78. A erva aproxis é tão facilmente atraída pelo fogo que, mesmo quando se encontra a grande distância, atrai imediatamente para si a chama e rapidamente se consome, incendiando-se não apenas pelo calor, mas pela simples luz da chama que lhe é apresentada... Assim também, quando nossos corações se colocam na presença da bondade divina e atraem para dentro de si as perfeições divinas, pelo deleite que nelas encontram, podem dizer com verdade: 'A bondade de Deus é toda minha, porque me alegro em sua excelência; e eu sou todo dele, pois o seu beneplácito me possui'.
79. Foi esse amor de compaixão que imprimiu os estigmas no amoroso e seráfico São Francisco e as ardentes chagas de nosso Salvador na amorosa e angélica Santa Catarina de Sena; pois a complacência amorosa aguçara as pontas da dolorosa compaixão, assim como o mel torna mais sensível e penetrante o amargor do absinto; ao passo que, inversamente, o doce perfume da rosa é enfraquecido e amortecido pelo alho plantado junto às roseiras. Pois, assim como a complacência amorosa que sentimos no amor de nosso Salvador nos faz experimentar uma compaixão mais profunda por seus sofrimentos, também, por outro lado, quando passamos da compaixão por suas dores à complacência em seu amor, a alegria se torna tanto mais ardente e mais elevada.
80. Os Magos do Oriente não conseguem contentar-se com a beleza da cidade de Jerusalém, nem com a magnificência da corte de Herodes, nem com o brilho da estrela; seus corações procuram a pequena gruta e o pequeno Menino de Belém. A Mãe do belo amor e seu santo esposo não conseguem repousar entre parentes e amigos; prosseguem ainda, 'procurando com aflição' o único objeto de sua complacência. O desejo de aumentar essa santa complacência afasta todo outro prazer, para que a alma possa gozar mais perfeitamente daquele para o qual a bondade divina a atrai.
81. A mirra produz seu primeiro líquido como que por transpiração; mas, para que entregue todos os seus sucos, é necessário ajudá-la mediante uma incisão. Do mesmo modo, o amor divino de São Francisco manifestou-se durante toda a sua vida como uma espécie de exalação que dele emanava, pois em todas as suas ações ele não respirava senão esse santo amor. Mas, para manifestar inteiramente a incomparável abundância desse amor, veio o Serafim celestial feri-lo. E, para que os homens soubessem que suas chagas eram feridas do amor celestial, elas não foram feitas com ferro, mas com raios de luz.
82. A bem-aventurada Madre Teresa diz admiravelmente que, quando a união da alma com Deus alcança tal perfeição que nos mantém unidos a Nosso Senhor, ela em nada difere do arrebatamento e da suspensão do espírito; mas, quando é breve, chama-se apenas união ou suspensão, ao passo que, se é prolongada, chama-se arrebatamento ou êxtase. De tal modo que, com efeito, a alma unida ao seu Deus tão firme e estreitamente que não pode facilmente ser separada dele já não está em si mesma, mas em Deus; assim como um corpo crucificado já não está em si mesmo, mas na cruz, e como a hera que se agarra ao muro já não está em si mesma, mas no muro.
83. Assim como os marinheiros que se fazem ao mar com vento favorável e bom tempo jamais se esquecem dos cabos, das âncoras e das demais coisas necessárias para o mau tempo e as tempestades, também o servo de Deus, embora desfrute do repouso e da doçura do santo amor, nunca deve estar sem o temor dos juízos divinos, a fim de poder servir-se dele em meio às tempestades e aos assaltos da tentação. Do mesmo modo, assim como a casca de uma maçã, embora tenha pouco valor em si mesma, serve, contudo, grandemente para conservar a fruta que recobre, assim também o temor servil, embora tenha tão pouco valor em si mesmo quando comparado ao amor, é, todavia, muito útil para preservar o amor em meio aos perigos desta vida mortal.
84. Com efeito, o santo amor é uma virtude, um dom, um fruto e uma bem-aventurança. Como virtude, torna-nos obedientes às inspirações interiores que Deus nos concede por meio de seus mandamentos e conselhos, em cuja execução praticamos todas as virtudes, das quais o amor é a virtude de todas as virtudes. Como dom, o amor torna-nos dóceis e receptivos às inspirações interiores, que são como os mandamentos e os conselhos secretos de Deus; e, ao colocá-los em prática, fazemos uso dos sete dons do Espírito Santo, dos quais o amor é o dom dos dons. Como fruto, ele nos proporciona um sabor e um prazer extraordinários na prática da vida devota, a qual requer os doze frutos do Espírito Santo; e, por essa razão, o amor é o fruto dos frutos. Como bem-aventurança, faz-nos receber como grande favor e singular honra as afrontas, calúnias, censuras e insultos que o mundo nos dirige; e faz-nos renunciar e rejeitar toda glória que não seja aquela que procede de nosso amado Salvador Crucificado.
85. O amor, portanto, é frequentemente representado pela romã, que, recebendo suas propriedades da árvore, pode ser chamada de virtude da árvore; parece também ser o seu dom, que ela oferece ao homem; e é o seu fruto, pois é comida para deleitar o paladar humano. E, finalmente, ela é, por assim dizer, a glória e a bem-aventurança da árvore, pois traz consigo uma coroa e um diadema.
(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).
