segunda-feira, 31 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (II)

(Venerável Fulton Sheen, a ser beatificado em setembro/2026, falecido em 1979)

(Santa Teresa de Lisieux, falecida em 1897)

(Beata Sandra Sabattini, falecida em 1984)

(São João Bosco, falecido em 1888)

(Beata Alexandrina da costa, falecida em 1955)

(São Alberto Hurtado, falecido em 1952)

(Beata Chiara Badano, falecida em 1990)

(Santa Teresa de Calcutá, falecida em 1997)

domingo, 30 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                     

'A minh'alma tem sede de Vós,
como a terra sedenta, ó meu Deus!' (Sl 62)

Primeira Leitura (Jr 20,7-9) - Segunda Leitura (Rm 12,1-2) - Evangelho (Mt 16,21-17)

  30/08/2026 - VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'TOME A SUA CRUZ E ME SIGA'


Jesus, a caminho da Cesareia de Felipe, vai fazer aos seu apóstolos neste dia, de forma explícita, o primeiro anúncio de sua Paixão e Ressurreição, que consubstanciarão os eventos culminantes de sua missão salvífica. Missão que Ele vai cumprir até o fim, até a plena consumação das grandes profecias, o Verbo encarnado entregue como cordeiro à morte de cruz, entre dois ladrões, para a redenção da humanidade pecadora.

Diante dos desígnios da Providência, irrompe as emoções e julgamentos humanos. Pedro, a mesma pedra que antes recebera a proclamação como fundamento da Igreja, vacila agora diante da incompreensão dos tributos extraordinários de Deus feito homem. Vacila e se confunde na fé, moldada apenas pelos rudimentos de sua vontade humana e que se recusa a aceitar as reverberações das palavras de Jesus, que acabara de revelar aos discípulos que iria 'sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia' (Mt 16,21).

Jesus vai repreendê-lo duramente em seguida, nomeando-o como 'satanás' e como 'pedra de tropeço', designações que o tornam adversário das coisas do Alto, por limitar aos ditames da lógica humana os inescrutáveis desígnios da mente divina, por não pensar 'as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!' (Mt 16,23). De agora em diante, e com singular devoção, Jesus vai preparar os seus discípulos, e especialmente a Pedro, para os tempos já tão próximos de sua Paixão, Morte de Cruz e Ressurreição e também para o chamamento ao sacrifício e martírio de tantos.

No caminho da santidade, Deus não nos pede um pouco, ou quase tudo, pois cumprir a Vontade de Deus exige de nós a completa e absoluta disposição da alma. Não há meios termos, nem concessões de menos. Deus quer e espera tudo de nós, toda a nossa vida, todo o nosso tempo, toda palavra, pensamento e ação: 'Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? ' (Mt 16,24 - 26). E ao perguntar: 'O que poderá alguém dar em troca de sua vida?' (Mt 16,26), responde com a promessa da verdadeira vida e da verdadeira felicidade no Céu, que hão de nos acompanhar como eleitos da graça nas planuras eternas da Casa do Pai.

sábado, 29 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (X)

 

64. Um grande erro em que muitas pessoas, especialmente as mulheres, caem frequentemente é acreditar que o serviço que prestamos a Deus sem qualquer gosto ou ternura de coração é menos agradável à sua Divina Majestade; quando, pelo contrário, as nossas ações são como as rosas: embora sejam mais belas quando frescas, depois de secas exalam um perfume mais intenso e suave. Do mesmo modo, as nossas ações realizadas com ternura de coração são mais agradáveis a nós, que buscamos apenas a nossa própria satisfação; contudo, quando praticadas na aridez, possuem maior mérito e valor aos olhos de Deus.

65. O fogo contemplado por Moisés na montanha representava o santo amor. E, assim como aquelas chamas eram alimentadas entre os espinhos, também o exercício do amor sagrado se conserva mais perfeitamente em meio às tribulações do que na paz e no contentamento.

66. Vejo que todas as estações se encontram em vossa alma: ora sentis o inverno da esterilidade, das distrações, do desgosto e do cansaço; ora, os orvalhos do mês de maio, acompanhados do perfume das santas florzinhas; e, em outros momentos, o ardor do verão, no desejo de agradar ao nosso bom Deus. Resta apenas o outono, do qual, como dizeis, não vedes muitos frutos. Muitas vezes, porém, ao debulharmos o trigo e prensarmos as uvas, descobrimos que produziram mais do que prometiam a colheita e a vindima... Prossigamos sempre com um passo tranquilo e sereno; contanto que tenhamos uma vontade boa e determinada, não poderemos deixar de caminhar bem.

