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domingo, 17 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

        

'Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta' (Sl 46)

Primeira Leitura (At 1,1-11) - Segunda Leitura (Ef 1,17-23) - Evangelho (Mt 28,16-20)

  17/05/2026 - SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR 

'IDE E FAZEIS DISCÍPULOS MEUS TODOS OS POVOS' 


Antes de subir aos Céus, Jesus manifesta a seus discípulos (de ontem e de sempre) as bases do verdadeiro apostolado cristão, a ser levado a todos os povos e nações: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!' (Mt 28,18 - 20). Ratificando as mensagens proféticas do Antigo Testamento, Nosso Senhor imprime diretamente no coração humano os sinais da fé sobrenatural e da esperança definitiva na Boa Nova do Evangelho, que nasce, se transcende e se propaga com a Igreja de Cristo na terra.

Antes de subir aos Céus, Jesus nos fez testemunhas da esperança: 'Vós sereis testemunhas de tudo isso' (Lc 24,48). Pela ação de Pentecostes, pela efusão do Espírito Santo, pela manifestação da 'Força do Alto', os apóstolos tornar-se-iam instrumentos da graça e da conversão de muitos povos e nações. Na mesma certeza, somos continuadores dessa aliança de Deus com os homens, na missão de semear a Boa Nova do Evangelho nos terrenos áridos da humanidade pecadora para depois colher, a cem por um, os frutos da redenção nos campos eternos da glória. Como missionários da graça, 'que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos' (Ef 1,18).

E a sua derradeira proclamação aos discípulos é a sua promessa de estar sempre junto aos homens de todos os tempos, até a consumação dos séculos: 'Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo' (Mt 28,20). Promessa que tem, para nós, membros do seu Corpo Vivo, que é a Santa Igreja, a dimensão de uma vitória antecipada, na feliz esperança de sermos partícipes de sua glória.

E Jesus se eleva diante dos seus discípulos e sobe para os Céus. Jesus vai primeiro porque é o Caminho e para preparar para cada um de nós 'as muitas moradas da casa do Pai'. Na solenidade da Ascensão do Senhor, a Igreja comemora a glorificação final de Jesus Cristo na terra, como o Filho de Deus Vivo e, ao mesmo tempo, imprime na nossa alma o legado cristão que nos tornou, neste dia, testemunhas da esperança eterna em Cristo e herdeiros dos Céus.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIX)

          

PARTE III - O INFERNO

I. Sobre o fogo do Inferno

Apesar de, nos dias de hoje, muitos negarem a existência do Inferno ou, pelo menos, a eternidade do castigo, não consideramos que nos caiba apresentar uma série de provas de que existe um lugar chamado Inferno. No caso do leitor cristão, a quem este livro se destina, evidências dessa natureza são totalmente supérfluas, pois ele não terá naufragado em sua fé. De fato, que outras provas podem ser necessárias para a existência do Inferno e a eternidade do castigo, visto que os profetas, o próprio Cristo, os apóstolos e os Padres da Igreja, e até mesmo os turcos e os pagãos, falam disso como um fato inquestionável? Aqueles que negam a existência do Inferno devem, consequentemente, ser contados entre os tolos que dizem em seu coração que não há Deus que castigue as suas más ações.

Seria, sem dúvida, muito agradável para essas pessoas se tudo terminasse com esta vida, se não houvesse dia do Juízo Final ou se, pelo menos, as regiões infernais fossem um pouco menos intoleráveis. Isso explica por que se agarram a quaisquer argumentos aparentes com os quais se iludam e adormeçam seu medo dos castigos eternos do Inferno. Não entraremos em qualquer análise dos sofismas miseráveis com os quais esses tolos se enganam; pois o ensinamento da Igreja Católica sobre este ponto é tudo o que precisamos. Ela ensina que há um lugar ou estado de dor inigualável e sem fim reservado para os condenados.

Sabemos que realmente há fogo no Inferno, pelas palavras que Cristo dirigiu aos ímpios: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos' (Mt 25,41). Isso mostra que há fogo real no Inferno e que nele os condenados devem arder eternamente. Qual será a intensidade dessa dor está além do poder do homem descrever. Pois, de todos os variados tipos de sofrimento físico a que o homem pode ser submetido, não há nenhum tão grande, tão cruel, tão agonizante quanto aquele causado pelo fogo. Suplícios ou a amputação dos membros de um homem são exemplos de torturas terríveis, mas não se comparam à dor da queimadura. Basta tocar um ferro em brasa para sentir que dor excruciante isso causa! Em um instante a pele se desprende, a carne viva se expõe, sangue e matéria escorrem da ferida, e a dor penetra até a medula dos nossos ossos. Não se pode evitar gritar e urrar como se tivéssemos perdido os sentidos. Ora, se o contato momentâneo com o ferro em brasa causa dor tão aguda, como seria se tivéssemos de segurar um ferro em brasa por algum tempo!

Agora, imagine que você fosse condenado a ser queimado vivo por seus pecados e, durante um dia inteiro, permanecesse em meio às chamas, incapaz de morrer. Como chorarias e gemerias lastimosamente, como gritarias e rugirias alto em tua agonia, de modo que os gritos de partir o coração arrancados de ti pela tortura que suportas não apenas fariam os espectadores estremecerem, mas os encheriam de sincera compaixão. Aquele homem deveria ter, de fato, um coração de pedra para suportar olhar impassível tal espetáculo.

Em pouco tempo, tu serias queimado a tal ponto que não serias mais reconhecível, reduzido à aparência de uma brasa incandescente. Agora, reflete, ó cristão: se a ação do fogo terreno causa agonia tão intolerável, qual será a tortura do fogo do Inferno, cujo calor é incomparavelmente mais intenso e penetrante do que o de qualquer fogo com o qual estamos familiarizados? E se perguntares por que o fogo do Inferno deve exceder tanto o fogo terreno na intensidade de seu calor, há várias razões que explicam esse fato.

Em primeiro lugar, todos sabem que quanto maior o fogo, maior o calor que ele exala. A chama de uma vela de cera não é muito quente, mas se a vela inteira estiver queimando de uma só vez, a chama que dela se eleva é muito mais quente. Quando uma casa está em chamas, o calor nas imediações é muito intenso, mas se uma aldeia inteira estiver em chamas, o calor da conflagração torna-se insuportável mesmo à distância. Se tal é o efeito produzido pelo fogo da terra, que é comparativamente pequeno em sua extensão, qual será a ação do fogo do Inferno, que é incomensuravelmente maior do que qualquer incêndio visto na terra!

