segunda-feira, 16 de setembro de 2019

DA PRÁTICA DA PACIÊNCIA COMO SACRIFÍCIO PERFEITO

1. A obra da paciência é uma obra perfeita. Pela paciência, oferecemos a Deus um sacrifício perfeito; porque sofrendo as tribulações e contrariedades, nada fazemos de nosso, senão aceitar de suas mãos as cruzes que o Senhor nos envia. Donde diz o Sábio: 'Quem padece com paciência, é melhor do que o varão forte' (Pv 16, 32). Um será forte em promover e sustentar alguma obra pia, mas depois não terá paciência de sofrer as adversidades; melhor seria para ele, se fosse mais valoroso em sofrer tudo com paciência, do que em empreender grandes obras. 

Estamos neste mundo para adquirir merecimentos e, por isso, esta terra não é lugar de repouso, mas de fadigas e de padecimentos, porque os merecimentos não se ganham com descanso, mas com trabalhos; e todo aquele que aqui vive, seja justo, seja pecador, há de sofrer alguma pena. A este falta uma coisa, àquele falta outra; um será nobre mas baldo dos bens da fortuna; outro será rico e nobre, mas lhe faltará a saúde. Em suma, todos, ainda os soberanos tem que sofrer; e até para estes, porque são os maiores desta terra, maiores também são os seus trabalhos. Todo o nosso bem consiste pois em sofrer com paciência as nossas cruzes. 

É por isso que o Espírito Santo nos adverte que não imitemos os brutos, que se iram quando não podem conseguir satisfazer os próprios apetites . Não façais como o cavalo e o mulo destituídos de razão. E para que serve nos inquietarmos nas contrariedades, senão para aumentar os nossos males? O bom e o mau ladrão morreram ambos crucificados com as mesmas penas; mas porque aquele abraçou os sofrimentos com paciência, se salvou; e este porque os padeceu com impaciência e desespero, se condenou. Lá disse Santo Agostinho: 'o mesmo trabalho manda os bons para a glória, porque o aceitam com resignação, e os maus para o inferno, porque o sofrem com impaciência'. 

2. Muitas vezes acontece que aquele que foge da cruz que Deus lhe envia, encontra outra muito maior. Sucede-lhe o que dizia o santo Jó: 'Os que temem a neblina, ficam acabrunhados pela neve (Jó 6,16). Diz aquela religiosa: 'Tirai-me deste emprego e dai-me outro' [o texto foi dirigido originalmente à orientação espiritual de religiosas]. Não se lembra a mísera que vai sofrer muito mais no tal ofício do que no primeiro e com pouco ou nenhum merecimento. Não façais assim. Abraçai o trabalho e a tribulação que Deus vos impõe porque assim alcançareis mais merecimentos e sofrereis menos; ou ao menos sofrereis em paz, sabendo que fazeis a vontade de Deus e não a vossa. 

Fiquemos persuadidos do que diz Santo Agostinho: 'toda a vida do cristão há de ser uma contínua cruz'. Tal deve ser sobretudo a vida das religiosas que querem santificar-se. São Gregório Nazianzeno diz que as almas nobres põem sua riqueza em serem pobres, sua glória em serem desprezadas e seu prazer em se privarem dos prazeres terrenos. Por isso pergunta São João Clímaco: 'Qual é a verdadeira religiosa?' e responde que 'é aquela que se faz uma violência perpétua'. E quando terminará esta violência? Quando terminar a vida. Assim responde São Próspero nestes termos: 'o combate cessa quando está segura a vitória, pela entrada no reino eterno'. 

Além disso, se vos lembrais de ter ofendido a Deus no passado e desejais vos salvar, deveis regozijar-vos de ver que Deus vos faz sofrer nesta terra, segundo o pensamento de São João Crisóstomo: 'o pecado é um abcesso na alma; se o ferro da tribulação não vier tirar o humor corrompido, a alma está perdida. Ai daquele, que depois de ter pecado, não é punido nesta vida'. 

3. Compreendei bem, diz Santo Agostinho que, quando o Senhor vos envia padecimentos nesta vida, procede como o médico: a tribulação que vos manda, não é castigo resultante da vossa condenação, mas remédio para a vossa salvação . Pelo que deveis agradecer a Deus, quando vos castiga, porque é sinal que vos ama e recebe por filha. Deus castiga aqueles que ama, diz São Paulo, fere com a vara a todos os que põe no número de seus filhos. Dai esta advertência de Santo Agostinho: 'estais atribulados? Reconhecei o pai que vos corrige'. 

'Ao contrário', diz o mesmo santo doutor, 'ai de vós, se depois de terdes pecado, Deus vos isenta dos castigos nesta vida! É sinal que vos exclui do número de seus filhos'. Não continueis pois a dizer, quando vos virdes atribuladas, que Deus se esqueceu de vós: dizei antes que esquecestes dos vossos pecados. Todo aquele que ofendeu a Deus, deve fazer-lhe esta oração de São Boaventura: 'correi, Senhor, e feri os vossos servos com as feridas de amor e de salvação, para que não tenhamos de receber os golpes da vossa cólera e da morte eterna'. 

Estejamos bem convencidos, Deus não nos envia as tribulações e as cruzes para nos perder, mas para nos salvar; se nós não nos aproveitamos delas, a culpa é toda nossa. O Senhor disse pelo profeta Ezequiel que os israelitas se tornaram como ferro e chumbo no meio da fornalha. Eis como São Gregório explica estas palavras: 'Eu procurei purificá-los para os converter em ouro pelo fogo da tribulação, mas eles se tornaram de chumbo'. 

