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segunda-feira, 30 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (93/96)


93. O CRUCIFIXO DO PROFESSOR DA UNIVERS1DADE

Não faz muitos anos, após uma lição teórico-prática na Policlínica de Nápoles, um grupo de estudantes de medicina estava a prosear em frente ao quarto de um dos mais notáveis assistentes do professor Durante. O jovem doutor, ao entrar no quarto, deixara a porta aberta e, logo, alguns estudantes, lançando um olhar curioso para o interior, viram à cabeceira do leito do professor um grande Crucifixo.

Alguns deles, imbuídos de preconceitos, riram-se e perguntaram ao professor: como podia ele, um sábio, tolerar aquela imagem à cabeceira do leito. O jovem doutor, com semblante carregado, respondeu:
➖ Não tolero coisa alguma; o Crucifixo está ali porque eu o quero e ali o coloquei com minhas próprias mãos. Se isso faz rir aos néscios, ali ao lado colocarei também a imagem de Nossa Senhora. Meus amigos, estudai e sede mais inteligentes. Adeus!

A esta bem acertada lição, os estudantes emudeceram e retiraram-se corridos. O professor, homem de convicções e de coragem, é um exemplo digno de imitação.

94. NÃO SE IMPACIENTOU

Filipe II, rei da Espanha, passara várias horas da noite a escrever longa e importante carta ao Papa. Apenas a tinha concluído, passou-a ao seu secretário para que a timbrasse e a colocasse na sobrecarta. O secretário, que não estava bem acordado, em vez do timbre, entornou sobre a carta um tinteiro de tinta.

Quando notou o que fizera, ficou horrorizado. O rei, porém, não se impacientou e, como se nada tivesse acontecido, disse: 'Dê-me outro papel de carta, que a escreverei de novo'.

A mesma calma e admirável paciência manifestou o mesmo rei Filipe no dia da sua coroação. Um soldado da guarda, talvez por ser bastante desajeitado, quebrou três lampadários que estavam ao lado do trono real. Todo o óleo caiu sobre as vestes preciosas do rei e da rainha. O soberano, no entanto, com rosto alegre, exclamou: 'Isto é um bom augúrio de que, sob o meu reinado, haverá a unção da paz e a abundância de todo o bem'.

95. CRISTO RESSUSCITOU!

Em 1918, fui testemunha de um fato estupendo que me impressionou. Por ocasião da Páscoa, os bolchevistas de Petrogrado organizaram a sua propaganda ateísta. Spitzberg, o mais hábil e enérgico dos oradores comunistas, expunha com muita ênfase as provas da impossibilidade da Ressurreição de Jesus Cristo.

Para se compreender melhor o que se deu então, é preciso saber que, durante a semana da Páscoa, os russos tem o costume de saudar-se, dizendo: 'Cristo ressuscitou!', ao que o outro responde: 'Ressuscitou verdadeiramente!'. É um uso antigo, geral, comovente.

Spitzberg, o orador comunista, falava com vivacidade, fazia-se de espirituoso e alcançava sucesso. Interrompiam-lhe o discurso risadas e aplausos. Suas últimas palavras foram acolhidas com uma salva de palmas. Então, no fundo da sala, ergueu-se um venerando sacerdote, com uma cruz de ouro sobre o peito. Dirigindo-se ao presidente da assembléia, disse:
➖ Peço licença para responder ao orador.
➖ Sim - respondeu o outro mal-humorado, mas sede breve, cidadão, pois dou-vos apenas cinco minutos.
➖ Obrigado! Gastarei menos de cinco minutos.

Subiu à tribuna, fez o sinal da cruz, beijou com devoção sua cruz de ouro, fez uma profunda inclinação ao auditório e pronunciou com voz clara e firme a saudação: 'Cristo ressuscitou!'. 'Ressuscitou verdadeiramente!', respondeu em coro a assembléia, isto é, aqueles mesmos que acabavam de ouvir e aplaudir o orador do ateísmo.

O prelado abençoou a multidão, fez uma inclinação profunda, desceu da tribuna e saiu. Ninguém ousou molestá-lo. O efeito, porém, do discurso de Spitzberg estava irremediavelmente abalado. Sejamos também nós cristãos corajosos, pois é assim que se deve responder à impiedade.

96. MEU FILHO É MAIS DO QUE EU

O conde De Bonald, grande sociólogo, polemista e dentista católico, depois que seu filho foi ordenado sacerdote, sempre se descobria para dirigir-lhe a palavra. A alguém que lhe perguntou por que assim procedia, uma vez que o padre era seu filho, respondeu:
➖ É meu dever proceder desse modo, pois meu filho, desde que foi sagrado ministro de Deus, é mais, muito mais do que eu.
Esse seu filho foi mais tarde arcebispo e cardeal de Lyon.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 18 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (89/92)

 

89. VIVA O PAPA!

Há tempos, numa vila da diocese de Milão, realizou-se a benção da bandeira de um Círculo de Jovens Católicos. A vila estava então dominada pelos vermelhos, sempre velhacos e prepotentes. Os jovens católicos, desafiando as iras do inimigo, saíram da igreja com o seu estandarte erguido e ali, na mesma praça, onde até então ressoara o grito dos anticlericais, fizeram ecoar o grito dos amigos do Vigário de Cristo: 'Viva o Papa!'

Foram agredidos. Defenderam-se galhardamente, mas um deles recebeu uma punhalada na garganta. Conduzido à farmácia, o farmacêutico, antes de fazer o curativo, disse-lhe: 'Durante alguns dias não poderá falar; se tiver algo a dizer, diga-o agora'. O jovem não hesitou um instante e gritou, quanto lhe permitiram as forças: 'Viva o Papa!'

90. PARA O SANTO PADRE

Na época em que a Igreja foi injustamente espoliada dos Estados Pontifícios, algumas nobres damas de Viena promoveram uma coleta do óbulo de São Pedro à porta da igreja de Santo Estêvão. A coisa não agradou a certo senhor anticlerical, o qual quis aproveitar-se da ocasião para desabafar seu ódio mesquinho contra a religião e os seus ministros. 

