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quinta-feira, 2 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (128/132)

 

128. INCIDENTE NUMA PROCISSÃO

Em Stuttgart (Alemanha), por ocasião da procissão de Corpus Christi, deu-se, faz alguns anos, o seguinte incidente.

Num dos pontos de espera estavam agrupados numerosos espectadores, quase todos protestantes, o que não é de admirar naquela cidade. A ponta da procissão estava a chegar, quando um senhor, metendo-se pelo meio da multidão, foi colocar-se diante de uma senhora de modo que ela não podia ver nada. Zangada, ela exigiu que ele saísse de sua frente. Mas o importuno negou-se, dizendo: 'Sou católico, portanto, tenho o direito de colocar-me na frente para ver passar a procissão dos católicos'.

A dama, sem se desconcertar, replicou: 'Como? O senhor é católico? Então o seu lugar não é aqui. Nós, protestantes, assistimos à procissão, mas vós, católicos, deveis acompanhá-la'. E tanta razão tinha aquela senhora que, nem bem acabara de falar, e o intruso já havia desaparecido.

129. COM DEUS NÃO SE BRINCA

Fazia 120 anos que, em Messina (Itália), não se verificava nenhum terremoto. Os habitantes daquela cidade, não obstante as advertências de pessoas competentes, haviam construído prédios de vários andares, pois julgavam-se muito seguros. Mas eis o que aconteceu.

No Natal de 1908, um jornal socialista local atreveu-se a interpelar ironicamente o Menino Jesus, escrevendo: 'Jesusinho, envia-nos um tremor de terra, se tens força para tanto'. Essa blasfêmia apareceu no dia 26 de dezembro. No dia 28, verificou-se uma catástrofe, como a cidade jamais vira outra semelhante. Em poucos minutos, 60.000 pessoas, isto é, um terço da população, perderam a vida. Irrompeu, além disso, um pavoroso incêndio que destruiu ou danificou quase todas as casas. Assim Deus castigou aquela blasfêmia.

130. MÚSICA DO PARAÍSO

1. Lê-se na vida de Madre Maria de Jesus que ela, com permissão do seu Diretor, confeccionara uma quantidade de disciplinas, cilícios e cintos de penitência, dos quais se servia com tal discrição, que nunca ninguém o descobrira. Uma noite, porém, flagelou-se com tanta violência, que uma irmã ouviu o rumor de seu quarto vizinho, e logo compreendeu de que se tratava, pois também essa piedosa jovem conhecia praticamente a disciplina.

2. Das filhas de Carlos Emanuel I de Saboia, as princesas Maria e Catarina, conta-se que a miúdo se flagelavam com espantosas disciplinas. O que mais se deve admirar, entretanto, é que o rei, tendo notícia disso, não só não lhes proibiu, mas até o aprovou. Um dia, passando junto ao quarto das filhas e ouvindo os golpes da disciplina, disse aos que o acompanhavam: 'Estais ouvindo esta música? Esta é a melodia que mais agrada às minhas filhas. Música verdadeiramente do Paraíso, porque feita de suspiros e com batutas de flagelos, que forma notas de sangue e abre as portas do céu'.

131. DEIXE-ME TOCAR UM POUCO

Numa reunião de cavalheiros e damas figurava, entre outros, o senhor P. Ruf, vigário de Lustenau, notável por sua agudeza de espírito. Eis que, de repente, aparece na sala um velho pobre e cego, conduzido por um seu netinho e começa a tocar sua harpa e a cantar. Os ouvintes notaram que o instrumento estava desafinado e, além disso, a voz do velho era pouco agradável, razão por que estavam na iminência de enxotá-lo da sala. Nesse instante, o vigário Ruf, acercando-se do cego músico, disse-lhe com carinho:
➖ Bom velho, o senhor está bastante cansado, dê-me a sua harpa e deixe-me tocar um pouco.

O vigário sentou-se numa cadeira, afinou o instrumento e começou a cantar uma belíssima ária, acompanhando-a com a harpa. Os presentes, mormente os que nunca o tinham ouvido, estavam cheios de admiração e espanto. O talento do novo tocador ressaltava ainda mais após os sons desagradáveis que pouco antes tinham ouvido. Terminada a ária, choveram os aplausos e pediram ao vigário que cantasse mais uma ária.
➖ Com muito prazer - respondeu ele - mas o senhor, disse, dirigindo-se ao velho, vá recolhendo os donativos.

O cego, conduzido pelo neto, fez o giro pela sala com o chapéu na mão. As moedas de prata caíam abundantes no chapéu e o velho estava comovido e com água nos olhos.
➖ Olha, vovô, nem durante todo o mês  ajuntamos tanta esmola como hoje - dizia o netinho.
Ambos, avô e neto, não se cansavam de agradecer as ricas ofertas que receberam e beijavam afetuosamente a mão do bom vigário. Quanto aos circunstantes, não houve um que não elogiasse o talento do vigário Ruf e mais ainda o nobre uso que soube fazer dele.

132. UMA BOA AÇÃO FAZ MUITO BEM

Um dia, um estudante universitário encontrou num bosque perto de Viena uma pobre velha, que, curvada sob o peso de um feixe de lenha, ia caminhando com muita dificuldade.
➖ Boa velhinha - disse o estudante - deixe-me carregar um pouco o seu feixe de lenha.

E, tomando o feixe, levou-o até a casa da pobre velha, a qual, muito comovida com a bondade do moço, perguntou-lhe:
➖ E, agora, meu senhor, quanto lhe devo?
➖ Reze por mim um Pai-Nosso, boa velhinha - foi a resposta.
➖ Sim, sim, eu o farei - respondeu ela - e esse é o primeiro Pai-Nosso que vou rezar, depois de uns 20 anos! 
Não se espante, meu senhor, as minhas contínuas desventuras, os desprezos recebidos de tanta gente, haviam-me afastado de Deus, mas o senhor, com a sua caridade, tocou-me o coração e me fez começar de novo a rezar.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (124/127)

 

124. ESTES RÉUS SOIS VÓS!

Em Paris, onde se deu o caso, estava sentado no banco dos réus um jovem de dezessete anos apenas. Ele agredira e matara traiçoeiramente uma pobre velha para roubar-lhe cinco francos, mísera economia que ela guardava.
Emílio Gaudot - disse-lhe o presidente do Tribunal - se tivesses sabido que Rose Mercié tinha somente cinco francos, tu a terias matado?
➖ E por que não? - respondeu o acusado com cínica indiferença. A mim que me importa uma velha carcaça de mais ou de menos no mundo?
Ouvindo essa resposta tao revoltante, o Presidente exclamou:
➖ E quem foi que te ensinou tamanha malvadeza?
➖ Sei eu lá quem foi? - respondeu ainda mais cinicamente o jovem.

