quinta-feira, 23 de setembro de 2021

SOBRE O TEMOR DE DEUS

'Feliz és tu se temes o Senhor e trilhas os seus caminhos' (Sl 127,1). Todas as vezes que na Escritura se fala do temor do Senhor, nunca se fala isoladamente, como se bastasse para a perfeição da nossa fé; mas vem sempre acompanhado de muitas outras virtudes que nos ajudam a compreender sua natureza e perfeição. Assim aprendemos desta palavra como disse Salomão no livro dos Provérbios: 'Se suplicares a inteligência e pedires em voz alta a prudência; se andares à sua procura como ao dinheiro e se te lançares no seu encalço como a um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor' (Pr 2,3-5).

Vemos assim quantos degraus são necessários subir para chegar ao temor do Senhor. Em primeiro lugar, devemos suplicar a inteligência, pedir a prudência, procurá-la como ao dinheiro e nos lançarmos ao seu encalço como a um tesouro. Então chegaremos a compreender o temor do Senhor. Porque o temor, na opinião comum dos homens, tem outro sentido. É a perturbação que experimenta a fraqueza humana quando receia sofrer o que não quer que lhe aconteça. Este gênero de temor manifesta-se em nós pelo remorso do pecado, pela autoridade do mais poderoso ou a violência do mais forte, por alguma doença, pelo encontro com um animal feroz e pela ameaça de qualquer mal. Esse temor, por conseguinte, não precisa ser ensinado, porque deriva espontaneamente de nossa fraqueza natural. Não aprendemos o que se deve temer, mas são as próprias coisas temíveis que nos incutem o terror.

Pelo contrário, sobre o temor de Deus, assim está escrito: 'Meus filhos, vinde agora e escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor Deus' (Sl 33,12). Portanto, se o temor do Senhor é ensinado, deve-se aprender. Não nasce do nosso receio natural, mas do cumprimento dos mandamentos, das obras de uma vida pura e do conhecimento da verdade.

Para nós, todo o temor do Senhor está contido no amor, e a caridade perfeita expulsa o temor. O nosso amor a Deus leva-nos a seguir os seus conselhos, a cumprir os seus mandamentos e a confiar em suas promessas. Ouçamos o que diz a Escritura: 'E agora, Israel, o que é que o Senhor teu Deus te pede? Apenas que o temas e andes em seus caminhos; que ames e guardes os mandamentos do Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para que sejas feliz' (Dt 10,12-13). Ora, os caminhos do Senhor são muitos, embora ele próprio seja o Caminho. Pois, ele chama-se a si mesmo caminho, e mostra a razão porque fala assim: 'Ninguém vai ao Pai senão por mim' (Jo 14,6).

Devemos, portanto, examinar e avaliar muitos caminhos, para encontrarmos, por entre os ensinamentos de muitos, o único caminho certo, o único que nos conduz à vida eterna. Há caminhos na Lei, caminhos nos profetas, caminhos nos evangelhos e nos apóstolos, caminhos nas diversas obras dos mestres. Felizes os que andam por eles, movidos pelo temor do Senhor.

(Excertos da obra 'Tratados sobre os Salmos', de Santo Hilário)

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: 'LEVANTA-TE, MINHA AMADA...'


'Levanta-te, minha amada; vem, formosa minha. Eis que o inverno passou: cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções. Em nossas terras já se ouve a voz da rola' 
(Cântico dos Cânticos 2, 10-12)

O inverno é a estação das trevas e do frio. As noites são longas, os dias são desbotados. Não há folhas, nem flores, nem frutos. Os pássaros ficam em silêncio. Tudo está letárgico, tudo parece morto. Assim também a alma interior padece o seu inverno. Ela conheceu as trevas do espírito, a letargia do coração, aquelas horas em que tudo estava frio, quando tudo nela parecia estar morto. Não havia mais luz, nem calor, nem vida. Deus se escondia. A alma estava sozinha em um deserto sem caminhos, açoitada por todos os ventos, sacudida por todas as tempestades. Era a hora dos misteriosos abandonos, da agonia e do calvário. Mas era preciso ser assim para desfrutar da glória.

Eis que o inverno acabou para sempre! E sois Vós, ó meu Deus, que se digneis anunciá-lo à alma! Vossa palavra não pode enganar, pois sois a própria Verdade. Por outro lado, a alma tem ciência bastante para saber o que isso significa. Podem sobrevir ainda alguns retornos de escuridão e de frio porque a terra não é o céu, mas esses momentos de provação serão poucos e não permanecerão. O inverno acabou. Graças a Vós, ó meu Deus! Que as almas tenham que passar por esta dura jornada é uma necessidade que se impõe à Vossa sabedoria, ainda que possa machucar o Vosso coração. Ficais algo impaciente para superar de vez esse inverno rigoroso. Assim que possível, assim o fazeis. E, uma vez feito, podeis anunciar com alegria à Vossa alma que os tempos de provação já passaram e que os belos dias não mais tardarão.

Entre o inverno e a primavera, permeia a estação chuvosa. Faz menos frio; está menos escuro. Os dias se alongam e, de vez em quando, brilham alguns raios de sol. Mas, geralmente, cai uma chuva embaçada, monótona e persistente. Quase não se pode sair. O horizonte está nublado, baixo, quase ao alcance da mão. No contexto espiritual, a alma interior conhece também uma estação muito semelhante. Em seu espírito há menos escuridão; em seu coração, menos frio. De vez em quando, parece que as coisas vão mudar para melhor. Mas, na maioria das vezes, um véu cinza a envolve. Não se vê muitas coisas à frente. O que haverá por trás dessa cortina sem desenhos e sem cores? Pode-se inferir, mas sem certezas. A espera é longa, monótona, um pouco cansativa para a imaginação. O coração permanece fiel e até ainda mais. Mas a alma demora a se livrar dessa espécie de prisão. Não tardeis, ó meu Jesus!

E Jesus vem. E então anuncia à alma que a estação chuvosa já 'passou', que passou definitivamente. E apresenta imediatamente a prova: 'as flores já brotaram da terra'. A alma, com efeito, não é mais aquela terra endurecida pelo frio ou encharcada pelas chuvas; mais parece o campo na primavera. Está coberta de flores. A campânula, valorosa e cheia de esperança, vê a violeta humilde, tímida e perfumada brotar ao seu lado. Impera o pensamento contemplativo, e o gracioso cravo pende a sua flor, um tanto pesada, em direção ao sol, como uma imagem da alma, cheia de vida interior e pronta a vicejar. Floresce então o puríssimo lírio e, por fim, a rosa primaveril da caridade. As flores das virtudes são exibidas na alma em todos os sentidos, formando em torno dela uma coroa de ornamento incomparável. Eis um dos grandes encantos deste mundo: a  primavera de uma alma interior é algo deslumbrante.

