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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SORRISOS DE DEUS (III)

(Beato Marcel Callo, falecido em 1945)

(Beato Odoardo Focherini, falecido em 1944)

(Santa Maria Troncatti, falecida em 1969)

(Beato Giuseppe 'Pino' Puglisi, falecido em 1993)

(Beato Edward Poppe, falecido em 1924)

(Santa Dulce dos Pobres, falecida em 1992)

(Beato János Brenner, falecido em 1957)

(Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, falecida em 1959)

sábado, 5 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XI)

 

71. Todos devem servir à caridade... É dela que devemos aprender a devida ordem no exercício dos conselhos; pois a uns ela prescreverá a castidade, e não a pobreza; a outros, a obediência, e não a castidade; a alguns, o jejum, mas não a esmola; a outros, a esmola, mas não o jejum; a alguns, a solidão, e não o cuidado das almas; e a outros, o convívio com o mundo, e não a solidão. Enfim, ela é a corrente sagrada pela qual se torna fecundo o jardim da Igreja; e, embora ela própria tenha uma única cor, sem cor determinada, as flores que produz têm, cada qual, a sua cor distinta. Torna os mártires mais rubros que a rosa, as virgens mais brancas que o lírio; a uns dá o delicado violeta da mortificação, a outros as flores de laranjeira do matrimônio, empregando de diversos modos os santos conselhos para a perfeição das almas que têm a felicidade de viver sob a sua direção.

72. Nazaré significa flor. Oh! quão bem esta cidade nos representa a vida religiosa! Pois o que é a vida religiosa senão uma casa, ou uma cidade, densamente coberta de flores, uma vez que todas as coisas que fazemos - quando vivemos segundo suas regras e estatutos - são outras tantas flores? Nossas mortificações, humilhações, orações - numa palavra, todos os exercícios que praticamos - que são eles senão atos de virtude, semelhantes a tantas belas flores que exalam um perfume suavíssimo diante da Divina Majestade? Podemos, portanto, dizer com razão que a vida religiosa é um jardim todo semeado de flores, muito agradável à vista e muito salutar para aqueles que desejam respirar a sua fragrância.

73. Assim como a oliveira, plantada junto à videira, comunica-lhe o seu sabor, também a caridade comunica a sua perfeição às outras virtudes com as quais entra em contato. Mas é igualmente verdade que, se a oliveira for enxertada na videira, não somente lhe comunica o sabor, mas também lhe transmite algo de sua própria seiva. Não vos contenteis, portanto, em possuir a caridade juntamente com o exercício das diversas virtudes; cuidai para que seja pela caridade e por meio dela que pratiqueis essas virtudes, de modo que elas possam, com toda a justiça, ser atribuídas à própria caridade.

74. Todas as flores amarelas e, sobretudo o girassol, não somente se alegram à vista do sol, mas seguem, com amorosa fidelidade, a atração de seus raios, contemplando o sol e voltando-se para ele desde o seu nascer até o seu ocaso. Assim também todas as virtudes recebem um novo esplendor e uma dignidade excelente pela presença do amor divino. Mas a fé, a esperança, o temor de Deus, a penitência, a piedade e todas as demais virtudes que, por sua própria natureza, tendem particularmente para Deus e para a sua honra, não somente recebem a impressão do amor divino, pela qual são elevadas a um alto valor, mas inclinam-se inteiramente para Ele, associando-se a Ele, seguindo-o e servindo-o em todas as ocasiões... Isso nos mostra que essas virtudes são muito preciosas e que, quando exercidas num coração que possui o amor de Deus, tornam-no mais fecundo e santo do que as outras virtudes que, por sua própria natureza, não possuem tão grande afinidade com o amor divino.

75. Nossas ações recebem o nome e a espécie das virtudes particulares das quais procedem; mas da santa caridade recebem o sabor de sua santidade, pois a caridade é a raiz e a fonte de toda santidade no homem. E assim como o tronco comunica o seu sabor ao fruto produzido pelo enxerto, de tal maneira que cada fruto conserva ainda a qualidade natural do enxerto do qual procede, assim também a caridade infunde a sua própria excelência e dignidade nos atos de todas as demais virtudes; mas deixa, contudo, a cada uma delas o valor e a bondade particulares que possui por sua própria natureza.

76. Não é de admirar que o santo amor, sendo o rei das virtudes, nada tenha, grande ou pequeno, que não seja amável; assim como o bálsamo, príncipe das árvores aromáticas, não possui casca nem folha que não seja perfumada. E que poderia o amor produzir que não fosse digno de amor e não tendesse para o amor?

