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domingo, 18 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

      

'Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!' (Sl 95)

Primeira Leitura (Is 45,1.4-6) - Segunda Leitura (1Ts 1,1-5b) - Evangelho (Mt 22,15-21)

  18/10/2026 - VIGÉSIMO NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 'DAI A DEUS O QUE É DE DEUS'


Os fariseus encontravam-se plasmados em fúria; Jesus lhes dera a conhecer a dureza dos seus corações por meio de diversas parábolas. Tramavam a morte do Senhor, mas não a ousavam praticar de pronto temendo a perda de controle da situação e a insubmissão do povo. Era preciso criar subterfúgios, angariar apoio com encenações hipócritas, mentir e difamar, submeter Jesus a ciladas constrangedoras. Era preciso fazer a perfídia humana assumir a dimensão diabólica de um deicídio.

As velhas serpentes mandam alguns dos seus próprios discípulos e outros tantos coligados a Herodes para, com uma questão aparentemente proposta na forma de um dilema de consequências desastrosas, imporem a Jesus uma prova definitiva de condenação pública e explícita. Depois das adulações fraudulentas - 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus...' (Mt 22,16), questionam Jesus se seria lícito ou não pagar o tributo imposto pelo governo romano. Em caso de uma resposta afirmativa, seria um declarado manifesto de submissão ao domínio de Roma; em caso negativo, Jesus seria o potencial mentor de uma sublevação.

Percebendo a malícia diabólica daqueles homens, Jesus os revela publicamente como hipócritas e, tomando nas mãos uma moeda cunhada com a efígie do imperador romano e, em resposta à declaração pública de que a figura e a inscrição presentes na mesma referem-se a César, responde: 'Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' (Mt 22,21). Em outros termos, Jesus declara à turba ensandecida dos fariseus: as obras humanas são necessárias, boas em si e devem ser feitas de acordo e ajustadas às circunstâncias e valores do mundo; as obras humanas inseridas na vida plena com Deus, entretanto, tornam-se instrumentos de graças e de salvação eterna.

Na moeda romana, convergem a figura de um homem e o valor de uma dada atividade humana. No espelho da alma, reflete-se em nós a própria imagem de Deus. Possuir e conviver com as coisas do mundo e delas se ocupar no cotidiano de nossas vidas, é vida que segue, é o suor do trabalho de nossa herança adâmica. Buscar as coisas do Alto, e projetar todas as nossas ações e pensamentos para a suprema glória divina, é o triunfo de nossa herança como filhos de Deus. No mundo ou passando pelo mundo, o livre arbítrio nos conduz a vivermos para César ou para Deus.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (IV)

4. A PARÁBOLA DO BANQUETE REAL

Um rei chamou os convidados para a festa de casamento do seu filho. Muitos não foram. No banquete, um homem aceitou o convite, mas não trajava a veste adequada, e foi expulso da festa com todo rigor [Mt 22,11-14].

[11] Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa
[12] e perguntou-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu. 
[13] Então o rei disse aos que serviam: 'Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes'. 
[14] Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos'.


Na parábola do banquete de núpcias, o rei representa Deus; o banquete, a participação no seu Reino; e o traje de festa, a disposição interior correspondente ao convite recebido: conversão, fé viva e caridade. Impacta particularmente neste trecho bíblico a severidade da cena: um homem que aceitou o convite para participar do banquete é expulso dele com todo rigor e com condenação expressa pelo próprio rei.

O convite feito pressupõe necessariamente a conversão: o pecador é convidado a entrar no Reino de Deus, mas também a merecer tal privilégio, mediante a sua transformação interior pela graça divina. Muitos simplesmente recusam explicitamente a via da salvação, usufruindo desgraçadamente do livre arbítrio a eles confiado. Muitos aqui são a imensa maioria dos homens. Muitos de muitos também a perderão, por participarem do banquete real sem o traje de festa adequado. Correspondem àquela legião dos homens de almas tíbias e vacilantes, que não traduzem a fé que porventura manifestam em obras e nem as graças recebidas em conversão. 

O exército das almas tíbias e vacilantes deste mundo é personificado no homem que adentra ao banquete real sem a veste adequada [11]. O rei se acerca dele e o chama por 'amigo' [12], não como um traço de intimidade, mas como uma repreensão solene a alguém que estava ali como convidado, uma vez que aceitara previamente o chamado de Deus. Mas não basta ser chamado; impõe-se chamar-se, ou seja, investir alma e coração ao chamado divino. Há uma clara divisão entre o chamado e o juízo divinos, expressos pelas duas realidades distintas entre a 'sala cheia de convidados bons e maus' e 'a entrada do rei para ver os convidados'.  

O silêncio do homem [12] ratifica o seu traje inadequado (uma vez desprovido interiormente da graça apenas exterior e aparente) e sela o seu destino final da sua expulsão do banquete e exclusão definitiva da comunhão com Deus, tal como os convidados que recusaram o convite. O 'choro e ranger de dentes' [13] expressa a dor e o sofrimento dessa perda e severidade da cena ressalta a responsabilidade de cada homem diante o convite divino. 

As palavras finais do rei são particularmente duras e reverberam pelos tempos aos homens de todos os tempos: 'Muitos são chamados, e poucos são escolhidos' [14]. O convite a ingressar no banquete real é um dom da infinita misericórdia de Deus; revestir-se da graça divina é a contrapartida para poder merecer ficar no banquete na santa presença de Deus. E estes serão muitos e serão poucos. Pois embora os bons sejam numerosos em si mesmos, são poucos em comparação com os maus, assim como o trigo em comparação com a palha (Santo Agostinho).

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXX/Final)

PARTE IV - O CÉU

IV. Sobre o número dos que se salvam

Nos três capítulos anteriores, tivemos a agradável tarefa de mostrar quão belo é o paraíso celestial e quão grande é a felicidade de que desfrutam os redimidos. Sem dúvida, no coração de cada um de nossos leitores surgiu um fervoroso desejo de ser admitido nos domínios da luz eterna e de participar de suas alegrias. Talvez cada um se sinta seguro de que suas esperanças a esse respeito serão realizadas.

É, contudo, muito de temer que muitos não alcancem a meta e sejam para sempre excluídos do Reino dos Céus, como este capítulo pretende demonstrar. Permiti-me, porém, suplicar a todos os que o lerem que não deixem que estas palavras os desanimem e os tornem pusilânimes, mas que, pelo contrário, elas aumentem neles o espírito de humildade e de temor salutar, estimulando-os a maior empenho e diligência na obra de sua salvação, caso esta lhes pareça menos fácil do que estavam inclinados a imaginar. Meu único motivo ao escrever este capítulo é abrir os olhos do leitor e mostrar-lhe o perigo em que se encontra. Pois, se eu não o fizesse, ele poderia continuar cegamente pelo caminho errado e somente perceber que se trata do caminho da perdição quando já fosse tarde demais para voltar atrás, quando a mão da morte retirasse o véu de seus olhos. Considero, portanto, que prestarei um serviço àquele que anda desgarrado se o esclarecer acerca do risco que corre e procurar dirigir seus passos para o caminho do Céu.

Permite-me perguntar-te, ó leitor: que proporção de todos os que vivem sobre esta terra julgas que será salva? A metade? A terça parte? Ou talvez a quarta parte? Ah! Receio, e não sem boas razões, que o número esteja muito longe de ser tão grande. Jesus Cristo, que é a Verdade eterna, seus santos Apóstolos e os Padres da Igreja, todos nos dizem que assim será.

Que diz Cristo acerca do número dos eleitos? Suas palavras são estas: 'Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ele repete essas palavras ao falar do convidado que não trajava a veste nupcial: 'Atai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ainda que nada mais se encontrasse em toda a Escritura a esse respeito, essa passagem não poderia deixar de nos alarmar. Há, porém, muitas outras semelhantes, das quais citarei uma ou duas.

No Evangelho de São Mateus, lemos que Nosso Senhor disse: 'Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram' (Mt 7,13). Não são essas palavras capazes de nos inspirar inquietação e apreensão? Não poderemos estar entre aqueles que entram pela porta larga e caminham pela estrada espaçosa que termina na perdição eterna?