Passando diante de uma senhora que segurava a salva do óbulo, recusou-se acintosamente a dar-lhe qualquer esmola e, ao invés, voltando-se para uma pobre que mendigava ali ao lado, tirou do bolso uma nota de cem florins e entregou-lhe, dizendo bem alto: 'Isto é para você; prefiro os verdadeiros pobres aos que comem e bebem lautamente e passeiam em carros de luxo'.

A velha mulher ficou por alguns instantes embaraçada; mas, logo, criando coragem, depositou aquele dinheiro na bandeja de uma das damas, dizendo: 'Para o Santo Padre!' e esquivou-se dali, enquanto o anticlerical também se retirava envergonhado.

Presenciara a cena o Conde Chambord, o qual, admirado do gesto daquela pobre mulher, mandou chamá-la e deu-lhe mil florins com suas mais cordiais congratulações. Isso foi uma verdadeira benção para a pobre que morava numa choça e tinha vários filhos a sustentar. Este episódio ensina-nos como devemos amar o Vigário de Cristo e socorrê-lo em suas necessidades.

91. PIO VII E O ALFAIATE

Napoleão I mandara encarcerar o Papa Pio VII em Savona (1809), perto de Gênova. Os soldados da guarda não tinham nenhuma atenção para com o augusto Pontífice, chegando a faltar-lhe até o indispensável.

O venerando ancião, não tendo sequer uma veste decente, pois sua batina branca estava muito rota, pediu-lhes mandassem um alfaiate para a remendar. Mandaram, pois, ao cárcere um alfaiate, o qual, vendo a mísera veste do Papa, ficou muito comovido. E, para que os habitantes da cidade se interessassem pela triste sorte do Pontífice, levou consigo aquela batina veneranda. 

Cada um dos cidadãos queria possuir um fragmento daquela sotaina, como lembrança do Papa. Com as esmolas arrecadadas, pode o alfaiate confeccionar uma esplêndida veste que levou a Pio VII juntamente com o dinheiro que sobrou. O Papa aceitou, agradecido, a batina, mas ordenou que o dinheiro fosse distribuído aos pobres.

Os bons católicos, em todos os tempos, oferecem de boa vontade o seu auxílio para as múltiplas necessidades do Sumo Pontífice.

92. SUBLIME ESPETÁCULO

Quando o Papa Inocêncio II, após o Concílio de Clermont (1131), se preparava para regressar a Roma, julgou não dever abandonar, a França sem dar uma prova de sua gratidão a São Bernardo, visitando com toda a sua comitiva o mosteiro de Claraval. Ali não lhe foram feitos, como em outras abadias, presentes de cavalos, mulas e ricas equipagens; mas a simplicidade toda angélica bem como a terna caridade com que foi recebido agradaram bem mais ao virtuoso Pontífice.

Os monges foram-lhe ao encontro pobremente vestidos, levando à frente uma cruz de madeira tosca e cantando hinos que exprimiam a compunção pela qual estavam dominados. Toda a corte pontifícia ficou edificada com a gravidade e o porte angélico daqueles servos de Deus. Lágrimas de comoção corriam dos olhos de todos os prelados.

Os religiosos, entretanto, aos quais se dirigiam todos os olhares, conservavam os olhos baixos e nada os fez perder o recolhimento. Os visitantes, entrando na igreja e percorrendo o mosteiro, encontraram por toda parte a imagem da pobreza e mudas lições de exímias virtudes. No refeitório, à hora da refeição, foram servidos legumes e pão preto; havia apenas alguns peixes, e dos mais comuns, para o Papa.

Os prelados, contemplando com os olhos da fé aquela pobreza, recordaram-se bem das palavras de Cristo: 'Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu'. Eis, diziam, os pobres que o Altíssimo se compraz de enriquecer de seus dons. Não é, porventura, este abade o grande Bernardo que faz os Papas, aterra os príncipes soberbos, levanta os povos, rege os concílios e os impérios? Ecce sic benedicetur homo qui timet Dominum ['Assim será abençoado aquele que teme o Senhor' (Sl 127,4)].

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 5 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (85/88)

 

85. O PAI DA MENTIRA

Vejam só a que ponto chega a ousadia do demônio. Um dia, estava o bispo São Martinho rezando em sua cela. O espírito das trevas apresentou-se-lhe revestido de vestes luminosas, com uma coroa de ouro na cabeça, e aparentando uns modos tão celestiais que teria enganado a qualquer cristão. 

Por duas vezes disse que era Jesus Cristo; mas, como a humildade é o meio mais eficaz de se descobrirem as artimanhas do capeta, o qual é todo orgulho, Martinho não tardou a reconhecer naquela figura pomposa o diabo em pessoa. Dirigiu-lhe, pois, estas palavras:
➖Senhor Jesus, que é todo humildade, não disse que viria vestido de púrpura, nem coroado com diadema de ouro; por isso jamais considerarei como Jesus Cristo quem não. apresentar os símbolos do Salvador padecente e não trouxer no corpo os sinais da Paixão.

Ouvindo essas palavras o velhaco, o mentiroso, o enganador desapareceu, deixando após si um mau cheiro de enxofre insuportável.

86. POR QUE AS TRIBULAÇÕES?

Certa vez um lavrador, que fizera más colheitas, queixava-se, pensando: 'Se Deus deixasse a mim o governo do tempo, tudo iria melhor; porque, está-se vendo, Ele não entende muito do cultivo da terra'. Deus quis mostrar-lhe quanto estava enganado, e disse:
➖ Por este ano eu te concedo o governo do tempo; terás tudo que pedires.

O ingênuo lavrador quase enlouqueceu de alegria, e disse: 'Agora, quero sol!' E veio o sol. Mais tarde disse: 'Venha a chuva! E choveu quanto ele quis. E ia pedindo: de novo sol; de novo chuva. E assim durante o ano inteiro. A plantação crescia, crescia... que dava gosto vê-la. Agora, sim, Deus pode ver como se governa, pensava o lavrador com uma pontinha de orgulho. Chegou o tempo da colheita. As espigas eram grandes, gordas, uma beleza!... Mas colhendo uma, colhendo outra, colhendo um montão - que desgraça! Todas as espigas estavam chochas, sem nenhum grão, tudo palha.