Em segundo lugar, um fogo confinado em uma fornalha arde com muito mais intensidade do que se estivesse ao ar livre, porque o calor, ao estar confinado, não pode escapar nem se difundir, nem ser atenuado pelo ar circundante. Se assim é, com que fúria as chamas da imensa fornalha do Inferno irão arder, com que intensidade irão brilhar! Suponha-se uma desgraça como a de um homem ser lançado em um forno de cal, ou em uma fornalha aquecida até ficar incandescente: quão terríveis seriam seus sofrimentos!

A razão seguinte pela qual o fogo do Inferno supera em intensidade de calor todos os outros fogos é que ele é aceso pelo sopro de Deus. Pois o profeta Isaías diz: 'Vede! É o nome do Senhor que vem de longe, sua cólera é ardente, uma nuvem pesada se levanta, seus lábios respiram furor, e sua língua é como um fogo devorador. Seu sopro assemelha-se a uma torrente transbordante cuja água sobe até o pescoço. Ele passará as nações no crivo destruidor' (Is 30,27-28). E ainda: 'um lugar de incineração está preparado também para Tofet [inferno], cavado, profundo e largo; palha e lenha ali há em quantidade, e o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, o acenderá' (Is 30,33).

Que descrição terrível é aqui dada do Inferno e de seu fogo torturante. Não digam que, nessas e em outras passagens conhecidas da Sagrada Escritura, as expressões empregadas são meras figuras de linguagem, pelas quais os profetas predisseram os julgamentos divinos prestes a recair sobre as nações pecadoras, e que não devem ser tomadas em sentido literal, como se referindo ao Inferno e às suas punições. Não nos iludamos. Essas imagens devem, é verdade, ser entendidas, em seu significado primário, como indicando a condenação das nações pecadoras; mas, num sentido mais amplo e elevado, de acordo com a interpretação que lhes dão os exegetas das Escrituras, são previsões do castigo judicial que, após o Juízo Final, será a sorte dos pecadores réprobos.

Santa Brígida afirma com razão em suas revelações: 'O calor do fogo do Inferno é tão grande que, se o mundo inteiro estivesse envolto em chamas, o calor de tal incêndio seria como nada em comparação com ele'. Daí aprendemos que aquele fogo terreno não tem mais semelhança com o fogo do Inferno do que a fraca chama de uma vela de cera com o calor branco de uma fornalha incandescente. Lembre-se disso, ó pecador, e leve tudo em alta consideração! São Agostinho nos diz que o fogo mais temível da terra é, em comparação com o fogo do Inferno, como uma pintura de fogo comparada a um fogo real. Quando vires um fogo, lembra-te do fogo do Inferno. E já que não suportarias colocar a mão por um único instante nesse fogo, pensa em como deve ser o calor do fogo do Inferno, que supera infinitamente o pequeno fogo que vês diante de ti. Se não consegues suportar isto, como poderás suportar o outro? 

Ficou agora claro que os condenados serão um dia lançados, de corpo e alma, na enorme e terrível fornalha do Inferno, no imenso lago de fogo, onde estarão rodeados por chamas. Haverá fogo abaixo deles, fogo acima deles, fogo por toda a parte à sua volta. Cada respiração será o sopro escaldante de uma fornalha. Essas chamas infernais penetrarão em cada parte do corpo, de modo que não haverá parte ou membro, por dentro ou por fora, que não esteja mergulhado no fogo.

Quão desesperados serão os gritos, quão agonizantes os gemidos que subirão deste abismo de tortura! 'Ai de nós, criaturas miseráveis! Ai de nós mil vezes! Estamos sendo torturados nesta chama! A dor excruciante permeia cada membro do nosso corpo; a agonia intolerável não nos deixa descanso! Se ao menos pudéssemos morrer, se ao menos pudéssemos morrer para escapar desta tortura terrível! Ai de nós, este desejo é em vão! Mortos no que diz respeito à vida da alma, mortos porque perdemos a graça, a misericórdia de Deus, estamos ainda condenados a viver, a viver para todo o sempre! Que privilégio seria para nós a morte, a aniquilação! Mas ela nos escapa; não podemos mais esperar que venha para nos libertar desta miséria, desta tortura, da fornalha do Inferno. Ai de nós, quão grande foi a nossa loucura! Por prazeres fúteis de um momento, incorremos nesta miséria intolerável, uma miséria que perdurará por toda a eternidade'.

'Compreendei bem isto' - diz Davi - 'vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve' (Sl 49,22). Escuta isto, ó pecador, e deixa que as lamentações dos perdidos te sirvam de lição. Imagina para ti mesmo a fossa de fogo na qual essas criaturas miseráveis têm de expiar os seus pecados. Tu aceitarias, perguntamos novamente, por qualquer quantia de dinheiro, por maior que fosse, passar um único dia imerso nessas chamas? Não, nem por todo o mundo tu aceitarias permanecer naquele fogo por uma única hora. Se assim é, por que, em nome de algum prazer pecaminoso, de algum ganho injusto, tu te lanças voluntariamente para sempre no fogo do inferno? Ó que loucura, que loucura consumada! Que Deus conceda que esses pecadores cegos sejam iluminados, para que tomem consciência da imprudência de sua conduta e se dediquem a tempo às coisas que dizem respeito à sua salvação.

ORAÇÃO

Ó Deus de justiça! Quão grande é a vossa ira e quão todo-poderoso é o vosso ódio ao pecado e ao pecador! Ai de mim e de todos aqueles que têm a terrível infelicidade de cometer pecado mortal. Que Deus me preserve de tal pecado, que seria o meio de me lançar na perdição eterna. Sofrirei de bom grado todas as coisas, as maiores tribulações temporais, as dores mais agudas, até mesmo a morte mais cruel, de modo a escapar do tormento eterno no Inferno. Este é o meu firme propósito; por isso, concedei-me a vossa graça e fortalecei-me nesta minha boa resolução.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 10 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

        

'Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, cantai salmos a seu nome glorioso!' (Sl 65)

Primeira Leitura (At 8,5-8.14-17) - Segunda Leitura (1Pd 3,15-18) - Evangelho (Jo 14,15-21)

  10/05/2026 - SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA 

'NÃO VOS DEIXAREI ÓRFÃOS, EU VIREI A VÓS'


A liturgia deste Sexto Domingo da Páscoa é centrada na ação santificadora do Espírito Santo, nas almas e na vida da Igreja, como primícias da Festa de Pentecostes que se aproxima. A graça santificante, que nos torna filhos adotivos de Deus, nos é atribuída pela apropriação do Divino Espírito Santo, na chamada 'inabitação trinitária', que procede e se faz na encarnação do próprio Deus, Uno e Trino, em nossas almas.