Para que possas compreender melhor o sentido das palavras de Nosso Senhor e perceber mais claramente quão poucos são os eleitos, observa que Cristo não disse que eram poucos os que caminhavam pela senda do Céu, mas que eram poucos os que encontravam esse caminho estreito. 'Quão estreita é a porta que conduz à vida, e poucos são os que a encontram'. É como se o Salvador quisesse dizer: o caminho que conduz ao Céu é tão estreito e tão áspero, tão tomado pela vegetação, tão escuro e difícil de distinguir, que muitos passam a vida inteira sem jamais encontrá-lo. E aqueles que o encontram estão constantemente expostos ao perigo de se desviar dele, de tomar uma direção errada e de se afastar inadvertidamente, porque ele é tão irregular e tão encoberto pela vegetação. Assim o diz São Jerônimo em seu comentário à passagem em questão. Além disso, há alguns que, mesmo estando no caminho certo, se apressam em abandoná-lo, porque ele é tão íngreme e penoso. Há também muitos que são atraídos para fora do caminho estreito pelas artimanhas e pelos enganos do demônio e, assim, quase sem perceber, são conduzidos para baixo, rumo ao Inferno. De tudo o que foi dito, podemos concluir que são poucos os que encontram o caminho do Céu, e ainda menos os que perseveram em segui-lo até o fim.

Ora, como Cristo sabia que essas suas palavras seriam mal interpretadas e entendidas em sentido falso tanto pelos crentes como pelos descrentes, em outra ocasião acentuou e reforçou o que já havia dito acerca do pequeno número dos eleitos. Pois, quando um dos discípulos lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' - Ele respondeu: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque muitos, eu vos digo, procurarão entrar e não poderão' (Lc 13,24). Escuta as palavras do Divino Mestre. Ele nos ordena que nos esforcemos, que nos empenhemos, que empreguemos todas as nossas forças para entrar pela porta estreita. E, o que é ainda mais capaz de nos causar temor, acrescenta que muitos procurarão entrar e não poderão.

Se aqueles que desejam e se esforçam por entrar no Reino dos Céus não conseguem fazê-lo, que será daqueles que levam uma vida descuidada, talvez até ímpia, e não demonstram zelo nem interesse pelo que diz respeito à sua salvação eterna? Já ouvimos Cristo declarar-nos três vezes que o número dos eleitos é pequeno; que, em proporção à grande massa da humanidade, apenas poucos serão salvos. E, como sabia que não tomaríamos a peito essa grave verdade como deveríamos, Ele a repete em linguagem ainda mais explícita.

Depois de dizer a um homem rico que viera procurá-lo que deixasse todos os seus bens e o seguisse, e de o homem se retirar entristecido, Ele disse, dirigindo-se aos discípulos: 'Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que possuem riquezas!' E os discípulos ficaram admirados com suas palavras. 'Mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Então, eles se admiraram ainda mais, dizendo entre si: Quem, pois, poderá salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse: Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível' (Mc 10,23-27).

Na verdade, essas palavras, vindas dos lábios de nosso Divino Mestre, bastam para nos inspirar profundo temor; quase bastam para nos fazer perder o ânimo. Pois elas nos dizem expressamente que a obra de nossa salvação é de imensa dificuldade, uma realização quase milagrosa, e que é quase impossível à pobre humanidade entrar no Reino dos Céus. É, na realidade, tão milagroso que um homem escape da perdição eterna e alcance a felicidade eterna quanto seria que um único homem, sozinho, vencesse e pusesse em fuga um exército inteiro. Pois todas as potências do Inferno se aliam ao mundo perverso contra nós; todas as potências do Inferno dispõem suas forças em ordem de batalha para vencer e escravizar cada um de nós, mortais. E, com as terríveis potências das trevas, o mundo mau e astuto faz causa comum, assim como as concupiscências da carne, com o propósito de provocar nossa ruína.

Ora, visto que são tantos os adversários que nos assaltam, adversários tão astutos, tão fortes e tão ferozes, quem poderá julgar-se seguro da vitória? É quase um milagre escapar das garras de inimigos tão numerosos e tão formidáveis. Quem poderá esperar vencê-los por suas próprias forças? Devemos necessariamente reconhecer que todos os que venceram o inimigo maligno, o mundo perverso e suas próprias inclinações más foram fortalecidos por Deus com seu auxílio especial. Vemos, assim, quão penosa e laboriosa é a tarefa de conquistar o Céu; e compreendemos a verdade das palavras de Nosso Senhor, quando disse: 'O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam' (Mt 11,12).

Para consolo e encorajamento do cristão, deve-se observar aqui que, se o número de seus inimigos é tão assustadoramente grande, o número de seus amigos é ainda maior. 'Não temas, porque são mais os que estão conosco do que os que estão com eles'. Assim falou o profeta Eliseu ao seu servo amedrontado. 'E o Senhor abriu os olhos do servo, e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e de carros de fogo' (4Rs 6,16). Não somos deixados sozinhos no combate; nosso santo Anjo da Guarda e todos os espíritos bem-aventurados estão ao nosso lado; podemos contar com a poderosa proteção da Mãe de Deus, com a eficácia dos sacramentos, com os méritos da Paixão de Cristo, com a inspiração do Espírito Santo e com o socorro de Deus Todo-Poderoso. Por meio desses poderosos auxílios, venceremos, se combatermos corajosamente e não nos entregarmos, por fraqueza, ao cativeiro, como infelizmente tantos fazem. Pois essas pessoas tímidas, indolentes e sem ânimo iludem-se com a falsa esperança de que, afinal, não é difícil conquistar o Céu. Pensam e dizem a si mesmas: a situação não é tão grave quanto alguns querem fazer parecer; Cristo não sofreu por nós em vão; se não fosse da vontade de Deus que nos salvássemos, Ele não nos teria criado para desfrutarmos do Céu. Essas e outras palavras semelhantes ouvimos dos lábios dos filhos deste mundo; eles vivem segundo essas ideias e conseguem enganar a si mesmos e aos outros.

A Sagrada Escritura não nos deixa dúvida de que essas pessoas estão no erro e caminham pela estrada larga que conduz à perdição. Todo o ensinamento do Evangelho se opõe inteiramente aos princípios que elas seguem; e aqueles que levam uma vida descuidada e satisfazem desregradamente os sentidos são repetidamente advertidos de que a morte eterna será sua porção. Escuta a advertência que Cristo dirige aos devotos deste mundo e aos amantes de seus prazeres: 'Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis! Ai de vós, quando os homens vos louvarem!' - isto é, quando homens de maus princípios, contrários às máximas da religião, aplaudirem vossas palavras, vossas ações e vossas opiniões. Essa condenação, saída dos lábios de Nosso Senhor, bem pode encher-nos de temor. Qual é o objetivo da grande maioria dos homens na vida? Que procuram alcançar e pelo que anseiam? Desejam ser ricos, prosperar, viver no luxo e ser louvados por seus semelhantes. Ninguém considera isso um pecado. E, no entanto, Nosso Senhor declara que a morte eterna será o destino dessas pessoas e as denuncia em termos veementes.

Por essas e outras passagens semelhantes, que abundam na Sagrada Escritura, vês que Deus é mais rigoroso do que imaginas e que perder tua alma é mais fácil do que talvez penses. Portanto, não continues a viver tão descuidadamente, mas trabalha por tua salvação com temor e tremor, como te exorta o Apóstolo. Assim fizeram os santos em todos os tempos, tendo sempre diante dos olhos o temor dos juízos de Deus. Os ímpios, pelo contrário, sempre costumaram dizer, como muitos ainda dizem hoje: Deus é misericordioso; Ele não nos condenará tão facilmente à perdição eterna. Mas recorda o que diz a Sagrada Escritura: 'Não estejas sem temor acerca do pecado perdoado, e não acrescentes pecado a pecado. E não digas: A misericórdia do Senhor é grande; Ele terá misericórdia da multidão dos meus pecados. Pois a misericórdia e a ira vêm prontamente dele, e sua ira recai sobre os pecadores' (Eclo 5,5-7). Encontramos também Santa Catarina de Sena dizendo: 'Ó infelizes pecadores, não vos fieis na grandeza da misericórdia de Deus; crede-me: quanto mais provocardes a ira desse Deus misericordioso pelo pecado deliberado, tanto mais profundamente sereis lançados no abismo da perdição'.

É indubitavelmente verdade que devemos depositar nossa confiança na misericórdia de Deus; mas São Gregório nos ensina qual deve ser a natureza dessa confiança. Ele diz: 'Aquele que faz tudo quanto pode confie firmemente na misericórdia de Deus. Mas, para aquele que não faz tudo o que está ao seu alcance, confiar na misericórdia de Deus seria mera presunção'. A todos e a cada um de nós, o Apóstolo Pedro diz: 'Empenhai-vos ainda mais para tornar certa, pelas boas obras, a vossa vocação e eleição' (2Pd 1,10).

