Mostrando postagens com marcador Novíssimos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Novíssimos. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XII)

   

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VII. Sobre como Cristo assumirá o seu Lugar no Tribunal

Preste atenção, ó leitor, ao que está por vir, e não imagine que isso não lhe diz respeito. Você certamente testemunhará tudo isso um dia com os seus próprios olhos e tudo será mil vezes mais terrível do que minha pena pode descrever. Quando Cristo, em sua carruagem de fogo, chegar ao Monte das Oliveiras, Ele permanecerá no ar, a uma altura tal que possa ser visto claramente por todos os homens, até que os Anjos tenham preparado o trono do julgamento.

O profeta Daniel descreve assim a cena: 'Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes, e tal como a pura lã era sua cabeleira; seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. Saído de diante dele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos (Dn 7,9 - 10).

Mas Cristo não julgará sozinho; os doze apóstolos estarão com Ele, de acordo com a promessa que Ele lhes fez: 'Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua majestade, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel' (Mt 19,28). Quem pode dar uma ideia da magnificência do trono de Cristo? É indescritível.

Lemos que o rei Salomão mandou construir um trono maravilhosamente belo em marfim, ricamente adornado com ouro e pedras preciosas. Este trono era tão magnífico que o escritor inspirado diz que em nenhum reino do mundo se tinha feito tal obra. Se o trono do rei Salomão era feito de materiais tão caros e trabalhado com tanta habilidade, qual será o esplendor do trono do Rei dos reis, no qual Ele se assentará em sua majestade para julgar o mundo inteiro! Nosso Senhor fala desse trono de julgamento como um trono de grande esplendor, quando diz: ''Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, Ele se sentará no seu trono glorioso'' (Mt 25, 31).

Alguma ideia da aparência desse trono pode ser obtida a partir das palavras que acabamos de citar do profeta Daniel, e também desta descrição dada por São João: 'Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono... Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus' (Ap 4,3.5). Tais são as imagens com que a Sagrada Escritura retrata o tribunal de Cristo. Quem, entre toda a humanidade, ousaria levantar os olhos para este trono de fogo? Não será ele mais deslumbrante do que os relâmpagos e os halos de fogo de uma tempestade?

O Juiz Divino sentar-se-á neste trono e o seu semblante grave será visível aos homens e aos Anjos. Todos os seres criados tremerão com reverência e admiração. São João declara isto no Apocalipse: 'Vi um grande trono branco e Aquele que nele se assentava, de cuja face a terra e o céu fugiram, e não se achou lugar para eles' (Ap 20,11). Nestas palavras, o profeta do Novo Testamento parece indicar que os céus e a terra não serão capazes de suportar o olhar do seu Juiz; que todos os seres racionais, tanto anjos como homens, tremerão ao ver o seu semblante severo.

Que os anjos também temerão e tremerão é afirmado por Santo Agostinho, na seguinte passagem de seus escritos: 'Quando Nosso Senhor diz que os poderes do céu serão abalados, Ele se refere aos anjos; pois tão terrível será o julgamento que os anjos não estarão isentos do medo; eles também tremerão e terão medo. Pois, assim como quando um juiz se senta em julgamento, seu semblante grave não apenas causa terror nos culpados diante dele, mas também intimida os oficiais que estão ao seu redor, assim também, quando toda a humanidade for levada a julgamento, os ministros celestiais compartilharão do horror e do alarme universais'. São João Crisóstomo corrobora essa afirmação quando diz: 'Todos ficarão então cheios de espanto, apreensão e terror, e até mesmo os anjos ficarão com muito medo'. Muitos outros Padres da Igreja e comentaristas das Sagradas Escrituras expressam uma opinião semelhante.

Agora, se, de acordo com a opinião de homens sábios e santos, nem mesmo os anjos estarão isentos de medo no Dia do Juízo Final, quanto mais motivo terão os santos para temer, uma vez que deverão comparecer perante o tribunal de Cristo e prestar contas rigorosas de todas as suas ações. Sim, é inequivocamente evidente, a partir do que São João diz no Apocalipse, que os santos abençoados são tomados por temor e tremor. Ele descreve como Cristo lhe apareceu e o efeito que isso teve sobre ele. 'Quando o vi, caí a seus pés como morto. E ele colocou sua mão direita sobre mim, dizendo: Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último' (Ap 1,17). 

Se o amado apóstolo ficou tão impressionado ao ver seu querido Mestre e Senhor, que viera para consolá-lo e não para julgá-lo, que caiu a seus pés como morto e não conseguiu reunir coragem para se levantar até que Cristo lhe falasse da maneira mais gentil e reconfortante, pode-se supor como os santos não ficarão aterrorizados no Dia do Juízo Final, quando contemplarem Cristo em sua majestade terrível e forem chamados a prestar contas a Ele de toda a sua vida? E, ó pobre pecador, como será então contigo e com todos os réprobos, se até mesmo os anjos e os santos tremem com a vinda do Juiz? Não há palavras que possam expressar o terror e o desânimo dos espíritos malignos e dos pecadores impenitentes, quando contemplarem o seu Divino Juiz no trono da sua majestade e souberem que Ele os julgará rigorosamente e os condenará ao inferno por toda a eternidade.

Para dar uma ideia do terrível medo e alarme dos anjos caídos e dos pecadores infelizes, ouçamos o que a Sagrada Escritura diz a respeito da aparência assustadora do Juiz e da grandeza de sua ira, no primeiro capítulo do Apocalipse, onde São João nos diz: 'Vi o Filho do homem vestido com uma veste que chegava até os pés e cingida ao peito com um cinto de ouro. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como a lã branca e como a neve, e seus olhos eram como chama de fogo, e seus pés como bronze refinado, como em fornalha ardente. E sua voz era como o som de muitas águas. E da sua boca saía uma espada afiada de dois gumes, e seu rosto era como o sol brilhando em seu poder (Ap 1,13-16). Sobre a sua cabeça havia muitas diademas... Ele estava vestido com uma veste salpicada de sangue... Ele pisa o lagar do vinho da ira do Deus Todo-Poderoso, e traz escrito em sua vestimenta e em sua coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19,12-13.15-16).

Medite sobre estas palavras maravilhosas, ó cristão, e imagine seu futuro Juiz em cores vivas. Como sua aparência majestosa poderia ser descrita de forma mais vigorosa do que nas palavras que acabamos de citar? Qual deve ser o esplendor daquele rosto que se diz brilhar como o sol no seu meridiano! Qual deve ser o brilho daqueles olhos que resplandecem com santo fervor como chamas de fogo! Qual a força daquela voz que tem o som de um volume de águas! Qual deve ser a agudeza daquela língua que corta como uma espada de dois gumes! Que cabeça gloriosa deve ser aquela adornada com muitas diademas preciosas! Quão terrível deve ser aquela vestimenta salpicada de sangue! E quão digno é aquele nome real: Rei dos reis e Senhor dos senhores! Quão assustados ficaremos todos, que medo e tristeza nos dominarão quando nosso Juiz nos olhar! E imagine quais serão os sentimentos dos condenados, quando contemplarem o Juiz de todas as suas más ações; como eles se encolherão e tremerão sob o seu olhar na hora da sua justa ira!

Talvez tenhamos uma melhor concepção do que é a ira de Deus, se ouvirmos o que o profeta Isaías diz a respeito disso: 'Eis que o nome do Senhor vem de longe, sua ira arde e é pesada de suportar; seus lábios estão cheios de indignação, e sua língua como um fogo devorador; seu sopro como uma torrente transbordando até o meio do pescoço, para destruir as nações até que não reste nada' (Is 30, 27-28). Estas são, na verdade, palavras terríveis. Não indicam elas claramente com que grande ira Cristo se manifestará ao mundo? Bem podem todos os infelizes pecadores ficar dominados pelo terror, pelo desânimo e pela angústia; bem podem clamar às montanhas que caiam sobre eles e às colinas que os cubram. Agora, quando o Juiz estiver sentado no trono de sua majestade, todos os que estiverem reunidos no vale de Josafá, anjos e demônios, os redimidos e os perdidos, terão que adorar a Cristo, como diz São Paulo: 'Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo. Pois está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a Deus' (Rm 14, 10 -11).

