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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A ORAÇÃO SILENCIOSA DO CORAÇÃO

Que a nossa fala e nossa súplica sejam disciplinadas quando orarmos, e que preservemos a tranquilidade e a modéstia, pois, lembrem-se, estamos diante de Deus. Devemos agradar aos olhos de Deus tanto com os movimentos do nosso corpo quanto com a maneira como usamos as nossas vozes. Pois, assim como um homem desavergonhado fará barulho com seus gritos, também convém que o modesto ore de maneira moderada.

Além disso, o Senhor nos ensinou a orar em segredo, em lugares escondidos e remotos, em nossos próprios quartos – e isso é o mais adequado para a fé, pois nos mostra que Deus está em todos os lugares e ouve e vê tudo e, na plenitude de sua majestade, está presente até mesmo em lugares escondidos e secretos, como está escrito: 'Eu sou um Deus próximo e não distante. Se alguém se esconder em lugares secretos, não o verei? Não preencho eu todos os céus e a terra?' e, ainda: 'Os olhos de Deus estão em toda parte e veem o bem e o mal igualmente' .

Quando nos reunimos com os irmãos em um só lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da nossa modéstia e disciplina, não proclamando as nossas orações em voz alta, nem apresentando a Deus, com indisciplina e prolixidade, uma súplica que seria melhor feita com mais modéstia: pois, afinal, Deus não ouve a voz, mas o coração, e aquele que vê os nossos pensamentos não deve ser perturbado pelas nossas vozes, como o Senhor demonstra quando diz: 'Por que pensais mal nos vossos corações?' ou ainda: 'Todas as igrejas saberão que sou eu quem sonda as vossas motivações e os vossos pensamentos' .

No primeiro livro dos Reis, vemos que Ana orava a Deus não com súplicas em voz alta, mas silenciosa e modestamente, no íntimo do seu coração. Ela falava com uma oração silenciosa, mas com fé manifesta. Não falava com a voz, mas com o coração, porque sabia que era assim que Deus ouvia, e recebeu o que buscava porque pediu com fé. A Sagrada Escritura afirma isso quando diz: 'Ela falava em seu coração, e seus lábios se moviam, e sua voz não era audível; e Deus a ouvia'. E lemos nos Salmos: 'Falem em seus corações e em seus leitos, e sejam acolhidos'. Novamente, o Espírito Santo ensina as mesmas coisas por meio de Jeremias, dizendo: 'Mas é no coração que deves ser adorado, ó Senhor'.

Amados irmãos, que o adorador não se esqueça de como o publicano orou com o fariseu no templo - não com os olhos altivos voltados para o céu, nem com as mãos erguidas em orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados que carregava, implorava a ajuda da misericórdia divina. Enquanto o fariseu se vangloriava de si mesmo, foi o publicano quem mereceu ser santificado, pois depositou sua esperança de salvação não na confiança em sua inocência - pois ninguém é inocente - mas orou, confessando humildemente os seus pecados, e Aquele que perdoa os humildes ouviu a sua oração.

(São Cipriano de Cartago)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A IGREJA É ÚNICA COMO A VERDADE

A Igreja, espalhada por todo o mundo até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos, a fé num único Deus Pai todo-poderoso, que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; e num único Jesus Cristo, Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que pelos profetas anunciou os planos de Deus, a vinda de Cristo, seu nascimento da Virgem, sua paixão, sua ressurreição dentre os mortos, sua ascensão corporal aos céus, sua vinda dos céus, na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e ressuscitar toda a linhagem humana, a fim de que diante de Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus e Salvador e Rei, pela vontade do Pai invisível, todo joelho se dobre no céu, na terra, no abismo, e toda língua proclame aquele que fará justo julgamento em todas as coisas.

A Igreja, então, disseminada, como dissemos, por todo o mundo, guarda diligentemente a pregação e a fé recebida, habitando como em uma única casa; e sua fé é igual em todos os lugares, como se tivesse uma única alma e um único coração, e tudo o que prega, ensina e transmite, faz em uníssono, como se tivesse uma única boca. Pois, embora existam muitas línguas diferentes no mundo, o conteúdo da tradição é único e idêntico para todos.

As Igrejas da Alemanha acreditam e transmitem o mesmo que as outras dos ibéricos ou dos celtas, do Oriente, do Egito ou da Líbia ou do centro do mundo. Assim como o sol, criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, também a pregação da verdade resplandece por toda parte e ilumina todos aqueles que querem chegar ao conhecimento da verdade.

Nas Igrejas, os bons oradores, entre os líderes da comunidade, pois ninguém está acima do Mestre, não dirão coisas diferentes, nem a escassa oratória de outros enfraquecerá a força da tradição, pois sendo a fé uma e a mesma, nem a amplia quem fala muito nem a diminui quem dela fala pouco.

(Excertos da obra 'Contra as Heresias', de Santo Irineu de Lyon)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

BÊNÇÃO DE SÃO BRÁS

 

'Pela intercessão de São Brás, bispo e mártir, que Deus vos livre das doenças da garganta e de todo o mal. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém'.

(Bênção de São Brás)

sábado, 31 de janeiro de 2026

MEMÓRIA DO SANTO DO DIA

 

SÃO JOÃO BOSCO, ROGAI POR NÓS!

A ARTE DE EDUCAR COM AMOR

Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando os com firmeza e suavidade.

Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou descarregar o próprio mal humor. Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu seviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.

Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.

Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada. Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios; então sereis verdadeiros pais se conseguirem uma verdadeira correção. Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a quem as ouve e não e não tem proveito algum para quem as merece.

