domingo, 31 de julho de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

'Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós(Sl 89)
 
 31/07/2022 - Décimo Oitavo Domingo do Tempo Comum 

35. A VERDADEIRA RIQUEZA ESTÁ EM DEUS

'Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo' (Lc 12,13). Alguém, no meio da multidão, fez este pedido a Jesus. Um pedido movido por razões absolutamente terrenas e dirigido a alguém que era julgado apenas na dimensão da sabedoria humana. Um apelo, potencialmente justo, afeto às demandas de um juiz dotado de isenção e discernimento, bastava ao postulante. Mas, diante dele, estava Deus entre os homens e não um mero sábio das contendas humanas. Àquele homem, Jesus destinou então um ensinamento muito mais profundo, muito além da busca desenfreada da aquisição de bens materiais, mas centrado num caminho de heranças eternas.

É preciso primeiro buscar as coisas do Alto. Os legítimos interesses humanos devem ser pautados pelo equilíbrio e pela moderação, para não ser instrumentos de afeições desmedidas e descontroladas, sementes de ganância. Jesus é enfático neste conselho: 'Tomai cuidado contra todo tipo de ganância' (Lc 12, 15). A abundância de bens é uma fonte de preocupações contínuas e a soberba do possuir é mera vaidade: 'Tudo é vaidade' como diz o Livro do Eclesiastes (Ecl 1,2).

Para ilustrar a insensatez do homem que busca acumular tesouros na terra, Jesus apresenta, então, a parábola do homem rico. Entusiasmado por uma farta colheita, planeja em detalhes multiplicar sua riqueza com a construção de celeiros muito maiores, armazenar grandes quantidades de trigo, viver uma vida de gozo e tranquilidade. Mas, tolo entre tolos, não cuida que seus dias estão contados e não terá usufruto algum de tanta riqueza acumulada: 'Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo' (Lc 12, 21). A ganância de querer sempre mais e a ânsia de ser ainda mais rico aviltam a legitimidade do bem possuído aos domínios da cobiça mórbida.

Deus não tem lugar no coração abrasado de poder de tal homem porque o nosso coração permanecerá inquieto enquanto não repousar em Deus. A paz interior nasce da partilha, no ato de compartilhar os bens e os dons disponíveis com todos. Dispor o que se recebe, repartir o que se tem: eis a regra de ouro para se almejar as heranças eternas e acumular tesouros nos Céus. A verdadeira riqueza é aquela que se guarda no Coração de Deus.

sábado, 30 de julho de 2022

A VIDA OCULTA EM DEUS: DEUS E A ALMA ENCANTAM-SE MUTUAMENTE


Vós amastes a alma, ó meu Deus, comunicastes a vossa vida a ela, e a cumulastes de beleza. E a alma agora tornou-se parecida a Vós, a ponto de se confundir em Vós. Vós a sublimastes em encanto e ela também Vos encanta. E agora estais ligado a ela por enlaces invisíveis aos olhos do corpo ou mesmo da imaginação, e que não podem ser apreendidos com as mãos e que, no entanto, são tão reais, tão suaves e tão intensos. Uma atração livre e irresistível os mantém voltados um para o outro, mutuamente unidos, arrebatados e presos um ao outro. E a alma percebe que Vos envolve com a sua doce influência da mesma forma que ela mesma se sente completamente inundada pela Vossa, ó meu Deus!

Quem pode inferir, ó meu Deus, a profundidade e o poder de tal encanto? Nada lhe escapa. Invade todo o ser, ousamos dizer que até a medula. É uma divinização ab intra. Dir-se-ia então que o Vosso ser, intangível por nada, torna-se o próprio ser da alma. Esta comunga - ou melhor, talvez seja comungada - de Vossa plenitude. É felicidade insondável, paz, alegria, fortaleza, segurança, luz, calor, vida, tudo, pois Vós sois tudo. É mais do que tudo, porque estais acima de tudo. Podemos contemplar-Vos por dentro. Possuir-Vos em nós, e não apenas Vos provar, mas sermos como Vós.
 
Tudo isso basta-nos para morrer. E, no entanto, é apenas um amanhecer, nada mais do que um começo. O horizonte se abre em infinitas e belas perspectivas. Deus compartilha o presente com abundância, parecendo esgotar o seu tesouro de graças. E, no entanto, o que está por vir será ainda muito mais!

NADA AGRADA MAIS A DEUS DO QUE UMA ALMA QUE IGNORA A SI MESMA

Nada está escondido de Vós, ó meu Deus. Vós não deixais escapar o menor dos movimentos de uma alma que Vos ama. Parece até que ficais totalmente ocupado em captar a menor manifestação do amor dela por Vós. Ela pode se moldar em discrição e modéstia como um véu que possa esconder por completo, de todos e de si mesma, o pouco que ela julga fazer por Vós, mas é tempo perdido. Não existem véus para Vós, ó meu Deus. O esforço que a alma faz para manter em segredo o quanto Vos ama, só aumenta o Vosso encanto por ela. Nada pode agradar-Vos mais do que uma alma que busca o silêncio, que ignora a si mesmo e que quer agradar somente a Vós. Ela se torna o foco de todas as Vossas complacências, e doce atração aos Vossos olhos. Atrai, sobretudo, o Vosso Coração. O vosso amor é exposto para a alma que amais em ocasiões sem fim. Alma escolhida e bendita entre todas, quem poderá exprimir a medida de sua felicidade?

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte III - A União com Deus; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 29 de julho de 2022

'TOMA SEMPRE O ÚLTIMO LUGAR'


Se soubéssemos claramente em que lugar Deus coloca cada um de nós, aceitaríamos tal decisão sem nunca nos colocarmos nem acima nem abaixo desse lugar. Mas, no nosso estado presente, os decretos de Deus estão envoltos em trevas e a sua vontade está-nos oculta.

Por isso, o mais seguro, de acordo com o conselho da própria Verdade, é escolhermos o último lugar, de onde nos tirarão depois com honra, para nos darem um melhor. Ao passarmos debaixo de uma porta muito baixa, podemos baixar-nos tanto quanto quisermos sem nada temer; mas, se nos levantarmos um dedo que seja acima da altura da porta, bateremos com a cabeça. É por isso que não devemos recear nenhuma humilhação, mas antes temer e reprimir o menor movimento de autossuficiência.

