domingo, 28 de fevereiro de 2021

EVANGELHO DE DOMINGO

  

'Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos' (Sl 115)

 28/02/2021 - Sexto Domingo do Tempo Comum

14. A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR 


'Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha' (Mc 9,2). Uma alta montanha, o Monte Tabor. Como testemunhas da extraordinária manifestação da glória celeste e da vida eterna em Deus, Jesus conduz os três apóstolos escolhidos para o alto, numa clara assertiva de que é por meio do profundo recolhimento interior e da elevação da alma muito acima das coisas do mundo é que podemos viver efetivamente a experiência plena da contemplação de Deus.

'E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar' (Mc 9, 2-3). No mistério da transubstanciação do Senhor, os apóstolos testemunharam antecipadamente alguma coisa dos mistérios de Deus. Algo profundamente diverso da natureza humana, pois nascido direto da glória de Deus. Algo muito limitado da Visão Beatífica, posto que deveria atender sentidos humanos: 'nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam (1 Cor 2, 9). Ainda assim, algo tão extraordinário e consolador, que perturbou completamente aqueles homens e, ao mesmo tempo, os moldou definitivamente na certeza da vitória e da ressurreição de Cristo.

'Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus' (Mc 9, 4). A revelação da glória de Deus é atestada pela Lei e pelos Profetas, pelo Senhor da vida e da morte, pelos textos das Sagradas Escrituras. Naquele momento, se fecha a Lei e a morte (com Moisés) e se cumprem todas as profecias e se impõe a vida eterna em Deus (com Elias, que ainda vive). E, para não se ter dúvida alguma, Deus se pronuncia no Alto do Tabor em favor do Filho: 'Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!' (Mc 9, 7).

Do alto do Tabor, a ordem divina ecoa pelos tempos e pelas gerações humanas a todos nós, transfigurados na glória de Deus pelo batismo e herdeiros do Tabor eterno: 'Escutai o que ele diz!'. Como batizados, somos como os apóstolos descidos do monte e novamente envoltos pelas brumas e incredulidades do mundo. Pela transfiguração, entretanto, somos encorajados a vencer o mundo como Cristo, a superar a fragilidade de nossos sentidos, a elevarmos nosso pensamento às coisas do Alto, a manifestar em nós a glória de Deus como primícias do Céu, sob o consolo da fortaleza e da perseverança: 'Se Deus é por nós, quem será contra nós?' (Rm 8, 31b).

sábado, 27 de fevereiro de 2021

GALERIA DE ARTE SACRA (XXVIII)

 

Esta é a pintura cristã mais antiga da América e que se mantém preservada até hoje, executada pelos índios astecas em 1539, no México. A obra representa o milagre da transubstanciação ocorrido durante uma missa celebrada por São Gregório, em que Cristo - em modelo parcial pintado acima da cintura, na forma do Homem das Dores - apareceu no altar diante de uma duvidosa assembleia, durante o culto pascal. A pintura, com 56 cm de largura e 68 cm de altura, foi totalmente executada com penas justapostas de aves diversas e fixadas sobre um painel de madeira (técnica chamada 'plumaria'), expressão máxima da arte da cultura asteca utilizada para a representação de uma obra singular da iconografia cristã. A obra de arte encontra-se atualmente no Museu dos Jacobinos, em Auch / França.

A obra de arte foi executada pelos índios astecas, a mando do então governador da cidade do México - Diego Huanitzin - e sob a orientação e os cuidados do religioso franciscano Pierre de Ghant, como um presente do povo asteca ao então papa Paulo III. Executada apenas vinte anos após a conquista espanhola, constitui, assim, um testemunho vivo dos primórdios da evangelização e conversão dos ameríndios ao cristianismo. O trabalho em plumaria asteca da Missa de São Gregório muito provavelmente tomou como base uma impressão trazida da Espanha de uma obra de natureza similar - a Missa de São Gregório de Israhel van Meckenem (1490). Em ambas as obras, os instrumentos da Paixão de Cristo (Arma Christi) são igualmente reproduzidos, incluindo-se a coluna da flagelação, os pregos, a esponja, o galo e o chicote do castigo, inseridos no altar ou em torno dele.

A Missa de São Gregório, de Israhel van Meckenem (1490/1500)

A obra possui um valor artístico e histórico incomensuráveis mas, como instrumento de culto religioso e devocional, parece transmitir uma ideia de irradiação divina, pelo movimento ordenado e iridescente das mudanças de posição das centenas de penas fixadas em um mosaico único, sob iluminação difusa ou pelo simples fluxo de ar. Tais características e simbolismo são comparáveis aos vitrais das catedrais góticas, como expressão comum de Cristo como lux mundi (a luz do mundo). Essa constitui a síntese e o propósito final da aplicação da técnica da plumaria à arte cristã.

 Retrato de Cristo, plumaria com penas de beija-flor e papagaio, de Juan Bautista Cuiris (1550)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (52/54)


52. ENTRE NA MINHA GUARITA!

O veterano capitão Hurtaux, cavaleiro da Legião de Honra, não era católico praticante; tinha, como muitos homens, certo temorzinho ou respeito humano de chegar-se à confissão. Muito antes de dar o passo definitivo, gostava de invocar a Santíssima Virgem, indo rezar no santuário de Nossa Senhora em Chartres, onde morava.

Um dia, estando de joelhos diante de um grande Cristo na catedral, viu que um sacerdote, que o conhecia e tinha a franqueza de um militar, aproximou-se, bateu-lhe no ombro e disse:
➖ Capitão, pouco adianta estar o senhor estar aí a rezar, se não se põe na graça de Deus. E, tomando-o pelo braço, acrescentou:
➖ Entre na minha guarita.

O capitão deixou-se levar, fez a sua confissão e saiu com o rosto radiante e a alma revestida da graça de Deus. Foi desde esse dia um cristão modelo: todos os dias fazia a sua hora de guarda aos pés de Nossa Senhora e não se levantara sem lançar um afetuoso olhar para a Mãe do Céu. Um dia, afinal, já não pôde ir fazer a guarda e teve Nosso Senhor, sem dúvida acompanhado de sua Mãe, que vir ao leito de morte de seu servo. Recebeu os sacramentos com fé viva e, ao apresentar-lhe o padre a sagrada Hóstia, exclamou:
➖ Senhor, não sou digno... não sou digno que venhais à minha casa, mas sois tão bom!

O capitão não se envergonhava de suas crenças nem dissimulava suas práticas piedosas e sabia tapar a boca dos que o interpelavam.
➖ Aonde vais? perguntou-lhe certo dia um amigo, ao vê-lo dirigir-se a uma igreja.
➖ Vou aonde tu deverias ir e não tens coragem.
Com este seu gênio tão simples como firme granjeara o respeito de todos.

53. UM CASTIGO E UMA GRAÇA

O Sr. Beauveau, marquês de Novian, deveu a sua conversão e vocação religiosa à Companhia de Jesus a uma vitória sobre o respeito humano para honrar a Nossa Senhora. Em 1649, estando as tropas alemãs na região da Alsácia-Lorena, alguns soldados alojados em Novian, depois de haverem bebido em excesso, puseram-se a jogar. 

Um deles, depois de haver perdido no jogo, vendo uma estátua de Nossa Senhora colocada na parede, ficou furioso como se fôra ela a causa de sua falta de sorte, e começou a golpeá-la proferindo horríveis blasfêmias. Apenas terminara, caiu por terra com um tremor em todo o corpo e dores tão fortes e contínuas que foi impossível fazê-lo tomar alimento durante quatro ou cinco dias. Tendo a tropa recebido a ordem de partir, ataram o infeliz em seu cavalo para que acompanhasse a marcha. Soube-se que, à força de agitar-se, caíra da montaria e morrera no caminho, mordendo a terra espumando de raiva.

