terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

18 DE FEVEREIRO - SANTA BERNADETTE SOUBIROUS


Bernadette Soubirous nasceu em Lourdes, região montanhosa dos Pirineus, a 7 de janeiro de 1844. Após as aparições de Nossa Senhora em Lourdes, Bernadette foi admitida na Comunidade de Filhas da Caridade de Nevers: em julho de 1866 começou seu noviciado e, em 22 de setembro de 1878, pronunciou seus votos. Faleceu no dia 16 de Abril de 1879, com a idade de 35 anos, após uma longa e dolorosa enfermidade. Trinta anos após sua morte, em 22 de setembro de 1909, seu corpo foi exumado e encontrado em perfeito estado de conservação. Alguns anos depois, em 13 de abril de 1925, pouco antes de sua beatificação, efetuada em 12 de junho de 1925, foi feito um segundo reconhecimento do corpo, que continuava intacto. 

Bernadette foi canonizada pelo Papa Pio XI em 8 de dezembro de 1933. Seu corpo incorrupto é mantido em uma urna de cristal desde 3 de agosto de 1925 e pode ser visitado ainda hoje na Igreja de Saint Gildard em Nevers. A festividade da santa se celebra no dia 16 de abril, data de sua morte. Na França (e no Brasil), é celebrada no dia 18 de fevereiro. A festa de Nossa Senhora de Lourdes é celebrada no dia de sua primeira aparição, 11 de fevereiro.

Santa Bernadette, rogai por nós!


O CÉU É AQUI...

domingo, 16 de fevereiro de 2020

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS


'Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria, não da sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo... Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória' (I Cor 2, 6-7)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

O SINAL DA CRUZ (VI)


In hoc Signo vinces - 'Por este Sinal vencerás'

VI

A quarta razão do Sinal da Cruz ter sido dado aos homens é o de nos protegermos, pois é uma arma especial, uma arma de precisão, contra satanás e todas as potências do mal. Temos que acreditar na bondade do Sinal da Cruz e na força desta arma divina contra os nossos inimigos, como nos recomenda São João Crisóstomo: 'O Sinal da Cruz é a armadura invencível dos cristãos. Que esta armadura nunca te falte, ó soldado de Cristo, nem de dia nem de noite, e nem um só instante, seja qual for o lugar em que te encontrares'.

Santo Agostinho dizia aos catecúmenos: 'É com o Credo e com o Sinal da Cruz que se faz necessário correr o inimigo. Revestido destas armas, o cristão sem dificuldade triunfará do antigo e soberbo tirano. A Cruz basta para desfazer todas as maquinações do espírito das trevas'. Seu ilustre contemporâneo, São Jerônimo, complementa: 'O Sinal da Cruz é um escudo que nos protege das flechas inflamadas do demônio'. Santo Atanásio é ainda mais preciso: 'O Sinal da Cruz torna impotentes todos os artifícios da magia, ineficazes todos os encantos e relega ao abandono todos os ídolos. Por meio dele, é moderado, abatido e extinto o fogo da voluptuosidade mais brutal e a alma, então curvada para a terra, levanta-se para o Céu'.

O poder do Sinal da Cruz é bem mais extenso que o de satanás, pois não apenas impede que os demônios falem como obriga-os a fugir dos lugares que habitam e os expulsa dos possessos. A prova disto está nos exorcismos da Igreja, que remontam ao berço do Cristianismo. Onde quer que exista um missionário católico e uma criatura humana a ser subtraída ao domínio de satanás, ainda que seja na região mais distante e selvagem, é assim a prática corrente da Igreja. Os demônios, porém, não estão somente nos templos pagãos e nas estátuas dos ídolos onde se fazem adorar, ou no corpo dos desgraçados que atormentam. Estão por toda a parte e o ar está cheio deles. Infatigáveis inimigos nossos, constantemente nos atacam; ora por si próprios, ora por intermédio de outras criaturas. Mas, sejam diretos ou indiretos, francos ou traiçoeiros, diante do Sinal da Cruz, os ataques deles falham sempre.

Aos ataques diretos e palpáveis, juntam os demônios ataques indiretos e traiçoeiros. Estes, não menos perigosos que aqueles, são mais frequentes e podem ser de duas espécies: uns são interiores e outros, exteriores. Os primeiros são as tentações propriamente ditas. Não há criatura livre da influência maligna de satanás; a todas as criaturas, faz ele instrumento de seu ódio implacável contra o Homem. E qual arma Deus nos deu para nos defendermos dos ataques e preservarmos nosso corpo e nossa alma deste que é chamado, e com razão, o grande homicida  — homicida ab initio? Todas as gerações católicas surgem de seus túmulos para exclamar: 'A arma que Deus nos deu é o Sinal da Cruz'.

Escudo impenetrável, torre inconquistável, arma especial contra o demônio; arma universal cuja força é sempre superior aos inimigos visíveis e invisíveis; arma fácil para os fracos, gratuita para os pobres. Todo o gênero humano admite junto com a Igreja que (i) todas as criaturas estão sujeitas às ações do demônio; (ii) todas as criaturas servem de instrumento para as suas influências malignas; (iii) todo homem está à mercê do maligno a cada instante e a cada ação. Portanto, nada mais racional que o emprego constante de uma arma sempre necessária. Cientes de que o ataque do demônio é universal e incessante, há que se entender que a defesa necessária deva ser também universal e incessante. 

Os primeiros cristãos faziam o Sinal da Cruz sobre cada um dos seus sentidos. Porque os sentidos são as portas da alma e servem de comunicação entre ela e as outras criaturas. Mais ainda: faziam o Sinal da Cruz sobre todos os seus objetos de uso e quanto lhes era possível, sobre todas as partes da criação. Casas, portas, móveis, fontes, limites dos campos, colunas de edifícios, navios, pontes, medalhas, bandeiras, capacetes, escudos, anéis — tudo era assinalado e marcado com o Sinal adorável. Pára-raio e monumento! Pára-raio divino para desviar as malícias dos demônios dos ares. Monumento de vitória que atesta o triunfo alcançado pelo Verbo Encarnado sobre o príncipe das trevas, o Sinal da Cruz é como as colunas que, levantadas pelo vencedor no campo da batalha, atestam a derrota do inimigo.