(Das Cartas de São João Bosco)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A ALAVANCA QUE LEVANTA O MUNDO

Uma alma abrasada de amor não pode ficar inativa. Sem dúvida que, como Santa Maria Madalena, ela permanece aos pés de Jesus, e escuta a sua palavra doce e inflamada. Parecendo não dar nada, dá muito mais do que Marta, que se aflige com muitas coisas e que quereria que sua irmã a imitasse. Não são, de modo nenhum, os trabalhos de Marta que Jesus censura; a esses trabalhos se submeteu humildemente sua Mãe durante a vida, pois tinha de preparar as refeições da Sagrada Família. Era apenas a inquietação da sua ardente anfitriã que Ele queria corrigir.

Todos os santos o compreenderam, e mais particularmente talvez aqueles que encheram o universo com a iluminação da doutrina evangélica. Não foi acaso na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus beberam esta ciência divina que arrebata os maiores gênios?

Houve um sábio que disse: 'Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e levantarei o mundo'. O que Arquimedes não pôde obter, porque o seu pedido não se dirigia a Deus, e por não ser feito senão sob o ponto de vista material, obtiveram-no os santos em toda a plenitude: o Todo-Poderoso deu-lhes como ponto de apoio Ele mesmo e Ele só; e como alavanca, a oração, que abrasa com fogo de amor. E foi assim que levantaram o mundo; é assim que os santos que ainda militam na terra o levantam e que, até ao fim do mundo, os futuros santos o levantarão também.

(Excertos da obra 'Manuscrito Autobiográfico', de Santa Teresa de Lisieux)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

ANO JUBILAR FRANCISCANO 2026 - 2027


No dia 10 de janeiro de 2026, uma celebração solene foi realizada na Basílica de Santa Maria dos Anjos em Assis (Itália), para marcar o início do Ano Jubilar Franciscano - uma comemoração especial dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis (1226 - 2026). O Ano Jubilar deverá se estender até 10 de janeiro de 2027 e, durante esse período, os fiéis poderão obter indulgência plenária sob as condições habituais da Igreja - confissão sacramental, comunhão e oração pelas intenções do Papa - ao participarem das celebrações e peregrinações relacionadas ao Jubileu.

Condições para receber a Indulgência (para si próprio ou em sufrágio das almas do Purgatório)
  • Confissão sacramental para estar na graça de Deus (nos oito dias anteriores ou posteriores);
  • Participação na Missa e Comunhão Eucarística;
  • Visita em peregrinação a qualquer igreja conventual franciscana ou local de culto dedicado a São Francisco em qualquer lugar do mundo, onde se deve renovar a profissão de fé mediante a recitação do Credo, como ato de ratificação da nossa identidade cristã;
  • Recitação do Pai Nosso, como ato de ratificação da nossa dignidade de filhos de Deus, recebida no Batismo;
  • Uma oração na intenção do papa, segundo as intenções do Papa, como ato de ratificação da nossa participação da Igreja, cujo fundamento e centro visível de unidade é o Romano Pontífice.
Na observância deste privilégio, o decreto recomenda a participação devota dos fieis nos citados ritos jubilares ou que manifestem piedosas meditações, por adequado período de tempo, centradas na busca sincera de sentimentos de caridade cristã para com o próximo, a exemplo de São Francisco de Assis. Pessoas idosas ou enfermas, com impedimento da presença física numa igreja dedicada ao santo, podem também usufruir os privilégios da Indulgência Plenária, desde que se unam espiritualmente às celebrações jubilares do Ano de São Francisco, atendidas as citadas condições complementares.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

ORAÇÃO DE SÃO BOAVENTURA


Transpassai, dulcíssimo Senhor Jesus, a medula de minha alma com o suave e salutar dardo do vosso amor, com a verdadeira, pura e santíssima caridade apostólica, a fim de que a minha alma desfaleça e se desfaça sempre só com o amor e o desejo de vos possuir; que por Vós suspire, e desfaleça por achar-se nos átrios da vossa casa, ansiando separar-se do corpo para se unir a Vós. Fazei que minha alma tenha fome de Vós, Pão dos anjos, Alimento das almas santas, Pão nosso de cada dia, cheio de força, de toda a doçura e sabor, e de todo suave deleite. 

Ó Jesus, a quem os anjos desejam contemplar, tenha sempre o meu coração fome de Vós, e o interior de minha alma transborde com a doçura do vosso sabor; tenha sempre sede de Vós, fonte de vida, manancial de sabedoria e de ciência, rio de luz de luz eterna, torrente de delícias, abundância da Casa de Deus; que vos anseie, que vos procure, que vos encontre; que para Vós caminhe e a Vós alcance.

Que em Vós pense, de Vós fale, e todas as minhas ações encaminhe para a honra e glória do vosso nome, com humildade e discrição, com amor e deleite, com facilidade e afeto, com perseverança até o fim; para que só Vós sejais sempre minha esperança, meu gozo, meu descanso e minha tranquilidade, minha paz, minha suavidade, meu perfume, minha doçura, meu sustento, meu alimento, meu refúgio, meu auxílio, minha sabedoria, minha herança, minha posse e o meu tesouro, no qual estejam sempre fixos e firme e inabalavelmente arraigados a minha alma e o meu coração. Amém.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

DEZ VIRTUDES EM UM ÚNICO ATO DE MORTIFICAÇÃO

Em um ato de mortificação, pode-se praticar muitas virtudes, de acordo com os diferentes fins que se propõem em cada ato como, por exemplo:

1. Aquele que mortifica o seu corpo com o propósito de controlar a concupiscência realiza um ato da virtude da temperança.