77. Todas as obras virtuosas de uma alma que é amiga de Deus são consagradas a Deus. Pois, quando um coração se entrega, não entrega também tudo aquilo que lhe pertence? Quando alguém dá uma árvore, não dá juntamente suas folhas, suas flores e seus frutos? 'O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios da casa de nosso Deus' (Sl 91,13-14).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

SOBRE OS QUATRO TIPOS DE MONGES

São Bento descreve quatro tipos de monges e considera dois tipos dignos de consideração: os cenobitas, que vivem em um mosteiro sob a autoridade de um abade, e os eremitas. São Bento escreveu sua regra para os cenobitas [que ele chamou de fortissimum genus ou 'a espécie mais forte'], mas não excluiu a possibilidade de monges idosos e experientes, veteranos dos 'caminhos árduos e tortuosos pelos quais caminhamos rumo a Deus', retirarem-se para a solidão e se dedicarem ao combate espiritual individual.


É bem sabido que há quatro espécies de monges. A primeira é a dos cenobitas, isto é, daqueles que vivem em mosteiros, sob uma Regra e um Abade.

A segunda é a dos anacoretas ou eremitas, isto é, daqueles que, não já no primeiro fervor da vida religiosa, mas depois de longa provação no mosteiro, aprenderam, com o auxílio e a experiência de muitos, a combater contra o demônio; e que, saindo bem armados das fileiras de seus irmãos para o combate solitário do deserto, são capazes, sem o apoio de outros, de lutar, pela força de seu próprio braço e com o auxílio de Deus, contra os vícios da carne e os maus pensamentos.

Uma terceira e perniciosíssima espécie de monges é a dos sarabaítas, que não foram provados por regra alguma nem pela experiência de um mestre, como o ouro no cadinho; mas, sendo moles como o chumbo e ainda servindo ao mundo por suas obras, mentem a Deus por meio da tonsura. Estes, em grupos de dois ou três, ou mesmo sozinhos, sem pastor, encerrados não nos apriscos do Senhor, mas nos seus próprios, fazem para si mesmos uma lei segundo o prazer de seus próprios desejos: tudo aquilo que julgam conveniente ou escolhem fazer, chamam santo; e aquilo de que não gostam, consideram ilícito.

A quarta espécie de monges é a daqueles chamados giróvagos, que passam toda a vida vagueando por diversas províncias, hospedando-se em diferentes celas por três ou quatro dias de cada vez; sempre errantes, sem estabilidade, entregues aos próprios prazeres e às ciladas da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Da miserabilíssima vida destes é melhor nada dizer do que falar.

Excertos da obra Regra de São Bento (Regula Sancti Benedicti), escrita por Bento de Núrsia no século VI, Capítulo I - 'Das espécies de monges' (De generibus monachorum). 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ETYMOLOGIAE (IV)

 

📌Os Apóstolos (De apostolis)

1. Apóstolo (apostolus) significa 'aquele que é enviado', pois é isso que o próprio nome indica. Assim como em grego ἄγγελος significa 'mensageiro' (nuntius) em latim, assim também 'aquele que é enviado' é chamado, em grego, de 'apóstolo' (apostolus), pois Cristo os enviou para difundir o Evangelho por todo o mundo. Alguns deles penetraram até a Pérsia e a Índia, ensinando às nações e realizando grandes e incríveis milagres em nome de Cristo, a fim de que, por meio daqueles sinais e prodígios que confirmavam sua pregação, os homens acreditassem naquilo que os Apóstolos diziam e haviam visto. A maior parte deles recebe, dessas atividades, a explicação de seus nomes.

2. Pedro (Petrus) recebeu seu nome de 'pedra' (petra), isto é, de Cristo, sobre quem a Igreja está fundada. Com efeito, petra não recebe seu nome de Petrus, mas Petrus de petra, assim como 'Cristo' não é assim chamado a partir de 'cristão', mas 'cristão' a partir de 'Cristo'. Por isso o Senhor diz: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra (petra) edificarei a minha Igreja' (Mt 16,18), porque Pedro havia dito: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16). Então o Senhor lhe disse: 'Sobre esta pedra' que proclamaste 'edificarei a minha Igreja', pois 'a pedra era Cristo' (1Cor 10,4) e sobre esse fundamento o próprio Pedro também foi edificado.

3. Foi chamado Cefas porque foi constituído como cabeça (caput) dos apóstolos, pois κεφαλή em grego significa 'cabeça' e Cefas é o nome sírio de Pedro.

4. Simão 'Bar-Jonas', em nossa língua, significa 'filho da pomba', sendo um nome formado tanto do siríaco quanto do hebraico; pois Bar, na língua siríaca, significa 'filho' e 'Jonas', em hebraico, significa 'pomba'; assim, Bar-Jonas é composto de elementos das duas línguas.

5. Alguns entendem simplesmente que Simão, isto é, Pedro, é filho de João, por causa daquela pergunta (João 21,15): 'Simão, filho de João, tu me amas?' (Jo 21,15) e alguns consideram que o nome foi corrompido por um erro dos copistas, de modo que se escreveu Bar-Iona em lugar de Bar-Iohannes, isto é, 'filho de João', com a supressão de uma sílaba. 'Joana' significa 'graça do Senhor'.