Dois espíritos opostos disputam entre si o império do mundo: o Espírito do Bem e o espírito do mal; tudo o aqui se faz procede da inspiração divina ou da inspiração diabólica. O estabelecimento do Sinal da Cruz, o uso incessante que dele se faz, a confiança que nele se deposita, a virtude onipotente que se lhe atribui, tudo há de ser ou de inspiração divina ou de inspiração satânica: uma das duas! Mas... se o Sinal da Cruz — praticado, repetido, estimado, considerado como arma invencível, universal, permanente e necessária à humanidade contra satanás, suas tentações e seus anjos — é uma inspiração divina, que juízo queres que eu faça de um mundo que não compreende o Sinal da Cruz? De um mundo que o não faz, que o despreza, que dele se envergonha?

A sociedade moderna é uma cidade desmantelada que se acha cercada de inumeráveis inimigos, impacientes por arruiná-la, ansiosos de passá-la ao gume das armas de sua guarnição. Arruiná-la? E não está ela já arruinada? Ruína de crenças, ruína de costumes, ruína de autoridade! Ruína da tradição, ruína do temor de Deus, ruína da consciência! Ruína da probidade, da mortificação, da obediência! Ruína do espirito de sacrifício; da resignação e da esperança. Por toda a parte só se vê ruínas começadas e ruínas consumadas. Que resta hoje de pé na vida pública e na vida particular, nas cidades e nas aldeias, nos governantes e noa governados? Na ordem das ideias e no domínio dos fatos, das pessoas e das coisas que ontem eram completamente católicas, hoje o que resta ainda de pé? E tudo por que? Porque não fazem mais o Sinal da Cruz! Eis tudo explicado.

Diminuindo no mundo o Sinal da Cruz, satanás nele se agita. O Sinal da Cruz é o pára-raio do mundo. Fazei-o desaparecer e o raio cairá operando desordens com suas loucuras. O Sinal da Cruz é um brilhante troféu que atesta a dominação do Vencedor Divino! Despedaçá-lo é dar gosto ao antigo tirano da humanidade; é preparar-lhe sua volta para uma tirania mais terrível. Como nos assevera o grande mártir Santo Antônio de Antioquia: 'O príncipe deste mundo regozija-se quando vê alguém renegar a Cruz, pois apenas vê-la o faz horrorizar... A Cruz é o princípio da condenação de satanás, a causa de sua ruína, a origem de sua morte e de sua derrota final'. Sem o Sinal da Cruz, a presença do mal torna-se tão inevitável quanto é impossível se obstar que, ao por do sol, as trevas sucedam à luz. O mundo atual é disto a prova mais sensível.

(Excertos adaptados da obra 'O Sinal da Cruz', do Monsenhor Gaume, 1862)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XLVI)

XXXIII

EFEITOS DO SACRAMENTO DA EUCARISTIA

Produz efeitos especiais e característicos o Sacramento da Eucaristia?
Sim, Senhor; pois que, como nenhum outro, enriquece a alma com tesouros de vida eterna.

Por que tem tanta eficácia?
Em primeiro lugar porque, real e verdadeiramente, contém o próprio Jesus Cristo, princípio e autor da graça; além disso, porque é o sacramento da sua paixão, cujos méritos vai distribuindo e aplicando a gerações sucessivas, visto que nele se nos dá em alimento o mesmo corpo e, em bebida, o próprio sangue do Redentor; e, finalmente, porque a eficácia dos sacramentos corresponde ao seu simbolismo e este representa a unidade formada por Jesus Cristo e o seu corpo místico, a Igreja (LXXIX, 1)*.

Fundamentados nestas razões, podemos assegurar que a entrada no reino dos céus é efeito especialíssimo deste sacramento?
Sim, Senhor; por ser uma prenda da glória que Cristo com sua morte nos mereceu (LXXIX, 2).

Tem eficácia para perdoar os pecados mortais?
Indubitavelmente que tem, porque contém Jesus Cristo em pessoa; atendendo, porém, a que está em forma de alimento espiritual, e que, para poder alimentar-se, é preciso viver, não pode experimentar os seus efeitos reparadores o que está morto pelo pecado. Sem embargo disso, quando alguém o recebe, crendo-se de boa fé na graça de Deus, ainda que assim não seja, a boa fé o salva e o sacramento lavará as culpas não perdoadas (LXXIX, 3).

Perdoam-se com este sacramento os pecados veniais?
Sim, Senhor; porque a graça que infunde é uma graça destinada a reparar as perdas e desperdícios da vida cotidiana, e a vigorar e dar fervor que compense a falta do ato de caridade que o pecado venial implica sempre (LXXIX, 4).

Perdoa-se na Eucaristia toda a pena devida pelos pecados?
Na qualidade de alimento espiritual, não tem por objeto remitir [perdoar] penas, mas reparar forças e estreitar os laços que unem cada membro da Igreja com os demais e com Jesus Cristo, sua cabeça; mas, por concomitância, remite-as, não na sua totalidade, mas na proporção com o fervor e devoção com que nos acercamos dele. Pelo contrário, considerado como sacrifício, em que se oferece a Deus a vítima do Calvário, é sacramento satisfatório, se bem que em seu poder de satisfação influi mais a devoção dos oferentes que o valor do sacrifício e, portanto, ainda que, como sacrifício, tem valor infinito, não remite toda a pena mas somente a parte correspondente ao fervor e devoção do sacerdote oferente e daqueles por quem se aplica (LXXIX, 5).

Preserva, além disso, de cometer novos pecados?
Sim, Senhor; e este é o efeito mais imediato e admirável porque, como sacramento de nutrição, tonifica e revigora o organismo espiritual para a luta contra os agentes que alteram ou minam a vida cristã e, como recordação da paixão do Redentor, põe em fuga os demônios vencidos por Cristo na Cruz (LXXIX, 7).

Pode a eficácia deste sacramento aproveitar a quem o não recebe?
Como alimento da alma, não Senhor; pois a comida só aproveita a quem a toma; porém, como sacrifício, pode e, em realidade, estende a sua ação a todos aqueles por quem se oferece se, unidos a Cristo e aos demais membros da Igreja pela fé e pela caridade, estão em disposição de aproveitar-se dos seus frutos (LXXIX, 7).

São compatíveis os frutos da Eucaristia com os pecados veniais?
Se se cometem no ato de receber o sacramento, por exemplo, no caso de chegar-se a comungar distraído ou dissipado ou com o espírito em pensamentos ou afetos impertinentes, priva necessariamente do gosto ou doçura, suavidade e deleite que produz aquele manjar divino, ainda que não prive do aumento da graça habitual; porém, se se trata de pecados veniais anteriormente cometidos, em nada estorvam o fruto do sacramento, contanto que se receba com o devido fervor (XXIX, 1).

