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domingo, 29 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?' (Sl 21)

Primeira Leitura (Is 50,4-7) - Segunda Leitura (Fl 2,6-11) - Evangelho (Mt 21,1-11)

  29/03/2026 - DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR

'HOSANA AO FILHO DE DAVI!'


No Domingo de Ramos, tem início a Semana Santa da paixão, morte e ressurreição de Nosso senhor Jesus Cristo. Jesus entra na cidade de Jerusalém para celebrar a Páscoa judaica com os seus discípulos e é recebido como um rei, como o libertador do povo judeu da escravidão e da opressão do império romano. Mantos e ramos de oliveira dispostos no chão conformavam o tapete de honra por meio do qual o povo aclamava o Messias Prometido: 'Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!' (Mt 21,9).

Jesus, montado em um jumento, passa e abençoa a multidão em polvorosa excitação. Ele conhece o coração humano e pode captar o frenesi e a euforia fácil destas pessoas como assomos de uma mobilização emotiva e superficial; por mais sinceras que sejam as manifestações espontâneas e favoráveis, falta-lhes a densidade dos propósitos e a plena compreensão do ministério salvífico de Cristo. Sim, eles querem e preconizam nEle o rei, o Ungido de Deus, movidos pelas fáceis tentações humanas de revanche, libertação, glória e poder. Mas Jesus, rei dos reis, veio para servir e não para reinar sobre impérios forjados pelos homens: '...o meu reino não é deste mundo' (Jo 18,36). Jesus vai passar no meio da multidão sob ovações e hosanas de aclamação festiva; Jesus vai ser levado sob o silêncio e o desprezo de tantos deles, uns poucos dias depois, para o cimo de uma cruz no Gólgota.

Neste Domingo de Ramos, o Evangelho evoca todas as cenas e acontecimentos que culminam no calvário de Nosso Senhor Jesus Cristo: os julgamentos de Pilatos e Herodes, a condenação de Jesus, a subida do calvário, a crucificação entre dois ladrões e a morte na cruz...'Eli, Eli, lamá sabactâni?' (Mt 27,46). Na paixão e morte de cruz, Jesus revela seu amor desmedido pela criação do Pai e desnuda a perfídia, a ingratidão, a falsidade e a traição dos que se propõem a amar com um amor eivado pelos privilégios e concessões aos seus próprios interesses e vantagens.

A fé é forjada no cadinho da perseverança e do despojamento; sem isso, toda crença é superficial e inócua e, ao sabor dos ventos, tende a se tornar em desvario. Dos hosanas de agora ao 'Seja crucificado!' (Mt 27,22-23) de mais além, o desvario humano fez Deus morrer na cruz. O mesmo desvario, o mesmo ultraje, a mesma loucura que se repete à exaustão, agora e mais além no mundo de hoje, quando, em hosanas ao pecado, uma imensa multidão, em frenesi descontrolado, crucifica Jesus de novo em seus corações!

quarta-feira, 25 de março de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XV)

      

PARTE II - O JUÍZO FINAL

X. Sobre a duração do Juízo Final

Quanto tempo durará o Juízo Final? Não é possível dar uma resposta definitiva a essa pergunta, pois trata-se de algo que ninguém sabe; contudo, pode-se supor que ocupará um período considerável. Alguns, de fato, dizem que terminará rapidamente, pois Deus poderia julgar toda a humanidade em um único instante. No entanto, essa opinião não parece ser compartilhada pelos Padres da Igreja, nem é apoiada pela Sagrada Escritura, na qual invariavelmente se fala de um dia de julgamento.

São Paulo, por exemplo, diz que: 'Deus designou um dia em que julgará o mundo com justiça' (At 17,31). E lemos nas profecias de Isaías: 'Eis que virá o dia do Senhor, um dia cruel, cheio de indignação, ira e fúria' (Is 13,9). Nestas e em muitas outras passagens da Sagrada Escritura, o Último Dia é mencionado como um dia, não como um julgamento instantâneo. O profeta Joel indica que o dia será longo, quando diz: 'O dia do Senhor é grande e muito terrível; e quem poderá suportá-lo?' (Jl 2,11). E sobre esse mesmo dia, São João, o profeta da Nova Aliança, também diz: 'Chegou o grande dia da sua ira, e quem poderá subsistir?' (Ap 6,17).

Em muitas outras passagens da Sagrada Escritura encontramos expressões semelhantes; o Dia do Juízo Final é chamado de 'o grande dia', o que provavelmente significa um dia longo. São Jerônimo defendia essa opinião, pois diz: 'O dia do Senhor será um grande dia por causa da eternidade que se seguirá a ele'. Santo Agostinho, ao falar da duração do juízo final, expressa-se assim: 'Por quantos dias se estenderá o juízo, não temos como determinar; contudo, sabemos que um período considerável é frequentemente designado nas Sagradas Escrituras como um dia'. São Tomás de Aquino concorda com Santo Agostinho neste ponto; ele apresenta vários argumentos para provar que o juízo final terá uma longa duração. E por que Deus encurtaria esse dia? Há razões abundantes para que Ele, ao contrário, o prolongue. Pois é o dia do maior triunfo de Cristo; o dia em que os santos alcançam a sua maior glória e os condenados serão submetidos à maior vergonha.

É o dia do maior triunfo de Cristo, porque Ele não só será adorado por todos os anjos e santos, mas também pelos espíritos malignos e pelas almas perdidas, e reconhecido por todos como seu Juiz. Naquele dia, todos os seus inimigos estarão aos seus pés; naquele dia, todos os seus adversários serão forçados a confessar suas ofensas contra Ele, o Árbitro Divino. Eles serão então compelidos a reconhecer a sua divindade, a sua caridade infinita, os inúmeros benefícios que Ele lhes concedeu, em troca dos quais o perseguiram, blasfemaram contra Ele e o submeteram a uma morte cruel. 

Em segundo lugar, os santos abençoados alcançarão naquele dia a sua maior glória, pois serão honrados e estimados por toda a humanidade, bem como por Deus e pelos Anjos. Pois Cristo revelará então a todos os presentes com que fidelidade eles o serviram, com que zelo abnegado trabalharam pela conversão dos pecadores. Ele revelará então as penitências secretas que realizaram, as tentações ferozes às quais resistiram. Ele revelará então as perseguições impiedosas que sofreram das mãos dos filhos deste mundo, e como todo tipo de mal foi dito contra eles injustamente. Assim, Cristo os coroará com a honra que lhes é devida, e todos os seus adversários serão confundidos.