Tais são os pecadores que, depois de ter merecido muitas vezes o inferno, se impacientam por se verem flagelados, e se irritam e ousam até pretender acusar a Deus de injustiça e tirania. Destes há alguns que chegam a dizer: 'Senhor, eu não sou o único que vos ofendi, e parece que só de mim vos vingais: sou fraco e não tenho forças para suportar tamanha cruz!' Desgraçado, que quer dizer isto? Afirmais que não fostes o único que ofendeu a Deus? Se outros também o ofenderam, e Deus quer usar de misericórdia com eles, também os punirá nesta vida. Não sabeis que o maior castigo de Deus para o pecador, é não puni-lo nesta terra? 

Considerai as palavras que disse pelo profeta Ezequiel: 'Eu não tenho mais zelo pela tua alma, e por isso descansarei e não me verás irado contra ti, enquanto viveres' (Ez 16,42). Mas diz São Bernardo: 'Deus nunca está tão irado como quando não se irrita contra o pecador e não o castiga'. Daí o santo assim orava: 'Senhor, eu desejo que me trateis como Pai de misericórdia, e por isso vos rogo que me castigueis pelos meus pecados nesta terra e me preserveis das penas eternas'. Vós dizeis: Não tenho forças para suportar tamanha cruz? Mas, se vos faltam as forças, porque não as pedis a Deus? Ele prometeu dar auxílio a todos que o rogarem (Mt 7,7).

(Excertos da obra 'A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo', de Santo Afonso Maria de Ligório)

domingo, 15 de setembro de 2019

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS


'Tornarei os vossos descendentes tão numerosos como as estrelas do céu; e toda esta terra de que vos falei, eu a darei aos vossos descendentes como herança para sempre' (Ex 32 7,13)

sábado, 14 de setembro de 2019

14 DE SETEMBRO - EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ


'Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim' (Jo 12, 32)

A festa da Exaltação da Santa Cruz tem origem na descoberta do Sagrado Lenho por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, e na dedicação de duas basílicas construídas por ele, uma no Calvário e outra no Santo Sepulcro, dedicação esta realizada no dia 14 de setembro do ano de 335. No ano de 629, a celebração tomou grande vulto com a restituição da Santa Cruz pelo imperador Heráclio, retomada dos persas que a haviam furtado. Levada às costas pelo próprio imperador, de Tiberíades até Jerusalém, a Santa Cruz foi entregue, então, ao Patriarca Zacarias de Jerusalém.


O imperador Constantino e sua mãe, Santa Helena, veneram a Santa Cruz 

Conta-se, então, que o imperador Heráclio, coberto de ornamentos de ouro e pedrarias, não conseguia passar com a cruz pela porta que conduzia até o Calvário; quanto mais se esforçava nesse sentido, mais parecia ficar retido no mesmo lugar. Zacarias, diante desse fato, ponderou ao imperador que a sua ornamentação luxuosa não refletia a humildade de Cristo. Despojado, então, da vestimenta, e com pés descalços, o imperador completou sem dificuldades o trajeto final, encimando no lugar próprio a Cruz no Calvário, de onde tinha sido retirada pelos persas.

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo converteu a Cruz de um objeto de infâmia e repulsa na glória maior da fé cristã. A Festa da Exaltação da Cruz celebra, portanto, o triunfo de Jesus Cristo sobre o mundo e a imprimação do Evangelho no coração de toda a humanidade.

SALVE CRUX SANCTA

Salve, crux sancta, salve mundi gloria,
vera spes nostra, vera ferens gaudia,
signum salutis, salus in periculis,
vitale lignum vitam portans omnium.

Te adorandam, te crucem vivificam,
in te redempti, dulce decus sæculi,
semper laudamus, semper tibi canimus,
per lignum servi, per te, lignum, liberi.

Originale crimen necans in cruce
nos a privatis, Christe, munda maculis, 
humanitatem miseratus fragilem 
per crucem sanctam lapsis dona veniam.

Protege salva benedic sanctifica 
populum cunctum crucis per signaculum, 
morbos averte corporis et animae 
hoc contra signum nullum stet periculum.

Sit Deo Patri laus in cruce filii 
sit coequalis laus sancto spiritui, 
civibus summis gaudium et angelis 
honor sit mundo crucis exaltatio. Amen.



Salve Santa Cruz, salve ó glória do mundo, nossa verdadeira esperança que traz verdadeira alegria, sinal da salvação, proteção nos perigos, árvore viva que suporta a vida de todos nós. 

Nós vos adoramos, em vós nos vivificamos; por vós redimidos, no esplendor perene dos séculos, vos saudamos e louvamos para todo o sempre, escravos pelo lenho e, por vós, ó Lenho, libertados.

Vós que vencestes o pecado original na cruz, livrai-nos, ó Cristo, de nossas próprias culpas, tende piedade da nossa miséria humana e, pela Santa Cruz, perdoai os que caíram.  

Protegei, salvai, abençoai e santificai todo o vosso povo pelo Sinal da Cruz, protegei-nos contra todo o mal do corpo e da alma e que perigo algum prevaleça diante este Sinal.

Louvado seja Deus Pai na Cruz do seu Filho! Louvor igual seja dado ao Espírito Santo! Que a Exaltação da Cruz seja a suprema alegria dos eleitos e dos anjos no Céu e um esplendor de glória para o mundo. Amém.
(tradução do autor do blog)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

POEMAS PARA REZAR (XXXIII)


Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te.
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-te o vulto em toda a parte.

Tu que habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.

Que é necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.

Que chegue em breve o passado derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a alma, que não morre, o Céu inteiro!

