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terça-feira, 19 de maio de 2026

'APASCENTA-ME SENHOR E APASCENTA-TE COMIGO'

Tu, Senhor, me tiraste das entranhas do meu pai; tu me formaste no ventre da minha mãe; tu me fizeste nascer menino e nu, pois as leis da natureza seguem os teus mandamentos.

Com a bênção do Espírito Santo, preparaste a minha criação e a minha existência, não por vontade de homem, nem por desejo carnal, mas por uma tua graça inefável. Previste o meu nascimento com um cuidado superior ao das leis naturais; pois me trouxeste à luz, adotando-me como teu filho, e me contaste entre os filhos da tua Igreja santa e imaculada.

Alimentaste-me com o leite espiritual de teus ensinamentos divinos. Nutriste-me com o alimento vigoroso do corpo de Cristo, nosso Deus, teu santo Unigênito, e embriagaste-me com o cálice divino, ou seja, com seu sangue vivificante, que Ele derramou pela salvação do mundo inteiro.

Porque tu, Senhor, nos amaste e entregaste o teu único e amado Filho para a nossa redenção, que Ele aceitou voluntariamente, sem repugnância; mais ainda, visto que Ele mesmo se ofereceu, foi destinado ao sacrifício como cordeiro inocente, porque, sendo Deus, fez-se homem e, com a sua vontade humana, submeteu-se, tornando-se obediente a ti, Deus, seu Pai, até à morte, e uma morte na cruz.

Assim, ó Cristo, meu Deus, humilhaste-te para me carregar sobre os teus ombros, como uma ovelha perdida, e me apascentaste em pastos verdes; alimentaste-me com as águas da verdadeira doutrina por intermédio dos teus pastores, a quem tu mesmo alimentas para que, por sua vez, alimentem o teu rebanho eleito e sublime.

Pela imposição das mãos do bispo, chamaste-me para servir aos teus filhos. Ignoro por que razão me escolheste; só tu o sabes. Mas tu, Senhor, alivia o pesado fardo dos meus pecados, com os quais gravemente te ofendi; purifica o meu coração e a minha mente. Conduz-me pelo caminho reto, tu que és uma lâmpada que ilumina.

Coloca as tuas palavras nos meus lábios; dá-me uma linguagem clara e fácil, por meio da língua de fogo do teu Espírito, para que a tua presença sempre vigie.

Apascenta-me, Senhor, e apascenta-te comigo, para que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda, mas que o teu Espírito bom me conduza pelo caminho reto e as minhas obras se realizem segundo a tua vontade até o último momento.

E tu, cume resplandecente da mais íntegra pureza, excelente congregação da Igreja, que esperas a ajuda de Deus, tu, em quem Deus repousa, recebe de nossas mãos a doutrina imune a todo erro, tal como nos foi transmitida por nossos Padres, e com a qual a Igreja se fortalece. 

(São João Damasceno, Da Declaração da Fé)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

ORAÇÃO: O LUX BEATA TRINITAS

Santo Ambrósio, arcebispo de Milão (337 – 397), Padre da Igreja, utilizava frequentemente a música no contexto dos ritos litúrgicos, tendo composto inúmeros hinos religiosos, chegando a desenvolver inclusive um estilo próprio de música - o Canto Ambrosiano - que foi precursor do Canto Gregoriano. O hino O LUX BEATA TRINITAS consta no Breviário Romano sob o título de Jam sol recedit igneus, como o hino das Vésperas para o ofício litúrgico aos sábados e do Domingo da Santíssima Trindade.


O Lux beata Trinitas:
Oh luz da bem-aventurada Trindade:
Et principalis Unitas:
Unidade fundamental:
Jam sol recedit igneus,
Que ofusca o fogo do próprio sol
Infunde lumen cordibus.
Enche de luz os corações.

Te mane laudum carmine,
A Vós eleva-se nosso cântico matutino,
Te praedicamus vespere;
A Vós se volta nossa oração vespertina;
Te nostra supplex gloria
Que nossa glorificação suplicante;
Per cuncta laudet saecula.
Vos louve pelos séculos dos séculos.

