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segunda-feira, 6 de julho de 2026

SALMO 64 - UM CÂNTICO DE ALEGRIA À GRAÇA DIVINA

'O Senhor nosso Deus diz ao teu coração: eu sou a tua riqueza. Estarás atento ao que Deus te promete, se observares a justiça e desprezarás aquilo que o homem te promete para te afastar da justiça. Não te preocupes, portanto, com aquilo que o mundo promete! Tem antes em consideração o que o Criador do mundo promete!'  
(Santo Agostinho)


A vós, ó Deus... vós que atendeis as preces. Todo homem acorre a vós, por causa de seus pecados. Oprime-nos o peso de nossas faltas: vós as perdoais. Feliz aquele que vós escolheis, e chamais para habitar em vossos átrios. 

Possamos nós ser saciados dos bens de vossa casa, da santidade de vosso templo. Vós nos atendeis com os estupendos prodígios de vossa justiça, ó Deus, nosso salvador. Vós sois a esperança dos confins da terra, e dos mais longínquos mares.

Vós que, com a vossa força, sustentais montanhas, cingido de vosso poder. Vós que aplacais os vagalhões do mar, o bramir de suas vagas e o tumultuar das nações pagãs. À vista de vossos prodígios, temem-vos os habitantes dos confins da terra; saciais de alegria os extremos do oriente e do ocidente.

Visitastes a terra e a regastes, cumulando-a de fertilidade. De água encheu-se a divina fonte e fizestes germinar o trigo. Assim, pois, fertilizastes a terra: irrigastes os seus sulcos, nivelastes as suas glebas; amolecendo-as com as chuvas, abençoastes a sua sementeira.

Coroaste o ano com os vossos benefícios; onde passastes ficou a fartura. Umedecidas as pastagens do deserto, revestem-se de alegria as colinas. Os prados são cobertos de rebanhos, e os vales se enchem de trigais. Só há júbilo e cantos de alegria.

(Sl 64, 2-14)

sábado, 4 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (II)

 

8. Como é possível que uma alma racional, tendo uma vez provado as delícias do amor divino, possa algum dia voltar-se voluntariamente para beber as amargas águas do pecado mortal? As crianças que são alimentadas com leite, manteiga e mel detestam o amargor do absinto e da orpina, e choram lastimosamente se são forçadas a prová-los. Como, então, ó verdadeiro Deus, pode uma alma que uma vez experimentou a bondade e o amor de seu Criador abandonar-vos para seguir as vaidades do mundo?

9. A mandrágora é um encanto, que enfeitiça os olhos e suaviza a dor, a tristeza e todas as nossas paixões por meio do sono. Contudo, aquele que lhe aspira o odor por muito tempo torna-se mudo, e aquele que dela bebe profundamente morre sem remédio... Poderiam o fausto, as riquezas e os deleites dos mundanos ser melhor representados? São belos e atraentes; mas quem come desses frutos, isto é, quem os examina cuidadosamente, descobrirá que são destituídos de gosto e de prazer. Não obstante, encantam e acalmam pelo seu vão perfume; e o apreço que os filhos do mundo lhes atribuem perturba aqueles que deles desfrutam em demasia ou neles se entregam com excessiva frequência. Ora, é por uma mandrágora como esta, por vagas sombras de contentamento, que abandonamos o amor de nosso Esposo celeste. E como podemos dizer que o amamos acima de todas as coisas, quando preferimos essas miseráveis vaidades à sua graça divina?

10. Podemos dizer que uma fé morta é como uma árvore seca, sem seiva nem vitalidade, e que, por isso, quando chega a primavera e as outras árvores produzem folhas e flores, permanece desnuda e sem fruto, porque lhe falta a seiva vivificante que corre em toda árvore que vive, ainda que possa parecer morta... Assim acontece com uma fé morta, que nunca pode produzir os frutos e as flores das boas obras, as quais uma fé viva produz em todos os tempos e estações. É, portanto, pelas obras da caridade que sabemos se a fé está viva, morta ou agonizante; e, quando ela não produz boas obras, dizemos que é uma fé morta; quando essas obras são poucas e débeis, dizemos que está morrendo; ao passo que, se, pelo contrário, são frequentes e fervorosas, dizemos que é uma fé viva. Ó quão verdadeiramente bela é esta fé viva!

11. Deveis certamente esforçar-vos por corrigir as vossa pequenas faltas, porque o melhor momento para combatê-las é enquanto ainda são pequenas; pois, se esperardes que cresçam, será mais difícil vencê-las. É fácil desviar o curso de um rio junto à sua nascente, quando ele ainda é apenas um pequeno regato; mas, mais adiante, ele há de zombar dos vossos esforços. 

12. Como é possível que, tendo eu uma vontade tão grande de amar a Deus, tantas imperfeições apareçam e cresçam dentro de mim? Elas não procedem da minha própria vontade, nem são queridas por minha vontade; não, certamente que não! Nascem, parece-me, como o visco que cresce sobre a árvore, mas não faz parte da árvore.

