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quinta-feira, 26 de março de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A QUARESMA

I. Aproximar-se um pouco mais de Deus quer dizer estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir atentamente as suas inspirações - os santos desejos que faz brotar nas nossas almas - e a pô-las em prática [Forja].

II. Entramos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cômodo; não basta estar na Igreja e deixar que os anos passem. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão - esse momento único, que cada um de nós recorda, em que advertimos claramente tudo o que o Senhor nos pede - é importante; mas ainda mais importantes e mais difíceis são as conversões sucessivas. É preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que corre mal, pedir perdão, para facilitarmos o trabalho da graça divina nessas sucessivas conversões [Cristo que passa].

III.  Reparai nesta maravilha que é o cuidado que Deus tem por nós, sempre disposto a ouvir-nos, atento em cada momento à palavra do homem. Em qualquer altura - mas agora de modo especial, porque o nosso coração está bem disposto, decidido a purificar-se - Ele nos ouve e não deixará de atender ao que lhe pede um coração contrito e humilhado [Cristo que passa].

IV. Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a Fé, a Esperança, a Caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma ocasião de intensificar as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era isso apenas, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses atos externos são frutos da Fé, da Esperança e do Amor [Cristo que passa].

V. É tempo de penitência, pois. Mas não se trata de uma tarefa negativa. A Quaresma deve ser vivida com o espírito de filiação que Cristo nos comunicou e que vive na nossa alma. O Senhor chama-nos para que nos acerquemos d'Ele, desejando ser como Ele: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados, colaborando humildemente, mas fervorosamente, no divino propósito de unir o que está quebrado, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem pecador desordenou, de conduzir ao seu fim o que está desencaminhado, de restabelecer a divina concórdia a todas as criaturas [Cristo que passa].

VI. A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo? Em desejos de santidade? Em generosidade apostólica na minha vida diária, no meu trabalho cotidiano entre os meus companheiros de profissão? [Cristo que passa].

VII. Não podemos considerar esta Quaresma como uma época a mais, uma repetição cíclica do tempo litúrgico; este momento é único; é uma ajuda divina que é necessário aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança [Cristo que passa].

(São Josemaria Escrivá)

terça-feira, 24 de março de 2026

'OLHA PARA O TEU NADA!'

Não possuímos as virtudes, não por ser difícil, mas porque não queremos. Não temos paciência porque não queremos. Não temos temperança porque não queremos. Não temos castidade pela mesma razão. Se quiséssemos, seríamos santos, e é muito mais difícil ser engenheiro do que ser santo. Ah se tivéssemos fé!

Vida interior, vida espiritual, vida de oração: meu Deus, que difícil que isso deve ser! De modo nenhum. Afasta do teu coração o que o perturba, e encontrarás Deus. Com isso, o trabalho está feito. Muitas vezes buscamos o que não existe e, pelo contrário, passamos ao lado de um tesouro que não vemos. É a mesma coisa com Deus, a quem procuramos num emaranhado de coisas, que quanto mais complicado, melhor nos parece. No entanto, levamos Deus dentro de nós, e não o procuramos aí! Recolhe-te dentro de ti mesmo; olha para o teu nada; olha para o nada do mundo; põe-te ao pé de uma cruz e, se fores simples, verás Deus.

Se Deus não está na nossa alma, é porque não queremos. Temos uma tal acumulação de cuidados, de distrações, de tendências, de desejos, de vaidades, de presunções, temos tantas pessoas dentro nós, que Deus se afasta. Assim que o quisermos, Deus enche-nos a alma de tal modo, que é preciso sermos cegos para não o vermos. 

Uma alma quer viver de acordo com Deus? Afaste tudo o que não seja Ele, e está feito. É relativamente fácil. Se o quiséssemos, se o pedíssemos a Deus com simplicidade, faríamos um grande progresso na vida espiritual. Se quiséssemos, seríamos santos, mas somos tão tolos que não queremos; preferimos perder tempo com vaidades estúpidas.

(Excertos da obra 'Escritos Espirituais", de São Rafael Arnaiz Barón)

terça-feira, 17 de março de 2026

'DEIXAI-OS EM PAZ!'

Ó pecadores cegos e obstinados, ouçam-me agora! Abram os olhos, eu lhes imploro! Abandonem o pecado, implorem pela graça do arrependimento. Convertam-se a Deus, e imediatamente! Não esperem até amanhã; pois amanhã, a vossa situação estará ainda mais desesperadora! Ai de mim! Minhas palavras são em vão! Esses pecadores não têm nem audição, nem visão, nem entendimento. Eles podem, de fato, fazer penitência e emendar-se, pois isso nunca é impossível; mas nunca o farão, porque nunca desejarão fazê-lo. 'Deixai-os em paz' - disse Cristo aos seus discípulos a respeito dos fariseus endurecidos - 'eles são cegos'. 

Ó Senhor misericordioso, devemos deixá-los em paz? E o que será deles? Estarão perdidos para sempre. Devemos, então, ficar olhando enquanto eles correm para o inferno, sem estender a mão para salvá-los? Sim, deixem-nos em paz. Deixem-nos ir para a sua destruição, porque são cegos. Não se preocupem mais com eles; qualquer esforço gasto na tentativa de convertê-los é infrutífero; eles são cegos. 'Deixai-nos em paz!' Ó palavras terríveis! Ó palavras que não são palavras, mas sim tempestades de granizo e raios! Deixem os pecadores obstinados em paz! Não há, então, mais esperança de sua conversão? Eles são rejeitados por Deus e condenados ao inferno? Então, tudo o que posso fazer é dizer-lhes: Ai de vós! Tenho pena de vós; tenho pena de vossa condição miserável, de vossas preciosas almas; e, a menos que um milagre da graça aconteça para restaurar vossa visão espiritual, tenho pena de vós por causa da eternidade infeliz que vos espera!