Que cena solene e sublime será então encenada, ó meu Deus, quando todos os milhões e milhares de milhões de anjos, juntamente com os bem-aventurados, em forma visível, se prostrarão no chão, e os espíritos malignos com suas vítimas infelizes, e todos os condenados, serão forçados contra sua vontade a adorar Cristo e reconhecê-lo como seu Deus e Juiz! Essas criaturas miseráveis cairão de joelhos e inclinarão suas cabeças até o chão, sem ousar levantar os olhos, para não encontrarem o olhar irado de seu Juiz. Elas lamentarão e chorarão, cheias de consternação e desânimo indescritíveis. Com alegria, elas gostariam que a terra se abrisse e as engolisse; mais ainda, se fosse possível, elas se lançariam em um abismo sem fundo, em vez de sofrer tal humilhação. Pare e considere, ó pecador, quais seriam seus sentimentos se você estivesse entre essas almas perdidas; você ficaria oprimido pela tristeza e angústia.

São Vicente relata que um jovem de vida dissoluta sonhou certa vez que estava sendo julgado diante do tribunal de Deus e obrigado a prestar contas de sua vida mal empregada. Seu terror foi tão grande que seus cabelos ficaram completamente brancos. Se os terrores do Juízo Final vividos apenas em um sonho foram suficientes para mudar a cor dos cabelos daquele jovem, qual será, em sua opinião, o efeito que eles produzirão em você e em mim, quando estivermos presentes, não em um sonho, mas na realidade, no Juízo Final, e com nossos olhos físicos contemplarmos nosso Juiz em toda a sua santa indignação?

ORAÇÃO

Ó Juiz de infinita justiça, olhai para mim, eu vos imploro, do vosso trono no Céu, um pobre pecador, e por causa da vossa infinita compaixão, sede misericordioso comigo no dia do julgamento final. Sei que não seria capaz de resistir naquele dia terrível e que, pela vossa justa sentença, seria punido com a condenação eterna. No entanto, sei também que se um pecador implora a vossa misericórdia no tempo da graça, esta não lhe será negada. Portanto, eu vos imploro com profunda humildade e contrição, por meio da vossa amarga Paixão, que perdoeis os meus pecados e me concedeis uma sentença clemente no Dia do Juízo Final. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XI)

  

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VI. Sobre a Vinda do Juiz 

O que se disse até agora, ó leitor cristão, é realmente muito assustador e terrível, mas não é nada em comparação com o que estamos prestes a considerar. Pois a vinda do Juiz será tão terrível, tão assustadora, que tudo o que está no céu e na terra tremerá e se abalará. O poder e a majestade com que Ele virá estão além do poder das palavras para descrever. Para que possamos saber algo a respeito disso e sermos capazes de formar alguma concepção, o próprio Cristo predisse a sua vinda com estas palavras: 'Quando o Filho do homem vier em sua majestade, e todos os anjos com Ele, então Ele se assentará no trono da sua majestade, e todas as nações serão reunidas diante dele' (Mt 25,31-32). E novamente: 'E verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu com grande poder e majestade' (Mt 24, 30). Assim, vemos Nosso Senhor afirmar duas vezes que Ele virá nas nuvens do céu, acompanhado por todos os seus anjos e com grande poder e majestade.

Quem poderá descrever a grandeza desse poder, o esplendor dessa majestade, o número incontável dessas hostes angelicais? Ouçam o que o salmista diz sobre o assunto: 'Um fogo irá adiante dele e queimará os seus inimigos ao redor. Os seus relâmpagos brilharam para o mundo, a terra viu e tremeu. As montanhas derreteram como cera na presença do Senhor, na presença do Senhor de toda a terra. Os céus proclamaram a sua justiça e todos os povos viram a sua glória' (Sl 96,3-6). E em outro salmo lemos: 'De Sião resplandecerá o ideal da sua beleza... Um fogo arderá diante dele, e uma tempestade poderosa o envolverá” (Sl 49,2-3). O profeta Isaías também prediz a vinda do Juiz nos seguintes termos: 'Eis que o Senhor virá com fogo, e os seus carros são como um redemoinho, para manifestar a sua ira com indignação e a sua repreensão com chamas de fogo' (Is 46,15). Além disso, o próprio Cristo declara: 'Como o relâmpago vem do Oriente e se mostra até no Ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem' (Mt 24,27).

Se essa for a maneira como o Juiz virá, se chamas de fogo procederem do seu rosto, se Ele descer do céu em uma carruagem de fogo, armado com ira contra os pecadores, quem não tremerá com a sua vinda? Na verdade, todos nós vacilaremos e teremos medo. Além do terror do próprio Juiz, a visão da incontável companhia de anjos que descerá com Ele nos inspirará temor e grande alarme. Pois naquele dia nenhum anjo permanecerá no céu; todos estarão presentes como testemunhas do julgamento.

Agora, os teólogos afirmam que, no coro mais baixo dos anjos, o número de anjos é dez vezes maior do que o de todos os seres humanos que terão existido na Terra. No segundo coro, há dez vezes mais do que no primeiro, no terceiro, dez vezes mais do que no segundo, e assim por diante, de modo que o número desses seres angelicais parece infinito. Todos esses anjos, que são espíritos puros e, portanto, invisíveis à visão corporal, aparecerão então visíveis, extremamente brilhantes e gloriosos, para que também os condenados possam ver a magnificência da vinda de Cristo.

São João, em seu Apocalipse, fala assim das hostes de anjos que acompanharão o Juiz em sua vinda: 'Eu vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e aquele que estava sentado sobre ele era chamado fiel e verdadeiro, e com justiça julga e combate. E os seus olhos eram como chama de fogo, e sobre a sua cabeça havia muitas diademas ... e ele estava vestido com uma vestimenta salpicada de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus. E os exércitos que estão no céu o seguiram em cavalos brancos, vestidos de linho fino, branco e limpo. E da sua boca sai uma espada afiada de dois gumes, para que com ela possa ferir as nações. E ele as governará com vara de ferro; e pisará o lagar do vinho da ira do Deus Todo-Poderoso. E Ele tem escrito em sua vestimenta e em sua coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores' (Ap 19,11-16).

Como todos nós tremeremos, ó meu Deus, quando contemplarmos essas hostes de espíritos celestiais com seu líder real! O profeta Daniel viu uma vez um anjo e ficou tão aterrorizado com a sua aparência que caiu no chão como se estivesse morto. Se tal efeito foi produzido nele pela visão de um único anjo, cuja missão era de conforto e consolação, o que será de nós, quando tantas centenas de milhares de príncipes celestiais se aproximarem de nós com semblantes irados? São Efrém, falando sobre isso, diz: 'Os anjos estarão ali com um ar ameaçador, seus olhos brilhando com o fogo sagrado da justa indignação, despertada pelas iniquidades da humanidade'.

Agora, se a visão dos anjos, que virão para o julgamento com o Juiz Divino, é tão terrível, qual será o medo e o pavor inspirados pelo próprio Juiz, quando Ele vier com toda a ira da justiça ofendida! Assim como no Céu não há maior deleite do que a contemplação de Deus, também no Juízo Final não haverá maior dor e temor do que olhar para o Juiz irado. Antes de entrar na explicação disso, vejamos com que majestade Cristo virá para nos julgar.

A vinda de Cristo será tão terrível que nem o homem nem os anjos são capazes de descrevê-la adequadamente. Pois tudo o que é mais propício para aterrorizar o pecador será visto aqui, e nada faltará que possa realçar a majestade de Cristo. Quando um monarca faz sua entrada em uma cidade, que pompa e esplendor são exibidos ali! Melodias de música animada se misturam com o som mais solene dos sinos, saudações são disparadas, toda a população está agitada, todos esforçando os olhos para ver o monarca; primeiro vêm seus servos, depois seus conselheiros, depois os nobres da terra; por último, vem ele próprio, cercado por uma vasta multidão de pessoas.

No entanto, o que é toda essa magnificência que o mundo pode oferecer quando comparada com a majestade que acompanhará a vinda do Rei dos reis! Compare um pobre menino mendigo esfarrapado com um príncipe soberano que entra montado em uma carruagem de ouro, e teremos uma imagem fraca e insuficiente da diferença que existe entre a pompa e o esplendor deste mundo e a glória com que Cristo virá para nos julgar.

No entanto, a sua vinda não será apenas grandiosa e gloriosa além da medida, mas também será terrível em sua natureza. Se os túmulos se abriram ao som da trombeta do anjo, e o som dessa trombeta ecoou por todo o mundo, que pânico de medo tomará conta da humanidade quando os anjos que precedem o chamado triunfal de Cristo fizerem soar suas trombetas! 'O que será de nós naquele dia terrível, o Dia do Juízo Final, quando o Senhor descer com os seus anjos ao som de trombetas e toda a terra tremer de pavor?' - pergunta Santo Agostinho.