Daí a pouco vem Nosso Senhor ver a colheita e pergunta ao lavrador:
➖ Então, que tal a colheita?
➖ Muito má, Senhor! Muita palha e pouco grão!
➖ Mas não governastes tu o tempo? Não se fez tudo como desejavas?
➖ Sim, tudo... sempre pedi chuva... pedi sol...
➖ Pois é, e nunca pediste vento e tempestade, neve e gelo, e tudo que purifica o ar e torna resistentes as raízes... e por isso não há colheita!

Também na vida espiritual sem mau tempo não se faz boa colheita. Pedis alegria, riquezas, saúde, bem-estar... As raízes das virtudes não penetram em terra firme e não podem produzir frutos. Sem dor, mortificação, tribulações, não ajuntareis méritos para o céu. É preciso aceitar o que Deus nos envia.

87. AS MULHERES SÃO CURIOSAS?

Papírio Pretextato, então menino de doze anos, foi com o pai ao Senado. Tratou-se ali, provavelmente, de algum assunto importante, porque a sessão se prolongou por muito tempo. Voltaram para casa altas horas. A mãe de Papírio, intrigadíssima e curiosa, chamou o filho à parte e o questionou:
➖ Vem cá, meu filho, diga-me: 'De que é que trataram hoje no Senado?'
O pequeno, temendo o rigor excessivo com que, em Roma, se guardavam os segredos do Senado, recusou-se a dizê-lo. Isso, porém, aumentou mais ainda a curiosidade da mãe. Ela instava o assunto e ele calava-se. 

Afinal, em vista dos pedidos, dos mimos e ameaças, o menino fingiu aceder, e disse-lhe ao ouvido, baixinho:
➖ Mãe, vou contar-lhe o que foi, mas a senhora há de guardar rigoroso segredo.
➖ Pois sim, filhinho; eu me calarei, prometo, diga-me então o que foi?
➖ Foi o seguinte: Houve entre os senadores uma grande controvérsia. Discutiram longamente se seria mais conveniente um marido ter duas ou três mulheres ou se, ao contrário, uma mulher ter dois ou três maridos.
➖ Pois bem... e que é que resolveram?
➖ Não ficou resolvido nada; houve muita discussão e o assunto ficou para ser resolvido amanhã, em votação secreta.
➖ Bem, filhinho, não fique com receio, eu saberei guardar segredo como sempre.

Durante a tarde e à noite, a azáfama dos criados foi enorme. Criados saíam e criados voltavam; recados iam e chegavam a todas as principais damas de Roma, nos seguintes termos: 'Olha, Dona Fulana, venho comunicar-lhe, sob rigoroso segredo, que amanhã o Senado tratará do seguinte assunto..., que já está para ser votado. É absolutamente necessário que nos reunamos e juntas possamos ir ao Senado defender os nossos direitos, certo?'

No dia seguinte, estando os senadores reunidos e entre eles Papírio com o seu pai, de repente entrou um batalhão de senhoras que, sem mais preâmbulos e, em altas vozes, expuseram e defenderam com energia que é mais conveniente que cada esposa tenha dois ou três maridos, e não o contrário... Os senadores se prostaram atônitos.

➖ O que é isto? - diziam, olhando uns para os outros - Estas mulheres enlouqueceram? O que significa tudo isto?
Então Papírio, aproveitando um instante de silêncio, contou-lhes o que se passara com ele no dia anterior e como ele, para guardar segredo e livrar-se das insistências de sua mãe, forjara aquela história. Ela, portanto, traindo o segredo, teria pausado todo aquele alvoroço.

Os snadores riram-se a bandeiras despregadas e as damas, todas bastante envergonhadas, abandonaram o recinto.

88. BOM PARA O CÉU

O piedoso bispo Mons. Tissot gozava na Índia de uma bem merecida fama de santidade, zelo e bondade. Ele próprio contou o seguinte episódio. Um dia, por ocasião de uma entrevista com certo governador, este lhe disse:
➖ Monsenhor, vós e vossos colaboradores sois para mim um enigma.
➖ E por que, senhor? - indagou o bispo missionário.

➖ Vede, monsenhor, disse o inglês: Nós recebemos do governo gordos subsídios e das Sociedades Protestantes enormes somas para a nossa propaganda protestante; os nossos ministros e catequistas ocupam posições invejáveis, as nossas diaconisas são abastadas... e entretanto conseguimos bem pouco! Fazemos alguns prosélitos em tempo de carestia ou de processos: terminada a prova, voltam ao paganismo. Vós, missionários católicos, ao contrário, sois pobres, não tendes tais meios, e, no entanto, as vossas obras prosperaram.
➖ Exatamente, senhor. E é porque nós temos um segredo.
➖ Um segredo?! Confiai-me esse segredo.
➖ Com muito prazer. É o seguinte: dou aos meus missionários e às Irmãs de caridade uma veste pobre, um leito duro, arroz de terceira qualidade... Faço-os levantar-se de madrugada, deitar-se tarde, trabalhar quase sem descanso...

O governador interrompeu-o:
➖ E, todavia, monsenhor, todos perseveram e morrem em seu posto; ao passo que os nossos ministros e as nossas diaconisas não querem demorar-se aqui e estão sempre a pedir para regressar à pátria.
➖ Ah! é verdade, senhor governador; mas, como já vos disse, tenho um segredo. Dou aos meus uma letra de banco, assim redigida: 'Bom para ser recebido no Céu'. Eis, meu caro, o que nós bispos fazemos e que vós não podeis fazer..

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (81/84)

 

81. AS TENTAÇÕES DO DEMÔNIO

Quando Santo Inácio se entregava aos exercícios de penitência e oração na gruta de Manresa, Deus, para fortificar-lhe a virtude por meio do combate, permitiu ao demônio que o assaltasse de vários modos. Tendo o tentador estudado o coração de Inácio, encontrando-o inacessível aos golpes da avareza e da luxúria, julgou poder vencê-lo pela vanglória. 

Sugeriu-lhe então o pensamento de que ele era um grande santo e, encobrindo-lhe os pecados, fez-lhe uma excelente descrição das aspérrimas penitências, esmolas e longas horas que passava em oração, bem como de todas as virtudes por ele praticadas. O servo de Deus, iluminado pela graça, reconheceu que aquelas sugestões de vanglória vinham do demônio, espirito orgulhoso, e não do Espirito Santo que é espirito de humildade. Assim venceu o astuto inimigo só com a lembrança de seus grandes pecados e a meditação do inferno que tantas vezes merecera.