Por fim, tenho uma palavra a dizer a vocês. Espero que nenhum de vocês se encontre nesse estado miserável de cegueira; e este sermão visa apenas ser uma advertência salutar para dissuadi-los de jamais cair nele. Ah, que Deus nos proteja, a vocês e a mim, disso! 'Andem enquanto têm a luz'. Agora, enquanto seus olhos estão abertos, andem com cuidado, observando rigorosamente os mandamentos divinos; trabalhem pela sua salvação com temor, humildade e amor servil a Deus; odeiem e evitem o pecado acima de todas as coisas, tanto quanto puderem. Acima de tudo, nunca criem o hábito de pecar, pois esse é o próximo passo para a obstinação. 

Se vocês já o são - que Deus nos livre! - pecadores habituais, presos por um amor desmedido a qualquer criatura, tomem imediatamente uma resolução heróica e, por meio de penitência rápida, libertem-se desse estado, 'para que as trevas não os alcancem'. Já fizeram penitência? Então, mantenham-se fiéis a ela e certifiquem-se de nunca mais cometer outro pecado mortal. Talvez o próximo pecado que cometerem seja aquele que despertará tanto a ira e a indignação de Deus que, de acordo com seus decretos insondáveis e, ao mesmo tempo, justíssimos, Ele retirará a sua luz de vocês e os deixará na cegueira, presos em seus próprios desejos. 

Digam a si mesmos todas as manhãs e noites: Quantos pecados eu não cometi durante a minha vida? Não é hora de eu deixar de pecar agora? Ah, detestem seus pecados passados e arrependam-se de todo o coração por terem ofendido a Deus. Quantos são aqueles que, embora seus pecados sejam menos numerosos que os seus, estão agora em estado de cegueira ou estão de fato no inferno! Agradeço a Deus por ter permitido que sua consciência os atormente e por não ter retirado sua luz de vocês. Não peçam mais para que, após esta vida, possam chegar ao pleno gozo da felicidade em uma eternidade feliz. Amém.

(Excertos da obra 'The Penitent Christian', do Pe. Francis Hunolt, 1889)

sábado, 14 de março de 2026

DIÁLOGO DO HOMEM DOENTE COM CRISTO CONSOLADOR


O homem doente:

Senhor, o dia avança e o sol já começa a declinar: tuas palavras e a tua graça me sustentaram até esta hora, mas novas provações surgem ao meio-dia e, por assim dizer, torrentes ainda mais intensas de sofrimento. Vejo a agitação da vida a meu redor, ouço sons distantes que me falam dos trabalhos diligentes e úteis dos meus semelhantes. O sofrimento e a fraqueza me obrigam a levar uma vida egoísta, assim como o prazer causa egoísmo nos outros. Esse pensamento me enche de tristeza e humilhação, pois, ó meu Deus, Tu me deste um coração para amar-te e uma vontade de trabalhar para a tua glória e o bem dos meus semelhantes.

Por que sou, então, tão impotente, enquanto anseio por servir-te, ou por que o amor e o anseio espirituais sobrevivem à força para exercê-los? Senhor, apaga este fogo sagrado que arde sem propósito em meu coração e apenas torna ainda mais pesado o fardo de uma vida inútil.

Cristo, o Consolador:

A experiência do sofrimento não te ensinou nada, meu filho? Escuta as minhas palavras e guarda-as no coração. De todas as coisas que o homem deve aprender, a mais oculta e misteriosa é o sofrimento. Por mais terno que seja o coração de um homem, ou por mais apurado que seja o seu instinto, ele nunca compreenderá os sofrimentos alheios, a menos que ele próprio tenha sofrido; falará deles como um cego falaria das cores. Daí a incapacidade comum daqueles que nunca conheceram o sofrimento de consolar aqueles que sofrem. Nada pode suprir essa falta; nem o afeto mais caloroso, nem a devoção mais completa. Somente a experiência pessoal pode derrubar a barreira e nos dar a graça de consolar os outros.

Não sentiste isso muitas vezes, meu filho? Que consolo encontraste em teus momentos de fraqueza por parte daquelas pessoas alegres e prósperas a quem a sorte sorriu ininterruptamente? Muitos deles te amavam de verdade e desejavam sinceramente te ajudar; mas, por mais sábias e gentis que fossem suas palavras, faltava sempre aquela palavra que te traria consolo. Essa palavra misteriosa, essa gota de unção sagrada, nada pode ensiná-la à alma a não ser um conhecimento pessoal do sofrimento.

Essa lei é tão profunda e tão universal que até mesmo Eu, que possuo todo o conhecimento, quis sentir todos os segredos da miséria humana na fraqueza da carne, para que assim pudesse tornar-me para o homem aquele Consolador experiente de quem ele tanto necessita em momentos de angústia. Minha participação em suas dores atrai os homens poderosamente a mim; e quando o fogo da provação se abate sobre eles, não é para a contemplação da minha glória no Monte Tabor que se voltam, mas para a minha Cruz no Calvário. Lá, vendo em meus membros sagrados os sulcos de suas próprias aflições, dizem com confiança inabalável: 'Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa ter compaixão de nossas fraquezas; mas um que, em tudo, foi tentado como nós, sem pecado' (Hb 4,15). Esta ciência do sofrimento é tão importante que nada pode compensar a falta dela. Aquele que não a possui, que tenha cuidado ao tentar lidar com as dores dos outros; mas aquele que a possui pode fazer todas as coisas, pois carrega dentro de si um poder de cura.