Estamos inseridos no contexto dos capítulos do Evangelho de São João, que integram o chamado 'testamento espiritual' de Cristo, que reproduzem o longo discurso feito por Jesus aos seus discípulos, logo após o banquete pascal, e no qual o Senhor expõe e revela, de forma abrangente e maravilhosa, a síntese e a essência dos seus ensinamentos e da sua doutrina. Doutrina que se resume no amor sem medidas, no chamado a viver plenamente a presença de Jesus Ressuscitado em nossas vidas, como testemunhas da fé e da fidelidade aos seus mandamentos: 'Se me amais, guardareis os meus mandamentos' (Jo 14,15).

Eis aí o legado de Jesus aos seus discípulos: a graça e a salvação são frutos do amor, que é manifestado em plenitude, no despojamento do eu e na estrita submissão à vontade do Pai: 'Amai ao Senhor vosso Deus com todo vosso coração, com toda vossa alma e com todo vosso espírito. Este é o maior e o primeiro dos mandamentos' (Mt 22,37-38). A graça nasce, manifesta-se e se alimenta do nosso amor a Deus, pois 'quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele' (Jo 14,21). Nos mistérios insondáveis de Deus, somos transformados no batismo, pela infusão do Espírito Santo em nossas almas, em tabernáculos da Santíssima Trindade, moradas provisórias do Pai, do Filho e do Espírito Santo, como sementes da glória antecipada das moradas eternas na Casa do Pai.

A presença permanente da Santíssima Trindade em nossas vidas vem por meio da manifestação do Espírito Santo, o Defensor, o Paráclito, conforme as palavras de Jesus: 'Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós' (Jo 14,18) e ainda 'eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco' (Jo 14,16). Como templos do Espírito Santo e tabernáculos da Santíssima Trindade, somos moldados como obras de Deus para viver em plenitude o Espírito da Verdade. Sob a ação do Espírito Santo, podemos, então, trilhar livremente o caminho da santificação, até os limites de um despojamento absoluto do próprio ser para a plena manifestação da glória de Deus em nós.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

STAT CRUX DUM VOLVITUR ORBIS

A expressão Stat Crux dum volvitur orbis - 'A cruz permanece enquanto o mundo gira' - é o lema oficial da Ordem dos Cartuxos, fundada por São Bruno em 1084. Num mundo onde tudo muda, onde as verdades são relativizadas e a fé é contestada a cada instante, a Cruz de Cristo é a única coisa que permanece firme e inabalável. A Cruz não é apenas símbolo de sofrimento: é o caminho para a verdadeira liberdade. Liberta do pecado, do egoísmo, da escravidão do mundo. Abraçá-la significa crer que - mesmo que tudo ao redor desabe - Deus permanece fiel. Seu amor não muda. Suas promessas se cumprem e são eternas. Veja os cinco passos de como aplicar essa verdade eterna na vida cotidiana, num mundo em que tudo muda a toda hora.

1. Oração centrada na Cruz

  • Dedique diariamente um momento à contemplação do Crucifixo. 
  • Medite sobre a Paixão de Cristo: em suas chagas estão as suas. 
  • Reze a Via Sacra toda sexta-feira – ou ao menos na Quaresma. 
  • Invoque o Espírito Santo para que lhe revele o que Deus quer lhe mostrar por meio da Cruz. 

2. Discernimento à luz da Cruz

  • Antes de cada decisão importante: Qual escolha me aproxima mais de Cristo Crucificado?
  • Não escolha o que é mais confortável, mas o que leva ao amor verdadeiro, ao sacrifício, à verdade. 

3. Acolhimento da própria cruz

  • Cada um carrega uma cruz: não a desperdice.
  • Ofereça-a unida à Cruz de Cristo - pelos outros, pela Igreja, pela conversão do mundo.
  • Não rejeite a cruz: ela purifica e liberta.

4. Estabilidade espiritual em tempos de confusão

  • Permaneça fiel aos sacramentos - especialmente à Confissão e à Eucaristia. 
  • Esteja enraizado na doutrina sã - alimentada pela Palavra de Deus e pelo Magistério fiel da Igreja. 
  • Evite modismos espirituais e ideologias passageiras. 
  • Pergunte-se sempre: Isto está em conformidade com a Cruz de Cristo e com a Igreja fundada por Ele?

5. Viver com o olhar na eternidade

  • A Cruz nos recorda que a vida não termina aqui.
  • Cada sofrimento, cada esforço, unido a Cristo, tem valor eterno. 
  • A Cruz conduz à Ressurreição - não se esqueça disso nos momentos escuros.
(excertos de texto publicado originalmente em Catholicus.eu em português)

domingo, 3 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

       

'Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em Vós nós esperamos!' (Sl 32)

Primeira Leitura (At 6,1-7) - Segunda Leitura (1Pd 2,4-9) - Evangelho (Jo 14,1-12)

  03/05/2026 - QUINTO DOMINGO DA PÁSCOA 

'EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA'


Jesus inicia o Evangelho deste Quinto Domingo da Páscoa manifestando o poder de sua Divindade e da autêntica fé cristã: 'Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tendes fé em mim também' (Jo 14,1). Sim, a medida do nosso amor é a confiança em Deus e nos desígnios da Providência Divina. Que nada além desta disposição interior, de colocar tudo nas mãos de Deus, seja o nosso conforto e consolação. Deus governa todas as coisas e sabe, muito além de nós mesmos, como nos levar a uma mais perfeita santificação. Ele nos cumula de bênçãos e graças, nos chama a cada nova situação, nos clama pela nossa confiança quando aparentemente nos abandona.

Em seguida, confia aos discípulos que eles são herdeiros do Reino dos Céus, a pátria eterna dos bem aventurados, os que colherão com fartura os frutos das sementes de amor e confiança plantadas no Coração do Pai: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós e, quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós' (Jo 14,2-3). Nos mistérios insondáveis de Deus, as moradas são muitas e desiguais, sem que os eleitos padeçam dessa desigualdade pois todos serão igualmente possuidores da Visão Beatífica e serão cumulados plenamente da glória que lhes bastam.

É o próprio Jesus que nos vai abrir as portas do Céu, com a sua Paixão, Morte e Ressurreição. Ao romper as portas celestes, antes seladas pelos pecados dos homens, Jesus torna-se o rei de um reino que não é deste mundo e que tem as dimensões da eternidade. Um reino de muitas moradas, preparadas por Jesus para cada um de nós, filhos da esperança transformados em herdeiros das bem aventuranças celestes. E, assim, por meio de Jesus, chegaremos ao Pai, a habitação eterna: 'Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim' (Jo 14,11).

