quinta-feira, 30 de abril de 2020

A ORAÇÃO DE JESUS

Eis a oração de Jesus: 
'Senhor Jesus Cristo, filho de Deus Pai, tem piedade de mim, que sou pecador'

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A VIDA OCULTA EM DEUS: A HUMILDADE


38. A verdadeira paz só se encontra na humildade. Despreze-se com sinceridade diante de Deus e faça isso cada vez mais. Pelo menos tente fazer isso e verá os resultados. Se você for capaz de amar (por um ato de vontade) a humilhação e a contradição, terá dado um grande passo em direção a Deus. Aceite com franqueza e sem discussões internas ou externas as pequenas humilhações diárias. Faça isso: custa apenas dar o primeiro passo. Assim, o hábito pode fincar raízes e, então, que alegria e que paz!

39. Amar ser humilhado e ser considerado ninguém é uma graça. Peça isso sempre, mas com tranquilidade.

40.  Na prática, reconhecer que não se está com a razão é perder pouco e ganhar muito.

41. Aceite humildemente não agradar a todos; querer o contrário seria querer o impossível.

42. Cuide da sua necessidade de criticar e contradizer os outros para melhor se afirmar diante de si mesmo. Procura definir os seus sentimentos com simplicidade, precisão, clareza e brevidade; depois mantenha-se sereno e reze.

43. Esforce-se sempre ainda que pareça que os seus esforços sejam inúteis. Deus quer o seu esforço pessoal para poder recompensá-lo. Permita que o seu fracasso, aparente ou real, o humilhe. Você precisa da humilhação como um freio. Quanto mais doloroso for, mais necessário é para você. Nada nos resguarda mais do que a humilhação e nada nos humilha mais como os nossos defeitos.

44. Ame as suas imperfeições. Elas o humilham e fornecem a matéria-prima para os seus esforços. Mas corrija-as também. Lembre-se do provérbio: 'quem ama bem, castiga bem'. E não traduza 'bem' por 'muito'. Dê a essa palavra todo o seu senso de restrição, prudência e firmeza, mas não rigidez excessiva. Considere os seus defeitos como uma mina inesgotável de mérito e humilhação e, nesse sentido, seria de se lamentar não ter defeitos. 

45. Se alguém nos julgasse como nós nos conhecemos, isso nos faria sofrer muito. Mais ainda, se nos fizesse saber o que pensa de nós. Nada nos machucaria mais, por miseráveis que julgássemos ser, do que um simples olhar de alguém que nos visse sob a nossa própria medida e, portanto, com desprezo. 
É como se sentir um ferro em brasas, como uma queimadura ardente, porque o egoísmo nos consome. Existem almas que não conseguem superar as consequências de uma falta cometida e do desprezo que a mesma produz. Quão habilidosos somos nós em responder às críticas e quantas precauções tomamos para evitar a menor humilhação! Mas nada é tão contrário à paz como isso. Existe paz quando você não pode tolerar a menor falta de consideração? Deus nunca haverá de conceder as suas graças a uma alma que se prostra preocupada diante de meras opiniões humanas que, na grande maioria das vezes, mostram-se equivocadas: busca-se então um bem que Deus não proverá. É a Deus quem devemos agradar, para que Ele nos olhe benignamente a cada dia; e não aos homens, buscando obter uma boa impressão a nosso respeito às custas de nossos dons naturais e mesmo de graças sobrenaturais. A vaidade espiritual é a pior de todas as vaidades e isso é prova concreta que estas graças não procedem de Deus ou de que Ele não as concederá mais. Porque é impossível entrar assim no seu Reino.

46. Trata-se, portanto, de praticar a humildade na medida em que ela realmente existe na alma, para praticá-la, desenvolvê-la, criar raízes e progredir. O que temos que encontrar, então, é a fórmula simples e única que traduz o ato e a origem da humilhação. Se, por exemplo, ao quebrar um copo sobre a mesa, em vez de dizer: 'Como sou desajeitado, sempre fazendo isso!' ou 'o copo escorregou das minhas mãos...' ou variantes assim, diga apenas: 'eu quebrei o copo'. Pronto; num sentido direto, simples e objetivo, sem buscar minimizar ou escamotear o constrangimento do ato. E, outras vezes, é melhor não dizer nada, deixando o silêncio traduzir as verdadeiras disposições de sua alma.

47. Não tente fazer florescer sentimentos de humildade dentro de você, mas 'exercite-se' nesta disposição, a menos que se entenda por 'sentimentos' coisas como gostos não sensíveis, disposições da alma ou atitudes espirituais.

48. Ó como estaríamos dispostos a receber as graças de Deus se tivéssemos um julgamento correto e exato sobre nós mesmos e sobre as nossas verdadeiras qualidades, reconhecendo-as sem exagero e vendo nelas tão somente uma concessão divina; e, mais ainda, um julgamento assim sobre os nossos muitos e verdadeiros defeitos e misérias, sem os exagerar também, mas vendo-os à luz de Deus! Nesse sentido, o orgulho seria impossível. Os santos viviam nessa luz e, por isso, pequenas faltas que nos parecem triviais mostravam-se enormes para eles, por causa da medida precisa que tinham da santidade de Deus e do profundo horror divino às nossas menores imperfeições. E, uma vez iluminados de maneira extraordinária, a humildade legou a eles contemplar de tal modo a própria miséria que, por  se depreciarem tanto diante dela e com julgamentos tão severos sobre si mesmos, tais considerações podem nos parecer surpreendentes.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte I -  O Esforço da Alma; tradução do autor do blog)

terça-feira, 28 de abril de 2020

A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS É UM CASTIGO DE DEUS?

A perda de referências doutrinárias e das premissas mais elementares da fé católica levam grupos cada vez maiores de católicos a proclamarem, como uma verdade inquestionável, que Deus, sendo o Deus da misericórdia infinita, não castiga os homens e, assim, a pandemia do coronavírus deveria ser entendida como um fato alheio à Vontade de Deus. Entediados pela tibieza da fé e do relativismo, talvez nem percebam a natureza de tão grande blasfêmia: uma singular e crescente letargia em relação a qualquer realidade transcendente de nossa vida, cujos eventos passam então a ser sempre entendidos e interpretados pelo viés da história humana e, assim, privados de qualquer dimensão sobrenatural e, muito menos, por movimentos e desígnios da própria Providência Divina.

Deus não castiga?

'Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso. Castigo a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e a quarta geração daqueles que me odeiam (Dt 5, 9)

'Viste como Acab se humilhou diante de mim? Como ele assim procedeu, não mandarei o castigo durante a sua vida, mas nos dias de seu filho farei vir a catástrofe sobre a sua casa' (I Rs 21, 29)


'Por que razão o ímpio despreza Deus e diz em seu coração 'Não haverá castigo?' (Sl 9, 34)

'não é o poder dos ídolos invocados, mas o castigo reservado ao pecador, que sempre persegue as faltas dos maus' (Sb 14, 31)

'Senhor, na tribulação, nós vos buscamos, e clamamos a vós na angústia em que vosso castigo nos abate' (Is 26, 16)

'É contra ti que me volto, ó insolente, chegou o teu dia, o tempo do teu castigo (Jr 50, 31)

'O Senhor não se descuidou do castigo, e o descarregou sobre nós, porque o Senhor, nosso Deus, é justo em tudo o que faz. Mas nós não escutamos a sua voz' (Dn 9, 14)

'Porque estes serão dias de castigo, para que se cumpra tudo o que está escrito. Ai das mulheres que, naqueles dias, estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia na terra e grande ira contra o povo. Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações, e Jerusalém será pisada pelos pagãos, até se completarem os tempos das nações pagãs'. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia irão apoderar-se das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definha­rão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas' (Lc 21, 22-26).
'Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te' (Ap 3, 19).
É claro que Deus castiga, e castiga os que ama, para corrigi-los dos erros; e pune os ímpios com ira santa, porque desdenharam da Graça. A temática do erro e da punição na justiça divina - tão infinita quanto a sua misericórdia - é mais óbvia do que o dia seguir-se à noite. O Purgatório e o Inferno não são meras abstrações difusas. Sodoma e Gomorra foram destruídas pelos pecados dos seus habitantes e não para se contar uma fábula. O Dilúvio foi um castigo divino de cunho universal. O pecado original impactou toda a humanidade e a pena dele privou não apenas Adão (que foi expulso do Paraíso), mas também toda a sua descendência da Graça e de todos os dons que Deus havia lhe outorgado desde a Criação. Por acaso, em Fátima, Nossa Senhora falou do castigo de Deus reservado à humanidade pecadora por meio de metáforas? Por acaso mostrou o inferno a três crianças porque estava proclamando que a misericórdia de Deus vai salvar todos os pecadores? Então, como Deus não castiga?