Deo Patri sit gloria,
A Deus Pai seja dada a glória,
eiusque soli Filio,
E a seu filho Unigênito,
cum Spiritu Paraclito,
Ao Espírito Santo Paráclito,
et nunc, et in perpetuum.
Agora e para sempre.
Amen.
Amém.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A SANTA VONTADE DE DEUS

Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)

O que o Apóstolo quer dizer com 'a vontade perfeita' é que a alma assume a forma de piedade, na medida em que a graça do Espírito a faz florescer até a suprema beleza, atuando com o homem sofredor em sua transformação.

O crescimento do corpo não depende de nós, pois a natureza não mede sua estatura segundo o julgamento ou desejo humano: ela segue sua própria inclinação e necessidades naturais. Ao contrário, na ordem do novo nascimento, a medida e a beleza da alma - concedidas pela graça do Espírito, que vem através do zelo de quem a recebe - crescem segundo a nossa disposição. Quanto mais você se esforça pela piedade, mais a estatura da sua alma se expande, por meio dessas lutas e trabalhos aos quais o Senhor nos convida, dizendo: 'Esforcem-se para entrar pela porta estreita' (Lc 13,24; Mt 7,13), e também: 'Esforcem-se pela violência, pois são os violentos que conquistam o Reino dos Céus' (Mt 11,12). E ainda: 'Aquele que perseverar até o fim será salvo' (Mt 10,22). E mais: 'Pela perseverança, eles conquistarão suas almas' (Mc 13,12). O apóstolo também diz: 'Corramos com perseverança a corrida que nos está proposta' (Hb 12,1), e também: 'Corramos de tal maneira que alcancemos o prêmio' (1Cor 9,24), e ainda: 'Como servos de Deus com paciência incansável' (2Cor 6,4).

Isso nos convida, portanto, a correr e a direcionar todos os nossos esforços para essas batalhas, visto que a graça é proporcional ao esforço de quem a recebe. Pois é a graça do Espírito que concede a vida eterna e a alegria inefável no céu; e é o amor que, pela fé acompanhada de boas obras, conquista a recompensa, atrai os dons e proporciona o gozo da graça. A graça do Espírito Santo e as boas obras, trabalhando para o mesmo fim, preenchem a alma na qual se unem com esta vida bem-aventurada.

Pelo contrário, separadas, não trariam benefício algum à alma. Pois a graça de Deus é de tal natureza que não pode alcançar as almas que rejeitam a salvação; e o poder da virtude humana por si só não basta para elevar à forma da vida celestial aquelas almas que não participam da graça. A menos que o Senhor edifique a casa e guarde a cidade, diz a Escritura, em vão vigia a sentinela, e o construtor trabalha (Sl 127,1). E também: 'Não foi pela espada que conquistaram a terra, nem foram salvos pelas armas - embora armas e espadas tenham servido na batalha -, mas a tua mão e o teu braço, ó Senhor, e a luz do teu rosto' (Sl 43,4).

O que isso significa? Significa que, do alto, o Senhor luta com aqueles que lutam - e que a coroa não depende unicamente do trabalho dos homens, nem mesmo de seus esforços. A esperança, em última análise, repousa na vontade de Deus. É necessário, portanto, conhecer antes de tudo qual é a vontade de Deus; voltar-se para ela, dirigindo todos os nossos esforços para ela; e, buscando a vida bem-aventurada através do desejo, organizando nossa própria existência tendo em vista essa vida.

A 'vontade perfeita' de Deus consiste em purificar a alma de toda mácula pela graça, elevando-a acima dos prazeres do corpo e oferecendo-a a Deus, pura, repleta de desejo e capaz de ver a luz inteligível e inefável. Então o Senhor declara o homem 'bem-aventurado': 'Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus' (Mt 5,8). E em outro lugar, Ele ordena: 'Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial' (Mt 5,48). O Apóstolo nos exorta a lutar por essa perfeição quando diz: 'A ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo' (Cl 1,28).