13. O lírio não tem uma estação determinada, mas floresce mais cedo ou mais tarde, conforme a profundidade da terra em que é plantado. Pois, se for plantado apenas à profundidade de três dedos, floresce imediatamente; mas, se for plantado a seis ou nove dedos de profundidade, florescerá tanto mais tarde quanto maior for essa profundidade. Do mesmo modo, se uma alma que deseja amar a Deus estiver profundamente mergulhada nos negócios do mundo, levará muito tempo para florescer. Mas, se viver no mundo apenas na medida em que o seu estado de vida o exigir, então a vereis produzir belas flores e espalhar ao seu redor um suave perfume.

14. Como acontece que, na primavera, os cães perdem o faro e o rastro de um animal com mais facilidade do que em qualquer outra época do ano? Caçadores e filósofos dizem que isso se deve ao fato de que, nessa estação, as ervas e as flores estão em pleno florescimento, e a variedade de seus perfumes embota de tal modo os sentidos dos cães, que eles já não conseguem distinguir entre o perfume das flores e o cheiro da presa. Do mesmo modo, as almas que estão continuamente cheias de desejos, planos e projetos mundanos jamais suspiram pelo amor divino e celestial, nem conseguem seguir as pegadas amorosas do Amor Divino.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 2, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sábado, 27 de junho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (I)

 

1. Estou prestes a dizer a todos os que me ouvem que suas almas são a vinha de Deus, na qual a fé é a cisterna, a esperança é a torre, a santa caridade é o lagar, e a lei de Deus é a cerca que as separa dos infiéis... Tua vontade é a tua vinha; as inspirações divinas derramadas por Deus em tua alma são a cisterna; a santa castidade é a torre que, como a de Davi, deve ser feita de marfim; a obediência, pela qual todas as tuas ações se tornam meritórias, é o lagar. Que Deus preserve esta vinha que Ele plantou com as suas próprias mãos. Que Ele encha a cisterna com as abundantes águas da graça divina. Que proteja sua torre; que seu lagar, sob a pressão de sua mão, transborde do vinho bom; que conserve sempre fechada e espessa a bela cerca com que rodeou a sua vinha; e que seus santos anjos sejam os vinhateiros imortais.

2. Deus permita que floresças, ó bela planta, filha do céu; Deus permita que teus frutos cheguem à maturidade; e que Ele os preserve, dia e noite, em sua plena maturação, dos ventos cruéis que lançam ao chão os frutos da terra, onde os animais selvagens e famintos os devoram.

3. O anseio pela santidade deve ser semelhante às laranjeiras da costa marítima de Gênova, que permanecem cobertas de frutos, flores e folhas durante quase todo o ano. Pois o teu desejo deve amadurecer diariamente em frutos, em cada oportunidade de praticar o bem que se apresentar, sem jamais deixar de aspirar a novas ocasiões de progresso espiritual. Essas aspirações são as flores da árvore; suas folhas são o frequente reconhecimento de tua própria fraqueza, o qual preserva tanto as tuas boas obras quanto os teus bons desejos.

4. Nossos corações são árvores; os afetos e as paixões são seus ramos; e as obras e ações são seus frutos. O coração é bom quando possui bons afetos, e os afetos são bons quando produzem ações boas e santas. Se a doçura, a ternura e as consolações nos tornam mais humildes, pacientes, mansos, caridosos e compassivos para com o próximo; mais fervorosos na mortificação de nossas concupiscências e más inclinações; mais constantes em nossos exercícios religiosos; mais dóceis nas mãos de nossos superiores; mais simples em nosso modo de vida, então, sem dúvida, elas vêm de Deus. Mas se essa doçura é apenas para nós mesmos, tornando-nos curiosos, ásperos, excessivamente melindrosos, impacientes, obstinados, orgulhosos, presunçosos e duros de coração para com o próximo; se nos leva a acreditar que já somos santos e, por isso, não precisamos mais de direção nem de correção, então, certamente, essas consolações são falsas e perniciosas. Uma árvore boa produz bons frutos.

5. No princípio, Deus ordenou às plantas que produzissem frutos, cada uma segundo a sua espécie; da mesma forma, ordena a todos os cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam os frutos da devoção, cada qual de acordo com sua condição e vocação.

6. Olhai as abelhas sobre o tomilho: elas encontram ali um suco amargo, mas, ao sugá-lo, transformam-no em mel. Assim também as almas verdadeiramente devotas transformam as amarguras, tribulações e mortificações da vida em doçura espiritual, porque o amor de Deus converte aquilo que naturalmente seria penoso em ocasião de alegria e crescimento interior.

7. O açúcar adoça os frutos ainda verdes e corrige tudo o que há de áspero ou nocivo nos frutos maduros. Ora, a devoção é o verdadeiro açúcar espiritual: ela retira das mortificações a sua amargura e das consolações todo o perigo. Ela anima os pobres e modera os ricos; suaviza a miséria dos oprimidos e a insolência dos favorecidos; alivia a tristeza dos que vivem na solidão e as discórdias dos que vivem em sociedade... Se a caridade é o leite, a devoção é sua nata; se a caridade é uma planta, a devoção é sua flor; se é uma pedra preciosa, a devoção é seu brilho; se é um bálsamo precioso, a devoção é seu perfume - um perfume de suavidade que consola os homens e faz os anjos estremecerem de alegria.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 1coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A EUCARISTIA


