sexta-feira, 31 de maio de 2019

SOBRE A MANSIDÃO E A SIMPLICIDADE DA ALMA

Antes do sol, sai a luz da manhã e à humildade precede a mansidão, como nos declarou a mesma luz, que é o Senhor, quando disse: 'Aprendei de mim que sou manso e humildade de coração'. Justo é, pois, e conforme a ordem natural, gozar da luz antes do sol, pois a este ninguém pode ver se primeiro não vê esta luz;

Mansidão é conservar a alma em um mesmo estado sem perturbação alguma, quer nas honras, quer nos desgostos. Mansidão é, nas perturbações e aflições do próximo, fazer oração por ele com suma compaixão. Mansidão é firmeza da paciência, porta da caridade, ministra do perdão, confiança na oração, argumento de discrição. Porque o Senhor, como diz o profeta, ensinará aos mansos seus caminhos.

Mansidão é aposento do Espírito Santo, segundo aquilo que está escrito: 'Sobre quem repousará meu espírito senão sobre o humilde e manso e que trema de minhas palavras?' Mansidão é ajudadora da obediência, guia dos irmãos, freio dos furiosos, vínculo dos irados, ministra de gozo, imitação de Jesus Cristo, condição de anjos, prisão de demônios e escudo contra as amarguras do coração.

O Senhor repousa nos corações dos mansos, mas a alma do furioso é aposento do inimigo. Os mansos herdarão a terra ou, para melhor dizer, serão senhores dela. Mas os homens loucos e furiosos serão destruídos e desprezados dela. A alma mansa é filha da simplicidade, mas a alma irada é casa e aposento de malícias. A alma do manso receberá as palavras da sabedoria, porque o Senhor guiará no juízo os mansos ou, para melhor dizer, na virtude da discrição. A causa disto é que a alma quieta e tranquila está muito disposta e aparelhada para ser dirigida e iluminada pelo Espírito Santo. A alma reta é familiar, companheira e esposa da humildade.

Mas a má é filha moça e louca da soberba. As almas dos mansos serão cheias de sabedoria mas, nas almas dos irados, moram as trevas e a ignorância. O irado e o dissimulado se encontram e não se acha palavra reta entre eles. Se abrires o coração do primeiro, acharás loucura. Se abrires o do segundo, acharás maldade.

A simplicidade é um hábito e disposição da alma, que carece de variedade e não sabe que coisa é perversa intenção, nem é movido com algum mau pensamento. Malícia é astúcia ou, para melhor dizer, maldade e mentira de demônios, porque pecar por malícia é pecar não por fraqueza ou ignorância, mas por eleição e vontade deliberada, como pecam os demônios, que toda a sua astúcia empregam em buscar como fazer maior mal.

Hipocrisia é estado contrário à disposição do corpo e da alma, cheio de suspeitas e más intenções, porque o hipócrita em tudo se contrafaz, querendo parecer outro, suspeitando que os outros sejam como ele. Inocência é disposição e estado da alma, alegre e seguro e livre de toda a suspeita e astúcia porque o verdadeiro inocente, assim como não faz mal a ninguém, assim também não suspeita mal de ninguém.

Fujamos, pois, do despenhadeiro do fingimento e do lago da malícia e astúcia, ouvindo a sentença daquele que disse: 'os que maliciosamente vivem serão destruídos'. Estes, como a verdura das ervas, desfalecerão logo, e serão pasto dos demônios. Assim como Deus é caridade, assim é retidão e igualdade. E por isso, disse o sábio, nos Cânticos, falando com ele: 'os retos são os que te amam'. E o pai deste mesmo sábio disse em um salmo: 'Bom e reto é o Senhor'. E assim diz que salva aos retos de coração. E em outro lugar: 'justo é o Senhor e amante da justiça, e os seus olhos tem postos na retidão e igualdade'.

(Excertos da obra 'A Escada do Céu', por São João Clímaco)

PALAVRAS DE SALVAÇÃO





'Cristão é meu nome e Católico é meu sobrenome. Um me designa, enquanto o outro me especifica. Um me distingue, o outro me designa. É por este sobrenome que nosso povo é distinguido dos que são chamados heréticos' 

(São Paciano de Barcelona, ano 375)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

30 DE MAIO - SANTA JOANA D'ARC


Jeanne D'Arc nasceu em 6 de janeiro de 1412, na aldeia de Domrémy-la-Pucelle (na região da Lorena francesa). Descendente de camponeses analfabetos, apresentou-se, ainda adolescente e em trajes masculinos diante do rei da França Carlos VII, como a enviada por Deus para comandar as tropas francesas para a libertação da cidade de Orleans, então dominada pelos ingleses (os monarcas ingleses dominavam desde o século XI vários territórios franceses e a chamada Guerra dos Cem Anos, que durou na verdade 116 anos (1337 - 1453), foi o conflito sangrento travado entre os dois países, movidos pelo desejo francês de recuperar os territórios perdidos para a Inglaterra). Em face de vários eventos sobrenaturais, tal missão foi concedida e Orleans foi libertada em 9 de maio de 1429. Esta vitória recendeu a esperança das tropas francesas que conseguiram, em seguida, a retomada de vários outros territórios e que culminou com a coroação do rei francês em Reims, em 17 de julho de 1429. 

(coroação do rei Carlos VII e Joana D'Arc à frente das tropas francesas)

No dia 23 de maio de 1430, em Compiègne, Joana D' Arc foi aprisionada e vendida aos ingleses, a preço de ouro. Presa em Rouen, foi julgada numa farsa de processo e condenada à morte na fogueira por heresia. Foi queimada viva em 30 de maio de 1431, com apenas 19 anos de idade, após ter recebido os sacramentos da confissão e da comunhão. Suas cinzas (além do coração que, ao contrário do resto do corpo, permaneceu intacto e cheio de sangue) foram lançadas no Rio Sena, por ordem dos ingleses, para evitar quaisquer cultos futuros de suas relíquias. A revisão da condenação e a invalidação do processo que a julgou ocorreram já na época do Papa Calisto III (1455-1458), mas somente quase quinhentos anos depois, em 1920, é que Joana d'Arc foi canonizada pelo Papa Bento XV e hoje é venerada como a santa padroeira da França.