6. Assim, Pedro possuía três nomes: Pedro, Cefas e Simão Bar-Jonas. Além disso, 'Simão', em hebraico, significa 'aquele que escuta'.

7. Saulo, na língua hebraica, significa 'tentação', porque, a princípio, ele esteve envolvido na provação da Igreja, pois era perseguidor; daí ter possuído esse nome enquanto perseguia os cristãos.

8. Posteriormente, mudado o nome, de Saulo fez-se Paulo, que é interpretado como 'o admirável' ou 'o escolhido'. Admirável, porque realizou muitos sinais, ou porque, do Oriente ao Ocidente, pregou o Evangelho de Cristo a todas as nações.

9. Escolhido, como diz o Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos: 'Separai-me Barnabé e Paulo para a obra para a qual os escolhi' (At 13,2). Além disso, na língua latina, Paulo (Paulus cf. paulus, 'pequeno') recebe seu nome de 'pequeno', razão pela qual ele próprio diz: 'Pois eu sou o menor de todos os apóstolos' (1Cor 15,9). Assim, quando era Saulo, era orgulhoso e altivo; quando Paulo, humilde e pequeno.

10. Por isso dizemos: 'daqui a pouco (paulo) te verei', isto é, depois de um breve espaço de tempo. E, porque se fez pequeno, ele próprio diz (cf. 1 Coríntios 15,8): 'Pois eu sou o último [de todos] os apóstolos' (1Cor 15,8) e ainda: 'A mim, o menor de todos os santos' (Ef 3,8). Assim, tanto Cefas quanto Saulo foram chamados por um nome mudado, para que fossem verdadeiramente novos até mesmo em seus nomes, à semelhança de Abraão e Sara.

11. André, irmão de Pedro segundo a carne foi seu coerdeiro segundo a graça; de acordo com sua etimologia hebraica, 'André' significa 'o belo' ou 'aquele que responde'; além disso, na língua grega, é chamado 'o viril', a partir da palavra que significa 'homem' (cf. grego ἀνήρ, genitivo ἀνδρός, 'homem').

12. João, com certa presciência profética, recebeu merecidamente seu nome, pois este significa 'aquele em quem está a graça' ou 'graça do Senhor'. Com efeito, Jesus o amou mais plenamente que aos outros apóstolos.

13. Tiago, filho de Zebedeu, recebeu do seu pai o seu sobrenome; deixando o seu pai, seguiu com seu irmão João o verdadeiro Pai. Estes irmãos foram chamados Boanerges que significa 'Filhos do Trovão' (Mc 3,17), pela força e grandeza de sua fé. Este Tiago é o filho de Zebedeu, irmão de João que, segundo se sabe, foi morto por Herodes depois da Ascensão do Senhor.

14. Tiago de Alfeu recebe esse sobrenome para ser distinguido do outro Tiago, chamado filho de Zebedeu, pois este segundo é filho de Alfeu. Assim, ambos receberam seus sobrenomes de seus pais.

15. Este é Tiago Menor, que no Evangelho é chamado irmão do Senhor, porque Maria, esposa de Alfeu, era irmã da mãe do Senhor; e o evangelista João deu àquela Maria o sobrenome 'de Cleopas', a partir do nome de seu pai, atribuindo-lhe esse nome quer pela nobreza de sua família, quer por alguma outra razão. Além disso, 'Alfeu', na língua hebraica, significa 'o milésimo' ou, em latim, 'o instruído'.

16. Filipe significa 'boca das lâmpadas' [a luz recebida de Cristo] ou 'boca das mãos' [a pregação dessa luz]. Tomé significa 'o abismo' ou 'o gêmeo', razão pela qual, em grego, também é chamado Dídimo. Bartolomeu, 'filho daquele que sustenta as águas' ou 'filho daquele que me sustenta'. Este nome é siríaco, não hebraico.

17. 'Mateus', em hebraico, significa 'aquele que foi agraciado'. Este mesmo homem também foi chamado Levi, por causa da tribo da qual descendia. Além disso, em latim recebeu o nome de 'publicano' em razão de seu ofício, pois foi escolhido dentre os publicanos e chamado ao apostolado.

18. Simão, o Cananeu, para ser distinguido de Simão Pedro, recebe seu nome da cidade galileia de Caná, onde o Senhor transformou a água em vinho. É este que outro evangelista designa como 'o zelota' pois, com efeito, 'Caná' significa 'zelo'.

19. Judas de Tiago, que em outro lugar é chamado Lebeu, possui um nome simbólico derivado da palavra que significa 'coração', que, no diminutivo, podemos traduzir como 'pequeno coração'. Outro evangelista chama este Judas de Tadeu (Mt 10,3). A história eclesiástica relata que ele foi enviado a Edessa, ao rei dos Abgaros.