Jesus vai ratificar esta premissa essencial da fé cristã com clareza divina: 'Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim' (Jo 14,6). Não há outro caminho possível, não há opções de rumo, nem atalhos, nem passagens ocultas. Por isso Jesus é tão explícito ao unir, no anúncio pleno de sua divindade, os termos Caminho, Verdade e Vida. Só existe um Caminho de Verdade para a Vida Plena dos herdeiros dos Céus: seguir Jesus com confiança extremada e jubilosos na fé que abraçamos, e que nada nem ninguém nos perturbe o coração nesta caminhada de salvação para as eternas moradas de Deus.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVIII)

         

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XIII. Como os bem aventurados serão levados ao Céu após o Juízo Final 

Quando a terra se abrir e engolir as almas dos condenados, então os anjos e os bem-aventurados exultarão e se alegrarão. Eles exaltarão a justiça de Deus e confessarão que os réprobos mereceram plenamente o seu destino. São João, em seu Apocalipse, oferece uma bela descrição de como os bem-aventurados se alegrarão e glorificarão a justiça de Deus.

Vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios... porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribuí-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos... Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa' (Ap 18,1-2.5-7.20).

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos'. Depois recomeçaram: 'Aleluia! Sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos'. Então, os vinte e quatro Anciãos e os quatro Animais prostraram-se e adoraram a Deus que se assenta no trono, dizendo: 'Amém! Aleluia!'. Do trono saiu uma voz que dizia: 'Cantai ao nosso Deus, vós todos, seus servos que o temeis, pequenos e grandes'... 'Aleluia! Eis que reina o Senhor, nosso Deus, o Dominador!' Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada... 'Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro' (Ap 19,1-7.9).
 
Essas palavras, de fato, apresentam uma perspectiva maravilhosa. Quão excelente não será o canto de triunfo dos santos quando entrarem como convidados nas bodas do Cordeiro! Quão em regozijo cantarão Aleluia! Quão fervorosamente agradecerão a Deus por tê-los livrado da condenação eterna e por tê-los contado entre os seus eleitos!

A ascensão ao Céu ocorrerá em seguida. Será que alguém ousa descrever isso também? As mais doces melodias encherão o ar. São Miguel liderará a gloriosa procissão, carregando a cruz na qual Cristo morreu. Pois a cruz e todos os outros instrumentos da Paixão serão preservados no Céu - pelo menos essa é a opinião de vários teólogos eruditos. Seguindo essas relíquias sagradas, virá o primeiro coro de Anjos, juntamente com aqueles membros da companhia dos salvos a quem a sentença de Cristo designou um lugar no mais baixo dos coros angélicos. As crianças que morreram na infância e as almas que persistiram no pecado até o fim, mas que foram salvas pela infinita misericórdia de Deus e pelo verdadeiro arrependimento de sua parte, estarão com o primeiro coro de anjos. Com que fervor elas louvarão seu Deus por sua compaixão indescritível!

Em seguida virá o coro dos arcanjos, e com eles os santos que mereceram um lugar neste segundo coro angelical. Casais tementes a Deus, viúvas devotas, além de outras pessoas piedosas que viveram no mundo, adornadas com maravilhosa beleza, louvarão e glorificarão a Deus junto com os arcanjos. Em terceiro lugar virá o coro das potências, entre os quais estarão todos os sacerdotes que levaram uma vida santa na terra. Em seguida, virá o coro dos principados, com todos os bispos e prelados santos que governaram a Igreja para a glória de Deus e a salvação daqueles que lhes foram submetidos.

O coro das virtudes virá em quinto lugar, com os doutores da Igreja e todos aqueles que, por meio de sua doutrina e pregação, converteram os incrédulos e os conduziram ao conhecimento da verdadeira fé. Em sexto lugar, virá o coro das dominações, com os confessores que sofreram grande perseguição pela fé e morreram na miséria e na indigência por amor a Cristo. O coro dos tronos seguirá em seguida, com os santos mártires que derramaram o seu sangue e de bom grado entregaram suas vidas pelo nome de Cristo.

O oitavo coro é o dos querubins, entre cujas fileiras estarão aquelas santas virgens que não apenas mantiveram sua castidade imaculada, mas que, consumidas pela caridade divina, levaram uma vida de altíssima perfeição. O nono e mais elevado dos coros angélicos é o dos serafins. Com eles estarão os santos apóstolos e servos de Cristo, que, seguindo os passos do Redentor, viveram na terra uma vida semelhante aos anjos. Em suma, a cada um dos bem-aventurados será designado o seu lugar em qualquer um dos coros angélicos cuja companhia suas virtudes o tornem mais adequado.

Quão gloriosa será a procissão dos coros, e quão melodiosos serão os cânticos celestiais que entoarão! As palavras nos faltam quando tentamos descrevê-la. E para encerrar o cortejo triunfal, virá o Rei do Céu e da terra, coroado de esplendor, Cristo, o Filho primogênito do Pai celestial, acompanhado por sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria. Ele estará rodeado de tal beleza e majestade que o Céu e a terra, e os Anjos e os homens, ficarão maravilhados. De fato, essa ascensão ao Céu será, em todos os aspectos, acompanhada de tal grandeza e glória, será tão inexprimivelmente sublime e bela, que nem mesmo os lábios de um Anjo conseguiriam dar sequer uma ideia do que poderia ser.

Considerai qual não será o êxtase dos redimidos quando se elevarem no ar, tanto em alma quanto em corpo, como se fossem espíritos puros, subindo cada vez mais alto, além dos orbes resplandecentes do Céu com seu brilho dourado, aproximando-se cada vez mais da Jerusalém celestial, a cidade de Deus. Que alegria indescritível os embriagará quando entrarem pelos portões dourados e contemplarem o esplendor e a magnificência da cidade de Deus. Quando a Rainha de Sabá viu a magnificência do palácio de Salomão, ficou sem palavras de espanto. Mas ali está alguém maior do que Salomão, e a majestade e a beleza do palácio do Rei dos reis serão infinitamente maiores do que as de qualquer monarca terreno. Daí podemos supor qual será o êxtase bem-aventurado dos abençoados, quando lhes for concedido contemplar o que Deus preparou para aqueles que o amam.