2. Se ele faz isso com o propósito de regular bem a sua vida, será um ato da virtude da prudência.

3. Se ele se mortifica com o objetivo de satisfazer os pecados cometidos de sua vida passada, será um ato da virtude de justiça.

4. Se ele o faz com a intenção de vencer as dificuldades da vida espiritual, será um ato da virtude de fortaleza.

5. Se ele praticar essa virtude da mortificação com o fim de oferecer um sacrifício a Deus, privando-se do que gosta e fazendo o que é amargo e repugnante à natureza, será um ato da virtude da religião.

6. Se ele pretende, pela mortificação, receber maior luz para conhecer os atributos divinos, será um ato da virtude de .

7. Se ele o fizer com o propósito de tornar sua salvação cada vez mais segura, será um ato da virtude de esperança.

8. Se ele se negar a si mesmo para ajudar na conversão dos pecadores e para a libertação das almas do Purgatório, será um ato da virtude de caridade para com o próximo.

9. Se ele fizer isso para ajudar os pobres, será um ato da virtude de misericórdia.

10. Se ele se mortificar para agradar mais a Deus, será um ato da virtude de amor a Deus.

Em outras palavras, pode-se colocar todas essas virtudes em prática mediante um único ato de mortificação, de acordo com o fim que se propõe ao se realizar o referido ato.

(Excertos da Autobiografia de Santo Antônio Maria Claret)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA E CONFISSÃO

Nosso Salvador legou à sua Igreja o Sacramento da Penitência e da Confissão [Mt 16,19; Mt 18,18; Jo 20,23], para que nele possamos ser purificados de todos os nossos pecados, independentemente de como e quando os tenhamos cometido. Portanto, meu filho, nunca permita que seu coração fique sobrecarregado pelo pecado, visto que existe um remédio tão seguro e eficaz à sua disposição. Assim, uma alma que, mesmo que minimamente, tenha consentido com o pecado, deve abominar-se a si mesma e apressar-se em buscar a purificação, por respeito à Divina Providência que sempre a contempla. Por que deveríamos morrer uma morte espiritual quando existe um remédio tão eficaz para nos curar?

Faça sua confissão com humildade e devoção todas as semanas e, sempre que possível, antes de comungar, mesmo que a sua consciência não o acuse de algum pecado mortal; pois, na confissão, você não só recebe a absolvição por seus pecados veniais, mas também recebe grande força para ajudá-lo a evitá-los no futuro, luz mais clara para desvelar as faltas cometidas e graças abundantes para compensar quaisquer perdas que possam ter causado. As virtudes da humildade, obediência, simplicidade e amor são inerentes à confissão e, assim, por um único ato de confissão, se pratica mais virtudes do que em qualquer outro ato religioso.

Certifique-se sempre de ter um sincero arrependimento pelos pecados que você confessa, por menores que sejam; assim como uma firme resolução de corrigi-los no futuro. Algumas pessoas continuam confessando pecados veniais por mero hábito e convencionalmente, sem fazer qualquer esforço para corrigi-los e, por isso, não se livram deles e se privam de muitas graças necessárias para o seu progresso espiritual. Suponha que você confesse ter dito algo falso, embora sem consequências graves, ou algumas palavras descuidadas, ou diversão excessiva; arrependa-se e tome uma firme resolução de emenda: é um mero abuso confessar qualquer pecado, seja mortal ou venial, sem a intenção de abandoná-lo completamente, sendo esse o objetivo expresso da confissão.

Cuidado com as autoacusações sem sentido, feitas por mera rotina, tais como: 'Não amei a Deus tanto quanto deveria; não rezei com tanta devoção quanto deveria; não amei o meu próximo como deveria; não recebi os sacramentos com reverência suficiente' e coisas semelhantes. Coisas como essas são totalmente inúteis para apresentar o estado da sua consciência ao seu confessor, na medida em que todos os santos no Paraíso e todos os homens vivos diriam o mesmo. Mas examine atentamente que razão especial você tem para se acusar assim e, quando a descobrir, acuse-se simples e claramente da sua falta. Por exemplo, ao confessar que não amou o seu próximo como deveria, pode ser que o que você queira dizer é que, tendo visto alguém em grande necessidade a quem poderia ter socorrido, você não o fez. Bem, então, acuse-se dessa omissão especial e simplesmente diga: 'Tendo encontrado uma pessoa necessitada, não a ajudei como poderia ter feito', seja por negligência, dureza ou indiferença, conforme o caso. Da mesma forma, não se acuse de não ter rezado a Deus com devoção suficiente; mas se você se deixou levar por distrações voluntárias, ou se negligenciou as circunstâncias adequadas para uma oração devota - seja o lugar, o momento ou a atitude - diga isso claramente, tal como é, e não trate de generalidades que, por assim dizer, não aquecem e nem esfriam.

Mais uma vez, não se contente em mencionar apenas o fato de seus pecados veniais, mas acuse-se da causa motriz que os levou a cometê-los. Por exemplo, não se contente em dizer que você disse uma inverdade que não prejudicou ninguém; mas diga se foi por vaidade, para ganhar elogios ou evitar críticas, por descuido ou por obstinação. Diga se você continuou por muito tempo a cometer a falta em questão, pois a importância de uma falta depende muito de sua continuidade: por exemplo, há uma grande diferença entre um ato passageiro de vaidade que termina em um quarto de hora e outro que ocupa o coração por um ou mais dias. Portanto, você deve mencionar o fato, o motivo e a duração de suas faltas. É verdade que não somos obrigados a ser tão precisos ao confessar pecados veniais, ou mesmo, tecnicamente falando, a confessá-los; mas todos aqueles que desejam purificar suas almas para alcançar uma vida realmente devota terão o cuidado de mostrar todas as suas doenças espirituais, por mais leves que sejam, ao seu médico espiritual, a fim de serem curados.