Mas o que não soube dizer o acusado, disse-o magnificamente o seu advogado. Saint-Appert, o defensor, dirigindo-se aos circunstantes, diz:
➖ O meu oficio, senhores, é muito fácil: o acusado é réu plenamente confesso, não há nenhuma defesa a fazer. Mas, se não posso defender diretamente o meu cliente, sinto-me, todavia, no dever de acusar outros que são mais réus do que ele. Esses réus, senhores, sois vós, que aqui representais a sociedade que se vê obrigada a punir as culpas, que a sua incúria e a sua corrupção não soube prevenir. Vejo diante de mim e saúdo reverentemente a imagem do Crucifixo. Ele está aqui no vosso pretório, onde condenais os réus; mas por que essa imagem não está também nas escolas, onde se ensinam e educam os meninos? Por que punis sob os olhos de Deus, se vos esforçais por expungir dos livros escolares até o nome desse mesmo Deus? Se a Gaudot tivesse sido mostrado o Crucifixo, quando se assentava nos bancos da escola, ele não se assentaria agora no banco dos réus e da infâmia. Quem disse jamais na escola a esse jovem que existe um Deus, que há uma justiça futura? Quem jamais lhe falou da alma, do respeito ao próximo, do temor de Deus? Quem lhe ensinou o mandamento do Decálogo: Não matarás? Em que livros oficializados se encontram estas verdades? Abandonado as suas paixões, este jovem viveu como uma fera no deserto, e agora esta sociedade quer matá-lo como a um tigre, quando o podia ter amansado como um cordeiro. Sim, sois vós, senhores, que eu acuso... vós que espalhais entre o povo a incredulidade e a pornografia, e ainda vos maravilhais de que o povo vos responda com crimes e com a decadência moral. Condenai o meu cliente, que para isso tendes direito; mas eu vos acuso, porque tal é o meu dever.

Este advogado disse grandes verdades. Todos os que têm estudado a fundo o espantoso fenômeno da delinquência da juventude hodierna estão de acordo em afirmar que as suas causas principais são a ignorância religiosa e o pestífero ambiente em que vivem. Precisamos, pois, de livros escolares que ensinem a fé e a moral cristãs, e não as fábulas e historietas de mau gosto, em que a juventude nada tem a aprender.

125. TAMBÉM ELE FAZIA PENITÊNCIAS

O professor Dr. Contardo Ferrini, às vezes, passava da conta ao fazer as suas penitências, usando cilícios e cadeias com pontas de ferro. Depois, ajoelhando-se humildemente aos pés de seu confessor, perguntava:
➖ Meu Padre, posso castigar, o meu corpo até ao sangue?
➖ Somos depositários e não donos de nosso corpo - respondia-lhe o ministro de Deus. É preciso usar de prudência, professor, por causa das graves obrigações de seu ministério.
Desde jovem estudante já usava Ferrini um pequeno cilício que, por motivo de saúde, um confessor lhe proibiu.

126. TENHO MEDO DAS CONTAS...

No século passado vivia na Westfália um velho e pio sacerdote. Cada dia, ao por do sol, dirigia-se ao cemitério onde recitava um terço, pelas almas do purgatório. Quando, certa vez, um amigo lhe perguntou por que fazia aquela visita todos os dias a tarde, o velho pároco deu esta bela resposta: 

'Faz muitos anos que sou vigário desta freguesia e quem sabe se por, negligência minha (ou porque não dei bastante exemplo, ou porque não fiz quanto devia fazer), causei dano aos que agora talvez estejam penando no purgatório, enquanto seus corpos repousam debaixo desta terra fria. Tenho medo das contas, que hei de dar a Deus depois de minha morte. Esta é a razão por que, todos os dias a esta hora, venho rezar aqui, a fim de expiar, por este ato de caridade para com as almas, as faltas que posso ter cometido'.
Exemplo comovente e digno de imitação.

127. MISSA PELO ESPOSO FALECIDO

Santa Matilde, esposa do imperador Henrique e mãe de Otão Magno, quando recebeu a noticia da morte de seu marido, acontecida numa expedição guerreira, a primeira coisa que fez foi ajoelhar-se aos pés do Crucifixo e rezar por ele.

Chegado o cadáver, a santa imperatriz levou os três filhos à câmara ardente, mandou que eles se ajoelhassem bem perto dos despojos do pai, e disse-lhes: 'Meu filhos, lembrai-vos de que, se tendes direito de subir ao trono do vosso pai, um dia descereis também ao túmulo como ele'.

E mandou chamar imediatamente um sacerdote que, naquele mesmo dia, celebrou pela alma do imperador. Grande foi a satisfação da imperatriz, entre as lágrimas pela perda de seu marido, por se ter encontrado um padre ainda em condições de rezar a santa missa de corpo presente.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 6 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (116/123)

 

116. UM DUELO E UMA CONVERSÃO

O professor Parrini, homem de grande talento, era infelizmente maçon, havia muitos anos. Comprometera-se por escrito a não receber o sacerdote mesmo em caso de grave enfermidade; e no seu testamento ordenara que se lhe fizessem funerais civis exclusivamente.

Ora, sucedeu que Parrini, durante um duelo, recebeu vários ferimentos. Quando percebeu a gravidade de seu estado, imediatamente mandou chamar o pároco, pois queria reconciliar-se com Deus. Em presença das testemunhas renunciou à maçonaria e retratou seus escritos contra a religião e a Igreja.

Recebeu, depois, os sacramentos com uma piedade que edificou a todos. Tendo osculado afetuosamente o Crucifixo, declarou que reconhecia a Jesus Cristo como seu único consolador e sua única esperança, e expirou. A explicação desta inesperada conversão é a seguinte: Parrini nunca passava um dia sem rezar, ao menos o De profundis pelas almas do Purgatório.

117. GOUNOD E A SANTA MISSA

O célebre compositor Gounod, que fora educado num seminário, nunca deixou de ser católico praticante. Quando, em seus últimos anos de vida, veraneava na chácara de seu amigo Charbrier, caminhava diariamente dois quilômetros a pé para ouvir a missa, na igreja mais próxima.

Um dia, enquanto esperava, sentado num banco, que começasse o Santo Sacrifício, notou que faltava coroinha. Levantou-se, pediu licença ao padre para substituir o coroinha e ajudou a missa com muita edificação de todos os presentes.