OREMUS (150)

A sequência completa destes pensamentos e reflexões é publicada diariamente na Página OREMUS na Biblioteca Digital deste blog.


30 DE MAIO

Non turbetur cor vestrum [Não se perturbe o vosso coração (Jo 14,1)]

'Uma terceira qualidade quereríamos no apóstolo que atende à santificação das almas. Há na Igreja um sopro do Espírito Santo, que convoca ao heroísmo, à dedicação completa. No meio dos espinhos de um mundo novamente pagão, brotam, sempre mais numerosas, flores imaculadas, que recreiam com sua frescura, e encantam com seu perfume: espíritos eleitos, de todas as idades e condições.

Quiséramos que, com uma santa coragem, os sacerdotes soubessem propor os alvos de uma santidade mais elevada. Porque tantas almas caem nas redes do mundo? Por acreditarem achar nele aquilo que faz o objeto de seus anseios; infelizmente tarde demais, percebem elas que os frutos dessa convivência são a inquietação, a dúvida, a tristeza, a desconfiança, o ódio. Sede corajosos!

Sabei tomar pela mão as almas e impeli-las, doce mas firmemente, para Jesus, para a amizade com Ele, para a transformação nEle. Fazei-lhes compreender que, só assim, elas acharão a paz, a fé, a alegria, a esperança, o amor; só assim elas acharão a vida. Sede discretos em começar, constantes em continuar, corajosos em levar a termo' (Pio XII).

(Oremus — Pensamentos para a Meditação de Todos os Dias, do Pe. Isac Lorena, 1963, com complementos de trechos traduzidos do latim pelo autor do blog)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

VERSUS: PRIMADOS DA FÉ CATÓLICA X HERESIAS

PRIMADOS DA FÉ CATÓLICA



De tudo o que temos dito, parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, Corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica: nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia; mas que depreciando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente aquilo que a Igreja sempre e universalmente tem crido.



HERESIAS

Sabe-se que toda doutrina nova e nunca antes ouvida, insinuada por uma só pessoa, fora ou contra a doutrina comum dos fiéis, não tem nada a ver com a religião, mas que melhor constitui uma tentação, doutrinado nisto especialmente pelas palavras do Apóstolo Paulo: 'É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos' (1Cor 11,19). Como se dissesse: Deus não elimina imediatamente os autores de heresias para que se manifestem os que são de uma virtude provada, ou seja, para que apareça em que medida cada um é tenaz, fiel, constante e nele mora a fé católica.



E, verdadeiramente, apenas um vento de novidades começa a soprar, imediatamente se vê como os grãos coalhados de trigo se separam e se distinguem da casca sem peso e, sem grande esforço, é arrancado fora de lá o que não é sustentado por peso algum. Alguns voltam imediatamente; outros, no entanto, transtornados e desalentados, temem perecer, mas se envergonham de regressar, espancados como estão e mais mortos que vivos; parece exatamente como tivessem bebido uma dose de veneno que já não podem eliminar e que, ainda que não lhes mate logo, não lhes permite seguir realmente vivendo.

Situação desgraçada! Quantas violentas aflições, quantas perturbações lhes assaltam! Já se deixam levar pelo erro como um vento impetuoso; já se recolhem em si mesmos como ondas na tempestade e são lançados na praia; outras vezes, com audácia temerária, dão sua conformidade ao que é errado; em outros momentos, sob o impulso de um medo irracional, se espantam até do que é verdade. Não sabem mais onde ir, onde voltar, não sabem o que querem, não sabem do que devem fugir, não sabem o que deve ser mantido e o que, ao contrário, deve ser rechaçado. E se ao menos soubessem que estas dúvidas e esta angústia de um coração vacilante são o remédio que a misericórdia divina lhes preparou!

Por isto precisamente, afastados do porto seguro da fé católica, são sacudidos, golpeados, como imersos na tempestade, para que, recolhidas e amainadas as velas da mente, que estavam estendidas ao largo e desdobradas aos ventos infiéis das novidades, voltem a buscar morada no refúgio confiado de sua mãe boa e tranquila e, uma vez rechaçadas as ondas amargas e alvoroçadas do erro, possam alcançar a fonte de águas vivas e saltitantes e beber dela.

Que 'desaprendam' bem o que não fizeram bem em aprender e que compreendam, de todos os dogmas da Igreja, o que a inteligência pode compreender e o que não pode compreender, que creiam.

(Excertos da obra 'Comonitório - Regras para conhecer a fé verdadeira', de São Vicente de Lerins)

terça-feira, 28 de maio de 2019

VERDADES QUE O CRISTÃO DEVE RECORDAR A CADA DIA

Lembra-te, ó cristão:

o que deves fazer ou o que te pode acontecer no dia de hoje:

 glorificar a Deus
 imitar Jesus Cristo,
invocar a Santíssima Virgem 
honrar o seu Anjo da Guarda
 imitar os Santos
 mortificar o seu corpo
praticar as virtudes
subjugar as paixões
expiar os seus pecados
buscar salvar a sua alma

aproveitar o tempo
edificar o próximo
 desprezar as coisas do mundo
 combater os demônios
fugir do inferno
desejar o Paraíso

padecer  as dores da vida
aceitar o sofrimento como graça
sofrer talvez a morte
enfrentar quem sabe o Juízo Final
viver, enfim, o tempo da eternidade.

(texto original reescrito e readaptado pelo autor do blog)

domingo, 26 de maio de 2019

'A MINHA PAZ VOS DOU'

Páginas do Evangelho - Sexto Domingo da Páscoa


Neste Sexto Domingo da Páscoa, somos chamados a viver plenamente a presença de Jesus Ressuscitado em nossas vidas, como testemunhas da fé e da fidelidade às suas Santas Palavras: 'Se alguém me ama, guardará a minha palavra' (Jo 14, 23). Eis aí o legado de Jesus aos seus discípulos: a graça e a salvação são frutos do amor, que é manifestado em plenitude, no despojamento do eu e na estrita submissão à vontade do Pai: 'Desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas sim a d’Aquele que me enviou' (Jo 6, 38) e 'Amai ao Senhor vosso Deus com todo vosso coração, com toda vossa alma e com todo vosso espírito. Este é o maior e o primeiro dos mandamentos' (Mt 22, 37-38).