Nesse momento da vida espiritual, os olhos da alma se abrem para o mundo. Vê a terra incensada de almas em flor. O que ela agora é, as outras também o são. O que da obra divina se capta em si mesmo, contempla-se com alegria em outras almas. Ela está maravilhada, extasiada por um espetáculo tão belo. Tudo o mais desaparece aos seus olhos e ela não vê senão isso. Então, à medida que as virtudes se desenvolvem nela, seus olhos se abrem ainda mais e seu olhar se torna mais penetrante. Observa muito melhor a variedade de formas, a riqueza das nuances e a harmonia das cores. Desenvolveu-se nela como que um toque misterioso. Basta uma pequena coisa para adivinhar onde está a obra de Deus nesta ou naquela alma. Também lhe parece que está dotada de um novo sentido para captar os aromas espirituais, que são tão variados quanto as virtudes e como as almas. Para ela, enfim, existem flores do céu na terra. 

Quando a alma sentia frio - quando a chuva nublada e triste da provação a envolvia, ela não sabia senão gemer dolorosamente ou ficar em silêncio; mas agora tudo mudou. Deus, o seu verdadeiro sol, a ilumina, a aquece, a encanta. Não é hora de expressar bem alto a sua felicidade, e de cantar? Sim, de fato, 'chegou a hora do cântico'. E agora a alma interior canta. A canção de amor da eternidade começa aqui nesta terra. Esta é uma melodia misteriosa. O grau de harmonia de sua vontade com a vontade de Deus é sua tônica. Quanto mais perfeita a união, mais a entonação aumenta. Bem aventurada a alma cuja ação tende cada vez mais à plena realização da vontade divina! A sua voz eleva-se às alturas do céu e esta última nota é a que agrada aos ouvidos de Deus. Com ela a melodia termina nesta vida, mas para recomeçar além e para sempre.

Para incentivar a alma interior a segui-lo de vez, o Divino Esposo faz notar que já se pode ouvir o arrulhar da rolinha. Ela não teria deixado o seu refúgio de inverno se a primavera não houvesse chegado. A alma e a pequena ave obedecem à mesma lei. O canto da rolinha tem algo doce, gentil, constante, agradavelmente monótono. Dir-se-ia ser a própria voz de uma afeição autoconfiante que, para ser querida, basta repetir-se sem pulsos extremados, quase num murmúrio, mas sem interrupções. E, no mais íntimo da alma interior, existe também uma voz que canta assim, que...

Canta docemente, quase murmurando, uma melodia muito singela,
que se contenta com algumas poucas notas em intervalos justos:
'Ó Amor que eu amo! Meu Deus, meu Tesouro, meu Tudo, meu Amor que amo!'

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte II -  A Ação de Deus; tradução do autor do blog)

terça-feira, 21 de setembro de 2021

SOBRE PRATICAR O QUE SE ENSINA


Cuidai de vos reunirdes com mais frequência para oferecer a Deus a vossa eucaristia, as vossas ações de graças e os vossos louvores. Por vos reunirdes frequentemente, enfraqueceis as forças de Satanás e o seu poder pernicioso dissipa-se perante a unanimidade da vossa fé. Haverá algo melhor do que a paz, esta paz que desarma todos os nossos inimigos espirituais e carnais?

Não ignorareis nenhuma destas verdades, se tiverdes por Jesus Cristo uma fé e uma caridade perfeitas. Estas duas virtudes são o princípio e o fim da vida: a fé é o seu princípio, a caridade, a sua perfeição; a união das duas, o próprio Deus; todas as outras virtudes as seguem em procissão para conduzir o homem à perfeição. A profissão da fé é incompatível com o pecado e a caridade com o ódio. 'É pelos frutos que se conhece a árvore' (Mt 12,33); da mesma forma, é pelas suas obras que se reconhecem os que fazem profissão de pertencer a Cristo. Pois, neste momento, não basta fazermos profissão da nossa fé, mas temos efetivamente de a por em prática com perseverança, até ao fim.

Mais vale ser cristão sem o dizer, do que dizê-lo sem o ser. Fica muito bem ensinar, desde que se pratique o que se ensina. Nós temos, portanto, um só Mestre, aquele que 'disse, e tudo foi feito' (Sl 32,9). Mesmo as obras que realizou em silêncio são dignas do Pai. Aquele que compreende verdadeiramente a palavra de Jesus também é capaz de ouvir o seu silêncio; será então perfeito: agirá através de sua palavra e manifestar-se-á pelo seu silêncio. Nada escapa ao Senhor; até os nossos segredos estão na sua mão. Façamos portanto todas as nossas ações com o pensamento de que Ele habita em nós; desse modo, seremos seus templos, e Ele será o nosso Deus, que habitará em nós.

(Carta aos Efésios - Santo Inácio de Antioquia)

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

domingo, 19 de setembro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'É o Senhor quem sustenta minha vida!' (Sl 53)

 19/09/2021 - Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum

43. O MAIOR DE TODOS É O QUE SERVE A TODOS 


'Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más' (Tg 3, 16). Com efeito, toda sorte de males advém da inveja e das paixões desregradas do homem, que se pauta em ter cada vez mais e invejar no outro tudo aquilo que ainda não se tem. Não é esse o caminho da graça, nem a via da santidade. Jesus, no evangelho deste domingo, vai mostrar aos seus discípulos que a primazia da alma é forjada no cadinho da humildade.

Após a extraordinária experiência no Monte Tabor, Jesus seguia agora, rodeado apenas pelos seus discípulos e, mais uma vez, lhes anunciara o mistério de sua Paixão e Ressurreição: 'O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará' (Mc 9, 31). Mas os apóstolos ainda estavam demasiado presos à ideia de um reino terreno, pautado por poderes mundanos. E era a ambição de um poder maior em relação aos demais o que minava os sentimentos daqueles homens nos caminhos da Galileia.

Jesus vai interpelá-los sobre as murmurações de uns e outros pelo caminho; e o silêncio da resposta é o testemunho de que haviam estado até então submissos aos grilhões da inveja e das rivalidades. Estremecidos os corações diante da Verdade, são todos acolhidos na misericórdia do Bom Pastor que lhes revela: 'Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!' (Mc 9, 35). A primazia da graça é o serviço do bem desprovido de honras e vaidades humanas: o maior de todos é o que serve a todos; a humildade é a virtude que eleva o homem às vias mais plenas da santidade!

E, para ilustrar a dimensão da verdadeira humildade, Jesus a insere no contexto sublime da inocência pura de uma criança: 'Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou' (Mc 9, 37). Possuir uma inocência infantil é possuir a própria sabedoria de Deus, pois nela não prospera as ambições, nem a inveja, nem as rivalidades, nem as desordens ou qualquer espécie de obras más e porque 'a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento' (Tg 3, 17).

sábado, 18 de setembro de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (97/100)

 

97. HISTÓRIA DE SANTA CECÍLIA

Roma, a capital do famoso Império Romano, foi o berço de Santa Cecília, nascida em meados do século segundo da nobilíssima família dos 'Cecílios'. Educada desde a infância na fé cristã, de tal modo amava a Jesus Cristo que lhe consagrou todo o coração, fazendo voto de virgindade. Muito contra a sua vontade, foi dada por seus pais em casamento a Valeriano, jovem de raras qualidades, mas pagão.