Naquela vila falou-se, por muito tempo, do exemplar castigo do blasfemo. Dois anos após, a pedido de um missionário, resolveu-se fazer um ato solene de reparação. Para esse fim, foram àquela casa em procissão o vigário, o missionário, alguns outros sacerdotes e o povo de Novian com o marquês à frente.

Chegados ao lugar, por mais que o padre chamasse a alguns homens, nenhum se apresentou para levar a imagem à igreja. O Sr. Beauveau, indignado com semelhante indiferença para com Nossa Senhora, sentiu-se interiormente movido a levá-la ele mesmo. Apesar do respeito humano e de parecer beato aos olhos daquela gente, tomou a imagem e levou-a com respeito à capela do castelo onde, por ordem do bispo, foi colocada com todas as honras. 

Maria Santíssima não tardou a recompensar esse ato de piedade, pois, segundo declarou ele mesmo, começou o marquês a receber tal abundância de graças e tão fortes inspirações para a vida perfeita que não só se tornou um cristão modelo, mas ainda abraçou a vida religiosa, na qual viveu e morreu santamente.

54. CASTIGO DE UM ESTUDANTE

Dois estudantes perversos iam certo dia pelo caminho que conduz ao santuário de Nossa Senhora de Ostaker, onde muitos enfermos recobram a saúde, bebendo água da fonte milagrosa. Discorriam ambos sobre como se divertiriam naquele feriado, quando um exclamou:

➖ Sabes o que vamos fazer?
➖ Não.
➖ Um milagre; sim, um autêntico milagre. Não te rias e ouve-me. Vendar-te-ei os olhos, tu te fingirás de cego e eu te levarei à fonte.
➖ E depois?
➖ Quando chegarmos, começarás a rezar, lavarás os olhos com a água, e gritarás que estás curado, que estás vendo... assim pregaremos uma peça aos devotos. Não te parece divertido?
➖ Sim, ótimo. E quando voltarmos, contaremos o prodígio aos jornais e como se rirão os leitores desses pobres imbecis que vão lá buscar saúde. Falarão de nós e nos tornaremos célebres...
➖ Vamos...

Assim foram nossos dois comediantes, fazendo cada um o seu papel, até a fonte milagrosa. Como sempre, havia ali muitos peregrinos. Vendo os dois jovens, aproximaram-se deles com sinais de simpatia como fazem os bons cristãos com os enfermos. Todos se puseram a rezar enquanto o jovem ímpio se aproximava da fonte para se lavar. 

Com o auxílio de seu hipócrita companheiro, tira o pano dos olhos, fingindo chorar e lamentar-se de seu infortúnio. Toma da água, esfrega os olhos... Mas, ó milagre! A água produz o efeito! Uma espessa névoa lhe cobre os olhos. Não vê mais nada, está cego! Lança então um grito de desespero, chama por sua mãe, conjura a Santíssima Virgem que lhe perdoe... censura seu companheiro, mudo de espanto, por lhe haver aconselhado aquela maldade.

Os peregrinos, espantados, nada compreendiam daquela cena. Fazem-lhe perguntas e arrancam-lhes a confissão da culpa. Nunca se vira emoção semelhante ao redor da fonte; em vão põem-se os peregrinos em oração para obter o perdão aos miseráveis. Deus não suporta que se zombe de Maria, sua Mãe: o cego ficou cego... Teve este tamanho pesar de seu crime, que perdeu o juízo e foi terminar num manicômio, onde esperamos que Nossa Senhora, em vista de sua pena temporal, lhe tenha alcançado a misericórdia de Deus.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

ver PÁGINA: TESOURO DE EXEMPLOS

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DESATADORA DOS NÓS

 


Virgem Maria, Mãe do Amor Formoso,
Mãe que jamais deixais de vir
socorrer os Vossos filhos aflitos.

Mãe cujas Mãos não param nunca
de servir seus amados filhos,
pois são movidas pelo Amor Divino
e a imensa Misericórdia
que existem em Vosso Coração.

Voltai o vosso olhar compassivo sobre mim
e vede o emaranhado de nós
que há em minha vida.
Vós bem conheceis o meu desespero,
a minha dor e o quanto estou amarrado
por causa destes nós.

Maria, Mãe que Deus
encarregou de desatar os nós
da vida dos seus filhos,
confio hoje a fita da minha vida em Vossas mãos.

Ninguém, nem mesmo o maligno
poderá tirá-la do Vosso precioso amparo.
Em Vossas mãos não há nó
que não possa ser desfeito.

Mãe poderosa, por Vossa graça e Vosso poder intercessor
junto a Vosso Filho e Meu Libertador, Jesus,
recebei hoje em Vossas mãos este nó...(expor o problema ou dificuldade)
Peço-Vos que o desateis para a Glória de Deus, e por todo o sempre.
Vós sois a minha esperança.

Ó Senhora minha,
sois a minha única consolação dada por Deus,
a fortaleza das minhas débeis forças,
a riqueza das minhas misérias, a liberdade,
com Cristo, das minhas cadeias.

Ouvi a minha súplica.
Guardai-me, guiai-me, protegei-me, ó meu seguro refúgio e caminho para Deus.
Mãe, Desatadora dos Nós, rogai por mim!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A COMUNHÃO ESPIRITUAL

I. Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática. E Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto lhe agrada esta devoção.

Um dia apareceu Jesus a Soror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Sena em Nápoles, e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e, no segundo, as espirituais. Em outra ocasião, disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental.

Mais tocante é o que um autor fidedigno refere a outro servo de Deus. Quando este fazia na missa a comunhão espiritual, sentia a partícula consagrada ser levada aos lábios e experimentava na alma uma doçura indizível, querendo o Senhor recompensar desta forma o desejo de seu bom servo. Por isso todas as almas devotas costumam praticar com frequência o santo exercício da comunhão espiritual. A bem aventurada Angela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite. 

Nem é de admirar, pois que este modo de comungar, sobre ser uma devoção muito proveitosa, é também facílimo e pode ser praticado cada dia por todos, e quantas vezes se quiser. A já mencionada Joana da Cruz exclamava: 'Ó meu Senhor, que bela maneira de comungar é essa! Sem ser vista por ninguém, sem ter de dar conta ao meu diretor espiritual, sem dependência de ninguém senão de Vós, que alimentais minha alma na solidão e lhe falais ao coração!'

II. Procura fazer com frequência a comunhão espiritual; tanto mais que ela é também um meio valiosíssimo para dispor a alma a fazer com mais fruto a comunhão sacramental. Por isso, nas tuas visitas ao Santíssimo Sacramento, na tua oração mental, em cada missa que ouvires, no momento da comunhão do celebrante, faze a comunhão espiritual.

Faze então um ato de fé, crendo firmemente que na Eucaristia está o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo, tão vivo como está no céu. Faze também um ato de amor, unido ao arrependimento dos teus pecados; e em seguida um ato de desejo, convidando Jesus Cristo a entrar em tua alma a fim de a fazer toda sua. Agradece-lhe, afinal, como se já o tivesses recebido.

Para que essas comunhões espirituais sejam mais proveitosas, une-as aquelas que fizeram todos os santos e, em particular, ás da tua querida Mãe Maria. Quantos frutos colherás desta forma para tua alma! Representa que cada uma de tuas comunhões será uma pedra preciosa que ornará a tua coroa no céu.