XXXIV

DA RECEPÇÃO DA EUCARISTIA

De quantos modos se pode receber o sacramento da Eucaristia?
De dois: espiritual ou sacramentalmente (LXXX, 1).

Em que se diferenciam?
Em que, na recepção exclusivamente sacramental, os frutos e o proveito da comunhão não a acompanham e, na espiritual, sim — ou parcialmente, quando só se recebe com o desejo e a esta chamamos comunhão espiritual, ou plena e totalmente, quando a recepção efetiva do sacramento acompanha o desejo (Ibid).

É o homem o único habitante da terra que pode receber a Eucaristia?
Sim, Senhor; por ser o único que pode crer em Jesus Cristo e desejar recebê-lo conforme está no sacramento (LXXX, 2).

Comete falta grave o que recebe com consciência de pecado mortal?
Comete um sacrilégio porque, ao receber um sacramento que contém o próprio Filho de Deus feito homem e simboliza a unidade vital que forma com o seu corpo místico, despossuído e privado da única coisa que pode incorporá-lo e unificá-lo com Cristo, viola e atenta contra a própria natureza do sacramento, falseando o seu simbolismo e significação (LXXX, 4).

Logo, este é um pecado gravíssimo?
Sim, Senhor; porque com ele se injuria e escarnece a humanidade de Cristo no sacramento do seu amor (LXXX, 5).

É tão grave como a profanação do sacramento?
Não, Senhor; porque este pecado supõe intenção formal de injuriar a Cristo e isto aumenta a sua gravidade (LXXX, 11).

Que disposições se requerem para receber dignamente a Eucaristia?
Ter uso de razão, achar-se em estado de graça e ter veemente anelo de receber os seus frutos (LXXX, 9, 10).

Pode alguém considerar-se desobrigado de recebê-la?
Fora do caso de impossibilidade, não, Senhor; porque ninguém pode salvar-se se não tem a graça especial que ela confere, graça que ninguém pode possuir se, ao menos, não tem desejo de receber sacramentalmente a Eucaristia quando possa (LXXX, 11).

Há dias assinalados pela Igreja em que os cristãos têm obrigação de recebê-la?
Sim, Senhor; tem-na todos, depois de convenientemente instruídos, quando cheguem ao uso da razão, uma vez no ano durante o tempo pascal e, em forma de viático, sempre que se achem em perigo de morte (Código Canônico, cânons 354, 859 e 864).

[O Cânon 920 do atual Código Canônico (1883) prescreve que todo fiel, depois que recebeu a sagrada Eucaristia pela primeira vez, tem a obrigação de receber a sagrada comunhão ao menos uma vez por ano (§1) e que esse preceito deve ser cumprido no período pascal, a não ser que, por justa causa, sejam confortados com a sagrada comunhão como viático (§2)].

É permitido recebê-la com mais frequência e até mesmo diariamente?
Sim, Senhor; e, além de permitido, é muito recomendável e proveitoso, se se levam as devidas disposições. (LXXX, 10).

Há obrigação de recebê-la sob as duas espécies?
Somente está obrigado o sacerdote celebrante. Quanto aos fiéis, devem conformar-se e obedecer ao disposto pela Igreja; e, de fato, na Igreja latina, somente sob a espécie de pão se administra (LXXX, 12).

Qual é habitualmente o tempo mais a propósito para recebê-la?
Durante a celebração da missa, depois de o sacerdote consumir, por ser o momento da consumação da imolação sacramental de Jesus Cristo, em cujo sacrifício intervém e participam quantos se chegam para recebê-lo.

Que disposições se requerem por parte do corpo?
Estar em jejum desde a meia noite (Ibid).

[O Cânon 919 (§1) do atual Código Canônico (1983) prescreve que quem vai receber a sagrada Eucaristia deve abster-se de qualquer comida ou bebida, excetuando-se somente água e remédio, no espaço de ao menos uma hora antes da sagrada Comunhão (com exceção para pessoas idosas e enfermas e para quem cuida delas (§3)].

Logo, nunca pode receber-se sem este requisito?
Exceto quando, em perigo de morte, se toma em forma de viático, não, Senhor. Sem embargo disso, a Igreja tem concedido aos enfermos que levam um mês de cama, sem esperança fundada de próximo restabelecimento, e com anuência de prudente confessor, o privilégio de receberem a sagrada comunhão uma ou duas vezes por semana, ainda que depois da meia-noite tenham tomado remédio ou alimento líquido (Código Canônico, cânon 858).

[O Cânon 921 (§1) do atual Código Canônico (1983) prescreve que, no caso de fieis em perigo de morte, proveniente de qualquer causa, sejam confortados com a sagrada comunhão como viático: mesmo que já tenham comungado nesse dia, recomenda-se vivamente que comunguem de novo aqueles que vierem a ficar em perigo de morte (§2) e, persistindo o perigo de morte, recomenda-se que seja administrada a eles a sagrada comunhão mais vezes em dias diferentes (§3)].

XXXV

DO MINISTRO DO SACRAMENTO DA EUCARISTIA

Quem pode consagrar o sacramento da Eucaristia?
Somente os sacerdotes validamente ordenados segundo o rito da Igreja Católica (LXXXII, 1).

Quem pode distribuí-la aos fiéis?
Por lei ordinária, os mesmos sacerdotes; e, onde a Igreja permitir a comunhão sob as duas espécies, os diáconos distribuem o precioso sangue contido no Cálice; podem também administrá-la estes últimos em toda a Igreja sob a espécie do pão, em caso de necessidade e com delegação do sacerdote (LXXXII, 3).

Pode qualquer sacerdote, ainda que esteja em pecado mortal, consagrar e administrar o sacramento da Eucaristia?
Validamente e sem diminuir a eficácia do sacramento, sim, Senhor; comete, porém, gravíssimo pecado (LXXXII, 5).

Diminui o valor e eficácia da missa quando a celebra um sacerdote pecador e indigno?
O valor e eficácia da missa, quando é comemoração sacramental do sacrifício do calvário, em nada depende da santidade do celebrante. Porém, como diversas orações acompanham o sacrifício, alcançarão estas tanto maior grau de eficácia, quando maior for a devoção de quem as recite; todavia, ainda que o celebrante não tivesse nenhuma devoção, sempre ficará em pé a eficácia apoiada na devoção da Igreja em cujo nome se proferem (LXXXII, 6).

Podem consagrar os hereges, cismáticos e excomungados?
Licitamente, não Senhor; mas validamente, sim, contanto que estejam ordenados e tenham intenção de fazer o que faz a Igreja Católica (LXXXII, 7).