1. 'Eu fui um grão de trigo semeado no ventre virginal da minha Santíssima Mãe (cf. Jo 12,24); saí dele tenro e fresco, como um trigo em broto; cresci sob ventos e sóis intensos de trabalhos, caminhos e perseguições; e quando tinha quase trinta anos, os maus lançaram a sua foice sobre mim, e fui cortado desta vida, moído e atormentado, e transformado em farinha para que dela se fizesse este pão sagrado, do qual e pelo qual digo: 'Quem me comer, viverá por mim' (Jo 6,58). E tendo custado tão caro entregar-me como alimento aos homens, e estando fechado e depositado em lugar tão pequeno para que melhor possam me comer, prestam tão pouca atenção aos meus trabalhos e ao meu grande amor e à grande necessidade que têm de mim, que alguns nem sequer querem vir à minha casa; e se outros vêm, contentam-se em reverenciar-me quando sou consagrado e elevado na missa; mas preparar suas consciências, lutar contra suas paixões para virem puros à minha mesa e me receberem e se alegrarem comigo, muito poucos há'.

2. 'Quereis que Deus seja todo vosso? Sejais então todo dele. Não ousais? Como sois duros, cegos que sois, que temeis vos trocar por Deus? Por que temeis entregar-vos a Ele e oferecer-vos à sua vontade? Se, pelo que vos dais, Ele se entrega por si mesmo e, ainda assim, não ousaríeis? Pois isso é comungar, e isto é o significado e o ato da comunhão'.


3. 'Que confusão para nós, que nos contentamos com uma missa assistida de passagem, apressadamente, sem amor, sem gratidão! Bem-aventurado aquele que, quando tiver Cristo em suas mãos, sentir-se como o velho Simeão'.

4. 'Ao esquecer a comunhão e a comunicação com Jesus Cristo, a fé esfria tanto que, se nada nos pressionasse, terminariamos por negar a fé... Receber o corpo de Jesus Cristo e nos unirmos agora a Ele, por meio da comunhão, é uma antecipação da união que haverá de existir entre nós e Ele nos céus'.

5. 'O sacerdote toma o pão nas mãos e pronuncia as palavras da consagração; assim que as pronuncia, já não há pão; quem entrou ali no lugar do pão? Jesus Cristo. Pois, quando vierem comungar, considerem que vocês são o pão que se converterá em Jesus Cristo, para que digam como o apóstolo São Paulo: Vivo eu, mas não eu, e sim Jesus Cristo em mim' (Gl 2,20).

6. 'Meu caro irmão, e se soubesses que graça tão grande te concedeu Jesus Cristo ao permanecer aqui para te sustentar! Guarda em teu peito o Santíssimo Sacramento, comunga com frequência, aproxima-te do santo altar de Jesus Cristo e roga-lhe com muita devoção: 'Senhor, estou nesta tribulação; Senhor, estou nesta fadiga; esta tentação me cansa; esta desonra me cerca; Senhor, estou morno, estou fraco, estou frio; Senhor, pois tu és o verdadeiro fogo, acende a minha alma com o teu amor; inflama, meu Senhor, as minhas entranhas na caridade'. Pede-lhe, que se com boa fé lhe pedires, Ele te concederá'.

7. 'E, acima de tudo, aproximemo-nos do fogo que acende e arde, que é Jesus Cristo, nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento. Abramos a boca da alma, que é o desejo, e vamos sedentos à fonte de água viva; pois, sem dúvida, ao colocarmos o mel na boca, algo provaremos, e o fogo no íntimo nos aquecerá. E depois e antes de comungar, tenhamos algum preparativo; e os melhores são a fé certa de que vamos receber Jesus Cristo, nosso Senhor, e o pensamento e o amor de sua paixão, pois é em sua memória que o ato se realiza. Corramos, pois, atrás de Deus, que não nos deixará; Ele está pregado na cruz; ali o encontraremos com toda a certeza; coloquemo-lo em nosso coração e fechemos as portas para que Ele não nos deixe.'

(São João de Ávila)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

SEIS CONDIÇÕES PARA REZAR BEM

A primeira condição é a fé, de acordo com as palavras do apóstolo: 'Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé?' (Rm 10,14a), com as quais São Tiago concorda: mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação (Tg 1,6a). Mas a necessidade de fé não deve ser entendida como se fosse importante acreditar que Deus deva certamente atender ao que é pedido, pois neste caso nossa fé seria provada falsa e então não obteríamos nada. Devemos acreditar que Deus é mais poderoso, mais sábio e mais digno de fé; e que Ele sabe, que tem poder e está preparado para atender nossos pedidos, se entendê-lo apropriado e útil para nós, receberemos o que pedimos. 

Esta fé Cristo pediu aos dois homens cegos que curou: 'Credes que eu posso fazer isso?' (Mt 9,28). Com a mesma fé Davi rezou pelo seu filho adoentado, como provam suas palavras, pois ele acreditava não ser seguro que Deus atenderia suas preces, mas que somente Deus seria capaz de conceder tal graça: 'Quem sabe, talvez o Senhor terá pena de mim e o menino ficará bom?' (2Sm 12,22). Disto não se pode duvidar. Com a mesma fé, o apóstolo Paulo rezou para se livrar de um 'espinho na carne'. Pois o apóstolo rezou com fé, e sua fé não era falsa se ele acreditava que Deus poderia lhe conceder a cura que pedia, embora não tenha obtido o que pedia. E com a mesma fé a Igreja pede por todos os heréticos, pagãos, cismáticos e maus cristãos que possam ser converter, e, no entanto, é certo que nem todos se converterão.