Ó meu Redentor amabilíssimo, agradeço-Vos o me haverdes ensinado este grande meio de santificação e, com o vosso auxilio, quero aproveitá-lo sempre, a começar pelo dia de hoje. Ó, meu Jesus, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-Vos sobre todas as coisas e desejo possuir-Vos em minha alma. Visto que não posso agora receber-Vos sacramentalmente, vinde ao menos espiritualmente ao meu coração. Abraço-Vos, como se já tivesses vindo, e me uno inteiramente a Vós; não permitais que jamais me separe de Vós.

Ó Maria, vós que tanto desejais ver vosso Filho amado de todos, se me amais, eis aí a graça que vos peço e que me haveis de alcançar: obtende-me um grande amor a Jesus. Obtende-me também um grande amor a vós, que sois a criatura mais amante, a mais amável e a mais amada de Deus. O amor para convosco é uma graça que Deus não concede senão a quem deseja salvar.

(Excertos da obra 'Meditações para Todos os Dias e Festas do Ano', de Santo Afonso Maria de Ligório)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

DICIONÁRIO DA DOUTRINA CATÓLICA (XXI/Final)


UNIÃO HIPOSTÁTICA

É a união misteriosa da natureza divina e da natureza humana, na Pessoa do Verbo divino com as duas naturezas distintas, conservando cada uma os atributos que lhe são próprios.

VASO DE ABLUÇÕES

É  um pequenino vaso, de vidro ou de prata com água, que deve estar junto do sacrário para o sacerdote purificar os dedos, antes e depois da comunhão aos fiéis. Com esse vaso deve haver um manustérgio para enxugar os dedos. Deve estar coberto e a água deve ser renovada com alguma frequência.

VASOS SAGRADOS

São aqueles que, consagrados pelo bispo, só podem servir para os atos do culto divino.

VERBO DIVINO

É o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, como o ensina o Evangelho: 'No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1,1)... O Verbo fez-se homem e habitou entre nós e nós vimos a sua glória, glória como Filho unigênito do Pai' (Jo 1, 14). O Verbo feito homem é Jesus Cristo.

VÉSPERAS

É o nome da quinta Hora do Ofício divino, que corresponde às seis horas da tarde, segundo o modo de contar dos antigos.

VESTES LITÚRGICAS

São aquelas que, benzidas pelo bispo ou pelo sacerdote, só podem ser usadas nos atos do culto divino.

VIA SACRA

É uma devoção que tem por objeto a contemplação dos sofrimentos, crucificação e morte de Jesus Cristo. Costuma ser instituída nas igrejas e capelas em que é permitido rezar a missa. Só pode ser instituída por sacerdote que tenha recebido essa faculdade da Santa Sé ou do Geral dos Franciscanos e a faculdade está sujeita a uma autorização do bispo do lugar, dada por escrito para cada instituição. É essencial que haja 14 cruzes de madeira benzidas no lugar em que se faz a instituição, antes ou depois de estarem afixadas na parede; devem estar afixadas a alguma distância umas das outras. As cruzes podem ser afixadas na parede por qualquer pessoa, antes ou depois da bênção. Não é necessário colocar quadros ou pinturas relativas à Paixão e Morte de Jesus. Se todas as cruzes, ou ao menos metade delas, tiverem sido tiradas e substituídas, é preciso fazer uma nova instituição canônica; caso contrário, não. Faz-se a Via Sacra visitando-se as 14 cruzes (estações), uma após outra, sem grande interrupção, e meditando em cada estação, ainda que por pouco tempo, sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. São estas as condições necessárias para poder lucrar as indulgências que se ganhariam visitando pessoalmente as Estações da Via Sacra em Jerusalém, sendo todas as indulgências aplicáveis às almas do Purgatório. Na Via Sacra, feita em oratórios ou capelas domésticas, somente podem lucrar as indulgências os seus proprietários, os seus parentes e seus criados, que morarem na casa. Os doentes e as pessoas que se encontram numa real impossibilidade, mesmo moral, de ir à Igreja fazer a Via Sacra, podem lucrar as mesmas indulgências, com a condição de terem na mão um crucifixo (não uma cruz somente), benzido expressamente para esse efeito por quem para isso tenha faculdade, e de recitarem com piedade e contrição 20 vezes o Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai; 4 vezes para recordar as 14 Estações, 5 em honra das cinco chagas de Jesus Cristo e a última pelo Sumo Pontífice. Quando muitas pessoas, legitimamente impedidas de visitar as estações, recitam em comum vinte vezes - Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai - basta que uma só delas tenha em mãos um crucifixo devidamente benzido.

VIÁTICO

É a comunhão aos enfermos em perigo de morte. Em perigo de morte, seja qual for a causa, os fiéis são obrigados a receber a Sagrada Comunhão e não é necessário que o perigo seja certo; basta que seja provável. O Viático pode e deve ser dado às crianças perigosamente enfermas, que tenham chegado ao uso da razão. Para isso basta que saibam distinguir do alimento comum o Corpo de Cristo e adorá-lo com reverência. Ainda que o fiel tenha recebido a comunhão por devoção no mesmo dia, dando-se o perigo de morte, deve ser muito exortado a que comungue outra vez por Viático e, perdurando o mesmo perigo, é lícito e convém recebê-lo mais vezes, em dias distintos, segundo o prudente conselho do confessor.

VÍCIO

É a tendência habitual para o mal. Os vícios podem ser tantos como o número dos deveres, porque a falta do cumprimento do dever é um mal. Um ato mau isolado é uma falta; a repetição habitual desse ato constitui o vício, que é coisa detestável e difícil de curar.

VIDA ETERNA

É a felicidade do homem, é a sua aspiração suprema. Só a pode realizar depois da vida terrena, vendo Deus, amando-o e o possuindo eternamente. Para consegui-la, é necessário crer e praticar o que Jesus Cristo ensinou: 'Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna' (Jo 5, 21); 'Se queres entrar na vida eterna guarda os mandamentos' (Mt 19, 17). 

VIDA RELIGIOSA

É um gênero de vida fundada sobre o Evangelho e aprovada pela Igreja, que tem por fim procurar a perfeição da vida cristã, pela prática dos três votos — pobreza, obediência, castidade — segundo regras determinadas. Os três votos de religião são os meios mais próprios para conseguir a perfeição, porque se opõem diretamente aos três grandes obstáculos da santidade. Pelo voto de pobreza, afasta-se a cobiça das riquezas; pelo voto de obediência, afasta-se o amor desordenado da vontade própria; pelo voto de castidade, afasta-se o amor dos prazeres sensuais.

VIDA SOBRENATURAL

É a vida do cristão habitualmente na graça de Deus, procedendo sempre de harmonia com as virtudes teologais — fé, esperança e caridade — e com as virtudes morais — prudência, justiça, fortaleza e temperança.

VIGÍLIAS

Chamam-se assim as vésperas das grandes festas da Igreja — Natal, Páscoa, Pentecostes, Assunção e Festa de Todos os Santos. A Igreja prescreve o jejum e a abstinência nesses dias, com o fim de os fiéis se prepararem, pela mortificação dos sentidos, para a celebração mais piedosa e mais espiritual, dessas grandes solenidades.

VISÃO BEATÍFICA

É a clara e intuitiva, mas não compreensível visão de Deus face a face.

VISITA AD SACRA LIMINA

É a visita que o bispo de cada diocese tem obrigação de fazer periodicamente ao papa, com o fim de informá-lo do estado da sua diocese, no que diz respeito à disciplina eclesiástica, à vida religiosa do povo cristão e às relações da Igreja com o Estado. Por este meio o papa assegura a unidade da Igreja na diversidade dos povos.