Deus castiga os justos e os ímpios; os primeiros para resgatá-los na sua Redenção e salvá-los pela misericórdia; os últimos para salvar os que só podem ser salvos pelo temor da justiça divina. No escopo da fé cristã, flagelos, desastres, doenças e a morte constituem consequências diretas do pecado original. E, por meio deles e de outros tantos meios, Deus pode castigar (e castiga) um homem em particular, um grupo de pessoas, uma nação ou mesmo o mundo inteiro, de acordo com a gravidade das ações particulares e/ou públicas perpetradas contra a lei de Deus. Assim, por princípio, é inconcebível ponderar o flagelo do coronavírus como não sendo um ato direto da interposição de Deus em relação à geração atual da humanidade. E, por ser flagelo e por ser pandemia, por ser agente extremado de dor, sofrimento e morte - frutos do pecado original e dos homens de pouca fé desta geração - só pode ser um castigo movido pela santa ira de Deus. 

Todo católico sabe (ou deveria saber) que doenças e, portanto, também epidemias, sofrimento e privação de entes queridos, devem ser aceitos com fé e humildade, e com profundo espírito de mortificação para expiação dos nossos pecados pessoais. E que, graças à Comunhão dos Santos, podemos oferecer essas provações também para o perdão dos pecados dos outros, para a conversão dos que não creem e para abreviar a purificação das almas santas do Purgatório (Igreja Penitente). E mais: que Deus é infinita misericórdia, sim, mas que o pecado, mesmo venial, nos separa por um abismo profundo de Deus. E, como cristãos convictos, deveríamos ter a consciência perfeita de que, na sua Sua Paixão e Morte de Cruz, o divino Salvador assumiu para si não apenas o peso do Pecado Original, mas também de todos os nossos pecados, de todos os tempos e de todos os homens. Os meus e os seus também. E que o nosso pecado pessoal tem reflexo direto nas dores e sofrimentos que Cristo padeceu em suas três horas de agonia na Cruz. Temos uma perfeita consciência disso e da gravidade dos nossos pecados, mesmo veniais?

Mas, além dos pecados pessoais, sobem aos Céus pecados terríveis cometidos por povos inteiros, por nações, por toda a humanidade, como os pecados terríveis do aborto, da eutanásia, do culto à sodomia e à ideologia de gênero, do divórcio e do casamento homossexual, da pornografia, da corrupção dos costumes, da manipulação do capital, da exploração dos mais pobres, do tráfico e consumo de drogas ilícitas, das falsas ideologias, da nova era, das sociedades secretas, do capitalismo selvagem, do ateísmo militante, do relativismo religioso, do ecumenismo, do culto ao corpo, da profanação do sagrado, das blasfêmias e de tantos sacrilégios... Nações e sociedades inteiras que não apenas ignoram Deus, mas que o negam de forma aberta e sistemática, que impõem aos seus cidadãos leis e procedimentos, que não apenas contrariam, mas que se rebelam e se contrapõem por completo aos preceitos da moral natural e da Fé católica. E estes povos e nações vão ficar nutrindo da utopia de que permanecerão isentas da ira santa de Deus?

Some-se a isso uma coleção inimaginável de adultérios, de violação dos domingos, de profanações da eucaristia, negligência e desrespeito aos ritos litúrgicos, exaltação de práticas ecumênicas, licenciosidade a outros ritos religiosos, louvor a tal mãe terra e ao panteísmo... tudo isso caracteriza uma profunda ruptura da humanidade com Deus. E nesse caldo de horrores se agregam também os frutos podres do desvario e da infidelidade de tantos clérigos e religiosos, escândalos contra os pequeninos, abusos litúrgicos de toda ordem... Neste quadro, tão explicitamente exposto por Nossa Senhora em Fátima, a pandemia (epidemia universal) não seria um castigo de Deus? Uma provação de tal ordem que freia a vida contemporânea nos seus limites, que faz literalmente o mundo parar, não seria um castigo de Deus? 

Mas o maior dos castigos não seria a privação da própria Missa e dos sacramentos? Um castigo imposto, assim, à própria Igreja? Um castigo imposto, assim, aos próprios católicos, por viverem como criaturas tíbias, dóceis, passivas, indiferentes e acovardadas num mundo cada vez mais tolerante e comprometido com o Maligno? Um castigo imposto, assim, a toda uma humanidade que se legou a divinização do próprio homem e que se declara cada vez mais agnóstica, ateísta, herética e anticlerical? Vivemos hoje, em caráter universal, a dramática experiência que muitos cristãos tiveram de não ter acesso direto aos sacramentos e à eucaristia em determinadas épocas e sob circunstâncias específicas da história humana, tipicamente associadas a grandes e sangrentas perseguições religiosas. 

Mas o caso presente é distinto de todas essas experiências prévias: o flagelo (e não estou falando da pandemia) é universal e atinge toda a Igreja de Cristo e é imposto sob a concessão e a subserviência da própria hierarquia católica. Mas nem tudo está perdido, porque Deus, na sua infinita paciência, ainda nos dá tempo para esperar pela nossa resposta, pela nossa reação diante de tão grande provação. O flagelo de uma pandemia é uma tragédia e, sem dúvida, uma enorme fonte de angústias e de sofrimentos mas, ainda assim, pode ser uma preciosa oportunidade de mudança de costumes e para uma verdadeira transformação de nossa fé cristã tornada operante e ativa sob o domínio da caridade.

Neste contexto, será que estamos compreendendo bem a dimensão desse flagelo? Qual é a função do castigo se não tiver o proveito da correção? Qual é o sentido de um castigo universal que não seja a adoção de medidas que promovam bruscas e definitivas mudanças de rota na atual bancarrota moral da espécie humana? Vão morrer alguns milhares de homens para a conversão de milhões? Vamos fazer férteis os corações duros para florescer a vinha do Senhor? Vamos nos tornar soldados de Cristo e portar, como guerreiros valorosos, as armas e as armaduras da fé cristã autêntica para enfrentar os males e as misérias do mundo quando pudermos dispor as máscaras que usamos como escudos contra um vírus? Vamos fazer amanhã, no nascer de um novo tempo, um mundo cristão enquanto somos cristãos no mundo? Estamos realmente rezando mais, renunciando às coisas que passam e firmemente determinados no projeto da nossa efetiva conversão e salvação eterna? Estamos realmente praticando a caridade cristã e amando o próximo sem anelos de gratidão ou de retribuição alguma? Se dissermos SIM a tudo isso, Deus nos receberá novamente como filhos e, como Pai de Misericórdia que é, nos levará ao cimo da santidade pessoal e ao Reino de Maria neste mundo. Mas, se a nossa resposta a tudo isso for ainda NÃO, então que Deus tenha piedade de todos nós! 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

DA VIDA ESPIRITUAL (104)

Deus quer para si servidores de primeira hora, cristãos por inteiro. Não católicos pela metade, não servidores de hora marcada. Muitas vezes, queremos ser católicos do Domingo da Ressurreição, mas não católicos da Sexta-feira Santa. Queremos a glória da Ascensão do Senhor, mas nos esquivamos de subir o Calvário. Somos sedentos da luz de Cristo, mas nos assombramos diante da Cruz de Cristo. Temos o maior empenho em louvar as chuvas de bênçãos de pentecostes, mas nos esmaga, no passo adiante, o peso do apostolado. Somos vitoriosos no dia em que o Senhor fez para nós, mas nos aturdimos e nos desfalecemos com as tormentas dos dias de provações. Somos passageiros da barca quando Jesus está à proa, mas nos refugiamos nos abismos do escondimento quando nos sentimos sós. Somos herdeiros do Céu quando estamos confortáveis, mas nos tornamos sal insosso e trevas quando perdemos o porto das convicções. 