Não desejas, ó piedoso cristão, habitar com os redimidos e desfrutar das delícias indescritíveis da cidade de Deus, a Jerusalém celestial? Certamente que o desejas. Todos nós temos dentro de nós um impulso poderoso, um anseio ardente por felicidade e alegria. Não busques essa felicidade, não te esforces para garantir a alegria pela qual tua alma anseia neste vale de lágrimas. Levanta os teus olhos para a terra que está acima, que essa seja a tua meta, e um dia subirás às alturas com cânticos de júbilo. Que Deus conceda a ti e a mim que, por sua graça, esse destino feliz seja a nossa parte.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 26 de abril de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

      

'O Senhor é o pastor que me conduz; para as águas repousantes me encaminha' (Sl 22)

Primeira Leitura (At 2,14a.36-41) - Segunda Leitura (1Pd 2,20b-25) - Evangelho (Jo 10,1-10)

  26/04/2026 - QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA 

O BOM PASTOR


No Quarto Domingo da Páscoa, ressoa pela cristandade a imagem e a missão do Bom Pastor: 'Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz' (Jo 1,2 - 4). Jesus, o Bom Pastor, conhece e ama, com profunda misericórdia, cada uma de suas ovelhas desde toda a eternidade. Criadas para o deleite eterno das bem-aventuranças, redimidas pelo sacrifício do calvário e alimentadas pela sagrada eucaristia, Jesus acolhe as suas ovelhas com doçura extrema e infinita misericórdia.

E Jesus, plasmado pelo amor divino, conhece cada uma das suas ovelhas pelo nome. Nada, nem coisa, nem homem, nem demônio algum, poderá nos apartar do amor de Deus. Porque este amor, sendo infinito, extrapola a nossa condição humana e assume dimensões imensuráveis. Ainda que todos os homens perecessem e a humanidade inteira ficasse reduzida a um único homem, Deus não poderia amá-lo mais do que já o ama agora, porque todos nós fomos criados, por um ato sublime e extraordinariamente particular da sua Santa Vontade, como herdeiros dos céus e para a glória de Deus: 'Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória por toda a eternidade!' (Rm 11,36).

Jesus toma sobre os ombros a ovelha de sua predileção, cada um de nós, a humanidade inteira, para a conduzir com segurança às fontes da água da vida (Ap 7,17), onde Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos. E nos mostra o caminho: 'Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem' (Jo 1,9). Somos chamados a uma vida de predileção na Casa do Pai, que homem algum jamais pôde sequer imaginar o que poderia ser viver a eternidade na glória de Deus: 'Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância' (Jo 1,10).

Reconhecer-nos como ovelhas do rebanho do Bom Pastor é manifestar em plenitude a nossa fé e esperança em Jesus Cristo, Deus Único e Verdadeiro, cuja bondade perdura para sempre e cujo amor é fiel eternamente (Sl 99,5). Como ovelhas do Bom Pastor, não nos basta ouvir somente a voz da salvação; é preciso segui-lo em meio às provações da nossa humanidade corrompida, confiantes e perseverantes na fé, até o dia dos tempos em que estaremos abrigados eternamente na tenda do Pai, lavados e alvejados no sangue do Cordeiro (Ap 7,14b).

domingo, 19 de abril de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

     

'Vós me ensinais vosso caminho para a vida;
junto de vós felicidade sem limites!' (Sl 15)
 
Primeira Leitura (At 2,14.22-33) - Segunda Leitura (1Pd 1,17-21) - Evangelho (Lc 24,13-35)

  19/04/2026 - TERCEIRO DOMINGO DA PÁSCOA 

NO CAMINHO PARA EMAÚS


No caminho para Emaús, cidadezinha distante pouco mais de 10km de Jerusalém, Jesus vai manifestar, mais uma vez, a glória da Ressurreição aos seus discípulos. Como que por acaso, Jesus os toma para si na longa caminhada, numa contemplação aparente de um mero convívio humano, nascido das circunstâncias de três peregrinos na mesma direção: 'quando eles iam conversando e discorrendo entre si, aproximou-se deles o próprio Jesus e caminhou com eles' (Lc 24,15). Não há nada de circunstancial ou de mera rotina neste encontro sobrenatural: tal grande manifestação da graça de Deus faz dele um evento singular e extraordinário.

E, de algum modo absolutamente sobrenatural, os discípulos não reconhecem Jesus, a exemplo daqueles que o encontraram às margens do mar de Tiberíades e também não o reconheceram a princípio (Jo 21,4). Movidos pelas emoções humanas, retratam a Paixão e Morte do Senhor àquele 'único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias' (Lc 24,18). Eles se referiram ao Senhor como um profeta poderoso, muito provavelmente ciente dos riscos de serem denunciados e presos por proclamarem a um desconhecido a condição de serem discípulos daquele que deveria libertar Israel, de acordo com as suas próprias motivações e perspectivas.

No caminho para Emaús, os dois discípulos expressam, num turbilhão de emoções, os sentimentos de angústia, tristeza, decepção, perturbação e esperança. E é esta esperança que vai torná-los testemunhas do amor. Jesus os repreende pela perturbação que se levanta como o pó da estrada; Jesus os orienta, por meio dos textos bíblicos, no caminho da santificação plena e no entendimento de toda Verdade de Deus. Jesus ilumina para sempre os seus corações, na tarde ensolarada que declina.

E, ficando com eles, o Senhor vai manifestando, mais uma vez, o mistério concreto da Santa Eucaristia como a permanência de Deus Vivo entre os homens: 'Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles' (Lc 24,30-31). Como os dois discípulos de Emaús, na Santa Eucaristia, nós reconhecemos e, mais do que reconhecer, nós ficamos com Jesus, na poeira das estradas do mundo, na certeza da caminhada rumo à eternidade com Deus.

sábado, 18 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVII)

        

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XII. Como os condenados lamentarão e serão lançados no inferno

Sabemos, pelo testemunho das próprias palavras de Cristo que, aos condenados, será permitido falar com Ele, depois de terem recebido sua sentença. Então (isto é, após a sentença ter sido pronunciada), Ele nos diz: 'Eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te servimos? (Mt 25,44).

Quando as almas perdidas perceberem que não há mais nenhum resquício de esperança de que sua terrível sentença de condenação possa ser atenuada, elas, em seu desespero, proferirão horríveis imprecações: 'malditos sejam os pais que nos deram à luz; malditos sejam todos aqueles que nos levaram ao pecado; malditos sejam todos os homens que viveram conosco nesta terra; maldito seja Aquele que nos criou; maldito seja o sangue de Cristo, com o qual fomos redimidos; malditos sejam todos os santos de Deus!'

O que fará o Juiz Divino quando os ouvir injuriar a Deus dessa maneira chocante? Quando Ele próprio, diante do conselho judaico, reconheceu que era o Filho de Deus, o sumo sacerdote Caifás rasgou suas vestes e clamou em alta voz: 'Ele blasfemou; agora que ouviram a blasfêmia, o que pensam?' E o povo, respondendo, disse: 'Ele é digno de morte'. A mesma cena se repetirá agora, só que será mil vezes mais terrível. Quando Cristo ouvir essas blasfêmias, Ele exclamará, em santa indignação: 'Eles blasfemaram contra Deus, amaldiçoaram a mim e aos meus santos! Vocês mesmos ouviram, agora o que pensam?' Então, todos os anjos e santos responderão: 'Eles são dignos da morte eterna, das dores eternas do inferno! Levai-os para o lugar do tormento, levai-os para o fogo eterno!'