(Excertos da obra 'O Objetivo Divino e a Vida Segundo a Verdade', de São Gregório de Nissa)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

VERSUS: CARIDADE X CARIDADE


A verdadeira caridade é paciente na adversidade e comedida na prosperidade; é forte no sofrimento doloroso, alegre nas boas obras, perfeitamente segura na tentação; é suave com os verdadeiros irmãos e paciente com os falsos; é inocente nas armadilhas; chora na maldade; respira na verdade. É pura em Susana casada, em Ana viúva, em Maria virgem (Dn 13,1-; Lc 2,36). É humilde na obediência de Pedro e livre na argumentação de Paulo. É humana no testemunho dos cristãos, divina no perdão de Cristo. Porque a verdadeira caridade, queridos irmãos, é a alma de todas as Escrituras, a força da profecia, a moldura do conhecimento, o fruto da fé, a riqueza dos pobres, a vida dos moribundos. Conservai-a pois com fidelidade; amai-a com todo o vosso coração e com toda a força do vosso entendimento (cf Mc 12,30).
(São Cesário de Arles)


Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o fato de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o fato de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-o à nossa mesa como Simão, não só ungindo-o com perfumes como Maria, não só dando-lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra como os magos. Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos..

(São Gregório de Nazianzeno)

terça-feira, 7 de abril de 2026

SOBRE A AVAREZA ESPIRITUAL

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá, andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado.

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras de vida espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Ocupam-se mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito como deveriam.

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já daquela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos.

Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais.

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez assertivas destas coisas espirituais; o resto é mero apego e desserviço de imperfeição, o qual é necessário cortar a fim de se atingir algo da perfeição.

(Excertos da obra 'A Noite Escura da Alma', de São João da Cruz)

sábado, 28 de março de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (XI)

Os ícones para a Festa de Todos os Santos desenvolveram-se principalmente a partir do século IX e não apresentam muitas variantes. O cenário de referência é o Paraíso, expresso pelas imagens de árvores e arbustos. A parte central do ícone representa a chamada 'nuvem de testemunhas', descrita por São Paulo em sua carta aos Hebreus (Hb 11,33-12,2), contemplando os santos de todos os tempos. O círculo que os envolve representa, na tradição cristã, a dimensão da eternidade. Os santos estão reunidos ao redor de Cristo, comumente com vestes douradas (símbolo de sua realeza) e um livro nas mãos (símbolo de sua missão profética), envolvido por uma mandorla (halo amendoado), símbolo ancestral para expressar a majestade, a glória e a divindade de Cristo nos ícones sagrados.


Os santos são representados em hierarquias distintas, incluindo apóstolos, mártires, profetas, Padres da Igreja e assim por diante, sempre num contexto de um multidão inumerável, como expresso no Apocalipse: 'uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas' (Ap 7,9). Em algumas representações, esta hierarquia é ainda muito mais rígida, buscando refletir a ordem divina dos Céus, como um grande templo celestial com Cristo reinando sobre tudo.


Abaixo do Cristo, encontra-se o Trono da Preparação, simbologia da Presença Invisível de Cristo, por meio de um trono vazio, ornado por um manto (símbolo da autoridade) e por um livro (Livro da Vida), que simboliza o julgamento final por Cristo que virá 'para julgar os vivos e os mortos' de todos os tempos. Esta simbologia universal e temporal é representada pelas figuras de Adão e Eva que se prostram sobre o trono vazio. O trono vazio é, muitas vezes, complementado pela imagem da Cruz de Cristo, sustentada por anjos ou por Santa Helena.


Na parte inferior esquerda do ícone, encontra-se o Patriarca Abraão segurando uma criança no colo, símbolo das almas dos justos, que encontram repouso no 'seio de Abraão' (Lc 16,19-31). À direita, tem-se o Patriarca Jacó, segurando um pano que ostenta o símbolo das 'Dozes Tribos de Israel', ou seja, todos os santos do Antigo Testamento, enquanto no centro está São Dimas, o ladrão penitente a quem Cristo disse na cruz: 'Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso' (Lc 23,39-43). Alternativamente, o Patriarca Isaac também é representado, com todos os patriarcas acolhendo em si as almas dos justos. Nos cantos superiores, encontram-se as imagens dos reis Salomão (à esquerda) e Davi (à direita), segurando pergaminhos com cantos sapienciais.

quinta-feira, 26 de março de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A QUARESMA

I. Aproximar-se um pouco mais de Deus quer dizer estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir atentamente as suas inspirações - os santos desejos que faz brotar nas nossas almas - e a pô-las em prática [Forja].