Não vos compareis, nem com os que são maiores que vós, nem com os vossos inferiores, nem com quaisquer outros, nem sequer com um só. Que sabeis sobre eles? Imaginemos um homem que parece o mais vil e desprezível de todos, cuja vida infame nos horroriza. Pensais que o podeis desprezar, não só por comparação convosco mesmos, que aparentemente viveis em sobriedade, justiça e piedade, mas até por comparação com outros malfeitores, dizendo que ele é o pior de todos. Mas sabeis se ele não será um dia melhor que vós e se o não é já aos olhos do Senhor?

Por isso é que Deus não quis que ocupássemos um lugar intermédio, nem o penúltimo, nem sequer um dos últimos, mas disse: 'Toma o último lugar', a fim de ficarmos verdadeiramente sós na última fila. Desse modo não pensareis, já não digo em preferir-vos, mas simplesmente em comparar-vos com quem quer que seja.

(São Bernardo)

quinta-feira, 28 de julho de 2022

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'Precisamos confessar os nossos pecados e derramar muitas lágrimas, porque pecamos sem remorso, porque nossos pecados são grandes e não merecem perdão. Muitos dos que me ouvem são testemunhas de que não estou mentindo. No entanto, mesmo que eles não mereçam perdão, vamos nos converter e receberemos uma coroa. Eu chamo de 'conversão' não apenas se afastar do mal passado, mas – o que é melhor – praticar o bem a partir de agora. São João Batista diz: 'Fazei frutos dignos de conversão' . Como os faremos? Vamos praticar as ações opostas. Como se dissesse: Você roubou o que é dos outros? Então agora dê até o que lhe pertence. Você viveu muito tempo de forma desonesta? Agora seja casto com sua esposa, pratique a continência. Você insultou ou machucou alguém que estava ao seu lado? Agora abençoe aqueles que o insultam, faça o bem a quem lhe feriu. Para a nossa saúde, não basta arrancar o ferrão; tem-se que aplicar também o medicamento na ferida'.

(São João Crisóstomo)

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XXXI)

CAUSA DA NOSSA ALEGRIA, rogai por nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

quarta-feira, 27 de julho de 2022

TESOURO DE EXEMPLOS (161/163)

 

161. COMO ELE MEDITAVA NA MORTE

Santo Efrém ia frequentemente, à tardinha, meditar junto às sepulturas. Triste e pensativo ia de túmulo em túmulo, lendo as inscrições e nomes dos defuntos: príncipes da cidade, magistrados da província, ricos senhores, sábios admirados pelo mundo. 

Às vezes, o santo chamava-os em voz alta por seus nomes: ninguém lhe respondia. Onde estão aquelas soberbas figuras de homens e de mulheres aos quais todos se sujeitavam? Aquelas línguas que só falavam de seus próprios méritos e dos defeitos alheios? Onde estão? Onde estão aqueles ouvidos que só queriam ouvir os seus próprios louvores?

Tudo tornou-se pó e cinza. Lembra-te, ó homem soberbo, que és pó! Então Santo Efrém voltava para casa mais humilde e mais paciente.

162. O MUNDO PERVERTE

São Gabriel da Virgem Dolorosa, depois de passar a primeira juventude entre as lisonjas do mundo, refugiou-se na religião e nos primeiros dias de convento, pensando em seu amigo Filipe Giovanetti, que era estudante no liceu de Espoleto e, temendo por ele, que se encontrava em muitas tentações de pecado, escreveu-lhe assim: 

'Tens razão de dizer que o mundo está cheio de perigos e tropeços e que é coisa muito difícil poder salvar nossa única alma; não deves por isso desanimar. Desejas a tua salvação? Foge dos maus companheiros. Desejas a tua salvação? Foge dos teatros. Ó é verdade, e eu sei por experiência, que é impossível entrar neles com a graça de Deus e sair sem a ter perdido ou a posto em perigo. Desejas a tua salvação? Foge das diversões, porque naqueles lugares tudo se conjura contra a nossa alma. Foge enfim dos maus livros, pois é indizível o mal que eles podem causar aos corações de todos e especialmente dos jovens. Dize-me: podia ter eu maiores diversões e prazeres do que gozei no mundo? Pois bem: o que me resta agora? Confesso-o a ti: Não me restam senão amarguras'.

163. QUERIA MORRER MÁRTIR...

O pequeno Orígenes tinha uma alma ardente e pura. Naquele tempo havia perseguições contra os cristãos. Bem o sabia o menino, e não tinha medo, antes tinha grande desejo do martírio para testemunhar com a vida e o sangue o seu amor a Jesus Cristo. Resolvera secretamente entregar-se nas mãos dos verdugos e teria morrido mártir se a astúcia de sua mãe não tivesse conseguido impedi-lo.

Aquela santa mulher compreendera o propósito do filho e, antes que este despertasse naquela manhã perigosa, escondeu-lhe as roupas e o obrigou a ficar na cama (Eusébio, História Eclesiástica). Como é possível que um menino tivesse tanta coragem, tanta fé e tanto entusiasmo a ponto de desejar a morte? Era possível, porque seu pai, o beato Leônidas, também morrera como mártir.

Aí está, prezados pais, vossos filhos crescerão segundo os vossos exemplos. Vós os quereis obedientes: obedecei também vós a Deus. Vós os quereis religiosos, puros, honrados, trabalhadores: frequentai também vós os sacramentos e exercitai-vos nas virtudes cristãs.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

terça-feira, 26 de julho de 2022

26 DE JULHO - SÃO JOAQUIM E SANTA ANA

Sagrada Família com São Joaquim e Santa Ana (Nicolás Juarez, 1699)

De acordo com a Tradição Católica e documentos apócrifos antigos, os pais de Maria foram São Joaquim e Santa Ana. Ana, em hebraico Hannah, significa 'Graça' e Joaquim equivale a 'Javé prepara ou fortalece'. Ambos os nomes indicam, portanto, a  missão divina de realização das promessas messiânicas, com o nascimento da Mãe do Salvador. Segundo a mesma Tradição, os pais de Maria teriam nascido na Galileia, transferindo-se depois para jerusalém, onde Maria nasceu e onde ambos morreram e foram enterrados.