Em terceiro lugar, naquele dia os réprobos serão submetidos à maior ignomínia e angústia. Pois o Juiz revelará todo o caráter vergonhoso e abominável de seus delitos. Ele revelará, à vista dos Anjos e dos Santos, dos demônios e dos condenados, os atos infames que eles cometeram sob o manto da escuridão. Sim, Ele derramará o cálice cheio da sua indignação sobre esses seres miseráveis que, sob a máscara da hipocrisia, ousaram profanar o próprio Santuário. Ele fará com que aqueles que corromperam a inocência sejam capturados e dispostos entre os espíritos malignos, cuja obra diabólica e três vezes amaldiçoada levaram adiante na terra.

Naquele dia, o Juiz Divino fará com que todos os pecadores impenitentes bebam profundamente do cálice da vergonha e da ignomínia, como nos diz São Basílio, quando afirma: 'A confusão que se abaterá sobre o pecador ímpio no Dia do Juízo Final será para ele uma tortura mais cruel do que se fosse lançado em um fogo ardente'. Esta é, de fato, a razão pela qual Deus determinou o Juízo Final: para que os pecadores não sejam punidos apenas pela dor que lhes caberá, mas também sejam expostos à vergonha pública. 

São Tomás de Aquino afirma: 'O pecador não merece apenas dor, mas também desgraça e ignomínia, pois esse é um castigo a que somente os seres humanos podem ser submetidos. Os animais inferiores podem ser castigados e mortos, mas não sabem o que é sofrer vergonha e desprezo'. Isso explica o fato de que qualquer pessoa que tenha um mínimo de autoestima prefere sofrer uma punição mais severa em segredo do que ser exposta à desgraça pública.

Por todas essas razões, pode-se supor que o Juízo Final se estenderá por um período considerável de tempo e, portanto, temos ainda mais motivos para tremer diante dessa perspectiva e orar fervorosamente a Deus para que, naquele grande dia, Ele não nos oprima com vergonha e confusão, mas nos conceda a graça de sua alegria e glória.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 22 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'No Senhor, toda graça e redenção!(Sl 129)

Primeira Leitura (Ez 37,12-14) - Segunda Leitura (Rm 8,8-11) - Evangelho (Jo 11,1-45)

  22/03/2026 - QUINTO DOMINGO DA QUARESMA

'EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA'


Há tantas belas lições a serem consideradas no Evangelho deste Quinto Domingo da Quaresma! Tomemos algumas delas e situemos no tempo e no espaço o desenrolar dos acontecimentos deste evento extraordinário da ressurreição de Lázaro: 'Lázaro, vem para fora!' (Jo 11,43). Jesus frequentava, com alguma periodicidade, a propriedade dos irmãos, Lázaro, Marta e Maria, e sentia por eles especial predileção. E, diante da doença do irmão e das súplicas das duas irmãs, aparentemente vai ser movido por uma indiferença inexplicável: 'Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava' (Jo 11,6). E, que assombro não teria tomado Marta e Maria diante da morte do irmão e da resposta de Jesus aos enviados delas: 'Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela' (Jo 11,4).

As nossas aflições e sofrimentos expressam em nós e por nós a manifestação da glória de Deus. Como almas aflitas, imploramos a misericórdia de Deus diante do infortúnio, da doença, do sofrimento, da dor. Como Marta e como Maria. A resposta de Deus não segue a direção do apelo humano; reverbera nos Céus e encontra eco nos imponderáveis desígnios de Deus que paga um bem com bem infinito, confiança com graças infinitas, a oração contrita e humilde com infinita misericórdia! Jesus não vai apenas curar a doença de Lázaro, vai ressuscitá-lo e, com isso, converter muitos outros e torná-lo, assim, muito acima da doença, um instrumento maior da glória de Deus.

Nossa oração de aflitiva comoção deve ser humilde, confiante, perseverante, fervorosamente despojada na misericórdia do Pai. Como Marta e Maria, podemos ficar sucumbidos pela dúvida e pela inquietação diante o sofrimento: 'Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido' (Jo 11,21). E comovido profundamente e movido de compaixão, 'Jesus chorou' (Jo 11,35). Nesta pequena oração do Evangelho, perpassa todo o amor do Coração de Infinita Misericórdia de Nosso Senhor. Jesus chora e se comove com Lázaro, Jesus chora e se comove com todos os seus filhos, e será capaz de operar portentosos milagres para buscar, seja onde for, uma ovelha perdida.

Quando Lázaro sai do túmulo, não é o Lázaro enterrado há quatro dias, uma vez que totalmente enfaixado e sem possibilidade humana de se locomover por si mesmo. Lázaro se move pela glória de Deus, Lázaro retorna da morte para a glória de Deus. E muitos homens de todos os tempos (não todos, pela inacreditável soberba humana) creram para a glória de Deus, manifestada por Jesus naquele dia com palavras de vida eterna: 'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais' (Jo 11,25 - 26).

segunda-feira, 16 de março de 2026

domingo, 15 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma(Sl 22)

Primeira Leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a) - Segunda Leitura (Ef 5,8-14) - Evangelho (Jo 9,1-41)

  15/03/2026 - QUARTO DOMINGO DA QUARESMA

A CEGUEIRA ESPIRITUAL


O Quarto Domingo da Quaresma é chamado Domingo Laetare ou Domingo da Alegria, e constitui um dos mais festejados do Ano Litúrgico. Por se enquadrar na metade do tempo quaresmal, período este vivido pela Igreja em meio à tristeza e penitências, a liturgia desse domingo se propõe a reacender nos católicos a firme alegria e esperança que devem ser o sustento dos católicos até a plenitude do tempo pascoal. E a alegria e esperanças cristãs se fundem em plenitude na Luz de Cristo.