Pode consagrar validamente um sacerdote degradado?
Sim, Senhor; porque a degradação não pode lavar o caráter indelével do sacramento da Ordem (LXXXII, 8).

É lícito ouvir missa e receber a sagrada comunhão das mãos de um sacerdote herege, cismático, excomungado ou notoriamente pecador e indigno?
Está absolutamente proibido, sob pena de pecado mortal, ouvir missa ou receber a sagrada comunhão das mãos de um sacerdote herege, cismático ou excomungado. Quanto ao indigno, se a sua indignidade é pública e notória por sentença da Igreja, privando-o das faculdades de celebrar, está compreendido na proibição anterior; no caso contrário, não senhor (LXXXII, 9).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

COM NOSSA SENHORA...

Em nossas orações mais belas, louvamos a imensa glória de buscar a Cristo através de um extremado amor à Mãe de Deus. Na Ave Maria, pedimos para que ela interceda por nós em todos os momentos de nossas vidas, e principalmente, ‘na hora da nossa morte’. Então, que tal louvarmos a Mãe de Deus, particularmente neste momento decisivo, suplicando a sua bênção e proteção para que ela nos leve para junto do seu Filho?  


Com Nossa Senhora ... 

Eu sei que Deus vai me chamar um dia 
que pode se perder no tempo ou ser agora 
mas, qualquer que seja esse tempo, 
quero estar pronto quando eu for embora... 
Mas, mais que tudo, ao fechar meus olhos, 
quero fechá-los com Nossa Senhora... 

Na nova Jerusalém 
Deus não será pai de ninguém 
que desde agora já não tem 
Nossa Senhora como Mãe. 

Eu sei que Deus vai me pedir contas um dia 
e eu sei como será tremenda essa hora: 
quero levar comigo só a caridade 
o mais que tiver eu vou deixar lá fora... 
Mas, mais que tudo, ao reabrir meus olhos, 
quero abri-los com Nossa Senhora... 

Na nova Jerusalém 
Deus não será pai de ninguém 
que desde agora já não tem 
Nossa Senhora como Mãe. 

Eu sei que vou estar com Deus um dia 
e a ânsia de viver tal tempo me devora: 
quero brilhar por toda a eternidade 
com luz mais bela que a mais bela aurora... 
Mas, mais que tudo, no Coração de Deus, 
Terei Jesus porque terei Nossa Senhora... 

Na nova Jerusalém 
Deus não será pai de ninguém 
que desde agora já não tem 
Nossa Senhora como Mãe.

(Arcos de Pilares)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O PESO DA ORAÇÃO PERFEITA

Certa senhora muito piedosa e devota pediu a São Domingos que este lhe aconselhasse sobre a sua vida espiritual e pediu-lhe ainda que a ouvisse em confissão. Por penitência, o santo mandou que a mulher rezasse um Rosário completo e aconselhou-a que o rezasse diariamente. Ela disse que rezaria o Rosário dado como penitência, mas não o rezaria outras vezes porque já demandava muito tempo com outras devoções, que incluíam outras tantas penitências e jejuns. São Domingos aconselhou-a novamente e várias outras vezes a seguir seu conselho e rezar o Rosário, mas ela continuava a recusar. Ela sempre saía do confessionário, horrorizada pela tática de seu novo diretor espiritual, que arduamente lhe persuadia a seguir uma devoção que não era do seu agrado. 

Numa certa ocasião, enquanto estava orando concentradamente, caiu em êxtase e viu a sua alma se apresentando diante do Trono do Julgamento de Nosso Senhor. Viu quando São Miguel dispôs todas as suas orações, jejuns e penitências em um dos pratos da balança e todos os seus pecados e imperfeições no outro. E, tolhida pelo espanto, viu que o prato das suas boas obras ficou muito suspenso sem conseguir equilibrar o peso do outro, cheio de seus pecados e imperfeições. 

Clamando por misericórdia, implorou o auxílio da Santíssima Virgem. A Virgem, tomando o único Rosário que ela tinha rezado como penitência de sua confissão, colocou-o no prato das boas obras que, então, pesou enormemente, muito mais que o prato contendo os pecados e imperfeições da vida daquela senhora. Nossa Senhora, então, repreendeu-a por não ter seguido o conselho de seu servo Domingos e por não ter rezado o Rosário diariamente. Voltando a si, a mulher correu ao encontro de São Domingos e, prostrando-se aos seus pés, implorou o perdão ao santo pela sua indiferença e prometeu rezar o Rosário fielmente, a partir de então, todos os dias de sua vida.

(Excertos adaptados da obra 'O Segredo do Rosário', por São Luis Maria Grignion de Montfort)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OFÍCIO PARVO DE NOSSA SENHORA


Jesus nos intimou nos Evangelhos a uma vida de oração constante: 'Orai sem cessar' (1Ts 5,17). Ao longo dos séculos, a Igreja incentivou fielmente os seus filhos a praticarem uma vida de oração como instrumento de salvação pessoal e de nossos irmãos, na forma de súplicas e petições de diferentes naturezas à Divina Providência.

Os chamados Ofícios Divinos são práticas de oração comumente empregadas por religiosos e leigos associados a instituições religiosas específicas. A palavra 'ofício' tem origem no vocábulo opus que, em latim, significa 'obra'. Trata-se de um conjunto de orações cotidianas e diversas, que incluem súplicas, salmos, cânticos e leituras de textos bíblicos,  que devem ser rezadas em sequência própria e em diferentes momentos do dia. Os Ofícios podem incluir também versões mais simplificadas da sequência geral e estas versões mais abreviadas são chamadas de 'breves' ou 'parvas', do latim parvus, que significa 'pequeno'.

O modelo de perfeição de uma vida cristã de oração sempre foi e será Nossa Senhora. Assim, recorrer à Virgem Maria como modelo de oração e nossa intercessora, é certeza absoluta de fazer as nossas súplicas chegarem até o coração de Deus. E, por esta razão, o chamado 'Ofício Parvo de Nossa Senhora'  deveria ser oração frequente de todo cristão, religioso ou leigo, associado ou não a uma determinada ordem religiosa em especial. Grandes frutos obteremos por meio destas orações desde que as façamos com fé, piedade, atenção e confiança, pois estaremos sempre juntos com Jesus Cristo, Nossa Senhora e a Igreja de tantos séculos orando conosco e por nós.