Vários Padres da Igreja consideram que, do fato de apenas oito pessoas terem sido salvas por ocasião do dilúvio, de apenas quatro - a saber, Ló, sua mulher e suas duas filhas - terem escapado com vida da destruição de Sodoma e Gomorra, e de não mais de dois dos seiscentos mil homens aptos que saíram do Egito terem alcançado a Terra Prometida, enquanto todos os demais morreram no deserto, pode-se concluir que o número dos eleitos entre os cristãos será proporcionalmente pequeno. Isso concorda com o que São João Crisóstomo disse certa vez, ao pregar na cidade de Antioquia: 'Que pensais, meus ouvintes: quantos habitantes desta cidade poderão talvez salvar-se? O que estou prestes a dizer é muito terrível; contudo, não vo-lo ocultarei. Desta cidade tão populosa, com seus milhares de habitantes, nem cem se salvarão; duvido até mesmo que sejam tantos. Pois quanta indiferença vemos entre os idosos, quanta maldade entre os jovens, quanta impiedade entre todas as classes de pessoas!'

Palavras como essas bem podem fazer-nos tremer. Hesitaríamos em acreditar nelas se não viessem dos lábios de tão grande Santo e Padre da Igreja. E, se é verdade que, nos cinco primeiros séculos, quando o zelo e a devoção dos cristãos eram muito mais fervorosos do que agora, um número tão pequeno alcançava a salvação eterna, que acontecerá em nossos dias, quando o crime e o vício predominam em proporções tão assustadoras? Visto que ninguém pode negar, ou sequer duvidar, que o número dos eleitos é pequeno em comparação com o dos réprobos, suplico-te, ó leitor cristão, que te empenhes ao máximo em realizar a obra de tua salvação. Sabes quão terrível é ser condenado eternamente.

Os suplícios e tormentos do Inferno são tão terríveis que não se encontram palavras para descrevê-los. Considera, enquanto é tempo, a eternidade dessas torturas indizíveis e acautela-te, para que também tu não sejas lançado no abismo de uma angústia sem fim. Como poderias suportar tormentos tão imensuráveis e tão intermináveis? Não perderias o ânimo e te entregarias ao desespero? Não te enfurecerias e te revoltarias? Contudo, isso de nada te valeria; apenas acrescentaria sofrimento aos teus padecimentos e aumentaria tua miséria.

Tudo isso é terrível, pavoroso e aterrador. Como é que não pensas nisso mais frequentemente? Como é possível que continues a viver tão descuidadamente? Como é possível que não tenhas maior temor do Inferno? Julgas, talvez, que o Céu te está assegurado? Como é que segues a multidão, como se não soubesses que corres grande perigo de perecer com ela?

Se queres salvar-te, segue o conselho de Santo Anselmo, quando diz: 'Se queres ter certeza de estar no número dos eleitos, esforça-te por ser um dos poucos, e não um dos muitos. E, se queres estar inteiramente seguro de tua salvação, esforça-te por estar entre os mais poucos dentre os poucos; isto é: não sigas a grande maioria dos homens, mas segue aqueles que entram pelo caminho estreito, que renunciam ao mundo, que se entregam à oração e que nunca afrouxam seus esforços, nem de dia nem de noite, para alcançar a felicidade eterna'.

CONCLUSÃO

Façamos, meu caro leitor, com coragem e alegria, tudo quanto for necessário; empreendamos tudo e sacrifiquemos tudo para alcançar a felicidade inefável do Céu, pois jamais poderemos pagar por ele um preço demasiado alto. Não nos deixemos abater pelas dificuldades do caminho, pois, afinal, não é tão difícil merecer o Céu. Se fizéssemos pelo Céu a metade do que as pessoas fazem para ganhar o sustento, adquirir um pouco de riqueza, poder ou fama, ou desfrutar da vida, estaríamos certos de assegurar um lugar elevado entre os santos. Tudo o que temos de fazer para alcançar o Céu é guardar os mandamentos de Deus e de sua Igreja, carregar nossas pequenas cruzes, cumprir as obrigações de nosso estado de vida e vencer a tentação; e, embora isso ultrapasse nossas forças naturais, podemos, contudo, contar com a graça de Deus, se a pedirmos com fervor. Com o auxílio de Deus, tudo se tornará relativamente fácil, pois, como diz São Paulo: 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fl 4,13). A oração fervorosa e perseverante nos assegurará o Céu.

Agora, caro leitor, dirijo-te as palavras que a mãe dos Macabeus disse ao seu filho mais novo, ainda um menino, quando ele estava prestes a ser torturado até a morte, como seus seis irmãos haviam sido antes dele: 'Meu filho, suplico-te que olhes para o Céu'. Olha para o Céu todos os dias, especialmente nos momentos de provação e de tentação. O Céu vale plenamente cada sofrimento, cada sacrifício e cada combate que nos são exigidos, e até mil vezes mais! A vida é breve; suas provações, seus sofrimentos, seus trabalhos, seus combates e suas cruzes também são breves e transitórios; mas o Céu e suas alegrias são inconcebíveis, satisfazem todos os desejos do coração e não têm fim! - 'A nossa tribulação presente, momentânea e leve, produz para nós, acima de toda medida, um peso eterno de glória' (2Cor 4,17). Que Deus, em sua misericórdia, conceda esse feliz fim ao autor deste livro e a todos aqueles em cujas mãos ele vier a cair.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 11 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

     

'Na casa do Senhor habitarei, eternamente' (Sl 22)

Primeira Leitura (Is 25,6-10a) - Segunda Leitura (Fl 4,12-14.19-20) - Evangelho (Mt 22,1-14)

  11/10/2026 - VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 O BANQUETE REAL 


No seu ministério público, Jesus falava muitas vezes em forma de parábolas, para incutir nos homens os ensinamentos da Boa Nova, sem lhes ferir demasiado as susceptibilidades da prática consolidada sobre valores falsos ou essencialmente humanos. Neste contexto, o plano divino de salvação da humanidade é apresentado na analogia de que 'o Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir' (Mt 22,1-2).

O convite pressupõe uma convocação; a festa foi preparada em todos os detalhes e todos os convidados têm lugares específicos reservados na mesa do banquete; a eles está destinado as iguarias mais refinadas - símbolo dos mistérios da graça associados à Visão Beatífica e à plena vida em Deus. Mas muitos 'não quiseram ir' (Mt 22,2), começando pelos hebreus, o povo escolhido do Antigo Testamento. Muitos e muitos outros seguirão neste caminho de recusa explícita, seja pela indiferença, seja pelo envolvimento total nos seus próprios interesses pessoais e mundanos.

A reação do rei é imediata: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’ (Mt 22,8 - 9). Diante do não do povo escolhido, o Senhor faz a opção pelos outros, os gentios do mundo, por todos os homens que acreditaram e assumiram a doutrina do seu Filho, vítima de amor sacrificada pelo triunfo da Cruz. Ir a todas as encruzilhadas e a todos os cantos do mundo é a vocação missionária da Igreja de todos os tempos, para buscar os eleitos para a grande festa do Senhor.

No banquete real, somente serão aceitos os convidados que estiverem usando o 'traje de festa' (Mt 22,11), ou seja, estiverem revestidos do estado de graça, premissa das almas adentrarem o Reino dos Céus. Assim, até mesmo os que fizeram parte da Igreja - os convidados - mas que usufruíram de uma fé sem obras e não produziram os frutos da graça serão julgados inconvenientes no grande dia do Juízo e serão expulsos do banquete e, assim, perderão definitivamente o Reino dos Céus e serão jogados às trevas, onde só haverá choro e ranger de dentes. Nós devemos ter o firme propósito de servir a Cristo na fé e nas obras, para nos tornarmos os convivas do banquete real por toda a eternidade, tangidos pela misericórdia e não pela justiça divina, porque 'muitos são chamados, e poucos são escolhidos' (Mt 22,14).

domingo, 4 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

    

'A vinha do Senhor é a casa de Israel' (Sl 79)

Primeira Leitura (Is 5,1-7) - Segunda Leitura (Fl 4,6-9) - Evangelho (Mt 21,33-43)

  04/10/2026 - VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 A PARÁBOLA DOS VINHATEIROS HOMICIDAS


O Evangelho deste domingo apresenta mais um evento relativo aos enfrentamentos públicos de Jesus com os mestres da lei e os anciãos do Templo, na terça-feira santa, logo após o júbilo messiânico vivido pelo povo de Jerusalém naquele Domingo de Ramos. Nenhum outro apóstolo detalhou, com maior precisão e rigor, estes últimos acontecimentos que antecederam a Paixão e Morte de Nosso Senhor, do que São Mateus.