Na eternidade, veremos Deus face a face. Na terra, vivemos na jubilosa esperança da posse eterna da Plena Visão. E, como cegos, tateamos na penumbra da fé para não nos deixarmos submergir pelas trevas do mundo. Neste domingo, celebramos a luz, a luz de Cristo, que rompe a escuridão de nossa alma cega nos afazeres mundanos. 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' (Jo 1,7) é a intimação de Jesus ao mendigo cego de nascença, para lhe curar a cegueira física; 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo' (Jo 1, 37) é a confirmação a ele de que está diante do Filho do Homem e pleno da visão de Deus.

Jesus curou o cego de nascença moldando o barro do chão; Jesus nos cura da cegueira espiritual moldando a argila frágil da natureza humana, pelo cinzel da graça e do amor de Deus. Ao se debruçar até o pó, nos dá ciência de que conhece a nossa imensa fragilidade; ao proclamar sua divindade, nos conforta de que somos os herdeiros da divina misericórdia.

E, diante milagre tão portentoso, os fariseus expulsaram o mendigo da sinagoga e se aferraram ainda mais na obstinação dos condenados e, cegos de descrença, mergulharam ainda mais fundo nas trevas do pecado. A perda da visão física é passageira, a perda da visão sobrenatural tem o preço da eternidade. No meio do caminho desta jornada quaresmal, elevemos a Cristo nossas almas frágeis de argila e a Ele supliquemos conservá-las firmemente na direção do Círio Pascal, ao encontro da luz do Cristo Ressuscitado.

sexta-feira, 13 de março de 2026

PORQUE O INFERNO É O INFERNO

Quanto ao tempo futuro que virá depois desta vida, Sofonias exclama: 'Aquele dia é dia de ira, dia de tribulação e angústia, dia de calamidade e miséria, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e redemoinhos, dia de trombetas e alarme' (Sf 1,15-16). Não apenas todos os pecados serão punidos, mas serão punidos com tormentos horrendos e pavorosos, que serão tão massivos que agora dificilmente podem ser imaginados pelos homens.

Assim como 'olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam' (Is 64,4; 1Cor 2,9), assim também olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para seus inimigos. De fato, o castigo dos pecadores no Inferno será múltiplo e completo, isto é, sem mistura de quaisquer consolações, e, o que aumenta infinitamente a sua miséria, serão eternas. Serão muitas, digo eu, porque cada uma das faculdades da alma e cada um dos cinco sentidos do corpo terão os seus tormentos.

Ponderai as palavras desta sentença do Juiz Supremo que se encontra no Evangelho: 'Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno' (Mt 25,41). 'Apartai-vos de mim' - diz ele - isto é, afastai-vos da comunhão dos bem-aventurados, permanecei privados para sempre da visão de Deus, que é a felicidade suprema e essencial e o fim último para o qual fostes criados.

'Malditos', isto é, não alimenteis mais esperança de qualquer tipo de bênção; estais privados de qualquer vida de graça, de qualquer esperança de salvação; a água da sabedoria não mais choverá sobre vós, nem o orvalho das boas inspirações. Não mais vos iluminará o raio de luz celeste, nem brotará em vós a graça do arrependimento, nem a flor da caridade, nem o fruto das boas obras.

'Aquele que vem do alto' (Lc 1,78) nunca mais os visitará daquele momento em diante; vocês terão falta não apenas de bens espirituais, mas também materiais, não apenas de bens eternos, mas também temporais. Para vocês não haverá riquezas, nem prazeres, nem consolação, mas serão como a figueira que eu amaldiçoei, a qual secou imediatamente, com raiz e tudo (Mt 21,19).

Ele diz: 'para o fogo', isto é, para a fornalha de fogo ardente e inextinguível que se apoderará não de um membro, mas de todos os seus membros ao mesmo tempo e os queimará com a mais aguda dor. 'Eterno', isto é, para o fogo que não precisa ser alimentado com lenha para continuar queimando para sempre, mas é atiçado pelo sopro do Deus Todo-Poderoso para que, assim como sua culpa nunca será destruída, nunca haja fim para o seu castigo.

Com razão, então, o profeta Isaías exclama: 'Quem de vocês pode habitar dentro de um fogo consumidor? Quem de vocês pode habitar em meio às chamas eternas?' (Is 33,14). Com isso, ele diz que absolutamente ninguém pode suportar esse fogo pacientemente, mas os condenados serão forçados contra sua vontade a suportá-lo com impaciência, raiva e desespero.

Ele acrescenta: 'O seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará' (Is 66,24). Estas palavras são repetidas mais de uma vez por Nosso Senhor no Evangelho de São Marcos (Mc 9,43-45-47). O remorso de consciência aumentará com a lembrança dos tempos em que os pecadores, se quisessem, poderiam ter escapado daqueles castigos com um pequeno esforço e desfrutado das alegrias eternas do Paraíso.

Ninguém deve pensar que os condenados podem encontrar um pouco de alívio andando por aí e mudando de lugar. Ouça o que o próprio Senhor diz: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Portanto, aqueles miseráveis, atados de pés e mãos por cadeias eternas, jazerão para sempre no mesmo lugar, privados da luz do sol, da lua e das estrelas, queimados pelo fogo ardente, chorando, lamentando e rangendo os dentes em sua fúria e desespero.

Aqueles que forem lançados naquele lugar cheio de horror sofrerão não apenas a mais terrível dor no fogo eterno, mas também a privação absoluta de todas as coisas, bem como vergonha e desgraça repletas de agudo embaraço e confusão. De fato, num piscar de olhos, perderão seus palácios, campos, vinhas, rebanhos, bois, roupas, bem como seu ouro, prata e pedras preciosas, e serão reduzidos a tal miséria que o rico conviva desejará e implorará por uma gota de água fria, mas não será ouvido (Lc 16,24-26). 

... Se o que dissemos sobre a perda de todos os bens, tanto celestiais quanto terrestres, e sobre as dores amargas, a ignomínia e a vergonha, tivesse fim ou pelo menos fosse misturado a algum tipo de consolo ou alívio, como acontece com todas as misérias desta vida, então poderiam ser considerados toleráveis de alguma forma. Contudo, é absolutamente certo e fora de qualquer dúvida que, assim como a felicidade dos bem-aventurados será perpétua e sem aflições, assim também a infelicidade dos condenados durará para sempre, sem qualquer alívio. 