O culto aos pais de Maria Santíssima é antiquíssimo na Igreja Oriental (como revelados nos escritos de São Gregório de Nissa e Santo Epifânio, em hinos gregos e em homilias dos Santos Padres). Os túmulos de São Joaquim e Santa Ana em Jerusalém foram honrados até o final do Século IX, numa igreja construída no local onde viveram. No Ocidente, o culto de Santa Ana é muito mais recente, com sua festa litúrgica tendo início na Idade Média, sendo formalizada no Missal Romano apenas em 1584, no tempo de Gregório XIII. A devoção a São Joaquim foi ainda mais tardia no Ocidente.

Como pais de Nossa Senhora, São Joaquim e Santa Ana são nossos avós espirituais e o calendário litúrgico instituiu a festa conjunta destes dois santos em 26 de julho, que ficou também conhecida como 'dia dos avós'. Eles são também os santos protetores da Ordem dos Carmelos Descalços (fundada no Século XVI por Santa Teresa de Ávila). No dia dos avós, o blog presenteia os nossos irmãos mais velhos com estas duas orações.

Oração a Santa Ana

Santa Ana, mãe da Santíssima Virgem, pela intercessão da Vossa Filha e do Meu Salvador, dai-me obter a graça que Vos peço, o perdão dos meus pecados, a força para cumprir fielmente os meus deveres de cristão e a perseverança eterna no amor de Jesus e de Maria. Amém.

Oração a São Joaquim

Senhor! Pela intercessão de São Joaquim, pai da Santíssima Virgem, velai pelos Vossos filhos idosos, especialmente... (nomes) que, tendo cumprido na Terra uma vida longa, possa(m) merecer de Vós a Vida Eterna no Céu. Senhor, dai-lhes o conforto de uma idade avançada, saúde do corpo e da alma, a sabedoria de envelhecer e um coração inquieto enquanto não repousar em Vós. Amém.  

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XXX)

SEDE DE SABEDORIA, rogai por nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

PARA SER UM HOMEM ETERNO... (IV)

 ... SEJA UM CATÓLICO DE VERDADE

Ser católico de verdade é, por princípio, uma enorme e absurda contradição. O católico é aquele que comunga a doutrina de Cristo, que é a Verdade. Então, não existem católicos 'de verdade', nem católicos de quaisquer espécie ou adjetivação complementar, como se fosse possível a existência de hordas de católicos 'de mentira', neocatólicos ou católicos dos tempos atuais. Católicos mais ou menos. Mas, infelizmente, estes são muitos - talvez mesmo uma grande maioria - e, assim, nestes tristes tempos, seja preciso enfatizar os católicos como 'católicos de verdade'.

Ser católico começa em ser crente. Partilhar de crenças que têm como base a fé centrada em Cristo e que implica compartilhar EM TUDO a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo como modelo de pensamento e de vida neste mundo. Isso implica assumir crenças diversas como valores fundamentais. Cremos em Deus Pai criador e todo poderoso. Cremos no Filho de Deus Vivo, Jesus Cristo, que sofreu, morreu e ressuscitou dos mortos, para nos salvar e nos oferecer o dom da vida eterna. Professamos que Jesus é nosso Senhor e Salvador, nosso Pastor e Rei. Cremos no Espírito Santo e na sua operosa intercessão nos tempos em favor das almas e da Santa Igreja. Buscamos moldar a nossa vida em amar a Deus acima de tudo e amar o próximo como a nós mesmos, praticando sempre o perdão, a caridade e a misericórdia. Trabalhamos pela paz e justiça em nosso mundo. Adoramos e louvamos a Deus vivendo uma vida sacramental. Reconhecemos a necessidade do perdão e cremos firmemente que, no sacramento da Reconciliação, encontramos a fonte divina para receber o dom do perdão. Cremos na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, não apenas como um sinal ou símbolo de Jesus, mas como verdadeiro corpo e sangue de Cristo. 

Reconhecemos a oração como prática de vida da intimidade com Deus. Reconhecemos a importância de ler e rezar as Sagradas Escrituras, a palavra viva de Deus.  Reconhecemos a primazia do Papa e respeitamos o ofício do papado como a verdadeira autoridade de ensino da Igreja. Pregamos o Evangelho de Jesus Cristo, tanto em palavras como em ações, particularmente no sentido de viver para os outros, e não apenas para nós mesmos. Somos devotos de Maria, Mãe de Deus, e vemos os santos como verdadeiros exemplos de santidade e de fé. Rezamos e pedimos a intercessão de Nossa Senhora e dos santos em nosso favor. Estamos comprometidos com a proteção de toda a vida humana, desde o momento da concepção até a morte natural. Somos irmãos em Cristo e, como comunidade unida, buscamos respeitar a dignidade de cada ser humano, extirpando quaisquer resquícios de preconceito, opressão, arbítrio, violência ou  injustiça a quem quer que seja.

Mais do que crentes, somos cristãos, porque temos como único modelo Cristo, Aquele que é Caminho, Verdade e Vida e 'cujo jugo é suave e o fardo é leve'. Ser cristão é ser católico, porque a Igreja de Cristo é única: una, santa, católica e apostólica. Se a Igreja de Cristo é única, quaisquer outras igrejas são absolutamente falsas. Se são falsas e dissociadas da Verdade que é Cristo, não são católicas e nem cristãs. 

Como católicos, somos cristãos e somos crentes. Mas, quantas vezes apenas crentes? Crentes que acreditam que, como católicos, nos bastam ser crentes? Crentes de nossas próprias convicções, crentes num modo particular de estabelecer limites e interfaces entre a vida mundana e a vida espiritual? Crentes que podemos ser cristãos diferentes? Crentes num Deus que nos espera compassivo na próxima esquina, forjado pelos nossos interesses ou repentinamente alçado aos dotes de uma solução infinita quando as provações e as intempéries da vida nos jogam no chão? Crentes que o bem feito é fruto e empenho de graças divinas, ainda que seja feito exclusivamente pela moral humana? Onde fica, então, o 'sem Mim, nada podeis fazer?' 