(Alphonsus de Guimaraens)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

AS TRÊS VIRTUDES DA PERFEIÇÃO CRISTÃ


'Há, além disso, três virtudes que aperfeiçoam a pessoa devota no que diz respeito ao controle dos seus próprios sentidos. Estas são: a modéstia, a continência e a castidade. Pela virtude da modéstia, a pessoa devota governa todos os seus atos exteriores. Com razão, então, São Paulo recomendou esta virtude a todos e declarou como é necessária e como se isso não bastasse, ele considera que esta virtude deveria ser óbvia para todos. 

Pela continência, a alma exercita a retenção de todos os sentidos: visão, tato, paladar, olfato e audição. Pela castidade, uma virtude que enobrece a nossa natureza e faz com que seja semelhante à dos anjos, nós suprimimos a nossa sensualidade e a afastamos dos prazeres proibidos. Este é o retrato magnífico da perfeição cristã. Feliz aquele que possui todas estas belas virtudes, todas elas frutos do Espírito Santo que habita dentro dele. Essa alma não tem nada a temer e vai brilhar no mundo como o sol no céu'.

(São Pio de Pietrelcina)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

PALAVRAS ETERNAS (II)

'Nimm mich mir, und gib mich Dir' 


'Senhor, tomai-me de mim e dai-me a Vós'
(São Nicolau de Flüe)


terça-feira, 10 de setembro de 2019

AS 5 VIRTUDES DA INFÂNCIA ESPIRITUAL

Nosso Senhor disse aos seus Apóstolos: 'se vos não converterdes e vos não tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus' (Mt 18,3). São Paulo acrescenta: 'o Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus (Rm 8, 16) e nos aconselha frequentemente a uma grande docilidade ao Espírito Santo. Esta docilidade encontra-se particularmente na via da infância espiritual, recomendada por muitos santos e, ultimamente, por Santa Teresa do Menino Jesus. Esta via, tão fácil e proveitosa para a vida interior, é muito pouco conhecida e seguida.

Por que pouco seguida? Porque muitos imaginam erroneamente que esta é uma via especial, reservada às almas que se conservaram completamente puras e inocentes; e outros, quando lhes falamos desta via, pensam em uma virtude pueril, uma espécie de infantilidade, que não poderia lhes convir. Estas idéias são falsas. A via da infância espiritual não é nem uma via especial nem uma via de puerilidade. A prova é que foi Nosso Senhor, ele mesmo, quem a recomendou a todos, mesmo àqueles responsáveis pelas almas, como os Apóstolos formados por Ele.

Para se ter uma visão de conjunto da via da infância espiritual, é preciso de início notar suas semelhanças e, em seguida, suas diferenças com a infância corporal. As semelhanças são patentes. Quais as qualidades inatas das crianças? Em geral, elas são simples, sem nenhuma duplicidade; são ingênuas, cândidas, não representam, mostram-se tais como são. Ademais, têm consciência de sua deficiência, pois precisam receber tudo de seus pais, o que as dispõe à humildade. São levadas a crer simplesmente em tudo o que dizem as suas mães, a depositar uma confiança absoluta nelas e a amá-las de todo seu coração, sem cálculo.

Quais as diferenças entre a infância ordinária e a infância espiritual? A primeira diferença é notada por São Paulo: 'não sejais crianças na compreensão, mas sede pequeninos na malícia' (1Cor 14, 20). A infância espiritual se distingue da outra pela maturidade do julgamento e de um julgamento sobrenatural inspirado por Deus. Uma segunda grande diferença é indicada por São Francisco de Sales: na ordem natural, quanto mais o filho cresce, mais ele tem de se tornar auto-suficiente, pois um dia seu pai e sua mãe lhe faltarão. Ao contrário, na ordem da graça, quanto mais o filho de Deus cresce, mais ele compreende que não poderá jamais se bastar e que dependerá sempre intimamente de Deus. Quanto mais ele cresce, mais ele deve viver da inspiração especial do Espírito Santo, que vem suprir por seus dons a imperfeição de nossas virtudes, de modo que, no fim, o filho de Deus torna-se mais passivo sob a ação divina do que entregue à sua atividade pessoal e no fim entra no seio do Pai, onde encontrará a beatitude por toda a eternidade.

Os moços e as moças, quando chegam à idade adulta, deixam seus pais para viverem suas vidas; mais tarde, o homem de quarenta anos vem com bastante frequência visitar a sua mãe, mas ele não depende dela como antes; é ele agora que a sustenta. Ao contrário, o filho de Deus, ao crescer, se é fiel, torna-se mais e mais dependente de seu Pai, até que nada faça sem ele, sem suas inspirações ou seus conselhos. Então, toda a sua vida é banhada pela oração; é a melhor parte que não lhe será tirada. Santa Teresinha de Lisieux o compreendeu assim. Ela, após ter atravessado a noite do espírito, chegou desse modo à união transcendental nela. Tais são as características gerais da infância espiritual: suas semelhanças e suas diferenças com a infância corporal.

Vejamos agora as principais virtudes que se manifestam nela. De início, a simplicidade, a ausência total de duplicidade. Por que? Porque o olhar desta alma não procura senão a Deus e vai direito a ele. Assim, verifica-se aquilo que é dito no Evangelho: 'O teu olho é a luz do teu corpo; se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luz; mas se o teu olho for mau, todo o teu corpo estará em trevas' (Mt 6, 22). Do mesmo modo, se a intenção de tua alma é simples e direta, pura e sem duplicidade, toda a tua vida será iluminada como o rosto de uma criança. Então, a alma simples, que tudo sempre considera com relação a Deus, acaba por vê-lo nas pessoas e eventos; em tudo o que acontece, ela vê aquilo que é desejado por Deus, ou, ao menos, o que é permitido por ele para um bem superior.