A graça nasce, manifesta-se e se alimenta do nosso amor a Deus, pois 'quem não me ama, não guarda a minha palavra ' (Jo 14, 24). Mas este amor terá de ser libertado do mero sentimento arraigado às mazelas humanas para ser transformado em um amor espiritual sem medidas, desapegado dos valores mundanos. Este amor não provém dos sentimentos efêmeros, nem dos sentidos, nem das paixões desregradas, nem dos abismos volúveis das sensibilidades e das vontades humanas.

Este amor não se alimenta da paz do mundo, mas da paz que emana do próprio Coração de Deus: 'Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo.' (Jo 14, 27). Na paz de Deus, na confiança absoluta às divinas promessas, não há porque se perturbar ou se intimidar a fragilidade do pobre coração humano. A presença permanente do Cristo Ressuscitado em nossas vidas vem por meio da manifestação do Espírito Santo, o Defensor, conforme as palavras de Jesus: 'o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito' (Jo 14, 26). 

Sob a ação do Espírito Santo, o amor humano pode trilhar livremente o caminho da santificação, até o impossível, até os limites de um despojamento absoluto do próprio ser para a plena manifestação em si da glória de Deus, quando enfim, 'o meu Pai o amará, e nós (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) viremos e faremos nele a nossa morada' (Jo 14, 23).

sábado, 25 de maio de 2019

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

Olhai em volta, meus irmãos… porque há tantas mudanças e lutas, tantos partidos e seitas, tantos credos? Porque os homens estão insatisfeitos e inquietos. E porque estão eles inquietos, cada um com o seu salmo, a sua doutrina, a sua língua, a sua revelação, a sua interpretação? Estão inquietos porque … tudo isso ainda não os levou à presença de Cristo que é a 'alegria e delícias eternas' [cf Sl 16,11]. Se tivessem sido alimentados pelo pão da vida [Jo 6,35] e provado do favo de mel, os seus olhos ter-se-iam tornado limpos, como os de Jônatas [1Sm 14,27] e teriam reconhecido o Salvador dos homens. Mas, não se tendo apercebido destas coisas invisíveis, têm de continuar a procurar e estão à mercê de rumores longínquos… 

Triste espetáculo: o povo de Cristo errando pelas colinas 'como ovelhas sem pastor'. Em vez de procurarem nos lugares que Ele sempre frequentou e na morada que Ele estabeleceu, atêm-se em projetos humanos, seguem guias estranhos e deixam-se cativar por opiniões novas, tornando-se joguetes do acaso e do humor do momento, e vítimas da sua própria vontade. Estão cheios de ansiedade, de perplexidade, de inveja e de preocupações, e são agitados e ... tudo isso porque não procuram 'um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos' [Ef 4,5-6] para nele encontrarem 'descanso para o espírito' [Mt 11,29].

(Cardeal  Newman)

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXXI)

XXXVII

DA AMIZADE — VÍCIOS OPOSTOS: DESPREZO E ADULAÇÃO

Existe algum outro dever moral necessário para a pacífica convivência, ainda que não seja tão necessário como a vindicta, a gratidão e a bondade?
Sim, Senhor; os deveres da amizade (CXIV, 2)*.

Que entendeis por amizade?
A virtude que nos impele a por em nossas palavras e ações exteriores quanto possa contribuir para fazer amável e prazenteiro o trato com os nossos semelhantes (CXIV, 1).

É virtude de grande estima no trato social?
É a virtude social por excelência, ao ponto de podermos chamar-lhe a flor e aroma das virtudes da justiça e da caridade.

De quantas maneiras se pode faltar a ela?
De duas: por defeito, quando não se repara nem se toma em conta o que pode agradar ou molestar ao próximo; por excesso, adulando-o ou não o contradizendo, oportunamente, quando o mereçam as suas palavras e atos (CXV, CXVI).

XXXVIII

DA LIBERALIDADE — VÍCIOS OPOSTOS: AVAREZA E PRODIGALIDADE

Qual é a última virtude conexa à virtude da justiça particular e destinada, como as anteriores, a satisfazer as obrigações morais dos homens uns para com outros?
A virtude da liberalidade (CXVII, 5).

Que entendeis por liberalidade?
Uma disposição de ânimo, em virtude da qual o homem não tem apego excessivo às coisas exteriores de utilidade comum, e está disposto sempre, com regra e medida, a desprender-se delas e especialmente do dinheiro que as representa, em bem da sociedade (CXVII, 1-4).

É virtude de grande importância?
Classificando-a pelo seu objeto, que são as riquezas, é a ínfima das virtudes, mas dignifica-se com a nobreza das outras quando contribui para que consigam os seus respectivos fins (CXVII, 6).

Que vícios se lhe opõem?
Os de avareza e prodigalidade (CXVIII, CXIX).

Que entendeis por avareza?
O amor desordenado às riquezas (CXVIII, 1-2).

É pecado grave?
Atendendo ao fim humano a que se propõe, é pecado ínfimo, porque se limita a introduzir a desordem no amor aos bens exteriores ou riquezas; porém, considerando a desproporção existente entre o espírito e os bens materiais de que se faz escravo, é o vício mais degradante e vergonhoso (CXVIII, 4,5).

É, além disso, vício muito pernicioso?
Sim, Senhor; porque é insaciável e, com o afã de amontoar riquezas, o avarento não se detém às vezes em cometer crimes e atropelos contra Deus, contra o próximo e contra si mesmo (CXVIII, 5).

É a avareza pecado capital?
Sim, Senhor; porque a abundância das riquezas, às quais todos obedecem, promete o que todos os homens desejam - a felicidade, e serve de estímulo a todas as suas ações boas e más (CXVIII, 7).

Quais são as filhas que a avareza tem?
As seguintes: avareza ou falta de misericórdia e compaixão, inquietação, violência, astúcia ou dolo, perjúrio, fraude e traição, porque o amor das riquezas leva consigo o afã de retê-las, a cobiça de aumentá-las e o emprego de meios ilícitos, como a violência, o engano, o perjúrio, a fraude e a traição, para adquiri-las (CXVIII, 8).