20. Judas Iscariotes recebeu seu nome ou da cidade em que nasceu, ou da tribo de Issacar, trazendo em seu próprio nome, como certo presságio do futuro, a indicação de sua condenação; pois 'Issacar' significa 'pagamento', significando assim o preço recebido pelo traidor, pelo qual vendeu o Senhor, conforme está escrito em relação ao seu pagamento, 'as trinta moedas de prata, o preço em que fui avaliado por eles (Mt 27,9).

21. Matias, que é considerado o único entre os apóstolos a não possuir sobrenome, significa 'aquele que foi agraciado' [mesma etimologia de Mateus], devendo-se entender: 'em lugar de Judas', pois foi eleito pelos apóstolos para ocupar o lugar de Judas, quando lançaram sortes para decidir entre dois homens.

22. Marcos significa 'elevado em seu mandato', especialmente por causa do Evangelho do Altíssimo que pregou.

23. Lucas significa 'aquele que se levanta' ou 'aquele que eleva' porque, depois dos outros, elevou a pregação do Evangelho.

24. Barnabé significa 'filho do profeta' ou 'filho da consolação'.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

terça-feira, 1 de setembro de 2026

VERSUS: RIQUEZA X POBREZA

Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Deus não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimônios. Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: 'Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos' (1Tim 6,17).

Aqueles que não são orgulhosos são pobres diante de Deus, que inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85,1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro nem na prata, nem nas coisas de que gozam durante algum tempo.

Basta que as riquezas não os levem à perdição e que, se elas nada podem para os salvar, ao menos não lhes sirvam de obstáculo. Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, é um pobre de Deus; e Deus inclina-se para ele, porque conhece os tormentos do seu coração.

Não há dúvida, irmãos, de que o pobre Lázaro, que permanecia, coberto de chagas, à porta do rico, foi levado pelos anjos ao seio de Abraão; é isto que lemos e nisto que acreditamos. Quanto ao rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e festejava esplendidamente todos os dias, foi precipitado nos tormentos do inferno. Terá sido, realmente, o mérito da sua indigência que valeu ao pobre ter sido levado pelos anjos? E o rico terá sido entregue aos tormentos do inferno por causa da sua opulência? Não, mas ao pobre foi a humildade que o dignificou, e ao rico foi o orgulho que o condenou.

(Santo Agostinho, excertos da obra 'Discursos sobre os salmos')


As coisas que possuímos não são nossas. Deus deu-no-las para que as cultivemos e quer que as tornemos frutuosas e úteis. Prescindi sempre, portanto, de uma parte dos vossos meios e dai-a aos pobres de bom coração. É verdade que Deus vo-lo devolverá, não só no outro mundo, mas também já neste, porque não há coisa que mais nos faça prosperar do que a esmola; mas, enquanto esperais que Deus vo-lo torne, estareis já mais pobres daquilo que destes, e como é santo e rico o empobrecimento que advém de se ter dado esmola!

Amai os pobres e a pobreza, porque por este amor tornar-vos-eis verdadeiramente pobres, tal como está dito nas Escrituras: tornamo-nos naquilo que amamos (cf Os 9,10)... Portanto, se amais os pobres, sereis verdadeiramente participantes da sua pobreza, e pobres como eles. Assim, se amais os pobres, ide com frequência para o meio deles: tende prazer em os receber em vossas casas e em visitá-los; conversai voluntariamente com eles, ficai felizes por eles se aproximarem de vós na igreja, na rua ou em qualquer outro local. Sede pobres de língua para com eles, falando-lhes como amigo, mas sede ricos de mãos, largamente lhes dando dos vossos bens, pois vós os tendes em muito maior abundância.

Quereis fazer mais, ainda? Tornai-vos servos dos pobres; ide servi-los com as vossas próprias mãos e a expensas vossas. Maior triunfo há neste serviço do que o que há na realeza.

(São Francisco de Sales, excertos da obra 'Introdução à vida devota')

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (II)

(Venerável Fulton Sheen, a ser beatificado em setembro/2026, falecido em 1979)

(Santa Teresa de Lisieux, falecida em 1897)

(Beata Sandra Sabattini, falecida em 1984)

(São João Bosco, falecido em 1888)

(Beata Alexandrina da costa, falecida em 1955)

(São Alberto Hurtado, falecido em 1952)

(Beata Chiara Badano, falecida em 1990)

(Santa Teresa de Calcutá, falecida em 1997)

sábado, 29 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (X)

 

64. Um grande erro em que muitas pessoas, especialmente as mulheres, caem frequentemente é acreditar que o serviço que prestamos a Deus sem qualquer gosto ou ternura de coração é menos agradável à sua Divina Majestade; quando, pelo contrário, as nossas ações são como as rosas: embora sejam mais belas quando frescas, depois de secas exalam um perfume mais intenso e suave. Do mesmo modo, as nossas ações realizadas com ternura de coração são mais agradáveis a nós, que buscamos apenas a nossa própria satisfação; contudo, quando praticadas na aridez, possuem maior mérito e valor aos olhos de Deus.