118 - 123. O MENINO JESUS NA HÓSTIA

1. Certo pároco de Moneada (Espanha) andava atormentado por escrúpulos. Temia que a sua ordenação sacerdotal tivesse sido inválida e que, por isso, as suas palavras na consagração fossem ineficazes. Nosso Senhor quis restituir-lhe a paz da alma por meio de um milagre. Uma menina de cinco anos, ao assistir às missas desse pároco, da consagração até a comunhão, via na Hóstia um belíssimo menino. Ciente disso, o sacerdote colocou sobre o corporal três hóstias, mas consagrou somente duas; à hora da comunhão consumiu uma e deixou a outra ao lado da hóstia não consagrada. Chamou em seguida a menina que lhe apontou exatamente a hóstia consagrada, dizendo-lhe que naquela via o Menino e na outra não.

2. São Lourenço Justiniano era devotíssimo da Santíssima Eucaristia e a sua fé profunda na presença real de Jesus na hóstia consagrada manifestava-se especialmente enquanto celebrava o santo sacrifício, na devoção angélica e nas copiosas lágrimas que derramava, edificando grandemente a todos que o viam ao altar. Não raro quis Deus recompensar-lhe a fé e devoção com fatos prodigiosos. Uma vez, por exemplo, na noite de Natal, quando celebrava a santa missa, pode contemplar na Hóstia santa um belíssimo Menino.

3. Em 1924, estavam um dia os deputados da República da Colômbia reunidos na Câmara, quando ouviram o som de uma campainha que anunciava a passagem de uma procissão em que se levava o Sagrado Viático a um enfermo. Fez-se no recinto da Câmara profundo silêncio e os deputados puseram-se em pé e permaneceram em respeitosa atitude até que a procissão acabou de passar.

4. Os protestantes, separando-se da Igreja Católica, perderam o sacerdócio e a Eucaristia instituída por Jesus Cristo. Certo dia, um visitante, entrando na esplêndida catedral protestante da Basileia (Suíça), descobriu respeitosamente a cabeça. O guia, estranhando esse gesto, disse: 'O senhor não precisa descobrir-se, porque aqui não está ninguém'. Tinha razão; nos templos protestantes Jesus não está.

5. A beata Joana Maria Bonomi, contando somente cinco anos de idade, ao assistir à missa de um neo-presbítero viu, no momento da consagração, como dois anjos erguiam a Hóstia resplandecente de luz.

6. Um missionário encontrou-se, certa manhã, bem cedinho, com uma menina que voltava da igreja. Depois de dizer-lhe: 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo' e ela responder: 'Para sempre seja louvado', perguntou-lhe:
➖ Minha filha, você vai à missa todos os dias?
➖ Sim, senhor Padre, todos os dias, tanto no verão como no inverno.
➖ Mas, minha filha, você mora longe da igreja; não acha que é muito sacrifício fazer cada dia essa jornada tão fatigante?
Ao que ela respondeu com grande candura:
➖ Senhor Padre, é por amor de Jesus que eu faço isso, porque Ele bem o merece.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (111/115)

111. A PAZ DE CONSCIÊNCIA

A beata Angela de Foligno, em sua mocidade, caíra em faltas graves, das quais não se confessara bem por vergonha. Fez até comunhões sacrílegas. Mas, como os remorsos não a deixavam em paz nem de dia nem de noite, recorreu a São Francisco de Assis para que a fizesse encontrar um confessor ao qual pudesse abrir todo o seu coração.

À noite, apareceu-lhe o santo, sob a figura de um velho venerando, e disse-lhe:
➖ Minha irmã, há mais tempo haveria lhe ter concedido essa graça, mas não a pediste. Amanhã bem cedo encontrarás o confessor que procuras.

De fato, o santo a fez encontrar um ótimo confessor, ao qual pode abrir francamente o seu coração, embora com grande pejo e muita humilhação. A oração fervorosa obteve-lhe a graça de uma santa confissão, a doce paz da consciência, muitas consolações na vida e o gozo eterno no céu.

112. O PECADOR PRECISA VOLTAR A DEUS

Um taverneiro, havia anos, andava com a consciência sobrecarregada por vários pecados. Tocado pela graça divina, pensou em sair desse triste estado, recorrendo ao Pe. Hofreuter, sacerdote experiente na arte de reconduzir a Deus os pecadores. Não quis perder tempo. Selou o cavalo, montou e partiu.

Estando já à porta da casa paroquial, sentiu-se tomado de vergonha e faltou-lhe coragem para bater. Mas, eis que, por disposição de Deus, naquele momento apareceu o padre, que em tom afetuoso disse ao taverneiro: 'O senhor vem para confessar-se, não é mesmo? Entre, que estou aqui para atendê-lo'. Depois de ter feito uma boa confissão, o taverneiro montou a cavalo e, com o coração aliviado, dirigiu-se ao animal: 'Agora, a galope, meu cavalinho, pois que levas cem quilos a menos'.

Seis anos depois, acabando de receber os últimos sacramentos em seu leito de dores, dirigiu-se ao novo vigário, dizendo: 'Peço-lhe ainda um favor. Depois da minha morte, mande dizer ao Pe. Hofreuter que, depois daquela confissão que fiz com ele, nunca mais cometi pecado mortal ou venial voluntário'.
Cem quilos de menos sobre a consciência! Sim; após uma confissão bem feita, que alívio!

113 - 115. OS SACERDOTES DO ALTÍSSIMO

1. Achando-se de passagem em Quito (Equador), um humilde frade foi visitar o célebre Presidente Garcia Moreno, grande estadista e fervoroso católico. Estando ainda à entrada do palácio, logo que viu o Presidente descobriu-se e conservou o chapéu na mão.
➖ Cubra-se, Padre - disse García Moreno.
➖ Um pobre frade - respondeu o outro - não pode cobrir-se em presença do senhor Presidente.
➖ Padre - replicou Garcia Moreno, pondo-lhe o chapéu na cabeça - que é um Presidente do Equador em comparação a um sacerdote do Altíssimo?

2. A mãe do célebre Cardeal Vaughan era uma convertida do protestantismo. Durante 20 anos, sem interrupção, consagrava uma hora por dia a visitar o Santíssimo Sacramento. Que é que pedia ela a Jesus nessas visitas? Sabendo muito bem que a vocação ao sacerdócio é um dom especial de Deus, e querendo para seus filhos tamanha graça, oferecia a Jesus suas visitas e os desejos ardentes de seu coração maternal. Jesus na Eucaristia ouviu as suas preces.

Dos oito filhos homens, que recebera de Deus, seis se tornaram padres e um deles chegou a ser cardeal com grande aplauso e veneração de todos os católicos ingleses.