Outra condição muito necessária para rezar é a esperança. Pois ainda que pela fé, que é consequência da compreensão, nós não acreditemos que Deus atenderá nossos pedidos; pela esperança, que é um ato de desejo, podemos firmemente nos apoiar na bondade divina e termos confiança que Deus poderá nos atender. Esta condição Deus requer do paralítico, para quem diz: 'Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados' (Mt 9,2). O mesmo pede o apóstolo para todos, quando diz: 'Aproximemo-nos, pois, confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno' (Heb 4,16). E muito antes dele, o profeta apresenta Deus, falando: 'Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele' (Sl 90,15). 

Mas como a esperança brota da fé perfeita, quando a Escritura requer fé nas grandes coisas, ela acrescenta algo sobre esperança. Assim lemos em São Marcos: 'Em verdade vos declaro: todo o que disser a este monte: Levanta-te e lança-te ao mar, se não duvidar no seu coração, mas acreditar que sucederá tudo o que disser, obterá esse milagre' (Mc 11,23). Que a fé produz confiança, podemos entender destas palavras do apóstolo: 'mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas' (1Cor 13,2b). João Cassiano escreve em seu Tratado sobre a Oração que um sinal certo que nossos pedidos serão atendidos, ocorre quando em oração, nós não duvidamos que Deus certamente nos atenderá, e não hesitamos de nenhuma maneira, mas derramamos nossas orações com alegria espiritual.

A terceira condição é a caridade, pela qual nos libertamos dos pecados; pois os amigos de Deus obtém os seus dons. Assim fala Davi em um salmo: 'Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores' (Sl 33,15) e em outro: 'Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor' (Sl 65,18). E no Novo Testamento, o Senhor mesmo confirma: 'Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito' (Jo 15,7). E o amado discípulo fala: 'Caríssimos, se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos' (1Jo 3,21-22).

Isto não é contrário à doutrina. Quando o publicano suplica por perdão de seus pecados, ele retorna para casa 'justificado', pois um pecador arrependido não obtém perdão por ser pecador, mas por estar arrependido; pois, como pecador, ele é inimigo de Deus; como penitente, amigo de Deus. Aquele que peca, desagrada a Deus; mas quem se arrepende dos seus pecados, faz o que mais agrada ao Senhor.

A quarta condição é a humildade, pela qual o suplicante, confia não em sua própria justiça, mas na bondade de Deus: 'Fui eu quem fez o universo, e tudo me pertence', declara o Senhor. É o angustiado que atrai meus olhares, o coração contrito que teme minha palavra (Is 66,2). E o Livro do Eclesiástico acrescenta: 'A oração do humilde penetra as nuvens; ele não se consolará, enquanto ela não chegar (a Deus), e não se afastará, enquanto o Altíssimo não puser nela os olhos' (Eclo 35,21).

A quinta condição é a devoção, pela qual não devemos rezar de maneira negligente, como muitos costumam fazer, mas com atenção, sinceridade, diligência e fervor. Nosso Senhor severamente adverte aqueles que rezam apenas com os lábios. Assim Ele nos fala em Isaias: 'O Senhor disse: Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim' (Is 29,13). Esta virtude é fruto de uma fé viva e consiste não apenas no hábito de orar, mas na ação. Para aqueles que com fé firme e atenção consideram a grandeza da sua Majestade, Nosso Senhor, quão grande é nossa insignificância, e como são importantes nossos pedidos, não pode fazer diferente do que rezar com grande humildade, reverência, devoção e fervor.

A sexta condição é a perseverança, que nosso Senhor em duas parábolas recomenda: uma sobre o amigo importuno que pede dois pães em um horário inconveniente, no meio da noite, e recebe pela sua perserverança (Lc 11,5-8); outra sobre a viúva que pede sem esmorecer para que o juiz a livre de seu adversário; e o juiz, embora sendo iníquo, homem que não temia nem Deus nem os homens, sobrepujado pela perseverança da mulher, livrou-a de seu inimigo. Destes exemplos o Senhor conclui, que muito mais perseverantes devemos ser na oração a Deus, porque ele é justo e misericordioso. E São Tiago completa: 'Deus concede generosamente a todos, sem recriminações' (Tg 1,5). Ou seja, ele concede seus dons liberalmente a todos que pedem, e 'sem recriminações' por serem inoportunos, pois Deus não tem limites em suas riquezas nem em sua misericórdia.

(Excertos da obra 'A Arte de Morrer Bem', de São Roberto Belarmino)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

SOBRE AS ADVERSIDADES

É pela adversidade, cristãos ouvintes, que Deus coage os homens mais perversos a reentrarem nas suas boas graças; e que outra via mais eficaz para os levar a isso? A palavra de Deus, o uso dos sacramentos, as graças comuns podem manter na prática do bem os que se obrigam a eles, mas um homem sobrecarregado do peso dos negócios públicos e domésticos, uma mulher que vive nos prazeres, que é escrava da vaidade, um cristão, numa palavra, que envelheceu na sua impiedade e nas suas desordens, é mister, senhores, é mister que sofra ou que pereça.