A versão tradicional do 'Ofício Parvo de Nossa Senhora' é aquela que consta do Breviário Romano reformado pelo papa São Pio X, em 1911, com pequenas alterações do texto original proposto pelo papa São Pio V. Na verdade, a sequência completa das orações comporta três diferentes 'Ofícios':

(i) O Primeiro, que deve ser recitado a partir das Matinas do dia 3 de fevereiro até as Vésperas do sábado antes do 1° Domingo do Advento exclusive, com exceção da festa da Anunciação da Santíssima Virgem, na qual se reza o Ofício do Advento;

(ii) O Segundo, a ser recitado desde as Vésperas do sábado anterior ao 1° Domingo do Advento até as Vésperas do Natal, exclusivamente, e nas Vésperas da festa da Anunciação de Nossa Senhora;

(iii) O Terceiro, que se reza desde as Vésperas da Vigília do Natal até as Completas do dia 2 de fevereiro inclusive.

Em conformidade às palavras do Salmista: 'Cantei vossos louvores sete vezes ao dia' (Sl 118, 164), a Igreja dos primeiros séculos distribuiu as orações públicas em sete horas, que foram denominadas: Matinas e Laudes, que se recitavam à meia noite; Prima, após o levantar do sol; Terça, às nove horas da manhã; Sexta, ao meio dia; Noa, às três horas da tarde; Vésperas, às seis horas da tarde e Completas às 9 horas da noite, que se referem aos mais relevantes mistérios da vida de nosso Senhor Jesus Cristo. 

O Ofício das Matinas nos lembra o nascimento do Salvador e sua vida dolorosa no Getsêmani, sua oração e agonia. Com as Laudes, celebramos a ressurreição e a assunção de Maria, que, segundo piedosa crença, se teria operado durante a aurora. As orações da Prima nos lembram os ultrajes e os sofrimentos, padecidos por Jesus Cristo antes da Paixão. Com a Terça, lembramo-nos da flagelação, da coroação de espinhos e da sua condenação à morte. À Sexta, dedicamos à crucifixão de Jesus Cristo e às palavras pronunciadas por ele na santa cruz, dando-nos Maria por Mãe. Com a Noa, consideramos Jesus morrendo na cruz e a Igreja nascendo do lado aberto de seu divino peito. Com as Vésperas, a Igreja propôs honrar a descida da cruz, o corpo de Jesus Cristo colocado nos braços de sua santa Mãe e a instituição do adorável sacramento da Eucaristia. Completas vêm, como o nome indica, formar o complemento, a conclusão de todo o Ofício, e assim aqui se honra a sepultura de Jesus Cristo e a sua permanência no túmulo. 

A estruturação do 'Ofício Parvo de Nossa Senhora'*, na sua versão tradicional (rubrica de Pio XII), é composta basicamente pelas seguintes partes: Oração Inicial: Aperi Domine - 'Abri, Senhor' (antes da recitação do Ofício do Dia); Oração Final: Sacrosanctxe et individuae Trinitati - 'À santíssima e indivisível Trindade' (após a recitação do Ofício do Dia) e a sequência das orações do Ofício das Horas, subdivididas em:

Matinas:

Ave Maria (em voz submissa)
Responsório (com dois Versículos e Respostas), Glória ao Pai e Aleluia (ou Louvado sejais, rei da Eterna Glória);
Invitatório;
Salmo 94;
Hino;
Primeiro, Segundo ou Terceiro Noturno (de acordo com o dia da semana), composto por três salmos e suas respectivas antífonas;
Versículo e Resposta
Pai Nosso (em voz submissa);
Absolvição;
Lições I, II e III, cada uma precedida pela Benção e seguida pelo Responsório, com Versículo e Resposta. (O Te Deum pode seguir a terceira Lição, substituindo o Responsório; ele também pode seguir a segunda Lição, mas se diz após o Responsório dessa e, nesse caso, a ele acrescenta-se Responsório e Benção).
Hino de Santo Ambrósio e Santo Agostinho

Laudes:

Ave Maria (omitida quando as Laudes são rezadas imediatamente após as Matinas, conforme o preceito usual);
Responsório (com dois Versículos e Respostas), Glória ao Pai e Aleluia (ou Louvado sejais, rei da Eterna Glória);
Três salmos (com suas respectivas antífonas);
Cântico dos Três Mancebos (com antífona);
Salmo 148 (com antífona);
Capítula;
Hino (com Versículo e Resposta);
Cântico de Zacarias (com antífona);
Kyrie, (com Versículo e Resposta);
Oração, seguida pelos versículos conclusivos e suas respostas (entre a Oração e os versículos conclusivos, pode-se fazer a Comemoração dos Santos).

Prima, Terça, Sexta e Noa:

Ave Maria (em voz submissa)
Versículo e Resposta, Glória ao Pai (ou Louvado sejais, rei da Eterna Glória);
Hino;
Três salmos (com antífona);
Capítula (com Versículo e Resposta);
Kyrie (com Versículo e Resposta);
Oração, seguida por três versículos e três respostas.

Vésperas:

Ave Maria (em voz submissa)
Versículo e Resposta, Glória ao Pai (ou Louvado sejais, rei da Eterna Glória);
Cinco salmos (com antífonas);
Capítula
Hino (com Versículo e Resposta);
Magnificat (com antífona);
Kyrie (com Versículo e Resposta);
Oração, seguida pelos versículos conclusivos e respostas (entre a Oração e os versículos conclusivos, pode-se fazer a Comemoração dos Santos).

Completas:

Ave Maria (em voz submissa)
Convertei-nos, ó Deus... e resposta, Versículo e Resposta, Glória ao Pai (ou Louvado sejais, rei da Eterna Glória);
Três salmos (sem antífonas);
Hino;
Capítula (com Versículo e Resposta);
Cântico de Simeão (com antífona);
Kyrie (com Versículo e Resposta);
Oração (com dois versículos e duas respostas)
Bênção;
Antífonas finais da Santíssima Virgem (de acordo com o tempo litúrgico);
Pai Nosso, Ave Maria e Credo (em voz submissa).

Mas, lembre-se: não sendo possível rezar o 'Ofício'** como um todo, reze-o em parte, reze-o no que for possível. A graça de Deus tem por primeira medida a devoção e a reta intenção. A recitação fervorosa e perseverante do 'Ofício Parvo de Nossa Senhora' é objeto de muitas graças e bênçãos, incluindo a prescrição de diversas indulgências parciais e de indulgência plenária uma vez por mês. Especial indulgência, na forma do chamado Privilégio Sabatino, é concedido aos fieis que rezam o 'Ofício' e portam continuamente o escapulário marrom de Nossa Senhora do Carmo.