Àqueles homens duros de coração, letrados nos textos das Sagradas Escrituras e sabedores por excelência que 'a vinha do Senhor é a casa de Israel' (refrão do salmo 79), Jesus vai proclamar a perda e a devastação desta vinha, que será abandonada pelo seu dono e deixada à mercê das sarças e dos espinhos que a tornarão 'inculta e selvagem' (Is 5,6). E que, mais além, será restaurada e tornada cultura de raro louvor porque 'o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos' (Mt 21,43). Trata-se de um testemunho explícito de que o juízo de Deus extrapola apenas o plano individual, mas alcança a dimensão de povos e nações e, portanto, de toda a humanidade por gerações.

A vinha do Senhor foi preparada, cercada, cuidada com zelo; depois, arrendada a vinhateiros para que dela cuidassem com o mesmo esmero e dela produzissem muitos frutos bons. Mas eis que estes maus zeladores corromperam a obra de Deus e produziram na vinha apenas frutos de injustiça e de iniquidade. Sabedores dos suas omissões e desvarios, e ensandecidos pela cobiça e pelo orgulho, fazem morrer não apenas os enviados do Senhor (os grandes profetas), mas o próprio filho do Senhor da vinha. Diante de passagens tão explícitas àqueles tempos e àqueles personagens, estes não parecem perceber que resumem a própria condenação nas suas próprias palavras: (o senhor da vinha) 'mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo' (Mt 21,41).

Nesta parábola Jesus nos interpela, a cada um de nós, a zelar pela vinha que somos, com zelo extremado de salvação eterna, fugindo das ciladas das vaidades e do orgulho humano dos vinhateiros homicidas. Não podemos matar em nós o puro amor cristão, não podemos matar os dons recebidos e as virtudes do coração, não podemos matar a graça santificadora do batismo, não podemos matar em nós a herança do Reino de Deus; mas devemos nos ocupar 'com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor' (Fl 4,8) porque, nas vinhas do Senhor, somente florescem as videiras que produzem frutos de vida eterna.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIX)

PARTE IV - O CÉU

III. Sobre as alegrias do Céu (continuação)

Quanto às alegrias espirituais dos remidos no Céu, são tão abundantes que, ao falar delas, não se sabe por onde começar nem onde terminar. Considerai as consolações espirituais concedidas neste mundo aos eminentes servos de Deus. Sabemos que a vida de alguns santos na terra se assemelhava mais à dos anjos do que à dos homens, tão frequentemente eram favorecidos com êxtases, visões, luzes interiores e consolações divinas de toda espécie. E, contudo, todos esses favores eram apenas como uma gota do oceano sem limites da doçura celestial. Que arrebatamento será, para as almas santas no Céu, beber diretamente da fonte e haurir livremente do manancial inesgotável de toda felicidade! Todas as faculdades da alma - o entendimento, a memória, a vontade, a imaginação, cada pensamento, cada desejo, todo o ser intelectual, elevado e aperfeiçoado pelo próprio Deus - serão plenamente satisfeitas e contribuirão para aumentar e intensificar as alegrias da alma.

Com o entendimento, os bem-aventurados contemplarão todas as coisas criadas à luz de Deus e penetrarão profundamente os segredos da natureza. Está escrito acerca do rei Salomão: 'Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento em grandíssima medida, e uma amplidão de espírito como a areia que está na praia do mar. E a sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os orientais e dos egípcios, e ele era mais sábio do que todos os homens. Proferiu também três mil parábolas, e os seus cânticos foram mil e cinco. Tratou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce nos muros; e discorreu sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. E vinham de todas as nações ouvir a sabedoria de Salomão, enviados por todos os reis da terra que tinham ouvido falar da sua sabedoria' (3Rs 4,29-34).

Nunca ouvimos falar de uma sabedoria igual a essa, nem podemos deixar de nos admirar com a vastidão e a perspicácia do entendimento desse grande rei. Contudo, comparada com a sabedoria do menor dos santos no Céu, ela não supera o conhecimento de uma criança de três anos diante da erudição e da sabedoria do mais douto dos homens. Pois todas as operações da natureza e todas as forças do universo estão manifestas e reveladas ao menor dos santos no Céu. Nada é oculto ou misterioso aos seus olhos. Ele conhece tudo o que a Santíssima Trindade realizou desde toda a eternidade; sabe de que maneira admirável os céus e a terra foram criados do nada e com que sabedoria tudo foi ordenado e sustentado, desde o princípio até ao fim dos tempos. 

Sabe como o Filho de Deus foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; sabe como o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho. Sabe como Cristo nasceu de uma mãe terrena sem violar a sua virgindade; conhece tudo o que Nosso Senhor fez e sofreu durante toda a sua vida, e como cada santo e servo de Deus viveu para Deus e trabalhou ao seu serviço. Tudo o que, nas Sagradas Escrituras, nos parece misterioso e incompreensível, assim como os mistérios da religião e da natureza, ele compreende sem um instante de reflexão. Ainda que tivesses sido na terra apenas um camponês simples e iletrado, ao entrares no Céu teus olhos se abririam, e verias claramente e compreenderias perfeitamente todas as coisas. Que alegria, que felicidade esse conhecimento e essa visão clara te proporcionarão! Que agradecimentos cheios de gratidão renderás a Deus por isso!

Em segundo lugar, no que diz respeito à memória, os bem-aventurados também encontrarão no Céu a plenitude da alegria, pois ela, assim como o entendimento, será iluminada por Deus; e todos os acontecimentos de sua vida passada estarão tão vivos e tão nítidos em sua lembrança como se os contemplassem inscritos em tábuas diante dos olhos. Então perceberão por que caminho admirável Deus os conduziu ao seu destino eterno, com que misericórdia lhes perdoou as transgressões, como os socorreu na hora da tentação e como fez com que todas as coisas concorressem para o seu bem.

Essa visão retrospectiva despertará no coração de cada um a mais santa gratidão para com Deus, e muitas vezes a expressarão assim: 'Ó meu Deus, a quem amo acima de todas as coisas, quão grandes são os dons e as graças que me concedestes! Quão generoso fostes para comigo! Quantas vezes me livrastes do perigo de cair em pecado! Com que misericórdia me preservastes da condenação eterna e de que modo admirável me guiastes pelo caminho da salvação! Como poderei louvar e exaltar suficientemente a vossa infinita bondade? Como poderei agradecer-vos e adorar-vos suficientemente pelos benefícios que tão abundantemente derramastes sobre mim?'

Em terceiro lugar, a vontade de cada um dos bem-aventurados será coroada de felicidade e abrasada de amor por Deus e pelos bem-aventurados em cuja companhia se encontra. Os prazeres mais nobres de que um homem pode desfrutar provêm de sua vontade. Um homem é feliz quando tudo lhe sucede conforme os seus desejos; quando adquire e possui tudo o que seu coração pode desejar; quando é estimado e elogiado por seus semelhantes; quando ama e é amado por aquele a quem dedica suas afeições. Tudo isso, e muito mais, constitui a porção dos bem-aventurados, mas no mais alto grau e na maior perfeição possível.

O amor de Deus por eles e o amor deles por Deus são tão profundos que ficam abrasados e consumidos pela caridade divina; sua vontade se assemelha a uma brasa viva, resplandecente de luz e calor, até ser absorvida pelo fogo de que faz parte. Assim acontece com os santos no Céu: impregnados de caridade divina, ardem e resplandecem na luz de Deus e refletem cada vez mais a sua imagem. São João diz: 'Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é' (1Jo 3,2). No amor de Deus e na união com Ele, encontram uma delícia tão inefável que, inebriados pela doçura da caridade divina, se perdem nele.