Quando Deus desceu antigamente sobre o Monte Sinai, lemos na Sagrada Escritura: 'Chegou o terceiro dia e amanheceu; e eis que se ouviram trovões, relâmpagos e uma nuvem muito densa cobriu o monte, e o som da trombeta soou muito alto, e o povo que estava no acampamento ficou com medo' (Ex 19,16). E quando todo o povo ouviu os trovões e o som da trombeta, e viu os relâmpagos e a fumaça subindo do monte, eles ficaram aterrorizados e conservava-se à distância, dizendo a Moisés: 'Fala tu conosco, e faremos tudo o que o Senhor ordenou, mas não deixes que o Senhor fale conosco, para que não morramos' (Ex 20,19).

Se tudo isso aconteceu quando Deus desceu do céu para dar a sua Lei à nação hebraica e adotá-los como seus filhos, o que você acha, ó cristão, que acontecerá quando Ele vier para exigir uma prestação de contas sobre a maneira como os seus mandamentos foram cumpridos? Se os filhos de Israel ficaram tão aterrorizados com a entrega da Lei que pensaram que morreriam de medo, que motivo não teremos nós, mortais, especialmente nós, cristãos, para tremer, já que tantas vezes transgredimos deliberadamente os mandamentos de Deus?

ORAÇÃO

Ó Deus, Juiz todo-poderoso de todos os homens, Vós descereis do Céu no Dia do Juízo Final com grande poder e majestade, para agir como justo Juiz, e o pensamento da vossa vinda me faz tremer de medo. Inspirai-me agora, eu vos imploro, um temor salutar, para que eu possa evitar o pecado e não venha a ser esmagado pela vossa santa ira. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (X)

 

PARTE II - O JUÍZO FINAL

V. Sobre o Aparecimento da Cruz de Cristo nos Céus 

Quando toda a humanidade estiver reunida no vale de Josafá, a previsão de Nosso Senhor se cumprirá: 'Os homens definharão de medo e expectativa do que virá sobre toda a terra' (Lc 21,26). Pois estarão tão ansiosos e aterrorizados ante a aproximação do julgamento que, se tal coisa fosse possível, desmaiariam todos. Olharão continuamente para os céus com medo e tremor, e cada momento que a vinda do temido Juiz se atrasar servirá para aumentar a sua apreensão por este advento. Por fim, os céus se abrirão e o sinal da vitória triunfante de Cristo, o sinal da Santa Cruz, será trazido por uma multidão de anjos e exibido ao mundo inteiro.

Estas são as palavras de Nosso Senhor a respeito deste mistério: 'Os poderes dos céus serão abalados, e então aparecerá o sinal do Filho do homem nos céus, e então todas as tribos da terra se lamentarão' (Mt 24,29-30). A Igreja Católica nos ensina qual será esse sinal do céu: o sinal da cruz aparecerá no céu, quando o Senhor vier para julgar a humanidade. Todos os Padres da Igreja concordam em interpretar esse sinal que será exibido nos céus como a cruz de Cristo. Embora a cruz na qual Nosso Senhor sofreu esteja agora dividida em inúmeras pequenas peças, até mesmo em partículas, ainda assim, pelo poder divino, ela formará mais uma vez um todo completo. Ela será trazida do Céu pelos Anjos com pompa solene; e os Anjos que a carregam serão seguidos por outros que, como afirma o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, carregarão todos os outros instrumentos da Paixão; isto é, o pilar, a lança, os açoites, o martelo, a luva de ferro, os dados, a túnica escarlate, a túnica branca, a túnica sem costuras, o santo sudário, o vaso contendo mirra e todos os outros instrumentos que foram empregados durante a Paixão, e o objetivo disso será manifestar ao mundo inteiro quantas e múltiplas foram as dores que Cristo sofreu por nossa causa.

Agora, quando toda a humanidade contemplar a santa cruz e todos os outros instrumentos sagrados da Paixão brilhando como o sol ao meio-dia, pois a cruz de Cristo resplandecerá com uma luz de brilho sem precedentes, aqueles que a contemplarem estarão sob um medo tremendo e em lamentação dolorosa. Pois a visão da santa cruz e dos outros instrumentos de tortura lhes trará à mente todas as dores terríveis que Nosso Senhor suportou, e de uma maneira tão forte e vívida que toda a sua Paixão parecerá ser reencenada diante deles. Então, o remorso mais amargo encherá o coração dos ímpios. Mas esse remorso, por maior e mais profundo que seja, será inútil, pois só veio tarde demais. Esse remorso é a companhia do desespero. Em sua angústia de alma e em seu desespero, eles exclamarão como Caim, o fratricida: 'A minha iniquidade é muita grande para que eu mereça perdão' ou como Judas, que traiu seu Senhor e Mestre: 'Pecamos, pois traímos sangue inocente'. Sim, todos os perdidos concordarão em exclamar: 'Ai de nós! Pecamos ao trair sangue inocente. Torturamos, crucificamos, matamos o Filho de Deus com os nossos pecados'. Então, todas as tribos da terra chorarão, pois perceberão o quanto ofenderam gravemente a Deus, mas os gritos de luto e de desespero que se ouvirão em toda parte serão em vão.

O que dirão os infelizes pagãos, que nunca ouviram e nunca souberam nada sobre a Paixão de Cristo? Eles lamentarão amargamente sua ignorância, dizendo: 'Ai de nós, infelizes, se tivéssemos sabido disso, nunca teríamos chegado a essa miséria. Se tivéssemos sabido o que o grande e infinito Deus fez e como sofreu tanto por nós, quão gratos teríamos sido a Ele, quão voluntariamente o teríamos servido! Fomos enganados pelos nossos falsos deuses. Não vimos neles nenhuma virtude, apenas atos vis e perversos. Contra os impulsos da consciência, imitamos os seus vícios e, por isso, estamos condenados. Não podemos queixar-nos, nem considerar-nos injustiçados pelo Deus santo e justo, porque estamos entre os réprobos. Se tivéssemos dado ouvidos à voz da nossa consciência, este não teria sido o nosso destino'.

Mas o que dirão aqueles que mataram Cristo? Pilatos, Caifás, Anás, o sumo sacerdote, assim como os judeus que gritaram: 'Crucifica-o!' e 'Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!', todos os que participaram do crime cruel e atroz de crucificar seu Deus, ao verem os instrumentos sagrados da Paixão, gritarão em desespero e desejariam ser aniquilados. Execrados e amaldiçoados até mesmo pelos condenados, eles ficarão ali, marcados como deicidas, objetos de abominação para o mundo inteiro.

Não é minha intenção discutir o que os maus cristãos, que blasfemaram contra o Filho de Deus com palavras ou ações, sentirão naquele momento; por uma questão de brevidade, deixo que você, leitor, medite sobre isso por si mesmo. Só uma coisa eu te pediria: reflita sobre o que você diria, o que você mais lamentaria, se estivesse entre os condenados e percebesse que foi a causa dos sofrimentos de Cristo e o crucificou com os seus pecados. Se pudesses sentir agora em teu coração algo da contrição que então perfuraria tua alma, certamente nunca mais, pelo resto de tua vida, cometerias qualquer pecado mortal. Se pudesses agora lamentar os sofrimentos de Cristo com pungente tristeza, obterias infalivelmente a remissão de todos os teus pecados. Portanto, adore frequentemente o seu Salvador Crucificado, lembre-se dos seus sofrimentos por sua causa e recite a seguinte oração.

ORAÇÃO

Ó Jesus, Redentor do mundo, que suportaste sofrimentos indescritíveis por mim, um miserável pecador, peço-vos que a vossa amarga Paixão e a vossa morte na cruz não sejam em vão para mim. Gravai profundamente a lembrança deles em meu coração, para que eu os tenha sempre em mente e possa evitar o pecado que foi a causa do vosso sofrimento. Assim, quando a vossa cruz aparecer brilhante e resplandecente nos Céus, no Dia do Juízo Final, que ela não seja para mim um sinal de condenação, mas de salvação, um sinal da vossa misericórdia e do vosso amor. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (IX)

 

PARTE II - O JUÍZO FINAL

IV. Sobre Como Todos os Homens Aguardarão a Vinda de Cristo no Vale de Josafá

Contemplemos agora as multidões reunidas no lugar do julgamento. Toda a humanidade, todos os seres humanos que já viveram na Terra, bem como todos os espíritos rebeldes que foram expulsos do Céu, serão obrigados a comparecer aqui perante o tribunal de Cristo.