Para ser um homem eterno... seja um católico de verdade. Seja crente, cristão e católico. Professe a Verdade de Cristo em suas palavras, em suas obras, no recolhimento de sua oração, em tudo, com todos, o tempo todo. Sem meias verdades, sem miseráveis concessões. Sem querer moldar Deus e a doutrina de Cristo aos seus interesses e privilégios mundanos, sem maneirismos, sem tibieza, sem indiferentismo, sem covardia, sem presunção. 

Seja intransigente, seja inoportuno em nome da Verdade. Todo o respeito humano vai morrer em pó, toda vaidade humana é fuligem no tempo. Nada disso importa, nada disso produz frutos de graça e de salvação. Só Deus possui as chaves da eternidade e somente nas palavras de Cristo e da Santa Igreja Católica você pode encontrá-las. Somente em Cristo, por Cristo e em Cristo, o católico de verdade pode aspirar a ser um homem eterno.

domingo, 24 de julho de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

'Naquele dia em que gritei, Vós me escutastes, ó Senhor!(Sl 137)
 
 24/07/2022 - Décimo Sétimo Domingo do Tempo Comum 

34. VIDA DE ORAÇÃO  


Jesus em oração. Nos Evangelhos, são inúmeros os exemplos que mostram Jesus em silente oração na intimidade com o Pai. O Filho de Deus Vivo feito homem mostra e reafirma, em sua condição humana, a necessidade da oração contínua e suplicante a Deus. Nestas ocasiões, Jesus se afastava do burburinho dos homens, para rezar com piedade, recolhimento e devoção, no exemplo do modelo da oração perseverante que se eleva da terra e encontra acolhida e reflexos nos céus. É preciso rezar sempre, é preciso sempre rezar bem.

E Jesus ensina aos discípulos a Oração do Pai Nosso, síntese da perfeição da oração cristã. Em São Lucas, os Evangelhos transcrevem uma versão mais resumida da forma integral da oração como expressa por São Mateus (Mt 6, 9-13). Nas suas sete petições, suplicamos e louvamos de forma perfeita a glória e a misericórdia de Deus, assumimos a condição de criaturas necessitadas de alimento físico e espiritual para ascendermos à eternidade com Deus, definitivamente libertados do pecado e de todas as insustentáveis fragilidades da nossa natureza humana.

Rezar bem, com perseverança, insistentemente, oportuna e inoportunamente, como Abraão diante o perdão de Sodoma (Gn 18, 20-32), como Jesus ilustra com a parábola do pedido inoportuno do amigo insistente em plena madrugada: 'Amigo, empresta-me três pães...' (Lc 11,5). Deus não se cansa, Deus não se aflige, Deus não reclama de horários inapropriados ou da falta de cortesias humanas. Deus quer ouvir a nossa oração sempre, a qualquer hora, em qualquer lugar: 'Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá' (Lc 11, 9-10). A oração bem feita é a certeza concreta de que nossas súplicas tocaram o Coração de Deus.

A insistência e a perseverança da oração rendem frutos de graças. O poder da oração agradável a Deus é capaz de remover montanhas, obstáculos julgados intransponíveis, e de superar todos os limites conhecidos da condição humana; é capaz de realizar milagres: 'Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!' (Lc 11, 13). O tempo de Deus conosco é a nossa vida em oração.

sábado, 23 de julho de 2022

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XXXVI)

Capítulo XXXVI

Razões da Expiação no Purgatório - Mortificação dos Sentidos - A visão do Padre Francisco de Aix - Mortificação da Língua e o Célebre Durand

Os cristãos que desejam escapar dos rigores do Purgatório devem amar a mortificação do seu Divino Mestre e ter cuidado para não serem membros transigentes sob uma Cabeça coroada de espinhos. Em 10 de fevereiro de 1656, na província de Lyon, faleceu o padre Francisco de Aix, da Companhia de Jesus, para uma vida melhor. Ele levou todas as virtudes de um religioso a um elevado grau de perfeição. Possuído por uma profunda veneração à Santíssima Trindade, teve por particular intenção em todas as suas orações e mortificações honrar este Augusto Mistério; abraçar de preferência os trabalhos pelos quais os outros mostravam menos inclinação tinha um encanto especial para ele. Frequentemente visitava o Santíssimo Sacramento, mesmo durante a noite, e nunca saía da porta de seu quarto sem ir rezar ao pé do altar. Suas penitências, um tanto excessivas, deram a ele a alcunha de homem das dores. A alguém que o aconselhou a moderação, ele respondeu: 'O dia que eu deixasse passar sem derramar algumas gotas do meu sangue para oferecer ao meu Deus seria para mim a mais dolorosa e severa mortificação. Assim, já que não posso esperar sofrer o martírio por amor de Jesus Cristo, pelo menos terei alguma participação em seus sofrimentos'.

Outro religioso, Irmão Coadjutor da mesma Ordem, não imitou o exemplo deste bom padre. Ele tinha pouco amor pela mortificação e, ao contrário, buscava mais a comodidade e o conforto, bem como tudo o que pudesse agradar os sentidos. Este irmão, alguns dias depois de sua morte, apareceu ao padre d'Aix, envolvido por um cilício tenebroso e sofrendo grandes tormentos, como castigo pelas faltas de sensualidade que havia cometido em vida. Ele implorou a ajuda de suas orações e logo em seguida desapareceu.

Outra falta contra a qual devemos nos proteger, porque nela caímos muito facilmente, é a não mortificação da língua. Ó como é fácil errar nas palavras! Quão raro é falar por muito tempo sem ofender a mansidão, a humildade, a sinceridade ou a caridade cristã! Mesmo pessoas piedosas estão frequentemente sujeitas a esse defeito; quando escapam de todas as outras armadilhas do demônio, deixam-se levar, diz São Jerônimo, nesta última armadilha – a calúnia. 