II. Entramos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cômodo; não basta estar na Igreja e deixar que os anos passem. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão - esse momento único, que cada um de nós recorda, em que advertimos claramente tudo o que o Senhor nos pede - é importante; mas ainda mais importantes e mais difíceis são as conversões sucessivas. É preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que corre mal, pedir perdão, para facilitarmos o trabalho da graça divina nessas sucessivas conversões [Cristo que passa].

III.  Reparai nesta maravilha que é o cuidado que Deus tem por nós, sempre disposto a ouvir-nos, atento em cada momento à palavra do homem. Em qualquer altura - mas agora de modo especial, porque o nosso coração está bem disposto, decidido a purificar-se - Ele nos ouve e não deixará de atender ao que lhe pede um coração contrito e humilhado [Cristo que passa].

IV. Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a Fé, a Esperança, a Caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma ocasião de intensificar as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era isso apenas, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses atos externos são frutos da Fé, da Esperança e do Amor [Cristo que passa].

V. É tempo de penitência, pois. Mas não se trata de uma tarefa negativa. A Quaresma deve ser vivida com o espírito de filiação que Cristo nos comunicou e que vive na nossa alma. O Senhor chama-nos para que nos acerquemos d'Ele, desejando ser como Ele: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados, colaborando humildemente, mas fervorosamente, no divino propósito de unir o que está quebrado, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem pecador desordenou, de conduzir ao seu fim o que está desencaminhado, de restabelecer a divina concórdia a todas as criaturas [Cristo que passa].

VI. A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo? Em desejos de santidade? Em generosidade apostólica na minha vida diária, no meu trabalho cotidiano entre os meus companheiros de profissão? [Cristo que passa].

VII. Não podemos considerar esta Quaresma como uma época a mais, uma repetição cíclica do tempo litúrgico; este momento é único; é uma ajuda divina que é necessário aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança [Cristo que passa].

(São Josemaria Escrivá)

terça-feira, 24 de março de 2026

'OLHA PARA O TEU NADA!'

Não possuímos as virtudes, não por ser difícil, mas porque não queremos. Não temos paciência porque não queremos. Não temos temperança porque não queremos. Não temos castidade pela mesma razão. Se quiséssemos, seríamos santos, e é muito mais difícil ser engenheiro do que ser santo. Ah se tivéssemos fé!

Vida interior, vida espiritual, vida de oração: meu Deus, que difícil que isso deve ser! De modo nenhum. Afasta do teu coração o que o perturba, e encontrarás Deus. Com isso, o trabalho está feito. Muitas vezes buscamos o que não existe e, pelo contrário, passamos ao lado de um tesouro que não vemos. É a mesma coisa com Deus, a quem procuramos num emaranhado de coisas, que quanto mais complicado, melhor nos parece. No entanto, levamos Deus dentro de nós, e não o procuramos aí! Recolhe-te dentro de ti mesmo; olha para o teu nada; olha para o nada do mundo; põe-te ao pé de uma cruz e, se fores simples, verás Deus.

Se Deus não está na nossa alma, é porque não queremos. Temos uma tal acumulação de cuidados, de distrações, de tendências, de desejos, de vaidades, de presunções, temos tantas pessoas dentro nós, que Deus se afasta. Assim que o quisermos, Deus enche-nos a alma de tal modo, que é preciso sermos cegos para não o vermos. 

Uma alma quer viver de acordo com Deus? Afaste tudo o que não seja Ele, e está feito. É relativamente fácil. Se o quiséssemos, se o pedíssemos a Deus com simplicidade, faríamos um grande progresso na vida espiritual. Se quiséssemos, seríamos santos, mas somos tão tolos que não queremos; preferimos perder tempo com vaidades estúpidas.