Na mesma noite do casamento, Cecília disse a Valeriano:
➖ Eu sou cristã, como tu bem sabes; estou sob a custódia de um anjo que guarda a minha virgindade. Tem-no presente para que Deus não se ire contra ti.
Valeriano, comovido por essas palavras, não só a respeitou, mas acrescentou: 
➖ Se esse anjo se me deixar ver, acreditarei em Jesus Cristo.
➖ Para isso - disse Cecília - é indispensável que te instruas nas verdades da fé e recebas o batismo.

Naquela mesma noite, Valeriano procurou o papa São Urbano, que morava nas catacumbas. O Pontífice instruiu-o nos principais mistérios e batizou-o. Ao regressar para junto de Cecília, encontrou-a orando, e viu ao lado dela o anjo que brilhava com uma claridade celestial. Maravilhado, chamou seu irmão Tibúrcio e contou-lhe todo o ocorrido. Este, seguindo os mesmos passos de seu irmão, foi batizado pelo papa e, depois, viu também o anjo de Cecília.

Os dois neo-convertidos foram denunciados, como cristãos, ao governador Almaquio, que os condenou à morte, decretando que seriam decapitados e que, em seguida, seriam confiscados todos os bens que possuíam. Cumprida a primeira parte da sentença, mandou chamar Cecília e disse-lhe: 
➖ Sabe que tens de entregar-me todas as riquezas de Valeriano e de Tibúrcio.
Almaquio, como cristã que sou, já depositei essas riquezas no tesouro comum de Jesus Cristo.
➖ E onde está esse tesouro?
➖ Esse tesouro são os pobres, entre os quais distribuí todos os bens.

O governador, enfurecido, mandou decapitá-la. Por três vezes o algoz desfechou-lhe o golpe sem conseguir cortar-lhe a cabeça. Viveu ainda três dias, ao cabo dos quais recebeu no céu a dupla coroa da virgindade e do martírio. Imitemos Santa Cecília na devoção ao anjo da guarda. Festa litúrgica em 22 de novembro.

98. UM PAI BÁRBARO E UMA FILHA SANTA

Em meados do século III, nasceu em Nicomedia a futura Santa Bárbara. Seu pai era o senador Dióscoro, homem rico, soberbo e fanático adorador dos falsos deuses. Na escola teve a jovem Bárbara um mestre cristão que a instruiu nas verdades da fé. Quando o pai soube disso ficou furioso. Encerrou-a numa torre e ameaçou levá-la aos tribunais se, ao regressar de uma viagem que ia empreender, ela persistisse em aborrecer o paganismo.

Na parte baixa da torre, Dióscoro mandara preparar um quarto de banho, adornado com estátuas de ídolos, que recebia luz por duas janelas. Santa Bárbara, na ausência do pai, fez abrir uma terceira janela, para recordar o mistério da Santíssima Trindade. 'Assim como uma mesma luz' - dizia ela - 'entra por três janelas diversas, assim também em um só Deus há três Pessoas distintas'. Outras vezes punha-se a contemplar a piscina e exclamava: 'Água que brilhas ao resplendor da luz das três janelas, tu me fazes pensar no batismo, cuja água, vivificada pela Santíssima Trindade, apaga da alma o pecado original'.

Logo que regressou da viagem, perguntou Dióscoro à filha porque mandara abrir outra janela. A Santa aproveitou a ocasião para falar-lhe dos principais mistérios da fé e exortou-o a converter-se ao cristianismo O pai, enfurecido, entregou-a ao pretor Marciano, que a submeteu a cruéis suplícios. Suportou-os ela com tal resignação e coragem que despertou a compaixão do povo. Uma mulher, chamada Juliana, que acorrera por curiosidade, ao vê-la e ouvi-la, sentiu-se transformada por Deus e exclamou: 'Eu também quero adorar a Jesus Cristo'.

O juiz Marciano ordenou que Bárbara e Juliana fossem, imediatamente, decapitadas. Dióscoro, o pai desumano, quis executar pessoalmente a sentença. Quando regressava de cortar a cabeça de sua própria filha, estalou uma furiosa tormenta e um raio feriu-o de morte. Quase ao mesmo tempo outro raio matava o juiz Marciano. Estes castigos divinos puseram termo, em Nicomedia, à perseguição contra os cristãos. Santa Bárbara é padroeira da artilharia, porque os artilheiros têm por armas 'o trovão e o raio', isto é, a explosão e a granada. Festa litúrgica em 4 de dezembro.

99. DEMÔNIOS, ANJOS E UMA SANTA

Neste mundo constantemente inclinado à corrupção e ao abandono de Deus, cuida a Providência que haja sempre pessoas de vida celestial que, com suas virtudes e milagres, dão testemunho de Cristo e condenam a maldade. Santa Francisca Romana, nascida em Roma em 1384 foi, desde pequenina, de uma pureza instintiva e delicada que não suportava carícias nem do próprio pai. Aos doze anos de idade foi por seu pai dada em casamento a um nobilíssimo e piedoso cavalheiro, do qual teve três filhos: João Batista que chegou a boa idade, Evangelista que faleceu aos nove anos e que logo veio buscar sua irmãzinha Inês de cinco.

Desde que se casou, Francisca foi levada à mais alta contemplação e por isso perseguida pelo demônio. Para mais a purificar e a estimular permitiu Deus que o inimigo a atormentasse de mil modos: levantava-a pelos cabelos, batia-a contra a parede e prostrava-a de pancadas. Causou-lhe inúmeros outros sofrimentos, durando essa guerra toda a sua vida, até à última enfermidade. Mas Deus nunca a deixava só: os anjos continuamente a acompanhavam e a defendiam.

Seu filho Evangelista, um verdadeiro anjo, foi-lhe arrebatado aos nove anos. Uma vizinha enferma viu-o subir ao céu entre anjos. No ano seguinte, apareceu à mãe sob uma luz  radiante e acompanhado de um anjo ainda mais formoso do que ele.
➖ Mãe - ele lhe disse - estou no segundo coro da primeira hierarquia; meu companheiro, que agora vês, está ainda mais elevado. Deus o enviou para te guardar, acompanhar, consolar e guiar sempre. Agora venho buscar a minha irmãzinha para gozar comigo da incomparável felicidade do paraíso. Com efeito, pouco depois faleceu a pequena aos cinco anos de idade.

O anjo permaneceu ao lado de Francisca, sempre visível: parecia um menino de nove anos (como seu filho), cabelos louros e anelados caindo sobre os ombros, os braços e sobre o peito, uma túnica branca e uma pequena dalmática, às vezes branca e outras vezes vermelha ou azul. Despedia tanta luz que a santa podia com ela ler o Ofício.