Deus aceita as nossas misérias e as nossas contradições, mas não nos quer pela metade ou partidos aos pedaços. Deus nos quer por inteiro, servos fieis nas horas do bem e nas horas da provação, íntegros na fé, zelosos na esperança, artífices da perseverança moldada pela perseverança anterior. Eis o legado da tua alma cristã destinada às eternas planuras: chegar um dia, íntegra, completa, zelosa e perseverante diante de Deus!

domingo, 26 de abril de 2020

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS


'Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais... pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito. Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. Por ele é que alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus' (1Pd 1, 18-21)

sábado, 25 de abril de 2020

A BÍBLIA EXPLICADA (XXI): 'APASCENTA AS MINHAS OVELHAS!'

'Era esta já a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado. Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: 'Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?'. Respondeu ele: 'Sim, Senhor, tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesus: 'Apascenta os meus cordeiros'. Perguntou-lhe outra vez: 'Simão, filho de João, amas-me?'. Respondeu-lhe: 'Sim, Senhor, tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesus: 'Apascenta os meus cordeiros'. Perguntou-lhe pela terceira vez: 'Simão, filho de João, amas-me?'. Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: 'Amas-me?' – e respondeu-lhe: 'Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesus: 'Apascenta as minhas ovelhas' (Jo 21, 14-17).

Esta passagem do texto do Evangelho de São João é carregada de simbolismos e de sinais proféticos. Trata-se explicitamente da terceira manifestação de Jesus aos seus discípulos após os eventos da sua Paixão e Ressurreição e esta menção não é casual e tem relação íntima tanto com as três perguntas que o Senhor dirigiu a Pedro como às três negações do Apóstolo. Por três vezes Pedro há de negar a Pedro, por três vezes Jesus vai pedir para Pedro (o papado) apascentar a Igreja. Com uma diferença exponencial no terceiro pedido: apascenta as minhas ovelhas e não, como nas duas precedentes, apascenta os meus cordeiros.

Existe, portanto, um caráter completamente distinto envolvendo os dois primeiros diálogos de Jesus com Pedro (e, assim, igualmente, entre a terceira e as duas primeiras negações de Pedro). Entre o rebanho de cordeiros (filhote da espécie, indicando, assim, uma Igreja ainda infante e por cumprir ainda a sua função de evangelizar o mundo) e o rebanho de ovelhas (animais adultos, representando simbolicamente a Igreja madura e já plenamente consolidada no mundo), as palavras de Jesus, mais do que a Pedro, são dirigidas à Igreja Militante de tempos essencialmente diversos.

Serão três eras distintas, três momentos absurdamente críticos para a Igreja de Cristo, momentos tão tenebrosos na história humana que levaram o próprio Senhor a explicitar a Pedro (e aos sucessores de Pedro) a sua ordem divina: 'se me amam de verdade, zelem com cuidado extremo e particular pelos meus filhos nestes tempos de tribulação extremada'. 

O primeiro momento tenebroso da história da Igreja é a mesma ter padecido, no nascedouro, de Jesus ausente em corpo entre os homens. Os discípulos, mesmo após o longo convívio com a presença, os ensinamentos, exemplos e milagres do Senhor, vão se refugiar em lugares fechados por medo dos homens, vão vacilar, vão se acovardar. E será o próprio Pedro o mentor do primeiro apelo de Jesus, o mesmo Pedro que vai negar o Mestre pela primeira vez diante de uma simples criada. Sim, uma simples mulher abre a porta para Pedro adentrar um espaço mundano, mas são os próprios discípulos que fecham as portas dos seus refúgios por medo dos homens e da missão que têm a cumprir. Diante da perturbação e da queda iminente diante um mundo que ainda desconhece por completo os mistérios da graça (a criada), Pedro e os Apóstolos romperão as portas do escondimento e do medo para se tornarem os arautos dos evangelhos e os mártires da fé após o Pentecostes. E, assim, a Igreja Primitiva ouviu e fez cumprir o primeiro mandato de Cristo: apascenta os meus cordeiros.

O segundo momento tenebroso da história da Igreja não teve uma data fixa e definida, mas se estendeu por um longo período de flagelo diante as muitas e variadas eras das perseguições romanas. Naqueles tempos, o martírio se converteu em prática cotidiana. Para subverter a Roma pagã e alçar os ares do mundo, o Evangelho de Cristo floresceu na sementeira do sangue derramado por milhares e milhares de mártires. Como conciliar provação tão tremenda de amor à fé cristã por tantos homens e mulheres diante da figura apequenada de Pedro, refestelado diante do fogo acolhedor para se aquecer da noite fria quando Deus vivo está sendo condenado à morte? É uma outra criada agora que o interpela e o acusa diante de outros, isto porque o mundo pagão agora não pode mais dizer que desconhece a Verdade: a força do evangelho vai arrebentando portas e masmorras e convertendo milhares de milhares e, por isso, deve ser denunciado, atacado e combatido pelos inimigos reunidos em torno do fogo acolhedor das misérias do mundo. Essa perseguição vai ter raízes ainda mais profundas no enfrentamento de hordas heréticas de diversas origens, mas o triunfo da Igreja é definitivo. Pedro vai se transformar em um novo Cristo após o seu 'quo vadis' e juntar o seu martírio ao de outros milhares de mártires que temperaram o cadinho da Igreja Nascente e purificada que reformou o mundo para fazer cumprir fielmente o segundo mandato de Cristo: apascenta os meus cordeiros.

O terceiro momento tenebroso da história da Igreja ainda está por vir e terá um período e data muito bem definidos, conforme as inúmeras profecias e referências presentes nos textos das Sagradas Escrituras: os tempos do Anticristo. Será uma era de provação como nunca se viu, será uma hora tremenda para a Igreja e para o povo santo de Deus. Será uma época de perseguições e martírios, de uma crise de fé espantosa, de uma rebelião inimaginável dos homens contra o Evangelho e a fé cristã. Na terceira provação magna da sua história, os eventos associados às duas primeiras estarão presentes conjunta e simultaneamente, e em magnitude extrema. Isto se conclui porque a terceira negação do Apóstolo não constitui somente uma negação como as outras: Pedro blasfema, faz imprecações e jura em falso. A Igreja não apenas vacila e tem medo, mas muda de lado e se alia ao mal. E o galo canta, pois a noite está no fim e já desponta o amanhecer de um novo dia. Neste simbolismo dos trechos proféticos, fica expresso o triunfo final da Igreja nos novos tempos que seguem o fim da noite fria, escura e tenebrosa de provações tamanhas. Este triunfo da Igreja, como expressamente ratificado por Nossa senhora de Fátima, é a certeza de que, naqueles tristes tempos, será firmemente edificada a Igreja Eterna de Cristo e cumprido in totum o terceiro e último mandato de Cristo: apascenta as minhas ovelhas.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

OS GRANDES MÍSTICOS DA IGREJA (IV)

GERTRUDES DE HEFTA

Escondida no anonimato dos tempos, pouco se sabe realmente sobre as origens de Gertrudes de Hefta, a não ser que o seu nascimento se deu em 6 de janeiro de 1256, provavelmente em Eisleben (Alemanha), e que teria ingressado no mosteiro beneditino de Santa Maria de Helfta ainda criança, com idade de 5 anos, como era costume à época nos mosteiros cistercienses.