Ouçamos o que é relatado por Vincent de Beauvais. Quando o célebre Durand que, no século XI, resplandeceu a Ordem de São Domingos, era ainda um simples religioso, mostrou-se um modelo de regularidade e fervor; mas ele tinha um defeito. A sua vivacidade era uma predisposição a falar muito; gostava excessivamente de expressões espirituosas, muitas vezes à custa da caridade. Hugh, seu abade, alertou isso ao seu conhecimento, prevendo mesmo que, se não se corrigisse dessa falta, certamente teria que expiá-la no Purgatório. Durand não deu importância suficiente a esse conselho e continuou a se dedicar, sem muita restrição, aos distúrbios da língua. Após sua morte, a previsão do abade Hugh foi cumprida. Durand apareceu a um religioso, um de seus amigos, implorando-lhe que o ajudasse com suas orações, porque ele foi terrivelmente punido pela não mortificação de sua língua. Em consequência desta aparição, os membros da comunidade decidiram por unanimidade em observar estrito silêncio por oito dias, e praticar outras boas obras para o repouso do falecido. Esses exercícios de caridade produziram seu efeito; algum tempo depois Durand apareceu novamente, mas agora para anunciar a sua libertação.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

sexta-feira, 22 de julho de 2022

22 DE JULHO - SANTA MARIA MADALENA

 

Maria Madalena. Para se fazer distinção do nome Maria tão comum entre os habitantes de Israel (esse era o nome, por exemplo, da irmã de Moisés), os textos bíblicos nomeavam as diferentes Marias por um acréscimo singular do personagem - assim, Maria Madalena é a Maria de Magdala, povoado situado às margens do Lago da Galileia e próximo à cidade de Tiberíades. Eis as pouquíssimas referências a ela nas Sagradas Escrituras:

[Lc 8, 2-3]: 'Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses'.

[Jo 19, 25]: 'Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena'.

[Mc 15,40-41; 47]: 'Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam'.

[Mc 16, 1; 5-6; 9-10]: 'Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus... Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram... Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos'.

[Jo 20, 1-2; 18]: 'No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! ... Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado'.

Ela é a figura bíblica 'Maria de Magdala', da qual Jesus havia expulsado sete demônios. Esta acepção não implica a interpretação direta de 'uma grande pecadora'. O fato de ter-se livrado de 'sete demônios' (sete é o número da perfeição, da plenitude) implica que ela foi curada de todos os seus males tanto físicos (enfermidades) como espirituais (pecados, estes de naturezas quaisquer). É absolutamente forçada e despropositada a conjectura de que Maria Madalena pudesse ter sido uma 'prostituta' na sua condição pregressa antes do seu encontro com Jesus. Desta interpretação espúria, nasceram inúmeras outras lendas e desdobramentos fantasiosos da participação e do envolvimento desta mulher singular na vida pública de Jesus e dos seus apóstolos. 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XXIX)

 

ESPELHO DE JUSTIÇA, rogai por nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

ORAÇÃO: O GLORIOSA DOMINA

O hino O Gloriosa Domina constitui a sequência final do hino devocional Quem Terra, Pontus, Aethera - cuja autoria é atribuída a Venantius Fortunatus (530-609), bispo de Poitiers, comumente utilizado nas leituras da Liturgia das Horas. Este pequeno hino constitui um verdadeiro breviário de mariologia, pois exalta o papel de Nossa Senhora como co-redentora da humanidade na sua terceira estrofe (assinalada em negrito em vermelho). Muito conhecido no passado, era rezado por muitos santos, sendo a obra preferida de Santo Antônio de Pádua, que o aprendeu por sua mãe e que o cantava desde tenra idade e, inclusive, na hora da morte, tendo sido a recitação do hino as suas últimas palavras nesta vida. Ainda hoje, como homenagem, os devotos rezam e cantam este hino diante do túmulo do santo. 


O Gloriosa domina,
excelsa super sidera,
qui te creavit provide,
lactas sacrato ubere.

Ó gloriosa Senhora,
mais excelsa que as estrelas,
alimentastes no sagrado peito
Aquele que vos criou.

Quod Eva tristis abstulit,
tu reddis almo germine;
intrent ut astra flebiles,
sternis benigna semitam.

O que Eva infeliz nos frustrou
pela semente de vosso ventre reparais
ao reabrir propícia para as estrelas errantes
o caminho para o reino dos Céus.

Tu regis alti ianua
et porta lucis fulgida;
vitam datam per Virginem,
gentes redemptae, plaudite.

Vós sois o pórtico do Céu,
o portal de luz resplendente;
ó homens remidos, louvai
a Virgem que vos legou a vida.

Patri sit Paraclito
tuoque Nato gloria,
qui veste te mirabili
circumdederunt gratiae. Amen.

Com o Pai e o Paráclito
seja dada toda glória ao vosso Filho,
que com magnífica veste 
vos revestistes toda de graças. Amém.

(tradução do autor do blog)

quarta-feira, 20 de julho de 2022

PARA SER UM HOMEM ETERNO... (III)

   ... SEJA UM HOMEM DE ORAÇÃO


Ninguém tem tempo. É preciso fazer tudo o que é possível no menor tempo possível. As coisas do mundo demandam tempo e, para fazê-las, é preciso que o homem se torne escravo do tempo. E, se acaso ainda for possível, ser escravo e escracho do tempo. O tempo nos consome, e somos consumidos neste redemoinho dos dias e semanas como uma consequência feliz e previsível da nossa vontade. Ainda que o resultado concreto de tudo isso seja sempre um imenso vazio.

A vida plena em Deus exige... parar o tempo. O tempo é o maior contratempo na nossa vida interior. O recolhimento e a oração implicam, na intimidade com Deus, o domínio completo dos sentidos e dos sentimentos. Esse domínio é principalmente o controle da imaginação e do tempo exterior. Estamos na Presença de Deus, estamos fora do mundo, estamos em oração. A oração é um ato de libertação do homem contra a escravidão do tempo e dos sentidos. 

Mas a oração é muito mais que isso. A oração é um ato de amor, do mais puro amor humano, que nos permite aspirar aos patamares mais elevados da graça divina. Para se ficar sinceramente na Presença de Deus, é preciso o despojamento de nós mesmos e o desapego à própria existência. Orar significa o sobrevoo da alma sobre a nossa condição humana; orar sem cessar consiste em tornar este voo um prelúdio da eternidade com Deus.