VOTO

É uma promessa deliberada e livre, feita a Deus, de um bem possível e melhor. Nem todas as promessas que fazemos a Deus têm a natureza de voto. Se não temos intenção de nos obrigar a fazer o que prometemos, emitimos apenas um propósito de fazer alguma coisa em honra de Deus, mas não foi um voto o que fizemos. Há várias espécies de voto: (i) público ou privado, conforme é ou não é aceite em nome da Igreja pelo legítimo superior eclesiástico; (ii) solene ou simples, conforme é considerado pela Igreja; (iii) reservado, quando só a Sé Apostólica o pode dispensar; (iv) pessoal, quando o que se promete é uma ação do postulante (jejum por exemplo); (v) real, quando se promete alguma coisa (uma esmola, por exemplo); (vi) misto, quando o que se promete é ao mesmo tempo uma coisa e uma ação do postulante; (vii) temporário, perpétuo o, condicional. O voto deve ser cumprido como se promete e sem demora: 'Quando fizeres voto ao Senhor, não demores em cumpri-lo, porque o Senhor, teu Deus, o exigirá, e, se tardares, a demora te será imputada como pecado' (Dt 23, 21). Se o voto é condicional, só obriga depois de satisfeita a condição; se é pessoal, só obriga aquele que o fez; se é real e não foi cumprido em vida pelo postulante, a obrigação passa para os seus herdeiros, não obrigando mais do que a herança permite. Por vários motivos a obrigação do voto pode cessar. Entre os motivos, está a dispensa dada em nome de Deus pela autoridade eclesiástica. O papa pode dispensar de todos os votos. O bispo pode dispensar dos votos não reservados ao papa, que são: o voto privado de perfeita e perpétua castidade e o voto de entrar em ordem religiosa de votos solenes, quando feito de modo absoluto e depois de 18 anos de idade. O voto solene de castidade constitui impedimento dirimente do Matrimônio. Os votos simples de castidade, mesmo em Congregação Religiosa onde se fazem somente 
votos simples, o de virgindade e o de receber Ordens Sacras, são impedimentos impedientes do Matrimônio.

VULGATA

Chama se Vulgata à tradução latina da Bíblia, na sua maior parte obra de São Jerônimo, declarada autêntica pelo Concílio de Trento. Na composição da Vulgata, entraram elementos de três origens diferentes. Alguns oriundos de antigas versões latinas, que não foram revistas por São Jerônimo, são os chamados elementos deuterocanônicos do Antigo Testamento, com exceção dos livros de Tobias e Judite. Outros faziam parte de versões anteriormente revistas pelo Santo Doutor; tais são os livros do Novo Testamento e o Saltério chamado galicano. E, finalmente, também fazem parte da Vulgata versões feitas por São Jerônimo diretamente sobre o texto original (hebreu e caldeu); são deste grupo os livros protocanônicos do Antigo Testamento exceto o Saltério, os livros de Tobias e Judite e as partes deuterocanônicas de Daniel e de Ester.

ZELO

É a chama do amor manifestado exteriormente pela ação. Quem ama a Deus procura em tudo a sua maior glória; quem ama o próximo procura contribuir o melhor que pode para a salvação da sua alma. Nisso consiste o zelo cristão. O verdadeiro zelo é: (i) sobrenatural, procurando em tudo a glória de Deus; (ii) prudente, evitando o ardor do temperamento e as atitudes irrefletidas; (iii) forte e corajoso, capaz de vencer os maiores obstáculos; (iv) paciente, suportando os defeitos do próximo; (v) constante e perseverante, não se deixando dominar pelo desânimo; (vi) desprendido dos interesses próprios, sacrificando-os na medida do possível; (vii) generoso, fazendo apostolado por meio da palavra e do exemplo e auxiliando, com trabalho ou com dinheiro, as várias obras de caridade aprovadas pela Igreja.

(Verbetes da obra 'Dicionário da Doutrina Católica', do Pe. José Lourenço, 1945)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

22 DE FEVEREIRO - A CÁTEDRA DE PEDRO

A celebração da festa litúrgica da Cátedra de São Pedro no dia 22 de fevereiro tem origem muito antiga e está documentada por sua inclusão num calendário do ano 354 e no Martyrologium Hieronymianum, o mais antigo da Igreja Latina, composto entre 431 e 450. Na pessoa de São Pedro (e de todos os seus sucessores), insere-se o fundamento visível da unidade da Igreja, nascida de Deus e glória de Deus até os confins dos séculos 'porque as portas do inferno não prevalecerão contra ela' (Mt 16,18).

'O chamado de Pedro' (Giorgio Vasari)

'Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16, 17-19)

domingo, 21 de fevereiro de 2021

EVANGELHO DE DOMINGO

 

'Verdade e amor são os caminhos do Senhor' (Sl 24)

 21/02/2021 - Primeiro Domingo da Quaresma

13. O RETIRO NO DESERTO


Jesus acabara de se submeter ao batismo nas águas do Jordão, evento que deflagara, então, pela manifestação expressa nas palavras do Pai e pela ação do Espírito Santo descido do céu na forma de uma pomba, o início do tempo de sua pregação pública, na investidura messiânica do Filho de Deus Vivo. E, diante desta missão portentosa, a primeira medida do Espírito Santo é conduzir Jesus ao deserto, para um tempo singular de devoção, oração e profundo recolhimento interior, na consumação da alma elevada à divina perfeição.  

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, o Evangelho nos invoca a começar também esse tempo de jejuns e penitência seguindo o exemplo de Jesus, com um retiro no deserto. O deserto para nós representa um lugar de provação, de tentação e de exílio; afastados do cotidiano do mundo, somos desafiados a viver um tempo singular de conscientização e de reflexão sobre a limitação dos valores mundanos e da preparação de almas perseverantes na superação destes limites e indo mais além, para águas mais profundas, na busca dos valores da graça santificante que nos forjam herdeiros dos Céus.

Ir ao deserto afastado do mundo não implica se esconder do mundo. Jesus 'ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Quarenta dias é o tempo bíblico de referência para tempos de grande provação; as tentações de satanás no deserto repetem as tentações que nos são impostas pelo demônio durante toda a nossa vida, até no momento da morte; a vida entre animais selvagens caracteriza uma vida no exílio, longe do cotidiano do mundo.

Estar no deserto não significa um isolamento da alma. Deus está presente em nós em todos os momentos, com as graças necessárias para a plena superação de todas as provações, tentações e abatimentos da caminhada e, por isso, 'os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Encerrado o tempo de vigília e de preparação no deserto e dado o sinal final da Providência Divina, pela prisão de João Batista, o Antigo Testamento torna-se passado de vez e tem início a pregação da Boa Nova para a salvação da humanidade, evocada com os próprios termos com que o Precursor anunciara os tempos da redenção (conforme Mt 3, 1-2): 'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' (Mc 1, 15).

sábado, 20 de fevereiro de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: PRESENÇAS E AUSÊNCIAS DE DEUS


A vida espiritual, exceto em sua última fase, desenvolve-se assim: nós a perdemos, procuramos de novo e a reencontramos: 'Vós estais aí, meu Deus; fico feliz em saber que Vós estais presente'. Sim, Deus trabalha assim. Ele vem e depois se afasta de nós para ser procurado novamente. Ah, quando você vai compreender que se deve ir até Ele apenas pelo que Ele é e não pela alegria que a sua presença pode nos proporcionar?