Quem pode tentar enumerar essas multidões incontáveis? O número de habitantes da Terra que vivem nesta época da humanidade é de cerca de 1.400.000.000 [atuais 8.230.000.000]. Essa vasta multidão terá desaparecido em menos de meio século, e outra geração, não menos numerosa, terá tomado seu lugar e preenchido a Terra novamente. Assim continuará até o Dia do Juízo Final. Que multidões incontáveis serão levadas perante o tribunal de Cristo!

Os bons estarão todos juntos, regozijando-se na certeza de sua salvação eterna. Eles estão adornados com vestes gloriosas e brilham como as estrelas do céu. Eles se conhecem, se cumprimentam e trocam felicitações mútuas por sua sorte feliz.

Mas não assim com os maus. Os bons estão à direita e os maus à esquerda. Infelizmente, o número dos maus é muito, muito maior do que o dos bons. Tanto antes como depois da vinda de Cristo, o príncipe das trevas dominou um número muito maior de súditos do que o próprio Cristo. Ai de mim, meu Deus, que multidão imensa haverá à esquerda! O luto e a miséria entre eles serão tão incomparáveis que os bons que estão à direita ficariam, se fosse possível, profundamente comovidos com compaixão.

Pois todos esses incontáveis milhões de seres humanos derramarão sua tristeza e angústia excessivas em lamentações piedosas. Aguardando a vinda do Juiz supremo, eles permanecem juntos, separados dos justos, cheios de confusão por sua própria hediondez e, especialmente, por sua pecaminosidade, agora evidente para todos.

No entanto, acima e além de toda essa miséria, está a consternação que prevalece por causa da vinda do Juiz; é algo que está além do poder das palavras expressar. Pois agora essas criaturas infelizes se tornam plenamente conscientes de quão terríveis são os julgamentos de Deus, aos quais deram tão pouca atenção durante a sua vida. Agora, pela primeira vez, reconhecem que vergonha terrível é para eles terem seus pecados manifestados na presença de todos os Anjos e Santos, na presença também dos demônios e dos condenados. Agora, pela primeira vez, estão conscientes da natureza terrível da sentença que lhes será imposta pelo Juiz, a quem muitas vezes desprezaram insolentemente. Essas e muitas outras coisas contribuem para imbui-los de um medo indescritível da vinda do seu Juiz, de modo que tremem de terror e quase desmaiam de apreensão e alarme. 

Dirão uns aos outros em tom lamentoso: 'Ai de nós, o que fizemos! Como nos enganamos terrivelmente! Por causa das poucas e transitórias alegrias da terra, teremos que passar por uma eternidade de angústia. De que nos servem agora todas as riquezas, os prazeres voluptuosos, o orgulho, as honras do mundo? Nós, tolos, desperdiçamos os bens celestiais e eternos pelas coisas pobres e insignificantes da terra. Ai de nós, o que será de nós quando nosso Juiz aparecer! Ó montanhas, caiam sobre nós; ó colinas, cubram-nos, pois verdadeiramente seria menos intolerável para nós sermos esmagados sob o vosso peso do que ficar diante do mundo inteiro cobertos de vergonha e confusão, e contemplar o rosto irado do justo Juiz!

Pecador infeliz, quem quer que seja você que esteja lendo este texto, não se iluda com a vã esperança de que esta descrição da miséria dos perdidos seja exagerada. Eles reclamarão mil vezes mais alto, e sua dor e miséria serão indescritíveis. Aproveite o curto e precioso tempo de sua existência terrena, faça penitência, faça agora tudo o que você desejaria ter feito no Dia do Juízo Final. Peça a Deus a graça de corrigir sua vida pecaminosa, para que o dia da vinda de Cristo não seja um dia de terror indescritível para você.

Meu Deus, reconheço que, por minha vida pecaminosa, mereço ser banido da vossa presença para sempre. No entanto, me arrependo sinceramente dos meus pecados e vos peço a graça de uma verdadeira conversão, para que eu não espere a vossa vinda entre os condenados. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sábado, 6 de dezembro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (VIII)

     

PARTE II - O JUÍZO FINAL

III. Sobre Como os Bons e os Maus Serão Conduzidos ao Local do Julgamento 

De acordo com a opinião geralmente aceita, o julgamento final será realizado no vale de Josafá, não muito longe de Jerusalém. Essa opinião se baseia nas palavras do profeta Joel: 'reunirei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá' (Jl 4,2). E ainda: 'De pé, nações! Subi ao vale de Josafá, porque é ali que vou sentar-me para julgar todos os povos ao redor!' (Jl 4,12). Não é difícil alegar uma razão pela qual Cristo deveria realizar o julgamento final neste lugar, pois ali está perto do local onde Ele sofreu, e não é justo que, no mesmo lugar, Ele apareça como nosso Juiz? O Monte das Oliveiras, cenário da sua agonia, foi também o da sua gloriosa Ascensão.

Pode-se, no entanto, objetar que o vale de Josafá não poderia conter os milhões e milhões de seres humanos que serão reunidos para o julgamento. Mas quando um local é indicado como o provável teatro do Juízo Final, isso não significa necessariamente que toda a humanidade será reunida nesse espaço limitado.

Consideraremos agora de que maneira seremos reunidos para o julgamento final. Se os justos e os ímpios forem encontrados juntos nos cemitérios e em outros lugares, acontecerá o que Nosso Senhor predisse: 'Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão e separarão os maus dos justos' (Mt 13, 49). Pois, uma vez que os bons repousam entre os ímpios, segue-se que, na ressurreição, eles serão encontrados entre os maus. Assim, após a Ressurreição Geral, os santos Anjos virão e separarão os eleitos dos réprobos. São Paulo, falando sobre isso, diz: 'Porque o próprio Senhor descerá do céu com ordem, e com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus; e os mortos que estão em Cristo ressuscitarão primeiro. Então nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar Cristo nos ares' (1Ts 4,15-16). Ou seja, todos os justos serão levados nas nuvens com esplendor e grande glória pelos anjos ao lugar do julgamento. Agora imagine que visão maravilhosa será quando os santos, com seus corpos glorificados, brilhando como ouro polido à luz do sol, forem transportados pelo ar, escoltados por seus anjos da guarda! Com que exultação e alegria eles seguirão seu caminho triunfal!

E quando todos se reunirem no vale de Josafá, eles se cumprimentarão com amor e se abraçarão com alegria mútua. Pense por um momento, ó cristão, como você se alegraria se tivesse a sorte de se encontrar entre o número dos abençoados. Essa felicidade ainda está ao seu alcance; se você realmente a desejar com toda a força de sua vontade, será contado nessa feliz companhia. Esforce-se para cumprir todos os seus deveres bem e fielmente, e você também um dia se juntará a essa gloriosa e triunfante procissão.

Consideraremos agora como os ímpios serão transportados para o vale de Josafá e o que os aguarda lá. Ai de mim! Seu destino é tão triste que mal me atrevo a descrevê-lo em detalhes. O que esses infelizes pecadores pensarão, o que dirão quando virem os santos anjos levando os eleitos de entre eles e transportando-os com glória e esplendor pelo ar? O Sábio nos dá uma ideia de seus pensamentos quando nos diz: 'Estes, vendo isso, ficarão perturbados com um medo terrível e se surpreenderão com a rapidez da salvação inesperada dos justos; dizendo dentro de si mesmos, arrependidos e gemendo de angústia de espírito: Estes são aqueles que nós outrora ridicularizávamos e tomávamos como parábola de opróbrio. Nós, tolos, considerávamos a vida deles loucura e o seu fim sem honra. Vede como eles estão contados entre os filhos de Deus, e o seu destino está entre os santos' (Sb 5,2-5). Como lhes causará tristeza ver aqueles que antes desprezavam tão profundamente agora honrados e amados pelos Anjos de Deus, e conduzidos por eles em glória e triunfo para encontrar Cristo. E aqueles que antes exibiam suas riquezas, que desprezavam todos os seus semelhantes em seu orgulho arrogante, agora estão entre os Anjos caídos, pobres, miseráveis, desprezados.

Quando os Anjos tiverem conduzido todos os eleitos ao vale de Josafá, eles continuarão a conduzir todos os réprobos para lá, com os espíritos malignos que se misturam com eles. Eles gritarão em alta voz: 'Fora daqui, fora para o julgamento! O Juiz dos vivos e dos mortos ordena que vocês compareçam diante Dele'. Que grito lancinante de angústia essas criaturas infelizes emitirão! Farão o possível para resistir à ordem dos Anjos, mas lutarão em vão; devem obedecer à ordem dos mensageiros de Deus. Juntamente com os espíritos malignos, os condenados serão levados à força para o lugar do julgamento. Que viagem terrível! O ar está repleto de gritos de raiva. Os espíritos das trevas, com malícia e crueldade diabólicas, já descarregam seu rancor atormentando as criaturas infelizes que o pecado tornou suas vítimas. Ouçamos o grito de desespero arrancado dos seres miseráveis: 'Que tolos fomos! Tolos impensados! Aonde nos levou o caminho da transgressão? Ai de nós! Ele nos trouxe ao severo, ao terrivelmente severo tribunal de Deus!'