3. São Clemente Maria, apóstolo e patrono de Viena, de família humilde e órfão de pai, sentia imensos desejos de ser padre. Precisando ganhar o sustento para sua mãe e irmãos, aos dezesseis anos empregou-se numa panificação. Quando saía pelas ruas com a cesta de pão nos braços e o filhinho de seu patrão no ombro, ouvia dizer: 'Olhem o São Cristovão!'
➖ Oxalá eu o fosse mesmo e tivesse a felicidade de tomar o Salvador em minhas mãos!

Trabalhava e estudava, porque havia de ser padre. Indo a Roma com um amigo, bem cedinho entraram numa igreja. Ali perguntou Clemente a um menino:
➖Que Padres são esses?
➖ São Redentoristas e o senhor será um deles.
E assim foi. Em 1785, Clemente celebrou a sua primeira santa Missa, e foi sempre um padre segundo o coração de Deus. Faleceu em Viena em 1820 e foi canonizado pelo Papa São Pio X.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 5 de maio de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (105/108)

 

105. CASTIGADO POR TER MENTIDO

O profeta Eliseu, que curou milagrosamente da lepra a Naamã, não quis receber do general nenhum presente.
Mas Giezi, criado do profeta, impelido pelo amor do dinheiro, foi atrás de Naamã, que regressava ao seu país, e disse-lhe que Eliseu, seu amo, mandava pedir-lhe um talento de prata e algumas roupas para dois hóspedes que acabavam de chegar. Ora, o profeta não mandara pedir coisa alguma. Por isso, em castigo dessa mentira, Giezi ficou coberto da mesma lepra de que Naamã ficara limpo.

106. FIRME COMO UMA COLUNA

Vivia em Siracusa, no terceiro século do cristianismo, uma rica e graciosa jovem chamada Luzia. Os dons da natureza de que estava adornada eram nada em comparação com os belos dotes de sua alma. Pura como um anjo, humilde, modesta, mansa, caridosa, cativava a todos que dela se aproximavam.

O cristianismo atravessava, naquela época, dias difíceis, e professar a fé em Jesus Cristo era considerado um crime digno de morte. Reconhecida como cristã, Luzia foi conduzida à presença do governador Pascásio, tristemente célebre por sua ferocidade contra os cristãos. O tirano, após várias perguntas, vendo que a donzela lhe respondia sempre com imperturbável coragem, disse-lhe com ar de mofa:
➖ Quando fores espancada, então te calarás.
Luzia replicou:
➖ Aos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo não faltarão palavras, quando estiverem diante dos juízes, porque Ele disse que, em tais ocasiões, o Espírito Santo, que receberam, falará por eles.
➖ Então, o Espirito Santo está em ti?
➖ Sim; todos os que levam vida casta e pura são templos do Espírito Santo.
➖ Pois bem; eu te farei cometer um pecado feio para que o Espírito Santo saia de ti.
➖ Isso não está em teu poder. Se eu não consinto, a tua violência brutal só me pode proporcionar uma dupla coroa.

Pascásio, cheio de ira, ordenou aos algozes que a arrastassem a um lugar de pecado. Mas, naquele instante, manifestou-se claramente a virtude do Espírito Santo que estava na casta donzela. Os esbirros não conseguiram removê-la, pois uma força invisível tornou-a imóvel como uma coluna. O tirano teve de mandar matá-la ali mesmo.

107. RICOS COLARES E BRILHANTES COROAS

Conta Rufino que um dos antigos Padres do deserto viu, certa vez, estando em êxtase, uma multidão incontável de santos na glória do Paraíso. Todos eram de uma beleza incomparável; mas havia uma legião de bem-aventurados que brilhavam mais que os outros e tinham ao pescoço ricos colares e na cabeça brilhantes coroas. Indagou qual fosse a causa daquela diferença e foi-lhe respondido que aqueles bem-aventurados tão distintos dos outros eram os que, seguindo os conselhos evangélicos de perfeição, tinham renunciado ao mundo por amor de Jesus Cristo. Foi-lhe explicado, além disso, que a coroa de ouro, que os adornava, era a recompensa da perfeita obediência.

108 - 110. AI DE QUEM É INFIEL A VOCAÇÃO!

A hagiografia religiosa oferece-nos exemplos salutares e impressionantes sobre este assunto.

1. Vivia na pequena Casa da Divina Providência nos tempos de São José Cottolengo, uma religiosa, que, recobrada a saúde após uma enfermidade, resolveu voltar para sua família. Manifestou esse propósito ao Pe. Cottolengo, o qual ficou muito aflito e empregou toda a sua paternal bondade e eloquência para demover a infeliz de tal propósito. Mas nem as insinuações mais suaves, nem os conselhos mais persuasivos e argumentos mais convincentes, e nem mesmo as ameaças de castigos divinos conseguiram fazê-la voltar atrás. 

A infeliz fazia-se de surda a tudo e terminou por dizer que partiria de qualquer forma. Então o santo, com semblante sério e ameaçador, disse-lhe com pesar e amargura: 'Se queres absolutamente ir embora, eu não te posso segurar, mas lembra-te do que te digo: não passarão três meses e tu serás traspassada a fio de espada'.

Foi uma profecia. Três meses depois, o cadáver da infeliz foi encontrado todo retalhado e horrivelmente deformado bem perto da sua casa. Fôra vítima de sua leviandade, do ciúme de alguns militares e da falta de correspondência à graça da vocação religiosa.

2. Um jovem entrara no Instituto fundado por São Camilo de Lellis. Depois de alguns anos, cedendo à tentação do demônio, obstinara-se no propósito de abandonar o convento e voltar á vida civil. São Camilo, tendo empregado tudo para segurá-lo na vocação e vendo baldados todos os seus esforços, predisse-lhe que teria um fim tristíssimo e morreria nas mãos da justiça. Nove anos mais tarde, aquele perjuro foi decapitado no meio da praça, em Nápoles.

3. Na vida de Santo Afonso Rodriguez, jesuíta, lê-se que este grande servo de Deus se entregou às mais rudes penitências e fervorosas orações para obter do céu que um noviço, seu confrade, vencesse umas fortíssimas tentações que experimentava contra a vocação.