Devemos receber as graças de Deus sem muito entusiasmo natural, para não nos sentirmos abatidos quando a graça sensível diminuir. Fiquemos sempre tranquilos porque Deus não age exceto na serenidade. Quando Jesus se esconde, devemos buscá-lo de todo o coração. Não podemos viver sem Ele e, no entanto, nem sempre podemos estar com Ele. Devemos, pois, procurá-lo e procurá-lo sem tréguas.

Nós vamos encontrar Jesus naquela alma escurecida que iluminamos, naquela alma entristecida que consolamos, naquela alma abatida que encorajamos ou ainda naquela alma abençoada de Deus que admiramos e invejamos. Também o encontraremos no Tabernáculo, onde se esconde e onde se doa; nós o encontraremos em nós mesmos, bem no fundo de nosso coração. Ali Ele está de forma misteriosa, que não sendo uma presença eucarística é, no entanto, muito real. No fundo, a maneira de encontrar Jesus, em todos os lugares, é levá-lo sempre conosco, quer o sintamos ou não.

Não se canse de buscar a Deus. Diga a Ele para frequentemente se esconder bem no seu íntimo para que você possa perceber, sem o som das palavras, que Ele está ali e ali Ele está por você. Permita que ilumine, fortifique e console a sua alma. Peça a Ele para guiar a sua vida do íntimo em que se encontra, oculto e revelado ao mesmo tempo. Seu sofrimento vem do que você não vê. Faça com frequência esta oração dos cegos: 'Senhor, faça que eu veja!'. E assim, por meios que desconhecemos, uma intervenção sobre os seus defeitos, uma leitura ou uma palavra de Deus irá iluminá-lo e dar-lhe a luz que você procura.

O que transparece como obstáculo é o medo. Por humildade ou por timidez, temos medo de Deus. Nada vemos nEle senão a infinita grandeza, a onipotência e a majestade, e tendemos a esquecer a bondade, a misericórdia, a infinita condescendência daquele Deus que se fez homem por amor a nós. Ele disse: 'Venham todos a mim' (Mt 11,28) e tememos ir até Ele. Ele como que nos revela: 'Eis aqui o Coração que tanto amou os homens', e tememos ser amados por Ele. Modicae fidei! [homens de pouca fé!].

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte II -  A Ação de Deus; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

REFLEXÕES PARA A QUARESMA 2021 - III

QUESTÕES E RESPOSTAS SOBRE O DOGMA DA SALVAÇÃO

Q. Mas não é uma falta de caridade professar a doutrina de que ninguém pode ser salvo fora da Igreja?
R. Pelo contrário, é grande ato de caridade afirmá-lo enfaticamente.

Q. Por que?
R. Porque o próprio Jesus Cristo e seus Apóstolos o ensinaram em linguagem bastante clara.

Q. Não é grande prova de amor alertar o próximo quando ele está em perigo de cair no fundo de um abismo?
R. Certamente.

Q. Não estão todos aqueles que se encontram fora da Igreja em grande perigo de cair no abismo do inferno?
R. Sim.

Q. Não é, pois, grande caridade alertá-los sobre este perigo?
R. Seria uma crueldade não o fazer.

Q. São todos aqueles que estão fora da Igreja igualmente passíveis de culpa e danação perante Deus?
R. Não, alguns são mais do que outros.

Q. Quem são os menos passíveis de culpa e danação?
R. Aqueles que sem culpa de sua parte não sabem nada sobre Jesus e sua doutrina.

Q. Quem são os mais passíveis de culpa e danação?
R. Aqueles que reconhecem a Igreja Católica como a verdadeira e única Igreja, mas não abraçam sua fé, assim como aqueles que poderiam reconhecê-la como tal, caso procurassem com diligência, mas negligenciam em fazê-lo por indiferença ou outros motivos culpáveis.

Q. O que devemos pensar da salvação daqueles que, sem culpa de sua parte, encontram-se fora do redil da Igreja e que nunca tiveram a oportunidade de conhecê-la melhor?
R. Devemos pensar que sua ignorância invencível não os salvará; mas, se tiverem sido tementes a Deus e vivido de acordo com sua consciência, Deus, em sua misericórdia infinita, provê-los-á com os meios necessários à salvação; mesmo ao ponto, se preciso for, de enviar um anjo para instruí-los na doutrina católica, em vez de deixá-los perecer por ignorância invencível.

Q. É correto dizer que quem não tenha sido recebido no seio da Igreja antes de sua morte está condenado?
R. Não.

Q. Por que não?
R. Porque ninguém pode saber o que se passa entre Deus e a alma no momento terrível da morte.

Q. O que isso significa?
R. Significa que Deus, em sua misericórdia infinita, pode iluminar na hora da morte alguém que ainda não é católico de modo que este alguém possa reconhecer a verdade da fé católica, arrepender-se verdadeiramente de seus pecados e sinceramente desejar morrer como um bom católico.

Q. O que dizer daqueles que recebem tal graça extraordinária e morrem desta maneira?
R. Dizemos que eles morreram unidos, pelo menos, à alma da Igreja Católica e que, por causa disso, foram salvos.

Q. O que sucede com aqueles que, estando fora da Igreja Católica, morrem sem receber esta graça extraordinária na hora da morte?
R. A danação eterna.

Q. Mas não haveriam muitos que perderiam a afeição de seus amigos, o conforto de seus lares, seus bens temporais e prospectos de negócio caso se tornassem católicos? Jesus Cristo não os dispensaria em tais circunstâncias de se tornarem católicos?
R. Quanto à afeição dos amigos, Jesus Cristo solenemente declarou: 'O que ama o pai, ou a mãe, mais do que a mim, não é digno de mim; e o que ama o filho, ou a filha, mais do que a mim, não é digno de mim' (Mt 10, 37) e sobre a perda dos ganhos temporais, Ele respondeu: 'De que aproveitará ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma?' (Mc 8, 36).

Q. Mas não bastaria a uma pessoa ser católica somente no coração, sem professar sua religião publicamente?
R. Não, pois Jesus solenemente declarou que: 'Se alguém se envergonhar de mim, e de minhas palavras, também o Filho do homem e envergonhará dele, quando vier na sua majestade, e na de seu Pai e santos anjos' (Lc 9, 26).

Q. Mas uma pessoa não poderia esperar para ser recebida na Igreja Católica até a hora de sua morte?
R. Isto seria abusar da misericórdia de Deus.

Q. Qual poderia ser o castigo deste pecado?
R. Perder a luz e a graça da fé, e morrer como réprobo.

Q. Há mais alguma coisa que impeça as pessoas de se tornarem católicas?
R. Seria isto: elas sabem muito bem que, caso se tornem católicas, terão de levar uma vida honesta e sóbria, ser puras e frear suas paixões pecaminosas, e isso elas não estão dispostas a fazer. 'Os homens amaram mais as trevas do que a luz' disse Jesus Cristo, 'pois eram más as suas obras' (Jo 3, 19). Não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir.

Q. O que se conclui a partir do que foi dito sobre só haver salvação dentro da Igreja Católica?
R. Que é muito ímpio pensar e dizer que pouco importa o que um homem creia desde que ele seja uma pessoa honesta.

Q. Qual resposta podemos dar a quem pensa de tal modo?
R. Podemos dizer: acaso você crê que sua honestidade e justiça é maior do que a dos escribas e fariseus no Evangelho?

Q. No que consistia a justiça dos escribas e fariseus?
R. Eles viviam em constante oração, pagavam seus dízimos conforme a lei, davam grandes esmolas, jejuavam duas vezes por semana e atravessavam céus e terra para fazer um converso e trazê-lo ao conhecimento de Deus.