Não se poupe em contar tudo o que for necessário para explicar a natureza da sua falta, como, por exemplo, a razão pela qual você perdeu a paciência ou por que encorajou outra pessoa a cometer uma falta. Assim, alguém de quem eu não gosto diz uma palavra por acaso, em tom de brincadeira, eu levo a mal e fico furioso. Se alguém de quem eu gosto tivesse dito algo mais forte, eu não teria levado a mal; portanto, na confissão, devo dizer que perdi a paciência com uma pessoa, não tanto por causa das palavras ditas, mas porque não gosto de quem as disse; e se, para se explicar claramente, for necessário especificar as palavras, é bom fazê-lo; porque, ao acusar-se assim, descobre-se não apenas os pecados reais, mas também os maus hábitos, inclinações e sentimentos, e as outras raízes do pecado, por meio das quais o pai espiritual adquire um conhecimento mais completo do coração com que está lidando e sabe melhor quais remédios aplicar. Mas, evite sempre, na medida do possível, mencionar ou expor qualquer pessoa que tenha participado de seu pecado. Fique atento a uma variedade de pecados, que tendem a surgir e florescer, muitas vezes de forma imperceptível, na consciência, para que você possa realmente confessá-los e eliminá-los de vez [cujas particularidades são discutidas em outras partes do texto].

(Excertos da obra 'Introdução à Vida Devota', de São Francisco de Sales)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

'É A VOSSA FACE QUE EU PROCURO!'

Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele.

Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procurá-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e dize a Deus: 'Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro' (Sl 26,8). E agora, Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar.

Senhor, se não estais aqui, se estais ausente, onde vos procurarei? E se estais em toda parte, por que não vos encontro presente? É certo que habitais numa luz inacessível, mas onde está essa luz inacessível e como chegarei a ela? Quem me conduzirá e nela me introduzirá, para que nela eu vos veja? E depois, com que sinais e sob que aspecto vos devo procurar? Nunca vos vi, Senhor meu Deus, não conheço a vossa face.

Que pode fazer, altíssimo Senhor, que pode fazer este exilado longe de vós? Que pode fazer este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Aspira ver-vos, mas vossa face se esconde inteiramente dele. Deseja aproximar-se de vós, mas vossa morada é inacessível. Aspira encontrar-vos, mas não sabe onde estais. Tenta procurar-vos, mas desconhece a vossa face.

Senhor, vós sois o meu Deus, o meu Senhor, e nunca vos vi. Vós me criastes e redimistes, destes-me todos os meus bens e ainda não vos conheço. Fui criado para vos ver e ainda não fiz aquilo para que fui criado.

E vós, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, nos esquecereis, até quando nos ocultareis a vossa face? Quando nos olhareis e nos ouvireis? Quando iluminareis os nossos olhos, e nos mostrareis a vossa face? Quando voltareis a nós?

Olhai-nos, Senhor, ouvi-nos, mostrai-vos a nós. Dai-nos novamente a vossa presença para sermos felizes, pois sem vós somos tão infelizes! Tende piedade dos rudes esforços que fazemos para alcançar-vos, nós que nada podemos sem vós.

Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro; pois não posso procurar-vos se não me ensinais nem encontrar-vos se não vos mostrais. Que desejando eu vos procure, procurando vos deseje, amando vos encontre, e encontrando vos ame.

(Excertos da obra 'Proslógion', de Santo Anselmo)

sábado, 20 de dezembro de 2025

ORAÇÃO: QUID CORDE MATRIS VIRGINIS

Quid Corde Matris Virginis é o verso inicial de um hino latino escrito por São João Eudes, incluído nos diversos ofícios litúrgicos dedicados por ele aos Sagrados Corações de Jesus e Maria. São João Eudes publicou uma extensa bibliografia sobre a união inseparável dos Corações de Jesus e Maria em suas Obras Completas, destacando-se aqui a obra chamada 'O Admirável Coração de Maria', que inclui o presente hino litúrgico.

Quid Corde Matris Virginis
Cani Potest sacratius?
Cordi supremi Numinis
Quid Corde tanto gratius?

Amoris est miraculum,
Triumphus almi Spiritus,
Dignum Dei spectaculum,
Iucunda spes mortalibus.

Levamen est lugentibus, 
Zelator ardens mentium,
Cunctis datum fidelibus,
Cor, vita, lux, oraculum.

O qualis heac benignitas!
Nostrum sibi cor abstulit 
Matris Patrisque caritas,
Suumque nobis contulit. 

Vos sacra proles pectoris 
Sic vos amantum, noscite 
Tantae decus propaginis, 
Et corda cordi tradite. 

Res mira! Mortis spurios
Dant Cordis esse filios: 
Tantos favores pendite, 
Vices amoris reddite. 

Cordis Patris mirabilem 
In corde vitam pingite, 
Cordisque Matris nobilem 
In mente formam sculpite. 

O Cor, Dei triclinium, 
o exili solatium, 
Immensa sunt magnalia
Immensa sunt praeconia

O sacrosancta Trinitas, 
Aeterna vita cordium, 
Cordis Mariae sanctitas, 
In corde regnes omnium. 