Instruía-a, avisava-a e consolava-a; mas era também um anjo que a corrigia. Um dia deu-lhe uma bofetada ouvida pelos presentes, porque, em uma reunião, não cortara uma conversa vã e inconveniente. Pouco antes de sua morte, perguntou-lhe seu confessor que orações estava a murmurar :  'Acabo de rezar as Vésperas de Nossa Senhora'. E, em seguida, expirou, tendo 55 anos de idade.

100. UM SALTO MARAVILHOSO

Em 1856, às altas horas da noite, irrompeu um enorme incêndio em um dos maiores edifícios da cidade de Zams, na região do Tirol (Áustria). Com grande dificuldade, conseguiram os inquilinos escapar pelas escadas; mas ficaram desgraçadamente esquecidas, num dos andares mais altos, duas meninas, uma de oito e outra de doze anos.

Despertou-as o ruído das vigas de seu aposento ao quebrarem-se pelo fogo do andar inferior. Saltando imediatamente da cama, correram à porta para fugir pela escada, mas as chamas e o fumo que viram eram tão grandes, que mal puderam fechar de novo a porta. Quase desesperadas gemiam: 'Seremos queimadas vivas...'

Mas a maior teve uma ideia. Abriria a janela e saltaria para fora, tentando salvar a vida à custa de alguma fratura.
➖ Eu saltarei primeiro - disse à irmãzinha - e, se não me acontecer nada, saltarás também.
'Meu Santo Anjo da Guarda, amparai-me!' - disse -  e... saltou!
Chegada ao solo, antes mesmo de levantar-se, gritou:
➖ Joaninha, não me aconteceu nada, salta!...
'Santo Anjo' - repetiu Joaninha - e saltou sem ter sofrido o menor dano.
Os pais das meninas reconheceram neste fato uma proteção visível dos Santos Anjos e deram graças a Deus por um benefício tão insigne.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)


ver PÁGINA: TESOURO DE EXEMPLOS

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SIENA

Nas vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora, os sacerdotes de Siena estavam reunidos em vigília na catedral da cidade, na noite de 14 de agosto de 1730. Muitas hóstias haviam sido consagradas naqueles dias e estavam guardadas nas igrejas para o atendimento do grande número previsto de comunhões. E esse contexto serviu de oportunidade para alguns ladrões invadirem a basílica de São Francisco e roubarem uma âmbula de ouro contendo centenas de hóstias consagradas. 

(Basílica de São Francisco - Siena / Itália)

Constatado o sacrilégio na manhã seguinte, o roubo foi confirmado pelo achado da parte superior da âmbula perdida na rua, sem quaisquer resquícios da âmbula e das hóstias consagradas. Tristeza, e muitas orações de desagravo e na intenção da recuperação do tesouro eucarístico roubado. E eis que, três dias depois, uma pessoa notou alguma coisa branca destacando-se numa caixa de coleta numa igreja próxima à basílica de São Francisco e - surpresa! - ali se encontravam exatamente e na sua totalidade as 351 hóstias que haviam sido roubadas! 



Embora sujas e envoltas por teias de aranha, as 351 hóstias foram resgatadas uma a uma, recolocadas em outra âmbula e reconduzidas à basílica de São Francisco, onde foram objeto de maciças orações de desagravo e adoração, até que se deteriorassem por inteiro. Mas isto nunca aconteceu. As hóstias permaneceram e permanecem intactas até hoje, com o mesma aparência e frescor de hóstias recém-preparadas, como examinadas com todo o rigor em diversas ocasiões depois destes fatos. Embora muitas delas tenham sido consumidas ao longo do tempo, conservam-se atualmente na basílica de São Francisco em Siena 223 hóstias frescas que foram elaboradas e consagradas há quase 300 anos! 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XV)

 

Capítulo XV

Dores do Purgatório - O Irmão de Santa Madalena de Pazzi - Stanislaus Chocosca - Beata Catarina de Racconigi

Santa Madalena de Pazzi, na sua célebre visão em que lhe foram mostradas as diferentes prisões do Purgatório, viu a alma do seu irmão, que morrera depois de ter levado uma vida cristã fervorosa. No entanto, esta alma foi detida em sofrimento por certas faltas, que não haviam sido suficientemente expiadas na terra. Esses - diz a santa - são os sofrimentos mais intoleráveis ​​e, no entanto, os que são suportados com mais alegria. Ah! Por que isso não é compreendido por aqueles que não têm coragem de carregar a sua cruz aqui embaixo? 

Afligida pelo espetáculo terrível que acabara de contemplar, a santa correu para junto da sua priora e, jogando-se de joelhos, gritou: 'Ó minha querida mãe, quão terríveis são as dores do purgatório! Eu nunca poderia ter acreditado nisso, se Deus não tivesse manifestado isso para mim. E, no entanto, não posso chamá-los de cruéis; em vez disso, são frutuosos pois que conduzem à felicidade inefável do Paraíso'. 

Para imprimir isso cada vez mais em nossas mentes, aprouve a Deus dar a certas pessoas santas uma pequena parte das dores da expiação, como que uma gota do cálice amargo que as pobres almas devem beber, uma centelha do fogo que as consomem. O historiador Bzovius, em sua História da Polônia, datada de 1598, relata um acontecimento milagroso ocorrido ao Venerável Estanislau Chocosca, um dos luminares da Ordem de São Domingos na Polônia (Rossign., Merv., 67). 

Um dia, enquanto este religioso, tomado de caridade para com os defuntos, recitava o Rosário, viu surgir diante dele uma alma toda envolta em chamas. Ao pedir-lhe que tivesse piedade dela e aliviasse os sofrimentos intoleráveis ​​que o fogo da Justiça Divina a fazia suportar, o santo homem perguntou-lhe se este fogo era mais doloroso do que o da terra. 'Ah!" - ela gritou - 'todos os fogos da terra comparados com o do Purgatório são como uma brisa refrescante' (Ignes alii levis aurce locum tenent si cum ardore meo comparentur). 

Stanislaus mal podia acreditar. 'Eu gostaria de ter uma prova' - disse então - 'Se Deus permitir, para o seu alívio e para o bem da minha alma, eu consinto em sofrer parte de suas dores'. 'Ai de mim! Você não poderia fazer isso. Saiba que nenhum ser humano poderia suportar tanto tormento e ainda viver. No entanto, Deus permitirá que você o possa sentir em um grau muito atenuado. Estenda sua mão'. Chocosca estendeu a mão e o falecido deixou cair sobre ela uma gota de suor, ou pelo menos de um líquido semelhante a isso. No mesmo instante, o religioso soltou um grito espantoso e caiu desmaiado no chão, tão intensa foi a sua dor. Seus irmãos acorreram em sua direção e apressaram-se em dar-lhe a assistência que a sua condição exigia. 