Sei o quanto a palavra de Deus é eficaz, sei que ela é mais penetrante do que uma espada de dois gumes; mas todos os dias não vemos senão sobejamente que os homens lhe resistem e que ela não pode atingir até os corações empedernidos. Que não se há dito contra esse luxo espantoso que devora a substância assim dos pobres como dos ricos, contra esse jogo que consome impiedosamente um bem com que se poderia comprar o céu, esse jogo que nos arrebata um tempo que nos fora dado para ganharmos a eternidade? Que se não diz ainda hoje em dia contra esses desregramentos? Ai! Mas que é que produzem os nossos discursos no espírito dos jogadores de profissão, desses que gastam o mais possível em roupas? Uns esquecem-no um momento após, outros só se lembram deles para escarniçá-los; alguns até se ofendem com eles, e creem ter motivo para se queixar do pregador, porque ele disse da parte de Deus o que não podia calar sem trair a própria consciência e sem se tornar réu de perfídia.

Que cumpre então que faça o Senhor para fazer essas pessoas tornarem ao dever? Não há outro meio senão a indigência; há que reduzi-las à necessidade de trabalhar para fazer subsistir a família, e de revender, para viverem, aquilo que compraram para se enfeitar. Ide falar de oração e de retiro àquela mulher enamorada da própria beleza, tão vaidosa das atenções que se tem com ela no mundo; acreditais que ela seja capaz de apreciar os vossos conselhos ou sequer de ouvi-los? Para salvá-la, faz-se mister que uma moléstia a desfigure, ou que uma esmagadora confusão a faça banir para sempre das companhias.

Que tempo escolhereis para exortar aquele rico, aquele voluptuoso, a se converter? Não está ele disposto a ouvir a palavra de Deus, e muito menos ainda a vos chamar a casa para tomar junto a vós conselhos salutares. E quando o estivesse, como haveria um pensamento santo de encontrar lugar naquele espírito abarrotado dos seus negócios temporais? A própria graça, por insinuante que seja não acha abertura para lhe passar até o coração. Oh! Como há então, ó meu Deus, que desesperar daquela alma? A vossa sabedoria não tem então meio para retirá-la do precipício? O Senhor tem um meio, cristãos ouvintes, e este meio é o que ele se serve sempre para reconduzir os eleitos seus que a prosperidade lhe arrebatou; esse meio é a adversidade, é a perda daquele processo, a morte daquele marido, daquele filho único, uma paralisia, uma gota violenta, uma febre maligna, um langor incurável, uma afronta insigne. 

Qual será o efeito dessa desgraça? Disporá aqueles homens à compunção por uma dor mortal, dar-lhe-á desgosto dos prazeres com que estava encantado, levá-lo-á a fazer reflexões sobre os desregramentos da sua vida que lhe atraíram a cólera de Deus; sofrerá que a gente de bem se lhe achegue, quando menos para consolá-lo. E como procurará por toda parte remédios para o seu mal, far-lhe-ão conhecer a causa deste, prepará-lo-ão para receber os remédios convenientes à moléstia de sua alma. Enfim, ver-se-á ele felizmente forçado a mudar de vida, ou pela impotência de perseverar no pecado, ou pelo desejo de deter o braço do Onipotente que pesa sobre ele.

Tudo isto nos faz ver suficientemente que, de qualquer modo que vivamos, deveríamos sempre receber a adversidade com alegria. Se somos bons, a adversidade nos purifica e nos faz melhores; enche-nos de virtudes e de méritos; se somos maus, se somos viciosos, ela nos corrige, força-nos a nos tornarmos virtuosos. Se em algum de nós não tem ela este feliz efeito, se há alguém que ela não transforme ou que torne ainda pior, é esse coração endurecido que tem razão de se afligir; essa resistência inflexível é de todos os indícios de reprovação o mais certo e o mais visível. Um cristão que vive mal e que Deus não castiga, deve tremer; e, se lhe resta ainda algum sentimento, deverá fremir; mas um pecador que Deus castiga e que não verga aos seus golpes, pode-se ousadamente arrolá-lo entre os réprobos e desesperar da sua salvação.

(Excertos da obra 'Reflexões Cristãs', de São Cláudio de La Colombière) 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

VERSUS: O MUNDO DOS BONS X O MUNDO DOS MAUS


Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um 'demônio' entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: 'Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo' (cf Mt 13,29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: 'Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão' (Mt 18,15).


Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que 'não se dêem aos cães as coisas santas', que se 'tratem como aos publicanos' aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo.

Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contato, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não convivermos com os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles.

(Excertos da obra 'A fé e as obras', de Santo Agostinho)

terça-feira, 19 de maio de 2026

'APASCENTA-ME SENHOR E APASCENTA-TE COMIGO'

Tu, Senhor, me tiraste das entranhas do meu pai; tu me formaste no ventre da minha mãe; tu me fizeste nascer menino e nu, pois as leis da natureza seguem os teus mandamentos.

Com a bênção do Espírito Santo, preparaste a minha criação e a minha existência, não por vontade de homem, nem por desejo carnal, mas por uma tua graça inefável. Previste o meu nascimento com um cuidado superior ao das leis naturais; pois me trouxeste à luz, adotando-me como teu filho, e me contaste entre os filhos da tua Igreja santa e imaculada.