A prodigalidade, vício contrário à liberalidade, opõe-se também à avareza?
Sim, Senhor; porque se o avarento, por amor desmedido das riquezas, não está disposto a desprender-se delas para que frutifiquem em bem e proveito de todos, o pródigo, pelo contrário, não sabe olhar convenientemente por elas e tem propensão excessiva para dissipá-las (CXIX, 3).

Qual é destes dois vícios o mais pernicioso?
O da avareza, porque se opõe mais diretamente à liberalidade, cuja norma é: melhor é dar do que guardar.

Poderíeis fazer um resumo do número, ordem e nobreza das virtudes agregadas à justiça particular, tendendo aos seus objetos e fins?
Sim, Senhor. Ocupa o primeiro lugar a religião, que tem por objeto o culto e serviço de Deus, considerado como Criador e Soberano Dominador de todas as coisas; vem depois a piedade para com os pais e para com a pátria, em agradecimento pelo benefício de nos terem dado o ser; a seguir, a observância para com os superiores em autoridade, dignidade e excelência; em continuação, a gratidão para com os benfeitores particulares, e a vindicta contra os que nos agravaram em matéria que exija reparação; por último, a verdade, a amizade e a liberalidade para com todos os nossos semelhantes por motivo de respeito a nós mesmos.


XXXIX

DA EQUIDADE NATURAL OU EPIQUEIA

Não dissestes que existia também uma virtude anexa à Justiça geral ou legal?
Sim, Senhor; a que poderemos chamar com o nome genérico de equidade natural, conhecida também com o de epiqueia (CXX).

Qual é o seu objeto?
O de conferir à vontade o privilégio e o desejo de distribuir a Justiça em contraposição ou à margem das leis, quando a razão natural ou a luz dos primeiros princípios de caridade declaram inaplicável a lei escrita ou consuetudinária (CXX, 1).

Tem grande importância esta virtude?
Ela está à frente e, de certo modo, governa e mantém em sua própria esfera todas as que são destinadas a dirigir e consolidar as relações sociais (CXX, 2).

XL

DO DOM DE PIEDADE CORRESPONDENTE À JUSTIÇA

Qual dos dons do Espírito Santo corresponde à justiça ?
O dom de piedade (CXXI).

Em que consiste o dom de piedade?
Em certa preparação habitual da vontade que dispõe o homem para receber uma moção direta e pessoal do Espírito Santo, que o impele a tratar com Deus na ordem sobrenatural, como com um pai a quem com ternura se ama, reverencia e obedece, e com todas as criaturas racionais, como filhas de Deus e membros da grande família divina (CXXI, 1).

Logo, o dom da piedade põe o último e mais delicado toque nas relações do homem com Deus e com os seus semelhantes?
Sim, Senhor; é o complemento da virtude da Justiça e de todas as suas agregadas, e se os homens, correspondendo à moção do Espírito de Deus, o reduzissem à prática, o gênero humano se converteria em uma grande família divina, imagem fiel da que reina no céu.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

sexta-feira, 24 de maio de 2019

SOBRE OS SACRAMENTOS

'E como o corpo humano nos aparece dotado de energias especiais, com que provê à vida, saúde e crescimento seu e de todos os seus membros, assim o Salvador do Gênero Humano providenciou admiravelmente ao seu Corpo Místico, enriquecendo-o de sacramentos que, com uma série ininterrupta de graças, amparam o homem desde o berço até ao último suspiro e, ao mesmo tempo, proveem abundantissimamente as necessidades sociais da Igreja. 

Com efeito, pelo Batismo, os que nasceram a esta vida mortal, não só renascem da morte do pecado e são feitos membros da Igreja, senão que, assinalados com o caráter espiritual, tornam-se capazes de receber os outros dons sagrados. Com o santo Crisma infunde-se nova força nos fiéis, para conservarem e defenderem corajosamente a Santa Madre Igreja e a Fé que dela receberam. Pelo sacramento da Penitência oferece-se aos membros da Igreja caídos em pecado uma medicina salutar, que serve não só a restituir-lhes a saúde, mas a preservar os outros membros do Corpo Místico do perigo de contágio e até a dar-lhes estímulo e exemplo de virtude. E não basta. Pela Sagrada Eucaristia, alimentam-se e fortificam-se os fiéis com um mesmo alimento, e se unem entre si e com a Divina Cabeça de todo o Corpo com um vínculo inefável e divino. Finalmente, ao leito dos moribundos acode a Igreja, Mãe compassiva, e com o sacramento da Extrema Unção, se nem sempre se lhes restitui a saúde do corpo, por Deus assim o dispor, dá-lhes às almas feridas a medicina sobrenatural, abre-lhes o Céu, onde como novos cidadãos, e seus novos protetores, gozarão por toda a Eternidade da Divina Bem-Aventurança. 

Às necessidades sociais da Igreja proveu Nosso Senhor Jesus Cristo de modo especial com dois sacramentos que instituiu: com o Matrimônio, em que os cônjuges são reciprocamente ministros da graça, proveu ao aumento externo e bem ordenado da sociedade cristã, e o que é ainda mais importante, à boa e religiosa educação da prole, sem a qual o Corpo Místico correria perigo; com a Ordem dedicam-se e consagram-se ao serviço de Deus os que hão de imolar a Hóstia Eucarística, sustentar a grei dos fiéis com o Pão dos Anjos e com o alimento da Doutrina, dirigi-la com os Divinos Mandamentos e conselhos, e purificá-la com o Batismo e a Penitência, enfim fortalecê-la com todas as Graças celestes'.

(Excerto da encíclica Mystici Corporis do papa Pio XII, de 29 de junho de 1943)

quinta-feira, 23 de maio de 2019

O RESPEITO HUMANO É... EM 10 PECADOS MORTAIS!

1. O respeito humano é... a preferência do homem a Deus

O respeito humano é a ruína da ordem e da perfeição porque desvia o nosso pensamento e a nossa atenção de Deus para as criaturas. A razão e a fé dizem: Deus é o fim e o motivo de todos os nossos atos. O respeito humano diz: só devemos ter consideração pelo homem, pelos seus gostos, pelas suas opiniões, pelos seus caprichos.