Então se cumprirá o que está predito no livro da Sabedoria: 'O Juiz Divino tomará o zelo como sua armadura e armará a criatura para a vingança dos seus inimigos. Ele vestirá a justiça como couraça e tomará o verdadeiro julgamento em vez de um elmo. Ele tomará a equidade como escudo invencível e afiará a sua ira severa como lança, e o mundo inteiro lutará com Ele contra os insensatos. Então, raios sairão diretamente das nuvens, como de um arco bem tensionado. Serão disparados e voarão em direção ao alvo. E granizo espesso será lançado sobre eles pela ira que lança pedras; as águas do mar se enfurecerão contra eles, e os rios correrão juntos de maneira terrível. Um vento poderoso se levantará contra eles e, como um redemoinho, os dividirá; e a sua iniquidade transformará toda a terra em um deserto, e a maldade derrubará os tronos dos poderosos' (Sb 5,18-24).

Com estas palavras terríveis, a Sagrada Escritura, o livro da verdade eterna, descreve a sagrada indignação com que o Juiz supremo castigará os condenados enquanto ainda estiverem na terra. Todos os elementos - trovões, relâmpagos, tempestades de granizo, as ondas furiosas do oceano, redemoinhos e tempestades - enfim, todos os poderes da natureza tornar-se-ão instrumentos para executar a vingança de Deus sobre aqueles que se rebelaram contra Ele, contra os miseráveis abandonados cuja existência na terra tem sido uma longa e terrível afronta ao seu Criador. Pois, em suas palavras e obras, blasfemaram contra Ele, o Deus de infinita santidade, poder e bondade amorosa. Ofenderam deliberadamente o Criador e Mantenedor do reino da natureza; por isso, toda a natureza se levantará contra eles em vingança.

Agora, quando Cristo derramar sobre esses seres infelizes toda a fúria das forças da natureza em sua raiva vingativa e primitiva, a terra se abrirá sob seus pés, e eles, juntamente com todos os demônios, serão engolidos. São João, no Apocalipse, diz: 'E um anjo poderoso pegou uma pedra, como que uma grande mó, e a lançou no mar, dizendo: com tal violência como esta será derrubada Babilônia, a grande cidade, e não será mais encontrada' (Ap 18,21). Não significam estas palavras proferidas pelo Anjo que todas as almas perdidas descerão ao inferno com o ímpeto de uma pedra de moinho que afunda até o fundo do abismo de águas para o qual é lançada? Ó terrível queda dos condenados! Quem pode pensar nisso sem estremecer! Ai daqueles para quem ela está preparada; melhor teria sido para eles nunca terem nascido! Assim serão precipitados e o inferno abrirá, como um dragão feroz, suas mandíbulas para devorá-los e os engolirão, conforme a profecia de Isaías: 'Por isso, o inferno se alargará e abrirá desmesuradamente a boca. O esplendor de Sião e sua multidão barulhenta, seu alvoroço e sua alegria nele desaparecerão' (Is 5,14). 

Quem pode retratar o desespero dos condenados, a fúria com que, no abismo profundo e sombrio do inferno, procurarão, em sua raiva, rasgar-se e dilacerar-se entre si? Que palavras podem descrever os uivos e gemidos que ecoarão por aquele lugar de tormento? Está além do poder do homem conceber. Pois se a Sagrada Escritura nos diz que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem ainda subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam, não se poderá também dizer que o homem não pode formar qualquer ideia do que Deus preparou para aqueles que tão frequentemente, tão deliberadamente, o insultaram? E se as alegrias do Céu superam toda a nossa capacidade de descrição, não serão também os tormentos do inferno inconcebivelmente inimagináveis?

Reflita sobre isso, ó leitor, reflita com frequência, e não desperdice a tua vida em prazeres fúteis, mas procura salvar a tua alma. Clama a Deus com todo o fervor do teu coração e implora que Ele te conceda uma sentença favorável no dia do Juízo Final, dizendo em oração fervorosa.

ORAÇÃO

Deus justíssimo e Juiz de todos os homens, muitas vezes e gravemente eu vos ofendi e nada tenho a esperar da vossa justiça senão castigo severo. No entanto, eis que vos confesso as minhas faltas; delas me arrependo e abomino, propondo firmemente, a partir de agora, ser-vos sempre fiel. Por isso, suplico-vos, pela vossa infinita misericórdia, que eu seja perdoado dos meus pecados, livrado da morte que condena e me torne merecedor da felicidade eterna. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 12 de abril de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

    

'Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, eterna é a sua misericórdia!' (Sl 117)

Primeira Leitura (At 2,42-47) - Segunda Leitura (1Pd 1,3-9) - Evangelho (Jo 20,19-31)

  12/04/2026 - SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA 

'MEU SENHOR E MEU DEUS!'


O segundo domingo do tempo pascal é consagrado como sendo o 'Domingo da Divina Misericórdia', com base no decreto promulgado pelo Papa João Paulo II na Páscoa do ano 2000. No Domingo da Divina Misericórdia daquele ano, o Santo Padre canonizou Santa Maria Faustina Kowalska, instrumento pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo fez conhecer aos homens o seu amor misericordioso: 'Causam-me prazer as almas que recorrem à minha misericórdia. A estas almas concedo graças que excedem os seus pedidos. Não posso castigar, mesmo o maior dos pecadores, se ele recorre à minha compaixão, mas justifico-o na minha insondável e inescrutável misericórdia'.

No Evangelho deste domingo, Jesus já havia se revelado às santas mulheres, a Pedro e aos discípulos de Emaús. Agora, apresenta-se diante os Apóstolos reunidos em local fechado e, uma vez 'estando fechadas as portas' (Jo 20,19), manifesta, assim, a glória da sua ressurreição aos discípulos amados. 'A paz esteja convosco' (Jo 20,19) foi a saudação inicial do Mestre aos apóstolos mergulhados em tristeza e desamparo profundos. 'A paz esteja convosco' (Jo 20,21) vai dizer ainda uma segunda vez e, em seguida, infunde sobre eles o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos' (Jo 20,22-23), manifestação preceptora da infusão dos demais dons do Espírito Santo por ocasião de Pentecostes. A paz de Cristo e o Sacramento da Reconciliação são reflexos incomensuráveis do amor e da misericórdia de Deus.