67. O manjericão, o alecrim, a manjerona, o hissopo, o cravo, a canela, o limão e o almíscar, reunidos e conservados inteiros, formam um perfume muito agradável pela mistura de seus diversos aromas; mas esse perfume não é tão excelente quanto a água deles destilada, na qual a suavidade de todos esses ingredientes se combina mais perfeitamente, formando uma essência primorosa, que deleita os sentidos de maneira muito mais intensa do que quando suas fragrâncias são aspiradas separadamente. Do mesmo modo, o amor pode ser cultivado nas uniões em que se misturam as afeições corporais e espirituais, mas nunca alcança tamanha perfeição como quando somente as almas e os corações, desprendidos de toda afeição sensível, se unem num amor puramente espiritual. Pois a fragrância das afeições assim unidas não é apenas mais suave e excelente, mas também mais viva, mais eficaz e mais sólida.

68. A caridade compreende os sete dons do Espírito Santo e assemelha-se a uma bela flor-de-lis, que possui seis pétalas mais brancas do que a neve e, no centro, graciosos estames dourados. O dom da sabedoria produz em nossos corações um amoroso gosto e deleite na bondade do Pai, nosso Criador; na misericórdia do Filho, nosso Redentor; e na suavidade do Espírito Santo, nosso Santificador.

69. Somos obrigados, para falar de Deus de algum modo, a empregar grande número de nomes, dizendo que Ele é bom, sábio, onipotente, verdadeiro, justo, santo, infinito, imortal e invisível! E, de fato, Deus é tudo isso conjuntamente, porque é mais do que tudo isso; isto é, Ele possui todas essas perfeições de maneira tão pura, tão excelente e tão sublime que, numa única e simples perfeição, encerra a virtude, a força e a excelência de todas as perfeições... Ó abismo das perfeições divinas, quão admirável sois por possuirdes em vós, numa única perfeição, a excelência de todas as perfeições - e isso de maneira tão sublime que ninguém, senão vós mesmo, pode compreendê-lo!

70. O sol contempla uma rosa, juntamente com milhares de milhões de outras flores, com a mesma atenção que lhe dedicaria se contemplasse somente aquela rosa. Assim também Deus, embora ame um número incontável de outras almas, não derrama sobre uma única alma menos amor do que derramaria se amasse somente a ela; pois a força do seu amor não diminui conforme a multidão dos raios que difunde, mas permanece sempre plena em sua própria imensidade.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

FRASES DE SENDARIUM (LXXXI)


'A mesma pena é devida aos que cometem o mal
 e aos que nele consentem'

(São Bernardo de Claraval)

Todo aquele que caminha sem rumo e não permanece na doutrina de Cristo não tem Deus... quem o saúda toma parte em suas obras más (2Jo 1,9.11). Quem, portanto, podendo resistir ao mal, deliberadamente se cala ou lhe vira as costas, torna-se participante de culpa igual à daquele que o pratica.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

28 DE AGOSTO: SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

  


"...Inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti."

Dia 28 de agosto é a festa de um dos grandes santos da Igreja, um dos fundadores da chamada Patrística (a fase inicial da formação da Teologia Cristã e seus dogmas). Santo Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354, na pequena cidade de Tagaste, perto de Hipona, na Numídia (atual Argélia), filho de Patrício e Mônica (santa da Igreja Católica, cuja festa é celebrada em 27 de agosto). Da vida promíscua ao desvario da sua inclusão em seitas maniqueístas, Santo Agostinho experimentou desde a indiferença até a descrença completa nas coisas de Deus. A resposta da sua mãe, profundamente dolorosa diante a perspectiva da perda eterna da alma do filho amado, foi sempre a mesma: oração, oração, oração!

E a conversão de Agostinho foi lenta e profunda: no ano de 382, em Milão, então com 32 anos de idade, o santo foi finalmente batizado, junto com um amigo e o seu filho Adeodato (que morreria pouco tempo depois) por Santo Ambrósio. E que conversão! Sobre o tapete dos pecados passados, da vida desregrada da juventude (que descreveria com imenso desgosto em sua obra máxima ‘Confissões’), nasceria um santo dedicado por inteiro à glória de Deus, pregando como sacerdote e, mais tarde, como bispo de Hipona, que a verdadeira fonte da santidade nasce, renasce e se fortalece na humildade. Combateu com tal veemência as diversas frentes de heresias do seu tempo, incluindo o arianismo e o maniqueísmo, que foi alcunhado de Escudo da Fé e Martelo dos Hereges. Santo Agostinho, Doutor da Igreja e Defensor da Graça, morreu em 28 de agosto de 430, aos 76 anos de idade.