Nosso Senhor revelara ao santo que, se o noviço deixasse a vida religiosa, os demônios o lançariam no abismo da perdição eterna; e não somente a ele, mas também aos pais dele que empregavam toda sorte de estratagema para o fazer retornar à família.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 25 de abril de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (101/104)

 

101. ASSUNTO PARA MEDITAR

O padre Pedro Fabro, varão insigne da Companhia de Jesus, tinha granjeado fama de grande diretor de almas. Um dia procurou-o um cavalheiro e pediu-lhe algum assunto para meditar. O padre respondeu:
➖ Meu filho, basta que faças o seguinte: cada dia pensa por alguns instantes - Cristo em tanta pobreza e eu vivendo em tamanha opulência! Cristo sofrendo fome e sede, e eu gozando de tantos banquetes! Cristo desnudo e eu ricamente vestido! Cristo padecendo horríveis dores e eu no meio de tantas delícias!
➖ Nada mais, padre?
➖ Nada mais que isso.

O cavalheiro retirou-se um pouco desiludido. Entretanto, poucos dias depois, convidado a um jantar, no meio dos manjares suculentos, dos vinhos seletos e da música, no auge, enfim, da alegria, vem-lhe de repente o pensamento: Cristo com fome e sede e eu aqui a fartar-me e a embriagar-me como bruto... Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, levantou-se em silêncio e retirou-se para um convento a fazer penitência. 

Eu aqui... e Cristo na Cruz! Se estiveres lendo um mau livro quando, sobre o céu claro de tua alma, amontoam-se nuvens negras de paixões e imaginações perigosas, pensa: Cristo na Cruz, e eu! Quando estiveres mergulhado em teus negócios ou em conversas mundanas - sanguessugas chupadoras do sangue ou da honra do próximo, pensa: Eu a pecar... e Cristo na Cruz! Se tens coração, se ainda te resta um pingo de fé, basta essa meditação para mudares de vida.

102. LÁGRIMAS DE MÃE

Houve, em tempos idos, um condezinho muito bom, que fôra educado por uma mãe santa. Inculcara-lhe ela uma grande e terna devoção à Virgem Santíssima, cujo escapulário trazia sempre consigo, ensinando-o a chamar Nossa Senhora de mãe. Estes dois amores, à mãe do céu e à da terra, cresceram no coração do condezinho como duas âncoras de salvação que haviam de salvar o mesmo navio.

O jovem foi enviado a uma corte estrangeira. Ali perverteu-se, enfraqueceu-se a sua fé, tornou-se muito mau. Não abandonou, porém, o piedoso costume de ajoelhar-se todas as noites diante da Santíssima Virgem, para rezar as três Ave-Marias, repetindo com fervor: 'Não me abandoneis, minha Mãe! Minha Mãe, não me abandoneis'.

Um dia, tomando parte numa caçada com um amigo infame que o pervertera, foram surpreendidos por uma tempestade e tiveram que pousar numa estalagem. O conde, após a sua oração cotidiana à Santíssima Virgem, adormeceu logo. Pouco depois, começou a sonhar que se achava perante o tribunal de Deus. Uma alma acabava de ser condenada, e ele viu que era a sua que estava sendo conduzida pela própria consciência para ser julgada. Viu também sua mãe de joelhos pedindo misericórdia para ele.

Lúcifer lançou na balança os pecados do jovem conde. A balança caiu até o abismo; os anjos cobriram o rosto com suas grandes asas e Lúcifer deu um grito de triunfo. A alma estava perdida! Foi então que apareceu Maria, a qual, prostrando-se aos pés do Senhor em posição suplicante ao lado da condessa, colocou no outro prato da balança as Ave-Marias do conde e mais as lágrimas da condessa. Nada adiantou. Então a Virgem volveu os olhos para o juiz e duas lágrimas suas caíram no prato da balança, onde estavam as lágrimas da condessa-mãe. A balança cedeu imediatamente. As lágrimas das duas mães salvaram aquele pobre filho!

Um trovão horrível despertou o jovem conde. A dois passos dele, viu então, no outro leito, o cadáver de seu amigo carbonizado.

103. NOBRE E ALTIVA RESPOSTA

Numa perseguição religiosa na China, foi preso e conduzido à presença do mandarim um moço cristão, chamado Paulo Moi. O magistrado, fortemente impressionado com a fisionomia gentil e graciosa do jovenzinho, empregou todos os esforços para faze-lo apostatar da fé.

Vendo que tudo era inútil, ofereceu-lhe como prêmio uma barra de prata para renunciar à fé cristã.
➖ Obrigado, mandarim - disse Paulo, mas uma só barra não basta.
➖ Bem; eu te darei então uma barra de ouro.
➖ Ainda não basta.
➖ Quanto desejas, então, miserável?
➖ Grande mandarim, se desejais que eu renuncie à minha fé, deveis dar-me o que vale a minha alma e, para isso, todo o teu ouro é pouco.
Alguns dias depois, Paulo foi decapitado. Preferiu perder a sua vida a perder a sua alma.

104. CORAGEM CRISTÃ

Santa Blandina, mártir de Liao (177), era uma menina cristã de constituição física muito delicada. No humilde emprego de criada, praticava as mais belas virtudes, copiando em sua vida o divino modelo Jesus Cristo.

Numa perseguição, foi presa com sua patroa e submetida aos mais cruéis tormentos. Conduzida ao tribunal, confessou a sua fé alegremente e com redobrado vigor, repetindo muitas vezes estas palavras:
➖ Eu sou cristã; entre nós cristãos não se cometem os delitos de que nos acusais.

Depois que foi flagelada sem piedade e obrigada a sentar-se num banco de ferro em brasa, meteram-na numa rede e deixaram-na à mercê de um touro furioso que com os chifres a atirou repetidas vezes ao ar. Finalmente, a heroica menina foi degolada.
Os próprios pagãos confessavam jamais ter visto uma criatura tão frágil sofrer com tamanha coragem e resistência.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 11 de abril de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (97/100)

 

97. OS TRÊS CORAÇÕES

São Bento Labre (que passou a vida como mendigo e morreu em Roma em 1783), visitando uma vez um doente, ensinou-lhe quais as ofertas que agradam a Deus. Dizia assim o santo: 

'Seria preciso possuir três corações para oferecer-lhe num só coração. O primeiro todo fogo por Deus, isto é, cheio de amor para com ele; o segundo todo de carne, isto é, cheio de compaixão para com o próximo e inclinado à oração frequente; o terceiro todo de bronze para conosco, isto é, forte contra as paixões (mormente contra a sensualidade) e inclinado a castigar o próprio corpo com a mortificação'.

Estes três corações são a melhor oferta que cada um de nós pode fazer a Jesus.