Ouça, ó pecador, as lamentações dolorosas e as autoacusações dessas pobres criaturas. Cuidado para que você também não se torne um deles. Ore a Deus para que o preserve de um destino tão chocante e diga: 'Deus misericordioso, lembrai-vos do alto preço que pagou por mim e do quanto sofreu por mim. Por causa desse preço inestimável, não permitais que eu me perca, resgatai-me e acolhei-me entre as ovelhas do seu rebanho para que, com elas, eu possa louvar e glorificar a vossa bondade amorosa por toda a eternidade'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (VII)

    

PARTE II - O JUÍZO FINAL

II. Sobre a Ressurreição dos Mortos

O leitor talvez não leve muito a sério o que foi dito no capítulo anterior, porque nutre a esperança de não estar vivo durante esse período terrível. Mas o que estamos prestes a falar diz respeito a todos, seja quem for. Portanto, que se leia isso com atenção e com séria reflexão.

O primeiro evento que se seguirá ao fim do mundo é a ressurreição geral dos mortos. Todos os homens, sejam eles quem forem, e onde quer que tenham vivido, sem excluir os bebês cuja existência foi apenas um breve momento, ressuscitarão. Com o som solene de uma trombeta, Deus fará com que todos os homens sejam convocados para o Juízo Final. A respeito disso, Cristo disse: 'Ele enviará os seus anjos com trombeta e grande voz, e eles reunirão os seus eleitos dos quatro cantos, desde a extremidade do céu até os confins da terra' (Mt 24,31). E São Paulo nos diz: 'Todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados. Num momento, num piscar de olhos, ao som da última trombeta; pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis: e nós seremos transformados' (1Cor 15,51-52).

Após a grande conflagração, Deus enviará os seus anjos, que tocarão suas trombetas com um som tão poderoso que ecoará por todo o mundo. O som dessa trombeta será tão solene que fará a terra tremer. Sua voz poderosa despertará os mortos, chamando-os: 'Levantai-vos, ó mortos, e vinde ao julgamento! Levantai-vos, ó mortos, e vinde ao julgamento! Levantai-vos, ó mortos, e vinde ao julgamento!' Alto, contínuo e solene será o som dessa trombeta.

Quão aterrorizados ficarão todos os espíritos malignos e as almas perdidas quando ouvirem esse chamado! Eles uivarão e lamentarão, pois a hora fatal finalmente chegou, a hora que eles esperavam há tanto tempo e com um medo indescritível. Haverá tanta comoção no inferno, tanta raiva, fúria e terror, que se poderia imaginar que os demônios estivessem se despedaçando uns aos outros. 'Ai, ai!' - gritarão em seu desespero -  'Como poderemos enfrentar o rosto de nosso Juiz irado? Como poderemos suportar a vergonha, a agonia que será a nossa parte? Se pudéssemos permanecer aqui, com que alegria o faríamos, por maiores que sejam os tormentos que agora temos de suportar!' Mas todos os seus desejos serão vãos, todas as suas lutas serão inúteis.

Eles não podem escolher, pois devem obedecer à voz da trombeta. A ressurreição geral começa enquanto seu som ainda ecoa por todo o globo. Não pare para perguntar como isso pode ser, pois sabemos que assim será, com base na autoridade irrefutável da onipotência de Deus e a sua palavra, que não pode enganar. Por mais tempo que o corpo de um homem tenha se transformado em pó, quaisquer que sejam as mudanças pelas quais tenha passado, cada parte e cada partícula se unirão para formar novamente o mesmo corpo que era dele durante sua vida. 'E o mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o inferno entregaram os mortos que neles havia' (Ap 20,13).

Considere esta verdade solene, ó cristão, pois ela lhe diz respeito diretamente. Tão certo quanto você está vivo agora, tão certo é que um dia você ressuscitará da sepultura. Coloque este momento terrível vividamente diante de você. Mesmo que você seja piedoso e termine seus dias na graça de Deus, ainda assim, de acordo com o testemunho da Sagrada Escritura e da Igreja Católica, o medo e o tremor se apoderarão de você. Considerando o quão inconcebivelmente rigoroso Deus será em seu julgamento dos homens, até mesmo os justos terão motivos para temer ao comparecerem diante do seu tribunal, como mostraremos a seguir. E se os homens bons e justos têm medo, qual será o medo que você, pobre pecador, sentirá quando a trombeta o chamar para o julgamento! Portanto, corrija seus caminhos e faça as pazes agora com seu Juiz severo, por meio de obras de penitência, enquanto ainda há tempo. Agora, para que te prepares para essa terrível hora da ressurreição, descreveremos primeiro a ressurreição dos bons e, em seguida, a dos réprobos.

Despertadas pelo som solene da trombeta, todas as almas dos justos descerão do Céu e, acompanhadas por seus Anjos da Guarda, se dirigirão ao local onde seus restos mortais foram enterrados. Os túmulos estarão abertos e neles os corpos serão vistos deitados, incorruptos, mas sem vida. O corpo de cada homem bom repousará no túmulo como se estivesse adormecido; estará florido como uma rosa, perfumado como um lírio, brilhante como uma estrela, belo como um anjo e perfeito em todos os seus membros. O que dirá a alma quando contemplar o corpo que lhe pertence deitado diante dela com tanta beleza? Ela dirá: 'Salve, corpo abençoado e amado, como me alegro mais uma vez por me reunir a ti! Como és adorável, como és glorioso, como és agradável, como és perfumado! Vem a mim, para que eu possa casar-me contigo por toda a eternidade'. Então, pelo poder de Deus, o corpo se reunirá à alma e, naquele mesmo instante, voltará à vida.

Ó meu Deus, qual será o espanto do corpo quando se encontrar vivo novamente e moldado em uma forma tão bela! A alma e o corpo se cumprimentarão com amor e se abraçarão com afeto e emoção sincera. A alma dirá assim ao corpo: 'Como eu ansiava por ti, como eu desejava ver este dia! Agora vou conduzi-lo às regiões da bem-aventurança celestial para que possamos nos regozijar juntos para sempre'. E o corpo responderá: 'Bem-vinda, querida alma; é realmente uma alegria sincera para mim estar com você novamente. Quanto maior foi a dor que nossa separação passada me causou, maior é o prazer que nossa reunião agora proporciona'.

Então a alma falará novamente e dirá ao corpo: 'Bendito sejas, meu companheiro escolhido, que me foste tão fiel. Benditos sejam teus sentidos e todos os teus membros, pois sempre se abstiveram do mal'. E o corpo responderá: 'Bendita sejas tu, ó alma querida, pois foi por tua instigação que assim fiz, e tu me incitaste a tudo o que era bom. É a ti que devo minha felicidade atual, portanto, eu te louvo e te engrandeço, e te louvarei e engrandecerei por toda a eternidade'. Assim, o corpo e a alma se regozijarão juntos com uma satisfação inexprimível.

Então, os santos anjos guardiões felicitarão esses seres abençoados e exultarão com eles por sua alegre ressurreição. Em todos os cemitérios e lugares onde muitas pessoas estão enterradas, os abençoados ressuscitarão primeiro com corpos glorificados resplandecentes. Que eles terão precedência sobre os outros pode ser deduzido das palavras de Cristo, quando Ele diz: 'Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus. E os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, mas os que fizeram o mal ressuscitarão para o juízo' (Jo 5, 28-29).

E como em todo cemitério há muitas pessoas para ressuscitar, e entre elas uma proporção considerável será boa e justa, imagine o prazer que será para elas se verem novamente, revestidas de corpos tão brilhantes e gloriosos. Que Deus permita que eu seja contado entre o número desses indivíduos felizes! Como eu lhe agradecerei de coração se Ele atender ao meu pedido!

A ressurreição dos ímpios seguirá imediatamente a dos justos; mas, como será diferente! Em todos os cemitérios, todas as almas perdidas cujos corpos foram enterrados ali se reunirão e serão obrigadas a assumi-los novamente e a se reunir a eles. Mas quanta relutância, que repulsa elas sentirão ao fazer isso! Quando a alma vir seu próprio corpo, ela recuará com a maior repulsa, tão hediondo ele será, e sentirá que prefere ir direto para o inferno a se unir novamente a ele. Pois os corpos dos réprobos se assemelharão mais a demônios do que a homens, tão assustadores, tão repugnantes, tão ofensivos serão. No entanto, por mais que a alma resista e se oponha à reunião com seu corpo, agora tão hediondo, ela deve se submeter a isso, pois Deus a obriga a isso.