Humildade. Ao seguir esta via, a alma torna-se humilde. A criança tem consciência de sua deficiência, ela depende de sua mãe para tudo e pede constantemente sua ajuda ou se refugia perto dela à menor ameaça. Do mesmo modo, o filho de Deus sente que, deixado a si mesmo, ele não é nada; ele se lembra com frequência das palavras de Jesus: 'sem mim, não há nada que possais fazer' (Jo 15, 5). E assim, ele tem uma necessidade instintiva de se esquecer de si mesmo, de depender de Nosso Senhor, de se abandonar a Ele. A alma cessa de se estimar de modo vão, de querer ocupar um lugar no espírito dos outros; ela desvia seu olhar de si mesma. Por causa disso, ela combate muito eficazmente o amor próprio. E, com o sentimento de sua deficiência, ela experimenta a necessidade de se apoiar constantemente em Nosso Senhor e de ser em tudo guiada e dirigida por ele. Ela se lança em seus braços, como a criança nos braços de sua mãe. Por isso, o espírito de oração se desenvolve muito nela.

Fé. Assim como o filho crê sem hesitar e firmemente em tudo o que sua mãe lhe diz, o filho de Deus, acima de todo raciocínio, de todo exame, baseia-se totalmente na palavra de Nosso Senhor. 'Jesus o disse', seja por si mesmo, seja por sua Igreja, isto é suficiente para que ele não tenha nenhuma dúvida em seu espírito. Que se segue? Assim como a mãe fica feliz em poder instruir seu filho, tanto mais quanto ele se mostrar atento, Nosso Senhor se compraz em manifestar a profunda simplicidade dos mistérios da fé aos humildes que o escutam. Ele dizia: 'Eu te dou graças, ó Pai, por ter escondido estas coisas dos prudentes e dos sábios e de as ter revelado aos pequenos' (Mt 11, 25). A fé dessa alma torna-se então penetrante, saborosa, contemplativa, radiante, prática, fonte de mil conselhos excelentes. O espírito da fé leva a ver os mistérios revelados, as pessoas, os fatos como Deus os vê; vê-se Deus em tudo. Mesmo que o Senhor permita a noite escura, a alma a atravessa segurando sua mão, como o filho segura a mão de sua mãe, que a protege.

A confiança torna-se, desde então, mais e mais firme, inteira. Por que? Porque ela repousa no amor de Deus por nós, em suas promessas, nos méritos infinitos de Nosso Senhor. Como a criança está segura de sua mãe, porque se sabe amada por ela, a alma de que falamos está segura de Deus. Ela não pode duvidar de sua fidelidade em manter suas promessas: pedi e recebereis. Ela não se baseia em seus próprios méritos, em sua sorte pessoal, mas nos méritos infinitos do Salvador, que são para ela; do mesmo modo, os bens do pai são para seus filhos que ainda não possuem bens pessoais. A fragilidade a desencoraja? De modo algum. O filho não se desencoraja por causa de sua deficiência. 

Ao contrário, ele sabe que, por causa de sua impotência, é que sua mãe está sempre pronta para protegê-lo. Do mesmo modo, Nosso Senhor sempre protege os pequenos e os pobres que se fiam nele. O Espírito Santo, que ele nos enviou, é chamado Pater pauperum [Pai dos pobres]. Esta alma não confia senão em Deus, em Nosso Senhor e na Virgem, e naqueles que vivem de Deus, como a criança não confia senão em sua mãe e naquelas pessoas a quem sua própria mãe o confia por um momento. É uma confiança total, mesmo nas horas mais graves. Nós nos lembramos então do que dizia Santa Teresinha: 'Senhor, vós a tudo vedes, tudo podeis, e vós me amais'. O único temor desta alma é o de não amar o bastante a Nosso Senhor, de não se abandonar totalmente a Ele.

A caridade é o amor de Deus por Ele mesmo e das almas em Deus, para que elas o glorifiquem no tempo e na eternidade. A criança pequena ama sua mãe de todo o seu coração, mais que os carinhos que recebe dela; ela vive de sua mãe. Do mesmo modo, o filho de Deus vive de Deus e o ama por si mesmo, por causa das infinitas perfeições que nele transbordam. O que este filho de Deus ama não é a sua própria perfeição, mas o próprio Deus, sobre o qual ele se apóia. A este amor ele refere tudo, é um amor delicado, simples, que inspira a piedade filial e uma grande caridade pelo próximo, na medida em que este é amado por Deus e chamado a o glorificar eternamente. O filho de Deus, porém, é tão prudente como simples: simples com Deus e as almas de Deus, ele está sob a inspiração do dom de conselho e é prudente com aqueles em quem não podemos ter confiança. Ele é deficiente, mas é do mesmo modo forte, pelo dom de fortaleza que se manifestou nos mártires, e até nas jovens virgens e nos velhos. 

(Pe. Garrigou-Lagrange, 1945; tradução Revista Permanência)

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXXVIII)

IV

DAS GRAÇAS E PRIVILÉGIOS COM QUE DEUS ENOBRECEU A NATUREZA HUMANA UNIDA AO VERBO NA ENCARNAÇÃO. GRAÇA HABITUAL OU SANTIFICANTE, VIRTUDES E DONS DO ESPÍRITO SANTO — GRAÇAS GRATIS DATAE

Existem na natureza humana e nas faculdades da alma, unidas à pessoa do Verbo, dons criados de ordem gratuita?
Sim, Senhor; porém, não se lhe concederam para que ela pudesse unir-se à pessoa divina, senão como efeito de união tão sublime e transcendente (VI, 6)*.