98. NÃO SE DEVE ADIAR A VOCAÇÃO

Um jovem, sentindo-se chamado por Deus à vida de perfeição, resolveu tomar o hábito religioso e entrar num convento. Passado algum tempo, pôs-se a dizer consigo (certamente tentado pelo demônio): Sou muito moço ainda, tenho saúde, sou robusto e teria de passar a vida fora do mundo e a fazer continuas penitências? Não; vou deixar isso para mais tarde; a morte está longe, não virá tão cedo!
E ficou no mundo... Mas, quanto durou sua vida?
Quatro meses apenas... e, morrendo, o infeliz não conseguía ter paz nem sossego.

99. COMO MORRERAM ALGUNS HERESIARCAS

Ario, que fez tão grande dano à Igreja com os seus erros, enquanto passava triunfante pelas ruas de Constantinopla, foi atacado de improviso mal-estar e imediatamente perdeu a vida do modo mais horrendo.

Lutero, celebrado autor do protestantismo, morreu entre dores atrozes após uma vergonhosa indigestão. Calvino, outro heresiarca, contemporâneo de Lutero, morreu chamando os demônios, amaldiçoando a si próprio, enquanto de suas chagas escorria pus. 

Finalmente, para nomear só estes, eis como terminou Voltaire a sua vida depravada. Na última hora pediu com insistência um padre para confessar-se; mas os amigos (melhor diríamos os inimigos) que o rodeavam não permitiram que o padre se aproximasse daquele infeliz, que, desesperado, expirou entre dores atrozes.

Assim tratou o grande Rei do Céu e da terra todos aqueles que, além de não ouvirem os seus ministros, ainda se tornaram os seus perseguidores.

100. O CARNAVAL E OS SANTOS

São Francisco de Sales dizia ser o carnaval o tempo de suas dores e aflições e, naqueles dias, fazia o retiro espiritual para reparar as graves desordens e o procedimento licencioso de tantos cristãos.
São Vicente Ferrer dizia que o carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição.
O Servo de Deus João de Foligno dava ao carnaval o nome de vindima do diabo.
Santa Catarina de Sena, referindo-se ao carnaval, exclamava entre soluços: 'Ó que tempo diabólico!'
São Carlos Borromeu dizia jamais poder compreender como cristãos tenham podido conservar tal perniciosíssimo costume do paganismo.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 30 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (93/96)


93. O CRUCIFIXO DO PROFESSOR DA UNIVERS1DADE

Não faz muitos anos, após uma lição teórico-prática na Policlínica de Nápoles, um grupo de estudantes de medicina estava a prosear em frente ao quarto de um dos mais notáveis assistentes do professor Durante. O jovem doutor, ao entrar no quarto, deixara a porta aberta e, logo, alguns estudantes, lançando um olhar curioso para o interior, viram à cabeceira do leito do professor um grande Crucifixo.

Alguns deles, imbuídos de preconceitos, riram-se e perguntaram ao professor: como podia ele, um sábio, tolerar aquela imagem à cabeceira do leito. O jovem doutor, com semblante carregado, respondeu:
➖ Não tolero coisa alguma; o Crucifixo está ali porque eu o quero e ali o coloquei com minhas próprias mãos. Se isso faz rir aos néscios, ali ao lado colocarei também a imagem de Nossa Senhora. Meus amigos, estudai e sede mais inteligentes. Adeus!

A esta bem acertada lição, os estudantes emudeceram e retiraram-se corridos. O professor, homem de convicções e de coragem, é um exemplo digno de imitação.

94. NÃO SE IMPACIENTOU

Filipe II, rei da Espanha, passara várias horas da noite a escrever longa e importante carta ao Papa. Apenas a tinha concluído, passou-a ao seu secretário para que a timbrasse e a colocasse na sobrecarta. O secretário, que não estava bem acordado, em vez do timbre, entornou sobre a carta um tinteiro de tinta.

Quando notou o que fizera, ficou horrorizado. O rei, porém, não se impacientou e, como se nada tivesse acontecido, disse: 'Dê-me outro papel de carta, que a escreverei de novo'.

A mesma calma e admirável paciência manifestou o mesmo rei Filipe no dia da sua coroação. Um soldado da guarda, talvez por ser bastante desajeitado, quebrou três lampadários que estavam ao lado do trono real. Todo o óleo caiu sobre as vestes preciosas do rei e da rainha. O soberano, no entanto, com rosto alegre, exclamou: 'Isto é um bom augúrio de que, sob o meu reinado, haverá a unção da paz e a abundância de todo o bem'.

95. CRISTO RESSUSCITOU!

Em 1918, fui testemunha de um fato estupendo que me impressionou. Por ocasião da Páscoa, os bolchevistas de Petrogrado organizaram a sua propaganda ateísta. Spitzberg, o mais hábil e enérgico dos oradores comunistas, expunha com muita ênfase as provas da impossibilidade da Ressurreição de Jesus Cristo.

Para se compreender melhor o que se deu então, é preciso saber que, durante a semana da Páscoa, os russos tem o costume de saudar-se, dizendo: 'Cristo ressuscitou!', ao que o outro responde: 'Ressuscitou verdadeiramente!'. É um uso antigo, geral, comovente.

Spitzberg, o orador comunista, falava com vivacidade, fazia-se de espirituoso e alcançava sucesso. Interrompiam-lhe o discurso risadas e aplausos. Suas últimas palavras foram acolhidas com uma salva de palmas. Então, no fundo da sala, ergueu-se um venerando sacerdote, com uma cruz de ouro sobre o peito. Dirigindo-se ao presidente da assembléia, disse:
➖ Peço licença para responder ao orador.
➖ Sim - respondeu o outro mal-humorado, mas sede breve, cidadão, pois dou-vos apenas cinco minutos.
➖ Obrigado! Gastarei menos de cinco minutos.

Subiu à tribuna, fez o sinal da cruz, beijou com devoção sua cruz de ouro, fez uma profunda inclinação ao auditório e pronunciou com voz clara e firme a saudação: 'Cristo ressuscitou!'. 'Ressuscitou verdadeiramente!', respondeu em coro a assembléia, isto é, aqueles mesmos que acabavam de ouvir e aplaudir o orador do ateísmo.

O prelado abençoou a multidão, fez uma inclinação profunda, desceu da tribuna e saiu. Ninguém ousou molestá-lo. O efeito, porém, do discurso de Spitzberg estava irremediavelmente abalado. Sejamos também nós cristãos corajosos, pois é assim que se deve responder à impiedade.