2. O respeito humano é... uma fraqueza

O padre Ventura [Joaquim Ventura de Ráulica (1792-1861), padre jesuíta e depois teatino (ordem muito próxima a dos jesuítas)] afirmava energicamente: 'Ocultar os sentimentos da verdadeira fé, envergonhar-se de cumprir publicamente os preceitos, não é senão uma fraqueza, a maior de todas as fraquezas. É por isso que se encontra comumente nas almas pequenas'.

3. O respeito humano é... uma fraqueza vergonhosa

Deus nos deu um guia seguro, um juiz infalível das nossas ações: a consciência, que nos ilumina e dirige em todos os nossos passos, louva-nos ou nos censura, conforme praticamos o bem ou o mal. O escravo do respeito humano segue uma luz, obedece a uma outra regra. A sua luz e a sua regra são as opiniões e os caprichos de alguns homens.

4. O respeito humano é... uma fraqueza muito prejudicial à salvação

O respeito humano inutiliza os meios tão poderosos e eficazes de que Deus se serve para nos atrair a si. Convida-nos pela sua graça a uma vida mais regular e mais santa e nós mesmos temos bons desejos de abraçar esta vida. Porque resistimos às solicitações da graça? É o respeito humano que muitas vezes impede a ação da graça e asfixia a nossa boa vontade.

5. O respeito humano é... uma traição

Devemos edificar uns aos outros. O que tem mais luz, mais virtude, deve irradiar estes bens em volta de si. Nosso Senhor Jesus Cristo diz: 'Vós sois a luz e o sal da terra' (Mt 5,13-14). Luz que deve combater as trevas; sal que deve impedir a corrupção. Ora o respeito humano contraria e destrói esta disposição de Deus, impede que a luz irradie, apaga-a, corrompe o sal; ajuda as trevas e o mal a espalharem-se por toda a parte.

6. O respeito humano é... a abdicação da personalidade humana

Deus determinou que o homem se conduzisse pela sua consciência, esclarecida pela lei divina; é nisto que está toda a sua dignidade de homem. Ora, o homem que se deixa arrastar pelo respeito humano não pensa, não fala, não opera por si mesmo, segundo a sua consciência, torna-se escravo dos outros; pensa, fala e faz como eles. Pode conceber-se alguma coisa mais destruidora da dignidade ou personalidade humana? Não.

7. O respeito humano é... a abdicação da dignidade de cristão

Um cristão pode dizer com São Paulo: 'Eu vivo, mas verdadeiramente não sou eu já que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim, é Jesus Cristo que pensa, fala e opera em mim'. Ora, o cristão possuído do respeito humano é um discípulo indigno, tem o nome de cristão e não se deixa conduzir por Jesus Cristo. Poderá dizer: Eu vivo, mas não sou eu que vivo, é o tal companheiro insensato, todo ele é que vive em mim. Eu abdiquei da minha alma para substituí-la por uma alma desvairada, estúpida.

8. O respeito humano é... uma escravidão vergonhosa

Se alguém quisesse fazer-nos uma observação sobre qualquer dos nossos defeitos dir-lhe-íamos: não se meta onde não é chamado. Porém, atacam as nossas virtudes e boas qualidades e temos a baixeza de nos envergonhar de as defender.

9. O respeito humano é... uma apostasia infame

Foi o respeito humano que fez morrer o Filho de Deus. Pilatos teria sido inabalável às instâncias e gritos dos judeus que pediam a morte de Jesus, por estar convencido da inocência do Salvador e da injustiça deles; mas apenas o ameaçaram com César, toda a sua firmeza não pôde vencer o temor de desagradar a César. Ó respeito humano, exclama alguém, em quantos corações tens dado a morte a Cristo, e em quantos não o tens deixado nascer! Deixamos de ser de Deus ou receamos ser dEle, pelo temor do juízo dos homens. Quem quiser ser amigo deste mundo perverso declara-se por isso mesmo inimigo de Deus.

10. O respeito humano é... causa de condenação eterna

a) Condenação dos homens

Ozanam [Frederico Ozanam (1813 - 1853), fundador das Conferências de São Vicente de Paulo], a quem um dia aconselhavam uma prudência muito tímida nas manifestações da sua fé, respondia: 'Não, eu não ganharei nada em dissimular as minhas convicções; não adquiro a confiança daqueles que me conhecem e perderei a da juventude que me considera; isto é, não obterei a estima dos maus e perderei a dos bons'. O cristão fraco, tímido, engana-se nos seus cálculos e acaba inevitavelmente por ver recusar o que tem sido objeto de todos os seus sacrifícios - o respeito dos outros. Aquele que falta aos juramentos de fidelidade a Deus não pode oferecer nenhuma garantia na confiança dos homens.

b) Condenação de Deus

No dia do Juízo, a sentença pronunciada sobre nós dependerá da maneira como tivermos compreendido o respeito humano e o respeito divino: 'Eu confessarei, diante de meu Pai, aquele que me confessar diante dos homens, diz Jesus, e envergonhar-me-ei diante de Meu Pai, daquele que se tiver envergonhado de mim diante dos homens' (Mt 10,32-33). Jesus abomina e condena o mau cristão que recusou reconhecer a sua soberania.

(Excertos da obra 'O Crucifixo, Meu Livro de Estudos', do Cônego Júlio A. Santos, 1950)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

22 DE MAIO - SANTA RITA DE CÁSSIA


A santa, que padeceu uma vida doméstica de sofrimentos e provações, tornou-se a advogada dos desesperados e a padroeira das causas impossíveis. Filha única de pais já envelhecidos - Antonio Mancini e Amata Ferri - Margherita (que ficou Rita) nasceu no vilarejo de Roccaporena, na região de Cascia, na Úmbria (centro da Itália) em 1381. Inclinada à vida religiosa, cedeu às tratativas paternas e aos rigores da época, desposando, logo após a adolescência um homem chamado Paulo Ferdinando, com o qual teve dois filhos.

Sua vida matrimonial, entretanto, foi um período de enormes provações e humilhações em relação ao marido, sempre violento e agressivo. Depois de muitas orações pelo marido, este se converteu e passaram a formar uma igreja doméstica até que uma tragédia a desfez por completo: Paulo foi assassinado numa ato de vingança devido às suas desavenças passadas. Outra tragédia se anunciava: os dois filhos estavam decididos a vingar a morte do pai. Rita preferiu perdê-los do que eles ao Céu e ofereceu as suas vidas a Deus antes de cometerem tal crime. Com efeito, cerca de um ano após a morte do pai, ambos faleceram, arrependidos do sentimento de vingança.