Esperava-o outra prova. Foi privado da paz do coração, da tranquilidade interior, de que gozava após a sua conversão, e invadiram-no trevas, temores, cuidados, inquietações. Parecia-lhe que tudo que fazia era pecado, que nada agradava a Deus e que Nosso Senhor o abandonara. Eram temores exagerados, sem fundamento, angústias de espírito e escrúpulos, com que o demônio queria tornar-lhe o caminho da vida espiritual áspero e aborrecido e lançá-lo no desespero. Mas também aqui o demônio teve de meter a viola no saco e os carretéis na algibeira, porque, com a paciência e sobretudo com a obediência cega ao seu confessor, Inácio saiu triunfante dessa nova tentação. Seguiu a voz do ministro de Deus como se fora a do próprio Jesus Cristo, e recuperou a calma.

O demônio tentou ainda abalar a confiança do santo.
➖ Como poderás continuar nessa vida tão austera? - dizia-lhe interiormente - És moço, tens ainda cinquenta anos de vida: como poderás, por tanto tempo, aguentar uma vida tão penosa?

Inácio, iluminado pela oração fervorosa, não custou muito a reconhecer a manha do tentador.
poderás continuar nessa vida tão austera?
➖ Tu falas desse modo? - replicou-lhe - Quem me garante viver mais cinquenta anos? Podes garantir-me uma hora sequer? E, ainda que tivesse de viver mais cinquenta anos, que é isso em comparação com a eternidade? De resto a mim me basta viver um dia a cada dia. Aquele que com sua graça me sustenta hoje me conservará também amanhã e até quando lhe aprouver prolongar-me a vida.
Desta maneira, o valoroso soldado de Cristo, a exemplo de seu Mestre, superou todas as tentações.

82. AOS DESCONTENTES

A muitos, que se lamentam de sua sorte e invejam a dos mais favorecidos, poder-se-ia repetir esta parábola.

A fortuna tinha muitos queixosos e nenhum agradecido. Chegou o descontentamento até aos animais; e o burro, o mais queixoso de todos, foi ter com Júpiter, e disse-lhe: 
➖ Integérrimo deus, como podes consentir esta impiedade da Fortuna contra mim? Ela persegue a inocência e favorece a malícia; o orgulhoso leão triunfa; o tigre cruel engorda; a astuta raposa, que a todos engana, ri-se de todos; o voraz lobo anda à solta; e só eu, que a ninguém faço mal algum, de todos sou desprezado e maltratado, como pouco e trabalho muito, nada de pão e tudo de paus e pauladas...

Júpiter, assaz comovido, ordenou que a Fortuna viesse à sua presença. Saíram soldados a procurá-la. Buscaram-na em casa do rico, do poderoso, do belo, do vaidoso, e não a encontraram. .. Por fim deram com ela na casa da virtude. Levaram-na à presença de Júpiter, que lhe repetiu todas as queixas do burro. A Fortuna, depois de ouvir tudo em silencio, com um lindo sorriso respondeu:
➖ Grande Júpiter, permiti-me dizer apenas uma palavra em minha defesa; somente esta: Se ele é um burro, de que se queixa?
Júpiter, virando-se para o asno, disse-lhe:
➖ Vai, e de hoje em diante procura ser esperto como o leão, corajoso como o tigre, astuto como a raposa, cauteloso como o lobo. Ordena bem os meios para conseguires teus intentos e não terás queixas da Fortuna.

83. AS BOAS OBRAS...

Um dia, um banqueiro milionário me chamou e entregou-me um cheque em que estava escrito: 'Pague-se à vista um milhão de reais’e, logo abaixo, li a firma do banqueiro: Rotschild. Corri ao banco e apresentei o cheque. Todos me saudaram com muita cortesia e o gerente entregou-me um milhão de reais. Quando me retirei, fui de novo alvo de mesuras, sorrisos e saudações de todo o pessoal do banco...

Um belo dia, porém, tomei o mesmo cheque e, por minha conta e orgulho, coloquei nele a minha própria assinatura. Como a minha caligrafia era mais bela que a do banqueiro milionário, corri ao banco cheio de confiança... Mas, desta vez nem dinheiro, nem mesuras; não me pagaram o cheque e por cúmulo, botaram-me para fora sob empurrões e entre dois policiais...

E tudo isso por quê? Por que um cheque assinado por Rotschild tem valor e o meu não tem? É que ao meu falta a condição principal: o crédito. Na vida espiritual, dá-se coisa semelhante. Uma obra assinada por um amigo de Deus tem valor no Banco do Céu; mas uma obra feita por um indivíduo sem religião, que só acredita na filantropia, na honradez natural, nenhum ou bem pouco valor tem diante de Deus.

84. O NÓ GÓRDIO

O célebre capitão Alexandre Magno (+ 323 a. C.), numa de suas guerras, chegou a Górdio, cidade da Frígia, onde se encontrava, numa torre, o assim chamado nó górdio. O famoso nó era muito complicado, e jamais alguém o conseguira desatar. Alexandre, porém, desatou-o sem a mínima dificuldade. De que modo? Com um simples golpe de espada partiu o nó pelo meio.

É assim que devemos fazer para livrar-nos das ocasiões do pecado: cortar imediatamente e sem hesitação os vínculos pecaminosos.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 24 de janeiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (77/80)

 

77. ASSIM TRATA DEUS A SEUS FILHOS

Um pio solitário dirigindo-se a Deus, a quem servia fielmente, dizia com ingênua franqueza: 'Senhor, vós me enganastes, chamando-me ao vosso serviço. Eu imaginava que só teria cruzes difíceis de suportar e dias de penitência e de pranto. Entretanto, experimento a mais doce consolação... Senhor, vós me enganastes, mas, ó feliz engano!'