96. MEU FILHO É MAIS DO QUE EU

O conde De Bonald, grande sociólogo, polemista e dentista católico, depois que seu filho foi ordenado sacerdote, sempre se descobria para dirigir-lhe a palavra. A alguém que lhe perguntou por que assim procedia, uma vez que o padre era seu filho, respondeu:
➖ É meu dever proceder desse modo, pois meu filho, desde que foi sagrado ministro de Deus, é mais, muito mais do que eu.
Esse seu filho foi mais tarde arcebispo e cardeal de Lyon.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 18 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (89/92)

 

89. VIVA O PAPA!

Há tempos, numa vila da diocese de Milão, realizou-se a benção da bandeira de um Círculo de Jovens Católicos. A vila estava então dominada pelos vermelhos, sempre velhacos e prepotentes. Os jovens católicos, desafiando as iras do inimigo, saíram da igreja com o seu estandarte erguido e ali, na mesma praça, onde até então ressoara o grito dos anticlericais, fizeram ecoar o grito dos amigos do Vigário de Cristo: 'Viva o Papa!'

Foram agredidos. Defenderam-se galhardamente, mas um deles recebeu uma punhalada na garganta. Conduzido à farmácia, o farmacêutico, antes de fazer o curativo, disse-lhe: 'Durante alguns dias não poderá falar; se tiver algo a dizer, diga-o agora'. O jovem não hesitou um instante e gritou, quanto lhe permitiram as forças: 'Viva o Papa!'

90. PARA O SANTO PADRE

Na época em que a Igreja foi injustamente espoliada dos Estados Pontifícios, algumas nobres damas de Viena promoveram uma coleta do óbulo de São Pedro à porta da igreja de Santo Estêvão. A coisa não agradou a certo senhor anticlerical, o qual quis aproveitar-se da ocasião para desabafar seu ódio mesquinho contra a religião e os seus ministros. 

Passando diante de uma senhora que segurava a salva do óbulo, recusou-se acintosamente a dar-lhe qualquer esmola e, ao invés, voltando-se para uma pobre que mendigava ali ao lado, tirou do bolso uma nota de cem florins e entregou-lhe, dizendo bem alto: 'Isto é para você; prefiro os verdadeiros pobres aos que comem e bebem lautamente e passeiam em carros de luxo'.

A velha mulher ficou por alguns instantes embaraçada; mas, logo, criando coragem, depositou aquele dinheiro na bandeja de uma das damas, dizendo: 'Para o Santo Padre!' e esquivou-se dali, enquanto o anticlerical também se retirava envergonhado.

Presenciara a cena o Conde Chambord, o qual, admirado do gesto daquela pobre mulher, mandou chamá-la e deu-lhe mil florins com suas mais cordiais congratulações. Isso foi uma verdadeira benção para a pobre que morava numa choça e tinha vários filhos a sustentar. Este episódio ensina-nos como devemos amar o Vigário de Cristo e socorrê-lo em suas necessidades.

91. PIO VII E O ALFAIATE

Napoleão I mandara encarcerar o Papa Pio VII em Savona (1809), perto de Gênova. Os soldados da guarda não tinham nenhuma atenção para com o augusto Pontífice, chegando a faltar-lhe até o indispensável.

O venerando ancião, não tendo sequer uma veste decente, pois sua batina branca estava muito rota, pediu-lhes mandassem um alfaiate para a remendar. Mandaram, pois, ao cárcere um alfaiate, o qual, vendo a mísera veste do Papa, ficou muito comovido. E, para que os habitantes da cidade se interessassem pela triste sorte do Pontífice, levou consigo aquela batina veneranda. 

Cada um dos cidadãos queria possuir um fragmento daquela sotaina, como lembrança do Papa. Com as esmolas arrecadadas, pode o alfaiate confeccionar uma esplêndida veste que levou a Pio VII juntamente com o dinheiro que sobrou. O Papa aceitou, agradecido, a batina, mas ordenou que o dinheiro fosse distribuído aos pobres.

Os bons católicos, em todos os tempos, oferecem de boa vontade o seu auxílio para as múltiplas necessidades do Sumo Pontífice.

92. SUBLIME ESPETÁCULO

Quando o Papa Inocêncio II, após o Concílio de Clermont (1131), se preparava para regressar a Roma, julgou não dever abandonar, a França sem dar uma prova de sua gratidão a São Bernardo, visitando com toda a sua comitiva o mosteiro de Claraval. Ali não lhe foram feitos, como em outras abadias, presentes de cavalos, mulas e ricas equipagens; mas a simplicidade toda angélica bem como a terna caridade com que foi recebido agradaram bem mais ao virtuoso Pontífice.

Os monges foram-lhe ao encontro pobremente vestidos, levando à frente uma cruz de madeira tosca e cantando hinos que exprimiam a compunção pela qual estavam dominados. Toda a corte pontifícia ficou edificada com a gravidade e o porte angélico daqueles servos de Deus. Lágrimas de comoção corriam dos olhos de todos os prelados.

Os religiosos, entretanto, aos quais se dirigiam todos os olhares, conservavam os olhos baixos e nada os fez perder o recolhimento. Os visitantes, entrando na igreja e percorrendo o mosteiro, encontraram por toda parte a imagem da pobreza e mudas lições de exímias virtudes. No refeitório, à hora da refeição, foram servidos legumes e pão preto; havia apenas alguns peixes, e dos mais comuns, para o Papa.

Os prelados, contemplando com os olhos da fé aquela pobreza, recordaram-se bem das palavras de Cristo: 'Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu'. Eis, diziam, os pobres que o Altíssimo se compraz de enriquecer de seus dons. Não é, porventura, este abade o grande Bernardo que faz os Papas, aterra os príncipes soberbos, levanta os povos, rege os concílios e os impérios? Ecce sic benedicetur homo qui timet Dominum ['Assim será abençoado aquele que teme o Senhor' (Sl 127,4)].

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 5 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (85/88)

 

85. O PAI DA MENTIRA

Vejam só a que ponto chega a ousadia do demônio. Um dia, estava o bispo São Martinho rezando em sua cela. O espírito das trevas apresentou-se-lhe revestido de vestes luminosas, com uma coroa de ouro na cabeça, e aparentando uns modos tão celestiais que teria enganado a qualquer cristão. 

Por duas vezes disse que era Jesus Cristo; mas, como a humildade é o meio mais eficaz de se descobrirem as artimanhas do capeta, o qual é todo orgulho, Martinho não tardou a reconhecer naquela figura pomposa o diabo em pessoa. Dirigiu-lhe, pois, estas palavras:
➖Senhor Jesus, que é todo humildade, não disse que viria vestido de púrpura, nem coroado com diadema de ouro; por isso jamais considerarei como Jesus Cristo quem não. apresentar os símbolos do Salvador padecente e não trouxer no corpo os sinais da Paixão.

Ouvindo essas palavras o velhaco, o mentiroso, o enganador desapareceu, deixando após si um mau cheiro de enxofre insuportável.

