e a cor dos craques, do Palmeiras ou do Flamengo. 

Deixemos, por enquanto, a apreciação dos conhecimentos religiosos desta geração que cresce, porque o ensino religioso nas escolas está mesmo em embrião. O que será, meu Deus, desta geração materializada e sem ideal superior algum?

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 9 de setembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (35/38)


35. CATÓLICOS DE BATISMO

Há três classes de católicos, a saber: católicos de batismo, isto é, homens de que se sabe que são católicos porque podem apresentar uma certidão na qual consta que, um dia, foram levados à Igreja e batizados; fora disso, nem por suas crenças e nem por suas práticas, poderá alguém reconhecer que são católicos.

Há católicos domingueiros. Ao chegar o dia do Senhor, tomam o seu devocionário ou mesmo o seu missal, ou não levam nada, e vão à Igreja para ouvir missa tarde e rápida (sem sermão e nem instrução) e feito isso estão quites com Deus toda a semana.

Há católicos de todos os dias. Sabem que ninguém pode ser verdadeiramente católico, quando não o é todas as horas, e se não impregnam de espírito católico todas as suas obras, e se não se comportam como tais em toda ocasião, ordenando sua vida segundo a santa vontade de Deus.

Por que não havemos de ser católicos de verdade? Por que os católicos de batismo são legião, os domingueiros são muitos, e poucos, pouquíssimos, são os católicos de todos os dias?

36. COMO AS MODAS PEGAM

Certo dia, um mau caçador perseguía no juncal de uma lagoa numeroso bando de patos silvestres. Ao vê-lo, fugiram todos. Um, porém, ficou embaraçado e, sobre ele, disparou o caçador a sua carga de chumbos. O tiro pegou-o no rabo. As penas voaram pelos ares, sobrando só duas, tesas e ridículas, na cauda do pato. Teve vergonha de voltar deformado para o meio de seus companheiros, porquanto zombariam dele e de sua desgraça.

Fugiu, pois, para longe e, em sua vida errante, encontrou-se, um dia, junto de uma lagoa com outro bando de patos silvestres. Quando o viram chegar com aquelas duas únicas penas no rabo, os novos companheiros soltaram uma gargalhada e gritaram:
➖ Olhem este espantalho, de onde terá ele escapado?
Um dos patos mais velhos, porém, disse sisudamente:
➖ Pois olhem, parece-me um tipo interessante; talvez venha de Paris e quiçá seja por lá a última moda entre os patos.
Foram perguntar ao recém-chegado e o astuto (que ouvira a conversa) saiu galhardamente do apuro dizendo que, realmente, aquela era a última moda de Paris.
➖ E assenta-se admiravelmente - comentaram as patinhas mais novas. 

E dentro de poucos dias, essas patinhas (primeiro uma, depois as outras) foram arrancando as penas do rabo, deixando somente duas à moda do hóspede.

As patas-mães, a princípio, não gostaram muito da novidade; mas, pouco tempo depois, elas também arrancaram as penas do rabo e, pelos arredores da lagoa, só se viam patas sem as penas dos rabos. O pato ridículo triunfara sobre todo o grupo de patos.

Entre os homens, e mormente entre as mulheres, há muitas modas que se originaram à semelhança desta. Vieram através das modistas importadas de Paris ou do cinema semipagão. E como nos parecem ridículas! Quantos sacrifícios para servir à moda e quão poucos para agradar a Deus!

37.  A IGREJA INVENCÍVEL

Temeis pelo futuro da Santa Igreja, quando consideráis o ódio e o furor com que a combatem os seus inimigos? Ah! nao vos amedronteis! A história de ontem é a melhor garantia da história de hoje. Muito mais poderosos foram os inimigos da Igreja primitiva - plantinha tenra ainda - do que os perseguidores de hoje, quando ela - árvore frondosa e gigante - resiste impávida aos furacões. 

Vede o que sucedeu: quando Diocleciano foi desterrado e morreu como pobre velho desesperado... quando Galeno foi devorado pelos vermes e reconheceu num edito público a injustiça dos seus ataques... quando Maxêncio se afogou no Tibre... quando Maximino expirou no meio de dores atrozes como as que fizera sofrer aos cristãos... quando Licínio caiu sob as armas de Constantino...  

A Esposa de Cristo (a Igreja) mostrava-se jovem e triunfadora e saía das catacumbas para empreender suas conquistas vitoriosas, flutuando sobre a sua cabeça uma bandeira branca e azul, na qual estavam gravadas as palavras da eterna Verdade: 'As portas do inferno nunca prevalecerão contra ela!'

38. SALVEMO-NOS NA IGREJA

Os soldados cercam a fortaleza e estão ansiando por atacá-la.
➖ Soldados - brada o general, amanhã assaltaremos a fortaleza.
➖ Por onde, meu general?
➖ Pelo norte; estai prontos para cumprir as minhas ordens!

Todos se calam e preparam as armas. No dia seguinte, o general dá a ordem de assalto. Os soldados atiram-se como leões contra a muralha do norte e tomam a fortaleza. Alguns soldados, porém, por sua própria conta, preferiram atacar a fortaleza pelo sul e, porque desobedeceram as ordens do general, foram fuzilados no campo de batalha. Este é o poder do general; este é dever do exército.

Pois bem; a vida do homem sobre a terra é uma milícia. Somos soldados de um exército, cujo General é o próprio Deus. Viemos a este mundo sem outro fim do que este: conquistar o reino do Céu! Entretanto, Deus, o comandante supremo, nos diz: 'Fora da Igreja não há salvação!'

É inútil queremos conquistar o Céu de outra maneira com nossas próprias idéias e nossos próprios métodos. Seremos vencidos e castigados, se não empregarmos os meios e as armas que Jesus Cristo nos dá por meio da sua Igreja.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)