Excertos da Obra: 'Confissões', de Santo Agostinho:

'Amo-te, Senhor, com uma consciência não vacilante, mas firme. Feriste o meu coração com a tua palavra, e eu amei-te. Mas eis que o céu, e a terra, e todas as coisas que neles existem me dizem a mim, por toda a parte, que te ame, e não cessam de o dizer a todos os homens, de tal modo que eles não têm desculpa. Tu, porém, compadecer-te-ás mais profundamente de quem te compadeceres,e concederás a tua misericórdia àquele para quem fores misericordioso: de outra forma, é para surdos que o céu e a terra entoam os teus louvores. Mas que amo eu, quando te amo? Não a beleza do corpo, nem a glória do tempo, nem esta claridade da luz, tão amável a meus olhos, não as doces melodias de todo o gênero de canções, não a fragrância das flores, e dos perfumes, e dos aromas, não o maná e o mel, não os membros agradáveis aos abraços da carne. Não é isto o que eu amo, quando amo o meu Deus, E, no entanto, amo uma certa luz, e uma certa voz, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume, alimento, abraço do homem interior que há em mim, onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume o que o vento não dissipa, e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que o que a saciedade não separa. Isto é o que eu amo, quando amo o meu Deus'.

'Aterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha considerado e meditado no meu coração fugir para a solidão, mas tu proibiste-me e encorajaste-me, dizendo: Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles. Eis, Senhor, que eu lanço em ti a minha inquietação, a fim de que viva, e considerarei as maravilhas da tua Lei. Tu conheces a minha incapacidade e a minha fragilidade: ensina-me e cura-me. O teu Unigênito, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, redimiu-me com o seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque penso no preço da minha redenção, e como, e bebo, e distribuo, e, pobre, desejo saciar-me dele entre aqueles que dele se alimentam e saciam: e louvam o Senhor aqueles que o procuram'.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (I)

(São Padre Pio, falecido em 1968)

(São Carlo Acutis, falecido em 2006)

(Serva de Deus Anne-Gabrielle Caron, falecida em 2010)

(Santa Gianna Beretta Molla, falecida em 1962)

(São Pier Giorgio Frassati, falecido em 1925)

(São Rafael Arnaiz Barón, falecido em 1938)

(Santa Bernadete Soubirous, falecida em 1879)

(São Josemaria Escrivá, falecido em 1975)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Ó ESPÍRITO SANTO, ALMA DA MINHA ALMA...

 

Ó Espírito Santo, alma da minha alma, coração do meu coração,
quero encontrar-Vos sempre no mais íntimo do meu ser.
Neste humilde e oculto santuário, não sereis abandonado;
já não permanecereis inativo,
e tudo quanto há em mim vos obedecerá.

É verdade que minha maldade, minhas faltas e minhas misérias
muitas vezes se oporão a Vós;
mas Vós, que sois todo-poderoso, derrubareis, quebrareis ou aniquilareis
tudo aquilo que contra Vós se levantar em mim.

O abismo que é o vosso preencherá o abismo que é o meu.
Abyssus abyssum invocat.
[Um abismo clama outro abismo]

(Virginie Danion (1819–1900), religiosa e mística francesa)

ETYMOLOGIAE (III)


📌Cânones dos Concílios (De canonibus Conciliorum)

1. Cânone (canon) é uma palavra grega; em latim, significa 'régua' ou 'norma' (regula). A régua recebe esse nome porque traça em linha reta (recte) e nunca se desvia. Alguns dizem que ela é assim chamada porque rege (regere), porque oferece uma norma para viver retamente (recte) ou porque corrige (corrigere) tudo o que é deformado ou perverso.

2. Os cânones dos concílios gerais começaram no tempo de Constantino pois, nos anos anteriores, enquanto grassavam as perseguições, havia pouca oportunidade para instruir o povo. 

3. Por essa razão, o cristianismo foi dilacerado por diversas heresias, pois não havia liberdade para que os bispos se reunissem em unidade até o tempo do imperador acima mencionado, que concedeu aos cristãos a faculdade de se congregarem livremente.

4. Sob Constantino, os santos Padres, reunidos de todas as partes do mundo no Concílio de Niceia, promulgaram, em conformidade com a fé evangélica e apostólica, o segundo Credo - o Credo Niceno - depois do Credo dos Apóstolos.

5. Entre os concílios da Igreja, quatro são os veneráveis sínodos que mais plenamente abrangeram toda a fé, assim como quatro são os Evangelhos e quatro os rios do Paraíso.