Neste ambiente particular de devoção e santidade ímpares, Gertrudes conviveu com outras duas grandes religiosas da vida monástica: Gertrudes de Hackeborn (que tinha o seu mesmo nome e era a priora do mosteiro) e Santa Matilde de Hackeborn (irmã da priora). Sob a tutela direta da segunda, Gertrudes recebeu uma esmerada educação intelectual e religiosa, baseada nos estudos das Sagradas Escrituras, na Liturgia, na Tradição patrística, nas regras e na espiritualidade cisterciense, particularmente nos ensinamentos de São Bernardo de Claraval. Exímia no cumprimento da vida monástica e dócil, obediente e prestativa em todos as funções da vida comunitária, Gertrudes construiu uma vida de santidade singular durante a adolescência e toda a sua juventude. Mais tarde, vai conviver, neste mesmo convento, com outra religiosa ímpar do monaquismo germânico: Matilde de Magdeburgo (ingressante no mosteiro de Hefta em 1271 ou 1272).

Por ocasião do Advento de 1280, viveu um período obscuro de fé dúbia e vacilante. Deus preparava assim a sua eleita, mediante uma profunda provação espiritual, para ser uma das grandes místicas da Igreja. Ao experimentar a primeira visita mística de Jesus, em 27 de janeiro de 1281, com a idade de 25 anos, tem início o que a santa chamaria de 'conversão': a partir de então, toda a sua vida será consagrada a uma íntima, fervorosa e ininterrupta união com Deus e completo abandono à Sua Santa Vontade: 'dai-me a graça que toda criatura seja nada para mim e só Vós sejais o deleite do meu coração', pontuada por êxtases e visões diversas. Em uma destas visões, por exemplo, contemplou o Menino Jesus e Nossa Senhora no dia em que Ele foi apresentado no Templo para o cumprimento dos preceitos da purificação.

A Eucaristia constituía o centro da vida religiosa da santa, cercada sempre por profundos atos de piedade, contrição e adoração a Jesus Sacramentado e, nesse sentido, ela viveu, juntamente com a sua preceptora Santa Matilde de Hackeborn, os mistérios e as graças pioneiras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que somente seria revelado em plenitude ao mundo, por meio de Santa Margarida Maria Alacocque, cerca de quatro séculos depois. Essa intimidade da graça, profunda e mística, rendeu à santa a concessão dos estigmas das chagas de Cristo e fez dela, além de ser chamada 'a Grande', a santa da santa humanidade de Cristo, a santa da teologia da Encarnação, a santa da teologia do Sagrado Coração de Jesus.

As suas experiências místicas e espirituais foram compiladas em obras como 'Arauto do Amor Divino', 'Revelações' e 'Exercícios Espirituais'. De particular relevância no conjunto imenso de êxtases e experiências místicas, foi o seu conhecimento avançado da realidade do Purgatório: a natureza das penas associadas a cada tipo de pecado, a natureza dos padecimentos das almas penitentes e, de modo especial, a vinculação das devoções eucarística e ao Sagrado Coração de Jesus em proveito da mitigação dos sofrimentos e da própria libertação das almas do Purgatório. 


É pouco provável que exista uma oração específica da santa pelas almas do Purgatório ou uma oração para libertação de mil ou um número fixado destas almas. Na verdade, Santa Gertrudes fazia várias orações diferentes na intenção das almas do Purgatório, em particular pelas religiosas falecidas do mosteiro. Estas experiências foram intimamente compartilhadas no ambiente monástico da época com Santa Matilde de Hackeborn.

Ambas as santas tiveram visões de multidões de almas deixando o Purgatório após as suas orações e, nas alocuções com Jesus, este fato foi várias vezes ratificado a elas. Numa certa ocasião, por exemplo, Santa Matilde de Hackeborn perguntou a Jesus que alívio tivera a alma de um falecido pela qual rezara cinco Pai-Nossos em devoção às suas cinco chagas, ao que Jesus respondeu: 'ela obtém cinco benefícios assim: os anjos oferecem a sua proteção à direita; à esquerda, consolo; na sua frente, dão esperança, às costas, confiança e, acima dela, a alegria celestial'. E acrescentou então: 'toda pessoa que, movida por um sentimento de compaixão e caridade, intercede em favor da alma de um falecido, participa de todo o bem que é feito na Igreja nesta intenção e, no dia em que deixar este mundo, encontrará todo esse bem para proveito do alívio e da saúde da sua própria alma'.

Depois de um longo período de anos de sofrimentos e enfermidades dolorosas, Santa Gertrudes, a Grande, faleceu em data ainda incerta, se 17 de novembro de 1301 ou de 1302. Embora nunca tenha sido oficialmente canonizada pela Igreja, a sua festa litúrgica é comemorada em 16 de novembro desde o século XVIII, por determinação do papa Clemente XII (papa no período 1730 - 1740).

quinta-feira, 23 de abril de 2020

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XLIX)

XLI

DO SACRAMENTO DA EXTREMA-UNÇÃO

Existe na Igreja algum sacramento especial cujo objeto seja dispor os moribundos para entrar no céu?
Sim, senhor; o Sacramento da extrema - unção (XXIX, 1)*.

Que entendeis por sacramento da Extrema-Unção?
Um rito instituído por Jesus Cristo, que consiste em ungir com óleo consagrado os enfermos em perigo de morte, pedindo a Deus que lhes perdoe os vestígios e restos das culpas passadas e lhes restitua completa saúde espiritual, para que, em pleno vigor da alma, entrem a desfrutar os gozos da bem-aventurança eterna (XXIX, XXXII).

Serve este sacramento para perdoar os pecados?
Não, senhor; pois nem foi instituído contra o pecado original como o batismo, nem contra os mortais, como a penitência, nem contra os veniais, como indiretamente o foi a Eucaristia. Todavia, como infunde uma graça especial, e a graça é incompatível com o pecado, indiretamente o perdoa, se o sujeito age de boa fé, e fez tudo quanto estava em suas mãos para obter o perdão das suas culpas (XXXI, 1).

Pode este sacramento restaurar a saúde do corpo?
Sim, senhor; de sorte que, se o sujeito se acha convenientemente disposto, em virtude da sua própria e exclusiva eficácia sacramental, devolve o vigor físico, quando recuperar a saúde corporal é útil e conveniente para desfrutar a espiritual, objeto próprio deste sacramento (XXX, 2).

Quando se pode e quando se deve receber?
Só pode receber-se quando a enfermidade ou extenuação corporal ponha o homem em transe de morte e deve fazer-se o possível para que o enfermo o receba com pleno conhecimento e grande fervor (XXXII, 1, 2).

Pode repetir-se?
Durante o mesmo perigo de morte, não senhor; porém, se o enfermo convalesce, ou, pelo menos, sai do perigo, pode recebê-lo tantas quantas vezes recair, quer em enfermidades distintas, quer nas alternativas da mesma doença (XXXIII, 1-2).