Quando restaurado à consciência, ele relatou o terrível acontecimento e do qual eles tinham uma prova visível. 'Ah! meus queridos padres' -  disse ele - 'se soubéssemos a severidade dos castigos divinos, nunca haveríamos de cometer pecado, nem deixaríamos de fazer penitências nesta vida, de modo a evitar a expiação na outra vida'. Stanislaus ficou confinado ao seu leito a partir daquele momento. Ele viveu mais um ano no mais cruel sofrimento causado por aquela terrível ferida; e então, pela última vez exortando os seus irmãos a se lembrarem dos rigores da Justiça Divina, ele dormiu pacificamente no Senhor. O historiador acrescenta que esse acontecimento reanimou o fervor em todos os mosteiros daquela província.

Lemos um fato semelhante na vida da bem-aventurada Catarina de Racconigi (Diario Dominicano, 4 de setembro; cf. Rossig., Merv., 63). Um dia, sofrendo tanto a ponto de precisar da ajuda de suas irmãs de religião, pensou nas almas do Purgatório e, para amenizar o calor de suas chamas, ofereceu a Deus o calor ardente de sua febre. Naquele momento, entrando em êxtase, foi conduzida em espírito ao lugar de expiação, onde viu as chamas e os braseiros nos quais as almas são purificadas sob grande tortura.

Enquanto contemplava, cheia de compaixão, este espetáculo comovente, ela ouviu uma voz que lhe disse: 'Catarina, para que possas obter o mais eficazmente a libertação dessas almas, deves participar, de alguma maneira, dos seus tormentos. Naquele instante, uma faísca se desprendeu do fogo e pousou em sua bochecha esquerda. As irmãs presentes viram a faísca nitidamente, e também viram com horror como o rosto da enferma ficou terrivelmente inchado. 

Ela passou vários dias neste estado e, como a Beata Catarina disse às suas irmãs, o sofrimento causado por aquela simples centelha superou em muito tudo o que ela havia suportado anteriormente nas doenças mais dolorosas. Até então, Catarina sempre se dedicara com caridade ao alívio das almas do Purgatório mas, a partir de então, redobrou o fervor e as austeridades para apressar a libertação delas, porque conhecia por experiência própria a grande necessidade que as almas padecentes tinham pelo seu auxílio.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

terça-feira, 14 de setembro de 2021

14 DE SETEMBRO - EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

 


'Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim' (Jo 12, 32)

A festa da Exaltação da Santa Cruz tem origem na descoberta do Sagrado Lenho por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, e na dedicação de duas basílicas construídas por ele, uma no Calvário e outra no Santo Sepulcro, dedicação esta realizada no dia 14 de setembro do ano de 335. No ano de 629, a celebração tomou grande vulto com a restituição da Santa Cruz pelo imperador Heráclio, retomada dos persas que a haviam furtado. Levada às costas pelo próprio imperador, de Tiberíades até Jerusalém, a Santa Cruz foi entregue, então, ao Patriarca Zacarias de Jerusalém.

O imperador Constantino e sua mãe, Santa Helena, veneram a Santa Cruz 

Conta-se, então, que o imperador Heráclio, coberto de ornamentos de ouro e pedrarias, não conseguia passar com a cruz pela porta que conduzia até o Calvário; quanto mais se esforçava nesse sentido, mais parecia ficar retido no mesmo lugar. Zacarias, diante desse fato, ponderou ao imperador que a sua ornamentação luxuosa não refletia a humildade de Cristo. Despojado, então, da vestimenta, e com pés descalços, o imperador completou sem dificuldades o trajeto final, encimando no lugar próprio a Cruz no Calvário, de onde tinha sido retirada pelos persas.

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo converteu a Cruz de um objeto de infâmia e repulsa na glória maior da fé cristã. A Festa da Exaltação da Cruz celebra, portanto, o triunfo de Jesus Cristo sobre o mundo e a imprimação do Evangelho no coração de toda a humanidade.

SALVE CRUX SANCTA

Salve, crux sancta, salve mundi gloria,
vera spes nostra, vera ferens gaudia,
signum salutis, salus in periculis,
vitale lignum vitam portans omnium.

Te adorandam, te crucem vivificam,
in te redempti, dulce decus sæculi,
semper laudamus, semper tibi canimus,
per lignum servi, per te, lignum, liberi.

Originale crimen necans in cruce
nos a privatis, Christe, munda maculis, 
humanitatem miseratus fragilem 
per crucem sanctam lapsis dona veniam.

Protege salva benedic sanctifica 
populum cunctum crucis per signaculum, 
morbos averte corporis et animae 
hoc contra signum nullum stet periculum.

Sit Deo Patri laus in cruce filii 
sit coequalis laus sancto spiritui, 
civibus summis gaudium et angelis 
honor sit mundo crucis exaltatio. Amen.



Salve Santa Cruz, salve ó glória do mundo, nossa verdadeira esperança que traz verdadeira alegria, sinal da salvação, proteção nos perigos, árvore viva que suporta a vida de todos nós. 

Nós vos adoramos, em vós nos vivificamos; por vós redimidos, no esplendor perene dos séculos, vos saudamos e louvamos para todo o sempre, escravos pelo lenho e, por vós, ó Lenho, libertados.

Vós que vencestes o pecado original na cruz, livrai-nos, ó Cristo, de nossas próprias culpas, tende piedade da nossa miséria humana e, pela Santa Cruz, perdoai os que caíram.  

Protegei, salvai, abençoai e santificai todo o vosso povo pelo Sinal da Cruz, protegei-nos contra todo o mal do corpo e da alma e que perigo algum prevaleça diante este Sinal.

Louvado seja Deus Pai na Cruz do seu Filho! Louvor igual seja dado ao Espírito Santo! Que a Exaltação da Cruz seja a suprema alegria dos eleitos e dos anjos no Céu e um esplendor de glória para o mundo. Amém.
(tradução do autor do blog)

domingo, 12 de setembro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos' (Sl 114)

 12/09/2021 - Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum

42. 'E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?' 


Num dado dia, na 'região da Cesareia de Felipe' (Mc 8, 27), Jesus revelou a seus discípulos a sua própria identidade divina e o legado da Cruz. Neste tesouro das grandes revelações divinas, o apóstolo Pedro será exposto a duas manifestações bastante distintas, fruto das próprias contradições humanas: num primeiro momento, dá um testemunho extraordinário de fé; num segundo momento, entretanto, é incapaz de entender a dimensão salvífica dAquele que acabara de saudar como o Messias Prometido.


Nesta ocasião, as mensagens e as pregações públicas de Jesus estavam consolidadas; os milagres e os poderes sobrenaturais do Senhor eram de conhecimento generalizado no mundo hebraico; multidões acorriam para ver e ouvir o Mestre, dominados pela falsa expectativa de encontrar um personagem mítico e um Messias dominador do mundo. Então, Jesus indaga aos seus discípulos: 'Quem dizem os homens que eu sou?' (Mc 8, 28) e, logo em seguida, 'E vós, quem dizeis que eu sou?' (Mc 8, 29). Se os homens do mundo O tomam por João Batista, por Elias ou por um dos antigos profetas, a resposta de Pedro é um primado de confissão de fé, transcrita pelo mais sintético dos evangelistas:  'Tu és o Messias' (Mc 7, 32). 