Não há maior felicidade na terra do que amar e ser amado; e, quanto mais terno, puro e ardente é esse amor, maiores são a alegria e a satisfação que nos proporciona. Ora, o amor do Céu, o amor dos remidos por Deus e uns pelos outros, é a mais terna, a mais pura e a mais ardente afeição, uma afeição infinita e sem limites; por isso, é fonte de imensa alegria e de felicidade indizível. Que o Deus de toda graça nos faça participantes desse amor, e então conheceremos por experiência aquilo de que as palavras não conseguem transmitir uma ideia. Ninguém terá o privilégio de participar desse amor se, aqui na terra, não viver no amor de Deus e não morrer na sua amizade. Esforcemo-nos, portanto, por fazer crescer em nós essa caridade divina, para que, na vida futura, sejamos admitidos ao pleno gozo do seu amor.

A visão beatífica da face divina é uma alegria acima de todas as alegrias, uma delícia que supera de longe todos os prazeres celestiais de que falamos. Sem ela, todas as outras alegrias perderiam o seu sabor e se transformariam em amargura. Certa vez, quando o demônio falava pela boca de uma pessoa possessa, disse: 'Se todos os céus fossem uma folha de pergaminho, se todo o oceano fosse tinta, se cada folha de relva fosse uma pena e cada homem da terra um escriba, isso não bastaria para descrever a intensa e incomensurável delícia que a visão de Deus proporciona aos bem-aventurados'. Em outra ocasião, disse que, se Deus se dignasse conceder-lhe o privilégio de contemplar a sua face divina por alguns instantes, suportaria de bom grado, se isso fosse possível, todos os tormentos do Inferno em sua própria pessoa até ao Dia do Juízo. Isso nos ensina que, se um homem passasse toda a sua vida praticando as mais severas penitências e, depois da morte, lhe fosse permitido contemplar a face de Deus por um único instante, já teria recebido uma ampla recompensa por todas as suas mortificações.

Considerai agora quão sublime deve ser a felicidade que os santos encontram na contemplação, na fruição e na posse do Deus supremo! Se contemplar a face divina por um breve instante é uma alegria que supera tudo o que uma vida de prazeres oferece ao homem mundano, que arrebatamento será contemplar para sempre, com olhos jamais obscurecidos, a sua infinita beleza! Que arrebatamento será possuir esse Bem supremo por toda a eternidade!

Deus é um ser em quem tudo o que há de mais admirável e desejável existe no mais alto grau. Nele se encontra tudo o que mais nos atrai e fascina: clemência, beleza, justiça, compaixão, sabedoria, majestade, todos os atributos doces e sublimes em sua mais plena perfeição. De Deus procede toda graça, tudo o que necessitamos para o nosso bem espiritual e temporal, toda a felicidade, a alegria, o repouso, a consolação, todos os benefícios e bênçãos de que suas criaturas desfrutam no Céu e na terra. E, quando os remidos passarem a contemplar esse Bem infinito e a possuir essa fonte de tudo o que merece ser amado, admirado e desejado, sua alegria será verdadeiramente plena. Que delícia indizível lhes proporcionará compreender o mistério da Encarnação e o mistério da Santíssima Eucaristia!

Que delícia indizível será para eles compreender como Deus pode ser invisível e, contudo, ver todas as coisas; como pode permanecer imóvel e, contudo, ser a fonte de todo movimento; como pode ser imutável e, contudo, ser o autor de toda mudança. Esses e muitos outros mistérios serão esclarecidos aos bem-aventurados na luz de Deus, e essa fonte de conhecimento não se esgotará por toda a eternidade. Quanto mais conhecerem a Deus, mais crescerá o seu desejo de conhecê-lo melhor, e esse conhecimento não terá limite nem imperfeição. Assim, terão sempre fome e, contudo, estarão perfeitamente saciados; esse rico tesouro estará sempre aberto para eles, e jamais esgotarão todas as riquezas que contém. Medita frequentemente sobre esse assunto, ó leitor, e desperta em tua alma um ardente desejo de desfrutar de Deus pelos séculos dos séculos.

Ó meu Deus e meu tudo! Vós que sois beleza infinita, doçura infinita, bondade infinita! De todo o coração suspiro por Vós. Assim como o cervo anseia pelas águas dos ribeiros, minha alma tem sede de Vós, o Deus poderoso e vivo; quando irei apresentar-me diante de vossa presença? Quando terei a ventura de vos contemplar e de desfrutar de Vós para sempre? Ouso esperar que essa alegria possa ser minha; humildemente espero e confio em vossa infinita bondade, pois não rejeitais ninguém que se aproxima de Vós com um coração contrito e cheio de amor. Quão rico, quão feliz, quão alegre serei quando possuir esse Bem supremo! Eu vos abraçarei com reverente amor e me perderei em Vós, quando enfim vos possuir.

Estou pronto e desejo, ó meu Deus, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar-me digno de ser admitido em vossa presença. Estou disposto a sofrer tudo o que minha frágil natureza me permitir suportar. Estou disposto a afastar-me do mundo e a renunciar a todas as coisas terrenas, na medida em que os deveres do meu estado o permitirem. Estou disposto a trabalhar, tanto quanto puder, em vosso serviço; e assim farei, na esperança de vos alcançar, ó Bem infinito e eterno, e de contemplar para sempre a vossa infinita beleza. Mais ainda: mesmo que soubesse que haveria de me perder, ainda assim vos amaria. Pois não vos amo porque espero alcançar por Vós a salvação eterna, mas porque sois a Beleza perfeita e a Bondade infinita, dignas de ser o único objeto de nossas afeições e aspirações.

Crendo e esperando assim, desejo viver e morrer, e tomo os anjos e os santos por testemunhas da verdade do que digo. E, para confirmá-lo, repito com o coração e com a voz:

'Meu Deus, eu vos amo, não porque assim espere alcançar o Céu;
nem porque aqueles que não vos amam devam arder eternamente.
não pela esperança de ganhar alguma coisa, nem buscando uma recompensa;
mas como Vós mesmo me amastes, ó Senhor que sempre amais'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (III)

3. A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS

Um homem pediu para os seus dois filhos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse não, mas foi; o segundo disse sim, mas não foi [Mt 21,28-32].

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 
[28] Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!' 
[29] O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. 
[30] O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. 
[31] 'Qual dos dois fez a vontade do pai?' Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'O primeiro'. Então Jesus lhes disse: 'Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 
[32] Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele'.


Na parábola desse Evangelho, um pai pede aos dois filhos que trabalhem na vinha. Um responde 'não', mas depois se arrepende e vai [29]; o outro responde 'sim', mas não vai [30]. Quando Jesus pergunta qual deles fez a vontade do pai, a resposta é clara: o primeiro [31]. As palavras seguintes de Jesus são impactantes: os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus [31], algo que soaria como uma aparente aprovação ao pecado.

Num primeiro contexto, à luz do ensinamento de Jesus sobre a graça, conclui-se do texto bíblico que, ainda que a vontade seja realmente humana e livre, ela não é autossuficiente para se voltar a Deus e perseverar no bem que conduz ao Reino. Deus não age no lugar do primeiro filho, como se este fosse passivo. A graça desperta e sustenta sua conversão; ele responde livremente, arrepende-se e vai. É nesse sentido que o Catecismo diz que a graça precede e suscita a resposta livre, sem suprimi-la. Assim, a crítica de Jesus não se dirige à vontade enquanto capacidade de escolher. Dirige-se à vontade fechada em si mesma, que presume que basta dizer 'sim', mas resiste ao chamado concreto de Deus. Por outro lado, a vontade convertida reconhece sua necessidade de ajuda e se manifesta em obras. Fazer a vontade do Pai é querer e agir em resposta à graça, e não apenas confiar na força de uma resolução pessoal.

E Jesus menciona, então, que publicanos e prostitutas precedem os chefes religiosos no Reino [31]. Lida isoladamente, a frase pode soar como um manifesto estranho em favor da vida pecaminosa em relação à vida religiosa. No versículo seguinte, a aparente contradição é desfeita: os cobradores de impostos e as prostitutas, apesar dos seus graves pecados, responderam sim à conversão ao acatarem as palavras de João Batista, ao contrário dos interlocutores de Jesus [32]. Jesus não elogia a cobrança injusta ou a prostituição; Jesus não atribui mérito ao pecado, mas à conversão do pecador como resposta ao chamado da graça divina.