Jesu, tibi sit gloria
Qui in Virginis Corde regnas, 
cum Patri et Almo Spiritu, 
In sempiterna saecula. Amen.


O que pode existir mais santo
do que o Coração da Virgem Mãe,
mais digno de nosso louvor
e mais agradável ao Coração do Altíssimo?

É o milagre do amor,
o triunfo do Espírito Santo,
a visão agradável a Deus,
a alegre esperança do homem mortal.

O conforto dos aflitos,
o zelo ardente das almas,
dado a todos os fieis cristãos,
como coração e vida, luz e oráculo.

Ó que bênção sem fim é esta!
O amor de Maria, Virgem Mãe,
remove o nosso coração mortal
e nos dá em troca o seu coração.

Ó todos vós, sagrados filhos deste Coração,
reconhecei-vos, assim tão amados,
e na graça de tão desditosa herança
entregai os vossos corações a este Coração.

Coisa admirável! Os filhos da morte
tornam-se os filhos deste Coração
que, acolhidos por tantos favores,
possam retribuir a medida deste amor.

A vida admirável do Coração do Pai
tomai toda em vossos corações
e gravai em suas mentes
a imagem viva do Coração da Mãe.

Ó Coração, repouso de Deus
ó consolo do nosso exílio,
imensas são as vossas maravilhas,  
imenso deve ser o nosso louvor!

Ó três vezes Trindade santa,
vida Eterna dos corações,
concedei que a santidade do Coração de Maria
reine para sempre em todos os corações. 

A Vós, ó Jesus, toda a glória, 
Vós que reinais no Coração da Virgem Maria,
com o Pai e o Espírito Santo, 
agora e por toda a eternidade. Amém.

(Excertos de Ouevres Complètes, São João Eudes, tradução do autor do blog)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

ORAÇÃO: ANTRA DESERTI TENERIS

Antra Deserti Teneris - Dos tumultos humanos fugiste é a segunda parte do Hino de Louvor a São João Batista que compreende ainda outras duas partes: a primeira parte Ut Queant Laxis e a terceira parte O Nimes Felix, composição do século VIII atribuída ao beneditino Paulo, o Diácono, da Abadia de Montecassino (Itália). No rito romano,  o hino é cantado no Ofício Divino em 24 de junho, Festa da Natividade de São João Batista (partes I, II e III cantadas, respectivamente, nas Vésperas, Matinas e Laudes da Liturgia das Horas). A tradução apresentada do hino não é literal, mas constitui a versão oficialmente adotada no Brasil.


Antra deserti teneris sub annis,
civium turmas fugiens, petisti,
ne levi saltem maculare vitam
famine posses.

Praebuit hirtum tegimen camelus
atubus sacris, strophium bidentes,
cui latex haustum, sociata pastum
mella locustis.

Ceteri tantum cecinere vatum
corde praesago iubar affuturum;
tu quidem mundi scelus auferentem
indice prodis.

Non fuit vasti spatium per orbis
sanctior quisquam genitus Ioanne,
qui nefas saecli meruit lavantem
tingere lymphis.

Sit decus Patri genitaeque Proli
 et tibi, compar utriusque virtus
 Spiritus semper, Deus unus, omni 
temporis aevo. Amen.


Dos tumultos humanos fugiste,
no deserto te foste esconder,
para a vida guardar reservada
da ganância da posse e do ter.

O camelo te deu roupa austera,
das ovelhas com lã te cingiste;
e com leite, bebida modesta,
gafanhotos e mel te nutriste.

Os profetas cantaram apenas
o profeta futuro, o Esperado;
tu, porém, vais à frente, mostrando
quem do mundo apaga o pecado.

Entre os homens nascidos na terra,
não se encontra um mais santo que João.
O que lava o pecado do mundo
ele, em água, o lavou no Jordão.

Seja dada glória ao Pai
e ao Filho por Ele gerado,
e a vós, Espírito, que dos dois procedeis, único Deus,
por todos os séculos eternos. Amém.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (X)

Dentre os ícones marianos, no âmbito da tradição bizantina, destacam-se aqueles que representam suas grandes festas: a Natividade da Mãe de Deus (8 de setembro), sua Apresentação no Templo (21 de novembro), a Anunciação (25 de março) e a Dormição da Theotokos (15 de agosto). Maria também é comumente representada nos ícones das duas festas que ela compartilha diretamente com seu Filho: a Natividade de Cristo (25 de dezembro) e a Apresentação do Senhor no Templo (2 de fevereiro).


A Koimesis (ou Kemesis) é o ícone da Dormição, ou seja, do adormecer de Maria. O ícone representa Maria deitada num leito coberto com o mesmo tecido vermelho do presépio, rodeada pelos apóstolos. Logo atrás dela, Cristo segura uma criança vestida de branco, simbolizando a alma de Maria.

Na representação abaixo, podemos explicitar melhor a riqueza dos simbolismos. O ícone, com tons dourados predominantes, mostra Maria em seu leito de morte, rodeada por uma grande gama de personagens, que incluem anjos e santos, líderes da Igreja, bispos, evangelistas, amigos e vizinhos (simbolizados pelas mulheres na janelas) e os apóstolos que chegam em nuvens (símbolo das longas viagens das missões apostólicas) circundando a Nova Sião. Aos pés da Virgem, o discípulo amado inclina-se em direção a ela, num simbolismo bíblico com a frase de Jesus ao discípulo amado na Cruz: 'Eis aí tua Mãe' (Jo, 19,27). São Pedro, à direita, faz a incensação do corpo, com São Paulo na cabeceira do leito. As velas acesas em torno do leito representam a manifestação da luz divina em um mundo de trevas.