Aqueles que não fazem todo o esforço para alcançar o Reino dos Céus e a felicidade eterna, independentemente de quaisquer provações, perigos, vergonha e morte, que o Apóstolo chama de leves e passageiras (2Cor 4,17), devem ser, na verdade, cegos e tolos.

(São Roberto Belarmino)

quarta-feira, 11 de março de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIV)

     

PARTE II - O JUÍZO FINAL

IX. Sobre como terá início o Juízo Final

Quando os Anjos e os Santos, além de toda a companhia dos demônios e dos condenados, estiverem prostrados diante de seu Juiz em humilde adoração, Ele abrirá os lábios e, com voz alta, proferirá estas ou outras palavras semelhantes: 'Ouçam, ó céus, a minha voz; ouça, ó terra, as palavras que vou proferir; ouçam, ó anjos, ouçam, ó demônios, ouçam também, todos vós, pecadores, pois anuncio a cada um e a todos vós que eu, Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus e da Virgem Maria, vosso Criador, vosso Redentor, vosso soberano Senhor, estou prestes a exercer meu ofício de Juiz.

Com infinita paciência, tenho suportado as vossas inúmeras iniquidades: o tempo da graça já passou, o tempo da justiça chegou. Cada um será recompensado de acordo com as suas obras. Aqueles que fizeram o bem irão comigo para a vida eterna, e aqueles que fizeram o mal serão lançados no abismo do tormento e da angústia eternos. Toda a criação verá e reconhecerá que sou um Deus justo, que não julgo segundo as aparências, mas segundo a medida do que cada homem mereceu'.

Palavras como estas sairão da boca do Juiz e serão pronunciadas com tal majestade que todos os homens tremerão e se estremecerão. Todos os miseráveis pecadores começarão a chorar e lamentar-se novamente, de modo que a própria terra poderá ser movida pela compaixão. 'Ai de nós, pobres coitados' - exclamarão em uma só voz - 'como podemos ficar diante da face do nosso Juiz! Montanhas, caiam sobre nós, e rochas, cubram-nos e escondam-nos da face daquele que está sentado no trono e da ira do Cordeiro. Pois o grande dia da sua ira chegou, e quem poderá resistir?'

E como em todo tribunal deve estar presente um acusador para apresentar as acusações contra o indivíduo que será julgado, assim também neste julgamento geral os anjos e os demônios serão os acusadores da humanidade. São Miguel se levantará primeiro e dirá: 'Juiz justíssimo, trago uma acusação contra esses milhões de pecadores, que contaminaram a terra a tal ponto com seus maus feitos, que Vós, em vossa santa indignação, considerastes adequado purificá-la com fogo; eu vos invoco agora para punir esses transgressores de acordo com a vossa justiça'.

Então Lúcifer, falando em nome de todos os espíritos malignos, levantará a voz com um rugido como o de um leão e acusará toda a humanidade em conjunto: 'Justíssimo Juiz dos vivos e dos mortos, eu apresento uma acusação contra todos os seres humanos aqui reunidos. Uma vez que pareceu justo à vossa severa justiça banir-me e a todos os Anjos que se juntaram a mim do Céu por causa de um único pecado, e condenar-nos à condenação eterna, é justo incluir toda a humanidade nesta mesma condenação e, assim, lanceis todos os homens aqui presentes no abismo do Inferno. Pois não há um único indivíduo aqui que não tenha cometido pecado e transgredido a vossa Lei'.

Então Cristo responderá à acusação desta forma: 'Será feito como pedis, ó anjos e demônios; todos os homens devem comparecer perante o meu tribunal, e cada um receberá o que lhe é devido: castigo para os ímpios, recompensa para os bons'. Quando todos aqueles que Cristo escolheu para compartilhar com Ele o seu ofício de Juiz tiverem tomado seus lugares, com os seus apóstolos tendo precedência sobre todos os outros, o julgamento terá início. Pelo que diz o apóstolo São Paulo, parece que ninguém, nem mesmo os santos, estará isento dessa provação: 'Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo' (Rm 14,10).

Esta apresentação perante o tribunal de Cristo encherá todos de temor. Ninguém estará livre disso; mesmo os justos o sentirão em certa medida, assim como os infelizes pecadores. Mesmo que os justos não tenham consciência de nenhum pecado, não estarão isentos de apreensão. São Paulo diz isto, falando de si mesmo: 'De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor' (1Cor 4,4). Com isso, o apóstolo aparentemente quer dizer: 'Minha consciência não me reprova, mas isso não prova que eu seja um dos justos; devo esperar para ver qual será a sentença que o Juiz eterno proferirá sobre mim'. Na verdade, todo homem ficará tão aterrorizado ao ver pela primeira vez o Juiz irado que, como São João, cairá aos seus pés como morto.

Parece-me que o julgamento dos bons será feito mais ou menos desta maneira: os Anjos da Guarda conduzirão aqueles que foram confiados aos seus cuidados ao tribunal e então os justos se prostrarão diante de Deus em humilde adoração. O inimigo maligno começará então a acusá-los e apresentará tudo o que puder contra eles. Mas o anjo da guarda defenderá o seu protegido e apresentará todas as suas boas obras, suas penitências e suas virtudes, colocando-as na balança da justiça divina. E se elas não forem muito leves, Cristo o vestirá com a nova túnica, a vestimenta do esplendor e o coroará com a diadema do reino eterno. Quem pode dizer a medida desta glória então! Como todos os justos se alegrarão por estarem entre os bem-aventurados! Com que esplendor o coro dos Anjos os felicitará e exultará com eles em júbilo feliz. E como todos os que ainda aguardam a sua sentença se maravilharão com a glória que lhes pertence e desejarão partilhá-la entre si.