Rita ficou, então, sozinha no mundo e buscou, sem sucesso, a vida religiosa, por já ter vivido uma união matrimonial por 18 anos. A opção por converter-se em uma monja agostiniana foi-lhe repetidamente negada. Entregando a sua vocação nas mãos de Deus e sobrecarregando-se em orações, alcançou a causa impossível por um milagre extraordinário. Certa feita, foi conduzida por três pessoas à capela interna do mosteiro, totalmente fechado e a altas horas da noite: São João Batista (também concebido na velhice dos pais), Santo Agostinho (fundador da ordem agostiniana) e São Nicolau de Tolentino (religioso agostiniano). Diante do relato e dos fatos sobrenaturais, Rita foi aceita na ordem, dedicando o resto da sua vida aos votos de pobreza, obediência e castidade. 

A sua extrema capacidade de servir, obedecer e aceitar mesmo o que aparentemente poderia ser improvável pode ser compreendido no milagre que transformou um ramo seco, regado periodicamente e com grande diligência pela santa, numa videira que produziu muitos e muitos frutos. Ou, quase no final de sua vida, com a roseira que, sob os seus cuidados, floriu viçosa em pleno inverno rigoroso. Por 15 anos, estigmatizada, padeceu os sofrimentos e as dores de uma ferida repugnante na testa, que expelia pus e que exalava mau odor, o que a a levou a uma vida de isolamento e de absoluto confinamento numa cela do convento.

Aos 76 anos, Santa Rita de Cascia (adaptado como Cássia) faleceu no convento, em 22 de maio de 1457, sem deixar quaisquer registros escritos, mas os exemplos heroicos de uma vida de santidade. Morta, a ferida tornou-se limpa e passou a exalar um odor perfumado. Foi beatificada em 1627, ocasião em que o seu corpo mostrou-se no mesmo estado quando da sua morte, mais de cento e cinquenta anos antes. Seu corpo atualmente repousa no Santuário de Cascia, desde 18 de maio de 1947, numa urna de prata e cristal.  Exames médicos recentes efetuados no corpo confirmaram os traços de uma ferida óssea (osteomielite) na testa. A santa das causas impossíveis foi canonizada em 24 de maio de 1900, sob o pontificado do Papa Leão XIII.

(urna de cristal com o corpo de Santa Rita de Cássia)

Santa Rita de Cássia, rogai por nós!

segunda-feira, 20 de maio de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXX)

XXXII

DA PIEDADE PARA COM OS PAIS E A PÁTRIA

Depois da religião, qual é a virtude mais importante entre as agregadas à Justiça?
A virtude da piedade (CI)*.

Que entendeis por virtude da piedade?
A que tem por objeto honrar e venerar aos pais e à pátria pelo grande benefício de nos terem dado a vida, conjuntamente com tudo o mais que a conserva e completa (CI, 1-3).

São estes deveres especialmente sagrados e obrigatórios ?
Depois dos deveres para com Deus, não há outros mais sagrados.

Que obrigações impõe a piedade para com os pais?
As obrigações de respeitá-los sempre, obedecer-lhes enquanto se vive debaixo da sua autoridade e socorrê-los em suas necessidades (CI, 2).

E para com a pátria?
A obrigação de reverenciar àqueles que a personificam e a representam, obedecer às suas leis e sacrificar, se necessário, a vida por ela na guerra justa.

XXXIII

DA OBSERVÂNCIA PARA COM OS SUPERIORES

Além das virtudes de religião e piedade, há alguma outra em que possa intervir também a obediência?
Sim, Senhor; a virtude de observância (CII).

Que entendeis por virtude da observância?
A que tem por objeto regular as relações dos inferiores com os superiores, feita a exceção dos casos em que os superiores sejam Deus, os pais ou as autoridades que governam em nome da pátria (CII, CIII).

Logo, é a virtude da observância a que põe ordem nas relações entre professores e discípulos, entre patrões e operários e em geral entre superiores e inferiores?
Sim, Senhor (CIII, 3).

A observância inclui a obediência? 
Somente nos casos em que o superior tenha jurisdição sobre o inferior.

Logo, há superioridades sem jurisdição?
Sim, Senhor; por exemplo, as do talento, engenho, riquezas, idade, virtude etc. (CIII, 2).

Pode exercer-se nestes casos a virtude da observância?
Sim, Senhor; visto que o seu objeto, como dissemos, é honrar e acatar todo gênero de superioridades, começando sempre pelos superiores com autoridade e jurisdição (Ibid).

É necessária a prática desta virtude nas relações sociais?
É indispensável, porque não se concebe sociedade sem membros e subordinação, e todo subordinado está no dever de praticá-la, sob pena de perturbar a harmonia e boas relações sociais.

É virtude que todos os homens podem praticar?
Sim, Senhor; pois, por elevada que seja a hierarquia de um homem, sempre tem, nessa mesma hierarquia ou em ordem distinta, algum superior (CIII, 2 ad 3).

XXXIV

DA GRATIDÃO OU RECONHECIMENTO

Qual é a primeira das virtudes agregadas à Justiça, que tem por objeto, não propriamente um débito em rigor impossível de satisfazer cabalmente, mas uma dívida moral, ainda mesmo em matéria necessária para o bem comum?
O reconhecimento ou gratidão (CVI).

Qual é o seu objeto?
A obrigação de agradecer e recompensar os benefícios particulares que tenhamos recebido (CVI, 1).

É virtude muito necessária?
Sim, Senhor, e evidencia-se a sua necessidade, considerando o odioso e repugnante vício contrário, a ingratidão (CXII).

Deve o agraciado recompensar mais do que recebe?
Deve procurar fazê-lo, para se igualar com o benfeitor (CVI, 6).

XXXV

DA VINDITA

Que conduta devemos observar com os que nos agravam e fazem mal?
Seguir o ditame de uma virtude especial chamada vindita, que aconselha não deixar impunes os agravos, quando assim o exige a obrigação de conservar e olhar por algum bem (CVIII).