O ícone é uma imagem de eventos distintos, embora mostrados num mesmo plano, de forma sequencial. A criança vestida de branco nos braços de Jesus simboliza a alma de Maria sendo levada ao Céu. Na parte superior da imagem, é o próprio corpo físico de Maria, levado pelos anjos, que é conduzido em direção às portas abertas do Reino Celeste, encimado pelo Anjo apocalíptico de seis asas. Um elemento icônico bastante singular está representado duas vezes na parte central da figura: são as chamadas mandorlas, estruturas amendoadas que circundam figuras sagradas. A maior abrange o reino celestial (tomada pelos anjos) e a menor constitui a aura que envolve Jesus Cristo.

sábado, 22 de novembro de 2025

SÃO JOÃO BOSCO E O RAMALHETE DE VIRTUDES

Na noite em que estive em Lanzo, chegada a hora de repousar, aconteceu-me que tive o seguinte sonho. É um sonho que não tem nenhuma relação com outros sonhos...

[No sonho, São João Bosco deparou-se, em um lugar esplêndido e de suma beleza, diante de uma imensa multidão de jovens, muitos conhecidos deles dos tempos do Oratório, que caminhava em sua direção, tendo à frente São Domingos Sávio, travando-se então um intenso diálogo entre eles, parcialmente transcrito abaixo].

Sávio me apresentou um magnífico ramalhete que tinha nas mãos. Nele havia rosas, violetas, girassóis, gencianas, lírios, sempre-vivas e, entre as flores, espigas de trigo. Oferecendo-as me disse:
➖ Observa!
➖ Vejo, mas nada entendo - respondi.
➖ Dá este ramalhete a teus filhos para que possam oferecê-lo ao Senhor quando chegar o momento; procura que todos o tenham; a ninguém lhe falte nem o deixe tirar. Podes estar certo de que com ele terão o suficiente para ser felizes.
➖ Mas, que significa esse ramalhete de flores?
➖ Consulta a Teologia; ela te dirá e te dará a explicação.
➖ A Teologia, estudei-a eu, mas não saberia como tirar dela o significado do que me apresentas.
➖ Pois tens estrita obrigação de saber tudo isso.
➖ Vamos, tira-me da minha ansiedade, explica-me tu!
➖ Vês estas flores? Representam as virtudes que mais agradam ao Senhor.
➖ Quais são?
➖A rosa é símbolo da caridade; a violeta, da humildade; o girassol, da obediência; a genciana, da penitência e da mortificação; as espigas, da comunhão freqüente; o lírio indica a bela virtude da qual está escrito: Erunt sicut Angeli Dei in caelo, a castidade. E a sempre-viva significa que todas essas virtudes devem durar sempre, ela simboliza a perseverança.

➖ Ora bem, meu caro Sávio: tu, que durante toda a tua vida praticaste todas essas virtudes, diz-me: o que foi que mais te consolou na hora da morte?
➖ Que te parece que possa ser? - respondeu Sávio.
➖ Foi talvez ter conservado a bela virtude da pureza?
➖ Não; não é só isso.
➖ Alegrou-te talvez teres a consciência tranquila?
➖ Isso é bom, porém não é o melhor.
➖ Por acaso teu consolo terá sido a esperança do Paraíso?
➖ Também não.
➖ Pois então! O haver entesourado muitas boas obras?
➖ Não, não!
➖ Então, qual foi teu consolo na última hora? - perguntei, entre confuso e suplicante, vendo que não conseguia adivinhar seu pensamento.
➖ O que mais me confortou no transe da morte foi a assistência da poderosa e amável Mãe do Salvador. Diz isto a teus filhos: que não se esqueçam de invocá-la emquanto estão em vida. 

Estendi então com ardor as mãos para segurar aquele santo filho; mas suas mãos pareciam aéreas e nada pude tocar.
➖ Que loucura! Que estás fazendo? - me disse Sávio sorrindo.
➖ Temo que te vás - exclamei. Mas, não estás aqui com teu corpo?
➖  Com o corpo, não. Recuperá-lo-ei no último dia.
➖ Mas, que são, então, esses traços que me fazem ver em ti a figura de Domingos Sávio?
➖Quando, por permissão divina, uma alma separada do corpo aparece diante de algum mortal, apresenta-se com a forma exterior do corpo que em vida animou, com todas as suas feições exteriores, embora muito embelezadas, e assim as conserva até que volte a unir-se a ele, no dia do Juízo Universal. Então o levará consigo para o Paraíso. É por isso que te parece que tenho mãos, pés e cabeça; mas tu não podes segurar-me porque sou puro espírito. Esta é só uma forma exterior pela qual me podes conhecer.

➖Compreendo - respondi - mas escuta. Ainda uma pergunta? Meus jovens estão todos no reto caminho da salvação? Diz-me alguma coisa para que possa bem dirigi-los.
➖ Os filhos que a Divina Providência te confiou podem ser divididos em três categorias. Vês estas três listas? Olha-as!

E me estendeu a primeira.

Olhei a primeira; encabeçava-a a palavra invuinerati [ilesos], que continha o nome daqueles aos quais o demônio não pôde ferir, e que não mancharam a inocência com culpa alguma. Eram em grande número e os vi todos. A muitos já conhecia, outros era a primeira vez que via, e certamente virão ao Oratório nos anos futuros. Caminhavam direitos por um caminho estreito, apesar de serem alvo de flechas, espadas e lanças que por todos os lados choviam sobre eles. Essas armas formavam como que uma sebe ao longo das duas bordas do caminho, e os combatiam e molestavam sem entretanto feri-los.