Q. O que Jesus Cristo disse sobre esta justiça dos fariseus?
R. Ele disse: 'Se a vossa justiça não for maior e mais perfeita do que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus' (Mt 5, 20).

Q. Então, a justiça dos fariseus foi insuficiente aos olhos de Deus?
R. Sem a menor dúvida. Sua justiça era apenas exibição de si mesmos e ostentação. Eles faziam o bem somente para serem louvados e admirados pelos homens; mas no interior, suas almas estavam cheias de impureza e malícia. Eles eram hipócritas, que ocultavam grandes vícios sob as aparências de amor a Deus, caridade aos pobres e severidade consigo mesmos. Sua devoção consistia em atos exteriores, e eles desprezavam aqueles que não viviam como eles viviam; eles eram estritos na observância de tradições humanas, mas não tiveram o escrúpulo de não violar os mandamentos de Deus.

Q. O que, pois, pensar dos homens que dizem: 'pouco importa o que um homem creia desde que ele seja uma pessoa honesta'?
R. Que a sua honestidade exterior, assim como a dos fariseus, pode ser o bastante para mantê-los fora da prisão, mas não o suficiente para livrá-los do inferno.

Q. Se um não católico disser: 'Eu bem que gostaria de crer na doutrina da Igreja Católica, mas eu não posso', como se deveria responder?
R. Responder-se-ia que, sem dúvida, é vontade de Deus que 'todos os homens se salvem, e que cheguem a ter conhecimento da verdade' (I Tm 2, 4); mas que também é, ao mesmo tempo, vontade de Deus que você empregue com dedicação todos os meios próprios para adquirir este conhecimento necessário; de outro modo, você revela claramente que não deseja crer.

Q. Quais são estes meios próprios?
R. A sinceridade de coração que deve provar a si própria, pelo ardente desejo de conhecer a verdadeira religião, pela busca dela com diligência e perseverança, pela oração frequente e fervorosa diante de Deus, pedindo o dom da fé e, finalmente, pela firme resolução de tirar do caminho qualquer obstáculo que possa impedi-lo ou retardá-lo de abraçar a verdade conhecida.

(Excertos da obra 'O Dogma da Salvação', do Pe. Michael Müller, publicado originalmente no blog http://rainhaddosmartires.blogspot.com/)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

TRÊS REFLEXÕES PARA A QUARESMA 2021 - II

SOBRE A ORAÇÃO, O JEJUM E A MISERICÓRDIA

Há três atos, meus irmãos, em que a fé se sustenta, a piedade consiste e a virtude se mantém: a oração, o jejum e a misericórdia. A oração bate à porta, o jejum obtém, a misericórdia recebe. Oração, misericórdia e jejum são uma só coisa, dando-se mutuamente a vida.

Com efeito, o jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum. Que ninguém os divida, pois não podem ser separados. Quem pratica apenas um ou dois deles, esse nada tem. Assim, pois, aquele que reza tem de jejuar, e aquele que jejua tem de ter piedade, escutando o homem que pede e que, ao pedir, deseja ser escutado. Pois aquele que não se recusa a ouvir os outros quando lhe pedem alguma coisa, esse faz-se ouvir por Deus.

Aquele que pratica o jejum tem de compreender o jejum; isto é, tem de ter compaixão do homem que tem fome, se quer que Deus tenha compaixão da sua própria fome. Aquele que espera obter misericórdia tem de ter misericórdia; aquele que quer beneficiar da bondade tem de praticá-la; aquele que quer que lhe deem tem de dar.

Sê pois a norma da misericórdia a teu respeito: se queres que tenham misericórdia de ti de certa maneira, em certa medida, com tal prontidão, sê tu misericordioso com os outros com a mesma prontidão, a mesma medida e da mesma maneira.

A oração, a misericórdia e o jejum devem, pois, constituir uma unidade, para nos recomendarem diante de Deus; devem ser a nossa defesa, pois são uma oração a nosso favor com este triplo formato.

(São Pedro Crisólogo)

Recomendações de Jejum pela Santa Igreja:

Jejum consiste em tomar apenas uma das grandes refeições do dia (almoço ou jantar) e depois outras duas pequenas, de tal maneira que estas duas juntas não cheguem a uma grande refeição. Isto é o mínimo para que se possa considerar que a pessoa fez jejum. Mas há quem passe o dia a pão e água e até quem não coma nada durante esse dia. Abstinência consiste em não comer carne nem derivados da carne. É também recomendável que nos dias de abstinência se evite refeições muito luxuosas, mesmo que não tenham carne.

O jejum e a abstinência são obrigatórios em Quarta-Feira de Cinzas e em Sexta-Feira Santa. A abstinência é obrigatória, no decurso do ano, em todas as sextas-feiras que não coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades. Esta forma de penitência reveste-se, no entanto, de significado especial nas sextas-feiras da Quaresma.

O preceito da abstinência obriga os fiéis a partir dos 14 anos completos. O preceito do jejum obriga os fiéis que tenham feito 18 anos até terem completado os 59. Aos que tiverem menos de 14 anos, deverão os pastores de almas e os pais procurar atentamente formá-los no verdadeiro sentido da penitência, sugerindo-lhes outros modos de a expressarem. As presentes determinações sobre o jejum e a abstinência apenas se aplicam em condições normais de saúde, estando os doentes, por conseguinte, dispensados da sua observância.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

QUARTA DE CINZAS

 


Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris

'Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás!(Gn 3,19). A Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia do tempo da Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa. Neste dia por excelência refletimos sobre a nossa condição mortal nesta vida e a eternidade de nossas almas na vida futura. Num tempo em que se valoriza tanto a dimensão física, a beleza do corpo, a imposição das cinzas nos desvela a dura realidade do nosso corpo mortal: apenas pó que há de se consumir em cinzas.

Esse dia dá início, portanto,  a um tempo de profunda meditação sobre a nossa condição humana diante da grandeza e misericórdia de Deus. Tempo para fazer da nossa absurda fragilidade, sustentáculos da verdade e da fé; tempo para fazer de nossa pequenez e miséria, um templo de oração e um arcabouço de graças; tempo para transformar a argila pálida de nossos feitos e conquistas, em patamares seguros para a glória de Deus. Um tempo de oração, jejum e caridade. Um tempo de oração, desagravo, conversão, reparação. E um tempo de penitência, penitência, penitência...

A penitência é traduzida por atos de mortificação, seja na caridade silenciosa de um pequeno gesto, seja na determinação silenciosa de um pequeno 'não!' Pequenos gestos: uma visita a um amigo doente, uma palavra de conforto a quem padece ausências, um bom dia ainda nunca ofertado; ou um pequeno 'não': à abstinência de carne ou refrigerante ou ao fumo; abrir mão de ter sempre a última resposta ou para aquela hora a mais de sono; simplesmente dizer não a um livro, a uma música, a uma revista, a um programa de televisão. 

Propague o silêncio, sirva-se da modéstia; invista no anonimato, não se ensoberbeça, pratique a tolerância, estanque a frivolidade, consuma-se na obediência. Lembra-te que és pó e todas as tuas ações, aspirações e pensamentos vão reverberar em ti as glórias de Deus.

Abre-se hoje o Tempo da Quaresma: 'convertei-vos e crede no Evangelho'. Pois é no Evangelho (Mt 6, 1-6.16-18) que Jesus nos dá os instrumentos para a realização de uma autêntica renovação interior: oração, jejum e caridade. Com estas três práticas fundamentais, o tempo de penitência da quaresma é convertido em caminho de santificação ao encontro de Jesus Ressuscitado que vem, na Festa da Páscoa.