Quem pode descrever o desespero que toma conta do corpo quando, reanimado pelo retorno da alma, ele desperta para a consciência de que está perdido para sempre? Com um grito de raiva, ele exclamará: 'Ai de mim, ai de mim por toda a eternidade! Melhor teria sido para mim mil vezes nunca ter nascido, do que ter chegado a esta ressurreição de miséria!' Então a alma responderá: 'Corpo amaldiçoado, já tive de suportar durante várias centenas de anos os tormentos do Inferno, e agora devo regressar contigo ao fogo eterno. Tu és o culpado por toda esta infelicidade; dei-te bons conselhos, mas tu não os seguiste. Por isso, estás perdido para sempre. Ai de mim, alma infeliz que sou! Ai de mim, agora e para sempre! Tu foste o meio que me trouxe a esta miséria sem fim. Por isso, execro a hora em que vim morar contigo pela primeira vez'. E então o corpo responderá à alma desta maneira: 'Ó alma amaldiçoada, que direito tens de me anatematizar, quando tu mesma és a causa de toda essa miséria? Tu deverias ter me governado com mais firmeza e me impedido de praticar o mal, pois foi com esse objetivo que Deus te uniu a mim. Em vez de te associares a mim em obras de penitência, tu te deleitavas comigo em prazeres pecaminosos. Cabe a mim, portanto, amaldiçoar-te por toda a eternidade, porque foste tu quem nos levou a ambos à perdição eterna'. Assim, a alma e o corpo se amaldiçoarão mutuamente. Tais são as circunstâncias infelizes que acompanharão a ressurreição dos corpos dos condenados em todos os cemitérios e sepulcros, quando eles deixarem a sepultura e entrarem em uma segunda vida.

E agora, leitor, tente imaginar a vergonha e a confusão que pesarão sobre essas pobres criaturas quando se virem novamente pela primeira vez. Maridos e esposas se encontrarão, irmãos e irmãs, pais e filhos, amigos e conhecidos; aqueles que viveram na mesma cidade ou na mesma aldeia e se conheceram desde a infância. Sua vergonha será tão avassaladora que preferirão suportar qualquer tortura física a serem expostos a ela. E seus corpos serão tão horrivelmente feios, tão repugnantes na aparência, que eles estremecerão ao se verem. Quem pode descrever o luto e o lamento que prevalecerão entre essas criaturas infelizes! Sua miséria é realmente indescritível.

Pense, quem quer que seja que leia ou ouça isto, que desespero terrível tomaria conta de você se estivesse entre essas almas perdidas. Em que tom lamentável você choraria com eles seu destino infeliz. 'Ai de nós! O que fizemos? Ai de nós, os mais miseráveis; quem dera nunca tivéssemos nascido! Maldita seja você, minha esposa, que me provocou ao pecado! Malditos sejam vocês, meus filhos, que são a causa da minha condenação! Malditos sejam vocês, meus amigos e conhecidos, pois vocês foram a causa desta calamidade que se abateu sobre mim! Malditos sejam para sempre todos aqueles que foram parceiros da minha vida e parceiros do meu pecado!'

Pense nisso, ó pecador, e deixe seu coração endurecido se abrandar. Sempre que passares pelo cemitério do lugar onde vives, lembra-te de que talvez em breve sejas colocado ali para descansar na sepultura até à ressurreição geral. Por isso, faz bom uso do breve período da vida, para que sejas contado entre os justos e ressuscites com eles para a felicidade eterna, e não com os réprobos para os tormentos eternos. Reze frequentemente assim em seu coração: 'Ó meu Jesus, pela vossa infinita misericórdia, eu vos imploro, pela vossa amarga Paixão e morte e pelo Juízo Final, no qual sereis o Juiz de todo o mundo, concedei-me a graça de viver de tal maneira que, na ressurreição, eu possa ressuscitar na vossa alegria e não na vergonha da perdição. Amém'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (VI)

   

PARTE II - O JUÍZO FINAL

I. Sobre os Sinais que Precederão o Juízo Final

Jesus Cristo, Juiz dos vivos e dos mortos que, na sua primeira vinda apareceu na terra com toda  quietude e tranquilidade, sob uma forma gentil e humilde, voltará pela segunda vez para julgar os homens com grande majestade e glória.

Para que a sua vinda não nos encontre despreparados, Ele enviará antecipadamente muitos e terríveis sinais para nos alertar a abandonar nossa vida pecaminosa. Sobre esses sinais, Ele mesmo diz: 'Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; e, na terra, angústia das nações, os homens desfalecendo de medo e expectativa do que sobrevirá ao mundo inteiro' (Lc 21, 25-26)... Porque então haverá grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá. E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria' (Mt 24,21-22). Que anúncio terrível! Que profecia terrível!

Poderia haver alguma previsão mais terrível para nós do que esta que vem dos lábios da Verdade Eterna? Quando Deus estava prestes a destruir a cidade de Jerusalém, Ele anunciou sua queda por meio de vários sinais. Um cometa, semelhante a uma espada de fogo, brilhou sobre a cidade, e exércitos de guerreiros armados foram vistos lutando no ar. Jerusalém poderia, no último momento, ter interpretado corretamente esses sinais e feito penitência para a salvação. Mas Jerusalém não soube o tempo da sua visitação. Se Deus fez com que sinais tão maravilhosos aparecessem antes da destruição de uma única cidade, não anunciará Ele o fim do mundo que se aproxima e os castigos que virão sobre ele, por meio de sinais terríveis e assustadores? 

Há, portanto, todas as razões para acreditar que, um tempo considerável antes do Dia do Juízo Final, sinais temíveis aparecerão em toda a terra e nos céus. Cristo parece indicar isso nas palavras: 'Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; os homens definharão de medo e expectativa do que virá sobre o mundo inteiro'. Esses sinais se tornarão mais numerosos a cada dia, e os homens ficarão tão aterrorizados que, se Deus não encurtasse esses dias, até mesmo os eleitos começariam a se desesperar. Então, como diz São Jerônimo, os céus ficarão nublados com nuvens pesadas e uma tempestade terrível se levantará.

A força do vento derrubará os habitantes da terra e os lançará no ar; árvores serão arrancadas, casas ficarão sem telhado. Longos estrondos de trovões ressoarão nos céus, os relâmpagos, como serpentes de fogo, iluminarão o céu e, com suas línguas bifurcadas, brincando ao redor das moradias da humanidade, acenderão uma conflagração geral, em meio ao estrondo dos trovões. As águas do oceano ficarão tão agitadas que suas ondas se elevarão como montanhas, quase alcançando as nuvens. O rugido e a fúria das ondas varridas pela tempestade durarão algum tempo. Todos os animais da terra levantarão a voz, e seus uivos sombrios encherão o ar, de modo que os corações dos homens ficarão paralisados de terror.

No entanto, isso é apenas o começo da tristeza, diz-nos Nosso Senhor. O que acontecerá a seguir, Ele descreve com estas palavras: “Imediatamente após a tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e os poderes do céu serão abalados' (Lc 21, 25-26). Este escurecimento do sol ocorrerá em plena luz do meio-dia. E assim como seus raios dourados iluminando a face da natureza alegram tanto os homens quanto os animais, a retirada repentina de sua luz causará tristeza e angústia a toda a criação. E isso ainda mais porque a lua deixará de brilhar, e sua luz suave e pacífica não mais iluminará as sombras da noite. Todas as estrelas que salpicam o firmamento e lançam um brilho sobre a terra desaparecerão de seu lugar habitual. Essa terrível escuridão causará tal alarme e angústia no coração de todas as criaturas vivas, tanto homens quanto animais, que o luto e o lamento serão universais.

Com o lamento de angústia que ascende dos habitantes da Terra, os uivos dos espíritos malignos no ar se misturarão em um concerto hediondo, pois eles perceberão por esses sinais que o Dia do Juízo Final está próximo; eles sabem que em breve terão que comparecer perante o rigoroso tribunal de Deus; eles sabem que serão lançados no Inferno por toda a eternidade. Daí sua fúria, sua raiva e seus delírios frenéticos.