78. ESTAR TRISTE NO CONVENTO?

São Francisco de Assis, quando abandonou o mundo e todos os bens que possuía por amor de Deus, embora se encontrasse quase desnudo, dizia cheio de gozo: 'Meu Deus e meu tudo' - como se dissesse: 'Tenho Deus, tenho tudo!' Mais tarde, notando que um dos seus frades andava tristonho, disse-lhe: 'Que é que tens, irmão, que estás triste? Cometeste algum pecado? Não sabes que só a culpa nos deve entristecer? Vai rezar: só aos pés de Jesus se deve gemer e pedir perdão; diante de mim e dos outros confrades não se deve fazer isso'.

São Francisco de Borja, também depois de retirar-se da corte e dar-se inteiramente a Deus, sentia consolação e felicidade, que passava noites inteiras sem poder dormir. São Filipe Néri, que também não conseguía conciliar o sono em vista do grande prazer que sentia no serviço de Nosso Senhor, dizia: 'Por favor, meu Jesus, deixai-me dormir!'

De São Francisco Xavier sabe-se que, em suas excursões apostólicas através das Índias, descobria o peito e exclamava: 'Basta, Senhor! Basta de consolações, pois o meu coração não é capaz de contê-las'. Bem dizia Santa Teresa que mais vale uma só gota dessa paz, que só Deus pode dar, do que todos os prazeres, riquezas e glórias do mundo.

São Romualdo, penitente austeríssimo, que, entretanto, viveu 120 anos, mostrava sempre o rosto tão alegre e sereno que causava alegria a todos que olhavam para ele.

79. ESCADA DE OURO PARA O CÉU

Santa Perpétua estava no cárcere, em Cartago. Após vários dias de atrozes sofrimentos, disse-lhe um irmão seu que rezasse para que Nosso Senhor lhe revelasse se teria de sofrer o martírio ou se seria libertada. A santa recolheu-se em oração e teve uma visão que ela mesma conta.

➖ Vi - disse ela - uma escada de ouro, de altura prodigiosa, que ia da terra ao céu, mas tão estreita que só uma pessoa de cada vez podia subir; os dois lados da escada eram flanqueados por espadas cortantes, lanças, foices, punhais, facões, de sorte que, se alguém subisse distraidamente e sem ter os olhos fitos para o alto, não escaparia de ser dilacerado por aquelas armas e deixaria ali pedaços de carne. Aos pés da escada achava-se um dragão, que estava pronto a lançar-se contra todo aquele que se aproximasse para subir.

A terrível visão verificou-se no cruel martírio que a mesma santa teve de suportar; mas algo semelhante sucede a todo cristão, pois que ninguém chega ao céu senão através de provas e tentações duríssimas.

80. A CULPA É DELES...

Lê-se na história de Santo Antão que, um dia, o demônio se apresentou a ele visivelmente. Estava tão furioso que parecia querer acabar com todo o gênero humano.

O santo, que não temia ataques do diabo, perguntou-lhe o que significava aquilo.
➖ Ah! - respondeu o maligno -não vês que, em toda parte, sou alvo de desprezo e de maldição?
➖Ah! entendo; mas, também, não há mal algum que não mereças, pois tu só procuras arrastar os homens à perdição, e fazer muito mal a todos.
➖ Se lhes faço mal - respondeu o diabo - é culpa deles; faço mal somente aqueles que o consentem e sou impotente contra os que me resistem. Se posso algo contra os homens, é porque eles dão ouvidos às minhas sugestões e aceitam espontaneamente os meus embustes.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (73/76)


73. CONVERSÃO DE UMA COMUNISTA

A senhorita Leer, israelita ateia de 22 anos de idade, admiradora de Liebknecht e de Rosa Luxemburgo, tomou parte na revolução de Munique com um ardor incrível. Editava um jornal e percorria cidades e vilas, fazendo propaganda revolucionária.

Após a vitória das autoridades legais, Leer foi presa e condenada à morte. Durante a noite que precedeu a sua execução, tendo-se por irremediavelmente perdida, caiu de joelhos e exclamou: 'Se há de fato um Ser supremo e se vós existis, ó meu Deus, ajudai-me, salvai-me e eu crerei em vós'.

Com efeito, na manhã seguinte conseguiu evadir-se; com o auxílio de um frade, pode transpor a fronteira e, na Holanda, na Casa das Irmãs das Santas Marta e Maria encontrou um asilo seguro. Durante um ano inteiro passou ali no mais completo retiro sob a direção do Pe. Gianeken, fundador, daquele Instituto, o qual a instruiu na fé católica. Após um ano de noviciado, foi admitida naquela congregação que tem por fim cooperar, por orações e obras de caridade, na conversão dos protestantes holandeses.

74. QUERO MORRER PELA FÉ

Houve no século passado uma furiosa perseguição contra os católicos armênios. Entre as numerosas vítimas estava um menino de doze anos apenas.

Os muçulmanos queriam forçá-lo a renegar a Jesus Cristo, mas ele resistiu corajosamente. Os carrascos ameaçaram cortar-lhe a mão; e ele estendeu a mão, dizendo:
➖ Ei-la, cortai-a!
Os bandidos cortaram-na, esperando que a dor e a vista do sangue atemorizariam o menino, obrigando-o a apostatar. 

Fizeram-lhe em seguida um curativo e disseram: 
➖ Se não queres perder a outra mão, aceita a nossa religião'. 
➖Nunca - respondeu o herói. 
Um golpe de sabre e a outra mão estava decepada. Fazem-lhe novo curativo e convidam-no a apostatar. 

A coragem do menino cristão não arrefece. Os carrascos, mais enfurecidos, dizem-lhe que, agora, será a vez de sua cabeça. O menino prontamente inclina a cabeça e diz: 
➖ Cortai-me a cabeça! Como cristão vivi, como cristão quero morrer!
A espada reluziu no ar e a cabeça da inocente vítima rolou pelo chão, enquanto sua bela alma voava triunfante para o céu. Como é belo morrer pela fé!

75. O DIVINO ENCANTADOR

Santa Maria Madalena de Pazzi, quando adolescente, sentia um grande desejo de ver a Jesus. Eis que um dia, durante um êxtase, teve essa felicidade. 

Ela mesma diz: 'Eis o meu Esposo, que antes me aparecia tão pequenino e agora o vejo na idade de doze anos com um semblante tão belo e admirável, resplandecente de serena gravidade. Este amável menino traz na sua mão direita um livro no qual quer que eu estude no tempo de trevas espirituais; e na esquerda, tem uma harpa, na qual começará a tocar, quando lhe aprouver, e cantará alguma canção de amor, a qual não faltarão nem palavras, nem conceitos. Ó quão suave melodia de sons e cânticos! Ó meu Deus, quanto sois suave e amoroso para os que vos amam!'