65. O fogo contemplado por Moisés na montanha representava o santo amor. E, assim como aquelas chamas eram alimentadas entre os espinhos, também o exercício do amor sagrado se conserva mais perfeitamente em meio às tribulações do que na paz e no contentamento.

66. Vejo que todas as estações se encontram em vossa alma: ora sentis o inverno da esterilidade, das distrações, do desgosto e do cansaço; ora, os orvalhos do mês de maio, acompanhados do perfume das santas florzinhas; e, em outros momentos, o ardor do verão, no desejo de agradar ao nosso bom Deus. Resta apenas o outono, do qual, como dizeis, não vedes muitos frutos. Muitas vezes, porém, ao debulharmos o trigo e prensarmos as uvas, descobrimos que produziram mais do que prometiam a colheita e a vindima... Prossigamos sempre com um passo tranquilo e sereno; contanto que tenhamos uma vontade boa e determinada, não poderemos deixar de caminhar bem.

67. O manjericão, o alecrim, a manjerona, o hissopo, o cravo, a canela, o limão e o almíscar, reunidos e conservados inteiros, formam um perfume muito agradável pela mistura de seus diversos aromas; mas esse perfume não é tão excelente quanto a água deles destilada, na qual a suavidade de todos esses ingredientes se combina mais perfeitamente, formando uma essência primorosa, que deleita os sentidos de maneira muito mais intensa do que quando suas fragrâncias são aspiradas separadamente. Do mesmo modo, o amor pode ser cultivado nas uniões em que se misturam as afeições corporais e espirituais, mas nunca alcança tamanha perfeição como quando somente as almas e os corações, desprendidos de toda afeição sensível, se unem num amor puramente espiritual. Pois a fragrância das afeições assim unidas não é apenas mais suave e excelente, mas também mais viva, mais eficaz e mais sólida.

68. A caridade compreende os sete dons do Espírito Santo e assemelha-se a uma bela flor-de-lis, que possui seis pétalas mais brancas do que a neve e, no centro, graciosos estames dourados. O dom da sabedoria produz em nossos corações um amoroso gosto e deleite na bondade do Pai, nosso Criador; na misericórdia do Filho, nosso Redentor; e na suavidade do Espírito Santo, nosso Santificador.

69. Somos obrigados, para falar de Deus de algum modo, a empregar grande número de nomes, dizendo que Ele é bom, sábio, onipotente, verdadeiro, justo, santo, infinito, imortal e invisível! E, de fato, Deus é tudo isso conjuntamente, porque é mais do que tudo isso; isto é, Ele possui todas essas perfeições de maneira tão pura, tão excelente e tão sublime que, numa única e simples perfeição, encerra a virtude, a força e a excelência de todas as perfeições... Ó abismo das perfeições divinas, quão admirável sois por possuirdes em vós, numa única perfeição, a excelência de todas as perfeições - e isso de maneira tão sublime que ninguém, senão vós mesmo, pode compreendê-lo!

70. O sol contempla uma rosa, juntamente com milhares de milhões de outras flores, com a mesma atenção que lhe dedicaria se contemplasse somente aquela rosa. Assim também Deus, embora ame um número incontável de outras almas, não derrama sobre uma única alma menos amor do que derramaria se amasse somente a ela; pois a força do seu amor não diminui conforme a multidão dos raios que difunde, mas permanece sempre plena em sua própria imensidade.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (I)

(São Padre Pio, falecido em 1968)

(São Carlo Acutis, falecido em 2006)

(Serva de Deus Anne-Gabrielle Caron, falecida em 2010)

(Santa Gianna Beretta Molla, falecida em 1962)

(São Pier Giorgio Frassati, falecido em 1925)

(São Rafael Arnaiz Barón, falecido em 1938)

(Santa Bernadete Soubirous, falecida em 1879)

(São Josemaria Escrivá, falecido em 1975)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (III)


📌Cânones dos Concílios (De canonibus Conciliorum)

1. Cânone (canon) é uma palavra grega; em latim, significa 'régua' ou 'norma' (regula). A régua recebe esse nome porque traça em linha reta (recte) e nunca se desvia. Alguns dizem que ela é assim chamada porque rege (regere), porque oferece uma norma para viver retamente (recte) ou porque corrige (corrigere) tudo o que é deformado ou perverso.

2. Os cânones dos concílios gerais começaram no tempo de Constantino pois, nos anos anteriores, enquanto grassavam as perseguições, havia pouca oportunidade para instruir o povo. 

3. Por essa razão, o cristianismo foi dilacerado por diversas heresias, pois não havia liberdade para que os bispos se reunissem em unidade até o tempo do imperador acima mencionado, que concedeu aos cristãos a faculdade de se congregarem livremente.