Aqui podemos repetir as palavras ditas por Cristo: 'Este é apenas o começo da dor', e podemos acrescentar que não haverá fim para ela. Pois, após a terrível escuridão, tudo estará perturbado e em desordem, e os elementos serão liberados, de modo que os homens temerão que os céus caiam e a terra afunde sob seus pés. É isso que Cristo quer dizer quando afirma: ' Os poderes do céu serão abalados e as estrelas cairão do céu'. Pois, de acordo com a vontade divina, o firmamento com todas as suas estrelas, o sol com seus planetas, a atmosfera com seu véu de nuvens, serão tão fortemente abalados e feitos tremer que sons terríveis de colisões, quebras e explosões assustadoras serão ouvidos em todos os lugares. As estrelas serão expulsas de suas órbitas e, assim, os grandes poderes do céu entrarão em conflito uns com os outros.

Quais serão os sentimentos do homem que viver esses eventos? Como toda a humanidade, todos os seres criados lamentarão! O próprio Cristo nos diz que assim será: 'Na terra haverá angústia das nações, por causa da confusão do rugido do mar e das ondas; os homens definharão de medo e expectativa do que virá sobre o mundo inteiro' (Lc 21,25-26). E em outro lugar Ele diz: 'Haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá. E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria' (Mt 24, 21-22). Nosso Senhor não poderia ter usado expressão mais forte para descrever a miséria absoluta dos mortais infelizes do que dizer que eles definharão de medo e apreensão pelas coisas que ainda estão por vir sobre o mundo. 

Como é possível que os homens que estarão vivos naquela época não desanimem, não se desesperem, diante de tamanha miséria insondável? Mesmo a fé e a coragem de um apóstolo seriam duramente provadas para suportar tamanha infelicidade indescritível. Todos os homens terão a aparência de quem viu um fantasma. Seus cabelos ficarão em pé, seus joelhos baterão um no outro, eles tremerão de medo, seu terror os privará da capacidade de falar, seus corações morrerão dentro deles por causa da tribulação, perderão a razão e a consciência, ninguém ajudará o seu vizinho, ninguém confortará o seu próximo, ninguém trocará uma palavra com os seus amigos; apenas todos se unirão em choro e lamentação, e correrão para se esconder nas cavernas da terra.

Quando essa lamentação tiver durado algum tempo, o Deus da justiça porá fim à sua miséria, e tudo o que estiver sob o firmamento do Céu será destruído pelo fogo. Pois o fogo cairá do Céu e incendiará tudo com que entrar em contato. Em muitos lugares, também, chamas brotarão do solo e aterrorizarão os mortais infelizes a tal ponto que eles não saberão como escapar delas. Alguns buscarão abrigo em porões e cavernas, outros mergulharão em rios e lagos. As chamas devoradoras se espalharão tão rapidamente que as florestas serão incendiadas, e as cidades e vilas serão incluídas na destruição. Por fim, toda a Terra estará em chamas e ocorrerá uma conflagração geral, como nunca se viu ou se ouviu falar. O calor das chamas violentas será tão intenso que as pedras e rochas derreterão, e o mar e todas as águas da terra ferverão e se converterão em vapor.

Todos os homens então vivos, todos os animais da terra e todos os peixes do mar serão destruídos nesta conflagração universal. Assim, o mundo inteiro chegará a um fim terrível, e tudo nesta terra será consumido ou purificado pelo fogo. Depois que tudo isso acontecer, a aparência da terra será completamente renovada.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (V)

   

PARTE I - SOBRE A MORTE

V. Sobre o Julgamento

Além de tudo o que até agora consideramos como contribuindo para tornar a morte terrível para nós, está o pensamento de que devemos comparecer perante o tribunal de Deus e prestar contas de tudo o que fizemos e deixamos de fazer. Quão terrível é esse julgamento, aprendemos com estas palavras de São Paulo: 'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' (Hb 10, 31). Pois, se é muito alarmante cair nas mãos de um homem irado, quanto mais terrível não será cair nas mãos de um Deus onipotente! 

Todos os santos tremiam antecipando a sentença que Deus lhes aplicaria, pois sabiam muito bem como são severos os seus julgamentos. O salmista real diz: 'Não entres em juízo com o teu servo, ó Senhor, pois diante de ti nenhum homem vivo será justificado' (Sl 142,2). E o santo Jó exclama: 'O que farei se Deus se levantar para me julgar? Quando me interrogar, o que responderei? ' (Jó, 31,14).

Mais uma vez, São Paulo diz: 'Não tenho consciência de nada contra mim, mas não estou por isso justificado; mas aquele que me julga é o Senhor' (1Cor 4,4). Lemos também nas vidas dos Padres que o santo abade Agatão ficou dominado pelo medo quando o seu fim se aproximava. Os seus irmãos disseram-lhe: 'Por que temes, reverendo pai, tu que levaste uma vida tão piedosa?' Mas ele respondeu-lhes: 'Os julgamentos de Deus são muito diferentes dos julgamentos dos homens'. O santo abade Elias costumava dizer: 'Há três coisas que temo. Primeiro, temo o momento em que minha alma terá que deixar meu corpo; segundo, o momento em que terei que comparecer perante o tribunal de Deus; terceiro, o momento em que a sentença será proferida sobre mim'. 

Ninguém pode deixar de concordar com as palavras desse homem santo, pois, de fato, além do julgamento geral, não há nada tão temível quanto essas três coisas. Todos os homens bons e santos as temeram, todos as temem. Aqueles que não as temem provam que sabem muito pouco sobre elas ou que quase não meditaram sobre elas. Para o benefício de alguém que possa ser tão pouco esclarecido, darei uma breve instrução sobre o assunto.

Considere, em primeiro lugar, que sensação estranha e nova será para a sua alma quando ela se encontrar separada do corpo, em um mundo desconhecido. Até então, ela não conhecia nenhuma existência separada do corpo; agora, de repente, está separada dele. Até então, ela estava no tempo; agora, passou para a eternidade. Agora, pela primeira vez, seus olhos se abrem e ela vê claramente o que é a eternidade, o que é o pecado, o que é a virtude, quão infinito é o ser da Divindade e quão maravilhosa é sua própria natureza.

Tudo isso lhe parecerá tão maravilhoso que ela ficará quase petrificada de espanto. Após o primeiro instante de admiração, ela será conduzida perante o tribunal de Deus, para que preste contas de todas as suas ações; e o terror que então se apoderará da alma infeliz ultrapassa nossa capacidade de compreensão. Não é de se admirar que o infeliz pecador recue diante de comparecer a um tribunal onde será condenado por todos os seus erros e severamente punido por eles! Não preferiria ele ser jogado em um calabouço escuro e alimentado com pão e água, a ter que comparecer diante desse tribunal e ser exposto à vergonha pública?

Se é tão odioso para um criminoso ser levado perante um magistrado terreno, bem pode a pobre alma tremer de medo quando for apresentada à presença de Deus, o Juiz rigoroso e onisciente, e for obrigada a prestar contas com a maior precisão de todos os pensamentos, palavras, ações e omissões de sua vida passada. O santo Jó reconhece isso quando diz: 'Quem me concederá isso, que Tu me protejas no inferno e me escondas até que a Tua ira passe' (Jó 14,13). Observe que mesmo o paciente Jó prefere ficar deitado em um poço escuro e ficar escondido em uma caverna sombria e lúgubre do que aparecer diante da face de um Deus irado.

Há seis coisas que causam terror na alma, quando ela é chamada ao julgamento particular.

(i) A alma teme porque sabe que seu Juiz é onisciente; que nada pode ser ocultado dele, nem Ele pode ser enganado de forma alguma.

(ii) Porque seu Juiz é onipotente; nada pode resistir a Ele, e ninguém pode escapar dele.

(iii) Porque seu Juiz não é apenas o mais justo, mas o mais rigoroso dos juízes, para quem o pecado é tão odioso que Ele não permitirá que a menor transgressão passe impune.

(iv) Porque a alma sabe que Deus não é apenas seu juiz, mas também seu acusador; ela provocou a sua ira, ofendeu-o, e Ele defenderá a sua honra e vingará cada insulto oferecido a ela.

(v) Porque a alma está ciente de que a sentença, uma vez proferida, é irrevogável; não há recurso para ela em um tribunal superior, é inútil que ela reclame da sentença. Ela não pode ser revertida e, seja ela adversa ou favorável, ela precisa aceitá-la.

(vi) A razão mais poderosa de todas pelas quais a alma teme comparecer perante o tribunal é porque ela não sabe qual será a sentença do Juiz. Ela tem muito mais motivos para temer do que para ter esperança. E todo pensamento de ajuda agora acabou. Uma vez perdida para sempre, é para sempre; uma vez condenada para sempre, é para sempre!