XXXVI

DA VERDADE — VÍCIOS OPOSTOS: MENTIRA, SIMULAÇÃO OU HIPOCRISIA

Que outra virtude, da mesma ordem que a anterior, é necessária para o bem estar social, não em atenção aos outros, mas a nós mesmos?
A virtude da verdade (CIX).

Que entendeis por virtude da verdade?
A que nos ensina a mostrar-nos tanto nas palavras como nas ações, tais como na realidade somos (CIX, 1-4).

Quais são os vícios opostos a esta virtude?
Os da mentira, simulação ou hipocrisia (CX-CXIII).

Que entendeis por mentira?
Qualquer dito ou fato destinado a manifestar ou a afirmar uma coisa falsa (CX, 1).

É a mentira essencialmente má?
É má em tal grau que não há nenhum fim ou pretexto que possa justificá-la (CX, 1).

Logo, estamos sempre obrigados a dizer a verdade toda?
Não, Senhor; porém estamos obrigados a não dar a entender e a nunca dizer mentiras (Ibid).

Quantas classes há de mentira?
Três: jocosa, oficiosa e perniciosa (CX, 2).

Em que se distinguem?
Em que a jocosa tem por fim divertir os outros; a oficiosa ser-lhes útil e a perniciosa causar-lhes algum detrimento ou prejuízo.

Qual é a pior?
A perniciosa; e assim como as duas primeiras podem não exceder de pecados veniais, esta, por sua natureza, é sempre pecado mortal, e se algumas vezes é venial, o será em atenção à parvidade da matéria ou prejuízo causado (CX, 4).

Que entendeis por simulação ou hipocrisia?
Consiste a simulação em aparentar exteriormente o que interiormente não somos; e a hipocrisia, em simular virtudes que não temos (CXI, 1, 2).

Estamos obrigados, para não cairmos nestes vícios, a descobrir e declarar publicamente os nossos defeitos e más qualidades?
De nenhum modo; estamos, pelo contrário, obrigados a encobri-los para não perder o crédito na opinião dos outros, e para não dar-lhes mau exemplo e nem motivo de escândalo; a verdade ou sinceridade somente exigem que não tenhamos intenção de dar a conhecer feitos e qualidades, boas ou más, que realmente não possuímos (CXI, 3,4).

Obriga a virtude da verdade a alguém abster-se de toda manifestação que pode admitir diversas interpretações e a prevenir e evitar as falsas?
Não, Senhor; exceto nos casos em que a má interpretação acarretasse prejuízos que estivéssemos obrigados a evitar (CXI, 1).

Existem modos de cometer pecados de mentira, simulação e hipocrisia que constituam faltas especificamente distintas?
Sim, Senhor; pode o homem cometer faltas atribuindo a si mesmo excelências que não possui e temos o pecado da jactância, ou dando a conhecer que carece de qualidades e merecimentos que, na verdade, tem e isto constitui o pecado da falsa humildade (CXII-CXIII).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

O NOVO MANDAMENTO

Páginas do Evangelho - Quinto Domingo da Páscoa


Deus, em sua infinita misericórdia, destinou ao homem, não apenas a plenitude de uma felicidade puramente natural mas, muito mais que isso, por desígnios imensuráveis à condição humana, a plenitude da eterna felicidade com Ele. E, para nos tornar co-participantes de sua glória, nos escolheu, um a um, desde toda a eternidade, como criaturas humanas privilegiadas e especiais, moldadas pelo infinito amor do divino intelecto. Glória aos homens bem-aventurados que, nascidos e criados pelo infinito amor, foram e serão redimidos pelo amor de Cristo para toda a eternidade!

Neste Quinto Domingo da Páscoa, somos chamados a vivenciar este amor de Deus em plenitude. Jesus encontra-se no Cenáculo, pouco antes de sua ida ao Horto das Oliveiras e da sua prisão e morte na cruz. E acaba de revelar aos seus discípulos amados, mais uma vez, a identidade do amor divino entre Pai e Filho, regida pelo Espírito Santo: 'Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele' (Jo 13, 31). Do amor intrínseco à Santíssima Trindade, medida infinita do amor sem medidas, Jesus vai nos dar o princípio do amor humano verdadeiro e recíproco ao amor divino: 'Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros' (Jo 13, 34). 

Sim, como Cristo nos amou. Na nossa impossibilidade humana de amar como Cristo nos ama, isso significa amar sem rodeios, amar sem vanglória, amar sem zelos de gratidão, amar de forma despojada e sincera aos que nos amam e aos que não nos amam, a quem não conhecemos, a quem apenas tangenciamos por um momento na vida, a todos os homem criados pelos desígnios imensuráveis do intelecto divino, à sombra e imersos na dimensão do infinito amor de Cristo por nós.

Nesta proposição distorcida e acanhada do amor divino, o amor humano se projeta a alturas inimagináveis de santificação, e expressa a sua identificação incisiva no projeto de redenção de Cristo: 'Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros' (Jo 13, 35). Eis aí a essência do novo mandamento: amar, com igual despojamento, toda a dimensão da humanidade pecadora, a exemplo de um Deus que se entregou à morte de cruz para nos redimir da morte e mostrar que o verdadeiro amor não tem limites nem medida alguma. 

sábado, 18 de maio de 2019

ORAÇÃO: IMMACULATA MATER DEI


Immaculata Mater Dei, Regina caelorum, Mater misericordiae, advocata et refugium peccatorum, ecce ego illuminatus et incitatus gratiis, a te materna benevolentia large mihi impetratis ex thesauro divino, statuo nunc et semper dare in manus tuas cor meum Iesu consecrandum. Tibi igitur, beatissima Virgo, coram novem choris Angelorum cunctisque Sanctis illud trado, Tu autem, meo nomine, Iesu id consecra; et ex fiducia filiali, quam profiteor, certum mihi est te nunc et semper quantum poteris esse facturum, ut cor meum iugiter totum sit Iesu, imitans perfectissime Sanctos, praesertim sanctum Ioseph, Sponsum tuum purissimum. Amen.