4. Sob Constantino, os santos Padres, reunidos de todas as partes do mundo no Concílio de Niceia, promulgaram, em conformidade com a fé evangélica e apostólica, o segundo Credo - o Credo Niceno - depois do Credo dos Apóstolos.

5. Entre os concílios da Igreja, quatro são os veneráveis sínodos que mais plenamente abrangeram toda a fé, assim como quatro são os Evangelhos e quatro os rios do Paraíso.

6. O primeiro deles, o Sínodo de Niceia, composto por 318 bispos, realizou-se durante o governo de Constantino Augusto. Nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana acerca da desigualdade da Santíssima Trindade, defendida pelo próprio Ário. Esse santo sínodo estabeleceu, por meio de seu Credo, que Deus Filho é consubstancial a Deus Pai.

7. O segundo sínodo, composto por 150 Padres, reuniu-se em Constantinopla sob Teodósio, o Velho. Condenando Macedônio, que negava que o Espírito Santo fosse Deus, demonstrou que o Espírito Santo é consubstancial ao Pai e ao Filho, dando forma ao Credo que todos os fiéis de língua latina e grega proclamam nas igrejas.

8. O terceiro, o Primeiro Sínodo de Éfeso, composto por 200 bispos, realizou-se sob Teodósio Augusto, o Jovem. Condenou, com justa sentença de anátema, Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo; e demonstrou que, em duas naturezas, subsiste a única pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O quarto, o Sínodo de Calcedônia, composto por 630 sacerdotes, realizou-se sob o imperador Marciano. Nesse sínodo, uma sentença unânime dos Padres condenou Eutiques, abade de Constantinopla, que pregava haver uma única natureza tanto do Verbo de Deus quanto de sua carne; condenou também seu defensor Dióscoro, antigo bispo de Alexandria, e novamente Nestório, juntamente com os demais hereges. Esse mesmo sínodo proclamou que Cristo Senhor nasceu da Virgem e, consequentemente, reconhecemos que em Cristo se encontra a substância tanto da natureza divina quanto da natureza humana.

10. Estes são os quatro principais sínodos, que proclamaram com a maior plenitude a doutrina de nossa fé. E todos os outros concílios que os santos Padres, repletos do Espírito de Deus, sancionaram permanecem em pleno vigor, sustentados pela autoridade desses quatro, cujas realizações estão registradas nesta obra.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

AS VINHAS DE DEUS (IX)

 

57. 'Um rebento sairá da raiz de Jessé' - diz o profeta Isaías; isto é, a Santíssima Virgem; e da Virgem nascerá uma flor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sobre essa flor repousará o Espírito Santo, comunicando-lhe 'o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e Ele será cheio do temor do Senhor' (Is 11,2). Assim, a sagrada humanidade de nosso Salvador é como uma flor divina sobre a qual repousou o Espírito Santo, para comunicar-lhe os seus sete dons. Isso nos é apropriadamente representado pelo candelabro de ouro com sete braços, que ficava diante do Tabernáculo do Antigo Testamento e que poderia ser chamado de flor, porque os seus braços estavam dispostos em forma de lírios.

58. Se os frutos mais delicados e mais facilmente perecíveis, como as cerejas, os damascos e os morangos, podem ser conservados durante um ano inteiro quando preparados em açúcar ou mel, não é de admirar que nossos corações, embora fracos e insensatos, sejam preservados da corrupção do pecado quando conservados pelo Corpo e Sangue incorruptíveis do Filho de Deus, que é 'mais doce que o mel e o favo de mel'.

59. O matrimônio é um estado que exige mais virtude e constância do que qualquer outro. É um exercício contínuo de mortificação e talvez o seja para vós ainda mais do que habitualmente. Deveis, portanto, preparar-vos para ele com grande cuidado, a fim de que dessa planta de tomilho, apesar de seu amargor natural, possais extrair o mel de uma vida santa. Que o doce Jesus seja sempre o açúcar e o mel que tornarão suave a vossa vocação! Que Ele viva e reine para sempre em nossos corações!

60. Assim como o sumo da videira, se permanecer por demasiado tempo na uva, corrompe-se e se estraga, também a alma humana, se permanecer entregue aos prazeres e à voluptuosidade, aos desejos e anseios, acaba por se corromper; mas, quando esmagada pela tribulação, produz uma doce bebida de penitência e amor.

61. A Divina Providência faz tudo bem e dispõe todas as coisas da melhor maneira. Que felicidade para essa jovem ter sido retirada do mundo antes que a malícia pervertesse o seu entendimento e ter deixado esse lodaçal antes de ser por ele manchada! [sobre a morte de uma jovem religiosa]. Os morangos e as cerejas são colhidos antes das peras e das laranjas, porque a sua estação assim o exige. Deixemos Deus colher aquilo que plantou em seu pomar: Ele colhe cada coisa no seu devido tempo.