Esses seis pontos enchem a alma de uma angústia e um terror tão indescritíveis que, se ela fosse mortal em vez de imortal, estaria disposta a morrer da morte mais cruel e violenta como forma de escapar.

Considera, além disso, de que forma aparecerás diante do teu Juiz e como ficarás confuso por causa dos teus pecados. Se um homem, em punição por suas más ações, fosse condenado a ser despido até ficar nu na presença de toda uma multidão, quão envergonhado ele se sentiria! Mas se alguma ferida repugnante e nojenta em seu corpo fosse assim revelada à vista, ele ficaria ainda mais envergonhado. Assim será contigo, quando estiveres diante do teu Juiz na presença de muitas hostes de Anjos. Não apenas todas as tuas más ações, pensamentos, palavras e obras serão revelados, mas todas as tuas propensões malignas serão manifestadas a ti, e tu serás exposto a uma vergonha terrível por causa delas.

Não podes negar que essas inclinações malignas se apegam a ti, pois não és dado à ira, à impaciência, à vingança, ao ódio, à inveja, ao orgulho, à vaidade, à sensualidade, à preguiça, à ganância, ao amor próprio, à avareza, à mundanidade e a toda malícia? Essas e outras tendências ruins se apegam à tua alma e a desfiguram de forma tão terrível que, após a morte, ficarás alarmado ao ver a tua própria alma e sinceramente envergonhado de todas as manchas presentes nela.

Em seguida, considera de que maneira o teu santo Juiz te receberá, quando apareceres diante dele não apenas carregado com uma multidão incontável de pecados, mas em um estado de impureza indescritível. Tu ficarás diante dele na maior confusão, sem saber para onde olhar. Sob teus pés está o inferno; acima de ti está o rosto irado do teu Juiz. Ao teu lado, tu vês os demônios que estão lá para te acusar. Em teu interior, tu contemplas todos os teus pecados e más ações. É impossível te esconderes; e, no entanto, essa exposição é intolerável.

Este seria um momento oportuno para explicar como o inimigo maligno irá acusá-lo, como ele trará todos os seus pecados à luz e invocará sobre eles a vingança de Deus; e também como o Deus justo exigirá o relato mais preciso de todas as suas ações. Mas isso tem sido tema tão frequente dos pregadores que, por uma questão de brevidade, não vou me alongar sobre essa parte do meu assunto, mas concluirei com a seguinte historieta.

Dois amigos íntimos combinaram que aquele que morresse primeiro apareceria ao sobrevivente, desde que Deus lhe permitisse fazê-lo. Quando finalmente um deles foi levado pela morte, fiel à sua promessa, ele apareceu ao seu amigo, mas com um aspecto triste e abatido, dizendo: 'Ninguém sabe! Ninguém sabe! Ninguém sabe!' 'O que é que ninguém sabe?', perguntou seu amigo. E o espírito respondeu: 'Ninguém sabe quão rigorosos são os julgamentos de Deus e quão severos são os seus castigos!'

Sendo assim, o que devemos fazer para não cair nas mãos de um Juiz tão irado? Não posso dar-te melhor conselho do que este: arrepende-te dos teus pecados, faz uma confissão sincera, corrige os teus caminhos e começa a pensar seriamente na tua salvação eterna. Enquanto ainda estás de boa saúde, pensa às vezes na morte e prepara-te para ela. Não adie isso até que a velhice chegue ou uma doença mortal o alcance. Não há arte maior nem mais importante na terra do que a arte de ter uma boa morte. Toda a sua eternidade depende disso: uma eternidade de felicidade incomparável ou de tormento indescritível.

Apenas uma prova lhe é concedida; se você não passar por essa única prova, tudo estará perdido, e uma eternidade de miséria estará diante de você. E se você não aprendeu essa arte tão importante durante sua vida, quando estava bem e forte, como poderá praticá-la para seu ganho eterno quando estiver em seu leito de morte? Será totalmente impossível para você fazer isso, a menos que Deus faça um milagre de misericórdia em seu favor. Você não pode contar com isso; Deus não prometeu isso, nem você mereceu um favor tão grande. Portanto, deixe-me implorar que siga meu conselho amigável e se prepare frequentemente para a morte enquanto estiver com plena saúde e força; pois este é o único meio pelo qual você pode esperar tornar-se proficiente na arte de morrer bem e passar com sucesso pela única provação que o espera, e pela qual o seu destino eterno será determinado.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

VERSUS: A HERESIA DO ARREBATAMENTO


Origem e Proposição: heresia de natureza protestante que prega que, pouco antes da grande tribulação descrita no Livro do Apocalipse, os cristãos fieis serão 'arrebatados' por Cristo antes do julgamento final e, assim, ficarão livres dos castigos e eventos terríveis da grande tribulação [o chamado arrebatamento pré-tribulação].

'Assim será no dia em que se manifestar o Filho do Homem. Naquele dia, quem estiver no terraço e tiver os seus bens em casa não desça para os tirar; da mesma forma, quem estiver no campo não torne atrás. Lembrai-vos da mulher de Ló. Todo o que procurar salvar a sua vida irá perdê-la; mas todo o que a perder irá encontrá-la. Digo-vos que naquela noite dois estarão em uma cama: um será tomado e o outro será deixado; duas mulheres estarão moendo juntas: uma será tomada e a outra será deixada. Dois homens estarão no campo: um será tomado e o outro será deixado' (Lc 17, 30-36).


Contraposição Católica: O texto bíblico refere-se diretamente à Segunda Vinda de Jesus, enfatizando a necessidade de se estar vigilante e preparado para o dia em que o Filho do Homem se manifestar em sua vinda gloriosa. E o texto alerta que esta Segunda Vinda ocorrerá de forma súbita e inesperada, como nos tempos de Noé e Ló, quando tudo parecia seguir sem sobressaltos a rotina dos tempos. Quando o Filho do Homem se manifestar então, a humanidade será dividida em dois destinos antagônicos e irremediáveis: 'um será levado e o outro deixado'.

A heresia do arrebatamento nasce da livre interpretação do texto: 'um será levado e o outro deixado': neste contexto, de duas pessoas próximas, uma seria arrebatada ao Céu e a outra seria deixada para trás, como personagens parceiras, mas como testemunhas completamente distintas dos eventos da grande tribulação (os arrebatados estariam seguros e isentos deste período singular da humanidade). Essa interpretação é absurda, porque o próprio Senhor nos alertou que este tempo de provação extremada seria imposto a todos os homens, sem distinção alguma entre 'mulheres grávidas' ou 'criaturas':

Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentarem naqueles dias! Rogai para que vossa fuga não seja no inverno, nem em dia de sábado; porque então a tribulação será tão grande como nunca foi vista, desde o começo do mundo até o presente, nem jamais será. Se aqueles dias não fossem abreviados, criatura alguma escaparia; mas, por causa dos escolhidos, aqueles dias serão abreviados (Mt 24,19-22).

Mais ainda: exatamente por causa dos escolhidos, os dias da tribulação serão diminuídos para que os escolhidos possam se salvar [durante e sob os tremendos eventos da grande tribulação e não por meio de um arrebatamento prévio]. Os justos não serão salvos antes da tribulação, mas estes tempos serão abreviados para que possam ser salvos. Ou seja, todos os homens e mulheres serão igualmente testemunhas destes eventos espantosos, porém, com destinos finais muito distintos: aqueles que perderam as suas vidas pelo evangelho [contra o mundo] serão salvos e aqueles que tentarem salvar suas vidas [sem o evangelho] perderão a vida eterna.

'Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia irão apoderar-se das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definha­rão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas. Então, verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade. Quando começarem a acontecer essas coisas, reani­mai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação' ( Lc 21, 27-28).

A Igreja Católica professa que Cristo voltará para julgar os vivos e os mortos, no fim dos tempos, de forma visível e gloriosa, mediante a ressurreição dos cristãos já falecidos e pela transformação gloriosa dos fieis em vida, sendo só então todos levados - arrebatados - ao encontro do Senhor para com Ele desfrutar da vida eterna. Ou seja, a comunhão visível da humanidade fiel com Cristo é o último capítulo do fim dos tempos e este 'arrebatamento' é o fruto final da ressurreição [dos justos falecidos de todos os tempos] e da transfiguração [dos escolhidos vivos do fim dos tempos].

'Eis o que vos declaramos, conforme a palavra do Senhor: por ocasião da vinda do Senhor, nós que ficamos ainda vivos não precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Se­nhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor' (1Ts 4,15-17).