76. COMO SABIAM ENTRETER-SE COM DEUS!

Os santos encontravam no trato com Deus todas as suas delicias. São Caetano empregava no exercício da oração oito horas por dia; Santa Margarida, rainha da Escócia, e Santo Estêvão, rei da Hungria, quase toda a noite; Santa Francisca Romana, todo o tempo que lhe sobrava de suas ocupações ordinárias; Santa Rosa de Lima empregava na oração doze horas por dia.

São Luis Gonzaga começou a entregar-se à oração desde a mais tenra idade e nunca deixava de orar duas a três horas por dia. Quando estava na corte, para não ser interrompido pelos companheiros, ia esconder-se no lenheiro para orar. Santa Maria Madalena de Pazzi, com nove anos apenas, fazia primeiro uma hora de oração, depois duas, quatro e até noites inteiras, enquanto vivia no mundo; depois que entrou no convento, dedicava à oração todo o tempo livre concedido às religiosas.

São João Berchmans, aos onze anos, empregava no trato com Deus todo o tempo que lhe sobrava dos estudos. Qualquer canto da casa servia-lhe de oratório, e várias vezes o surpreenderam, depois da meia-noite, orando de joelhos no chão nu.

Verdadeiramente maravilhosos estes santos! Como sabiam aproveitar a graça da oração!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 27 de dezembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (69/72)

 

69. AS MULHERES DE VINSPERG

O fato é histórico. Conrado III sitiava a praça de Vinsperg, defendida por Guelfo, duque da Baviera. O cerco era tão apertado que, dentro da cidade, os habitantes passavam fome. Não havia outro recurso: ou render-se ou sucumbir.

Uma tarde, abre-se uma porta da fortaleza e, precedida de uma bandeira branca, surge uma procissão melancólica que se dirige ao campo inimigo. São as mulheres de Vinsperg, desgrenhadas, pálidas, que querem parlamentar com o Imperador. Reunidas em sua presença, falou uma em nome das outras:
➖ Senhor, a guerra não deve cevar seres indefesos, como nós mulheres; os homens é que lutaram; perdoai as mulheres e permiti, que elas se retirem da fortaleza.
➖Concedido - respondeu o Imperador - amanhã, ao sair o sol, abandonareis a cidade!
➖ Já que sois tão bom, pedimos a Vossa Majestade mais uma graça: como lembrança de nossa cidade, deixai-nos levar cada uma o que mais ame de tudo que tem no seu lar.
➖ Concedido - disse Conrado - cada mulher pode levar o que mais amar e estimar.

Na manhã seguinte, as forças sitiantes formaram-se em duas filas. Soaram os clarins. Conrado quer render homenagem às mulheres que vão retirar-se da fortaleza. Fez-se um silêncio solene. Abriram-se as portas e apareceram as mulheres. O imperador ficou atônito diante daquele espetáculo: viu cada uma das mulheres levando às costas o próprio marido...

Os soldados prestam continência. O Imperador se admira diante daquela prova de amor conjugal. Homens e mulheres são perdoados e admitidos novamente às boas graças do Imperador. Parece que, também hoje em dia, muitos maridos só se salvarão pelas orações e sacrifícios de suas virtuosas esposas...

70. O CASTIGO NÃO TARDOU

Durante o domínio comunista na província de Badajoz (Espanha), deu-se em Navalvillar de Pela um caso triste e revoltante, que não ficou sem castigo.

Um dos milicianos vermelhos, atirando um laço à cabeça do Cristo da Caridade e derrubando a sagrada imagem, saiu arrastando-a pelas ruas. Não contente, arrancou-lhe os olhos com ferocidade. Passados poucos dias, estando ele de guarda, sentiu que lhe fugia a vista e gritou por socorro. Quando chegaram os milicianos, que bem o conheciam, nada mais puderam fazer: o mutilador de imagens sagradas ficara completamente cego.

71. NÃO LHE SOBRARA TEMPO

Na famosa batalha de Watemberg, em que o Eleitor da Saxônia perdeu a liberdade e o nome usurpado de imperador, o combate prolongou-se por nove horas. Dizia-se que o sol havia parado, como nos tempos de Josué, sobre o campo de batalha.

O rei da França perguntou mais tarde ao Duque de Alba, que fora general do exército imperial, se era verdade o que diziam da parada do sol. O Duque então respondeu: 
➖ Majestade, naquele dia eu tive tanto que fazer na terra que não me sobrou tempo para olhar para o céu.

Quantos homens poderiam dizer a mesma coisa, embora com menos glória do que o grande general de Carlos V! Sim, a quantos homens a preocupação das coisas da terra não lhes deixa um minuto para pensar no céu! É triste, mas é um fato.

72. PEDRAS DE MÁRMORE

Conta-se que em Gênova, a soberba cidade dos ricos e famosos cemitérios, vivia uma velha vendedora de frutas, cujo maior desejo e máxima aspiração era ter, depois da morte, um formoso mausoléu. Para esse fim passava a vida ajuntando centavo por centavo, economizando, impondo-se inúmeras privações e vivendo miseravelmente.

Ajuntara, finalmente, a soma necessária e, após a morte, teve realmente a sua pedra de mármore, o seu ambicionado e rico mausoléu. Que tristeza! O fruto de todo aquele trabalho, de toda aquela vida não ia além de uma pedra para a sepultura! Que vaidade louca!

E, todavia, a maior parte dos ricos e mormente dos avarentos não são ainda mais néscios? Não vivem trabalhando, lutando e economizando para que outros, depois de sua morte, gozem de suas economias e desfrutem das suas riquezas? E eles com que se contentam? Com algumas lajes de pedras, a que pomposamente se dá o nome de mausoléu!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 13 de dezembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (65/68)

 

65. A DOR ABATE O ORGULHO

Já vistes um touro no curral? Altivo, bravio, dominador, conserva a cabeça erguida como se desafiasse o céu e a terra. Quem será capaz de sujeitá-lo? Como soberano, move impaciente de um lado para o outro a formidável arma de seus chifres afilados e reluzentes.