62. Sei que vossos sofrimentos aumentaram ultimamente e, por isso, compadeci-me ainda mais de vós. Contudo, juntamente convosco, louvo e bendigo Nosso Senhor pelo seu beneplácito, que Ele realiza em vós, fazendo-vos participar de sua santa cruz e coroando-vos com sua coroa de espinhos... É um bom sinal para essa alma o fato de ter sofrido muitas aflições, pois, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas.

63. Plantai Jesus Cristo crucificado em vosso coração, e todas as cruzes deste mundo vos parecerão rosas... Sabeis o que fazem os pastores da Arábia quando percebem que se aproxima uma tempestade? Abrigam-se sob os loureiros, juntamente com seus rebanhos. Quando percebermos que as perseguições e as contradições nos ameaçam, devemos refugiar nossos afetos à sombra da Santa Cruz, com verdadeira confiança de que 'todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus' (Rm 8,28).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

O DESEJO DE AGRADAR A DEUS

Dê rédeas soltas ao seu desejo por Deus; o amor é mais desejável do que a vida neste mundo. Deixe-se ser barro em suas mãos, confiando em sua vontade para você, seja na adversidade ou na glória. Todo desejo deve ser aperfeiçoado ao ser consumido pelo fogo do amor de Deus, e o desejo de agradar a Deus deve estar acima de todos os outros.

Quando morreremos para todas as coisas, para que possamos viver somente para Deus? Ah, sim, quando chegará esse momento? Ó morte preciosa! Mais desejável que a vida; morte que, pelo amor, nos transforma em Deus! São João Crisóstomo disse: Silentium, quod lutem prabet figulo, idem ipse prabe conditori tuo. Oh, que frase! Ele disse: 'Assim como o barro permanece silencioso nas mãos do oleiro, assim também você deve permanecer em silêncio nas mãos do seu Criador'. O barro permanece silencioso, quer o oleiro o molde em um vaso de honra ou de ignomínia; quer o quebre ou o jogue fora; ele se contenta em ser descartado ou colocado em uma galeria de arte. Grave este ensinamento em sua memória.

Até mesmo os desejos mais sagrados, sejam eles referentes à salvação das almas ou às grandes necessidades da Igreja, devem ser consumidos no fogo do amor de Deus, do qual brotam, e aguardam o tempo divino para sua realização. Enquanto isso, cultive um desejo, o mais perfeito de todos: agradar a Deus cada vez mais e alimentar-se da sua Santa Vontade.

(São Paulo da Cruz)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

SOBRE O AMOR DE DEUS

Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito. Será que Deus não merece todo o nosso amor? Ele nos amou desde toda a eternidade. 'Lembra-te, ó homem' -assim nos fala - que fui eu o primeiro a te amar. Tu ainda não estavas no mundo, o mundo nem mesmo existia, e eu já te amava. Desde que sou Deus, eu te amo'.

Deus, sabendo que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao seu amor por meio de seus dons. Eis por que disse: 'Quero atrair os homens ao meu amor com os mesmos laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor'. Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma dotada, à sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo provido de sentidos; para ele criou também o céu e a terra com toda a multidão de seres; por amor do homem criou tudo isso, para que todas as criaturas servissem ao homem e o homem, em agradecimento por tantos benefícios, o amasse.

Mas Deus não se contentou em dar-nos tão belas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi ao ponto de dar-se a si mesmo totalmente a nós. O Pai eterno chegou ao extremo de nos dar seu único Filho. Vendo-nos a todos mortos pelo pecado e privados de sua graça, que fez ele? Movido pelo imenso, ou melhor - como diz o Apóstolo - pelo seu demasiado amor, enviou seu amado Filho, para nos justificar e nos restituir a vida que havíamos perdido pelo pecado.

Ao dar-nos o Filho, a quem não poupou para nos poupar, deu-nos com ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso. E porque todos estes bens são certamente menores do que o Filho, Deus, que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele? (Rm 8,32).

(Santo Afonso Maria de Ligório)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (VIII)

 

50. A videira é plantada principalmente por causa de seu fruto; e, por isso, o fruto é o primeiro a ser desejado e procurado, embora as folhas e as flores apareçam antes dele. Assim também, o grande Redentor foi o primeiro na intenção divina e naquele plano eterno que a Divina Providência formou para trazer as criaturas à existência. Tendo em vista esse fruto tão desejável, foi plantada a videira do mundo e estabelecida a sucessão de muitas gerações, as quais, à semelhança das folhas e das flores, deveriam preceder o fruto como precursoras, preparando convenientemente a vinda daquele cacho de uvas que o Esposo do Cântico dos Cânticos tanto louva e cujo vinho alegra a Deus e ao homem.