Quais são?
Na essência da alma, a graça habitual; nas potências, todas as virtudes, exceto a fé e a esperança; todos os dons do Espírito Santo e todas as graças gratis datae, cujo objeto é manifestar ao mundo a verdade divina, sem excetuar a profecia no que propriamente ela tem do estado profético (VII, 1-8).

Que objeto tem a graça habitual na alma com Cristo?
Tem e terá por toda a eternidade o de fazê-la participante da essência divina e, derivando-se nas potências, fazer que possua os princípios sobrenaturais da ação, alma das virtudes (VII, 1).

Por que dizeis que a alma de Cristo possui todas as virtudes, exceto a fé e a esperança?
Porque estas duas virtudes supõem alguma coisa de imperfeito, incompatível com a perfeição da alma de Cristo (VII, 3, 4).

Em que consiste esta imperfeição?
Em que a fé supõe que não se compreende o que se crê, e a esperança impele para Deus os que O não possuem (Ibid).

Que entendeis por graças gratis datae?
Certos privilégios catalogados por São Paulo na primeira Epístola aos Coríntios (cap. XII, V-8 e seguintes), a saber: fé, sabedoria, ciência, graça de curar enfermos, de fazer prodígios, discernimento de espírito, diversidade de idiomas e interpretação de palavras (VII, 7).

A fé, graça gratis data, é distinta da fé virtude?
Sim, Senhor; porque, como graça gratis data, consiste numa segurança e certeza extraordinárias das verdades reveladas que habilitam o homem a ensiná-las com fruto (l.a 2, CXI, 4 ad 2).

As graças de ciência e sabedoria são distintas das virtudes intelectuais e dons do Espírito Santo do mesmo nome?
Sim, Senhor; porque consistem em certa abundância de luz e sabedoria, em virtude da qual o homem se encontra apto não só para discorrer acertadamente em coisas divinas, como para instruir os outros e refutar os erros (l.a, 2, CXI, 4 ad4).

Jesus Cristo utilizou neste mundo a graça gratis data chamada diversidade de línguas?
Não teve necessidade disso, visto que exerceu o ministério do apostolado só entre os judeus ou entre os gentios que conheciam a sua língua; todavia, possuía-a em grau eminente e, se a oportunidade se apresentasse, a teria utilizado (VII, 7 ad 3).

Que significa que Jesus Cristo possuiu a graça da profecia no que propriamente ela tem do estado profético?
Considerando que a vida de Jesus Cristo neste mundo era igual à nossa, estava, neste sentido, incomunicado com o céu, e, por conseguinte, com as verdades divinas de que falava, ainda que a parte superior de sua alma visse e gozasse os mistérios ocultos em Deus: anunciar, pois, o que naturalmente não se pode saber é próprio e característico da profecia (VII, 8).

Que relação guardam as graças gratis data com a graça habitual e com as virtudes e os dons?
A graça habitual, as virtudes e os dons têm por objeto santificar a quem os possui e as graças gratis datae, habilitar a quem exerce junto ao próximo, o ministério do Apostolado (1.ª, 2, CXI, 1, 4).

Pode o homem possuir um destes gêneros de graças sem possuir o outro?
Sim, Senhor, a que todos os justos possuem, graça habitual ou santificante, conjuntamente com as virtudes e os dons inseparáveis dela; porém as gratis data são mercês que se fazem aos destinados a exercer algum ministério. Nestes costumam andar unidas, mas também podem estar separadas, como sucedeu com Judas, que era um malvado, e, apesar disso, possuía as graças gratis data conferidas a todos os Apóstolos.

Possuía Cristo, simultaneamente, todos os ditos gêneros de graças e no mais alto grau de perfeição?
Sim, Senhor (VII, 1, 8).

Por que?
Porque a sua dignidade pessoal era infinita, e era, além disso, o Doutor por excelência em matéria de fé (VII, 7).

V

DA PLENITUDE DA GRAÇA CONCEDIDA À NATUREZA HUMANA DO FILHO DE DEUS

Podemos dizer que na humanidade de Cristo atingiu a graça toda a sua plenitude?
No sentido de que não há graça que Ele não tivesse e de que possuiu todas as graças no grau mais eminente possível, sim, Senhor (VII, 10).

Exigia a humanidade de Cristo tal plenitude de graça?
Sim, Senhor; por sua união pessoal com Deus, fonte e origem da graça, e pelo objeto da vinda de Cristo, que foi fazer os homens participantes da sua graça (VII, 10).

Poderemos dizer que a natureza humana de Jesus Cristo teve graça infinita?
De certo modo, sim Senhor; a graça de união é infinita no sentido mais amplo da palavra, visto que consiste no assumir a natureza humana para subsistir com a subsistência da Pessoa divina. A graça habitual, com seu séquito de virtudes e dons, excede, incomparavelmente, no plano atual da Providência divina, aquela que tiveram e terão todos os demais seres juntos, ainda que em si mesma é finita, visto ser coisa criada (VII, 11).

Podia ser aumentada a graça inicial de Cristo?
Em absoluto, sim, Senhor; o poder de Deus é infinito; considerada, porém, a atual ordem divina, não podia ser aumentada (VII, 12).

Que conexões têm a graça habitual com a de união?
A de ser efeito seu e proporcional a ela (VII, 13).