6. O primeiro deles, o Sínodo de Niceia, composto por 318 bispos, realizou-se durante o governo de Constantino Augusto. Nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana acerca da desigualdade da Santíssima Trindade, defendida pelo próprio Ário. Esse santo sínodo estabeleceu, por meio de seu Credo, que Deus Filho é consubstancial a Deus Pai.

7. O segundo sínodo, composto por 150 Padres, reuniu-se em Constantinopla sob Teodósio, o Velho. Condenando Macedônio, que negava que o Espírito Santo fosse Deus, demonstrou que o Espírito Santo é consubstancial ao Pai e ao Filho, dando forma ao Credo que todos os fiéis de língua latina e grega proclamam nas igrejas.

8. O terceiro, o Primeiro Sínodo de Éfeso, composto por 200 bispos, realizou-se sob Teodósio Augusto, o Jovem. Condenou, com justa sentença de anátema, Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo; e demonstrou que, em duas naturezas, subsiste a única pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O quarto, o Sínodo de Calcedônia, composto por 630 sacerdotes, realizou-se sob o imperador Marciano. Nesse sínodo, uma sentença unânime dos Padres condenou Eutiques, abade de Constantinopla, que pregava haver uma única natureza tanto do Verbo de Deus quanto de sua carne; condenou também seu defensor Dióscoro, antigo bispo de Alexandria, e novamente Nestório, juntamente com os demais hereges. Esse mesmo sínodo proclamou que Cristo Senhor nasceu da Virgem e, consequentemente, reconhecemos que em Cristo se encontra a substância tanto da natureza divina quanto da natureza humana.

10. Estes são os quatro principais sínodos, que proclamaram com a maior plenitude a doutrina de nossa fé. E todos os outros concílios que os santos Padres, repletos do Espírito de Deus, sancionaram permanecem em pleno vigor, sustentados pela autoridade desses quatro, cujas realizações estão registradas nesta obra.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (146/148)

 

146. COMO MORRE O SOLDADO DE CRISTO

Gabino Alcázar alistou-se aos 80 anos no Exército dos libertadores e, com ele, três de seus filhos. 'Chegou a hora de morrermos mártires' - disse ele aos seus na hora da despedida - 'Tenho ainda pouco tempo de vida, e por que não hei de consagrá-lo a Cristo-Rei? Desejo que a vossa morte seja tal qual a minha. Vamos combater por Deus'.

Isto sucedeu-se a 3 de março de 1927. O velho soldado de Cristo receberia dentro em breve a sua coroa de glória. Tomou parte em três combates com uma tenacidade extraordinária. A 12 de março, numa renhida batalha, saltara da trincheira para avançar contra o inimigo, oculto atrás de uma rocha, e atirou até o último cartucho. Afinal, os soldados de Calles o cercaram, gritando-lhe:
➖ Entrega-te, velho!
➖ Os soldados de Cristo-Rei morrem, mas não se rendem - respondeu com altivez.
➖ Entrega-te ou te matamos.
➖ Cair, sim; ceder, nunca!

E para que os callistas não se apoderassem do seu fuzil, Gabino quebrou-o em dois pedaços e atirou-os contra o inimigo, dizendo-lhes:
➖ Tomai e entregai isso ao vosso Calles-Nero.
Seus olhos tinham um lampejo de alegria. No momento em que levantou a mão aberta para o céu e gritou: 'Viva Cristo-Rei!', uma descarga o prostra por terra.

A Escritura diz: 'As almas dos justos estão nas mãos de Deus; o tormento da morte não chega a tocá-los.
As almas dos justos descansam na paz; atormentados pelos homens, a sua esperança tomou vulto na eternidade'. Como essas palavras se adaptam ao velho soldado Gabino!

147. LEVAVA A COMUNHÃO AOS MÁRTIRES

O governo maçônico e ateu do México metia no cárcere, à espera da morte, sacerdotes e fiéis católicos. Para confortá-los na fé, meninas piedosas e inteligentes, disfarçadas mas com risco da própria vida, levavam-lhes frequentemente a Comunhão.

Rosina Gomez foi uma dessas meninas privilegiadas. Com apenas 12 anos, consagrara-se ao piedoso oficio de levar Jesus-Hóstia aos prisioneiros. Rosina, com permissão de sua mãe, ia todas as manhãs a uma das estações eucarísticas. Ali comungava e o sacerdote entregava-lhe as hóstias consagradas para levar aos encarcerados. A fim de evitar suspeitas, tirava-se o miolo do pão e, em seu lugar, colocavam-se as sagradas espécies envoltas em pano de linho. Deste modo Jesus chegava diariamente aos confessores da Fé, que aguardavam a morte gloriosa.