E eis que se manifesta, então, o apóstolo da incredulidade, Tomé, tomado pela obstinação à graça: 'Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei' (Jo 20,25). E o Deus de Infinita Misericórdia se submete à presunção do apóstolo incrédulo ao lhe oferecer as chagas e o lado, numa segunda aparição oito dias depois, quando estão todos novamente reunidos, agora com a presença de Tomé, chamado Dídimo. 'Meu Senhor e meu Deus!' (Jo 20,28) é a confissão extremada de fé do apóstolo arrependido, expressando, nesta curta expressão, todo o tesouro teológico das duas naturezas - humana e divina - imanentes na pessoa do Cristo.

'Bem-aventurados os que creram sem terem visto!' (Jo 20,29) é a exclamação final de Jesus Ressuscitado pronunciada neste Evangelho. Benditos somos nós, que cremos sem termos vistos, que colocamos toda a nossa vida nas mãos do Pai, que nos consolamos no tesouro de graças da Santa Igreja. E bem aventurados somos nós que podemos chegar ao Cristo Ressuscitado com Maria, espelho da eternidade de Deus na consumação infinita da Misericórdia do Pai.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

AS 10 APARIÇÕES DE JESUS RESSUSCITADO


E a eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus [At 1,3]

I. Aparição a Maria Madalena (Maria de Magdala)

Entretanto, Maria se conservava do lado de fora perto do sepulcro e chorava. Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: 'Mulher, por que choras?'. Ela respondeu: 'Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram'. Ditas essas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: 'Mulher, por que choras? Quem procuras?' Supondo ela que fosse o jardineiro, res­pondeu: 'Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar'. Disse-lhe Jesus: 'Maria!' Voltando-se ela, exclamou em hebraico: 'Rabôni!' (que quer dizer Mestre) [Jo 20,11-18].

Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios [Mc 16,9].
 
II.  Aparição a Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago), Joana e outras mulheres 

Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a ou­tra Maria [a mãe de Tiago conforme Mc 16,1, incluindo Joana em outras versões] foram ver o túmulo... Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: 'Salve!' Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés. Disse-lhes Jesus: 'Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia, pois é lá que eles me verão' [Mt 28,1.10].

Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa [LC 24,10].

III. Aparição a Pedro

Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam. Todos diziam: 'O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão' [Lc 24,34].

Ele foi visto por Pedro (Cefas) e depois pelos Doze [1Cor 15,5].

IV. Aparição a Cleofas e outro discípulo a caminho de Emaús

Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles... Então, se lhes abriram os olhos e o reconheceram... mas ele desapareceu [Lc 24,13-15.31]

V. Aparição aos onze discipulos exceto Tomé

Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas ele lhes disse: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho' [LC 24,36-39].

Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: 'A paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor [Jo 20,19-20].

VI. Aparição aos onze discípulos incluindo Tomé

Oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco!'... Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!' [Jo 20,26.29].

VII. Aparição a sete discípulos no Mar de Tiberíades

Depois disso, tornou Jesus a ma­nifestar-se aos seus discípulos junto ao lago de Tibería­des... Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos [Jo 21,1-2].

VIII. Aparição aos onze discípulos em uma montanha da Galileia

Os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando o viram, adoraram-no... 'Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo' [Mt 26,16-17.20].

IX. Aparição a Tiago

Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os apóstolos [1Cor 15,7].

X. Aparição aos onze discípulos em Betânia, na sua Ascensão ao Céu

Depois os levou (os onze discípulos) para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu [Lc 24,50-51].

'Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo'. Dizendo isso, elevou-se da (terra) à vista deles e uma nuvem o ocultou aos seus olhos [At 1,8-9].

quarta-feira, 8 de abril de 2026

VERSUS: CARIDADE X CARIDADE


A verdadeira caridade é paciente na adversidade e comedida na prosperidade; é forte no sofrimento doloroso, alegre nas boas obras, perfeitamente segura na tentação; é suave com os verdadeiros irmãos e paciente com os falsos; é inocente nas armadilhas; chora na maldade; respira na verdade. É pura em Susana casada, em Ana viúva, em Maria virgem (Dn 13,1-; Lc 2,36). É humilde na obediência de Pedro e livre na argumentação de Paulo. É humana no testemunho dos cristãos, divina no perdão de Cristo. Porque a verdadeira caridade, queridos irmãos, é a alma de todas as Escrituras, a força da profecia, a moldura do conhecimento, o fruto da fé, a riqueza dos pobres, a vida dos moribundos. Conservai-a pois com fidelidade; amai-a com todo o vosso coração e com toda a força do vosso entendimento (cf Mc 12,30).
(São Cesário de Arles)


Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o fato de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o fato de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-o à nossa mesa como Simão, não só ungindo-o com perfumes como Maria, não só dando-lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra como os magos. Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos..

(São Gregório de Nazianzeno)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVI)

       

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XI. Sobre a proclamação da sentença sobre os bons e os maus

O que foi dito até agora a respeito do Juízo Final é, de fato, algo terrível, mas o que está por vir é ainda maior: estamos prestes a falar da sentença pronunciada sobre os ímpios e de como eles serão lançados no inferno. Isso é tão terrível que nada em toda a eternidade pode ser comparado a tal horror.

Quando o Juiz supremo tiver sondado os corações de todos os homens e pesado todas as suas ações na balança da justiça, quando tudo tiver sido revelado e manifestado ao mundo inteiro, Ele proferirá sentença sobre os bons e sobre os maus. Primeiro, Ele voltará um rosto bondoso para os seus eleitos (que estarão à sua direita) e dirigirá a eles as palavras consoladoras: 'Vinde, ó benditos do meu Pai, possuí o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e me visitastes; estava na prisão e viestes ter comigo' (Mt 25,34-36).

'Vocês foram fiéis a mim até o fim das suas vidas. Desprezaram o mundo e todas as coisas do mundo, amaram-me e buscaram acima de tudo promover a minha glória. Sofreram muito enquanto estavam na terra, realizaram árduas obras de penitência, foram desprezados e oprimidos pelos adeptos do mundo e pelos ímpios. Mas agora o tempo do sofrimento terminou e o tempo da felicidade começa; vossa tristeza se transformará em alegria, alegria eterna que nenhum homem poderá tirar de vós. Vinde, pois, ó meus amigos, vinde, vós, abençoados e escolhidos do meu Pai celestial, vinde do trabalho para o descanso, vinde da tristeza para a alegria, vinde dos reinos das trevas para as regiões da luz, vinde da terra para o Céu. Vinde e possuí a pátria celestial, pela qual tantas vezes ansiastes, vinde e reinai comigo para sempre, pois por vossas boas obras merecestes esta recompensa. Vossa felicidade perdurará enquanto eu for Deus, e na minha presença desfrutareis da bem-aventurança do Céu por toda a eternidade'.