Imaculada Mãe de Deus, Rainha do Céu, Mãe da Misericórdia, Advogada e Refúgio dos pecadores, eis que eu, iluminado e inspirado pelas graças recebidas da vossa maternal intercessão junto ao tesouro divino, quero entregar o meu coração em vossas mãos, agora e sempre, para ser consagrado a Jesus. Ó Santíssima Virgem, na presença dos nove coros dos anjos e de todos os santos, eu o entrego a vós para que, em meu nome, possais consagrá-lo a Jesus; sob a vossa confiança filial, tenho a firme certeza de que, agora e sempre, tudo havereis de fazer para que o meu coração possa pertencer inteiramente a Jesus, a exemplo da perfeição dos santos e, em particular, ao de São José, vosso castíssimo Esposo. Amém.

[Escrita por São Vicente Pallotti (1798-1850), fundador dos Palotinos]

sexta-feira, 17 de maio de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (XII)


56. Como foi a morte de José? 

Também não possuímos elementos convincentes para esclarecer a respeito de sua morte; porém, aceitando que ele tenha morrido antes de Jesus, podemos deduzir que tenha tido uma morte ao lado de Jesus e de Maria. O certo é que a morte de José possui um significado importante, tanto é verdade que esta tem um valor e um lugar na piedade dos fiéis. A sensibilidade religiosa e a razão guiaram a piedade cristã a considerar, desde os tempos mais antigos, a morte de José como 'um plácido sono entre os braços da Virgem e de Jesus'. 

57. Por que São José é considerado protetor da boa morte? 

Há um livro apócrifo denominado 'A história de São José, o carpinteiro', que teve origem em Nazaré no século II, o qual foi escrito para uso litúrgico dos judeu-cristãos. Este relata que Jesus teria contado aos discípulos reunidos sobre o monte das Oliveiras toda a vida de José, particularmente a sua morte. Este relato difundiu-se ao ponto que os coptos monofisitas egípcios instituíram a festa da comemoração de sua morte, denominada de 'trânsito', no dia 20 de julho. Com a influência deste livro e desta festa, passou-se a considerar São José o protetor da boa morte e a cena do 'Trânsito de São José' apareceu na iconografia e se difundiu rapidamente. Nasceram várias confrarias para promover esta festa, até aquela mais recente instituída pelo Papa Pio X em 1913, junto à Igreja de São José Al Trionfale, em Roma, denominada de 'pia união do trânsito de São José para a salvação dos agonizantes'. Também o Papa Bento XV no motu proprio Bonum Sane em 1920 quis que São José fosse lembrado como protetor dos moribundos, porque expirou com a assistência de Jesus e de Maria. O mesmo papa aprovou também duas missas votivas a São José, uma para os moribundos e outra para a proteção da boa morte, e também uma oração para obter a boa morte: 'Que eu morra como o glorioso São José, entre os braços de Jesus e de Maria…'. Da mesma forma, Pio X em 1909 aprovou a Ladainha de São José e, dentre as invocações estão aquelas 'esperança dos enfermos', 'padroeiro dos agonizantes' e 'terror dos demônios'. Também o Papa Pio XI, pelo Ritual Romano de 1922, colocou para o rito da unção dos enfermos a invocação: 'São José, dulcíssimo padroeiro dos agonizantes, fortaleça a tua esperança' e, da mesma forma, compôs a belíssima oração: 'A ti eu recorro, São José, padroeiro dos moribundos…'. 

58. Podemos dizer alguma coisa de José após a sua morte? 

Muitos teólogos e santos, dentre os quais alguns respeitadíssimos como São Tomás de Aquino, Clemente de Alexandria e São Bernardino de Sena, afirmaram que José estava entre os santos que, na ressurreição de Jesus, saíram dos sepulcros conforme narra o evangelista Mateus (Mt 27,52-53). É evidente que São José seria o primeiro, devido à sua grandeza como pai de Jesus e esposo de Maria, a merecer este privilégio. Outros teólogos como Cornélio Lápide e Francisco Suárez afirmam que José subiu aos céus em corpo e alma na ascensão de Jesus. O Papa Bento XIV limitou-se a afirmar que acreditava piedosamente que São José ressuscitou. A Igreja nunca se pronunciou a este respeito porque não é um artigo de fé. O próprio Bernardino de Sena afirma que: 'Podemos crer por devoção, e não por segurança temerária, que Jesus ornou o seu pai putativo com o mesmo privilégio concedido à sua santíssima Mãe, de modo que, como ela foi levada aos céus em corpo e alma, assim também no dia da ressurreição do Senhor Jesus, ressuscitou consigo o santíssimo José…'.

59. Em virtude da sua sublime paternidade, como podemos exprimir melhor a dignidade de José?

Quanto mais unido a Jesus, maior a dignidade, por isso sua dignidade só é superada por aquela de Maria e, portanto, é superior àquela dos Anjos. Jesus foi-lhe obediente e submisso, e José teve para com ele um relacionamento de pai, na educação, no afeto e na convivência. Portanto teve uma tarefa altíssima, pois cooperou no mistério da nossa redenção. O teólogo Francisco Suárez defende a dignidade de José afirmando: 'Considero que a missão de apóstolo constituiu o maior encargo entre os que existem na Igreja … Entretanto, não é improvável a opinião segundo a qual a missão de José é ainda mais perfeita, por ser de ordem superior… existem encargos ou ministérios da ordem da graça santificante e, nesse caso, considero os apóstolos em suma dignidade… porém existem ministérios que se encontram no limite da ordem da união hipostática, a qual é de per si mais perfeita… justamente nesta ordem, no meu modo de ver, está o ministério de São José, ou seja, no mais alto grau'. 

60. Qual a importância de José nos mistérios da nossa redenção? 

Antes de tudo devemos afirmar que ele participou como nenhuma outra pessoa, com exceção de Maria, no mistério na encarnação de Jesus, função esta que ele exerceu como esposo de Maria e com a sua paternidade. Sua cooperação foi, podemos dizer, indireta, enquanto esposo de Maria, mas necessária e, enquanto pai de Jesus, embora não participando diretamente, colaborou enquanto nutriu, protegeu e educou Jesus, compartilhando com ele vários anos de sua vida. Deus confiou-lhe Jesus e Maria, os tesouros mais preciosos, e por isso a sua missão foi aquela de servir a economia da salvação, ao desígnio da redenção que se iniciou com a encarnação.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)