Alimentaste-me com o leite espiritual de teus ensinamentos divinos. Nutriste-me com o alimento vigoroso do corpo de Cristo, nosso Deus, teu santo Unigênito, e embriagaste-me com o cálice divino, ou seja, com seu sangue vivificante, que Ele derramou pela salvação do mundo inteiro.

Porque tu, Senhor, nos amaste e entregaste o teu único e amado Filho para a nossa redenção, que Ele aceitou voluntariamente, sem repugnância; mais ainda, visto que Ele mesmo se ofereceu, foi destinado ao sacrifício como cordeiro inocente, porque, sendo Deus, fez-se homem e, com a sua vontade humana, submeteu-se, tornando-se obediente a ti, Deus, seu Pai, até à morte, e uma morte na cruz.

Assim, ó Cristo, meu Deus, humilhaste-te para me carregar sobre os teus ombros, como uma ovelha perdida, e me apascentaste em pastos verdes; alimentaste-me com as águas da verdadeira doutrina por intermédio dos teus pastores, a quem tu mesmo alimentas para que, por sua vez, alimentem o teu rebanho eleito e sublime.

Pela imposição das mãos do bispo, chamaste-me para servir aos teus filhos. Ignoro por que razão me escolheste; só tu o sabes. Mas tu, Senhor, alivia o pesado fardo dos meus pecados, com os quais gravemente te ofendi; purifica o meu coração e a minha mente. Conduz-me pelo caminho reto, tu que és uma lâmpada que ilumina.

Coloca as tuas palavras nos meus lábios; dá-me uma linguagem clara e fácil, por meio da língua de fogo do teu Espírito, para que a tua presença sempre vigie.

Apascenta-me, Senhor, e apascenta-te comigo, para que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda, mas que o teu Espírito bom me conduza pelo caminho reto e as minhas obras se realizem segundo a tua vontade até o último momento.

E tu, cume resplandecente da mais íntegra pureza, excelente congregação da Igreja, que esperas a ajuda de Deus, tu, em quem Deus repousa, recebe de nossas mãos a doutrina imune a todo erro, tal como nos foi transmitida por nossos Padres, e com a qual a Igreja se fortalece. 

(São João Damasceno, Da Declaração da Fé)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

ORAÇÃO: O LUX BEATA TRINITAS

Santo Ambrósio, arcebispo de Milão (337 – 397), Padre da Igreja, utilizava frequentemente a música no contexto dos ritos litúrgicos, tendo composto inúmeros hinos religiosos, chegando a desenvolver inclusive um estilo próprio de música - o Canto Ambrosiano - que foi precursor do Canto Gregoriano. O hino O LUX BEATA TRINITAS consta no Breviário Romano sob o título de Jam sol recedit igneus, como o hino das Vésperas para o ofício litúrgico aos sábados e do Domingo da Santíssima Trindade.


O Lux beata Trinitas:
Oh luz da bem-aventurada Trindade:
Et principalis Unitas:
Unidade fundamental:
Jam sol recedit igneus,
Que ofusca o fogo do próprio sol
Infunde lumen cordibus.
Enche de luz os corações.

Te mane laudum carmine,
A Vós eleva-se nosso cântico matutino,
Te praedicamus vespere;
A Vós se volta nossa oração vespertina;
Te nostra supplex gloria
Que nossa glorificação suplicante;
Per cuncta laudet saecula.
Vos louve pelos séculos dos séculos.

Deo Patri sit gloria,
A Deus Pai seja dada a glória,
eiusque soli Filio,
E a seu filho Unigênito,
cum Spiritu Paraclito,
Ao Espírito Santo Paráclito,
et nunc, et in perpetuum.
Agora e para sempre.
Amen.
Amém.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A SANTA VONTADE DE DEUS

Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)

O que o Apóstolo quer dizer com 'a vontade perfeita' é que a alma assume a forma de piedade, na medida em que a graça do Espírito a faz florescer até a suprema beleza, atuando com o homem sofredor em sua transformação.

O crescimento do corpo não depende de nós, pois a natureza não mede sua estatura segundo o julgamento ou desejo humano: ela segue sua própria inclinação e necessidades naturais. Ao contrário, na ordem do novo nascimento, a medida e a beleza da alma - concedidas pela graça do Espírito, que vem através do zelo de quem a recebe - crescem segundo a nossa disposição. Quanto mais você se esforça pela piedade, mais a estatura da sua alma se expande, por meio dessas lutas e trabalhos aos quais o Senhor nos convida, dizendo: 'Esforcem-se para entrar pela porta estreita' (Lc 13,24; Mt 7,13), e também: 'Esforcem-se pela violência, pois são os violentos que conquistam o Reino dos Céus' (Mt 11,12). E ainda: 'Aquele que perseverar até o fim será salvo' (Mt 10,22). E mais: 'Pela perseverança, eles conquistarão suas almas' (Mc 13,12). O apóstolo também diz: 'Corramos com perseverança a corrida que nos está proposta' (Hb 12,1), e também: 'Corramos de tal maneira que alcancemos o prêmio' (1Cor 9,24), e ainda: 'Como servos de Deus com paciência incansável' (2Cor 6,4).