Que nome tem a graça de união, causa e princípio de todas as outras?
Tem o nome de graça de união hipostática, de uma palavra grega que significa pessoa, pois, como temos dito, consiste no fato único, incompreensível, obra do Filho de Deus, de acordo com o Pai e o Espírito Santo, de conferir à natureza humana um excesso de honra e dignidade, unindo-a imediatamente à divina na pessoa do Verbo.

VI

DA GRAÇA CAPITAL PRÓPRIA DA NATUREZA HUMANA ASSUMIDA PELO FILHO DE DEUS FEITO HOMEM

Além da graça habitual ou santificante, com seu cortejo de virtudes e dons e das graças gratis datae conferidas à natureza humana de Cristo em atenção à graça de união hipostática, e tendo em conta o objeto da vinda do Salvador (graça que convinha a Cristo pessoalmente como indivíduo distinto dos outros) não teve Ele outra, chamada capital, como chefe e cabeça de seu corpo místico que é a Igreja?
Sim, Senhor (VIII).

Que entendeis ao dizer que Jesus Cristo é cabeça e chefe do seu corpo místico, a Igreja?
Que o Verbo Encarnado é o ser mais próximo de Deus, possui a perfeição absoluta e a plenitude de todas as graças, e tem o poder de comunicá-las a todos aqueles que, por qualquer título, estejam incorporados à ordem da graça (VIII, 1).

É Jesus Cristo chefe da Igreja somente quanto à alma ou também o é quanto ao corpo?
Também o é quanto ao corpo, e isso quer dizer que a alma e o corpo de Cristo são instrumentos da divindade para distribuir os bens sobrenaturais, principalmente nas almas, mas também nos corpos; aqui na terra, para que o corpo auxilie a alma na prática da virtude e, no céu, para receber a parte de glória e imortalidade que lhe corresponde (VIII, 2).

É Jesus Cristo cabeça de todos os homens no sentido que acabamos de explicar?
Sim, Senhor; pois se bem que aqueles que tiveram a desgraça de morrer na impenitência final não são membros seus e estão separados Dele por toda a Eternidade, em compensação o é de uma maneira particularíssima dos que morreram em graça e desfrutam agora das doçuras da glória; é-o também de todos aqueles que, unidos a Ele por meio da graça, estão no Purgatório, ou vivem neste mundo; dos que lhe estão unidos pelos laços da fé, embora não possuam a caridade; dos que nem ainda pela fé lhe estão incorporados, mas o estarão algum dia, em conformidade com os decretos da divina predestinação; é-o, finalmente, de quantos vivem neste mundo pois, enquanto ainda aqui estão, têm capacidade para ser membros seus, embora de fato nunca cheguem a sê-lo (VIII, 3).

Podemos dizer que Jesus Cristo é também chefe e cabeça dos anjos?
Sim, Senhor; porque é o primeiro entre todas as criaturas chamadas a participar da visão beatífica, possui a plenitude da graça, e da sua plenitude participam todos (VIII, 4).

A graça capital de Cristo, com a extensão que acabamos de expor, identifica-se com a sua própria graça pessoal, como tal, homem determinado, distinto dos outros homens e com maior razão, dos anjos?
Sim, Senhor; no fundo e na essência é a mesma graça, porém recebe os nomes de graça pessoal e capital pela dupla função que desempenha: enquanto aperfeiçoa a natureza humana do Filho de Deus chama-se pessoal; e capital, enquanto se comunica aos que Dele dependem (VIII, 5).

É próprio e exclusivo de Cristo ser chefe e cabeça da Igreja?
Sim, Senhor; pois, no que respeita à comunicação dos bens interiores da graça, só a humanidade de Cristo pode justificar interiormente ao homem, atenta a sua união hipostática com a divindade; tratando-se do governo exterior da Igreja, podem intervir, e de fato intervém os homens, que, com hierarquia e títulos diferentes, governam ou seja uma parte, como os bispos as suas dioceses, ou toda a Igreja Militante, como o Soberano Pontífice durante o seu pontificado; porém, tendo sempre presente que estes superiores se limitam a exercer o cargo de vigários e lugares tenentes do único superior efetivo, Jesus Cristo, em cujo nome governam (VIII, 6).

Logo, Jesus Cristo, concentra e cumula em si mesmo toda a obra da Redenção e santificação dos homens?
Sim, Senhor.

Assim como Jesus Cristo é superior e cabeça dos bons, existe também um chefe dos maus, cujos intentos são fomentar as suas rebeldias contra Deus e conduzi-los à perdição eterna?
Sim, Senhor; é Satanás, caudilho dos anjos rebeldes (VIII, 7).

Em que sentido dizemos que o demônio é o superior do império do mal, como Jesus Cristo o é da sua Igreja?
No sentido de que Satanás pode infundir intrinsecamente a maldade, à maneira como Jesus Cristo infunde o bem, com a diferença que, no governo e disposição dos sucessos, ele se esforça por apartar aos homens de Deus, ao passo que Jesus Cristo se esforça por uni-los a Deus; e também, em que o pecador imita a rebeldia e orgulho de Satanás, como o justo a submissão e obediência de Cristo (Ibid).

Logo, é certo que, como consequência desta oposição, existe um empenhado duelo pessoal entre Jesus Cristo, chefe dos bons e Satanás, caudilho dos maus, cujas origens explicam o estado de luta perpétua e incompatibilidade irredutível entre bons e maus em todos os períodos da história?
Certamente que sim.