A menção a exemplos de pecadores extremados tem uma função: mostrar aos chefes religiosos que sua condição respeitada não lhes garante a entrada no Reino. A comparação é entre pecadores que acolhem o chamado de Deus e pessoas que, apesar de sua posição religiosa, recusam esse chamado. Também não significa que todos os publicanos e todas as prostitutas se converteram, nem que todos os chefes religiosos estavam excluídos (Jesus usa o termo 'precedem' entre uns e outros). O contexto aqui é universal: Jesus explicita que a ação da vontade ao chamado da graça é para todos e que a conversão é tarefa contínua que se impõe tanto para quem caiu gravemente em pecado como para quem se considera justo. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

VERSUS: 'NÃO VOS PREOCUPEIS COM O AMANHÃ'

Quando alguém se encontra em dificuldade e já não sabe o que fazer, procura uma pessoa prudente a quem pedir conselho. Imaginemos que o mundo inteiro fosse um só homem: deseja escapar do mal, mas tarda em praticar o bem. À medida que suas aflições aumentam, a quem poderia recorrer com mais proveito do que a Cristo? Se não encontra conselheiro melhor, aproxime-se daquele que pode encontrar em toda parte; escute-o e acolha seu conselho.

Os males temporais que os homens tanto temem são passageiros: ou eles passam por nós, ou nós passamos por eles. Desaparecem enquanto vivemos ou ficam para trás quando morremos. Não pode ser grande, pela sua duração, uma tribulação que dura tão pouco. Tu, que te inquietas com o amanhã, já não te recordas do ontem? Quando chegar o dia seguinte, esse amanhã também será ontem. E, no entanto, os homens se consomem em ansiedade para escapar de sofrimentos que passam - ou, melhor, que voam. Quanto cuidado não deveriam dedicar, então, a escapar daquilo que permanece!

(Santo Agostinho)


Quando Cristo diz: 'não vos preocupeis com o amanhã' - não está proibindo o trabalho. Ele nos ensina a não ficar presos às coisas desta vida. Alguém pode nada fazer e, ainda assim, ocupar-se inteiramente em acumular para o futuro; outro pode trabalhar e permanecer livre da inquietação. Trabalhar e viver ansioso não são a mesma coisa.

Também quando disse a Marta que ela se preocupava com muitas coisas e que uma só era necessária, Cristo não condenou sua hospitalidade. Mostrou-lhe que há um momento próprio para cada cuidado: naquela hora, em que Ele estava ali para ensinar, escutar sua palavra merecia o primeiro lugar. Marta desejava recebê-lo e preparar-lhe uma boa mesa; poderia acolhê-lo também prestando atenção ao que Ele tinha a lhe dizer.

Aprendamos, pois, caríssimos, a pedir a Deus aquilo que convém pedir-lhe. Quanto às coisas desta vida, qualquer que seja seu desfecho, elas não podem causar-nos o dano que mais importa temer. A riqueza só pode oferecer seu conforto durante esta vida; a pobreza, por sua vez, não é um mal definitivo. Tanto os esplendores quanto as dores presentes passam depressa. Voltemos nosso cuidado, portanto, para as coisas que permanecem.

(São João Crisóstomo)

domingo, 27 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!' (Sl 24)

Primeira Leitura (Ez 18,25-28) - Segunda Leitura (Fl 2,1-11) - Evangelho (Mt 21,28-32)

  27/09/2026 - VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 OS HUMILDES E DUROS DE CORAÇÃO


No Evangelho deste domingo, encontramos Jesus após a sua entrada triunfal em Jerusalém, acossado pela malícia humana dos escribas, mestres da lei, anciãos e demais membros do Sinédrio. Tomados pela inveja e calúnia, queriam justificar publicamente a sentença de morte que já haviam imposto secretamente a Jesus nos seus corações e mentes. O júbilo messiânico daquele Domingo de Ramos selara em definitivo o destino e a morte de Jesus.

A missão do Senhor aproxima-se do final e impõe-se cumpri-la até o fim. Jesus contempla com enorme tristeza aqueles homens duros de coração que, cientes de todos os textos proféticos, não compreenderam ou não quiseram compreender os sinais da vinda do Messias ao mundo dos homens. Da mesma forma como negaram João Batista, era preciso agora, com muito mais vigor e malícia, negarem a Cristo; mais do que isso, precisavam tramar e manipular o povo para tornar natural e incontestável a condenação de Jesus à morte, a uma morte de cruz.

Aos duros de coração, elabora, então, a parábola dos dois filhos que o pai ordena trabalharem na vinha: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ (Mt 21,28). O primeiro se nega a princípio e depois acata a ordem do pai e o segundo, que parecia acatar, não cumpre a ordem paterna. Filhos que são os filhos deste mundo, chamados por Deus, para serem operários nas vinhas do Senhor: os que ouvem o chamado à graça, pela manhã ou nas horas mais tardias da vida, e vão trabalhar na vinha e os que não vão, por desobediência explícita, por insensatez, por descuidado zelo. Ontem, os primeiros foram os gentios, publicanos e pecadores e os últimos, os escribas e os fariseus que tramaram contra Jesus; ontem e sempre, os primeiros foram aqueles que humildemente refletiram as palavras e os ensinamentos do Mestre no coração e os últimos, os duros de coração, que se ensoberbeceram no jogo das meras palavras e das promessas vazias.

O caminho da salvação perpassa pelo coração. 'Então Jesus lhes disse: Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus' (Mt 21,31). Foram e são muitos os pecadores que aceitaram o firme propósito do arrependimento sincero e de conversão; infelizmente também são muitos os que se apegam aos valores humanos, à vanglória, à tibieza e à obstinação do orgulho desmedido. Nesta conduta de retidão, serão separados o joio e o trigo, os justos e os ímpios diante do tribunal de Deus, porque 'quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre... quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida' (Ez 18,26 - 27).

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.

domingo, 20 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'O Senhor está perto da pessoa que o invoca!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,6-9) - Segunda Leitura (Fl 1,20c-24.27a) - Evangelho (Mt 20,1-16a)

  20/09/2026 - VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 NAS VINHAS DO SENHOR


Estamos na fase final da pregação pública de Jesus; depois da longa preparação dos discípulos e das premissas do seu Evangelho, aproxima-se o momento do sacrifício do Cordeiro Imolado para a salvação do mundo. Resta ao Senhor pouco tempo para consolidar, entre os seus, os fundamentos da Igreja e das realidades do Reino dos Céus. E, numa parábola magnífica, Jesus nos ensina que Deus nos chama a todos à perfeição e concede o mesmo prêmio de salvação eterna, independentemente de quando os seus escolhidos encontraram definitivamente o caminho da graça.

'O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha' (Mt 20, 1-2). Desde o batismo, desde a primeira hora, desde 'a madrugada' dos tempos, somos chamados a partilhar e compartilhar a glória de Deus nas vinhas do Senhor, como fieis da Igreja, como discípulos do Cristo, como filhos de Deus. No mundo dos homens, desde o batismo nos tornamos herdeiros potenciais da graça, operários da messe a caminho do Céu.

Mas o mundo nos empurra e confunde a caminhada da graça; as aspirações humanas nos tolhem e retêm os propósitos de santificação. Ficamos à mercê dos tempos e dos contratempos. Deus não nos abandona nunca e, como o patrão persistente e incansável, volta pela manhã, pelo meio-dia, pela tarde, pelo final do dia, à espera do 'sim' filial, pela conversão definitiva, pelo retorno do filho pródigo. Na parábola dos operários da vinha, todos receberam igualmente o mesmo prêmio, o mesmo pagamento, mesmo os que foram chamados por último: 'cada um deles também recebeu uma moeda de prata' (Mt 20, 10). Porque a medida da justiça de Deus não é feita pelas medidas humanas: a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou mesmo mais tarde, ao chamado à vinha e tornaram-se, assim, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus.

Ainda assim, nas sementeiras da graça, fomentaram-se os espinhos da discórdia e da inveja, por parte dos operários que se julgaram injustiçados com o pagamento equivalente: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’ (Mt 20, 12). Pelo olhar da inveja humana, a misericórdia infinita de Deus teria que ter dimensões paralelas e distintas; a inveja obscurece o valor da graça daquele que a recebeu mais cedo pela concessão da mesma graça concedida ao que chegou mais tarde a ela nos caminhos da vida e, tantas vezes por isso, 'os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos' (Mt 20, 16). Porque a inveja mata e aniquila as sementes da graça recebida e é a caridade comum entre todos que produz, em todos, os mesmos frutos de vida eterna, nas vinhas do Senhor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVIII)

    

PARTE IV - O CÉU

II. Sobre as alegrias do Céu

Agora que meditamos sobre a Jerusalém celeste, a cidade de Deus, passaremos a considerar a felicidade de que gozam os santos que nela habitam, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma. É verdade que, por enquanto, como regra geral, eles ainda não possuem seus corpos; mas, no Último Dia, todos os receberão novamente, e esses corpos serão então tão belos que nada neste mundo poderá comparar-se a eles. Isso se deverá principalmente ao fato de que cada membro será dotado de quatro qualidades ou atributos, a saber: beleza, impassibilidade, agilidade e sutileza. Em razão de sua beleza ou glória, o corpo de cada um dos eleitos resplandecerá como uma estrela; contudo, assim como uma estrela difere de outra em glória, também os santos brilharão com maior ou menor esplendor, conforme suas vidas na terra tenham sido mais ou menos santas.