Aquele que sofreu, que passou por longos anos de dor e aflição, de ansiedade desgastante, de desânimos secretos, de esperanças frustradas e lágrimas solitárias - tal pessoa, se não recebeu sua alma em vão, deve doravante percorrer o mundo como um sacramento vivo do meu consolo. Tal pessoa não pode deixar de exercer uma influência reconfortante sobre as almas sofredoras. Os doentes, os entristecidos, os aflitos, reconhecem-no imediatamente entre os outros homens. Outros podem falar, mas ele é o único que detém o segredo daquela palavra-chave, que encontra o caminho para o coração ferido e age como bálsamo sobre as suas feridas.

Tal pessoa é gentil, terna, paciente diante da dor. Ele sabe que um doente se tornou novamente uma criança e que, se precisa de palavras encorajadoras para despertar as energias adormecidas de sua mente, por outro lado, sua fraqueza requer a indulgência, a tranquilidade e a vigilância de uma mãe. Aquele que foi ensinado pelo próprio sofrimento possui a arte de conduzir suavemente as almas doentes a pensamentos sobre mim. Ele não fará, como alguns fazem, de seu zelo um pretexto para uma dureza que, por si só, provoca e desperta oposição. 'A cana quebrada Ele não quebrará, e o pavio fumegante Ele não apagará' (Is 43,3).

Portanto, alegra-te, ó meu filho, por teres conhecido o que é sofrer, e conforta-te por ainda seres chamado a sofrer; esta iniciação ao sofrimento é um tesouro inefável. Em breve irás procurar os aflitos; ou, se não puderes ir em busca deles, eles virão a ti. Acolhe os aflitos como enviados a ti por mim; acolhe-os como aqueles por quem aprendeste, trabalhaste e sofreste; acolhe-os como aqueles que confiei aos teus cuidados neste mundo. Não precisarás de palavras ensaiadas para falar com eles; abre teu coração e mostra-lhes as cicatrizes de tuas próprias feridas; diz-lhes que sabes o que é sofrer; ouve a história de suas provações e responde-lhes com a plenitude de teu coração. 

Rico neste tesouro de consolo, poderás ir sem medo entre os pobres e os aflitos. Tuas dores desaparecerão diante das dores deles, teus sofrimentos se desvanecerão diante dos sofrimentos deles; esquecer-te-ás de ti mesmo ao ministrar aos outros e, quando a noite chegar, ficarás surpreso ao sentir uma nova vida brotando dentro de ti; e dirás a mim em tua gratidão: 'Senhor, o que é isto que me aconteceu?  Para onde Tu me tens conduzido, e o que eu tenho feito? Não sei como isso aconteceu, mas enquanto me esforçava por fazer algo pelos outros, parece que, na verdade, estava fazendo tudo por mim mesmo; ao tentar curá-los, estava curando minhas próprias feridas; ao procurar consolar os aflitos, enxugava minhas próprias lágrimas; ao me esforçar para acalmar suas dores, perdi a amargura das minhas; ao dar o pouco que tinha, encontrei tudo'.

(Excertos da obra 'Counsels to the Sick", do Abade Henri Perreyve [1831 - 1865])

quinta-feira, 12 de março de 2026

SOMENTE A FÉ NÃO BASTA!

'Muitos são os chamados e poucos os escolhidos' (Mt 20,16). Muitos, com efeito, chegam à fé, mas bem poucos ao Reino dos Céus. O rebanho da Igreja acolhe tanto os bodes como os cordeiros; mas, segundo o testemunho do Evangelho, quando o Juiz vier, há de separar os bons e os maus. 

Pois os que se fazem na terra escravos dos prazeres da carne, não poderão, no céu, serem contados entre as ovelhas. Vedes, caros fiéis, muitas dessas pessoas na Igreja, mas não deveis imitá-las; nem, por outro lado, desesperar de que possam salvar-se. De fato, vemos bem o que uma pessoa é hoje, mas ignoramos como será amanhã. Muitas vezes quem parece vir atrás de nós passa à nossa frente pelo impulso de uma boa ação. E, às vezes, mal podemos seguir amanhã o que hoje deixávamos para trás.

Quando Estêvão morria pela fé, Saulo tomava conta das vestes daqueles que o lapidavam. Ele o lapidava, portanto, pelas mãos de todos os seus algozes, que então podiam mover-se mais à vontade, para atirar as pedras. E, no entanto, por seus trabalhos pela Santa Igreja, Paulo superou aquele do qual fizera um mártir, ao persegui-lo.

Há, por conseguinte, duas coisas a que devemos estar atentos, uma vez que há muitos chamados e poucos escolhidos. A primeira coisa é que ninguém deve jamais presumir de si próprio; pois, ainda que chamado à fé, ignora se será digno do Reino eterno. A segunda é que jamais devemos ter a ousadia de desesperar do próximo, ainda que o vejamos mergulhado nos vícios, pois não conhecemos os tesouros da misericórdia divina.

(São Gregório Magno)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO!

Que a fé de nossos pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas sempre de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independente de número e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, e eram apenas três!

Então, animem-se! Sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra...

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme e unicamente a sua esperança em Jesus Cristo'.

(São Basílio de Cesareia)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SOBRE A BATALHA ESPIRITUAL CONTRA OS VÍCIOS

Na luta que devemos empreender contra os vícios, devemos empregar a mesma tática com que estes nos assaltam. Para isso, urge descobrir qual o vício que mais nos subjuga e iniciar contra ele a luta principal. Que cada um, com toda a atenção e diligência da mente, bem como com a máxima vigilância, observe suas investidas. Dirijamos, então, contra ele os dardos dos jejuns cotidianos, golpeando-o com frequentes suspiros e gemidos do coração; invoquemos contra ele o labor das vigílias e das meditações espirituais, as incessantes orações com lágrimas derramadas perante Deus, implorando-lhe que, de modo especial e para sempre, extinga esses ataques.