É a Extrema-Unção o último sacramento, instituído por Jesus Cristo, em favor dos homens?
Considerado o homem como pessoa privada, sim, senhor; porém, considerado como membro de uma sociedade a propagar-se por todo o mundo e a durar até ao fim dos tempos, desfruta os benefícios de outros dois.

Quais são?
A ordem e o matrimônio.

XLII

DO SACRAMENTO DA ORDEM - DOS SACERDOTES, BISPOS E SOBERANO PONTÍFICE; DA IGREJA, MÃE DAS ALMAS

Que entendeis por Sacramento da Ordem?
Um rito sagrado, instituído por Jesus Cristo, para conferir aos homens o poder de consagrar um corpo real em beneficio do corpo místico (XXXVII, 2).

O poder conferido neste Sacramento é um ou múltiplo?
É múltiplo; porém, a multiplicidade não prejudica a unidade do sacramento, porque as ordens inferiores são meras participações da superior (Ibid).

Que entendeis por ordem superior?
O presbiterado ou a ordem dos que têm faculdade para consagrar a Eucaristia (Ibid).

Que são ordens inferiores?
As que precedem o presbiterado e instituem ministros para servir ao sacerdote no ato da consagração. Ocupam, entre eles, o primeiro lugar os diáconos, os subdiáconos e os acólitos, cuja missão é servirem ao sacerdote no altar. É ofício dos primeiros distribuir a Eucaristia, pelo menos sob a forma de vinho, nos lugares em que os fiéis comungam em ambas as espécies; os segundos colocam nos vasos sagrados a matéria do sacramento, preparada e oferecida pelos terceiros. Vêm em segundo lugar os ministros cujo ofício é dispor os fiéis para receberem a Eucaristia, no que se refere à absolvição sacramental reservada ao sacerdote, expulsando os indignos, instruindo os catecúmenos e livrando os possessos do furor do demônio; e, se bem que estes ofícios não têm hoje aplicação, nos países católicos, tiveram-na nos primitivos tempos do Cristianismo, quando os fiéis se recrutavam entre os pagãos, e subsistem, com o fim de conservar íntegra a hierarquia eclesiástica (Ibid).

Quais são, por conseguinte, as ordens maiores e quais são as menores?
São ordens maiores o presbiterado, o diaconato e o subdiaconato, e menores as que servem para instituir acólitos, exorcistas, leitores e ostiários ou porteiros (XXXVII, 2,3).

Onde residem ordinariamente os ministros inferiores ao sacerdote?
Nos seminários e outros estabelecimentos eclesiásticos destinados à formação intelectual e moral dos que se preparam para a ordem suprema do sacerdócio.

Logo, ao receberem o presbiterado, é quando se põem os ministros da Igreja em contado com os fiéis para trabalhar na obra da sua santificação?
Sim, senhor.

Estão os sacerdotes investidos de algum caráter especial que os distingue dos demais fiéis?
Não só o estão os sacerdotes, mas também todos os membros da hierarquia eclesiástica, já que todas as ordens imprimem caráter. Todavia, está, podemos dizer, mais acentuado e impresso nos presbíteros, facultados para consagrar o corpo e sangue de Cristo e perdoar os pecados no tribunal da penitência.

Logo, os fiéis recebem, por intermédio dos presbíteros, todas as graças e bens espirituais vinculados aos sacramentos?
Sim, senhor; porque, se excetuarmos a confirmação, reservada ordinariamente aos bispos, aos simples presbíteros está entregue, por oficio, a administração de todos os sacramentos destinados a procurar a graça para o homem como pessoa privada, isto é, o batismo, a eucaristia, a penitência e a extrema-unção e assim também a faculdade suprema e divina de oferecer o augusto sacrifício do altar.

A quem são devedores os fiéis do inapreciável benefício de conhecer os mistérios e verdades de nossa santa religião ?
Aos sacerdotes, que tem como ministério cotidiano o de instruí-los nas verdades da fé.

De quem recebem os presbíteros os seus poderes e faculdades?
Dos bispos (XXXVIII, XL, 4).

Em que são os bispos superiores aos presbíteros e como podem conferir-lhes tais poderes?
Não são os bispos superiores aos simples presbíteros no tocante à consagração do corpo real de Cristo, mas no que se refere ao corpo místico, que é a Igreja; e em atenção a isso podemos dizer que Cristo instituiu o poder episcopal. Encontra-se dentro das suas atribuições tudo quanto seja necessário para criar e organizar igrejas e dispô-las para receber todas as graças vinculadas aos sacramentos. Por conseguinte, em virtude da consagração episcopal, adquirem a plenitude do sacerdócio, e podem, não só consagrar o corpo real de Jesus Cristo como os demais presbíteros, mas também administrar sem limites ou reservas todos os sacramentos, inclusive o da confirmação, consagrar ou ordenar sacerdotes e ministros inferiores, conceder-lhes jurisdição sobre os fiéis e confiar-lhes o seu governo e cuidado espiritual (XL, 4. 5).

Logo, podemos dizer que toda a vida e atuação da Igreja se concentra no bispo?
Sim, senhor.

Que necessita, por sua vez, o bispo para ser centro e origem da jurisdição na Igreja?
Viver em comunhão e dependência do Bispo de Roma, chefe e cabeça visível de todas as igrejas do mundo que, sob sua autoridade suprema e poder soberano, formam a congregação universal chamada Igreja de Cristo (XL, 6).

Logo, o Bispo de Roma tem faculdades que os outros não possuem?
No que se refere ao poder de ordem necessário para administrar todos os sacramentos, não, senhor; porém, no tocante ao poder de jurisdição, que compreende tudo o que é relativo ao governo da Igreja de Deus e designação de súditos e limites das diversas jurisdições, sim, senhor. Deste modo, o Soberano Pontífice concentra em sua pessoa todos os poderes da Igreja Católica, ao passo que os bispos só têm jurisdição em suas dioceses, partes integrantes da Igreja Universal, ou nas igrejas que, por ministério da lei eclesiástica, dependam da sua jurisdição no todo ou em parte, e ainda este poder limitado depende, em sua aquisição e exercício, da autoridade suprema do Soberano Pontífice (Ibid).

Por que reside na pessoa do Soberano Pontífice o poder Supremo de jurisdição e governo?
Porque assim o exige a unidade da Igreja; por isso Jesus Cristo deu a Pedro, de quem sucessor legitimo é e será até ao fim dos séculos o Pontífice de Roma, o cargo e ofício de apascentar todo o seu rebanho, tanto as ovelhas como os cordeiros (Ibid).

Logo, a união do homem com Jesus Cristo, mediante a graça dos sacramentos, e, por conseguinte, a salvação eterna de todos os mortais, depende e dependerá sempre e exclusivamente do Soberano Pontífice?
Sim, senhor; porque, se embora seja certo que a graça não está de modo absoluto ligada aos sacramentos, os quais podem ser supridos pela ação interior do Espírito Santo, pelo menos nos adultos impossibilitados, sem culpa sua, de recebê-los — não é menos certo que o homem que, conscientemente se separa da comunhão com o Romano Pontífice, se incapacita para receber a graça de Deus e, se em tal estado morre, está irremediavelmente perdido.

Logo, este é o sentido da frase 'fora da Igreja não há salvação'?
Sim, senhor; como também o é desta outra e equivalente: 'Não pode ter a Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe'.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O ESCAPULÁRIO AZUL DA IMACULADA CONCEIÇÃO


O chamado Escapulário Azul da Imaculada Conceição é, dentre todos os escapulários aprovados pela Igreja, o mais enriquecido com graças e indulgências. Anexado à Ordem dos Teatinos, após as revelações desta devoção por Nossa Senhora à Venerável Úrsula Benincasa (cujas virtudes foram proclamadas heroicas pelo papa Pio VI, em 7 de agosto de 1793), o Escapulário Azul foi enriquecido com inúmeros privilégios ao longo do tempo, por diferentes documentos papais* (Clemente IX, Clemente XI, Gregório XVI e, particularmente pelo papa Pio IX, que proclamou o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora).