O índice Leituras para os Tempos da Quaresma, localizado na barra lateral direita do blog, contempla uma seleção de orações e textos específicos para devoção e orientação espiritual durante estes tempos litúrgicos. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

TRÊS REFLEXÕES PARA A QUARESMA 2021 - I

SOBRE O NÚMERO DOS ELEITOS

Pois bem! exclama a razão, poucos serão os eleitos? Perder-se-á eternamente a multidão do gênero humano? Seria frustra para a maioria da humanidade a redenção que o sangue de Jesus Cristo operou? Seria a misericórdia de Deus dalgum modo vencida pela justiça divina? Recolheria ela apenas poucos eleitos e deixaria cair no abismo eterno a avalancha dos condenados?

Assim fala a razão, seguindo o impulso da sensibilidade natural. Ora essa linguagem não é sóbria nem judiciosa. O número dos eleitos é uma questão de fato, sobre que o raciocínio perde todos os direitos. Dá-nos a Sagrada Escritura – expressão do pensamento divino – algum esclarecimento sobre o problema dos destinos humanos? Eis o que se deve buscar com espírito submisso, e uma vez exposta à luz meridiana a resposta da Sagrada Escritura, à razão só lhe cabe inclinar-se e adorar.

Na Sagrada Escritura se encontram a respeito do problema dos eleitos textos concordantes que sempre nos pareceram peremptórios.

Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. Que estreita é a porta, e que apertado o caminho que conduz à vida, e quão poucos são os que acertam com ele (Mt 7, 13-14).

São muitos os chamados, e poucos os escolhidos (Mt 20, 16 e 22, 14).

E alguém lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' E ele disse-lhes: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita (da penitência); porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não o poderão' (Lc 13, 23-25).

Ao nosso ver, as declarações do Salvador são de uma clareza indubitável. Como negar que não se está falando da salvação das almas? Estão abertos os dois caminhos: o largo que conduz à perdição, e o apertado que conduz à vida. E é com dor que Nosso Senhor atesta, numa concepção abrangente, que muitos caminham no primeiro e poucos seguem o segundo.

E se alguém alegar que a misericórdia divina há de impedir à beira do abismo a maioria dos homens que nele se precipita? Nosso Senhor destroçou essa ilusão, quando à pergunta dos discípulos: 'São poucos os homens que se salvam?', respondeu ele: 'Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão'. Assim quem não se esforça a fim de entrar pela porta estreita, não há de ser um esforço tardio que lhe vai permitir a entrada, ficando deste modo do lado de fora.

Esses textos se nos apresentam – nunca é demais repetir – com tal clareza que nenhuma agudeza os poderia obscurecer. Mas é preciso interpretar a Sagrada Escritura de acordo com o ensinamento da Igreja que, revigorando-se a cada época, constitui a chamada Tradição. Em qualquer ponto em que haja ambiguidade, a Tradição em último caso fixa a doutrina que os fiéis devem considerar de fato como a palavra de Deus. Se o problema é o número dos eleitos – consultemos a Tradição.

Se a voz dos primeiros padres, dos doutores da Igreja, dos escolásticos da Idade Média, dos teólogos e dos célebres pregadores modernos nos declara que os eleitos, i. e. os salvos, são poucos em relação aos condenados, é evidente que o problema está resolvido. A Sagrada Escritura de per si já era bem clara; por seu lado, a Tradição não permite que nos desviemos do sentido óbvio dos textos, por isso estabelece de uma vez para sempre a interpretação e a impõe como regra para os cristãos.

... Os dois caminhos – o largo e o apertado – que Nosso Senhor descreveu no Evangelho reaparecem a todo instante nos escritos da época apostólica. Os antigos autores os simbolizavam na forma da letra Y, que designava uma bifurcação. O documento velhíssimo intitulado Doutrina dos Doze Apóstolos [Didaqué] começa com a parábola dos dois caminhos: o caminho de luz e o de morte e trevas.

Nas homilias atribuídas a São Clemente, lê-se o seguinte: Existem dois caminhos. Um é o caminho dos que perecem: ele é largo e plano, e nele nos perdemos sem cansaço; o outro é o caminho dos salvos: ele é estreito e acidentado, e com muito trabalho nos conduz à salvação.(Hom. VII)

A epístola atribuída a São Barnabé contém o mesmo ensinamento: Há dois caminhos: um de luz e outro de trevas. Grande é a diferença entre eles. O primeiro está marginado pelos anjos de Deus, e o segundo pelos anjos de satã. O autor descreve as obras opostas pelas quais se vão a um ou a outro caminho. Ele chama claramente o segundo de 'o caminho da morte eterna e do suplício infindo' (II Pars. C. XVIII.)

A parábola dos dois caminhos estava de tal forma gravada no espírito dos herdeiros imediatos da Tradição Apostólica que Clemente de Alexandria a insere logo no início de sua obra: Um é apertado, porque o encurtaram os mandamentos e as proibições; o outro é largo e espaçoso, porque nele se dá plena liberdade à voluptuosidade e à cólera. Pitágoras aqui nos proíbe de seguir o sentimento da multidão que, segundo ele, é amiúde temerário e absurdo (Strom., lib. V, c. 5) .

Orígenes não é menos claro ao explicar os dois caminhos e o pequeno número relativo de cristãos verdadeiros. Agora que nos multiplicamos, tornou-se difícil que todos sejamos verdadeiramente bons, e impossível que a palavra de Jesus – muitos serão chamados, e poucos os escolhidos – não se cumpra: dentre as pessoas que professam a fé cristã, poucas encontramos que tenham verdadeira fé e sejam dignas da beatitude (Hom. IV. in Jer.).

Até o poeta semi-cristão Ausônio menciona duas vezes em seus versos a letra simbólica Y, e descreve as duas rotas em que se abre esta bifurcação. Escreveu Lactâncio, para instrução do imperador Constantino, um tratado inteiro sobre os dois caminhos que, à semelhança da letra Y, representam o curso bifurcado das vidas humanas. Um braço dobra para o oriente e indica a boa vida; o outro para o ocidente e indica a vida má; só quem segue a justiça e a verdade há de receber a recompensa imortal e entrará na posse da luz eterna. Ora, segundo o Salvador, o número dos que caminham nesta direção é pequeno (Inst., lib. VI, c. 3). São Jerônimo menciona essa obra de Lactâncio, e também se serve do simbolismo da letra Y, 'que, observa ele, representa uma bifurcação da vida, que se orienta à direta ou à esquerda' (Epist. LVXI ad Pam., CVII ad Laet).

Nós como que amontoamos estes textos concordantes dos primeiros Padres, a fim de deixar claro que o pensamento deles estava mui apegado às palavras de Nosso Senhor, às quais consideravam as mais austeras e práticas; não tinham eles dúvidas de que tais palavras indicavam manifestamente a salvação ou a perdição das almas. Que respondem os modernos, segundo os quais essa célebre passagem do Salvador aludiria tão-somente ao reduzido número de judeus que aceitariam o ensinamento e entrariam na Igreja? Não era este o entendimento dos antigos Padres, que enxergavam nesta doutrina a apreciação do Salvador relativa aos caminhos opostos da vida humana; portanto, essas palavras ainda são atuais. Agora vamos apresentar citações taxativas dos Padres sobre o pequeno número dos eleitos.

Tertuliano: 'Nem todos são salvos, apenas uns poucos judeus e cristãos'

Santo Irineu: 'Tanto hoje em dia quanto no tempo do Antigo Testamento, Deus não se agrada do grande número: muitos serão os chamados mas poucos os escolhidos' (Contra haer., c. XXXVI.)