A oração é um sopro do Espírito Santo que perpassa pelos labirintos das percepções humanas. Estamos sempre preocupados em fazer, em fazer muito e sempre cada vez mais ansiosos por fazer mais. Deus conta apenas com aquilo que podemos fazer bem. Com as nossas obras, pequenas obras, incensadas do puro amor humano, movidas pela caridade, sublimadas pela oração. Pela oração e pela graça divina, homens de barro são transformados em homens eternos.

Para ser um homem eterno... seja um homem de oração. Porque a nossa salvação depende da nossa oração, da nossa capacidade de nos colocarmos continua e proficuamente na intimidade com Deus como frutos venturosos de homens de uma vida. Aprender com a oração a estar e a permanecer na intimidade de Deus é o maior tesouro deste mundo e a fonte de todas as bem aventuranças; a oração nos leva ao encontro de Deus, não rezar implica nos perder no mundo.

Seja um homem de oração. Para colocar as coisas em ordem e curar as feridas abertas ou mal curadas, é preciso primeiro esvaziar a alma dos sentidos e dos apegos humanos. A alma de um homem de oração é uma catedral vazia, ainda que tenha as dimensões e a simplicidade de uma choupana. Na alma de um homem de oração, esvaziada de si mesmo, o infinito amor de Deus seria capaz de refazer o universo inteiro. 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

A VIDA OCULTA EM DEUS: A ALMA CANTA

 

Falar, e sobretudo cantar, é expressar em voz alta e sem medo, com alegria e com entusiasmo, os sentimentos mais íntimos do coração em relação a Vós. Com efeito, Vós tendes direito, e pleno direito, a essa sensível manifestação da estima e afeto que a alma nutre por Vós. Na verdade essa lei se impõe automaticamente no íntimo da alma, pelo menos em certas ocasiões. Sem isso, a alma tenderia a ser asfixiada se tivesse que esconder esse sentimento.

Assim, é preciso que ela possa falar, é preciso que ela possa cantar, mesmo quando estiver sozinha. É verdade que Vós estais sempre presente para ouvi-la, e isso basta a ela. Essa voz que fala e que canta agrada a Deus e, sendo de tal agrado, pode dizer tudo. A alma canta assim com todo o seu ser. Tudo o que a alma faz ou diz enseja paz, tranquilidade, harmonia: tudo está em ordem nesta alma, selada pela doçura e recolhimento que alegra o seu Deus. Pois, para Deus, essa voz é muito suave e agradável.

Quão bem recompensada é a alma interior por seus esforços, ó meu Deus, quando a fazeis conhecer que tudo o que ela diz, tudo o que ela faz, tudo o que ela sofre, torna-se a mesma voz melodiosa que chega até Vós e Vós a amais por isso! Não há ruídos, nem asperezas, nem afetações e nem dissimulações nesta voz da alma; não, ela é apenas suave, harmônica e amável.

E se pensarmos agora que também outras almas - cujas atividades, internas e externas, alinhadas perfeitamente à Vossa vontade, compõem uma melodia semelhante - juntam igualmente suas vozes, pensaremos ouvir, muito acima do burburinho do mundo, uma sinfonia incomparável, que reverbera e constitui um verdadeiro prelúdio do cântico eterno. Abstraídas do mundo, abrem aquela janela da alma que dá vista para o infinito. E permanecem assim, no maior tempo possível, nessa misteriosa solidão diante desse horizonte sem limites, mesmo que não vejam nada, mas apenas respirando o ar divino em plenitude.

Escutemos, pois, o canto dessas almas silenciosas e desconhecidas que amam a Deus plenamente e que sabem falar com Ele sem o ruído das palavras, e apenas com o bater do seu coração, incensado com o fogo do amor. Ele vibra e reverbera constantemente nessa imensidão. Que esse canto de amor possa juntar também ao vosso, ao de Maria e José, ao dos anjos e ao de todos os santos.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte III - A União com Deus; tradução do autor do blog)

domingo, 17 de julho de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Senhor, quem morará em vossa casa?(Sl 14)
 
 17/07/2022 - Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum 

33. SÓ UMA COISA É NECESSÁRIA 


Em meio às suas muitas viagens e peregrinações, em certa ocasião, Jesus parou para descansar na pequena comunidade de Betânia e ali se hospedou numa casa de propriedade de Marta. Marta era irmã de Maria e Lázaro, família religiosa e de posses, pela qual Jesus nutria grande apreço e amizade. Desta feita, aparentemente já se passara algum tempo sem Jesus ter estado com eles, pois, diante de sua chegada, Maria não arredava pé de sua Santa Presença, ouvindo com admiração e profunda alegria as palavras do Mestre.

Tão absorta e tão entretida estava Maria com a chegada do Senhor, que relegara ao completo esquecimento quaisquer outras tarefas ou atribuições, ainda que motivadas pela chegada de visitante de tal honra. Honra maior do que servi-lo ou preparar-lhe a refeição, era amá-lo, era estar envolvida pela sua presença, era encher o coração de graça e de se deleitar na graça do Senhor. Atitude diversa tivera a sua irmã Marta. Na praticidade e nas exigências das ações humanas, movia-se de esforços concentrados em dar ao Mestre a refeição mais ligeira e mais substanciosa. E, nesse intuito, estava imersa por completo em mil afazeres e preparativos, moldada pelo intento de oferecer uma generosa hospitalidade e propiciar uma acolhida calorosa ao Senhor em sua casa. Santas e gratas intenções do coração humano!

Foi, pois, movida por tais preocupações imediatas, que Marta abordou Jesus, buscando a sua intervenção em induzir Maria a ajudá-la nas tarefas a cumprir: 'Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!' (Lc 10, 40). A hospitalidade e a docilidade da acolhida são afligidas pelas queixas e uma certa admoestação a Jesus no pedido de Marta: 'não importas?'; 'manda'... Diante de Deus, Maria se alimenta do Verbo Encarnado; diante de Deus, Marta se apequena nas suas próprias tribulações humanas.