Mas, de repente, silva no ar um laço forte que se lhe enrosca na cabeça como uma serpente. O laço puxa-o fortemente e ele, relutando embora, tem de chegar a estaca fincada no chão e da qual pende a argola do sacrifício. O touro resiste, esperneia, ruge, mas afinal tem que ceder e baixar a cabeça, apresentando a nuca ao punhal do sangrador...

Há também homens que, na prosperidade, levantam orgulhosos a cabeça e parecem desafiar ao próprio Deus. Entretanto, um belo dia, silva o laço da dor, prende-os a argola do sacrifício e, então, não há remédio, curvam a cabeça e oferecem a cerviz ao punhal do sacrificador.

66. NA BALANÇA DA CARIDADE

Uma vez, uma pobre viúva, desfeita num mar de lágrimas, pediu a um pio sacerdote que lhe desse cem escudos para fazer casar uma filha cuja honestidade corria perigo. Afligiu-se muito o santo por não possuir aquela quantia; mas, lembrando-se de um rico negociante, seu amigo, tomou uma tirazinha de papel e nela escreveu estas palavras: 'Meu caro senhor, pelas entranhas da misericórdia de Deus, peço a V. Sa. que dê a essa pobre senhora, para uma grave necessidade que padece, tantas moedas quanto pese este papel'.

Leu o negociante o bilhete e pensou consigo: 'Se não preciso dar mais moedas do que pesa este papel, com bem poucas socorrerei a pobre'. Mas, como conhecia a santidade de seu amigo, pôs o papel no prato da balança, que, imediatamente, caiu até em baixo. Começou a por moedas no outro prato: uma, duas, cinco... e o prato com o papel não subia. Foi pondo mais e mais até que, inteirando cem escudos, a balança ficou no fiel. A viúva foi socorrida e espalhou por toda a parte a fama do prodígio.

Por aí se vê quanto pesa na balança de Deus tudo que se faz em favor dos pobres.

67. QUANTO PODE A VIRTUDE

A alma que se entrega toda a Deus e ao serviço divino não conhece fraqueza, antes é capaz das ações mais heroicas. Eis um exemplo recente. No meio dos horrores da passada guerra mundial, alguns fugitivos armênios chegaram a Roma para visitar o Papa. O chefe deles, o venerando bispo de Trapezunda, narrou ao Vigário de Cristo uma cena horrível, porém heroica.

Tropas árabes e turcas - disse ele - reuniram, nas proximidades de Erzerum, na Ásia Menor, todas as donzelas e senhoras de uma aldeia e conduziram-nas ao pequeno planalto de Kemakh. A meseta (planalto) termina num abrupto precipício e no fundo do abismo veem-se pedras enormes que o ímpeto das águas arrasta do alto da montanha. Aí chegadas, disseram os turcos às pobres prisioneiras:
➖ Agora escolhei: ou ides voluntariamente para os nossos haréns ou sereis arrojadas ao fundo deste precipício.

Lá embaixo, no abismo, bramiam as águas furiosamente. Que fazer naquela conjuntura? De repente, adianta-se uma das mais jovens prisioneiras, uma donzela de porte distinto. Em seus olhos arde o fogo da decisão tomada. Diante de sua alma brilha a visão divina de Cristo. Com voz firme e clara pronuncia as palavras: 'Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo' e, fazendo ao mesmo tempo o sinal da Cruz, atira-se corajosamente ao abismo.

Foi como uma voz de comando. Quando os ferozes turcos, que se tinham afastado, aproximaram-se da meseta, não encontraram ali nenhuma mulher. Todas se tinham lançado ao abismo, preferindo perder a vida, a perder a honra e o céu.

68. AS CONVERSAS LEVIANAS

São Edmundo, que mais tarde foi arcebispo de Cantuária (Inglaterra), evitava cautelosamente a companhia de jovens levianos. Estando, de uma feita, com alguns companheiros, cujas conversas iam tomando um rumo perigoso, afastou-se deles no mesmo instante. Quando ia caminhando, eis que se encontra com um jovem de formosura encantadora, em cuja fronte se lia em letras de um brilho incomparável o nome de Jesus. Disse-lhe a visão: 'Pois que te apartaste daqueles, venho eu fazer-te companhia'.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 29 de novembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (61/64)

 

61. FILHOS PREFERIDOS

Os pais não deveriam esquecer-se desta regra de ouro: tratar todos os filhos por igual, sem distinções que denotem predileção ou antipatia. O seguinte exemplo é da Sagrada Escritura.

Jacó tinha doze filhos. O pai amava aos filhos, os filhos ao pai, e os irmãos amavam-se mutuamente. Mas José foi crescendo, e Jacó 'amava mais a José que a todos os outros filhos, porque era o filho de sua velhice'. A essa altura muda-se a cena. A paz converteu-se em discórdia, o amor em ódio, a fraternidade em inveja, o sangue em vingança. Faltou a paz na família, porque faltou a igualdade no pai. A igualdade fomentava o amor; a desigualdade de trato motivou a discórdia.

Em que consistia aquela desigualdade e qual a diferença de tratamento? Que é que fez Jacó? Porventura deserdou aos outros para que José fosse o único herdeiro? Nada disso! Porventura tratava aos demais como escravos e só a José como filho? Nada disso! Pois, então, que foi que perturbou aquela paz bendita? Somente isto: Jacó fizera para José uma túnica de cores mais lindas do que para os outros filhos. Esse foi o principio da discórdia.

Notai bem: Não despiu aos outros para vestir a José. A todos provia, a todos vestia. Mas a túnica de José, por suas variegadas cores, era mais vistosa, e isso bastou. Surgiu a discórdia ou, melhor, a inveja, e um dia aquela túnica se viu manchada de sangue. José estaria morto pelas mãos de seus próprios irmãos, se a Providência divina não tivesse disposto de outro modo.

62. A VAIDADE FEMININA

Santa Rosália, em seus verdes anos, passava diariamente muito tempo, horas a fio, diante do espelho a enfeitar-se. Um dia, vendo refletir-se no espelho um Crucifixo que estava suspenso na parede oposta, pôs-se a pensar no contraste entre as suas vaidades e as humilhações do Salvador, entre o seu corpo amimado e o de Jesus dilacerado pelos açoites e espinhos... 