É impossível triunfar sobre qualquer paixão, se antes não compreendermos que nossa diligência e nosso esforço jamais poderão alcançar-nos a vitória nessa luta. Contudo, toda a obra de purificação exige cuidado e solicitude incessantes, dia e noite. No entanto, ao sentir-se alguém liberto, novamente esquadrinhe todos os recantos do coração com a mesma meticulosidade e surpreenda aquele que entre os outros vícios percebe ser o mais pernicioso. É indispensável, então, que se lance mão de todas as armas espirituais para combatê-lo. Desse modo, depois de vencidos os mais poderosos, mais facilmente serão superados os restantes, e a luta contra os mais fracos passa a ser vitoriosa.

... Por uma tática semelhante, superadas as paixões mais violentas, nos dispomos gradualmente a combater as mais fracas, obtendo assim, sem riscos, uma completa vitória. Contudo, não julguemos que, ao orientarmos nossa luta específica contra um vício particular, olhando com negligência os dardos de outros, sejamos feridos com facilidade por um golpe inesperado. Isso é impossível; pois, quem se preocupa com a purificação de seu coração e, com esse intuito, lança mão de todas as forças de sua alma para libertar-se de determinado vício, envolve todos os outros no mesmo ódio e se mantém vigilante contra todos eles.

A que título mereceria alguém a vitória desejada sobre uma paixão, se depois se tornasse indigno da recompensa prometida aos puros de coração, por se ter contaminado com outros vícios? Mas, quando tivermos feito da luta contra determinada paixão nosso principal propósito, passaremos a rezar nessa intenção, com zelo e solicitude a fim de merecermos a graça de uma vigilância mais cuidadosa e assim alcançarmos uma rápida vitória.

(Excertos da obra 'Conferências', de João Cassiano, monge do século V)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A ORAÇÃO SILENCIOSA DO CORAÇÃO

Que a nossa fala e nossa súplica sejam disciplinadas quando orarmos, e que preservemos a tranquilidade e a modéstia, pois, lembrem-se, estamos diante de Deus. Devemos agradar aos olhos de Deus tanto com os movimentos do nosso corpo quanto com a maneira como usamos as nossas vozes. Pois, assim como um homem desavergonhado fará barulho com seus gritos, também convém que o modesto ore de maneira moderada.

Além disso, o Senhor nos ensinou a orar em segredo, em lugares escondidos e remotos, em nossos próprios quartos – e isso é o mais adequado para a fé, pois nos mostra que Deus está em todos os lugares e ouve e vê tudo e, na plenitude de sua majestade, está presente até mesmo em lugares escondidos e secretos, como está escrito: 'Eu sou um Deus próximo e não distante. Se alguém se esconder em lugares secretos, não o verei? Não preencho eu todos os céus e a terra?' e, ainda: 'Os olhos de Deus estão em toda parte e veem o bem e o mal igualmente' .

Quando nos reunimos com os irmãos em um só lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da nossa modéstia e disciplina, não proclamando as nossas orações em voz alta, nem apresentando a Deus, com indisciplina e prolixidade, uma súplica que seria melhor feita com mais modéstia: pois, afinal, Deus não ouve a voz, mas o coração, e aquele que vê os nossos pensamentos não deve ser perturbado pelas nossas vozes, como o Senhor demonstra quando diz: 'Por que pensais mal nos vossos corações?' ou ainda: 'Todas as igrejas saberão que sou eu quem sonda as vossas motivações e os vossos pensamentos' .

No primeiro livro dos Reis, vemos que Ana orava a Deus não com súplicas em voz alta, mas silenciosa e modestamente, no íntimo do seu coração. Ela falava com uma oração silenciosa, mas com fé manifesta. Não falava com a voz, mas com o coração, porque sabia que era assim que Deus ouvia, e recebeu o que buscava porque pediu com fé. A Sagrada Escritura afirma isso quando diz: 'Ela falava em seu coração, e seus lábios se moviam, e sua voz não era audível; e Deus a ouvia'. E lemos nos Salmos: 'Falem em seus corações e em seus leitos, e sejam acolhidos'. Novamente, o Espírito Santo ensina as mesmas coisas por meio de Jeremias, dizendo: 'Mas é no coração que deves ser adorado, ó Senhor'.

Amados irmãos, que o adorador não se esqueça de como o publicano orou com o fariseu no templo - não com os olhos altivos voltados para o céu, nem com as mãos erguidas em orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados que carregava, implorava a ajuda da misericórdia divina. Enquanto o fariseu se vangloriava de si mesmo, foi o publicano quem mereceu ser santificado, pois depositou sua esperança de salvação não na confiança em sua inocência - pois ninguém é inocente - mas orou, confessando humildemente os seus pecados, e Aquele que perdoa os humildes ouviu a sua oração.

(São Cipriano de Cartago)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A IGREJA É ÚNICA COMO A VERDADE

A Igreja, espalhada por todo o mundo até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos, a fé num único Deus Pai todo-poderoso, que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; e num único Jesus Cristo, Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que pelos profetas anunciou os planos de Deus, a vinda de Cristo, seu nascimento da Virgem, sua paixão, sua ressurreição dentre os mortos, sua ascensão corporal aos céus, sua vinda dos céus, na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e ressuscitar toda a linhagem humana, a fim de que diante de Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus e Salvador e Rei, pela vontade do Pai invisível, todo joelho se dobre no céu, na terra, no abismo, e toda língua proclame aquele que fará justo julgamento em todas as coisas.