Durava já três meses esse trabalho; quando Rosina começou a ser observada e seguida pelos callistas. Um dia, cercaram-na e perguntaram-lhe:
➖ Aonde vais?
➖ Para minha casa e tenho pressa - respondeu Rosina.
➖ Que é que tens nas mãos?
➖ Nada para os senhores e tudo para mim.
➖ Joga fora o pão que tens oculto.
➖ Isso eu não faço.

Os policiais apontam-lhe os revólveres. A esse gesto ela responde calmamente:
➖ Não tenho medo de ninguém. Jesus me dará forças. Ajoelhou-se, em seguida, tomou as hóstias e ali mesmo comungou para evitar profanações. Um minuto depois, cai varada de balas daqueles tigres.

148. UM MÁRTIR DE 18 ANOS

Em Jalisco, no México, um bando de comunistas prendeu um rapaz de 18 anos, acusando-o de fomentar um motim. Queriam forçá-lo a gritar: 'Abaixo o Cristo'.
➖ Não posso, respondeu o jovem; sou católico.
➖ Agora não és mais que um revolucionário.
➖ Revolucionário? Nunca! nunca me bandeei para os revolucionários. Ninguém poderá prová-Io. Sou simplesmente católico, e não posso renegar a Cristo.

Declarações tão firmes e decididas tiveram consequências imediatas. O jovem foi primeiramente espancado e, depois, amarrado à traseira de um caminhão e arrastado pelas ruas da cidade entre risos satânicos. Coberto de sangue e de pó, chegou em frente da casa paterna. Os delinquentes pararam o caminhão e mandaram que o mártir gritasse: 'Viva Calles'. Redobrando as forças, o jovem gritou:
➖ Viva Cristo-Rei!

Uma senhora presente à cena correu a chamar a mãe da vítima: 'Que fosse depressa, porque pretendiam obrigar o filho dela a apostatar'. Imediatamente, a mãe, trêmula e pálida como a morte, correu para junto do mártir. Cena capaz de comover as próprias pedras. O filho, seu querido filho de 18 anos, cuja beleza e coragem eram o orgulho da mãe, banhava de sangue a rua. Ela atirou-se sobre aquele corpo, já nas últimas, e gritou-lhe:
➖ Meu filho, ainda que te matem, nunca renegues o teu Deus. Vale mais a Fé do que a vida. Viva Cristo-Rei!
O mártir, num supremo esforço, conseguiu balbuciar repetindo as palavras de sua mãe:
➖ Viva.... Cristo... nosso... Rei!
E morreu sob as vistas da mãe. Não sabemos o que mais admirar, se a fidelidade do filho ou a coragem da mãe.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A HERESIA DA SOLA SCRIPTURA

 

A chamada Sola Scriptura é a doutrina protestante segundo a qual a Sagrada Escritura constitui a única autoridade infalível e suprema em matéria de fé e moral. Por outro lado, a doutrina católica assume que Escritura, Tradição e Magistério constituem fontes indissociáveis na transmissão e interpretação da Revelação divina. Assim, a doutrina da Sola Scriptura rejeita a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja como autoridades infalíveis ao lado da Escritura.

A questão crucial é, portanto, um problema de origem comum: as Sagradas Escrituras e, neste sentido, vamos desconsiderar em princípio que existe uma diferença fundamental no número dos livros entre a Bíblia Católica (73 livros) e a Bíblia Protestante (66 livros, com a exclusão dos livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além de algumas partes de Ester e Daniel). Consideremos ainda que a Igreja Católica reconhece e atesta que a Escritura contém toda a revelação divina, bem como tudo que é necessário para a salvação eterna, de forma explícita ou implícita. Até aí, doutrina e heresia sempre caminharam juntas pois, por mais paradoxal que possa parecer, quase todas as grandes heresias que convulsionaram a Santa Igreja pelos séculos foram originadas na própria Escritura ou, melhor dizendo, a partir de interpretações equivocadas, descontextualizadas e manipuladas pelo livre exame dos textos bíblicos, como se a interpretação da Escritura fosse um complemento lógico e inerente à própria Escritura. 

Não é, nem de longe. Isso não significa que o fiel esteja proibido de ler e compreender a Bíblia. Significa que sua interpretação NÃO POSSUI UMA AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL. A própria Escritura mostra a necessidade de mestres (Ef 4,11-14), da pregação apostólica (2Ts 2,15) e da autoridade da Igreja para resolver controvérsias (Mt 18,17-18). 