Jesus vai conduzi-las ambas a si. Com Maria, mediante as palavras e os ensinamentos que o Evangelho não transcreveu. Com Marta, com as palavras que ressoam para todos nós: 'Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária' (Lc 10, 41-42). Todas as ações humanas podem ser belas e santas, desde que comecem no espírito da Santa Presença de Deus. Por Cristo, com Cristo, em Cristo: tudo em Cristo para a glória de Deus! Maria escolheu a melhor parte porque fez a acolhida do Senhor Que Vem primeiro na alma. E esta escolha, ratificada por Jesus, é outra verdade que ressoa para cada um de nós, no agora da vida humana e no depois da eternidade: a melhor parte definitivamente 'não lhe será tirada' (Lc 10, 42).

sábado, 16 de julho de 2022

GLÓRIAS DE MARIA: MÃE E FORMOSURA DO CARMELO

  


No dia 16 de julho de 1251, São Simão Stock suplicava a intercessão de Nossa Senhora para resolver problemas da Ordem Carmelita quando teve uma visão da Virgem que, trazendo o Escapulário nas mãos, lhe disse as seguintes palavras:

"Filho diletíssimo, recebe o Escapulário da tua Ordem, sinal especial de minha amizade fraterna, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem com este Escapulário não padecerão o fogo do Inferno. É sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos, e aliança de paz para sempre". 


Imposição e Uso do Escapulário

- Qualquer padre pode fazer a bênção e imposição do Escapulário à pessoa.

2 - A bênção e a imposição valem para toda a vida e, portanto, basta receber o Escapulário uma única vez.

- Quando o Escapulário se desgastar, basta substituí-lo por um novo.

- Mesmo quando alguém tiver a infelicidade de deixar de usá-lo durante algum tempo, pode simplesmente retomar o seu uso, não sendo necessária outra bênção.

5 - Uma vez recebido, o Escapulário deve ser usado em todas as ocasiões (inclusive ao dormir), preferencialmente no pescoço.

6 - Em casos de necessidade de retirada do Escapulário, como no caso de doenças e/ou internações em hospitais, a promessa de Nossa Senhora se mantém, como se a pessoa o estivesse usando.

7 - Mesmo um leigo pode fazer a imposição do Escapulário a uma pessoa em risco de morte, bastando recitar uma oração a Nossa Senhora e colocar na pessoa um escapulário já bento por algum sacerdote.

8 - O Escapulário pode ser substituído por uma medalha que tenha, de um lado, o Sagrado Coração de Jesus e, do outro, uma imagem de Nossa Senhora (por autorização do Papa São Pio X).
Oração a Nossa Senhora do Carmo
     Ó Virgem do Carmo e mãe amorosa de todos os fiéis, mas especialmente dos que vestem vosso sagrado Escapulário, em cujo número tenho a dita de ser incluído, intercedei por mim ante o trono do Altíssimo. 

          Obtende-me que, depois de uma vida verdadeiramente cristã, expire revestido deste santo hábito e, livrando-me do fogo do inferno, conforme prometestes, mereça sair quanto antes, por vossa intercessão poderosa, das chamas do Purgatório.

        Ó Virgem dulcíssima, dissestes que o Escapulário é a defesa nos perigos, sinal do vosso entranhado amor e laço de aliança sempiterna entre Vós e os vossos filhos. Fazei, pois, Mãe amorosíssima, que ele me una perpetuamente a Vós e livre para sempre minha alma do pecado. 

       Em prova do meu reconhecimento e fidelidade, ofereço-me todo a Vós, consagrando-Vos neste dia os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração e todo o meu ser. E porque Vos pertenço inteiramente, guardai-me e defendei-me como filho e servidor vosso. Amém.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

NOSSA SENHORA DE TODOS OS NOMES (8)

NOSSA SENHORA DAS ESPIGAS


Nossa Senhora vestida com um vestido azul escuro adornado com espigas de milho é uma simbologia da maternidade virginal da Mãe de Deus, referência a um solo fértil e cultivado que produz exuberante colheita. A presença dos anjos ratifica essa simbologia. Nossa Senhora é tipicamente retratada com cabelos soltos, túnica larga e mãos cruzadas em oração. A vestimenta inclui a representação de raios de luz envolvendo o pescoço e os pulsos da imagem da Virgem.

A imagem pode ser diretamente relacionada à Eucaristia: Nossa Senhora é o Tabernáculo da presença eucarística de Deus. Estas imagens marianas foram particularmente comuns nos séculos XIV a XVI, declinando tais representações a partir de então. Em algumas representações, a Virgem é retratada segurando um feixe de trigo nas mãos ou sobre um campo cultivado. Representações anteriores dessa natureza conjugavam simbologias da virgindade e da maternidade marianas, mostrando Nossa Senhora, por exemplo, em um jardim de flores ou rodeadas de anjos, incluindo às vezes, pinturas de fontes (Nossa Senhora é por excelência a 'fonte selada' - fons signatus - referência à sua imaculada conceição) ou com símbolos da Eucaristia. Uma coroa de flores, símbolo da virgindade de Maria, constitui uma ilustração adicional bastante comum dessa iconografia, seja colocada ao lado da imagem de Nossa Senhora ou então nas mãos do doador da pintura ajoelhado aos pés da Virgem Maria.

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (XXVII)

 

VIRGEM CLEMENTE, rogai por nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

quinta-feira, 14 de julho de 2022

PARA SER UM HOMEM ETERNO... (II)

  ... SEJA UM HOMEM MOLDADO PELO SOFRIMENTO


Queremos o prazer, e tão somente. Queremos o riso solto das manhãs de sol, todo dia, toda hora, a cada momento. Como se a fonte do prazer fosse o oráculo de todas as vontades, moldada numa fotografia única e eclipsada na memória. Viver e desfrutar a vida como donos e senhores do tempo. A felicidade torna-se uma porta escancarada pela qual queremos adentrar de corpo e alma, como um direito e um privilégio que nos bastaria por completo.

Chamemos isso de insensatez do riso. Há um desejo - um paroxismo da vontade - na busca desenfreada de uma existência feliz e de uma felicidade perfeita, que não existem. Mas não existem pessoas mais crentes do que as insensatas. Elas creem insensatamente, na sua insensatez medonha, que podem almejar horizontes de felicidade sem fim e curtir prazeres sem conta, sem sequelas ou contrariedade alguma.