Nesses corpos glorificados e radiantes, os bem-aventurados serão de uma beleza tão inexprimível que, se um homem mortal pudesse agora contemplar um desses seres resplandecentes, ficaria deslumbrado por seu fulgor e estaria prestes a morrer de alegria. Em suas revelações a Santa Brígida, a Santíssima Mãe de Deus disse certa vez: 'Os santos estão ao redor de meu Filho como incontáveis estrelas, cuja glória não pode ser comparada a nenhuma luz temporal. Acredita-me: se os santos pudessem ser vistos resplandecendo com a glória que agora possuem, nenhum olho humano poderia suportar sua luz; todos desviariam o olhar, deslumbrados e cegos'. Pensa que felicidade será para ti quando teu corpo resplandecer como o sol ao meio-dia. Tudo o que vive e se move alegra-se com a luz e o calor do sol: ele enche de alegria toda a face da natureza. Do mesmo modo, teu corpo será motivo de alegria e deleite para ti mesmo e para todos os que estiverem ao teu redor no Céu, por causa de sua beleza e de sua glória.

O segundo atributo é a impassibilidade, pois o corpo glorificado é incapaz de sofrer. Jamais estará doente ou enfermo; não envelhecerá nem perderá sua beleza. Nunca mais será afligido pela fome ou pela sede, pelo calor ou pelo frio, pelas correntes de ar ou pela umidade. Nunca mais poderá ser queimado pelo fogo, afogado na água, ferido pela espada ou esmagado sob algum peso; será imortal, imutável, eternamente dotado de perfeita saúde e de força que jamais desfalece. Se alguém na terra pudesse adquirir esse dom da impassibilidade, com que alegria daria tudo o que possui para obtê-lo!

O terceiro atributo é a agilidade. O corpo glorificado será capaz de percorrer as maiores distâncias com a velocidade do pensamento. Num só instante poderá descer do Céu à terra; num só instante poderá passar de uma extremidade dos Céus à outra, sem esforço, sem fadiga, sem dificuldade. Muitas vezes desejamos poder voar como os pássaros, avançar velozmente como as nuvens sobre as asas do vento, acompanhar o pensamento em seu rápido voo. Se fosse possível adquirir tal poder, todos abririam mão de todas as suas riquezas terrenas para possuí-lo, ainda que apenas por um único ano. Como é, então, que te esforças tão pouco para assegurar para ti a posse desse dom por toda a eternidade?

O quarto atributo do corpo glorificado é a sutileza, que consiste na faculdade de penetrar toda matéria, entrando e saindo por onde quer que deseje. Nenhuma parede é tão espessa, nenhum portão de ferro tão maciço, nenhuma montanha tão grande que possa constituir obstáculo para o corpo glorificado. Assim como os raios do sol atravessam o vidro, também os corpos dos redimidos, tal como se encontram no Céu, atravessam toda matéria, por mais densa e sólida que seja. Eles também podem tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade. O que não darias para possuir semelhante faculdade?

Quão grande é a Vossa generosidade, Deus onipotente, para com os vossos eleitos! Vós lhes concedeis dons preciosos e sublimes, que nenhuma quantidade de riquezas deste mundo poderia comprar. Quem não passaria de bom grado a vida ao vosso serviço e não suportaria as aflições deste mundo, a fim de possuir por toda a eternidade esses dons inestimáveis? Pergunta a este pobre e frágil corpo se ele não desejaria ardentemente resplandecer como a luz, estar livre de todo sofrimento, mover-se com a velocidade do pensamento e ser tão livre de impedimentos quanto um espírito. Possuir semelhantes poderes seria, de fato, uma alegria e uma consolação inexprimíveis.

Não consentirias em que te fosse imposta uma dura penitência durante um ano inteiro, se ao fim dele esses atributos te fossem concedidos? Se assim é, não consideres um fardo levar aqui embaixo uma vida de penitência, na esperança de que esses belos dons sejam teus por toda a eternidade. Cuida para que, aqui na terra, ames a luz - a luz das boas obras; suporta com paciência toda dor e tribulação; sê pronto e zeloso no serviço de Deus; mortifica cada vez mais em ti todos os desejos sensuais, e certamente serás, na vida futura, o feliz possuidor desses quatro atributos do corpo glorificado.

Voltemos agora nossa atenção para o prazer e a satisfação que os bem-aventurados experimentarão por meio dos cinco sentidos; e, antes de tudo, consideremos que satisfação encontrarão por meio da visão. A faculdade da visão será tão perfeita que nada poderá ocultar-se aos seus olhos. Verão aquilo que está distante com a mesma nitidez com que veem o que está próximo; o menor objeto tão claramente quanto o maior; as trevas lhes serão tão claras quanto a luz. Sua visão será tão límpida que poderão contemplar o sol sem desviar os olhos, ainda que sua luz fosse cem vezes mais deslumbrante. Sua vista será tão penetrante que nenhum obstáculo poderá impedi-la. 

Pensa agora no deleite que aguarda o teu sentido da visão, quando teus olhos contemplarem pela primeira vez as glórias do Céu. Em primeiro lugar, contemplarão a própria cidade, com seus palácios e moradas, cujo esplendor e majestade são tão grandes que a contemplação dessas magníficas construções proporcionaria agradável ocupação por toda uma eternidade. Em segundo lugar, contemplarás com deleite as belas flores, as árvores, os jardins e todas as outras maravilhas que atrairão o olhar no Céu. Em terceiro lugar, será para ti um prazer inexprimível contemplar a ti mesmo e a todos os outros santos revestidos de beleza, glória, esplendor, graça e majestade, ultrapassando em muito tudo quanto se pode ver neste mundo.

Em quarto lugar, verás a incomparável beleza dos Anjos, pois acredita-se que esses espíritos celestes assumirão corpos de extraordinária formosura, formados do ar, a fim de se tornarem visíveis aos bem-aventurados. Essa opinião é sustentada por Santo Anselmo. E se a beleza de um Anjo excede incomensuravelmente toda a beleza humana, não te alegrarás em contemplar, por toda a eternidade, tantos milhares de seres angélicos, todos de beleza incomparável? Em quinto lugar, sobre nada repousarão teus olhos com tão intenso deleite quanto sobre a inexprimível beleza de Jesus e Maria, cujos corpos glorificados são tão irresistivelmente encantadores, atraentes, belos e majestosos que, se fosse permitido aos condenados contemplá-los, já não considerariam o Inferno insuportável.

Considera agora que fonte inesgotável de deleite será estar contínua e eternamente cercado por visões tão encantadoras e tão sublimes. Nossa inclinação natural leva-nos, aqui embaixo, a empreender longas viagens para contemplar alguma bela paisagem, a despender grandes somas para adquirir algum objeto belo e até mesmo a colocar em perigo nossas almas na busca ardente daquilo que é belo. Se o amor pela beleza está tão profundamente enraizado em nossa natureza, como é estranho que não ansiemos pela beleza do Céu! Por que não fechamos nossos olhos às atrações da terra, para que sejamos considerados dignos de abri-los diante dos esplendores do Céu? 

Da visão, passemos agora à audição. Seria imprudente tentar descrever o prazer que os ouvidos experimentarão ao escutar os cânticos dos Anjos e a suave música de suas harpas. Os nove coros dos Anjos cantarão os louvores de Deus, e os bem-aventurados unir-se-ão a eles não apenas de coração, mas também mesclarão suas vozes nessa doce harmonia. Assim, as faculdades tanto da alma quanto do corpo serão exercitadas, e os louvores de Deus se elevarão em melodiosos hinos e cânticos celestes.