ORAÇÃO

Jesus, cheio de bondade, em nome de todos os santos e eleitos, a quem Vós destinastes para desfrutar da felicidade eterna, eu imploro, em nome da vossa infinita bondade, possa eu estar entre os vossos santos no Dia do Juízo Final. Embora seja realmente indigno dessa graça, pela vossa maior honra e louvor, peço-vos que manifestei sobre mim a vossa misericórdia infinita e não me rejeiteis, pobre pecador que sou. E eu imploro a vocês, santos de Deus, que me ajudem a alcançar a vossa companhia abençoada. Sei que a vossa intercessão é poderosa o suficiente junto a Deus para levá-lo a olhar para mim com compaixão e ser infinitamente misericordioso comigo no julgamento da minha vida. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 8 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!(Sl 94)

Primeira Leitura (Ex 17,3-7) - Segunda Leitura (Rm 5,1-2.5-8) - Evangelho (Jo 4,5-42)

  08/03/2026 - TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA

A FONTE DA ÁGUA VIVA


O Evangelho deste domingo nos apresenta um Jesus fatigado, cansado de uma longa viagem, prostrado pelo calor sufocante do meio dia, estrangeiro de uma árida região da Samaria. Em sua humanidade, Jesus tem sede, muita sede. Em sua divindade, Jesus tem sede de levar o evangelho e a salvação a todos os seus filhos, em todos os lugares. Jesus não se curva ao deleite das sombras e nem à saciedade imediata da água fresca tão perto: sentado sozinho à beira do poço de Jacó, Jesus espera pela resposta humana ao seu convite de conversão à ovelha desgarrada: 'Dá-me de beber' (Jo 4,7).

Eis o chamado da graça manifestado pelo Filho de Deus Vivo a uma humilde mulher samaritana daquelas longínquas paragens. Tal como as águas que encheram as talhas de Caná para serem convertidas em vinho, a graça de Deus depende da nossa aceitação, da nossa contrapartida, da nossa 'água' espiritual. Jesus quer a salvação daquela mulher samaritana, como quer a tua alma e a minha na eternidade com Ele. Este chamamento é para todos: a sede de Jesus é plena, é verdadeira, é absoluta, quando almeja a água que jorra intermitente do coração humano.

E Deus saciado faz jorrar nas almas humildes e generosas ao seu chamamento cascatas da água viva que nos leva às moradas eternas: 'Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna' (Jo 4,13). Eis aí a mensagem do Evangelho deste domingo: Jesus é a fonte da água viva que sacia eternamente a alma sedenta de Deus.

A mulher samaritana pôde compartilhar a graça e a glória de Deus naquele dia ensolarado à beira do poço de Jacó. Certamente vacilou, certamente mostrou desconfiança, mas acreditou. Ao aceitar, encontrou perdão e misericórdia; ao oferecer a água do poço, recebeu a água viva, não mais como a jorrante da pedra em Massa e Meriba (Ex 17,6-7), mas aquela derramada do próprio Coração de Deus. É este empenho ao chamado da graça que Jesus está sempre esperando de nós à beira dos poços de Jacó ao longo dos caminhos e atalhos de nossas vidas.

sábado, 7 de março de 2026

SANTINHOS (VII)

'Santinhos' são pequenos cartões impressos que retratam santos, cenas ou pinturas religiosas, produzidos desde época remota e comumente em grandes quantidades, para disseminação da cultura religiosa entre os católicos. São especialmente confeccionados e distribuídos nas festas de devoção de um santo, como pagamento de promessas ou como lembrança da realização de datas festivas e/ou eventos religiosos públicos ou particulares (batismo, primeira comunhão, crisma, etc). As fotos abaixo apresentam alguns exemplos destes 'santinhos' contemplando a temática da Cruz de Cristo com pombas.







sexta-feira, 6 de março de 2026

À BEIRA DE UM GRANDE RIO


Três homens caminhavam juntos, em uma longa jornada, quando chegaram à beira de um grande rio. Começaram a analisar a situação e observar o comportamento do rio. As águas pareciam fluir calmas mas, repentinamente, formavam-se marolas, e então ondas maiores, corredeiras e, mais além, enchentes e fluxos tormentosos em frenéticos turbilhões e redemoinhos. 

O primeiro homem não titubeou. Num momento de aparente calmaria, lançou-se às águas e propôs-se a atravessar a nado o grande rio. Nadou destemido e confiante por longo tempo sem sobressaltos. Quando irrompeu a fúria traiçoeira das águas, foi arrastado brutalmente pelas correntes sem freio e desapareceu no fundo do rio.

O segundo homem, logo após o primeito ter-se lançado as águas, viu um pequeno barco a remo ancorado na margem onde estavam. O barco era tosco e pequeno e tinha as dimensões e a capacidade de sustentação de um único homem. Resoluto e imbuído de uma valentia instantânea, empunhou os remos e avançou destemido no grande rio, confiante nas suas próprias forças e habilidade em conduzir o barco enfrentando as oscilações e as alternâncias bruscas das águas incertas. Tão incertas que, no mesmo instante em que fazia sumir o primeiro homem, virou repentinamente o barco, arremessando longe o remo agora inútil e arrastando sem escrúpulos o segundo homem, antes ousado e agora em desespero, para o mesmo fundo do grande rio.

O terceiro homem vislumbrou os riscos das correntes traiçoeiras e o perigo de enfrentamento do grande rio a peito aberto ou apenas com um barquinho a remo. A insensatez e o orgulho humano podem mover as águas dos moinhos, mas não podem dominar o caudal dos desvarios e adversidades das grandes correntezas. Ciente das limitações da travessia naquele ponto do rio e, mais sábio do que fatigado pela longa jornada, percorreu pacientemente o trajeto ao longo da margem, até que deparou com uma sólida ponte em arco que transpunha o rio. E assim, sem concessão alguma às águas calmas ou turbulentas, chegou com segurança absoluta à outra margem do rio. 

O grande rio não passa da mundana sorte. A margem de agora é nossa vida inconstante. A outra margem tem acenos de vida eterna. A ponte segura é a única Igreja de Cristo. A escolha da travessia é sua.

(Arcos de Pilares)

quarta-feira, 4 de março de 2026

10 VEZES AMÉM (E 1 NÃO AMÉM) NA SANTA MISSA


Durante a celebração usual da Santa Missa, o fiel é conclamado a responder Amém pelo menos 10 vezes, nas seguintes ocasiões:

1. No início da Celebração:

'Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo' –  Amém.

2. Na oração que conclui o Ato Penitencial:

'Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe o nossos pecados e nos conduza à vida eterna' –  Amém.