Isso nos convida, portanto, a correr e a direcionar todos os nossos esforços para essas batalhas, visto que a graça é proporcional ao esforço de quem a recebe. Pois é a graça do Espírito que concede a vida eterna e a alegria inefável no céu; e é o amor que, pela fé acompanhada de boas obras, conquista a recompensa, atrai os dons e proporciona o gozo da graça. A graça do Espírito Santo e as boas obras, trabalhando para o mesmo fim, preenchem a alma na qual se unem com esta vida bem-aventurada.

Pelo contrário, separadas, não trariam benefício algum à alma. Pois a graça de Deus é de tal natureza que não pode alcançar as almas que rejeitam a salvação; e o poder da virtude humana por si só não basta para elevar à forma da vida celestial aquelas almas que não participam da graça. A menos que o Senhor edifique a casa e guarde a cidade, diz a Escritura, em vão vigia a sentinela, e o construtor trabalha (Sl 127,1). E também: 'Não foi pela espada que conquistaram a terra, nem foram salvos pelas armas - embora armas e espadas tenham servido na batalha -, mas a tua mão e o teu braço, ó Senhor, e a luz do teu rosto' (Sl 43,4).

O que isso significa? Significa que, do alto, o Senhor luta com aqueles que lutam - e que a coroa não depende unicamente do trabalho dos homens, nem mesmo de seus esforços. A esperança, em última análise, repousa na vontade de Deus. É necessário, portanto, conhecer antes de tudo qual é a vontade de Deus; voltar-se para ela, dirigindo todos os nossos esforços para ela; e, buscando a vida bem-aventurada através do desejo, organizando nossa própria existência tendo em vista essa vida.

A 'vontade perfeita' de Deus consiste em purificar a alma de toda mácula pela graça, elevando-a acima dos prazeres do corpo e oferecendo-a a Deus, pura, repleta de desejo e capaz de ver a luz inteligível e inefável. Então o Senhor declara o homem 'bem-aventurado': 'Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus' (Mt 5,8). E em outro lugar, Ele ordena: 'Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial' (Mt 5,48). O Apóstolo nos exorta a lutar por essa perfeição quando diz: 'A ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo' (Cl 1,28).

(Excertos da obra 'O Objetivo Divino e a Vida Segundo a Verdade', de São Gregório de Nissa)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

VERSUS: CARIDADE X CARIDADE


A verdadeira caridade é paciente na adversidade e comedida na prosperidade; é forte no sofrimento doloroso, alegre nas boas obras, perfeitamente segura na tentação; é suave com os verdadeiros irmãos e paciente com os falsos; é inocente nas armadilhas; chora na maldade; respira na verdade. É pura em Susana casada, em Ana viúva, em Maria virgem (Dn 13,1-; Lc 2,36). É humilde na obediência de Pedro e livre na argumentação de Paulo. É humana no testemunho dos cristãos, divina no perdão de Cristo. Porque a verdadeira caridade, queridos irmãos, é a alma de todas as Escrituras, a força da profecia, a moldura do conhecimento, o fruto da fé, a riqueza dos pobres, a vida dos moribundos. Conservai-a pois com fidelidade; amai-a com todo o vosso coração e com toda a força do vosso entendimento (cf Mc 12,30).
(São Cesário de Arles)


Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o fato de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o fato de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-o à nossa mesa como Simão, não só ungindo-o com perfumes como Maria, não só dando-lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra como os magos. Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos..

(São Gregório de Nazianzeno)

terça-feira, 7 de abril de 2026

SOBRE A AVAREZA ESPIRITUAL

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá, andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado.

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras de vida espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Ocupam-se mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito como deveriam.

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já daquela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos.

Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais.

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez assertivas destas coisas espirituais; o resto é mero apego e desserviço de imperfeição, o qual é necessário cortar a fim de se atingir algo da perfeição.

(Excertos da obra 'A Noite Escura da Alma', de São João da Cruz)

sábado, 28 de março de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (XI)

Os ícones para a Festa de Todos os Santos desenvolveram-se principalmente a partir do século IX e não apresentam muitas variantes. O cenário de referência é o Paraíso, expresso pelas imagens de árvores e arbustos. A parte central do ícone representa a chamada 'nuvem de testemunhas', descrita por São Paulo em sua carta aos Hebreus (Hb 11,33-12,2), contemplando os santos de todos os tempos. O círculo que os envolve representa, na tradição cristã, a dimensão da eternidade. Os santos estão reunidos ao redor de Cristo, comumente com vestes douradas (símbolo de sua realeza) e um livro nas mãos (símbolo de sua missão profética), envolvido por uma mandorla (halo amendoado), símbolo ancestral para expressar a majestade, a glória e a divindade de Cristo nos ícones sagrados.


Os santos são representados em hierarquias distintas, incluindo apóstolos, mártires, profetas, Padres da Igreja e assim por diante, sempre num contexto de um multidão inumerável, como expresso no Apocalipse: 'uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas' (Ap 7,9). Em algumas representações, esta hierarquia é ainda muito mais rígida, buscando refletir a ordem divina dos Céus, como um grande templo celestial com Cristo reinando sobre tudo.


