sábado, 9 de novembro de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XLI)

XIII

DA FILIAÇÃO DIVINA E DA PREDESTINAÇÃO DE CRISTO

Que quereis dizer quando falais da adoção divina?
Que Deus, por um ato de infinita bondade, se dignou admitir as criaturas racionais na participação dos seus próprios bens, isto é, na glória da bem-aventurança eterna pois, não podendo ser os anjos nem os homens filhos por natureza (já que isto só pertence ao Verbo), enobreceu-os com o titulo e direitos de filhos adotivos (XXIV, 1)*.

O Verbo Encarnado é, enquanto homem, filho adotivo de Deus?
Não, Senhor; porque a filiação é propriedade pessoal e, portanto, onde existe filiação natural, não há lugar para a adotiva que é similitudinária (XXIII, 4).

Jesus Cristo foi predestinado?
Sim, Senhor; porque a predestinação é um decreto eterno em que Deus determina o que Ele próprio há de executar, com o correr do tempo, na esfera e vida da graça; o fato de um ser humano ter sido pessoa divina e Deus ter sido homem é um fato por Deus realizado no tempo e constitui o florão e remate da ordem da graça; logo, com maior razão que nenhuma outra criatura, foi predestinado o Filho de Deus feito homem (XXIV, 1).

A predestinação de Jesus Cristo é modelo e causa da nossa?
Sim, Senhor; porque o decreto de nossa predestinação é que sejamos, por adoção, o que o Verbo Encarnado é por natureza, e que Jesus Cristo seja o autor da nossa glorificação, já que por seus merecimentos havemos de alcançar a bem-aventurança eterna (XXIV, 3,4).

XIV

CONSEQUÊNCIAS DA ENCARNAÇÃO DO FILHO DE DEUS EM RELAÇÃO CONOSCO — COMO DEVEMOS ADORÁ-LO ; COMO É MEDIADOR ENTRE DEUS E OS HOMENS

Que se segue do fato da Encarnação em relação a nós?
Que temos a obrigação de adorar ao Filho de Deus feito homem e de reconhecer que é nosso mediador (XXV - XXVI).

Que quereis exprimir quando dizeis que temos obrigação de adorar ao Verbo Encarnado?
Que estamos obrigados a tributar à pessoa do Verbo o culto próprio de Deus, que é o de latria, onde quer que esteja e qualquer que seja a forma, divina ou humana, em que se apresente; posto que, se em Jesus Cristo atendêssemos exclusivamente a natureza humana, só poderíamos tributar-lhe o culto de dulia (XXV, 1,2).

É esta a razão por que tributamos culto de latria ao Sagrado Coração de Jesus?
Sim, Senhor; porque o Coração de Jesus faz parte de sua adorável pessoa. Entre os elementos integrantes da pessoa de Cristo, nenhum há tão apropriado como o coração para ser objeto de um culto especial, porque simboliza a obra do amor infinito levada ao extremo, em nosso obséquio, pelo Verbo feito homem, no mistério da Encarnação e Redenção; portanto, o culto tributado ao Sagrado Coração de Jesus é culto tributado a Jesus Cristo na qualidade de amante do homem.

Devemos adorar com culto de latria as imagens de Jesus Cristo?
Sim, Senhor; porque o culto que se rende a uma imagem, formalmente como imagem, e não como coisa, se identifica com o que se tributa ao que por ela é representado (XXV, 5).

Deve adorar-se a Cruz de Jesus Cristo com o culto de latria?
Sim, Senhor; porque é imagem de Cristo que nela morreu por nós, e, tratando-se da Cruz em que foi crucificado, merece ademais o dito culto por haver estado em contato imediato com o divino Salvador e ter-se umedecido com o seu precioso sangue (XXV, 4).

Podemos render culto de latria à Santíssima Virgem, Mãe de Deus?
Não, Senhor; porque não a honramos somente por ser mãe de Cristo, mas pelo que ela é em si mesma e, sendo pura criatura, não podemos tributar-lhe o culto próprio e exclusivo de Deus. Não obstante isto, suposto que o motivo de prestar culto de dulia às criaturas é o seu degrau para a união com Deus, já que não existe nenhuma tão intimamente unida com ele, lhe tributaremos um culto especial, conhecido com o nome de hiperdulia (XXV, 5).

Estamos obrigados, em atenção a Jesus Cristo, a prestar culto às relíquias dos santos e especialmente aos seus corpos?
Sim, Senhor; porque os santos foram e são membros de Cristo, amigos de Deus e nossos intercessores; logo, tornaram-se credores de que tenhamos em grau de estima quanto lhes pertenceu, e em especial os seus corpos que foram templos do Espírito Santo e estão destinados a ser a imagem do corpo glorioso de Cristo, quando chegar a hora da ressurreição (XXV, C).