* observe que, nesta versão do rito tradicional, o 'Ofício' começa com as orações de Vésperas, ou seja, das seis horas da tarde;
** versão não exatamente tradicional e por dia da semana.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A BÍBLIA EXPLICADA (XX) - COMO ALIMENTAR OS FAMINTOS?

Seguindo o exemplo de Jesus, conforme descrito no milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 14-21):

'Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão [1] para ela e curou seus doentes. Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia. Jesus, porém, respondeu: Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer. Mas, disseram eles, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes. Trazei-os, disse-lhes Ele. Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu [2], abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos [3], que os distribuíram ao povo [4] Todos comeram e ficaram fartos [5], e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios [6]. Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças'.

Ou seja: 

[1] Fazer essa obra com um sincero afeto de compaixão, não só natural, mas sobrenatural, olhando a Cristo na pessoa do necessitado.

[2] Antes de alimentar o necessitado, levantar os olhos ao céu e consagrar a Deus a obra de misericórdia que se vai fazer; por uma puríssima intenção, buscar somente ou principalmente a sua glória divina.

[3]  Dar o alimento assim que se conheça a necessidade, sem aguardar que o peçam para, desse modo, evitar ao pobre esse incômodo [de pedir].

[4] Dar indiferentemente a todos, segundo sua necessidade e sem parcialidade, a não ser em caso de necessidade, ou quando o exija a ordem da caridade.

[5] Dar com prudência, oferecendo ao pobre tal espécie de comida que sirva para satisfazer a sua necessidade e não para despertar a sua gula. O Senhor deu aos pobres pães e peixes, não perdizes e faisões.

[6] Dando com abundância, como fez Jesus. Depois de haver saciado o apetite daquelas pessoas, ainda sobraram doze cestos de pedaços de pão.

(Excertos da obra 'El Corazón de Jesús retratado em sus parábolas', de Ojea y Marquez, 1907)

FOTO DA SEMANA

'Duas mulheres estarão moendo no mesmo moinho: uma será tomada e a outra será deixada' (Mt 24, 41)

domingo, 9 de fevereiro de 2020

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS


'Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá' (Is 58, 7-8)

sábado, 8 de fevereiro de 2020

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'É uma ilusão supor que a guerra é sempre um erro e que o mundo se poderá ver livre dela. Isto é falso. A guerra deve existir sempre; mas não a guerra exterior: a interna. Quando travamos guerra, contra o mal em nós, diminuem ao mesmo tempo as guerras exteriores. A razão porque vivemos num século de guerras exteriores é a de nos descurarmos no travar da batalha interior contra as forças que destroem a mente e a alma. Aquele que não descobrir o inimigo dentro de si, encontrá-lo-á, sem dúvida alguma, fora. O que se passar na mente, passar-se-á em seguida no mundo. Se a mente estiver no erro, então o mundo será uma loucura'.

(Mons. Fulton Sheen)

08 DE FEVEREIRO - SANTA JOSEFINA BAKHITA


A primeira santa africana nasceu numa aldeia próxima a Dardur, no Sudão, por volta de 1869 – ela mesma não sabia a data precisa. Raptada por traficantes de escravos aos nove anos de idade, foi trancada inicialmente em um quarto escuro e miserável, depois espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão, padecendo todo tipo de humilhação e selvageria nas mãos dos seus senhores. Este martírio atroz desde tenra idade roubou-lhe o próprio nome; o nome Bakhita - 'afortunada' em árabe -  foi-lhe dado pelos próprios traficantes.

Mas o pior dos tormentos ainda estava por vir. Comprada por um general turco, foi submetida a sofrimentos inimagináveis a serviço da mãe e da esposa deste homem, que incluíram dezenas de tatuagens no seu corpo abertas por navalha e que lhe legaram 144 cicatrizes e um leve defeito ao caminhar. A descrição destes tormentos foi assim exposta nas palavras da santa:

'Uma mulher habilidosa nesta arte cruel [tatuagem] veio à casa principal... nossa patroa colocou-se atrás de nós, com o chicote nas mãos. A mulher trazia uma vasilha com farinha branca, uma vasilha com sal e uma navalha. Quando terminou de desenhar com a farinha, a mulher pegou da navalha e começou a fazer cortes seguindo o padrão desenhado. O sal foi aplicado em cada ferida... Meu rosto foi poupado, mas 6 desenhos foram feitos em meus seios, e mais 60 em minha barriga e braços. Pensei que fosse morrer, principalmente quando o sal era aplicado nas feridas... foi por milagre de Deus que não morri. Ele havia me destinado para coisas melhores'.

Em 1882, com o retorno do general à Turquia, Bakhita foi comprada pelo cônsul italiano Calixto Legnani que a tratou como serviçal e não como escrava, sem humilhações e castigos. Diante de uma revolução nacionalista no Sudão, o cônsul retornou à itália levando Bakhita consigo, que foi cedida então a amigos do cônsul, o casal Michieli, em cuja casa começou a morar na região do Veneto, tendo por encargo especial os cuidados da filha do casal, a pequena Mimina. Foi nesta família católica que Bakhita conheceu a revelação de Jesus Cristo, sua flagelação e sua morte de cruz. O caminho de Bakhita estava traçado: da conversão à santidade pela via da caridade e do perdão. 

Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada e crismada com o nome de Josefina e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. Pouco depois, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa. Em 8 de dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos finais de religiosa da congregação. A partir de então, por mais de 50 anos, sua vida foi um ato constante de amor a Deus e à caridade para com todos. Além de operosa nos serviços simples como na sacristia e na portaria do convento, realizou várias viagens através da Itália para difundir a sua missão: a libertação dada a ela pelo encontro com Cristo deveria ser compartilhada com o maior número possível de pessoas; a redenção que experimentara não podia ser guardada como posse, mas levada como sinal de esperança para todos.


Em 8 de fevereiro de 1947, após muito sofrimento de doenças como bronquites e pneumonias, a Irmã Josefina faleceu no convento canossiano de Schio, com a idade de 78 anos. Na hora da sua morte, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria suas últimas palavras 'Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora!' A Irmã Moretta - a Irmã Morena - como era carinhosamente conhecida entregava serenamente a sua alma ao Senhor, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Seu corpo foi enterrado originalmente na capela de uma família de Schio, para um sepultamento definitivo posterior no Templo da Sagrada Família. Quando isso foi finalmente preparado, verificou-se que o corpo de Bakhita estava incorrupto, sendo o mesmo sepultado então sob o altar da igreja do mesmo convento. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e, em 1º de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares e declarada santa pelo Papa João Paulo II.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

SERMÃO SOBRE O AMOR (III)

PARTE III/Final

E há um terceiro, meus irmãos, há um ilustre terceiro amor nas Escrituras, que devemos associar a estes dois Grandes Apóstolos quando falamos dos santos da penitência e do amor. Quem é este amor senão o de Maria Madalena, a cheia de amor? Quem é o exemplo mais perfeito do que busco mostrar-vos, senão 'a mulher que era pecadora', que lavou os pés do Senhor com as suas lágrimas, os enxugou com os seus cabelos e os ungiu de perfumes preciosos? 