Abaixo do Cristo, encontra-se o Trono da Preparação, simbologia da Presença Invisível de Cristo, por meio de um trono vazio, ornado por um manto (símbolo da autoridade) e por um livro (Livro da Vida), que simboliza o julgamento final por Cristo que virá 'para julgar os vivos e os mortos' de todos os tempos. Esta simbologia universal e temporal é representada pelas figuras de Adão e Eva que se prostram sobre o trono vazio. O trono vazio é, muitas vezes, complementado pela imagem da Cruz de Cristo, sustentada por anjos ou por Santa Helena.


Na parte inferior esquerda do ícone, encontra-se o Patriarca Abraão segurando uma criança no colo, símbolo das almas dos justos, que encontram repouso no 'seio de Abraão' (Lc 16,19-31). À direita, tem-se o Patriarca Jacó, segurando um pano que ostenta o símbolo das 'Dozes Tribos de Israel', ou seja, todos os santos do Antigo Testamento, enquanto no centro está São Dimas, o ladrão penitente a quem Cristo disse na cruz: 'Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso' (Lc 23,39-43). Alternativamente, o Patriarca Isaac também é representado, com todos os patriarcas acolhendo em si as almas dos justos. Nos cantos superiores, encontram-se as imagens dos reis Salomão (à esquerda) e Davi (à direita), segurando pergaminhos com cantos sapienciais.

quinta-feira, 26 de março de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A QUARESMA

I. Aproximar-se um pouco mais de Deus quer dizer estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir atentamente as suas inspirações - os santos desejos que faz brotar nas nossas almas - e a pô-las em prática [Forja].

II. Entramos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cômodo; não basta estar na Igreja e deixar que os anos passem. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão - esse momento único, que cada um de nós recorda, em que advertimos claramente tudo o que o Senhor nos pede - é importante; mas ainda mais importantes e mais difíceis são as conversões sucessivas. É preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que corre mal, pedir perdão, para facilitarmos o trabalho da graça divina nessas sucessivas conversões [Cristo que passa].

III.  Reparai nesta maravilha que é o cuidado que Deus tem por nós, sempre disposto a ouvir-nos, atento em cada momento à palavra do homem. Em qualquer altura - mas agora de modo especial, porque o nosso coração está bem disposto, decidido a purificar-se - Ele nos ouve e não deixará de atender ao que lhe pede um coração contrito e humilhado [Cristo que passa].

IV. Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a Fé, a Esperança, a Caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma ocasião de intensificar as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era isso apenas, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses atos externos são frutos da Fé, da Esperança e do Amor [Cristo que passa].

V. É tempo de penitência, pois. Mas não se trata de uma tarefa negativa. A Quaresma deve ser vivida com o espírito de filiação que Cristo nos comunicou e que vive na nossa alma. O Senhor chama-nos para que nos acerquemos d'Ele, desejando ser como Ele: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados, colaborando humildemente, mas fervorosamente, no divino propósito de unir o que está quebrado, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem pecador desordenou, de conduzir ao seu fim o que está desencaminhado, de restabelecer a divina concórdia a todas as criaturas [Cristo que passa].

VI. A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo? Em desejos de santidade? Em generosidade apostólica na minha vida diária, no meu trabalho cotidiano entre os meus companheiros de profissão? [Cristo que passa].

VII. Não podemos considerar esta Quaresma como uma época a mais, uma repetição cíclica do tempo litúrgico; este momento é único; é uma ajuda divina que é necessário aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança [Cristo que passa].

(São Josemaria Escrivá)

terça-feira, 24 de março de 2026

'OLHA PARA O TEU NADA!'

Não possuímos as virtudes, não por ser difícil, mas porque não queremos. Não temos paciência porque não queremos. Não temos temperança porque não queremos. Não temos castidade pela mesma razão. Se quiséssemos, seríamos santos, e é muito mais difícil ser engenheiro do que ser santo. Ah se tivéssemos fé!

Vida interior, vida espiritual, vida de oração: meu Deus, que difícil que isso deve ser! De modo nenhum. Afasta do teu coração o que o perturba, e encontrarás Deus. Com isso, o trabalho está feito. Muitas vezes buscamos o que não existe e, pelo contrário, passamos ao lado de um tesouro que não vemos. É a mesma coisa com Deus, a quem procuramos num emaranhado de coisas, que quanto mais complicado, melhor nos parece. No entanto, levamos Deus dentro de nós, e não o procuramos aí! Recolhe-te dentro de ti mesmo; olha para o teu nada; olha para o nada do mundo; põe-te ao pé de uma cruz e, se fores simples, verás Deus.

Se Deus não está na nossa alma, é porque não queremos. Temos uma tal acumulação de cuidados, de distrações, de tendências, de desejos, de vaidades, de presunções, temos tantas pessoas dentro nós, que Deus se afasta. Assim que o quisermos, Deus enche-nos a alma de tal modo, que é preciso sermos cegos para não o vermos. 

Uma alma quer viver de acordo com Deus? Afaste tudo o que não seja Ele, e está feito. É relativamente fácil. Se o quiséssemos, se o pedíssemos a Deus com simplicidade, faríamos um grande progresso na vida espiritual. Se quiséssemos, seríamos santos, mas somos tão tolos que não queremos; preferimos perder tempo com vaidades estúpidas.

(Excertos da obra 'Escritos Espirituais", de São Rafael Arnaiz Barón)