3. Na conclusão da Oração da Coleta:

'... por todos os séculos dos séculos' –  Amém.

4. Depois da conclusão feita pelo sacerdote após a Oração dos Fiéis:

'...Por Cristo, nosso Senhor' –  Amém.

5. Após a conclusão da Oração sobre as Oferendas pelo sacerdote:

'...Por Cristo, nosso Senhor' –  Amém.

6.  No final da Oração Eucarística:

'Por Cristo, com Cristo, em Cristo…' –  Amém.

* Ao final da Oração do Pai Nosso: 

'e livrai-nos de todo o mal' –  SEM Amém.

7. Na conclusão das Orações que se seguem ao Pai Nosso e imediatamente antes do Rito da Paz:

'...Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo' –  Amém.

8. Durante a comunhão, no ato de recebimento da Santíssima Eucaristia:

'Corpo de Cristo' ou 'Corpo e Sangue de Cristo' –  Amém.

9. Ao final da Oração depois da Comunhão:

'... Por Cristo, nosso Senhor' –  Amém.

10. Como resposta à bênção final dada pelo sacerdote:

'Abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo' –  Amém.

Um Amém fecha a Oração do Credo e outro Amém conclui o Hino do Glória (recitado ou cantado), quando incluídos no rito litúrgico. No caso de uma bênção solene, o sacerdote, antes da bênção final, faz comumente três invocações litúrgicas, ao que os fieis respondem também com um Amém ao final de cada uma delas (10 Améns que podem ser 15...)

domingo, 1 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,
venha a vossa salvação!(Sl 32)

Primeira Leitura (Gn 12,1-4a) - Segunda Leitura (2Tm 1,8b-10) -  Evangelho (Mt 17,1-9)

  01/03/2026 - SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA

A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR


'Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha' (Mt 17,1). Uma alta montanha, o Monte Tabor. Como testemunhas da extraordinária manifestação da glória celeste e da vida eterna em Deus, Jesus conduz os três apóstolos escolhidos para o alto, numa clara assertiva de que é por meio da profundo recolhimento interior e da elevação da alma muito acima das coisas do mundo é que podemos viver efetivamente a experiência plena da contemplação de Deus.

'E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz' (Mt 17,2). No mistério da transubstanciação do Senhor, os apóstolos testemunharam antecipadamente alguma coisa dos mistérios de Deus. Algo profundamente diverso da natureza humana, pois nascido direto da glória de Deus. Algo muito limitado da Visão Beatífica, posto que deveria atender sentidos humanos: 'nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam' (1Cor 2,9). Ainda assim, algo tão extraordinário e consolador, que perturbou completamente aqueles homens e, ao mesmo tempo, os moldou definitivamente na certeza da vitória e da ressurreição de Cristo.

'Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus' (Mt 17,3). A revelação da glória de Deus é atestada pela Lei e pelos Profetas, pelo Senhor da vida e da morte, pelos textos das Sagradas Escrituras. Naquele momento, se fecha a Lei e a morte (com Moisés) e se cumprem todas as profecias e se impõe a vida eterna em Deus (com Elias, que ainda vive). E, para não se ter dúvida alguma, Deus se pronuncia no Alto do Tabor em favor do Filho: 'Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!' (Mt 17,5).

Do alto do Tabor, a ordem divina ecoa pelos tempos e pelas gerações humanas a todos nós, transfigurados na glória de Deus pelo batismo e herdeiros do Tabor eterno: 'Escutai-o!' Como batizados, somos como os apóstolos descidos do monte e novamente envoltos pelas brumas e incredulidades do mundo. Pela transfiguração, entretanto, somos encorajados a vencer o mundo como Cristo, a superar a fragilidade de nossos sentidos, a elevarmos nosso pensamento às coisas do Alto, a manifestar em nós a glória de Deus como primícias do Céu, sob a divina consolação: 'Levantai-vos e não tenhais medo' (Mt 17,7).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIII)

    

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VIII. Sobre como a aparição de Cristo será terrível no Dia do Juízo Final e a hediondez do pecado mortal

O leitor pode, por acaso, estar inclinado a perguntar a razão pela qual Cristo, o mesmo Cristo que viveu entre nós na Terra com toda a gentileza e mansidão, deveria ter uma aparência tão terrível quando vier para ser nosso Juiz? Há muitas razões pelas quais Cristo, nessa qualidade, julgará a humanidade com tanta severidade. A principal delas é porque Ele foi gravemente ofendido pelos pecados dos homens.

Os teólogos afirmam que todo pecado mortal é, em si mesmo, um mal infinito e uma afronta infinita à majestade divina. É uma ofensa de tal magnitude que nem a língua dos anjos nem a dos homens são capazes de descrevê-la. Entende-se, portanto, que, como em todo pecado mortal há uma malícia tão profunda, ele deve ferir profundamente o Coração Divino de Jesus e provocar nele uma justa ira contra o indivíduo que cometeu tal pecado. E para que fique mais evidente quão justa é a ira de Deus, quando despertada pelo pecado mortal, convém explicar mais claramente quão grande é o insulto oferecido a Deus pelo pecado voluntário. 

Imagine as três Pessoas Divinas da Santíssima Trindade de um lado, com seus tesouros infinitos de graça e glória e, do outro lado, o espírito do mal com todos os castigos e tormentos do Inferno; e um homem parado no meio, entre os dois, debatendo consigo mesmo se deve honrar a Deus fazendo a sua vontade ou se deve agir em violação à sua vontade, causando assim a alegria do demônio. Se o homem comete o pecado, ele age contra Deus, e Deus considera sua ação exatamente como se ele tivesse proferido estas palavras blasfemas, ou outras da mesma natureza:

'Eu realmente acredito, ó Deus, que fui criado pelo vosso poder todo-poderoso, redimido pela vossa misericórdia, feito filho predileto pela vossa generosidade, sei que Vós me prometestes a vida eterna, toda a doce bem-aventurança do Céu. Também estou bem ciente de que este Satanás amaldiçoado, vosso grande inimigo e meu, está preparado para me privar de tudo o que é bom e me lançar na perdição eterna. E, no entanto, porque Satanás me tenta agora, porque me sugere um pensamento de impureza, um desejo de vingança, um movimento de inveja, prefiro ceder a esse impulso e, assim, tornar-me merecedor de castigo eterno, do que resistir e repelir a sugestão maligna e, assim, merecer o Céu no futuro e as graças espirituais agora. Portanto, deliberadamente e por minha própria vontade, afasto-me de Vós, ó Deus; sigo por escolha própria este demônio odioso, a quem obedeço em vez de Vós. Embora sejais meu Deus e meu Senhor, embora tenhais nos proibido de transgredir a vossa lei, embora o pecado seja uma ofensa infinita contra Vós, não me importo, cometeria este pecado de qualquer maneira, não desistiria dele mesmo sendo uma grande afronta a Vós. Mais ainda, se eu pudesse fazer tudo o que a malícia do meu coração me permite, eu roubaria de Vós a vossa divindade, eu vos destituiria do vosso trono e, em vosso lugar, eu colocaria o pecado e o passaria a adorar como meu deus. Eu amo o pecado, desejo deleitar-me nele e encontrar nele a minha única felicidade'.

Blasfêmias como as expressas nessas palavras são terríveis e não podem ser lidas sem um arrepio na alma. No entanto, todo homem que, deliberadamente e desafiando a lei de Deus, comete um pecado mortal é culpado de blasfemar contra Deus da mesma maneira. Não é de se admirar, então, que Deus se sinta tão profundamente ofendido pelo pecado mortal. Mas ainda não mostramos toda a extensão da malícia do pecado, que vai ainda mais longe; ele é duplamente ofensivo a Deus porque o pecador não apenas manifesta desprezo por Deus Pai, mas também despreza o seu amado Filho, a Segunda Pessoa da Trindade Divina. 

Com cada pecado deliberado, o pecador parece dizer: 'É verdade que Vós tornastes homem por mim, que me procurastes por trinta e três anos, como uma ovelha perdida; que suportastes fome e sede, calor e frio, e todo tipo de dificuldades por minha causa, enquanto Satanás não fez nada disso por mim; pelo contrário, ele me persegue dia e noite e se esforça para me enganar. Apesar des er assim, prefiro pertencer a ele do que a Vós. Prefiro agradá-lo e vos entristecer. É verdade, ó meu Redentor, que por minha causa fostes açoitado, coroado de espinhos, pregado na cruz e morto em meio a torturas amargas; mas, apesar de tudo isso, não vos dou graças. Mais ainda, embora saiba que com os meus pecados eu vos açoito, vos crucifico, vos mato novamente, não abandonarei os meus pecados; pisarei em vosso precioso sangue e adorarei Satanás em vez de Vós; farei dele meu amigo mais querido e farei o possível para lhe satisfazer'.

Mais uma vez pergunto: essas declarações não são blasfemas ao extremo? Não mostram a mais negra ingratidão da parte do pecador para com o seu Salvador? É difícil imaginar que um cristão entristeça seu Redentor de maneira tão vergonhosa. E, no entanto, há muitos milhares que, se não em palavras, pelo menos em ações, dirigem tais palavras ao seu Salvador.

Em terceiro lugar, o pecador audacioso ultrapassa e desafia o Espírito Santo de Deus, pois suas ações equivalem a expressões como estas: 'Vós, ó Espírito Santo, certamente santificastes a minha alma e a purificastes no sangue de Cristo, embelezando-a com a vossa graça. Sei que a vossa graça santificadora é tão preciosa que toda alma que é adornada por ela passa a se tornar filha do Pai celestial, irmã do Filho Divino, esposa do Espírito Santo, morada da Santíssima Trindade, templo da soberana Divindade, herdeira da felicidade eterna, amiga dos Anjos e Santos, mas - por que me preocuparia com essas prerrogativas sublimes, por que me importaria com essa pérola inestimável e essa joia valiosa? Fora com elas; jogarei essa pérola, essa joia valiosa, aos cães e aos porcos, ou seja, às minhas más paixões. Sacrificarei tudo por elas, servirei ao pecado e viverei no pecado'.

Não vês agora, ó leitor, como o pecado é odioso, como a natureza do pecador é chocante, como é infinita a ofensa contra Deus, o desprezo por Deus que é algo inseparável do pecado? Não estás convencido de que Deus tem motivos justos para sentir santa indignação contra o pecado e os escravos do pecado, e para condenar o pecador à condenação eterna? E se a ira de Deus, que é infinito em santidade e justiça, é despertada a tal ponto por um único pecado mortal, quão grande deve ser a ira e a ofensa do Justo e Santo contra os milhões e milhões de pecados vergonhosos e sem pudor cometidos diariamente não só pelos judeus e pagãos, mas também pelos cristãos! Toda essa ira, todo esse sentimento de dignidade ultrajada pelo insulto oferecido, que o pecador desperta no Coração de Deus, será guardado até o Dia do Juízo Final. O santo sacrifício da Missa e a poderosa intercessão dos santos ainda impedem o braço Divino de executar a vingança.

Mas quando a humanidade tiver enchido a medida de suas iniquidades, o dia da ira chegará. Ninguém pode imaginar quão terrível será o derramamento da ira de Deus sobre os pecadores. Nos Salmos, lemos: 'Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?' (Sl 89,11). Ai de nós, pobres pecadores! Então, pela primeira vez, experimentaremos devidamente o que fizemos e o quanto ofendemos profundamente a Deus com nossos graves pecados. A ira de Deus é tão ilimitada que nem a Mãe de Deus, nem todos os Anjos e Santos têm poder para diminuí-la ou contê-la; ela se voltará com santo zelo e distribuirá a cada homem o que ele merece com rigorosa justiça. Ouçam o que o próprio Juiz diz sobre isso, sobre a sua ira, pela boca do profeta Ezequiel: 'Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti a minha cólera, vou julgar-te de acordo com o teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas as tuas práticas abomináveis. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor' (Ez 7,3-4). .