(Excertos da obra 'Escritos Espirituais", de São Rafael Arnaiz Barón)

sexta-feira, 13 de março de 2026

PORQUE O INFERNO É O INFERNO

Quanto ao tempo futuro que virá depois desta vida, Sofonias exclama: 'Aquele dia é dia de ira, dia de tribulação e angústia, dia de calamidade e miséria, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e redemoinhos, dia de trombetas e alarme' (Sf 1,15-16). Não apenas todos os pecados serão punidos, mas serão punidos com tormentos horrendos e pavorosos, que serão tão massivos que agora dificilmente podem ser imaginados pelos homens.

Assim como 'olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam' (Is 64,4; 1Cor 2,9), assim também olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para seus inimigos. De fato, o castigo dos pecadores no Inferno será múltiplo e completo, isto é, sem mistura de quaisquer consolações, e, o que aumenta infinitamente a sua miséria, serão eternas. Serão muitas, digo eu, porque cada uma das faculdades da alma e cada um dos cinco sentidos do corpo terão os seus tormentos.

Ponderai as palavras desta sentença do Juiz Supremo que se encontra no Evangelho: 'Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno' (Mt 25,41). 'Apartai-vos de mim' - diz ele - isto é, afastai-vos da comunhão dos bem-aventurados, permanecei privados para sempre da visão de Deus, que é a felicidade suprema e essencial e o fim último para o qual fostes criados.

'Malditos', isto é, não alimenteis mais esperança de qualquer tipo de bênção; estais privados de qualquer vida de graça, de qualquer esperança de salvação; a água da sabedoria não mais choverá sobre vós, nem o orvalho das boas inspirações. Não mais vos iluminará o raio de luz celeste, nem brotará em vós a graça do arrependimento, nem a flor da caridade, nem o fruto das boas obras.

'Aquele que vem do alto' (Lc 1,78) nunca mais os visitará daquele momento em diante; vocês terão falta não apenas de bens espirituais, mas também materiais, não apenas de bens eternos, mas também temporais. Para vocês não haverá riquezas, nem prazeres, nem consolação, mas serão como a figueira que eu amaldiçoei, a qual secou imediatamente, com raiz e tudo (Mt 21,19).

Ele diz: 'para o fogo', isto é, para a fornalha de fogo ardente e inextinguível que se apoderará não de um membro, mas de todos os seus membros ao mesmo tempo e os queimará com a mais aguda dor. 'Eterno', isto é, para o fogo que não precisa ser alimentado com lenha para continuar queimando para sempre, mas é atiçado pelo sopro do Deus Todo-Poderoso para que, assim como sua culpa nunca será destruída, nunca haja fim para o seu castigo.

Com razão, então, o profeta Isaías exclama: 'Quem de vocês pode habitar dentro de um fogo consumidor? Quem de vocês pode habitar em meio às chamas eternas?' (Is 33,14). Com isso, ele diz que absolutamente ninguém pode suportar esse fogo pacientemente, mas os condenados serão forçados contra sua vontade a suportá-lo com impaciência, raiva e desespero.

Ele acrescenta: 'O seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará' (Is 66,24). Estas palavras são repetidas mais de uma vez por Nosso Senhor no Evangelho de São Marcos (Mc 9,43-45-47). O remorso de consciência aumentará com a lembrança dos tempos em que os pecadores, se quisessem, poderiam ter escapado daqueles castigos com um pequeno esforço e desfrutado das alegrias eternas do Paraíso.

Ninguém deve pensar que os condenados podem encontrar um pouco de alívio andando por aí e mudando de lugar. Ouça o que o próprio Senhor diz: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Portanto, aqueles miseráveis, atados de pés e mãos por cadeias eternas, jazerão para sempre no mesmo lugar, privados da luz do sol, da lua e das estrelas, queimados pelo fogo ardente, chorando, lamentando e rangendo os dentes em sua fúria e desespero.