Virão tempos em que esta guerra adquirirá tais caracteres de violência que pareça que Satanás tenha concentrado toda a sua malícia e poder destruidor num só indivíduo, assim como o Filho de Deus acumulou a sua potência redentora na natureza humana que uniu à sua divina Pessoa?
Sim, Senhor; isto sucederá durante o reinado do Anticristo.

Logo, o Anticristo terá qualidades e títulos especiais para ser chefe dos maus?
Sim, Senhor; porque terá maior quantidade de malícia que homem algum antes dele teve, será o agente mais ativo e competente de Lúcifer e se esforçará em perder os homens e em acabar com o reino de Cristo, com tenacidade e meios de destruição dignos do chefe dos demônios (VIII, 8).

Que partido devem tomar os homens diante da luta perene e irredutível entre os dois chefes do gênero humano?
O de não pactuar em coisa alguma com o demônio e seus satélites e o de alistar-se debaixo das bandeiras de Cristo e, às suas ordens, lutar como valentes e não abandoná-las jamais.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

domingo, 8 de setembro de 2019

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS


'Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto lhe enviasses teu santo espírito? Só assim se tornaram retos os caminhos... e os homens aprenderam o que te agrada e pela Sabedoria foram salvos' (Sb 9, 17-18)

sábado, 7 de setembro de 2019

OREMUS (250)

A sequência completa destes pensamentos e reflexões é publicada diariamente na Página OREMUS na Biblioteca Digital deste blog.

07 DE SETEMBRO

Intra in cubiculum tuum [entra no teu aposento (quarto) (Mt 6,6)]

Não posso viver enclausurado em mim mesmo, pensando apenas em me santificar. Não sou sacerdote para mim, mas para as almas que me foram confiadas. E o trabalho é tanto! Em toda parte, a todo momento, ele está à minha espera, exigindo todo o meu tempo e todas as minhas forças.

Mas não posso esquecer que um trabalho contínuo deve ser uma contínua oração. Se não for assim, nenhum valor terá toda a atividade com que eu encher os meus dias. Por isso tenho que estabelecer em minha alma esse cubiculum [aposento], onde eu viva enclausurado com o meu Deus, em meio a todas as preocupações que me cercam. Enquanto elas gritam, exigindo minhas atenções, querendo transformar a minha vida numa agitação desordenada, Deus irá orientar o meu trabalho e dele receberei a paciência, a coragem e a reta intenção.

Mesmo assim, eu sei que, com o tempo, vão se afrouxando os laços que me prendem a Deus. Preciso apertá-los, de vez em quando; e a meditação, o Breviário e a leitura espiritual muito me irão ajudar nesse trabalho. Não seria, porém, demais, se mensalmente eu pudesse passar um dia menos ocupado com o trabalho exterior, para estar mais a sós com a minha consciência. Com um pouco de esforço e boa vontade,  isso não será tão difícil. E o resultado será dos melhores.

(Oremus — Pensamentos para a Meditação de Todos os Dias, do Pe. Isac Lorena, 1963, com complementos de trechos traduzidos do latim pelo autor do blog).

PRIMEIRO SÁBADO DO MÊS


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

PALAVRAS ETERNAS (I)

'Moriar, Domine, amore amoris tui, 
qui amore amoris mei dignatus es mori' 


'Que eu morra, Senhor, pelo amor do vosso amor, vós que, 
pelo amor do meu amor, vos dignastes morrer'

(oração que rezava o sacerdote quando recebia o crucifixo na imposição da batina)

PORQUE HOJE É A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (XX/Final)


96. Se na atualidade a arte sacra tem contribuído para uma imagem de um São José mais bíblico, o mesmo tem feito a arte profana?

Evidentemente que a arte profana tem pouco se interessado deste campo; contudo, um dos grandes meios de penetração e de formação de opinião na sociedade, o cinema, não deixou de registrar através do filme 'Jesus de Nazaré' de Franco Zeffirelli, a importância de São José na história da encarnação de Jesus, inserindo-o na árvore genealógica de Davi, dando-lhe assim o fundamento jurídico ao seu título de Messias. Zeffirelli apresenta um José atraente e jovem com a missão de pai de Jesus e protetor de Maria, inserido dentro de uma família normal e exercendo a sua profissão de carpinteiro. Um indivíduo humanamente completo, enriquecido de uma grande religiosidade que o tornava dócil aos planos de Deus. Entretanto, se bem que o perfil humano de José apresentado no filme seja bem conduzido, todavia deixa a desejar no aspecto teológico, pois apresenta José desconhecedor do mistério da gravidez de Maria e, portanto suspeito de sua honestidade, buscando inclusive uma solução para o impasse com o conselho de um rabino. Omite também o anúncio do Anjo a José durante o sono, não evidenciando que ele era divinamente guiado. Contudo, muitos valores da pessoa e da missão de José não passaram desapercebidos. 

97. Olhando a história, percebemos que houve um crescimento na reflexão sobre a pessoa de São José. A que ponto se encontra hoje os estudos josefinos?

Na verdade, o que se tem hoje organizado em nível internacional de estudos sobre São José é fruto de uma caminhada iniciada desde 1945 quando em Barcelona, junto ao Santuário de 'San José de La Montaña', foi organizado o primeiro Congresso Josefino com o intuito de se estudar São José. Depois, em 1947, por iniciativa dos Carmelitanos Descalços de Valladolid (Espanha), iniciou-se a publicação da primeira revista de pesquisas sobre São José, denominada de 'Estudios Josefinos'. Os mesmos Carmelitanos Descalços, em 1951, criaram a 'Sociedad Ibero-Americana de Josefologia', compreendendo as nações americanas de língua espanhola e portuguesa. Esta iniciativa, liderada por Pe. José Antonio Carrasco, foi tão válida que outras semelhantes surgiram em outros países. Por isso, em 1952, foi fundado, junto ao Oratório de São José em Montreal no Canadá, o 'Centro de Pesquisa e Documentação sobre São José', que passou a publicar no ano seguinte os Cahiers de Josephologie. Tudo evoluiu e, em 1962, o Pe. Roland Gauthier, grande estudioso de São José, fundou a Sociéte Nord-Américaine de Joséphologie do Canadá.