Jesus é o Cristo de Deus e o seu reino não é deste mundo. Ante a confissão de Pedro, Jesus revela a sua origem e a sua missão e faz o primeiro anúncio de sua Paixão, Morte e Ressurreição: 'o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias' (Mc 8, 31). E, diante da incompreensão dos apóstolos expressa na repreensão pública de Pedro, dá o testemunho da cruz pela privação do mundo: 'Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la' (Mc 8, 34 - 35).

Sim, Jesus Cristo é o Messias, o Filho de Deus Vivo: Deus feito homem na eternidade de Deus. Mas a missão salvífica de Jesus há de passar não por um triunfo de epopeias mundanas, mas por um tributo de Paixão, Morte e Ressurreição; não pelo manejo da espada ou por eventos feitos de glórias humanas, mas pela humildade, perseverança e um legado de Cruz. Eis aí o legado definitivo de Jesus aos homens de sempre: a Cruz de Cristo é o caminho da salvação e da vida eterna. Tomar esta cruz, não apenas hoje ou em momentos específicos de grandes sofrimentos em nossas vidas, mas sim, todos os dias, a cada passo, em cada caminho, é a certeza de encontrá-lo na glória e da plenitude das bem-aventuranças. A Cruz de Cristo é a Porta do Céu.

sábado, 11 de setembro de 2021

O FESTIVAL DOS MISTÉRIOS

 

A Sagra dei Misteri - ou o festival dos mistérios - constitui uma das manifestações mais importantes de cultura popular da região de Molise, na Itália. O evento acontece no dia do Corpus Domini, ou Corpo de Cristo (Corpus Christi no Brasil) e consiste em uma procissão de 13 'carros alegóricos', cada um simulando a representação medieval de eventos sacros de grande relevância (os chamados 13 'mistérios'), que são levados nos ombros por fileiras de jovens e transportados pelas principais ruas da cidade de Campobasso.

Cada mistério é representado por um 'Carro dos Mistérios' (Le Macchine dei Misteri), criados em 1748 por Paolo Saverio di Zinno, com exceção do carro que simboliza o 'Sagrado Coração de Jesus', que foi construído somente após a Segunda Guerra, reproduzindo fielmente um rascunho original de Zinno, e que não tinha sido construído à época. A grande atração destes 'carros alegóricos' é que incluem personagens vivos e não estátuas, particularmente as 'crianças voadoras', que ficam encaixadas em armações metálicas elevadas em relação à plataforma dos carros. 


Além do carro recente do 'Sagrado Coração de Jesus', os outros 12 carros alegóricos simulam os seguintes 'mistérios':

1. Santo Isidoro: representação da dedicação ao trabalho agrícola (o santo é o padroeiro dos agricultores);
2. São Crispim: representação da dedicação ao trabalho artesanal (São Crispim abandonou as origens nobres romanas para costurar sapatos);
3. São Genaro: representação da fortaleza diante das adversidades (o santo é o padroeiro de Nápoles);


4. Abraão: representação da virtudes da fé e da obediência a Deus;
5. Maria Madalena: representação que demonstra que, por meio da penitência, obtém-se o perdão de Deus;
6. Santo Antônio Abade: representação da fortaleza contra as tentações (o santo quase cedeu às tentações);


7. Imaculada Conceição: representação do dogma mariano da imaculada concepção;
8. São Leonardo: representação da defesa dos inocentes (o santo abdicou de uma vida de regalias em favor do Evangelho);
9. São Roque: representação do consolo aos doentes (o santo, de origem francesa, é o protetor contra a peste e curou muitos enfermos na Itália);
10. Assunção: representação da Assunção de Nossa Senhora ao Céu de corpo e alma;
11. São Miguel: representação da rebelião dos anjos maus e enfrentados por São Miguel;
12. São Nicolau: representação dos milagres (resgate pelo santo de uma criança raptada).

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

QUANDO O INFERNO É AQUI...

Um tremor de magnitude 7,1 na escala Richter atingiu a região de Acapulco, no México, na última terça-feira. Um fenômeno particularmente intrigante desse evento foi o aparecimento das chamadas 'luzes de terremoto', explicadas pela ciência como sendo a emissão de descargas elétricas violentas nas regiões próximas a falhas geológicas. Estas luzes são bem documentadas previamente ou durante os sismos, e não comumente depois, como é o presente caso. Mas isso também não é relevante, porque a ciência humana e as intervenções da Providência Divina não são sempre excludentes. 

Grave, gravíssimo mesmo, é o fato de que as luzes intrigantes seguiram um terremoto de grande magnitude ocorrido no mesmo dia em que a Suprema Corte do México decidiu, por unanimidade, que qualquer punição ao aborto é inconstitucional. Deus utiliza a ciência dos homens mas não intervém por meio de acasos: a maior nação católica da América do Norte curvou-se em favor de um crime hediondo e voltou-se contra Deus. O mal se regala, blasfemando de júbilo, em favor dos direitos humanos e das mulheres como sendo uma vitória épica; mas as luzes que brilham nas trevas podem ser simplesmente o sinal de que, na verdade, o inferno começa agora.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ORAÇÃO DE PETIÇÃO UNIVERSAL (SANTA GERTRUDES)

Santa Gertrudes de Hefta experimentou durante a sua vida um sem número de intervenções místicas e espirituais, com especial inserção na realidade das almas do Purgatório. A oração abaixo de sua autoria (designada comumente como 'oração pelas almas do Purgatório', que é a rigor apenas uma das petições da oração) é comumente associada à promessa de Jesus, feita em uma aparição à freira cisterciense, de que ela libertaria 1000 almas do Purgatório se rezada com piedosa devoção - e atuaria ainda por uma efetiva conversão e salvação das almas deste mundo. Embora seja pouco provável que exista uma oração específica da santa pela libertação de mil ou de um número fixado pelas almas do Purgatório, trata-se de uma oração devocional de enorme relevância pelo conjunto de petições contidas na mesma e pelo rigor teológico destas petições no contexto do plano divino da salvação da humanidade.

Pai Eterno, eu Vos ofereço

o Sangue Preciosíssimo do Vosso Divino Filho, Jesus, 

em união com todas as missas que hoje se celebram no mundo inteiro, 

em intenção de todas as benditas almas do Purgatório, 

pelos pecadores em todos os lugares, 

pelos pecadores da Igreja universal, 

por aqueles que se encontram em minha própria casa,

pela minha família e também por mim. 