Que entendeis quando afirmais que Cristo é mediador entre Deus e os homens?
Que, atenta à sua natureza humana, ocupar um lugar intermédio entre Deus, de quem se distingue pela referida natureza e os homens, de quem o separa a excelência da sua dignidade e os dons da graça e glória que possui; se ocupa este lugar intermédio, segue-se que lhe corresponde, por direito próprio, o comunicar aos homens os mandatos e distribuir os favores divinos; e comparecer diante de Deus, como representante dos homens, para rogar e satisfazer por eles (XXVI, 1, 2).

XV

DA MANEIRA COMO SE DESENROLOU O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

De que maneira e com que ordem e sucessão se realizou o adorável mistério que acabamos de explicar?
Para responder a esta pergunta dividiremos a matéria em quatro partes: consideraremos em primeiro lugar a entrada de Jesus Cristo neste mundo; em segundo lugar, a sua vida mortal; em terceiro, o modo como a abandonou, e, por último, a sua exaltação e glorificação (XXVII, Prólogo).

DA VINDA DE JESUS CRISTO A ESTE MUNDO — SEU NASCIMENTO

De que modo veio a este mundo o filho de Deus Encarnado?
Sendo concebido por obra sobrenatural do Espírito Santo e nascendo da Santíssima Virgem Maria.

A Santíssima Virgem, a quem o Filho de Deus havia escolhido para sua futura Mãe, quando realizasse a obra da sua Encarnação, desfrutou privilégios especialíssimos, em atenção à sua maternidade?
Sim, Senhor; e o mais precioso foi o da sua Imaculada Conceição (XXVII).

Que entendeis por privilégio da Imaculada Conceição?
O fato de que, em atenção a que a Santíssima Virgem era a criatura escolhida para ser mãe do Salvador, por privilégio especial e único em virtude do qual se lhe aplicaram antecipadamente os méritos da Redenção, foi preservada da mancha do pecado original em que havia de incorrer por descender de Adão pecador, por via de geração natural; e não só foi preservada do pecado, mas também, desde o primeiro instante da sua concepção, foi enriquecida e adornada com a plenitude dos dons sobrenaturais da graça (Pio IX — Definição dogmática da Imaculada Conceição).

Que entendeis quando afirmais que o Verbo feito homem nasceu da Virgem Maria?
Que a Mãe de Cristo, em vez de perder a virgindade em consequência da maternidade, viu como Deus a consagrava e fortalecia, de sorte que foi Virgem antes da concepção, depois dela, no parto e durante o resto de sua vida (XXVIII, 1, 2,3).

Logo a concepção do Filho de Deus, no seio da Virgem Santíssima, por obra do Espírito Santo, foi totalmente sobrenatural e miraculosa?
Sim, Senhor; foi de um modo todo miraculoso que a gloriosa Virgem Maria concebeu o Filho de Deus, revestindo este a nossa natureza humana no seu seio virginal; porém, tenhamos presente que, nesta concepção, a Santíssima Virgem não deixou de tomar aquela parte necessária e suficiente para ser verdadeira mãe, como as outras mães o são de seus filhos (XXXI, 5; XXXII).

Foi instantânea a formação do corpo de Cristo no seio virginal de Maria e conferiram-se-lhe, naquele primeiro instante, todas as prerrogativas e graças com que, segundo temos visto, Deus enriqueceu a natureza humana que Cristo assumiu na unidade de pessoa?
No mesmo instante em que a Santíssima Virgem pronunciou o fiat, expressão do seu consentimento, se realizaram no seu seio, sob o influxo onipotente do Espírito Santo, todos os privilégios e maravilhas que constituem o mistério da Encarnação (XXXIII - XXXIV).

Teve o Filho de Deus, desde aquele primeiro instante, uso de razão e livre arbítrio e, por conseguinte, capacidade para merecer?
Naquele instante, o Verbo Encarnado obteve, enquanto homem, todos os tesouros da ciência beatífica e infusa de que falamos, gozou plena liberdade e começou a merecer com mérito perfeito (XXXIV, 1-3).

Quando dizeis que o Filho de Deus nasceu da Virgem Maria, entendeis um verdadeiro nascimento da Segunda Pessoa divina? E como distinguir este nascimento temporal daquele outro eterno com que nasceu do Pai?
Em ambos os casos, entendemos verdadeiro nascimento da pessoa de Cristo; porém, como esta consta de duas naturezas, quando dizemos que nasceu, no tempo, da Virgem Maria, entendemos que dela recebeu a natureza humana e, quando falamos de como nasceu do Pai, entendemos que Este, na Eternidade, lhe comunicou a natureza divina (XXXV, 1, 2).

Logo, por ter nascido da Virgem, o Filho de Deus é Filho de Maria, e ela é verdadeiramente sua Mãe?
Sim, Senhor; porque tudo quanto uma mulher comunica ao seu filho, o mesmo comunicou a Virgem Maria ao Filho de Deus (XXXV. 3).

Segue-se daqui que a Santíssima Virgem é Mãe de Deus?
Indubitavelmente, porque com toda a verdade é sua Mãe, segundo a natureza humana unida hipostaticamente ao Verbo, que é Deus como seu Pai (XXXV, 4).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)