Santo Hilário: 'Toda carne será julgada; bem-aventurado serão os escolhidos, pois segundo o Evangelho muitos serão os chamados mas poucos os escolhidos' (Enar. in Psal., LXIV.)

São Basílio faz uma exortação sobre o comportamento do religioso: 'Fica ao lado dos poucos. O bem é raro: apenas uns poucos entram no reino dos céus. Não acredites que quem habita nas celas está salvo, a despeito da boa ou má vida que leva' (Sermão da renúncia do século; PG 31, 646.)

Santo Efrém comenta no mesmo sentido sobre a porta estreita e o caminho apertado. São Gregório Nazianzeno chama aqueles que se perdem de poeira infinita, em comparação com os vasos de eleição. (Sermão 42 para 150 bispos; PG 36, 467). Santo Ambrósio, à pergunta do salmo 'Senhor, quem habitará em vosso tabernáculo, quem repousará na vossa montanha santa?', responde: 'Alguém será, mas poucos; non utique nullus, sed rarus' (In Apol. pro Davide, c. IX.)

Ao pregar para o povo de Antioquia, exclamava São João Crisóstomo: Quantos pensais que se irão salvar nesta cidade nossa? O que vou dizer é doloroso, mas ainda assim vou dizê-lo. Entre tantos milhares de pessoas, não haverá cem que serão salvas; e mesmo assim não estou certo desse número: a perversidade é muita entre os moços, e muita a negligência entre os velhos. (Homilia 24 acerca dos Atos dos Apóstolos; PG 60, 189)

... De acordo com a palavra do Salvador, haverá tanta penúria de santos – muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos – que seu minguado número é comparado às raríssimas oliveiras que ficam de pé após serem sacudidas e colhidas: ou então aos cachos, ou antes, aos bagos espalhados que os pobres se põem a catar depois da vindima (In Isai., c. XXIV, 13-14; PL 24, 294.)

Mais adiante vamos transcrever longos trechos de Santo Agostinho a respeito do número dos salvos. Por enquanto nos basta a transcrição da passagem seguinte, que é mui significativa: Decerto são poucos os que se salvam. Recordai-vos da pergunta que está nos Evangelhos: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' Que respondeu o Senhor? Ele não disse: não vos amofineis, pois os salvos são muitos! Não, ele não disse isso. E o que foi que disse? 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita'. Ao falar assim, confirma o que se acabou de escutar. São poucos os que passam pela porta estreita. Mais ainda, disse ele: 'Estreita é a porta e apertado o caminho da vida e raros os que acertam com ele'. De que nos serve desfrutar com as multidões? Escutai-me, vós que sois poucos. Sois muito inclinados a me escutar, mas pouco a me obedecer. Eu vos peneiro e cato os grãos de trigo, mas é raro enxergar algum grão quando bate o vento: no entanto, toda a palha é vã. São poucos os que se salvam, se comparados aos muitos que perecem (Sermão 106, ou De Verbis Domini 32; PL 38, 641-642.)

São Leão Magno explica também – e sem hesitar – a parábola do Senhor acerca dos dois caminhos, e da imensidão daqueles que se perdem eternamente: Enquanto a multidão frequenta o caminho largo que conduz à morte, nas sendas da salvação só vemos as raras pegadas dos poucos que nele entram. (Sermão 49, c.2; PL 54, 302.). São Gregório Magno, entre outras passagens típicas, nos proporciona este fragmento dum sermão dirigido ao povo: Muitos vêm até a fé, mas poucos vão até o reino dos céus. Estais reunidos aqui em grande número para a presente solenidade; lotais o recinto desta igreja: quem sabe quão poucos dentre vós são os escolhidos de Deus? (Homilia sobre o Evangelho 19, pár.5; PL 76, 1157.)

Ainda há necessidade de citar os últimos Padres da Igreja, os doutores São Beda o Venerável, São Pedro Damião, Santo Anselmo e São Bernardo? Neles se encontra exatamente a mesma linguagem e maneira de interpretar a Santa Escritura. Santo Anselmo em particular é bem instrutivo; escreve ele aos seus discípulos Odão e Lanzão: Estamos certos de que entre os muitos chamados existem poucos escolhidos, pois a Verdade assim o disse; mas quão poucos, nós não temos certeza, pois a Verdade não o disse. Por isso quem não viva ao estilo do pequeno número, quem não se corrija e se ponha de par com o pequeno número, esteja certo da condenação. Quanto a quem esteja com o pequeno número, não se sinta seguro da eleição, uma vez que ninguém sabe ao certo se faz ou não parte do número dos escolhidos, embora sua vida já se assemelhe à do pequeno número e difira da vida da multidão dos chamados (Epist. II, lib. I; PL 158, 1065.)

Conclusão: em qualquer estado, esforcemo-nos para ficar cada vez mais seguros da eleição. Nesses mesmos termos escreve o santo doutor à condessa Ida (Epist., XVIII, libr. III; PL 159, 43). Era-lhe muito cara essa recomendação, que lhe parecia importantíssima. Assim são unânimes os Padres: unânimes acerca da afirmação do pequeno número dos eleitos e do grande número dos condenados; unânimes na interpretação dos textos da Santa Escritura em torno do assunto.

Para eles a sentença escriturária 'Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos' dirige-se ao pequeno número dos salvos; para eles não existe a fantasiosa distinção entre escolhidos e salvos; no ensinamento deles ambos os termos são idênticos. Para eles os dois caminhos, o caminho largo e o caminho apertado, são os caminhos que conduzem os homens à perdição eterna ou à salvação eterna; para eles a resposta de Nosso Senhor à pergunta: 'São poucos os homens que se salvam?' é sem dúvida afirmativa.

Nunca os Padres tiveram contato com as explicações ambíguas e enviesadas de alguns modernos, segundo as quais – como já dissemos – Nosso Senhor simplesmente aludira ao estado do judaísmo coetâneo e ao ingresso dos judeus na Igreja que Ele fundara. Longe de pensar que esses textos já se não aplicam a nós – o que seria aborrecer e destruir a virtude da Palavra Divina, que pertence a todos os tempos e lugares – ensinaram os Padres que eles se dirigem a todos nós, conforme a intenção do Salvador, que era indicar as precondições da salvação; logo devemos tê-los sempre diante dos olhos e meditá-los.

Por conseguinte, não hesitavam em pregar às gentes o número relativamente pequeno dos eleitos, i. e., dos salvos. Propunham-se, deste modo, a inspirar nos ouvintes um temor salvífico. Diziam: 'Rompei com o mundo, separai-vos da multidão para não perecer com ela, que caminha para a perdição por caminhos licenciosos; esforçai-vos para chegar à vida pelo caminho do sacrifício'. Quem ousaria ir contra uma linguagem diametralmente oposta à dos Padres da Igreja?

(Pe. Bernard Marechaux, excertos de artigo publicado originalmente no site Permanência)

Observação (do autor do blog): são palavras duras e, mais que duras, verdadeiras e amparadas pela mais sólida Tradição da Igreja. Ai dos homens que serão julgados pela justiça divina! Existe, diante de tudo isso, uma opção, uma opção a ser adotada como regra de vida: colocar a disposição completa de nossas vidas aos cuidados e proteção da misericórdia infinita do Coração de Jesus, sob a intercessão diária e constante da Virgem Santíssima. Esse é o caminho seguro, mais fácil e mais confiável de todos para entrar pela porta estreita. E oração, muita oração, pelos que não trilham estes caminhos!