Amém.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

SOBRE OS QUE SERÃO JULGADOS COMO ANJOS


É uma verdade incontestável que a misericórdia e a justiça de Deus caminham juntas e ambas - como atributos infinitos da Providência Divina - hão de acompanhar os juízos particulares de todos os homens no plano da eternidade. Essa realidade por si só já é tremenda: 'Deus tem misericórdia de quem o teme, não de quem se usa dela para não o temer' (Santo Afonso Maria de Ligório).

Essa premissa fundamental tem um corolário muitíssimo mais inquietante para o espectro dos homens. A associação divina entre justiça e misericórdia tende a pender em favor da justiça divina, tanto mais intensamente, para quem mais usufruiu da abundância das graças divinas. O pecado dos anjos rebeldes, por exemplo, resumiu-se em um ato de soberba extrema contra a Providência Divina, que resultou num imediato e irrevogável veredito de danação eterna no momento seguinte.

Quais são os homens que, na terra, em termos do acesso e usufruto das graças divinas, mais se aproximam dos anjos? Os sacerdotes, sem dúvida alguma; os padres, bispos, cardeais e papas da Santa Igreja Católica. Para eles, especialmente, é de se esperar uma realidade de juízo particular muitíssimo diferenciada daquela que seria aplicada aos leigos, a não ser em casos muito excepcionais. Assim, todo homem ímpio deverá passar pelo crivo da justiça divina, mas os maus sacerdotes serão julgados pelo rigor divino da sua justiça em uma escala incomparavelmente maior.  

São Crisóstomo (conforme exposto por Santo Afonso de Ligório) tornou cristalina essa argumentação: 'A maior ciência dá lugar a um castigo mais severo; se o pastor cometer os mesmos pecados que as suas ovelhas, não receberá o mesmo castigo, mas uma pena muito mais dura'. E o seu testemunho adicional é avassalador para os maus sacerdotes: 'É o que a experiência deixa ver: um secular, depois de pecar, facilmente se arrepende. Se assiste a uma missa, se ouve um sermão enérgico sobre alguma verdade eterna - malícia do pecado, certeza da morte, rigor do juízo de Deus, penas do inferno -  entra facilmente em si e volta-se para Deus; porque estas verdades, como coisas novas, tocam-no e penetram-no de temor. Mas quando um padre há calcado aos pés a graça de Deus, com todas as luzes e conhecimentos recebidos, que impressão podem fazer ainda nele as verdades eternas e as ameaças das divinas Escrituras? Tudo quanto encerra a Escritura é para ele uma coisa sediça e de pouco valor; porque as coisas mais terríveis que lá se encontram, por muito lidas, já lhe não fazem impressão. Donde conclui que nada mais impossível que a emenda de quem sabe tudo e peca'.

'Quanto maior é a dignidade dos padres' - diz São Jerônimo - 'tanto maior é a sua ruína, se num tal estado chegam a abandonar a Deus'. São Bernardo afirma categoricamente que 'Quanto mais elevado é o posto em que Deus o colocou, tanto mais funesta será a sua queda', expressão similar ao pensamento de Santo Ambrósio: 'Quando se cai num plano, raro se experimenta grande mal; mas cair de um lugar alto não é só cair, é precipitar-se, e a queda será mortal'.

É o mesmo São Bernardo que afirmou: 'A ingratidão faz estancar a fonte da bondade divina'. Que ingratidão a Deus pode ser cometida pelos homens maior que a de um sacerdote que, desprezando os tesouros das graças da Igreja, abandona a sã doutrina e se vende, a preço vil, para os louros, afazeres e caprichos deste mundo? Achincalham a liturgia da Santa Missa, assumem a ideologia dos inimigos da Igreja, tornam-se vedetes da comunicação insossa, insuflam egos para se tornarem cegos, fazem todas as concessões possíveis ao ecumenismo, fecham todas as portas à sã doutrina. Abraçam a iniquidade com tal malícia e insensatez, que sobre eles São Jerônimo ousou dizer: 'Nenhuma besta há no mundo mais feroz do que um mau padre'.

E, quanto mais este infeliz se afunda num abismo de insanidades, mais nele se regala pela sensação de tranquilidade e de confraternizações mundanas cada vez maiores. A insensatez se ensoberbece pela insanidade. Quem mais perto esteve do Céu, mais dele se afasta numa desembestada correria. O sacerdote perde a sua condição divina e torna-se, cada vez mais, um homem comum. E nada pode ser mais trágico na história humana da salvação do que um homem comum ser julgado por Deus um dia como se fosse um anjo. 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'A Sagrada Escritura nos adverte que até o justo cai sete vezes. Sempre que leio estas palavras, a minha alma estremece com um forte abalo de amor e de dor. Uma vez mais, vem o Senhor ao nosso encontro, com essa advertência divina, para nos falar da sua misericórdia, da sua ternura, da sua clemência, que nunca acabam. Estai seguros: Deus não quer as nossas misérias, mas não as desconhece e conta precisamente com essas debilidades para que nos façamos santos. Um abalo de amor, dizia-vos. Considero a minha vida e, com sinceridade, vejo que não sou nada, que não valho nada, que não tenho nada, que não posso nada; mais: que sou o nada! Mas Ele é o tudo e, ao mesmo tempo, é meu, e eu sou dEle, porque não me repele, porque se entregou por mim. Contemplastes amor maior?... Deus não se cansa de nos amar. A esperança demonstra-nos que, sem Ele, não conseguimos realizar nem o mais pequeno dever; e com Ele, com a sua graça, cicatrizam-se as nossas feridas; revestimo-nos da sua fortaleza para resistir aos ataques do inimigo e nos tornamos melhores. Em resumo: a consciência de que somos feitos de barro ordinário nos há de servir, sobretudo, para reafirmarmos a nossa esperança somente em Jesus Cristo'.

(São Josemaria Escrivá)

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

UM LUGAR MUITO ESPECIAL

Muitos, muitos homens estavam reunidos e sentados em torno da mesa oval e imensa. A luz que os envolvia era de um brilho e de uma transparência insondáveis. Eles estavam mergulhados na luz de Deus. Todos podiam ver, embora de forma imprecisa e algo indefinida, os que ali também se encontravam e, particularmente, e de forma estranhamente bela, o único lugar vazio em torno da mesa. E nada mais, embora fossem capazes de pressentir a presença do Anjo de Deus em algum ponto às suas costas, em algum lugar indefinido em torno da mesa. E cada um podia ouvir a voz do Anjo, tão clara e tão potente, como se fosse soprada em seus próprios ouvidos.

E o Anjo de Deus chamou primeiro o homem que estava à esquerda do único lugar vazio da mesa, e sua voz ressoou como os grandes címbalos de bronze:

'Quem és tu, ó homem mortal, para ousares chamar o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó de meu Senhor e meu Deus?'

O homem, preso à mesa como por enormes correntes de chumbo, assim respondeu (e o que falou veio como um frêmito nascido no mais íntimo de sua alma, sem distorção alguma pelos espasmos instáveis e sombrios das palavras humanas):

'Sou luterano e professo a religião que me foi outorgada pelos ensinamentos e doutrina de Martinho Lutero, um ex-monge da Igreja...'