Aqueles que forem lançados naquele lugar cheio de horror sofrerão não apenas a mais terrível dor no fogo eterno, mas também a privação absoluta de todas as coisas, bem como vergonha e desgraça repletas de agudo embaraço e confusão. De fato, num piscar de olhos, perderão seus palácios, campos, vinhas, rebanhos, bois, roupas, bem como seu ouro, prata e pedras preciosas, e serão reduzidos a tal miséria que o rico conviva desejará e implorará por uma gota de água fria, mas não será ouvido (Lc 16,24-26). 

... Se o que dissemos sobre a perda de todos os bens, tanto celestiais quanto terrestres, e sobre as dores amargas, a ignomínia e a vergonha, tivesse fim ou pelo menos fosse misturado a algum tipo de consolo ou alívio, como acontece com todas as misérias desta vida, então poderiam ser considerados toleráveis de alguma forma. Contudo, é absolutamente certo e fora de qualquer dúvida que, assim como a felicidade dos bem-aventurados será perpétua e sem aflições, assim também a infelicidade dos condenados durará para sempre, sem qualquer alívio. 

Aqueles que não fazem todo o esforço para alcançar o Reino dos Céus e a felicidade eterna, independentemente de quaisquer provações, perigos, vergonha e morte, que o Apóstolo chama de leves e passageiras (2Cor 4,17), devem ser, na verdade, cegos e tolos.

(São Roberto Belarmino)

quinta-feira, 12 de março de 2026

SOMENTE A FÉ NÃO BASTA!

'Muitos são os chamados e poucos os escolhidos' (Mt 20,16). Muitos, com efeito, chegam à fé, mas bem poucos ao Reino dos Céus. O rebanho da Igreja acolhe tanto os bodes como os cordeiros; mas, segundo o testemunho do Evangelho, quando o Juiz vier, há de separar os bons e os maus. 

Pois os que se fazem na terra escravos dos prazeres da carne, não poderão, no céu, serem contados entre as ovelhas. Vedes, caros fiéis, muitas dessas pessoas na Igreja, mas não deveis imitá-las; nem, por outro lado, desesperar de que possam salvar-se. De fato, vemos bem o que uma pessoa é hoje, mas ignoramos como será amanhã. Muitas vezes quem parece vir atrás de nós passa à nossa frente pelo impulso de uma boa ação. E, às vezes, mal podemos seguir amanhã o que hoje deixávamos para trás.

Quando Estêvão morria pela fé, Saulo tomava conta das vestes daqueles que o lapidavam. Ele o lapidava, portanto, pelas mãos de todos os seus algozes, que então podiam mover-se mais à vontade, para atirar as pedras. E, no entanto, por seus trabalhos pela Santa Igreja, Paulo superou aquele do qual fizera um mártir, ao persegui-lo.

Há, por conseguinte, duas coisas a que devemos estar atentos, uma vez que há muitos chamados e poucos escolhidos. A primeira coisa é que ninguém deve jamais presumir de si próprio; pois, ainda que chamado à fé, ignora se será digno do Reino eterno. A segunda é que jamais devemos ter a ousadia de desesperar do próximo, ainda que o vejamos mergulhado nos vícios, pois não conhecemos os tesouros da misericórdia divina.

(São Gregório Magno)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLIV)

São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem Dominicana, nasceu em 24 de junho de 1170, na Espanha. Certa ocasião, Nossa Senhora apareceu e lhe entregou o Rosário, instrumento que passou a utilizar exaustivamente em suas pregações para converter milhares de hereges à Fé Católica. Faleceu no dia 6 de agosto de 1221, aos 51 anos de idade, sendo canonizado pouco tempo depois, em 1234, pelo Papa Gregório IX. Em muitas pinturas tradicionais do santo, chama a atenção a figura singular de um cão com uma tocha na boca aos pés do santo.


Trata-se do chamado Domini Canis - o cão do Senhor, um dos atributos associados a São Domingos, diretamente relacionado a um episódio antes do nascimento do santo. Durante a gravidez, a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que ela iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra flamejante, converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo.