* [Decr. Pii VII, die 30 iun. 1818; Breve Leonis XIII, die sept. 1878; Decr. Pii X, die 10 apr. 1913; S. Poenit. Ap., 8. nov. 1934 et 12 iul. 1941].

O fiel devoto deve trazê-lo sempre ao peito, com um firme propósito de rezar pela Igreja, pelo papa e pela conversão dos pecadores, pois tanto a Ordem dos Teatinos (fundada por São Caetano de Tiene e pelo bispo João Pedro Caraffa, depois papa Paulo IV, no século XVI) como a Venerável Benincasa tinham como devoção especial orar pela conversão dos pecadores. A imposição é reservada aos padres teatinos em cerimônias solenes, mas pode ser imposta privadamente por qualquer sacerdote. São os seguintes os muitos, generosos e extraordinários privilégios** desta santa devoção: 

I. Indulgências Plenárias (Sem Confissão e Sem Comunhão)

Ao fiel que usar o Escapulário Azul devidamente imposto, concede-se lucrar as mesmas indulgências plenárias que são concedidas àqueles que visitam as sete basílicas de Roma, a igreja da Porciúncula de Assis, a igreja de Santiago de Compostela e a Terra Santa, cotidianamente, a cada vez que rezarem 6 Pai-Nossos, 6 Ave-Marias e 6 Glórias-ao-Pai, em honra da Santíssima Trindade e da Bem-Aventurada Virgem Maria concebida sem pecado, orando ao mesmo tempo pela exaltação da Santa Igreja Romana e pela extirpação das heresias. 

Para lucrarem-se estas indulgências não é necessário dizer outras orações, nem confessar-se e nem comungar, bastando estar em estado de graça (e este, em caso de pecado grave, pode ser recuperado por um ato de contrição unido ao propósito de confessar-se depois). Todas estas indulgências são aplicáveis aos defuntos (este extraordinário privilégio foi reconhecido e confirmado pela Santa Sé em decreto de 31 de março de 1856, confirmado pelo papa Pio IX em 14 de abril do mesmo ano).

II. Indulgências Plenárias (Condições de Costume)

Ao fiel que usar o Escapulário Azul devidamente imposto, concede-se lucrar uma indulgência plenária a cada dia dos listados abaixo, desde que faça a comunhão nesse dia, reze alguma oração pelas intenções do Papa, tenha arrependimento e propósito de emenda até dos seus pecados veniais e tenha se confessado no dia ou na semana anterior (Decreto do papa Gregório XVI, de 12 de julho de 1846):

- No dia da imposição do escapulário;
- Na hora da morte;
- Todo primeiro domingo do mês;
- Todo sábado da Quaresma;
- Na domingo e na sexta-feira da semana que antecede a Semana Santa;
- Na Quarta, Quinta e Sexta-Feira da Semana Santa;
- Em um dos dias das Quarenta Horas;
- No primeiro e último domingo da novena de Natal;
- Nas festas do Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Invenção e Exaltação da Santa Cruz;
- Nas festas da Imaculada Conceição, da Purificação, da Anunciação, da Assunção e da Natividade de Nossa Senhora;
- No dia 2 de agosto, festa da Porciúncula;
- Nas festas de São Miguel, Anjos da Guarda, São José, São João Batista, São Pedro e São Paulo, Santo Agostinho, Santa Teresa de Ávila e Todos os Santos;
- Uma vez durante qualquer dia de um retiro de ao menos de 3 dias;
- Uma vez em qualquer dia do ano, à escolha da pessoa;
- Nas festas principais dos teatinos, que ocorrem nos dias 24 de março, 12 de abril, 17 de julho, 7 de agosto, 10 de novembro e 13 de dezembro.
- No dia da primeira missa, se o que usa o escapulário é sacerdote;
- Duas vezes ao mês, em dia à escolha da pessoa;

- Pode-se, além disto, ganhar as mesmas indulgências das Estações de Roma, nos dias designados pelo missal, visitando-se nesses dias uma igreja dos teatinos ou, se não for possível, a própria paróquia. Os dias assim designados pelo missal são: os domingos do Advento; os dias 26, 27 e 28 de dezembro; as festas da Circuncisão do Senhor e da Epifania; os domingos da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima; a quarta-feira de Cinzas e todos os dias que lhe seguem, até ao domingo de Páscoa inclusive; a festa de São Marcos (25 de abril) e os três dias das rogações; a festa da Ascensão; a vigília de Pentecostes e todos os dias da semana que lhe segue e ainda no dias das Quatro Têmporas).

III. Indulgências Parciais

Ao fiel que usa o Escapulário Azul devidamente imposto, concede-se lucrar (bastando estar em estado de graça e ter a intenção geral de ganhar todas as indulgências que puder):

- 60 anos de indulgência pela prática da meditação diária por ao menos meia hora, a cada vez. 
- 20 anos a cada dia das oitavas das festas de Nosso Senhor e outras festas de diversas Ordens Religiosas; 
- 20 anos ao visitar os enfermos, ou, havendo impedimento para tanto, ao rezar 5 Pai-nossos e 5 Ave-Marias pelos enfermos; 
- 7 anos e 7 quarentenas em todas as festas de Nossa Senhora não mencionadas acima; 
- 7 anos e 7 quarentenas cada vez que se confessarem e comungarem; 
- 5 anos e 5 quarentenas cada vez que visitarem uma igreja dos teatinos ou a própria igreja, rezando aí 5 Pai-nossos, 5 Ave-Marias e 5 Glórias-ao-Pai em honra da Santíssima Trindade e da Bem-Aventurada Virgem Maria concebida sem pecado, orando ao mesmo tempo pela exaltação da Santa Igreja Romana e pela extirpação das heresias;
- 300 dias em cada dia da oitava de Pentecostes; 
- 200 dias a cada vez que ouvir uma pregação; 
- 60 dias a cada vez que se fizer qualquer ato de piedade; 
- 50 dias a cada vez que se invocar devotamente os Nomes de Jesus e Maria; 
- 50 dias a cada vez que rezar um Pai-nosso e Ave-Maria pelos fiéis vivos e defuntos.

(Estes períodos de tempo mencionados significam que o fiel recebe, do Tesouro Espiritual da Igreja, uma remissão das penas temporais de seus pecados já perdoados equivalente àquela que receberia um penitente dos primeiros séculos da Igreja por tantos dias ou anos de penitência pública e canônica).

IV. Altar Privilegiado

- Todas as missas que se dizem em qualquer altar, por um defunto que em vida portava o Escapulário Azul, desfrutam dos benefícios de Altar Privilegiado (altar em que cada missa lucra indulgência plenária em favor da alma pela qual se oferece a missa).

** [Meditações Sacerdotais, do Padre Chaignon, S. J., Volume III, 2ª edição, Porto:1935, Edições do Apostolado da Imprensa, p. 785 - 789].

Fórmula de Imposição do Escapulário Azul da Bem-Aventurada Virgem Maria
(Benedictio et Impositio Scapularis Caerulei B. Mariae Virg. Immaculatae)


1. O fiel que vai receber o Escapulário Azul ajoelha-se; o sacerdote, revestido se sobrepeliz e estola branca, diz:

Adiutórium nostrum in nómine Dómini.
- Qui fecit caelum et terram.
Dóminus vobiscum.
- Et cum spíritu tuo.