'A tua igreja nasceu em 1517... como bem o disseste, é a igreja de Lutero, e não é a Igreja de Cristo. Afasta-te, pois, da luz da glória de Deus!'

E o Anjo de Deus baixou a sua espada de luz e criou um segundo lugar vazio à mesa.

E o Anjo de Deus chamou em seguida o homem que estava à esquerda do segundo lugar vazio da mesa, e sua voz ressoou como os grandes címbalos de bronze:

'Quem és tu, ó homem mortal, para ousares chamar o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó de meu Senhor e meu Deus?'

O segundo homem, tal como o primeiro, de forma igual e por igual impulso espiritual, assim respondeu:

'Sou presbiteriano e minha religião foi fundada por John Knox no ano de 1560...'

'A tua igreja nasceu em 1560... é a igreja de um homem e não a Igreja de Cristo. Afasta-te também, pois, da luz da glória de Deus!'

E o Anjo de Deus baixou a sua espada de luz e criou um terceiro lugar vazio à mesa.

Pela terceira vez, o Anjo de Deus chamou o homem que estava à esquerda do terceiro lugar agora vazio da mesa, e sua voz ressoou como os grandes címbalos de bronze:

'Quem és tu, ó homem mortal, para ousares chamar o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó de meu Senhor e meu Deus?'

O homem, impelido pelo sopro da Verdade de Deus, assim respondeu:

'Sou um membro das Testemunhas de Jeová, e professei com fidelidade extrema os princípios expostos e ensinados por Carlos Taze Russel em 1870, e modificados por seu discípulo Rutherforf em 1918...'

'É essa a idade da tua igreja? Viveste imerso entre trevas e anseias buscar nas trevas de tuas crenças a Igreja de Cristo? Afasta-te também, pois, da luz da glória de Deus!'

E o Anjo de Deus baixou a sua espada de luz e criou mais um lugar vazio à mesa.

E o Anjo de Deus chamou todos os homens reunidos, um a um, sempre chamados à esquerda dos lugares que ficavam vazios de uma mesa cada vez mais vazia. E todos responderam ao Anjo, com um uníssono grito da alma, única Verdade que professaram em vida: 'professamos e vivemos uma religião que foi uma farsa criada pelos próprios homens e que nunca foi a Verdadeira Esposa de Cristo'. E, sob o golpe da espada do Anjo de Deus, foram todos expulsos da mesa e da luz da glória de Deus: batista, anglicano, mórmon, espírita, metodista, adventista...

A enorme mesa oval e iluminada pela luz de Deus era agora um ambiente de lugares vazios. O Anjo de Deus a percorreu mais uma vez e, agora, silenciosamente. Não havia ninguém mais para ouvir a sua voz e responder à sua pergunta. Chegou, então, ao primeiro lugar vazio da mesa, aquele que, em dado momento, havia sido o único lugar vazio à mesa. E, ali, como aprisionado por pesadas correntes à mesa, ouviu uma voz humana, nascida do mais íntimo da alma:

'És tu o Anjo do Senhor que Deus me deu como guardião eterno para me conduzir ao lugar da mesa gloriosa do meu Senhor e meu Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó?'

O Anjo do Senhor, volvendo o olhar de Deus no homem que assim falava, perguntou:

'Quem és tu, ó homem mortal, para ousares chamar o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó de meu Senhor e meu Deus?'

'Eu sou católico apostólico romano, nascido nos primórdios da era cristã, entre umas certas bodas de Caná, um Evangelho, um Calvário e a ressurreição de Jesus Cristo, meu Senhor e meu Deus. Eu professei e vivi em plenitude a doutrina da Santa Igreja Católica'.

O Anjo de Deus guardou, enfim, a sua espada de luz e conduziu o último homem ao primeiro lugar vazio da grande mesa que passou a ter, então, as próprias medidas da eternidade de Deus.

(Arcos de Pilares)

Princípio Teológico do Ecumenismo Zero 
ou 
Princípio Geral do Apostolado Católico pela Conversão de Todos os Homens:

Extra Ecclesiam nulla salus - 'Fora da Igreja não há salvação' 
(Concílio de Florença, por exemplo) 

domingo, 5 de setembro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!' 
(Sl 145)

 05/09/2021 - Vigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum

41. EFATÁ!' 


No Evangelho deste domingo, Jesus em pregação encontra-se em terras estrangeiras, em meio aos pagãos, depois de passar pela Sidônia e atravessar 'a região da Decápole' (Mc 7, 31). Mas, mesmo ali, já eram conhecidos o seu poder e as curas milagrosas que realizava. E, assim, alguns daquela região, inclinados a receber com alegria a doutrina do Mestre, trouxeram à sua presença um homem surdo e que balbuciava palavras com grande dificuldade para que Jesus 'lhe impusesse a mão' (Mc 7, 32), gesto que traduzia concretamente o poder de cura de um grande profeta.

Jesus, entretanto, não vai fazer tal gesto, segundo o costume antigo. Afastando-o da multidão que os cercava, Jesus vai manifestar a sua condição humana e divina como médico do corpo físico mas, e principalmente, de almas. Fisicamente, vai usar o tato para acessar o doente: 'colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele' (Mc, 7,33). E, para confirmar que a cura dos males humanos, físicos ou espirituais, procede apenas de Deus, Jesus, em unidade com o Pai 'olhando para o céu' (Mc 7, 34), vai dizer: 'Abre-te!' (Mc 7, 34) e, somente então, o homem curado passa a falar e ouvir sem quaisquer dificuldades. Jesus recomenda a todos para que não se servissem do fato como história a ser contada, para nos advertir que ninguém nunca se ufane pessoalmente pela realização de uma obra ou de uma cura, que nasce e se dá exclusivamente pela graça de Deus.

De forma muito semelhante, Jesus curou o cego de nascença moldando o barro do chão (Jo 9, 1 - 7); Jesus nos cura dos males físicos e espirituais moldando a argila frágil da natureza humana, pelo cinzel da graça e do amor de Deus. Ao se debruçar até o pó, nos dá ciência de que conhece a nossa imensa fragilidade; ao proclamar sua divindade, nos conforta de que somos os herdeiros da divina misericórdia: 'Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é Ele que vem para vos salvar' (Is 35, 4).

O 'Efatá' pronunciado por Jesus junto aos ouvidos e à boca do surdo-mudo, deve ressoar, com amplitude crescente, no coração de cada homem, para que todos se abram às palavras de salvação, para que a nossa voz não se quede silenciosa diante da verdade ultrajada, para que corações e mentes não se cauterizem insensíveis aos apelos da graça! Como sal da terra e luz do mundo, somos destinados a sermos reflexos diretos da Luz de Cristo no mundo para a cura de muitos homens e para honra e glória de Deus.