Estas são palavras verdadeiramente terríveis e a ameaça que contêm é das mais assustadoras. Ó quão implacável será o julgamento com que Deus, ofendido por tão inúmeras transgressões, convocará então toda a humanidade. Ai de mim e ai de ti, se nos encontrarmos entre a multidão incontável dos pecadores, e Deus não puder, na sua justiça, poupar-nos! O que faremos para não cairmos nas mãos do Juiz irado? Devemos abandonar o caminho da iniquidade e, agora, enquanto ainda há tempo, fazer as pazes com o Juiz a quem ofendemos. Vamos manifestar de vez em quando um sincero arrependimento pelos nossos pecados, mediante a oração abaixo ou outras orações similares de profundo pesar pelas ofensas e faltas cometidas.

ORAÇÃO

Juiz de infinita justiça dos vivos e dos mortos, reconheço que pequei contra Vós muitas vezes e gravemente. Abandonei-vos, ó meu Pai do Céu; crucifiquei-vos, ó meu Redentor; entristeci o Espírito Santo e desperdicei as vossas graças. Fiz isso pelos inúmeros pecados que cometi em pensamentos, palavras e ações e, por minhas transgressões, incorri na pena da morte eterna. Mas, como Vós não desejais a morte do pecador, mas que ele se converta e viva, deixai-me experimentar desde agora o efeito da vossa justiça, que está sempre unida à vossa misericórdia. Todas as provações que me enviardes nesta vida serão recebidas com gratidão e acolhidas com suavidade, na medida em quiserdes me castigar com a vossa severidade paternal, para que, no Dia do Juízo Final, eu possa encontrar a vossa misericórdia e alcançar um lugar entre os vossos eleitos. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra Vós(Sl 50)

Primeira Leitura (Gn 2,7-9.3,1-7) - Segunda Leitura (Rm 5,12-19) -  Evangelho (Mt 4,1-11)

  22/02/2026 - PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

JESUS E AS TENTAÇÕES


Neste domingo do Senhor, nos deparamos com uma das páginas mais intrigantes dos Evangelhos: a existência do demônio, sua natureza maligna convertida integralmente às tentações e ao infortúnio eterno da humanidade; a necessidade do homem, no seu encontro com Deus, de superar estas tentações, domar os seus instintos e não acolher ou se submeter às rédeas do pecado.

Homem do infortúnio pela fraqueza dos nossos primeiros pais, reféns da primeira tentação do demônio, iludidos pela serpente 'o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito' (Gn 3,1). Homem da redenção, transformado pelo exemplo de Cristo, que aceita as tentações na sua condição humana para mostrar que as tentações devem ser combatidas pelos frutos da mortificação interior e pela oração intensa e persistente: 'Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites...' (Mt 4,2). A ação do demônio é-nos dirigida sempre nos momentos de maior fragilidade, visando a perda ou o descaminho da santificação pessoal, sempre moldada nos apelos à sensibilidade e aos instintos mais expostos do homem. E, ao se deixar tentar pelo demônio, Jesus nos mostra que a superação das tentações é o caminho que faz os santos e diverge os tíbios e os pecadores.

Três tentações serão impostas por satanás, no intuito desgraçado de obter alguma certeza sobre a verdadeira natureza de Jesus. Exposto ao ridículo nas suas tolas intenções de tentar confundir o próprio Criador, o demônio suscita que o Filho de Deus converta pedras em pães, que aflore o prodígio da proteção dos anjos ao se atirar da parte mais elevada do templo e, na podridão máxima da soberba diabólica, lhe preste culto e adoração, como penhor das riquezas e glórias do mundo.

O Filho de Deus Vivo submete o demônio à sua natureza degradada, confirmada tantas e tantas vezes pelas Sagradas Escrituras: 'Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’ (Mt 4,4); 'Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!' (Mt 4,7) e 'Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto' (Mt 4,10). Três respostas taxativas, categóricas, definitivas, de fim de conversa. Na última expressão, após confirmar a identidade do anjo do mal como 'satanás', Jesus ordena peremptoriamente que ele se afaste em definitivo. Neste início de Quaresma, que seja esta nossa reflexão: como nos comportar diante às tentações, permitidas por Deus para a nossa santificação, ou seja, nunca ceder ao diálogo e às manipulações do mal, mas, implorando a graça divina, ordenar peremptoriamente ao diabo ir rugir nas hostes infernais.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!(Sl 118)

Primeira Leitura (Eclo 15,16-21) - Segunda Leitura (1Cor 2,6-10) -  Evangelho (Mt 5,17-37)

  15/02/2026 - SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'E EU VOS DIGO...'



Nas palavras: 'Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra' (Mt 5,18), Jesus proclama que a Boa Nova do Evangelho trazida à humanidade, como instrumento de resgate e não de abolição à Antiga Lei, está fundada na Verdade Absoluta, imutável no espaço e no tempo, desde os nossos primeiros pais até o último homem da face da terra. O pecado é o mesmo ontem e hoje, e os Dez Mandamentos modelam a história humana na dimensão divina.

A plenitude do exercício do Decálogo é a via de santificação perfeita. O Céu é uma porta aberta para os que se consomem e se alimentam da Verdade de Cristo, emanada da vivência profunda dos valores do Evangelho e não apenas sedimentados no alicerce frágil das exterioridades enormes da antiga Lei Mosaica: 'Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus' (Mt 5,20). Nesta contextualização, Jesus vai passar dos conceitos formais expressos por 'vós ouvistes...' às premissas mais abrangentes da Nova Lei: 'e eu vos digo...' Assim, do pecado gravíssimo do homicídio formal, Jesus anuncia que na própria ira contra o próximo já se manifesta a gravidade do pecado. O pecado do adultério não se restringe ao ato consumado e definitivo, que era castigado com a morte, mas é igualmente perverso no desejo; o juramento falso é um ato abominável, mas é igualmente pecaminoso o simples juramento sobre qualquer coisa.

Jesus exorta, em todas estas passagens, a se cumprir, em tudo e para todos, a santificação em plenitude, traduzida na observância radical dos seus Mandamentos e na fuga da ocasião de pecado por todos os meios disponíveis, pelos mais extremos possíveis: 'Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno' (Mt 5,29 - 30).

Não ceder ao pecado sob concessão alguma. Não afrontar a graça divina por nenhum propósito humano. A verdadeira santificação exige, portanto, vigilância extrema e oração constante. A superação da fragilidade de nossas limitações implica decisões claras e firmes em favor da pureza evangélica e aos ditames de Cristo, nosso Divino Mestre: 'Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno' (Mt 4,37).