Com efeito, no texto bíblico do encontro de Filipe com o eunuco: 'Filipe correu, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: ‘Porventura entendes o que estás lendo?’ Ele respondeu: ‘Como é que posso, se não há alguém que mo explique?’ (At 8,30-31), fica claramente explícito que o eunuco possuía a Escritura e sabia lê-la, mas reconheceu que necessitava de um intérprete autorizado. Filipe, enviado pelo Espírito Santo e participante da missão apostólica, explicou-lhe que a passagem de Isaías se referia a Jesus Cristo. São Pedro reconhece expressamente que existem textos bíblicos difíceis, sujeitos a interpretações errôneas e equivocadas: 'Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes e vacilantes deturpam, como fazem também com as demais Escrituras, para a própria perdição (2Pd 3,16). Portanto, não se pode afirmar que o verdadeiro sentido seja sempre evidente ou inerentemente acessível a todo leitor. E, pior: estes erros de interpretação afetam também as demais Escrituras (não apenas passagens difíceis de entender) e que são a causa da própria perdição para os que deturpam os textos bíblicos pela livre interpretação.

No Evangelho, em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da sua Igreja, criada ali, naquele momento da história, naquele lugar qualquer da chamada 'Cesareia de Felipe': 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro.

O modelo bíblico, portanto, não pode ser nunca: Escritura → interpretação particular autossuficiente (heresia protestante), mas Escritura → fé apostólica → interpretação e decisão da Igreja assistida pelo Espírito Santo (doutrina católica). Se não fosse assim, Cristo não precisaria criar a sua Igreja, como depósito da fé ensinada nos Evangelhos. É neste contexto de unidade e univocidade da Revelação Divina que São Paulo não chama a Escritura isoladamente de 'coluna e sustentáculo da verdade', mas atribui essa função à Igreja, uma única Igreja, à Igreja do Deus vivo: 'A Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade' (1Tm 3,15). Sim, a igreja do Deus vivo, a Igreja Católica, repositório da Verdade de Cristo, a única que POSSUI A AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL para a interpretação da Escritura pelos selos da TRADIÇÃO e do MAGISTÉRIO

Implodidas estas duas vigas rígidas de sustentação, a Revelação Divina é exposta de forma ambígua e vacilante, a preço vil, por centenas de seitas que proclamam verdades lapidadas por eunucos da graça que não reconhecem a própria ignorância, uma vez consumidos por um orgulho desmedido. Sobre estes tolos, pairam as palavras duras e contundentes de Santo Agostinho: 'A alma abandona Aquele a quem deveria estar unida como seu fim e pretende tornar-se o próprio fim para si mesma' (A Cidade de Deus, XIV,13). 

domingo, 23 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                    

'Ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Completai em mim a obra começada!' (Sl 137)

Primeira Leitura (Is 22,19-23) - Segunda Leitura (Rm 11,33-36) - Evangelho (Mt 16,13-20)

  23/08/2026 - VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?'


Num dado dia, na 'região da Cesareia de Felipe', Jesus revelou a seus discípulos, num mesmo momento, a sua própria identidade divina e o primado da Igreja. Neste tesouro das grandes revelações divinas, o apóstolo Pedro será contemplado, neste dia, por privilégios extraordinários: seu ato humano de fé perfeita será convertido por Cristo na pedra angular da qual nascerá a Santa Igreja.

Nesta ocasião, as mensagens e as pregações públicas de Jesus estavam consolidadas; os milagres e os poderes sobrenaturais do Senhor eram de conhecimento generalizado no mundo hebraico; multidões acorriam para ver e ouvir o Mestre, dominados pela falsa expectativa de encontrar um personagem mítico e um Messias dominador do mundo. Então, Jesus retira-se para um lugar isolado, afastando-se do júbilo fácil do mundo e das multidões errantes, que O tomam por João Batista, por Elias, por um dos antigos profetas. E se aproxima intimamente daqueles que haverão de ser os primeiros apóstolos da Igreja nascente, compartilhando-lhes na pergunta do juízo de fé: 'E vós, quem dizeis que eu sou?' (Mt 16,15). A resposta de Pedro é um símbolo da confissão perfeita da sua fé: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus Vivo' (Mt 16,16).