Então Sávio me deu a segunda lista, cujo título era vulnerati [feridos], ou seja, os que haviam estado na desgraça de Deus mas, uma vez postos em pé, haviam curado suas feridas arrependendo-se e confessando-se. Eram em maior número que os primeiros, e haviam sido feridos no sendeiro da vida pelos inimigos que os flanqueavam durante sua viagem. Li a lista e vi todos. Muitos iam curvados e desanimados.

Sávio tinha ainda na mão a terceira lista. Encabeçava-a a epígrafe: Lassati in via iniquitatis [caídos na via da iniquidade]. Nela estavam escritos os nomes dos que estavam na desgraça de Deus. Eu estava impaciente para conhecer o segredo, pelo que estendi a mão. Mas Sávio me disse com vivacidade:

➖ Não, espera um momento e ouve. Se abrires essa folha, dela sairá um tal mau cheiro que nem tu nem eu poderemos suportar. Os Anjos têm que se retirar com asco e horror, e o próprio Espírito Santo sente repugnância pela horrível hediondez do pecado.
➖ Mas como pode ser isso - observei - se Deus e os Anjos são impassíveis? Como podem sentir o mau cheiro da matéria?
➖ Quanto melhores e mais puras são as criaturas, tanto mais se acercam aos espíritos celestiais; pelo contrário, quanto pior, mais desonesto e torpe é alguém, tanto mais se afasta de Deus e dos Anjos, os quais, por sua vez, se afastam dele, que se converteu num objeto de náusea e repugnância.

Passou-me então a terceira lista.

Toma-a - disse - abre-a e aproveita-te dela para o bem de teus jovens; mas não te esqueças do ramalhete que te dei; que todos o tenham e conservem. Isto dito, e depois de entregar-me a lista, retirou-se apressadamente, em meio de seus companheiros, quase como se estivesse fugindo de algo.

Abri então a lista; não vi nenhum nome, mas no mesmo instante me foram apresentados de chofre todos os indivíduos nela escritos, como se na realidade eu visse suas pessoas. Com quanta tristeza os contemplei a todos! A maior parte eu conhecia e pertencem ao Oratório e aos outros colégios. Vi muitos que parecem bons, que parecem até os melhores dentre os companheiros, e sem embargo não o são!

Mas, no ato de abrir a folha, espalhou-se em redor um mau cheiro tão insuportável, que imediatamente me vi assaltado por terrível dor de cabeça e por tais ânsias de vômito que me parecia estar morrendo. Obscureceu-se entretanto o ar, e nisso desapareceu a visão, nada mais eu vendo do maravilhoso espetáculo. Ao mesmo tempo ziguezagueou um raio e ressoou um trovão no espaço, tão forte e terrível que acordei sobressaltado.

(Dos Sonhos de Dom Bosco)

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

SOBRE A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA

A fortaleza da qual tenho te falado é a Santa Igreja, que construí com meu próprio sangue e o dos santos. Eu mesmo a cimentei com minha caridade e depois coloquei nela meus eleitos e amigos. Seu fundamento é a fé, ou seja, a crença em que sou um Juiz justo e misericordioso. Este fundamento tem sido agora deturpado porque todos creem e pregam que sou misericordioso, mas quase ninguém crê que Eu seja um Juiz justo. Consideram-me um juiz iníquo. 

De fato, um juiz seria iníquo se, à margem da misericórdia, deixasse os maus sem castigo de forma que pudessem continuar oprimindo os justos Eu, porém sou um Juiz justo e misericordioso e não deixarei que o mínimo pecado fique sem castigo nem que o menor bem fique sem recompensa. Pelos buracos perfurados no muro, entram na Santa Igreja pessoas que pecam sem medo, que negam que Eu seja justo e atormentam meus amigos como se os cravassem em estacas. 

A estes meus amigos não se dá alegria nem consolo. Pelo contrário, são castigados e injuriados como se fossem demônios. Quando dizem a verdade sobre mim, são silenciados e acusados de mentir. Eles anseiam com paixão ouvir ou falar a verdade, mas não há ninguém que os escute nem quem lhes diga a verdade. Além disso, Eu, Deus Criador, estou sendo blasfemado. As pessoas dizem: 'Não sabemos se Deus existe. E, se existe, não nos importa'. Jogam no chão minha doutrina e a pisoteiam dizendo: 'Por que sofreu? Em que nos beneficia? Se cumpre nossos desejos estaremos satisfeitos, que mantenha Ele o seu reino no Céu!'

Quando quero achegar deles, dizem: 'Antes morrermos que submetermos a Vós a nossa vontade!' Dá-te conta, esposa minha, que tipo é essa gente? Eu os criei e posso destruí-los com uma palavra! Que soberbos são para comigo! Graças aos rogos de minha Mãe e de todos os santos, permaneço misericordioso e tão paciente que estou desejando enviar-lhes palavras da minha boca e oferecer-lhes misericórdia. Se a quiserem aceitar, terei compaixão Do contrário, conhecerão minha justiça e, como ladrões, serão publicamente envergonhados diante dos anjos e dos homens e condenados por cada um deles. 