Os corações dos eleitos transbordarão de alegria, consolo e deleite ao ouvirem estas palavras amorosas. Eles erguerão os olhos para o rosto benigno de seu Juiz e dirão a Ele com alegria e gratidão: 'Deus e Senhor misericordioso, vossa bondade para conosco é infinita, e vossa generosidade não conhece limites. Como merecemos receber de Vós uma tal recompensa? O que fizemos para merecer a felicidade sem fim? É somente por vossa misericórdia e caridade infinita que Vós nos acolheis em vosso reino de glória. Sede bendito para sempre; nossa boca exaltará a vossa majestadade para sempre!'

Depois disso, Cristo ordenará aos seus Anjos que tragam todos os santos diante de si. E, à medida que se aproximarem do seu trono, Ele as revestirá com uma vestimenta de glória, brilhante e bela, de modo que brilhem como estrelas. Sobre suas cabeças, colocará coroas de ouro de brilho incomparável e, em suas mãos, colocará lírios, rosas, ramos de palmeira e um cetro, para simbolizar a vitória que alcançaram sobre o mundo, a carne e o demônio.

Os perdidos testemunharão a glória e a exaltação dos santos. Ouvirão seus gritos de triunfo, e isso lhes será como fel e absinto. Rangerão os dentes de raiva e remorso; todo o prazer que sentiam em seus pecados agora se foi. Chorarão e lamentarão, e dirão, em meio a soluços de profundo desespero: 'Ai de nós, quão infelizes, quão miseráveis somos! O que fizemos! Vede aqueles a quem outrora desprezávamos, agora tão felizes, tão extasiados, tão honrados e glorificados, e nós, que os desprezávamos, estamos agora tão infelizes, tão miseráveis, tão desonrados, marcados para sempre com todos os sinais de reprovação! E, no entanto, poderíamos ter conquistado para nós o mesmo destino glorioso que eles; o trabalho e a dificuldade não teriam sido além de nossas forças. Mas nós, em nossa maldita loucura, desperdiçamos o Bem Supremo e nos privamos da felicidade eterna em troca de prazeres sem valor e passageiros. Ó que loucura, que insanidade da nossa parte! Como pudemos nos deixar deslumbrar a tal ponto pelas vis devassidões do mundo!'

Depois que esses seres infelizes tiverem lamentado sua miséria por um tempo considerável, a trombeta voltará a emitir um som poderoso. Esse toque da trombeta anunciará a sentença proferida sobre os réprobos e imporá silêncio a todos os presentes. Então, o Juiz se voltará para os ímpios e, olhando para eles com um rosto inflamado de santa ira, dirá: 'Ó pecadores tolos e cegos! Chegou agora o dia terrível de que vos falei quando estava na terra: o dia, a hora do julgamento. Agora está diante de vós Aquele a quem sempre vos mostrastes inimigos. Em vossa presunção arrogante, causastes todo tipo de dor e dano a mim, à minha Igreja, aos meus irmãos e irmãs, a todos os filhos de Deus. Contemplem as feridas que me infligiram; contemplem o lado que perfuraram; contemplem a Cruz na qual me cravaram; contemplem o pilar no qual me açoitaram e, ao qual, nos anos seguintes, amarraram a minha Igreja, minha esposa imaculada, século após século, lacerando e rasgando sua carne com o açoite de vossa zombaria insolente, vossa incredulidade, vossos escândalos, vossas seduções, vossos atos infames de todo tipo'.

'Por amor a vós, desci do Céu e, por amor a vós, suportei as crueldades da morte. E, no entanto, o meu amor, tão maravilhoso em sua extensão, não despertou resposta em vossos corações, não encontrou amor em troca; pelo contrário, rejeitastes-me com desprezo e ódio quando me apresentei à porta de vossos corações como um suplicante, desejoso de obter admissão ali. Quantas vezes Eu vos chamei e vós não quisestes me ouvir. Estendi as minhas mãos para vós, mas vós vos afastastes do meu abraço. Recorri a ameaças, visitei-vos com muitos castigos amorosos, mas vós não quisestes curvar o vosso pescoço orgulhoso sob o meu jugo suave. Escolhestes deliberadamente servir ao demônio como vosso deus e, por isso, partilhareis agora o seu destino e estareis com ele no abismo da condenação por toda a eternidade. Eu também rirei da vossa destruição. Eis que os meus servos, todos os justos, comerão e se fartarão, enquanto vós passareis fome eternamente. Aos meus servos será dado beber em abundância, enquanto vós tereis sede, e a vossa sede nunca será saciada. Os meus servos se alegrarão e vós chorareis. Meus servos exultarão em êxtase perpétuo e vós gritareis em agonia e desespero. Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e os seus anjos. Pois tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era estrangeiro e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes, fiquei doente e na prisão e não me visitastes'.

Este veredito, pronunciado pelo Juiz justo, atingirá os ouvidos dos condenados como um trovão; eles cairão prostrados no chão, oprimidos por estas palavras terríveis, e então lançarão tal grito de desespero e raiva, que os próprios Céus e a terra tremerão com o som: 'Ai de nós, malditos e miseráveis que somos! Agora seremos banidos da presença de Deus e dos santos para toda a eternidade! Teremos de arder para sempre e sempre com os demônios nas chamas do inferno! Ide para o fogo eterno! Ó que sentença terrível dos lábios do nosso Juiz! Fogo eterno! Tormento eterno! Nenhuma esperança de salvação! Ai de nós, pecadores miseráveis; ai de nós, ai de nós!

Assim, as almas perdidas se queixarão, chorarão e se lamentarão. Contudo, o tempo da graça já passou; a sentença foi proferida; não há mais misericórdia, nem clemência para elas. 'Compreendam estas coisas, vós que vos esquecestes de Deus; para que Ele não vos arrebate e não haja quem vos livre (Sl 49,22). Sim, compreendam isso, ó infelizes pecadores, e zelem para que um destino semelhante não vos alcance. Pensem em como se sentiriam se estivessem entre esses réprobos. Considerem o que desejariam ter feito e o que dariam como preço de resgate, se fosse possível serem libertados. Pois bem, façam agora o que desejariam ter feito então. Confessem e lamentem seus pecados enquanto ainda há tempo e supliquem a Deus que os preserve do tormento sem fim.

ORAÇÃO

Ó Deus misericordiosíssimo, Vós nos dissestes pela boca do vosso profeta: 'No tempo aceitável, eu te ouvirei, e no dia da salvação, eu te ajudarei' (Is 49,8). Eis que agora é o dia da salvação; por isso, invoco-vos e, com a maior confiança e do fundo do meu coração, suplico-vos que me concedais graça e ajuda na medida das minhas necessidades, para que eu não seja rejeitado. Pois os mortos não vos louvam, ó Senhor, nem aqueles que descem ao inferno, mas os vivos, nós que vivemos em vossa santa presença, exaltaremos o vosso santo nome para sempre. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)