A Igreja, então, disseminada, como dissemos, por todo o mundo, guarda diligentemente a pregação e a fé recebida, habitando como em uma única casa; e sua fé é igual em todos os lugares, como se tivesse uma única alma e um único coração, e tudo o que prega, ensina e transmite, faz em uníssono, como se tivesse uma única boca. Pois, embora existam muitas línguas diferentes no mundo, o conteúdo da tradição é único e idêntico para todos.

As Igrejas da Alemanha acreditam e transmitem o mesmo que as outras dos ibéricos ou dos celtas, do Oriente, do Egito ou da Líbia ou do centro do mundo. Assim como o sol, criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, também a pregação da verdade resplandece por toda parte e ilumina todos aqueles que querem chegar ao conhecimento da verdade.

Nas Igrejas, os bons oradores, entre os líderes da comunidade, pois ninguém está acima do Mestre, não dirão coisas diferentes, nem a escassa oratória de outros enfraquecerá a força da tradição, pois sendo a fé uma e a mesma, nem a amplia quem fala muito nem a diminui quem dela fala pouco.

(Excertos da obra 'Contra as Heresias', de Santo Irineu de Lyon)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

OS OITO GRAUS OU VÍCIOS DO ORGULHO

'o orgulho é a mãe de todos os vícios' (Ecl 10,15)

1. Gabar-se do que se tem, como se não o tivesse recebido de Deus ou do que não se tem, ou de coisas que merecem reprovação; e isso se chama arrogância.

2. Desejar ser visto pelos homens para ser elogiado e se alegrar em agradá-los ou em ser estimado por eles; e isso é vaidade.

3. Elogiar a si mesmo, vendendo-se por aquilo que não se é, ou engrandecendo aquilo que se é, e revelando desnecessariamente aquilo sobre o qual se deveria manter silêncio; e isso é vanglória.

4. Ter um desejo desmedido por posições e dignidades; isso é ambição.

5. Empreender tarefas que excedem a própria força e capacidade, o que se chama presunção.

6. Fingir ser algo que não se é ou praticar boas ações na presença de outros somente para ser estimado; isso é hipocrisia.

7. Ser teimoso em seu próprio julgamento e preferir a sua própria opinião à dos outros, não querendo ceder a ninguém; isso é obstinação.

8. Tratar com soberba ou desdém as outras pessoas, tanto seus iguais quanto os seus superiores; isso é desprezo.

(Excertos da obra 'Manual de Piedosas Meditações', autor anônimo, Barcelona)

sábado, 31 de janeiro de 2026

A ARTE DE EDUCAR COM AMOR

Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando os com firmeza e suavidade.

Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou descarregar o próprio mal humor. Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu seviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.

Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.

Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada. Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios; então sereis verdadeiros pais se conseguirem uma verdadeira correção. Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a quem as ouve e não e não tem proveito algum para quem as merece.

(Das Cartas de São João Bosco)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

E ASSIM CRUCIFICARAM JUNTAMENTE A MÃE!


Diz a Sagrada Escritura que, quando se construiu o templo de Salomão, não se ouviu nunca golpe de martelo. Ah, Templo Divino, figurado naquele mesmo templo, que agora quando vos desfazem, se ouvem tantas e tão cruéis marteladas! Fazem eco pelos vales daquele monte; mas muito maior eco faziam no coração da lastimada Mãe: no corpo do Filho davam as marteladas divididas, porque umas feriam os pés, outras a mão direita, outras a esquerda; porém na Senhora todas batiam e descarregavam juntas no mesmo lugar, porque todas feriam o coração. 

Com todos os instrumentos do Calvário era martirizado o coração da Senhora e todos feriam o coração da Mãe, ainda os que não feriam o corpo do Filho; por isso Simeão chamou a todos espada: Et tuam ipsius animam pertransibit gladius. Se repararmos nos instrumentos da Paixão de Cristo, acharemos que nenhum deles foi espada: pois se na Paixão não houve espada como diz Simeão à Senhora que a espada da Paixão do seu Filho lhe trespassaria a alma? Et tuam ipsius animam pertransibit gladius

É porque todos os instrumentos que concorreram na Paixão do Filho foram espada para o coração da Mãe. Para o corpo do Filho a cruz era cruz, os cravos eram cravos, os martelos eram martelos; mas para o coração da Mãe a cruz era espada, os cravos eram espada, os martelos eram espada, porque todos penetravam nas suas entranhas, e lhe atravessavam o coração. Assim crucificavam juntamente a Mãe, os que crucificavam o Filho: e justa coisa seria, ó cristãos, que nos crucificassem também a nós, e que todos nós nos crucificássemos aqui hoje com Jesus Crucificado! Olhai o que nos diz São Paulo: Qui sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis, et concupiscentiis - os que são de Cristo, crucificaram a sua carne com todos os seus vícios, e com todos os seus apetites.

(Excertos do sermão 'Prática Espiritual da Crucifixão do Senhor', do Pe. Antônio Vieira)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

AS TRÊS VIAS E O DECÁLOGO SOBRE A PAZ

I. Em primeiro lugar, esforce-se sempre para viver em paz com Deus: 'Muita paz têm os que amam a tua lei e para eles não há tropeço' (Sl 119,165).

II. Em segundo lugar, procure encontrar paz em seu próprio coração: 'Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá' (Jo 14,27).

III. Em terceiro lugar, você deve buscar viver em paz com o seu próximo: 'Por fim, irmãos, vivei com alegria. Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco' (2Cor 13,11) e ainda 'vivei em paz com todos os homens' (Rm 12, 18).

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1. Aprende a abnegar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.