Como os criminosos são colocados nas forcas e devorados pelos corvos, assim eles serão devorados pelos demônios, mas não serão consumidos. Como as pessoas amarradas em cepos não podem descansar, eles padecerão dor e amargura em todas as partes. Um rio de fogo entrará por suas bocas, mas seus estômagos não serão saciados e sua sede e suplício se reavivarão a cada dia. Porém, meus amigos estarão a salvo, e serão consolados pelas palavras que saem de minha boca. Eles verão minha justiça junto de minha misericórdia. Revesti-los-ei com as armas do meu amor, que os tornarão tão fortes que os adversários da fé se desmancharão diante deles como barro; quando virem minha justiça, cairão em vergonha perpétua por haverem abusado de minha paciência.

(Excertos da obra 'As Profecias e Revelações de Santa Brígida da Suécia')

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

ORAÇÃO À MÃE DE MISERICÓRDIA


Ó Maria, advogada dos pecadores, intercedei em meu favor. Lembrai-vos de que é para a nossa felicidade também, e não só para a vossa, que recebestes o grande poder e dignidade de que sois revestida. Se um Deus se dignou de fazer-se o vosso devedor pela natureza humana que de vós assumiu, é para que possais dispender ao vosso grado os tesouros da divina misericórdia. 

Vossos servos somos, dedicados de maneira especial ao vosso serviço, e nos gloriamos de viver sob a vossa proteção. Se fazeis bem a todos os homens, ainda aos que não vos conhecem ou se descuidam de honrar-vos, assim como aos que vos ultrajam e blasfemam, que não devemos esperar de tão grande bondade que busca os desgraçados para os socorrer, nós que vos honramos, amamos e em vós pomos toda a nossa confiança?

Grandes pecadores somos, mas Deus vos deu uma misericórdia e poder que ultrapassam as nossas iniquidades. Vós tendes o poder e a vontade de nos salvar, e nós tanto mais queremos esperar a nossa salvação, quanto mais indignos dela somos, para mais vos glorificar no céu, quando lá entrarmos pela vossa intercessão. 

Ó Mãe de misericórdia, nós vos apresentamos as nossas almas, que o sangue de Jesus Cristo havia outrora lavado e moldado de graça, mas que o pecado depois horrivelmente manchou; a vós pertence purificá-las. Alcançai-nos uma conversão sincera, o amor de Deus, a perseverança, o Paraíso. Grandes graças vos pedimos; mas não podeis obter tudo? Seria muito para o amor que Deus vos tem? Bastante vos é pedir ao vosso Filho: Ele não vos recusa coisa alguma. Rogai então, ó Maria, rogai por nós: e sereis atendida e nós infalivelmente salvos.

(As Mais Belas Orações de Santo Afonso de Ligório, do Pe. Saint-Omer)

terça-feira, 11 de novembro de 2025

'MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO...'

Que a Fé dos nossos Pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independentemente de números; e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, apenas três como eles eram!

Então, animem-se! sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra. 

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme sua esperança em Jesus Cristo.

(São Basílio de Cesaréia)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A ETERNIDADE DE DEUS


'O que é o tempo de Deus?' Aqueles que isto perguntam ainda não te compreendem, ó sabedoria de Deus (Ef 3,10), ó luz das mentes - ainda não compreendem como são feitas as coisas que por meio de ti e em ti são feitas, e esforçam-se por saborear as realidades eternas, mas o seu coração esvoaça ainda nos movimentos passados e futuros das coisas, continuando vazio (Sl 5,10). 

Quem poderá deter o tempo e fixá-lo, a fim de que ele pare e por um momento capte o esplendor da eternidade sempre fixa, e a compare com os tempos nunca fixos, e veja que a eternidade é incomparável, e veja que um longo tempo não é longo senão a partir de muitos momentos que passam e não podem alongar-se simultaneamente; veja, pelo contrário, que, no que é eterno, nada é passado, mas tudo é presente, enquanto nenhum tempo é todo ele presente: e veja que todo o passado é obrigado a recuar a partir do futuro, e que todo o futuro se segue a partir de um passado, e que todo o passado e futuro são criados e derivam daquilo que é sempre presente? Quem poderá deter o coração do homem, a ponto de ele parar e ver como a eternidade, que é fixa, nem futura nem passada, determina os tempos futuros e passados? Será que, porventura, a minha mão consegue (Gn 31,29) isto, ou que a minha boca, que se manifesta falando, realiza tão grande intento?

E tu não precedes os tempos com o tempo: se assim fosse, não precederias todos os tempos. Mas precedes todos os passados com a grandeza da tua eternidade sempre presente, e superas todos os futuros porque eles são futuros, e quando eles chegarem, serão passado; tu, porém, és o mesmo e os teus anos não têm fim (Sl 101,28; Hb 1,12). Os teus anos não vão nem vêm: os nossos vão e vêm, para que todos venham. Os teus anos existem todos ao mesmo tempo, porque não passam, e os que vão não são excluídos pelos que vêm, porque não passam: enquanto os nossos só existirão todos, quando todos não existirem. 

Os teus anos são um só dia (Sl 89,4; 2Pe 3,8) e o teu dia não é todos os dias, mas um ‘hoje’, porque o teu dia de hoje não antecede o de amanhã; pois não sucede ao de ontem. O teu hoje é a eternidade: por isso, geraste co-eterno contigo aquele a quem disseste: 'Eu hoje te gerei' (Sl 2,7; At 13,33; Hb 1,5; 5,5). Tu fizeste todos os tempos e tu és antes de todos os tempos, e não houve tempo algum em que não havia tempo.

(Do Livro das Confissões, de Santo Agostinho)