Sim, Jesus Cristo é o Filho de Deus Vivo: Deus feito homem na eternidade de Deus. A missão salvífica de Jesus há de passar não por um triunfo de epopeias mundanas, mas por um tributo de Paixão, Morte e Ressurreição; não pelo manejo da espada ou por eventos feitos de glórias humanas, mas pela humildade, perseverança e um legado de Cruz. A Cruz de Cristo é o caminho da nossa salvação e da vida eterna, ontem e sempre. Por isso, a mesma pergunta se impõe a todos os homens, de todos os tempos: quem é Jesus para nós, o Filho de Deus Vivo da confissão de Pedro ou um arauto de nossas próprias incertezas, refeito sob a ótica dos interesses humanos?

Em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro as primícias do papado e o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

AS VINHAS DE DEUS (IX)

 

57. 'Um rebento sairá da raiz de Jessé' - diz o profeta Isaías; isto é, a Santíssima Virgem; e da Virgem nascerá uma flor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sobre essa flor repousará o Espírito Santo, comunicando-lhe 'o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e Ele será cheio do temor do Senhor' (Is 11,2). Assim, a sagrada humanidade de nosso Salvador é como uma flor divina sobre a qual repousou o Espírito Santo, para comunicar-lhe os seus sete dons. Isso nos é apropriadamente representado pelo candelabro de ouro com sete braços, que ficava diante do Tabernáculo do Antigo Testamento e que poderia ser chamado de flor, porque os seus braços estavam dispostos em forma de lírios.

58. Se os frutos mais delicados e mais facilmente perecíveis, como as cerejas, os damascos e os morangos, podem ser conservados durante um ano inteiro quando preparados em açúcar ou mel, não é de admirar que nossos corações, embora fracos e insensatos, sejam preservados da corrupção do pecado quando conservados pelo Corpo e Sangue incorruptíveis do Filho de Deus, que é 'mais doce que o mel e o favo de mel'.

59. O matrimônio é um estado que exige mais virtude e constância do que qualquer outro. É um exercício contínuo de mortificação e talvez o seja para vós ainda mais do que habitualmente. Deveis, portanto, preparar-vos para ele com grande cuidado, a fim de que dessa planta de tomilho, apesar de seu amargor natural, possais extrair o mel de uma vida santa. Que o doce Jesus seja sempre o açúcar e o mel que tornarão suave a vossa vocação! Que Ele viva e reine para sempre em nossos corações!

60. Assim como o sumo da videira, se permanecer por demasiado tempo na uva, corrompe-se e se estraga, também a alma humana, se permanecer entregue aos prazeres e à voluptuosidade, aos desejos e anseios, acaba por se corromper; mas, quando esmagada pela tribulação, produz uma doce bebida de penitência e amor.

61. A Divina Providência faz tudo bem e dispõe todas as coisas da melhor maneira. Que felicidade para essa jovem ter sido retirada do mundo antes que a malícia pervertesse o seu entendimento e ter deixado esse lodaçal antes de ser por ele manchada! [sobre a morte de uma jovem religiosa]. Os morangos e as cerejas são colhidos antes das peras e das laranjas, porque a sua estação assim o exige. Deixemos Deus colher aquilo que plantou em seu pomar: Ele colhe cada coisa no seu devido tempo.

62. Sei que vossos sofrimentos aumentaram ultimamente e, por isso, compadeci-me ainda mais de vós. Contudo, juntamente convosco, louvo e bendigo Nosso Senhor pelo seu beneplácito, que Ele realiza em vós, fazendo-vos participar de sua santa cruz e coroando-vos com sua coroa de espinhos... É um bom sinal para essa alma o fato de ter sofrido muitas aflições, pois, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas.

63. Plantai Jesus Cristo crucificado em vosso coração, e todas as cruzes deste mundo vos parecerão rosas... Sabeis o que fazem os pastores da Arábia quando percebem que se aproxima uma tempestade? Abrigam-se sob os loureiros, juntamente com seus rebanhos. Quando percebermos que as perseguições e as contradições nos ameaçam, devemos refugiar nossos afetos à sombra da Santa Cruz, com verdadeira confiança de que 'todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus' (Rm 8,28).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE BORDEAUX

 

Ao contrário de outros milagres eucarísticos, o  Milagre Eucarístico de Bordeaux (França) em 1822 não consiste em um evento extraordinário envolvendo uma transformação física e permanente das espécies eucarísticas em carne ou sangue, mas uma manifestação ou aparição eucarística: Cristo teria se tornado sensivelmente visível no lugar normalmente ocupado pela Hóstia.

Na tarde de domingo de 3 de fevereiro de 1822, ocorria a cerimônia de bênção do Santíssimo Sacramento em uma pequena capela situada na rua Mazarin, em Bordeaux, presidida pelo Padre Pierre-Justin Delort, substituindo naquela ocasião o celebrante habitual - padre Pierre-Bienvenu Noailles - fundador da nascente comunidade da Sagrada Família de Bordeaux.