2. Não pode ficar por muito tempo em paz quem não procura ser o menor e o mais submisso de todos.

3. Acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude.

4. Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros.

5. Quem está em boa paz de ninguém desconfia.

6. Viver em paz com pessoas ásperas, perversas e mal educadas que nos contrariam, é grande graça e ação muito louvável.

7. Não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação.

8. É necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.

9. Busca a paz verdadeira do céu, não sobre a terra, não nos homens, nem nas demais criaturas, mas só em Deus.

10. Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer, maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.

(Da Imitação de Cristo, Thomas de Kempis)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A ALAVANCA QUE LEVANTA O MUNDO

Uma alma abrasada de amor não pode ficar inativa. Sem dúvida que, como Santa Maria Madalena, ela permanece aos pés de Jesus, e escuta a sua palavra doce e inflamada. Parecendo não dar nada, dá muito mais do que Marta, que se aflige com muitas coisas e que quereria que sua irmã a imitasse. Não são, de modo nenhum, os trabalhos de Marta que Jesus censura; a esses trabalhos se submeteu humildemente sua Mãe durante a vida, pois tinha de preparar as refeições da Sagrada Família. Era apenas a inquietação da sua ardente anfitriã que Ele queria corrigir.

Todos os santos o compreenderam, e mais particularmente talvez aqueles que encheram o universo com a iluminação da doutrina evangélica. Não foi acaso na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus beberam esta ciência divina que arrebata os maiores gênios?

Houve um sábio que disse: 'Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e levantarei o mundo'. O que Arquimedes não pôde obter, porque o seu pedido não se dirigia a Deus, e por não ser feito senão sob o ponto de vista material, obtiveram-no os santos em toda a plenitude: o Todo-Poderoso deu-lhes como ponto de apoio Ele mesmo e Ele só; e como alavanca, a oração, que abrasa com fogo de amor. E foi assim que levantaram o mundo; é assim que os santos que ainda militam na terra o levantam e que, até ao fim do mundo, os futuros santos o levantarão também.

(Excertos da obra 'Manuscrito Autobiográfico', de Santa Teresa de Lisieux)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE OS INFIÉIS E OS HEREGES

Ó santa Palavra de Deus! Ó santa Revelação! Através de ti somos admitidos nos mistérios divinos, que a razão humana nunca poderia alcançar. Nós te amamos e estamos decididos a ser submissos a ti. És tu que dás origem à grande virtude, sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 6,6); a virtude que inicia a obra de salvação do homem, e sem a qual esta obra não poderia ser continuada nem terminada. Esta virtude é a Fé.

Faz com que a nossa razão se curve à Palavra de Deus. Da sua obscuridade divina surge uma luz muito mais gloriosa do que todas as conclusões da razão, por maior que seja a sua evidência. Esta virtude será o vínculo de união na nova sociedade que Nosso Senhor está agora a organizar. Para se tornar membro desta sociedade, o homem deve começar por acreditar; que ele possa continuar a ser membro. Ele nunca deve, nem por um momento, vacilar na sua fé.

Em breve ouviremos Nosso Senhor dizer estas palavras: 'Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado' (Mc 16,16). Para expressar mais claramente a necessidade da Fé, os membros da Igreja devem ser chamados pelo belo nome de Fiéis: aqueles que não acreditam, devem ser chamados de Infiéis.

Sendo a fé, então, o primeiro elo da união sobrenatural entre o homem e Deus, segue-se que esta união cessa quando a fé é quebrada, isto é, negada; e que aquele que, depois de ter estado assim unido a Deus, rompe o vínculo, rejeitando a palavra de Deus e substituindo-a pelo erro, comete um dos maiores crimes. Tal pessoa será chamada de Herege, isto é, alguém que se separa; e os fiéis tremerão diante de sua apostasia.

Mesmo que sua rebelião à Palavra Revelada recaísse sobre apenas um artigo, ainda assim se comete uma enorme blasfêmia; pois ou ele se separa de Deus como sendo um enganador, ou insinua que sua própria razão criada, fraca e limitada, é superior à Verdade eterna e infinita. Com o passar do tempo, as heresias surgirão, cada uma atacando um ou outro dogma; de modo que dificilmente uma verdade permanecerá inatacável... 

(Excertos da obra 'O Ano Litúrgico', de Dom P. Guéranger)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

AS TREVAS E AS SOMBRAS DA MORTE

Tirou-os das trevas e da escuridão (Sl 106, 14). 

São três as espécies de trevas, ou de ignorâncias:

👉 Diz o Salmista (Sl 81, 5): Não sabem nem entendem, andam nas trevas. Estas são as trevas da razão, enquanto a razão é por elas obscurecida.

👉 Há também as trevas da culpa. Diz São Paulo (Ef 5, 8): Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. E estas são trevas da razão humana não por si mesmas, mas pelos apetites, enquanto, mal dispostos pelas paixões ou por algum mau hábito, apetecem como bom o que não é o verdadeiro bem.

👉 Por fim, há as trevas da danação eterna (Mt 25, 30): E a este servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

Ora, Cristo tirou-nos das trevas por ser a luz do mundo; não era o sol criado, mas Aquele por quem foi criado o sol. Contudo, como diz Agostinho, a mesma luz que fez o sol, foi feita sob o sol, e velada pela nuvem da carne, não para que fosse obscurecida, mas para que fosse temperada. E como esta luz é universal, expulsa universalmente todas as trevas.

Assim, o que me segue não anda nas trevas, da ignorância, pois eu sou a verdade; da culpa, pois eu sou a via; da danação eterna, pois eu sou a vida.