51. O nardo é um pequeno arbusto que jamais se eleva às alturas, como os cedros do Líbano, mas permanece sempre em sua pequenez, exalando o seu perfume com tamanha suavidade que alegra todos os que dele se aproximam. Podemos, com efeito, dizer com toda a verdade que a Santíssima Virgem é semelhante a um nardo preciosíssimo, pois jamais se exaltou por causa das grandes graças e favores que recebeu, nem pelos louvores que lhe foram tributados, mas permaneceu sempre bela em sua humildade e pequenez. E, por essa humildade, à semelhança do nardo, difundiu ao seu redor um perfume tão suave que este se elevou até o trono da Divina Majestade; e Deus tanto se comprazia nele que desceu do Céu, veio até esta terra e se encarnou em seu sagrado seio.

52. Imaginai uma grande esponja que acaba de ser formada no mar. Se a contemplardes, vereis que há água em todas as suas partes e que ela está inteiramente impregnada de água; o mar está acima e abaixo dela e, numa palavra, ela se encontra cercada de água por todos os lados... Observai, porém, peço-vos, que, embora o mar esteja em todas as partes da esponja, a esponja não se estende por toda a imensidão do mar, pois o mar é um oceano vasto e profundo que não poderia ser contido numa esponja. Ora, esta comparação representa muito bem a união da natureza divina com a natureza humana. A esponja representa a humanidade de Nosso Senhor; o oceano, a sua Divindade, que de tal modo impregnou a humanidade que não há a menor parte do corpo ou da alma de Nosso Senhor que não esteja repleta dela.

53. Ó Jesus! Enchei os nossos corações com o sagrado bálsamo de vosso divino Nome, para que a suavidade de seu perfume se difunda por todos os nossos sentidos e em todas as nossas ações! Mas, para que estes corações se tornem capazes de receber tão doce licor, circuncidai-os e cortai deles tudo quanto possa desagradar aos vossos santos olhos.

54. Consideramos também a Cruz, não como ela se encontra atualmente, separada do Crucificado, à maneira de uma relíquia, mas como era no tempo da Paixão, quando Nosso Senhor estava nela pregado, quando essa árvore preciosa estava carregada de seu fruto, quando essa mirra destilava de todos os lados gotas de Sangue salvador. Nessa contemplação, nossas almas honram a verdadeira Cruz com a mesma honra com que honram o Crucificado.

55. A mirra tem um perfume muito suave, mas seu suco é extremamente amargo. A querida esposa, pois - a Igreja ou a alma devota - diz que seu Amado será para ela como um ramalhete de mirra sobre o coração, para mostrar que conservará sempre a lembrança da amargura de sua dolorosa Paixão.

56. Houve, sem dúvida, uma grandíssima alegria na arca de Noé, quando a pomba, que pouco antes havia saído para verificar em que estado se encontrava o mundo, finalmente regressou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal seguro de que as águas haviam baixado e de que Deus havia restituído ao mundo a felicidade de sua paz. Mas, ó Deus! Que alegria, que júbilo festivo não deve ter tomado os Apóstolos reunidos, quando viram a sagrada Humanidade de Jesus retornar ao meio deles depois da Ressurreição, trazendo o ramo de oliveira de uma santa e agradável paz e dizendo-lhes: Pax vobis - A paz esteja convosco!

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

PRESENÇA DE DEUS

1. Precisamos estar convencidos de que Deus está sempre perto de nós. Vivemos como se ele estivesse longe, lá no alto dos céus, e nos esquecemos de que Ele está também constantemente ao nosso lado. Ele está presente como um Pai amoroso. Ele ama cada um de nós mais do que todas as mães do mundo podem amar seus filhos - ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando... e perdoando... Precisamos estar cheios, imbuídos da ideia de que nosso Pai, e verdadeiramente nosso Pai, é Deus, que está perto de nós e no céu.

2. Acostume-se a elevar o seu coração a Deus, em atos de gratidão, muitas vezes ao dia. Porque Ele lhe dá isto e aquilo. Porque você foi desprezado. Porque você não tem o que precisa ou porque você tem. Porque Ele fez a sua Mãe tão bela, Sua Mãe que também é a sua Mãe. Porque Ele criou o sol e a lua e este animal e aquela planta. Porque Ele fez aquele homem eloquente e deixou você sem palavras... Agradeça a Ele por tudo, porque tudo está bem.

3. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não entrar em cada Tabernáculo quando vislumbrar as paredes ou as torres das casas de Deus. Ele está esperando por você. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não invocar Maria Imaculada com pelo menos uma exclamação, sempre que passar perto daqueles lugares onde você sabe que Cristo é ofendido.

4. Seja sempre uma alma de oração: nas intenções, que Jesus seja nosso objetivo; nos afetos, nosso Amor; na conversa, nosso tema; nas ações, nosso modelo.

5. Nunca tome uma decisão sem antes parar para refletir sobre o assunto na presença de Deus.

6. Se você se acostumar, mesmo que apenas uma vez por semana, a buscar a união com Maria para ir até Jesus, verá como terá mais a presença de Deus.

7. Viva na presença de Deus e você terá uma vida sobrenatural.

(Excertos da obra 'Caminho', de São Josemaria Escrivá)