A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De fato, Domini (em latim 'do Senhor') e Canis ('cão' em latim) seria , então, o Cão do Senhor. No entanto, se juntarmos as palavras domini + canis, tem-se a palavra dominicanis, ou seja, dominicanos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ORAÇÃO DE SÃO BENTO PELAS GRAÇAS DE DEUS

Pai santo e misericordioso,
concedei-nos intelecto para vos compreender,
razão para vos discernir, diligência para vos buscar,
sabedoria para vos encontrar, espírito para vos conhecer
e um coração para meditar em Vós.

Que nossos ouvidos vos ouçam,
que nossos olhos vos contemplem
e que nossas línguas vos proclamem.

Dai-nos a graça de que nossa maneira de viver vos seja agradável,
que tenhamos paciência para vos esperar
e perseverança para vos buscar.

Concedei-nos um fim perfeito: vossa santa presença,
uma ressurreição bendita e a vida eterna.
Isso vos pedimos por Jesus Cristo, nosso Senhor.
Amém.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO!

Que a fé de nossos pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas sempre de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independente de número e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, e eram apenas três!

Então, animem-se! Sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra...

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme e unicamente a sua esperança em Jesus Cristo'.

(São Basílio de Cesareia)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A ORAÇÃO SILENCIOSA DO CORAÇÃO

Que a nossa fala e nossa súplica sejam disciplinadas quando orarmos, e que preservemos a tranquilidade e a modéstia, pois, lembrem-se, estamos diante de Deus. Devemos agradar aos olhos de Deus tanto com os movimentos do nosso corpo quanto com a maneira como usamos as nossas vozes. Pois, assim como um homem desavergonhado fará barulho com seus gritos, também convém que o modesto ore de maneira moderada.

Além disso, o Senhor nos ensinou a orar em segredo, em lugares escondidos e remotos, em nossos próprios quartos – e isso é o mais adequado para a fé, pois nos mostra que Deus está em todos os lugares e ouve e vê tudo e, na plenitude de sua majestade, está presente até mesmo em lugares escondidos e secretos, como está escrito: 'Eu sou um Deus próximo e não distante. Se alguém se esconder em lugares secretos, não o verei? Não preencho eu todos os céus e a terra?' e, ainda: 'Os olhos de Deus estão em toda parte e veem o bem e o mal igualmente' .

Quando nos reunimos com os irmãos em um só lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da nossa modéstia e disciplina, não proclamando as nossas orações em voz alta, nem apresentando a Deus, com indisciplina e prolixidade, uma súplica que seria melhor feita com mais modéstia: pois, afinal, Deus não ouve a voz, mas o coração, e aquele que vê os nossos pensamentos não deve ser perturbado pelas nossas vozes, como o Senhor demonstra quando diz: 'Por que pensais mal nos vossos corações?' ou ainda: 'Todas as igrejas saberão que sou eu quem sonda as vossas motivações e os vossos pensamentos' .

No primeiro livro dos Reis, vemos que Ana orava a Deus não com súplicas em voz alta, mas silenciosa e modestamente, no íntimo do seu coração. Ela falava com uma oração silenciosa, mas com fé manifesta. Não falava com a voz, mas com o coração, porque sabia que era assim que Deus ouvia, e recebeu o que buscava porque pediu com fé. A Sagrada Escritura afirma isso quando diz: 'Ela falava em seu coração, e seus lábios se moviam, e sua voz não era audível; e Deus a ouvia'. E lemos nos Salmos: 'Falem em seus corações e em seus leitos, e sejam acolhidos'. Novamente, o Espírito Santo ensina as mesmas coisas por meio de Jeremias, dizendo: 'Mas é no coração que deves ser adorado, ó Senhor'.

Amados irmãos, que o adorador não se esqueça de como o publicano orou com o fariseu no templo - não com os olhos altivos voltados para o céu, nem com as mãos erguidas em orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados que carregava, implorava a ajuda da misericórdia divina. Enquanto o fariseu se vangloriava de si mesmo, foi o publicano quem mereceu ser santificado, pois depositou sua esperança de salvação não na confiança em sua inocência - pois ninguém é inocente - mas orou, confessando humildemente os seus pecados, e Aquele que perdoa os humildes ouviu a sua oração.

(São Cipriano de Cartago)