E que circunstância para um tal ato de amor? Ela que havia chegado, trazida por um propósito exclusivamente profano, realiza um ato de tão perfeito arrependimento. Era um banquete como tantos outros, dado por um rico fariseu, para homenagear, e, contudo, para experimentar o Senhor. Madalena chegou, linda e jovem, 'alegre da sua juventude', 'caminhando nas vias do seu coração e no deleite dos seus olhos', chegou como um adorno para aquela festa, como era hábito as mulheres fazerem naquele tempo, para ungir com seus perfumes inebriantes e frescos a fronte dos cabelos dos convidados. E o orgulhoso fariseu suportava a sua presença, desde que soubesse guardar as distâncias; que viesse, sim, como podemos deixar que qualquer animal da casa entre nos nossos quartos, sem lhe darmos atenção; suportava-a como simples decoração necessária ao banquete, mas como se ela não tivesse uma alma ou fosse sem préstimo e destinada à perdição. 

Ele e os seus irmãos, no seu orgulho, seriam talvez capazes de galgar terras e mares para fazer um prosélito, mas quanto a escutar o seu coração, a condoer-se do seu pecado, a consolá-lo, isso não entrava no âmbito dos seus pensamentos. Não, o que lhe interessava realmente eram as necessidades do seu banquete e, por isso, a deixou entrar, cumprir a sua tarefa, indiferente ao que era a sua vida, desde que devidamente a cumprisse e a isso se limitasse. Porém, eis que aos olhos de Madalena surge uma súbita e maravilhosa visão! Teria sido uma inspiração do momento ou uma decisão amadurecida? 

Eis que aquela pobre filha do pecado, ataviada de cores garridas, aproxima-se para coroar com um perfume suave a cabeça dAquele a quem a festa era dedicada; porém, a sua mão se deteve. Ela olha e reconhece o Ancião dos Dias, o Senhor da Vida e da morte, o seu Juiz; e volta a olhar e vê na sua face e na sua expressão uma beleza e uma doçura terrível, serena e grandiosa, incomparável com a dos filhos dos homens que sombreavam o esplendor da sala do banquete. Olha uma vez ainda, tímida e sedenta, e no seu olhar presente, e no seu sorriso, descobre uma bondade feita de amor, de ternura, de compaixão e de misericórdia. Olha para si mesma e sente-se vazia e hedionda, como vazios e hediondos eram agora os seus atrativos; a sua graciosidade e frescura, mesmo a sua beleza louvada de boca em boca pelos seus admiradores, parecem subitamente murchas e ressequidas; o seu hálito, que até então julgara perfumado e cujo sabor era conhecido daqueles sete espíritos que nela haviam morado, tornou-se repugnante! 

Ali se detivera, ali se sumira, cheia de confusão, e no seu desespero, se não tivesse lançado um olhar ainda para aquele rosto, expressão absoluta de perdão e de amor. O Senhor a olha; é o Pastor que olha a ovelha perdida; e a ovelha perdida se rende, e agacha-se e se aconchega aos pés do seu Pastor. Ele nada diz, porém a olha; e ela aproxima-se mais. E os anjos se regozijam porque ela se aproxima, cega para tudo o que não seja o seu Senhor, esquecendo o desprezo dos orgulhosos e o riso maldoso dos convivas. Ela vem saber se será salva, se será recebida ou o que dela será; sabendo só que Ele é a fonte do bem e da verdade e da misericórdia; e para quem havia de ir senão para Aquele que tem as palavras da vida eterna? 

'Israel, Israel, a ti mesmo te destruíste; em mim, porém, está a salvação, volta para mim que não te voltarei o meu rosto; porque sou santo e a minha cólera não permanecerá para sempre'. 'Eis que para ti vamos, porque tu és o Senhor nosso Deus. Verdadeiramente falsas são as colinas e a multidão das montanhas; verdadeiramente o Senhor nosso Deus é a salvação de Israel'. Extraordinário encontro entre o que era mais vil e o que havia de mais puro! Aquelas mãos lascivas, aqueles lábios poluídos, tocaram e beijaram os pés do Eterno. E Ele não evitou a humilde homenagem. E quando, debruçada sobre eles, umedecendo-os com os seus olhos abundantes de lágrimas, o seu amor simples refrescou, cresceu abundante nela, acendendo uma chama que nunca mais havia de declinar desde aquele momento e para sempre! E que escândalo quando o Senhor manifestou diante de todos os homens o seu perdão e a causa do perdão! 'Muitos pecados lhe são perdoados pelo muito que amou, mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco se ama'. Depois disse-lhe: 'os teus pecados te são perdoados; a tua fé te salvou, vai em paz'.

Desde aquele momento, meus irmãos, o amor tornou-se para ela, como para Santo Agostinho, e mais tarde para Santo Inácio (grandes penitentes de sua época), como uma fenda na alma, uma ferida aberta ao amor, que o amor rasga numa doçura quase dolorosa. Ela não podia viver longe da presença dAquele em que pusera a sua alegria; e o seu espírito era saudoso dEle, quando não o via; e seguia-o em silêncio, humilde e ansiosa quando estava na sua bendita Presença. Vemo-la noutra ocasião, sentada aos seus pés, ouvindo as suas palavras; e Ele testemunhou-lhe que ela havia escolhido a melhor parte que não lhe seria tirada. E, depois da sua ressurreição, foi ela que, pela sua perseverança, mereceu vê-lo antes ainda dos Apóstolos. 

Não abandonou o sepulcro, quando Pedro e João se retiraram; mas ali ficou chorando e, quando o Senhor lhe apareceu e ela o olhou sem o reconhecer, perguntou muito triste àquele que ela supunha ser o jardineiro: 'se o levaste, dizei-me para onde, e eu irei buscá-lo'. E quando, por fim, o Senhor se deu a conhecer, ela voltou-se e correu a lançar-se-lhe aos pés, como no princípio; porém, como que para experimentar a obediência do seu amor, Ele a deteve, dizendo: 'Não me toques porque ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que eu subo para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus'. E assim ficou só, suspirando pelo tempo em que voltaria a vê-lo e a ouvir a sua voz e a alegrar-se no seu sorriso e ser deixada servi-lo para sempre.