Pois, se nós, mortais, somos impelidos pelo amor fervoroso e pela alegria do coração a elevar nossa voz em cânticos, quanto mais assim farão os santos Anjos e os bem-aventurados santos, todos abrasados pelo amor de Deus e repletos de uma alegria inexprimível! Seus hinos de louvor ressoarão incessantemente pelas moradas do Céu. Em espírito profético, o velho Tobias diz: 'As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todos os seus muros ao redor serão feitos de pedras preciosas; todas as suas ruas serão pavimentadas com pedras brancas e puras, e em suas ruas cantar-se-á: Aleluia' (Tb 13,21-22).

Essas palavras parecem indicar que os redimidos caminharão livremente uns com os outros pela Jerusalém celeste, unindo suas vozes em jubilosos aleluias. Em maravilhosa harmonia, os Anjos e os Santos louvarão e glorificarão o seu Deus. Que felicidade para eles, ó meu Deus! Que doçura, que alegria! Se os cânticos suaves nos alegram aqui e despertam sentimentos elevados em nosso coração, os cânticos dos Anjos e dos Santos certamente nos causarão arrebatamento e deleite quando tivermos a felicidade de ser admitidos em sua bem-aventurada companhia.

Meu Deus e meu tudo! Quão grande é a abundância dos favores que preparastes para aqueles que vos amam! Meu coração tem sede da torrente das alegrias celestes. Verdadeiramente bem-aventurados são aqueles que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Os santos exultarão e se alegrarão nessa glória, e os altos louvores de Deus estarão em seus lábios. Quem me dera que já agora me fosse concedido unir-me a esses cidadãos do Céu e, juntamente com eles, exaltar para sempre o vosso nome! Quando chegará a hora, aquela feliz hora em que me será concedido contemplar a majestade da vossa morada? Até que ela chegue, suportarei com paciência todos os sofrimentos e tribulações deste mundo e tornarei mais luminosa minha jornada por este vale de lágrimas cantando os vossos louvores; bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre em minha boca. Engrandecei comigo o Senhor, ó Anjos e Santos; exaltemos para sempre o seu nome.

Do sentido da audição passemos agora ao olfato. Os deliciosos aromas do Paraíso ultrapassam tudo quanto o homem possa imaginar. Os mais belos lírios, rosas, violetas, cravos e outras flores raras e encantadoras crescem nos jardins do Paraíso celeste, e sua fragrância é tão deleitável que, se um homem possuísse apenas uma pétala de uma dessas flores, ficaria como que arrebatado pela suavidade de seu perfume. 'Israel [isto é, a multidão dos redimidos] florescerá como o lírio, e seu perfume será como o do Líbano' (Os 14,6).

A experiência tem mostrado abundantemente que os corpos dos santos, mesmo enquanto repousam em seus túmulos, já exalam suave fragrância; quão mais intensa será essa fragrância quando forem novamente chamados à vida e glorificados! Acima de todos, os corpos de Cristo e de sua Santíssima Mãe exalarão perfume tão suave que todo o Céu será por ele impregnado. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor, onde seremos revigorados pelos aromas fragrantes que nos envolverão! Pois, se os suaves perfumes nos confortam e reanimam aqui embaixo, certamente os aromas do Paraíso darão força e refrigério aos bem-aventurados.

Até mesmo o sentido do paladar será satisfeito no Céu; não, é verdade, pelo consumo de alimentos comuns, mas de uma maneira que ainda não somos capazes de conceber. Os bem-aventurados saborearão um doce alimento que os saciará, como aprendemos pelas palavras do Salmista real: 'Eles se inebriarão com a abundância da vossa casa, e Vós os fareis beber da torrente de vossas delícias' (Sl 35,9). 

O sentido do tato terá igualmente o seu prazer particular. Quanto mais alguém se tiver mortificado aqui na terra, maior será o bem-estar de seu corpo na vida futura. Santo Anselmo diz: 'Na vida futura, os santos experimentarão uma sensação de conforto e bem-estar inexprimíveis. Essa agradável sensação penetrará todos os membros, produzindo um maravilhoso sentimento de paz e contentamento'. Com efeito, o que poderia faltar ao corpo glorificado no Céu? Ele gozará de saúde perpétua, repouso perpétuo e felicidade perpétua, de tal maneira que, na superabundância de alegria e satisfação, mal poderá compreender quão invejável é a sua condição.

Finalmente, os redimidos encontrarão imenso prazer em contemplar uns aos outros, em conversar entre si, no convívio afetuoso e na amizade recíproca. Pensa que bela visão será contemplar centenas de milhares de seres em todo o esplendor de seu estado glorificado. Se na terra consideramos agradável contemplar um belo rosto, podemos compreender, ainda que apenas em pequena medida, como será no Céu, onde o mais humilde de seus habitantes possuirá uma beleza que ultrapassa em muito os encantos pessoais de qualquer homem mortal.

Além disso, os redimidos estarão unidos entre si pelo vínculo da caridade mútua, pois amar-se-ão uns aos outros mais ternamente do que os mais afetuosos irmãos e irmãs. Ainda que jamais tenham se encontrado na terra, conhecer-se-ão melhor do que se tivessem sido criados juntos. Cada um conhecerá os acontecimentos da vida terrena do outro. Cada um poderá ver o coração do outro e saber quão grande é a afeição que este lhe dedica. Cada um se alegrará com a glória do outro como se fosse a sua própria; e o mais humilde no Reino dos Céus exultará com a glória do mais elevado tanto quanto este próprio poderá exultar. Isso foi explicado a Santo Agostinho por São João Batista em uma visão: 'Sabe” - disse-lhe ele - 'que, por causa da inexprimível caridade que os bem-aventurados têm uns pelos outros, cada qual não sente menor alegria pela exaltação do outro do que sentiria se ela fosse sua. Mais ainda: aquele que é maior deseja que o menor lhe seja igual e até mais honrado do que ele próprio; pois, no triunfo deste, ele também triunfaria. Da mesma maneira, aqueles que ocupam um lugar mais humilde alegram-se com a glória dos que ocupam os lugares mais elevados; não os invejam, longe disso. Não desejariam para si a elevada posição se os outros não a possuíssem; antes lhes dariam uma parte de sua própria glória, se isso fosse possível'.

Daí se pode compreender que os santos se alegram com o esplendor com que seus companheiros são coroados e nutrem por todos e por cada um deles uma afeição sincera e profunda. De modo especial, amam aquele que, por sua palavra ou por seu exemplo, os ajudou no caminho para o Céu; a esse não sabem como manifestar suficientemente sua gratidão. Cada um sentirá também particular afeição pelo santo que escolheu como seu padroeiro na terra e a quem honrou com especial devoção; e essa afeição será correspondida por aquele a quem foi dirigida. Aqueles que estiveram assim ligados uns aos outros encontrar-se-ão com maior frequência; conversarão sobre coisas santas e contarão mutuamente suas experiências na terra, narrando como, de maneira maravilhosa, a Providência de Deus os salvou da perdição eterna. Em suma, serão incontáveis os prazeres proporcionados aos redimidos por esse convívio, e eles farão tudo quanto estiver ao seu alcance para agradar uns aos outros e demonstrar mutuamente sua bondade.

Ó Deus de todas as misericórdias! Quem não desejaria entrar nessa terra de paz eterna, onde existem alegrias que ultrapassam tudo quanto o homem mortal pode conceber, alegrias tão numerosas e variadas, tão maravilhosas e tão doces! Às vezes, os prazeres deste mundo exercem tamanho fascínio sobre o homem que ele não consegue renunciar a eles, ainda que veja o Inferno aberto diante de si. E, no entanto, esses prazeres são menos que nada quando comparados às alegrias do Céu; na verdade, todas as alegrias que alguém possa imaginar ou desejar para si não podem igualar sequer a menor e mais humilde das alegrias que serão nossas por toda a eternidade! Ó meu Deus, quão inexprimível será a bem-aventurança do Céu! Que me seja concedida a felicidade de participar dessa ventura!

Movido por esse desejo, não vos darei descanso; todos os dias vos suplicarei que me leveis para junto de Vós. Desprenderei meu coração deste mundo; renunciarei inteiramente a todos os prazeres terrenos; todas as minhas aspirações, todos os meus afetos estarão voltados para os tesouros celestes, e todos os dias me conservarei pronto para abandonar este cenário terreno. Quanto mais cedo a morte vier buscar-me, tanto mais bem-vinda será, pois deixarei esta terra de exílio e entrarei em minha verdadeira pátria. Que Deus conceda que assim seja. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)