86. POR QUE AS TRIBULAÇÕES?

Certa vez um lavrador, que fizera más colheitas, queixava-se, pensando: 'Se Deus deixasse a mim o governo do tempo, tudo iria melhor; porque, está-se vendo, Ele não entende muito do cultivo da terra'. Deus quis mostrar-lhe quanto estava enganado, e disse:
➖ Por este ano eu te concedo o governo do tempo; terás tudo que pedires.

O ingênuo lavrador quase enlouqueceu de alegria, e disse: 'Agora, quero sol!' E veio o sol. Mais tarde disse: 'Venha a chuva! E choveu quanto ele quis. E ia pedindo: de novo sol; de novo chuva. E assim durante o ano inteiro. A plantação crescia, crescia... que dava gosto vê-la. Agora, sim, Deus pode ver como se governa, pensava o lavrador com uma pontinha de orgulho. Chegou o tempo da colheita. As espigas eram grandes, gordas, uma beleza!... Mas colhendo uma, colhendo outra, colhendo um montão - que desgraça! Todas as espigas estavam chochas, sem nenhum grão, tudo palha.

Daí a pouco vem Nosso Senhor ver a colheita e pergunta ao lavrador:
➖ Então, que tal a colheita?
➖ Muito má, Senhor! Muita palha e pouco grão!
➖ Mas não governastes tu o tempo? Não se fez tudo como desejavas?
➖ Sim, tudo... sempre pedi chuva... pedi sol...
➖ Pois é, e nunca pediste vento e tempestade, neve e gelo, e tudo que purifica o ar e torna resistentes as raízes... e por isso não há colheita!

Também na vida espiritual sem mau tempo não se faz boa colheita. Pedis alegria, riquezas, saúde, bem-estar... As raízes das virtudes não penetram em terra firme e não podem produzir frutos. Sem dor, mortificação, tribulações, não ajuntareis méritos para o céu. É preciso aceitar o que Deus nos envia.

87. AS MULHERES SÃO CURIOSAS?

Papírio Pretextato, então menino de doze anos, foi com o pai ao Senado. Tratou-se ali, provavelmente, de algum assunto importante, porque a sessão se prolongou por muito tempo. Voltaram para casa altas horas. A mãe de Papírio, intrigadíssima e curiosa, chamou o filho à parte e o questionou:
➖ Vem cá, meu filho, diga-me: 'De que é que trataram hoje no Senado?'
O pequeno, temendo o rigor excessivo com que, em Roma, se guardavam os segredos do Senado, recusou-se a dizê-lo. Isso, porém, aumentou mais ainda a curiosidade da mãe. Ela instava o assunto e ele calava-se. 

Afinal, em vista dos pedidos, dos mimos e ameaças, o menino fingiu aceder, e disse-lhe ao ouvido, baixinho:
➖ Mãe, vou contar-lhe o que foi, mas a senhora há de guardar rigoroso segredo.
➖ Pois sim, filhinho; eu me calarei, prometo, diga-me então o que foi?
➖ Foi o seguinte: Houve entre os senadores uma grande controvérsia. Discutiram longamente se seria mais conveniente um marido ter duas ou três mulheres ou se, ao contrário, uma mulher ter dois ou três maridos.
➖ Pois bem... e que é que resolveram?
➖ Não ficou resolvido nada; houve muita discussão e o assunto ficou para ser resolvido amanhã, em votação secreta.
➖ Bem, filhinho, não fique com receio, eu saberei guardar segredo como sempre.

Durante a tarde e à noite, a azáfama dos criados foi enorme. Criados saíam e criados voltavam; recados iam e chegavam a todas as principais damas de Roma, nos seguintes termos: 'Olha, Dona Fulana, venho comunicar-lhe, sob rigoroso segredo, que amanhã o Senado tratará do seguinte assunto..., que já está para ser votado. É absolutamente necessário que nos reunamos e juntas possamos ir ao Senado defender os nossos direitos, certo?'

No dia seguinte, estando os senadores reunidos e entre eles Papírio com o seu pai, de repente entrou um batalhão de senhoras que, sem mais preâmbulos e, em altas vozes, expuseram e defenderam com energia que é mais conveniente que cada esposa tenha dois ou três maridos, e não o contrário... Os senadores se prostaram atônitos.

➖ O que é isto? - diziam, olhando uns para os outros - Estas mulheres enlouqueceram? O que significa tudo isto?
Então Papírio, aproveitando um instante de silêncio, contou-lhes o que se passara com ele no dia anterior e como ele, para guardar segredo e livrar-se das insistências de sua mãe, forjara aquela história. Ela, portanto, traindo o segredo, teria pausado todo aquele alvoroço.

Os snadores riram-se a bandeiras despregadas e as damas, todas bastante envergonhadas, abandonaram o recinto.

88. BOM PARA O CÉU

O piedoso bispo Mons. Tissot gozava na Índia de uma bem merecida fama de santidade, zelo e bondade. Ele próprio contou o seguinte episódio. Um dia, por ocasião de uma entrevista com certo governador, este lhe disse:
➖ Monsenhor, vós e vossos colaboradores sois para mim um enigma.
➖ E por que, senhor? - indagou o bispo missionário.

➖ Vede, monsenhor, disse o inglês: Nós recebemos do governo gordos subsídios e das Sociedades Protestantes enormes somas para a nossa propaganda protestante; os nossos ministros e catequistas ocupam posições invejáveis, as nossas diaconisas são abastadas... e entretanto conseguimos bem pouco! Fazemos alguns prosélitos em tempo de carestia ou de processos: terminada a prova, voltam ao paganismo. Vós, missionários católicos, ao contrário, sois pobres, não tendes tais meios, e, no entanto, as vossas obras prosperaram.
➖ Exatamente, senhor. E é porque nós temos um segredo.
➖ Um segredo?! Confiai-me esse segredo.
➖ Com muito prazer. É o seguinte: dou aos meus missionários e às Irmãs de caridade uma veste pobre, um leito duro, arroz de terceira qualidade... Faço-os levantar-se de madrugada, deitar-se tarde, trabalhar quase sem descanso...

O governador interrompeu-o:
➖ E, todavia, monsenhor, todos perseveram e morrem em seu posto; ao passo que os nossos ministros e as nossas diaconisas não querem demorar-se aqui e estão sempre a pedir para regressar à pátria.
➖ Ah! é verdade, senhor governador; mas, como já vos disse, tenho um segredo. Dou aos meus uma letra de banco, assim redigida: 'Bom para ser recebido no Céu'. Eis, meu caro, o que nós bispos fazemos e que vós não podeis fazer..

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)