Hoje, como nunca, não há espaço para o sofrimento. O sofrimento não é tolerado, não é aceito, não é compartilhado, não é tomado como uma inexorável condição humana. Nós aprendemos a aliviar as nossas dores e a eliminar o sofrimento com muitos medicamentos, com muitas cirurgias, com muita anestesia. Quem sabe o torpor de uma cólica renal sabe bem como vale a pena decantar os frutos conquistados pela ciência humana. Precisamos da saúde do corpo. Mas precisamos também da saúde da alma.

E, paradoxalmente, a saúde da alma não pode prescindir do sofrimento. Porque é o sofrimento que molda a alma do homem eterno. A alma não tem gênero, a alma possui graus de santidade. O espelho da alma do homem eterno é a Cruz de Cristo, e nela estão sublinhados e sublimados todas as virtudes e todas as graças divinas. Buscar a Cruz, subir o Calvário: eis a mais ditosa das metas, eis o caminho das conquistas eternas! Neste contexto, o pão, a água, o ar que se respira, o passo que se dá, o olhar que se alevanta - tudo, tudo mesmo, deve ser moldado pelo sofrimento.

A alma se alimenta e se molda pelo sofrimento. O sofrimento que a ensina quão frágeis e apequenados somos nós, diante das realidades inevitáveis das dificuldades, das injustiças, das doenças, dos acidentes, das perseguições, dos crimes, da morte. O sofrimento que a fortalece para além do homem de uma vida, que a prepara para uma caminhada que tem por destino a eternidade com Deus. Quando se busca extinguir o sofrimento como realidade humana, impõe-se a aniquilação da alma. Matar o sofrimento impõe estabelecer leis que eliminem também as vítimas (a eutanásia é o preço macabro dessa orgia) e a matar Deus nas almas. 

Para ser um homem eterno... seja um homem moldado pelo sofrimento. Não há escondimento possível: Cristo padeceu na Cruz também as suas dores. As suas, as minhas, as de todos os homens. Cristo é o homem das dores, o Deus moldado pelo sofrimento, imposto pelos pecados de todos nós. A redenção de sua alma, conquistada por Cristo na Cruz, tem o seu preço medido não pelo tamanho de suas dores, mas pelo quanto a alma escolhida é capaz de oferecer e de compartilhar as suas dores com Cristo.

Compartilhadas com Cristo. Unidas a Cristo no seu Caminho de Cruz. Moldadas pelo Calvário. Que adianta as suas dores lançadas aos ventos? Não tem valor algum o sofrimento que é desenhado na areia. Que peso tem a sua dor que espuma revolta e desespero? A dor que se mede, a dor que pesa, a dor que conta é toda dor - suas pequenas ou grandes dores - que é colocada no Coração de Cristo subindo o Calvário. Homem eterno, aprenda de uma vez por todas a escancarar para si os portões dos Céus, sendo um homem das dores: 'Eu vos ofereço, Senhor, esta minha dor para que ela não seja toda Vossa!'

quarta-feira, 13 de julho de 2022

TESOURO DE EXEMPLOS (158/160)


158. CASTIGUE-ME!

Chegou a uma vila uma professora que não acreditava em Deus. E querendo corromper as alunas, disse-lhes:
➖ Vamos ao ditado; escrevei! E ditou-lhes despudoradamente: 'Não existe Deus; os que creem nele são uns bobos, aos quais se deveriam por orelhas de burro'.

Ao recolher e corrigir os ditados, viu que uma menina escrevera:
➖ Eu creio que Deus existe.
➖ Por que escreveste isto, senhorita? Olha que te castigarei.
➖ Minha mãe - disse a menina - ensinou-me que existe Deus, e acrescentou que é preferível deixar-se matar a ofender a Deus, nosso Criador. Se a senhora quiser castigar-me, castigue-me; Deus e minha mãe estarão contentes comigo.

Comoveu-se então a professora diante daquelas palavras pronunciadas por sua alunazinha, e mais tarde converteu-se.

159. NA MINHA FÁBRICA NÃO SE TRABALHARÁ

Um comerciante tinha em sua fábrica centenas de operários, cujo trabalho devia ser contínuo e uma suspensão do mesmo em dias festivos acarretava a perda de grandes lucros. Apresentou-se ao bispo e perguntou se podia considerar razão suficiente para trabalhar em dias festivos a considerável perda que sofria, e em consciência pedia-lhe licença para trabalhar depois que os operários tivessem ouvido missa.

O bispo disse-lhe que escrevesse ao papa. Ele o fez e a resposta favorável foi enviada ao próprio bispo, que foi encarregado de comunicá-la ao comerciante. Chamou-o e disse-lhe:
➖ O papa outorgou-vos a dispensa solicitada; mas o vosso exemplo há de influir nos outros, os quais nunca entenderão suficientemente o motivo da dispensa, pois o público não raciocina e só verá um favor concedido a um rico. Vede se quereis tomar sobre vós essa responsabilidade e se, na hora da morte, não tereis de arrepender-vos de haver dado motivo para que outros faltassem contra a lei de Deus.
➖ Está bem, senhor bispo; na minha fábrica não se trabalhará em nenhum dia de festa. Prefiro perder bom dinheiro a arcar com tanta responsabilidade.

160. ASSIM CONTA UM MISSIONÁRIO

Um missionário foi chamado para assistir a um velho moribundo que vivia numa casinha perdida numa vasta planície. Levou consigo o necessário para celebrar a missa. Tratava-se de um senhor de origem francesa que há quarenta anos vivia na região de Filadélfia e fazia vinte anos que não vira mais um sacerdote.

O missionário atendeu ao enfermo, celebrou a missa para dar-lhe a comunhão e, terminada a ação de graças, perguntou ao doente:
➖ Que prática especial fez o senhor durante a sua vida para merecer a assistência de Deus nos seus derradeiros instantes?
O velho pensou um pouco e disse:
➖ O único bem que fiz foi caminhar todos os sábados sessenta quilômetros para ir à vila confessar-me, comungar e ouvir a missa no domingo. Isto fiz sempre até que meus incômodos me impediram.

Pois foi isso precisamente que o fez merecer a graça de receber os últimos sacramentos.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)