A noite pode ser compreendida de dois modos:

👉 Pela subtração da graça atual, a qual induz o pecado mortal. Quando esta noite sobrevém, ninguém pode fazer obra meritória de vida eterna.

👉 A outra é a noite consumada, quando não apenas se é privado da graça atual, mas também da faculdade de a recuperar, pela eterna danação ao inferno, onde é profunda a noite àqueles aos quais foi dito: Ide malditos para o fogo eterno

E então ninguém poderá fazer nada, pois não há mais tempo para merecer, mas apenas para receber conforme seus méritos. Assim, enquanto viveres, faze o que tens de fazer (Ecle 9, 10): Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão, porque na sepultura, para onde te precipitas, não há nem obra, nem razão, nem ciência, nem sabedoria.

A morte é a danação no inferno (Sl 48, 15): a morte os apascenta. A sombra da morte é a semelhança da danação futura que está nos pecadores. A maior pena daqueles que estão no inferno é a separação de Deus; como os pecadores já estão separados de Deus, têm semelhança com a danação futura, assim como os justos têm semelhança com a futura beatitude.

(Excertos da obra  'Meditationes ex Operibus S. Thomae', de P. D. Mézard, publicação original do site Permanência)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

DEZ VIRTUDES EM UM ÚNICO ATO DE MORTIFICAÇÃO

Em um ato de mortificação, pode-se praticar muitas virtudes, de acordo com os diferentes fins que se propõem em cada ato como, por exemplo:

1. Aquele que mortifica o seu corpo com o propósito de controlar a concupiscência realiza um ato da virtude da temperança.

2. Se ele faz isso com o propósito de regular bem a sua vida, será um ato da virtude da prudência.

3. Se ele se mortifica com o objetivo de satisfazer os pecados cometidos de sua vida passada, será um ato da virtude de justiça.

4. Se ele o faz com a intenção de vencer as dificuldades da vida espiritual, será um ato da virtude de fortaleza.

5. Se ele praticar essa virtude da mortificação com o fim de oferecer um sacrifício a Deus, privando-se do que gosta e fazendo o que é amargo e repugnante à natureza, será um ato da virtude da religião.

6. Se ele pretende, pela mortificação, receber maior luz para conhecer os atributos divinos, será um ato da virtude de .

7. Se ele o fizer com o propósito de tornar sua salvação cada vez mais segura, será um ato da virtude de esperança.

8. Se ele se negar a si mesmo para ajudar na conversão dos pecadores e para a libertação das almas do Purgatório, será um ato da virtude de caridade para com o próximo.

9. Se ele fizer isso para ajudar os pobres, será um ato da virtude de misericórdia.

10. Se ele se mortificar para agradar mais a Deus, será um ato da virtude de amor a Deus.

Em outras palavras, pode-se colocar todas essas virtudes em prática mediante um único ato de mortificação, de acordo com o fim que se propõe ao se realizar o referido ato.

(Excertos da Autobiografia de Santo Antônio Maria Claret)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA E CONFISSÃO

Nosso Salvador legou à sua Igreja o Sacramento da Penitência e da Confissão [Mt 16,19; Mt 18,18; Jo 20,23], para que nele possamos ser purificados de todos os nossos pecados, independentemente de como e quando os tenhamos cometido. Portanto, meu filho, nunca permita que seu coração fique sobrecarregado pelo pecado, visto que existe um remédio tão seguro e eficaz à sua disposição. Assim, uma alma que, mesmo que minimamente, tenha consentido com o pecado, deve abominar-se a si mesma e apressar-se em buscar a purificação, por respeito à Divina Providência que sempre a contempla. Por que deveríamos morrer uma morte espiritual quando existe um remédio tão eficaz para nos curar?

Faça sua confissão com humildade e devoção todas as semanas e, sempre que possível, antes de comungar, mesmo que a sua consciência não o acuse de algum pecado mortal; pois, na confissão, você não só recebe a absolvição por seus pecados veniais, mas também recebe grande força para ajudá-lo a evitá-los no futuro, luz mais clara para desvelar as faltas cometidas e graças abundantes para compensar quaisquer perdas que possam ter causado. As virtudes da humildade, obediência, simplicidade e amor são inerentes à confissão e, assim, por um único ato de confissão, se pratica mais virtudes do que em qualquer outro ato religioso.

Certifique-se sempre de ter um sincero arrependimento pelos pecados que você confessa, por menores que sejam; assim como uma firme resolução de corrigi-los no futuro. Algumas pessoas continuam confessando pecados veniais por mero hábito e convencionalmente, sem fazer qualquer esforço para corrigi-los e, por isso, não se livram deles e se privam de muitas graças necessárias para o seu progresso espiritual. Suponha que você confesse ter dito algo falso, embora sem consequências graves, ou algumas palavras descuidadas, ou diversão excessiva; arrependa-se e tome uma firme resolução de emenda: é um mero abuso confessar qualquer pecado, seja mortal ou venial, sem a intenção de abandoná-lo completamente, sendo esse o objetivo expresso da confissão.

Cuidado com as autoacusações sem sentido, feitas por mera rotina, tais como: 'Não amei a Deus tanto quanto deveria; não rezei com tanta devoção quanto deveria; não amei o meu próximo como deveria; não recebi os sacramentos com reverência suficiente' e coisas semelhantes. Coisas como essas são totalmente inúteis para apresentar o estado da sua consciência ao seu confessor, na medida em que todos os santos no Paraíso e todos os homens vivos diriam o mesmo. Mas examine atentamente que razão especial você tem para se acusar assim e, quando a descobrir, acuse-se simples e claramente da sua falta. Por exemplo, ao confessar que não amou o seu próximo como deveria, pode ser que o que você queira dizer é que, tendo visto alguém em grande necessidade a quem poderia ter socorrido, você não o fez. Bem, então, acuse-se dessa omissão especial e simplesmente diga: 'Tendo encontrado uma pessoa necessitada, não a ajudei como poderia ter feito', seja por negligência, dureza ou indiferença, conforme o caso. Da mesma forma, não se acuse de não ter rezado a Deus com devoção suficiente; mas se você se deixou levar por distrações voluntárias, ou se negligenciou as circunstâncias adequadas para uma oração devota - seja o lugar, o momento ou a atitude - diga isso claramente, tal como é, e não trate de generalidades que, por assim dizer, não aquecem e nem esfriam.