Oremus: Dómine Iesu Christe, qui tégumen nostrae mortalitátis induére dignatus es, tuae largitátis cleméntiam humíliter imploramus: ut hoc genus vestiménti, quod in honórem et memóriam Conceptiónis beátae Maríae Vírginis immaculátae, nec non ut illo indúti exórent in hóminum pravórum morum reformatiónem, institútum fuit, bene+dícere dignéris; ut hic fámulos tuus, qui eo usus fuérit [vel haec fámula tua, quae eo usa fúerit; vel hi fámuli tui, qui eo usi fúerint; vel hae fámulae tuae, quae eo usae fúerint], éadem beáta María Vírgine intercedénte, te quoque induére mereátur [vel mereántur]: Qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. Amen.

2. Em seguida, o sacerdote asperge o Escapulário com água-benta e o impõe ao fiel, dizendo:

Accipe, frater [vel soror], scapuláre Conceptiónis beátae Maríae Vírginis Immaculátae: ut, ea intercedénte, véterem hóminem exútus (a) et ab omni peccatórum inquinaménto mundátus (a), ipsum pérferas sine mácula, et ad vitam pervénias sempitérnam. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

3. Com o Escapulário imposto ao fiel, o sacerdote diz então:

Et ego, ex facultáte mihi concéssa, recípio te [vos] ad participatiónem bonórum ómnium spirituálium, quae in Clericórum Regulárium congregatióne ex grátia Dei fiunt, et quae per Sanctae Sedis Apostólicae privilégium concéssa sunt. In nómine Pátris, et Fílli, + et Spíritus Sancti. Amen.

4. O sacerdote reza então por aquele que recebeu o Escapulário a seguinte oração, fazendo uma genuflexão a cada louvor:

Laudes ac grátiae sint omni moménto, sanctíssimo ac diviníssimo Sacraménto. Et benedícta sit sancta et immaculáta Concéptio beatíssimae Vírginis Maríae, Matris Dei.

5. O sacerdote faz uma pequena alocução fazendo referência explícita aos variados e extraordinários privilégios associados ao Escapulário Azul da Imaculada Conceição.

terça-feira, 21 de abril de 2020

SOBRE AS MORTIFICAÇÕES EXTERNAS E INTERNAS

Nunca percas de vista esta bela sentença de Santa Teresa: 'Quem julga que Deus admite à sua amizade pessoas que amam a comodidade, engana-se redondamente'. 'Os que são de Cristo, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscência', diz o Apóstolo (Gl 5,24). Por isso considera como uma dádiva divina toda a ocasião de te mortificares e não deixes nenhuma sem te aproveitares dela.

Reprime teus olhos e não os detenhas em coisas que satisfazem unicamente a curiosidade. Evita toda conversação em que se trata unicamente de novidades ou de outras coisas mundanas. Esforça-te sempre em mortificar o paladar: nunca comas e bebas unicamente para contentar tua sensualidade, mas só para sustentar o teu corpo. Renuncia voluntariamente aos prazeres lícitos e dize generosamente, quando ouvires falar das alegrias do mundo: 'Meu Deus, só a vós eu quero e nada mais'. 

Faze com fervor todas as mortificações externas que a obediência e as circunstâncias permitirem. Se não puderes mortificar teu corpo com instrumentos de penitência, pratica ao menos a paciência nas doenças, suporta alegremente toda incomodidade que consigo traz a mudança do calor e do frio; não te queixes quando te faltar alguma coisa, alegra-te antes quando te faltar até o necessário.

Mas principalmente a mortificação interna é que deves praticar, reprimindo tuas paixões e nunca agindo por amor-próprio, por vaidade, por capricho ou por outros motivos humanos, mas sempre com a única intenção de agradar a Deus. Por isso, enquanto possível, deves te privar daquilo que mais te agradar e abraçar o que desagrada ao teu amor-próprio. Por exemplo: quererias ver um objeto: renuncia a isso justamente por te sentires levado a contemplá-lo; sentes repugnância por um remédio amargo: toma-o justamente por ser amargo; repugna-te fazer benefícios a uma pessoa que se mostrou ingrata para contigo: faze-o justamente porque tua natureza se rebela contra isso. Quem quer pertencer a Deus, deve se violentar incessantemente e exclamar sem interrupção: 'Quero renunciar a tudo, contanto que agrade a Deus'.

(Santo Afonso Maria de Ligório)

sábado, 18 de abril de 2020

IN SINU JESU: 'REFUGIE-SE NAS MINHAS FERIDAS'


Eu estou aqui diante de você, eu sou a Palavra. Nenhum livro, por mais belo que seja, pode falar ao seu coração como Eu, que sou a Sabedoria Eterna, Amor infinito e Beleza Incriada em diálogo com a sua alma. Minhas palavras não são como as palavras dos homens. Minhas palavras superam até as palavras dos Meus santos, embora esteja acostumado a falar por meio deles e continuo tocando as almas por meio dos seus escritos. Minhas palavras são como flechas de fogo que atingiram o seu coração e o feriram de modo a lhe inflamar e o curar com amor divino.

Torne-se vulnerável às Minhas palavras. Permita-me falar com você de forma a ferir o seu coração com a espada do amor divino. Quando você se coloca diante de Mim e Me espera em silêncio, você assim o permite, escolher como e quando fazer penetrar a Minha palavra no seu íntimo e acender o fogo com a mensagem do amor divino. Espere-me, então, não somente para falar com você para consolá-lo e iluminá-lo, mas também para feri-lo. Porque, a menos que eu lhe machuque dessa maneira, você seria incapaz de enfrentar os ataques do inimigo e de dar testemunho de Mim no meio da escuridão e tribulação.

Na batalha espiritual que está em curso, somente os feridos por Mim sairão vitoriosos. É por isso que chamo todos os Meus sacerdotes a procurar e aceitar as feridas curadoras do Meu amor. Aqueles que se prostram diante do Meu Rosto Eucarístico são os primeiros a serem feridos pelo Meu amor. Eu te chamei para esta adoração porque desejo ferir você não uma vez, mas uma e outra vez, até que todo o seu ser esteja chagado e, assim, purificado e incendiado com o fogo do Meu amor. Que a sua alma seja ferida tantas vezes quantas fui ferido em Meu corpo por amor a você na Minha mais amarga Paixão! Permita-me, então, transpassá-lo mais e mais até que, tão ferido pelo amor divino, você esteja totalmente santificado e pronto para cumprir os Meus propósitos e projetos.

Isso desejo não apenas para você, mas para todos os Meus sacerdotes. Eu feriria cada um deles de novo e de novo com o Meu amor ardente, a fim de purificar toda a ordem sacerdotal da Minha amada Igreja, para apresentá-la aos olhos do mundo como um sacerdócio vitorioso e santificado no holocausto do amor divino. Até que os meus bispos e sacerdotes me permitam feri-los com as flechas ardentes do Meu divino amor, suas próprias feridas - feridas do pecado - continuarão a apodrecer e a espalhar uma infecção repugnante de corrupção e impureza na Igreja. Cada um me implore para assim o ferir pois, ao ferir de amor os Meus sacerdotes amados, eu os curarei e, ao curá-los, eu os santificarei e, ao santificá-los, eu darei glória ao Meu Pai e iluminarei o mundo com o brilho do Meu próprio Rosto e o com o amor do Meu próprio coração.

Considere a verdade do que você realmente é: um pecador que se apega firmemente ao abraço da Minha amizade divina. Quando Eu suspendo esta graça de conversar com você por um tempo, é para que você não a confunda como um produto de suas próprias imaginações e também para que você não fique conformado às Minhas palavras e, assim, pouco a pouco, relaxe de lhes dar o devido valor e de levá-las até o coração. Falo com você para que você possa compartilhar Minhas palavras em todas as ocasiões possíveis. E compartilhe as minhas palavras humildemente, sem pensar em si mesmo. Permaneça recolhido em Mim e eu esconderei você das murmurações dos homens nos mistérios velados da Minha Face e irei preparar para você um lugar secreto nas profundezas do santuário do meu lado aberto na Cruz. Ali, você pode ficar escondido e em silêncio, compartilhando minhas palavras livremente e sem o medo de ser notado ou elogiado.