No momento em que o Santíssimo foi exposto no ostensório e o sacerdote iniciou a incensação, a Hóstia deixou de ser percebida normalmente, manifestando em forma visível a figura de um homem, descrita pelo Padre Delort e testemunhas (coroinha, religiosas e leigos presentes) como sendo de um homem de aproximadamente trinta anos e extraordinária beleza, apresentando as seguintes características e feições: rosto intensamente luminoso, cabelos claros caindo até os ombros, uma faixa ou manto vermelho disposta sobre o ombro e o peito, a mão esquerda pousada sobre o coração e a mão direita estendida sobre os presentes em gesto de bênção. 


Esta figura de Jesus Cristo não correspondia a uma imagem pintada ou imóvel mas, pelo contrário, mostrava-se viva, inclinando-se algumas vezes para a direita e para a frente. O fenômeno teria permanecido visível por cerca de vinte minutos. Outros presentes não perceberam a imagem exposta na Hóstia, mas viram uma luz extraordinária emanando dela ou experimentaram uma intensa sensação da presença divina. O acontecimento ocorreu somente vinte meses depois da fundação da comunidade da Sagrada Família de Bordeaux, de modo que o padre Noailles interpretou a aparição como uma confirmação de que a obra nascente era agradável a Deus.

padre Pierre-Bienvenu Noailles

Depoimentos escritos das testemunhas foram encaminhados ao então arcebispo de Bordeaux, Dom Charles-François d’Aviau du Bois de Sanzay. De acordo com a tradição documental da Sagrada Família, o arcebispo determinou uma investigação e considerou o acontecimento digno de crédito, autorizando a celebração anual em sua memória no dia 3 de fevereiro. O ostensório associado ao acontecimento foi conservado pela Sagrada Família e tradicionalmente venerado na comunidade contemplativa de La Solitude, em Martillac, perto de Bordeaux.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

ORAÇÃO: SENHOR, FAZEI DESCER O VOSSO ESPÍRITO...


Senhor, fazei descer o Vosso Espírito bom e suave aos nossos corações
e preparai neles uma morada para Vós.
Purificai-os de toda mancha da carne e do espírito;
aumentai neles a fé, a esperança e a caridade
e disponde-os à penitência, ao amor e à mansidão.
Extingui, com o orvalho da vossa bênção, o ardor dos nossos desejos
e, com o vosso poder, mortificai os nossos impulsos carnais
e as concupiscências da carne.
Nos trabalhos, nas vigílias e nos jejuns,
concedei-nos fervor e discernimento
para vos amar e louvar,
para vos dirigir as nossas orações e pensar em Vós.
Concedei-nos também força e devoção para ordenarmos cada ação e pensamento
segundo a vossa vontade
e para perseverarmos nessas virtudes até o fim da nossa vida. Amém.

(Santo Elredo de Rievaulx, Oratio pastoralis)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

O DESEJO DE AGRADAR A DEUS

Dê rédeas soltas ao seu desejo por Deus; o amor é mais desejável do que a vida neste mundo. Deixe-se ser barro em suas mãos, confiando em sua vontade para você, seja na adversidade ou na glória. Todo desejo deve ser aperfeiçoado ao ser consumido pelo fogo do amor de Deus, e o desejo de agradar a Deus deve estar acima de todos os outros.

Quando morreremos para todas as coisas, para que possamos viver somente para Deus? Ah, sim, quando chegará esse momento? Ó morte preciosa! Mais desejável que a vida; morte que, pelo amor, nos transforma em Deus! São João Crisóstomo disse: Silentium, quod lutem prabet figulo, idem ipse prabe conditori tuo. Oh, que frase! Ele disse: 'Assim como o barro permanece silencioso nas mãos do oleiro, assim também você deve permanecer em silêncio nas mãos do seu Criador'. O barro permanece silencioso, quer o oleiro o molde em um vaso de honra ou de ignomínia; quer o quebre ou o jogue fora; ele se contenta em ser descartado ou colocado em uma galeria de arte. Grave este ensinamento em sua memória.

Até mesmo os desejos mais sagrados, sejam eles referentes à salvação das almas ou às grandes necessidades da Igreja, devem ser consumidos no fogo do amor de Deus, do qual brotam, e aguardam o tempo divino para sua realização. Enquanto isso, cultive um desejo, o mais perfeito de todos: agradar a Deus cada vez mais e alimentar-se da sua Santa Vontade.

(São Paulo da Cruz)