Esta é, pois, a segunda grande classe dos santos, em contraste com a primeira. O amor é a vida de ambas; porém, enquanto o amor do inocente é calmo e sereno, o amor do penitente é ardente e impetuoso, geralmente comprometido no combate com o mundo ativo nas boas obras. E este é o amor que vós, meus irmãos, deveis possuir segundo a vossa medida, se quiserdes ter uma sólida esperança de salvação. Porque fostes pecadores; quer por um desprezo ativo e voluntário, quer por uma secreta transgressão, quer por indiferença, quer por qualquer mau hábito permitido, quer por terdes posto o vosso coração em qualquer objeto deste mundo, e terdes feito a vossa vontade em vez da Vontade de Deus. 

Penso, posso dizê-lo, que precisastes ou precisais de vos reconciliar com Ele. Tivestes ou tendes necessidade de ser levados até junto dEle, e lavardes no seu Sangue os vossos pecados e deles receberdes o perdão. Que significa para vós isso senão que vos é mister arrepender-vos? E o que é o arrependimento sem o amor? Não digo que haveis de sentir o mesmo amor que os santos possuíram para que sejais perdoados, o amor de São Pedro ou de Santa Maria Madalena mas, mesmo assim, sem a vossa parte nessa graça sobrenatural, a vossa condição será bem precária e insegura. 

As vossas obras de penitência devem proceder de uma chama viva de caridade. Se fordes perseverantes até o fim, sê-lo-eis em virtude de uma contínua oração de amor, de fé e de obediência. Àquele que é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. Se tiverdes uma boa esperança de que Ele vos aceitará no fim dos vossos dias, é ainda e só o amor que apaga o pecado. Meus irmãos, nessa hora terrível talvez não possais obter os últimos sacramentos; a morte pode vir de repente quando estiverdes longe de um sacerdote. Podeis ser abandonados a vós próprios, à vossa própria compunção, ao vosso arrependimento; à vossa decisão de vos emendardes. Podeis ter estado semanas e semanas longe de qualquer auxílio espiritual; podereis ter que ir ao encontro do vosso Deus sem a salvaguarda, o consolo, a mediação de qualquer rito sagrado; e nesse caso, o que vos poderá salvar senão a presença da 'caridade divina derramada no coração pelo Espírito Santo que nos foi dado'? 

Nesse momento, nada que não seja sólido hábito de caridade que nos preservou de pecado mortal, ou um poderoso ato de caridade capaz de o apagar, nos aproveitará de alguma coisa. Nada a não ser a caridade vos pode permitir uma vida feliz e uma morte feliz. Como podeis suportar o sono da noite, como podeis suportar partir para qualquer viagem, como podeis suportar a presença da peste ou o ataque de qualquer indisposição por mais ligeira, ou a doença, se precavidos não estiverdes com o amor, o único capaz de defender-vos no momento da terrível mudança, que sobre vós sobrevirá algum dia, embora como ou quando não saibais.

Ah! Como vos apresentareis diante do trono de Cristo, com os sentimentos imperfeitos e confusos que agora vos contentam, com uma certa fé, uma confiança relativa e temor hesitante dos Juízos de Deus, mas sem a autêntica substância da alegria, sem um comprazimento real na sua vontade, nos seus atributos, nos seus mandamentos, no seu serviço, que os santos possuíam com tal plenitude; e só eles podem conferir à alma o título seguro dos méritos da sua Paixão e Morte.

Quão diferente é o sentimento com que a alma transbordante de amor, uma vez separada do corpo, corre ao encontro de Cristo! Ela sabe quão tamanha é a dívida de castigo que impende sobre ela, embora há muitos anos se haja reconciliado com o seu Senhor, e espera o purgatório, sabe que não pode senão esperá-lo como a dor contígua à alegria eterna. Mas ver a sua face mesmo por um momento! Ouvir a sua voz, ouvi-lo falar, mesmo que venha depois o esperado castigo! Ó Salvador dos homens, venho a ti, mesmo que logo seja expulso da tua presença; venho a ti que és a minha vida e tudo quanto tenho, venho a ti que és a imagem viva que encheu o tempo da minha vida. 

A ti me dei quando, pela primeira vez, tive que tomar parte no mundo; desde muito cedo te procurei, desde cedo me ensinaste que o bem fora de ti não era bem. Quem tenho eu no céu senão Tu? Quem desejei na terra, quem tive no mundo além de ti? Quem estará comigo no meio da angústia e da saudade de não ver-te? Sim, embora desça agora à terra deserta, crestada e sedente, 'não temerei qualquer mal porque Tu estás comigo'. Hoje te vi face a face e isso me basta; vi-te Senhor e esse olhar para ti é suficiente para um século de sofrimento na terra inferior. Será meu alimento ter-te olhado conquanto não te veja agora, até que volte a ver-te, para nunca mais me separar de ti. 

Ter-te olhado será o sol límpido e o conforto da minha alma lânguida e cansada; a tua voz é a música eterna nos meus ouvidos. Nada me pode fazer mal, nada me pode perturbar; sofrerei os anos marcados, até que o meu fim chegue, com coragem e mansidão. Levantarei o meu canto num confiteor, Senhor, a ti e aos teus santos, naquele vale de inquietas sombras; a Deus onipotente e à Bem-Aventurada sempre Virgem Maria, tua Mãe e minha, concebida sem pecado, e ao Bem-Aventurado Miguel Arcanjo, criado na sua pureza pela Mãe de Deus, e ao Bem-Aventurado João Batista, santificado desde o ventre de sua mãe.

E, depois destes três, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo, penitentes, que eram compassivos para com os pecadores segundo a sua própria experiência do pecado; a todos os santos quer tenham vivido em contemplação ou em árduos trabalhos, durante os dias da sua peregrinação, dirigirei as minhas súplicas, rogando-lhes que 'se lembrem de mim e que por mim roguem e de mim façam menção junto do Rei, para que Ele me liberte deste cativeiro'. E por fim, 'Deus enxugará cada lágrima dos meus olhos, e não haverá mais morte, nem mais luto, nem choro, nem dor nunca mais, por que as coisas antigas já passaram'.

(Excertos da obra 'Purity and Love', do Cardeal Newman)