Me peça então para esconder você dentro das minhas chagas. Há um lugar para você em cada uma das Minhas cinco chagas: cada uma deles representa um refúgio contra as tentações que o ameaçam e contra as ciladas do demônio, que buscam lhe prender e fazê-lo pecar. A ferida na minha mão direita é o seu refúgio contra os pecados da desobediência e da vontade própria. Busque refúgio nela quando estiver tentado a seguir um caminho largo e fácil. A ferida na minha mão esquerda é o seu refúgio contra os pecados do egoísmo, ao dirigir todas as coisas para si e ao captar a atenção dos outros, procurando levar para si o que sua mão direita Me oferece.

A ferida no meu pé direito é o seu refúgio contra os pecados da inconstância. Refugie-se lá quando sentir-se tentado pela tibieza e quando hesitar em suas resoluções de me amar acima de todas as coisas e de Me colocar em primeiro lugar em suas afeições e desejos. A ferida no meu pé esquerdo é o seu refúgio contra os pecados da preguiça e da letargia espiritual. Busque refugiar-se nesta chaga quando estiver tentado a desistir da luta e a consentir em ficar desanimado e a desesperar-se.

Finalmente, a ferida ao meu lado é o seu refúgio contra todo falso amor e contra todos os desejos humanos que podem prometer deleite, mas cujo preço é amargura e morte. Refugie-se na chaga do Meu lado ferido quando for tentado a procurar amor em qualquer criatura. Eu te criei para o Meu amor e somente o Meu amor pode satisfazer plenamente os desejos do seu coração. Adentre, pois, na ferida ao meu lado e, penetrando até ao Meu Coração, sorva profundamente das fontes do Meu amor para refrigério e deleite de sua alma, purificada, então, para o eterno convívio Comigo, porque Eu sou o Noivo da sua alma, o Salvador de todas as coisas que podem corromper você, o seu Deus, que é amor e misericórdia agora e por todos os séculos dos séculos.

(Excertos da obra 'In Sinu Jesu - Quando o Coração fala ao coração: Diário de um Sacerdote em Oração', por um monge beneditino, tradução pelo autor do blog)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

DICIONÁRIO DA DOUTRINA CATÓLICA (III)

APOSTASIA

É o afastamento total da fé cristã. Constitui pecado gravíssimo, filho da soberba. As principais causas da apostasia dos jovens são: adesão às seitas maçônicas, más leituras, más companhias eo as paixões. Apóstata é aquele cristão que renegou a fé e caiu no pecado da apostasia. O apóstata notoriamente reconhecido, morrendo na apostasia, não pode ter sepultura eclesiástica e nem missa exequial, mesmo de aniversário, nem quaisquer outros ofícios fúnebres públicos. 

APOSTOLADO

É o trabalho para a salvação das almas. É a grande necessidade de todos os tempos. Sem apostolado não se salvam as almas, porque não conhecem Jesus Salvador, não O amam, não praticam a Sua Lei, não participam dos Seus méritos. Foi essa a missão que Jesus confiou aos Seus Apóstolos, e que estes transmitiram aos seus sucessores — os bispos — e de que estes encarregaram os seus auxiliares — os padres. O apostolado dos bispos e dos padres, atualmente, é insuficiente para chegar a todas as almas; os leigos são, por isso, chamados à obra do apostolado. Não devem recusar a sua cooperação; pelo contrário, devem acudir, pressurosos, a receber a honra que lhes é oferecida, e desempenhar-se com a máxima dedicação e diligência da sua missão. São meios fáceis de fazer apostolado: a oração pelos pecadores e pelo bom êxito do apostolado; a expiação, aceitando os sofrimentos, o trabalho e as renúncias que a sua ação exigir; a palavra instrutiva, educativa, sempre que haja oportunidade; o bom exemplo, com uma conduta sempre edificante; a bondade, mostrando interesse pelas almas e desculpando as faltas de consideração, de gratidão, de delicadeza daqueles a quem se quer fazer bem.

ASCENSÃO DE JESUS CRISTO

É comemorada festivamente quarenta dias após a festa da Ressurreição. Jesus subiu ao Céu por sua própria virtude com as suas duas naturezas, divina e humana. Após a Ressurreição, apareceu doze vezes aos seus Apóstolos para os confirmar na fé. Não se sabe onde permaneceu antes de subir ao Céu. Quinta-feira da Ascensão é dia santo de guarda. Assiste-se à missa e não se trabalha. A Ascensão de Jesus ao Céu é um dogma da nossa fé, expresso no Santo Evangelho (Mc 16, 19). Como Jesus subiu ao Céu com a sua natureza humana, também nós podemos subir ao Céu após a nossa ressurreição. E esta uma verdade que nos conforta durante a passagem por este mundo.

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

É doutrina da Igreja que a Virgem foi elevada ao Céu em alma e corpo após a sua morte. Em memória deste fato celebra-se a festa da Assunção no dia 15 de agosto. Os portugueses têm um motivo especial para solenizar a festa da Assunção de Nossa Senhora: foi na véspera desse dia, em 14 de agosto de 1385, que Dom Nuno Álvares Pereira firmou a independência de Portugal, derrotando os castelhanos na batalha de Aljubarrota. É dia santo de guarda. 

ATEU

É todo aquele que não crê na existência de Deus. O ateu é néscio e insensato porque, conhecendo o mundo e a sua grandeza, ignora o seu Autor e, observando as leis admiráveis do Universo, nega o seu Ordenador.

AVAREZA

É um dos sete pecados capitais. É o amor desordenado aos bens do mundo, principalmente ao dinheiro. A avareza manifesta-se se nos alegramos desordenadamente pela posse da riqueza ou nos afligimos desordenadamente pela sua perda; se usamos meios injustos e criminosos em a procurar; se a procuramos com demasiada cobiça; se não socorremos os pobres conforme podemos. São efeitos da avareza: a dureza do coração, a inquietação do espírito, a fraude, a traição, a indiferença pelos bens do Céu. São remédios contra a avareza: a oração, a esmola, a meditação da morte, a recordação das palavras de Jesus Cristo, que disse: 'Guardai-vos de toda a avareza, porque a vida de cada um não está na abundância das coisas que possui' (Lc 12, 15). O Apóstolo São Paulo adverte-nos, dizendo: 'Sejam os vossos costumes isentos de avareza, contentando-vos com o que tendes, porque Deus mesmo disse: não te deixarei nem te desampararei; de maneira que possamos dizer com confiança: o Senhor é quem me ajuda, não temerei o que me possa fazer o homem' (Hb 13, 5-6). É insensatez pôr o homem as suas esperanças na riqueza para a conservação e gozo da vida. A vida dos ricos não é mais nem menos crucificada que a dos pobres, se for da vontade de Deus enviar-lhes o sofrimento ou encurtar-lhes a existência.

ÁZIMO

É o pão fabricado sem fermento, do qual se fazem as hóstias que hão-de ser consagradas na Missa, conforme o uso na Igreja Latina, a qual tem por certo que Jesus Cristo, na Última Ceia, consagrou o pão ázimo. Todavia, a Igreja ensina que não é inválida a consagração eucarística com o pão fermentado, como aplicado pela Igreja Grega.

(Verbetes da obra 'Dicionário da Doutrina Católica', do Pe. José Lourenço, 1945)