Movida pela graça, deixou Rosália as vaidades e vãos adornos e, daí em diante, levou urna vida de abnegação e sacrifício, chegando a uma grande santidade.

63. O CURA D’ARS E AS AVES

São João Batista Vianney, o santo cura de Ars, ouvindo uma ocasião o lindo gorjeio dos pássaros, ergueu os olhos aos céus e exclamou suspirando:
➖ Pobres avezinhas! Fostes criadas para cantar, e cantais! O homem, que foi criado para amar a Deus, não o ama! Quanta dor!

64. AJOELHAR-SE COM OS DOIS JOELHOS

Há muitos homens que, durante os atos religiosos, não se ajoelham ou ajoelham-se com um só joelho. Estão bastante errados. Dizia Santo Agostinho que ajoelhar-se diante de Deus com os dois joelhos é confessar com um a nossa fraqueza para que nos perdoe as nossas quedas; e, com o outro, a nossa necessidade para que nos estenda a mão e nos levante.

São Jerônimo diz que, com um joelho, dobramos nosso entendimento que o reconhece por Deus, e com o outro a nossa vontade que amorosamente o abraça. Santo Ambrósio dizia que, com um, reconhecemos o nosso ser miserável e, com o outro, adoramos seu ser eterno.

Dobrar um só joelho - dizia Durando - é zombar da Divindade, escarnecer do Redentor e imitar os algozes que assim o adoravam por escárnio. Significa - dizia Reynaude - que manca é a nossa piedade e manca é a nossa religião e, por isso, estamos em perigo de cair por terra. Dobremos ambos os joelhos, mormente na igreja, pois assim devemos adorar a um Senhor que, por sua grandeza e seu amor para conosco, merece a adoração de todo o nosso ser.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

TESOURO DE EXEMPLOS II (57/60)

 

57. RECOMPENSA DA CARIDADE

Aquele jovem era muito virtuoso e sobretudo muito caridoso. Cheio de ilusões, andava a lutar com o pensamento de fazer-se religioso, o que o obrigaria a renunciar as riquezas e gozos do mundo. Parece que lhe faleciam as forças para tamanho sacrifício.

Uma noite, estando de caminho à igreja, chega-se a ele um pobre e pede-lhe uma esmola por amor de Deus. O jovem instintivamente mete a mão no bolso. Está vazio. Saíra de casa sem uma moeda sequer. Mas não hesita. Sem perda de tempo desata um cinturão de seda bordado de filigranas de prata, e entrega-o ao pobre. Este agradece o rico presente e continua o seu caminho. 

Chegando à igreja de Nossa Senhora, vai o jovem orar na Capela das Almas e qual não é o seu espanto ao ver o Cristo na cruz cingido com aquele cinturão de seda e filigranas de prata e sorrindo para ele! Desde aquele instante dissiparam-se-lhe as dúvidas sobre a vocação. Sai da igreja e vai seguro bater ao convento dos dominicanos, onde viveu tão santamente que mereceu o título de Beato Jordão de Saxônia.

Tudo que derdes ao pobre recebe-o Jesus Cristo. O Coração divino é medianeiro de vossas moedas. Elas serão o preço com que um dia comprareis o céu.

58. SIGAMOS A LUZ DA FÉ

Hoje vou contar-vos um caso maravilhoso. São Severino, apóstolo da Noruega, pregava a fé cristã entre aqueles povos idólatras. Poucos se convertiam.

Um dia, então, para confirmar a uns e converter a outros, convidou a todos, cristãos e idólatras, para uma assembleia na igreja. Cada um devia trazer uma vela. Quando os viu todos reunidos, com suas velas apagadas nas mãos, o santo bispo ajoelhou-se diante do altar e rezou em voz alta: 'Senhor e Deus verdadeiro, dignai-vos manifestar a estes fieis a luz do vosso conhecimento e fazei-lhes compreender como os que vos conhecem se diferenciam dos que nunca vos conheceram'. Ao terminar a oração, e no mesmo instante, acenderam-se por si mesmas as velas dos cristãos, continuando apagadas as dos idólatras. Esse prodígio converteu à fé cristã aquele povo.

E o prodígio renova-se diariamente. Os incrédulos, os hereges, os inimigos da Igreja passam por este mundo com suas velas apagadas. Demos graças a Deus pela luz da fé e sigamos o caminho que ela nos mostra.

59. O CRISTÃO PRECISA LUTAR

Cipião, o grande general romano, ganhara uma batalha. Descansava do fragor da luta à sombra de uma árvore no campo. Seus soldados rodeiam-no com veneração e carinho. Um deles mostra-lhe com orgulho seu escudo:
➖ Vede - disse ele - esta obra de arte em que o cinzel esculpiu figuras maravilhosas, sendo ao mesmo tempo tão forte que contra ele se partem, como frágeis canas, os dardos dos inimigos.
➖ Muito bonito e muito forte - comentou Cipião - porém, o soldado romano não há de por sua confiança só no escudo, mas principalmente em sua espada.

Grande verdade! Assim deve proceder, também, o soldado de Cristo. O cristão faz bem em defender-se com o escudo da confiança em Deus, mas empunhando sempre a espada da luta. Confiar e lutar! É o único meio de sair vitorioso.

60. O SANTO, A MONJA E AS RÃS

São João da Cruz, grande diretor de almas, estava a discorrer com certa freira sobre assuntos espirituais.
Aquela era urna monjinha leiga, humilde e simples, como se vê pela pergunta infantil que fez ao santo.
➖ Por que será, senhor padre que, quando eu passo perto do poço d’água da horta, as rãs que estão à beira mergulham depressa no poço?

O santo sorriu ao ouvir aquela pergunta tao ingênua e aproveitou a ocasião para dar à monjinha uma lição proveitosa.
➖ Olha, minha filha, as rãs mergulham no poço porque ali buscam sua defesa e segurança; ali não temem os inimigos. Tu podes aprender delas esta lição: quando vires que se aproxima uma criatura que pode te fazer mal, mergulha depressa em Deus e estarás segura e tranquila, pois ninguém poderá então fazer-te qualquer dano.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)