Mais uma vez, não se contente em mencionar apenas o fato de seus pecados veniais, mas acuse-se da causa motriz que os levou a cometê-los. Por exemplo, não se contente em dizer que você disse uma inverdade que não prejudicou ninguém; mas diga se foi por vaidade, para ganhar elogios ou evitar críticas, por descuido ou por obstinação. Diga se você continuou por muito tempo a cometer a falta em questão, pois a importância de uma falta depende muito de sua continuidade: por exemplo, há uma grande diferença entre um ato passageiro de vaidade que termina em um quarto de hora e outro que ocupa o coração por um ou mais dias. Portanto, você deve mencionar o fato, o motivo e a duração de suas faltas. É verdade que não somos obrigados a ser tão precisos ao confessar pecados veniais, ou mesmo, tecnicamente falando, a confessá-los; mas todos aqueles que desejam purificar suas almas para alcançar uma vida realmente devota terão o cuidado de mostrar todas as suas doenças espirituais, por mais leves que sejam, ao seu médico espiritual, a fim de serem curados.

Não se poupe em contar tudo o que for necessário para explicar a natureza da sua falta, como, por exemplo, a razão pela qual você perdeu a paciência ou por que encorajou outra pessoa a cometer uma falta. Assim, alguém de quem eu não gosto diz uma palavra por acaso, em tom de brincadeira, eu levo a mal e fico furioso. Se alguém de quem eu gosto tivesse dito algo mais forte, eu não teria levado a mal; portanto, na confissão, devo dizer que perdi a paciência com uma pessoa, não tanto por causa das palavras ditas, mas porque não gosto de quem as disse; e se, para se explicar claramente, for necessário especificar as palavras, é bom fazê-lo; porque, ao acusar-se assim, descobre-se não apenas os pecados reais, mas também os maus hábitos, inclinações e sentimentos, e as outras raízes do pecado, por meio das quais o pai espiritual adquire um conhecimento mais completo do coração com que está lidando e sabe melhor quais remédios aplicar. Mas, evite sempre, na medida do possível, mencionar ou expor qualquer pessoa que tenha participado de seu pecado. Fique atento a uma variedade de pecados, que tendem a surgir e florescer, muitas vezes de forma imperceptível, na consciência, para que você possa realmente confessá-los e eliminá-los de vez [cujas particularidades são discutidas em outras partes do texto].

(Excertos da obra 'Introdução à Vida Devota', de São Francisco de Sales)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

'É A VOSSA FACE QUE EU PROCURO!'

Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele.

Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procurá-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e dize a Deus: 'Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro' (Sl 26,8). E agora, Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar.

Senhor, se não estais aqui, se estais ausente, onde vos procurarei? E se estais em toda parte, por que não vos encontro presente? É certo que habitais numa luz inacessível, mas onde está essa luz inacessível e como chegarei a ela? Quem me conduzirá e nela me introduzirá, para que nela eu vos veja? E depois, com que sinais e sob que aspecto vos devo procurar? Nunca vos vi, Senhor meu Deus, não conheço a vossa face.

Que pode fazer, altíssimo Senhor, que pode fazer este exilado longe de vós? Que pode fazer este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Aspira ver-vos, mas vossa face se esconde inteiramente dele. Deseja aproximar-se de vós, mas vossa morada é inacessível. Aspira encontrar-vos, mas não sabe onde estais. Tenta procurar-vos, mas desconhece a vossa face.

Senhor, vós sois o meu Deus, o meu Senhor, e nunca vos vi. Vós me criastes e redimistes, destes-me todos os meus bens e ainda não vos conheço. Fui criado para vos ver e ainda não fiz aquilo para que fui criado.

E vós, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, nos esquecereis, até quando nos ocultareis a vossa face? Quando nos olhareis e nos ouvireis? Quando iluminareis os nossos olhos, e nos mostrareis a vossa face? Quando voltareis a nós?

Olhai-nos, Senhor, ouvi-nos, mostrai-vos a nós. Dai-nos novamente a vossa presença para sermos felizes, pois sem vós somos tão infelizes! Tende piedade dos rudes esforços que fazemos para alcançar-vos, nós que nada podemos sem vós.

Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro; pois não posso procurar-vos se não me ensinais nem encontrar-vos se não vos mostrais. Que desejando eu vos procure, procurando vos deseje, amando vos encontre, e encontrando vos ame.

(Excertos da obra 'Proslógion', de Santo Anselmo)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O ESPÍRITO DA CRUZ

Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com frequência. Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz.

Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão. O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz?

O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-se; acha-se bem o que nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por que? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; por isso, é muito raro. Não o tendes muito, o espírito da Cruz. Posso bem dizer-vo-lo, há muito tempo que vos conheço, desde que estou convosco. Tende-lo menos do que o tivestes outrora.

Logo que tendes algum sofrimento, depressa dizeis: 'Meu Deus, livrai-me disto, livrai-me disto'; fazeis novenas para vos libertardes. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos.

É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Excertos do último sermão do Padre Emmanuel-André, proferido em 14 de setembro de 1902)