Outra iniciativa importante na promoção da teologia e do culto a São José surgiu em 1981 em Roma denominada 'Movimento Giuseppino', por meio da Congregação dos Oblatos de São José, fundada pelo Bem-aventurado José Marello. Da mesma forma, sob a responsabilidade de Pe. Tarcisio Stramare, um dos maiores conhecedores da Teologia Josefina, surgiu também na Itália, após a publicação da exortação apostólica Redemptoris Custos, o centro de formação Josefina para sacerdotes, religiosos e leigos denominado Meeting Point Redemptoris Custos. Surgiu também o centro de estudos josefinos de Kalisz denominado Studium Jozefologii Kaliszu na Polônia. Na América Latina, os missionários Josefinos do México fundaram o 'Centro de Estudios Josefinos' na cidade do México, passando, a partir de 1983, a ser denominado 'Centro de Documentación e de Estudios sobre San José de México'. Também em El Salvador em 1985 surgiu a 'Sociedade Centro Americana de Investigación e Divulgación de San José'. Todos estes centros de estudos publicam continuamente estudos sobre São José.

98. Existe alguma iniciativa em âmbito mundial de estudos sobre São José? 

Hoje existe uma teologia de São José chamada com o termo técnico de 'Josefologia'. Os estudos da teologia de São José são publicados pelos vários centros de estudos josefológicos de diversas maneiras. Recentes pesquisas apontaram que hoje existem mais de 8000 volumes publicados e catalogados sobre São José e, somados a estes, juntam-se vários grossos volumes publicados pelas semanas de estudos josefinos promovidas anualmente e os volumosos tomos de estudos publicados a cada três anos como resultado dos Simpósios Internacionais sobre São José Na verdade, estudiosos desta matéria teológica de todas as partes do mundo reúnem-se a cada três anos, num determinado país, para estudos, conferências, debates e exames do progresso desta matéria, constituindo-se assim, por meio da organização das sociedades e centros de estudos Josefinos da Europa e da América Latina, os 'Simpósios Internacionais sobre São José'. Desde 1970 até hoje, já foram realizados sete simpósios. O primeiro foi realizado em Roma em 1970 e abordou estudos sobre 'São José nos primeiros 15 séculos da Igreja', buscando assim a origem e os princípios fundamentais da teologia josefina. O segundo Simpósio Internacional foi realizando em Toledo (Espanha) em 1976 e estudou-se 'São José no Renascimento' (1450-1600). O terceiro ocorreu em Montreal (Canadá) em 1980 desenvolvendo 50 conferências sobre 'São José no século XVII'. O quarto Simpósio foi organizado em Kalisz (Polônia) em 1985 e o tema foi: 'São José no Seiscentos'. O quinto foi celebrado na cidade do México em 1989 e foi desenvolvido o tema: 'São José no século XVIII'. O sexto simpósio ocorreu novamente em Roma em 1993, junto ao Santuário Romano de São José al Trionfale e abordou estudos sobre 'São José no século XIX'. O sétimo simpósio internacional sobre São José realizou-se em 1997 em Malta e foi enfocado o estudo sobre: 'São José no século XX'. 

Todos estes simpósios foram realizados com estudiosos de São José, abordando o caminho percorrido ao longo dos séculos quanto aos estudos josefinos, constituindo-se assim uma preciosa coletânea de material indispensável para uma teologia josefina que se pretende colocar como científica para sociedade de hoje, exigente e pouco disposta a aceitar aquilo que não é devidamente documentado e sério. Tudo isso demonstra que nosso querido santo mais do que nunca encontra-se num lugar importante no coração da Igreja e dos homens.

99. A presença de São José no Brasil foi significativa desde o seu descobrimento? 

No Brasil, desde a colonização tanto os indígenas como os africanos adotaram exteriormente os elementos do culto católico impostos pelos colonizadores, especialmente as imagens dos santos, para poderem manter sob esta fachada ortodoxa a fé dos ancestrais; desta forma, escondiam o próprio ritual secreto e defendiam o seu patrimônio cultural e religioso. Por isso, houve também uma dificuldade de se implantar desde o princípio uma devoção a São José. Conjuntamente com isso, a devoção popular católica teve a sua alta expressão em Nossa Senhora, como de resto em toda a América, marcada pela presença dos colonizadores portugueses que manifestaram uma veneração a Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Prazeres, Nossa Senhora do Rosário… enquanto que o povo simples se identificou mais com Santo Antônio, São Jorge, São Cosme e Damião, São Sebastião… Entretanto isto não significa que, desde o princípio, São José não foi venerado; basta lembrar o grande número de localidades, províncias, cidades e depois, a partir do século XVIII, as igrejas, ermidas e capelas que tiveram São José como seu patrono. Salienta-se ainda que o nome José foi desde o início da colonização brasileira um dos mais populares entre as pessoas. Hoje encontramos dioceses, catedrais e cidades importantes brasileiras com o nome de São José; contudo não podemos constatar ainda de uma maneira organizada e conhecida racionalmente, um centro de irradiação e de estudos sobre São José, talvez porque este despertar para o conhecimento e a valorização do nosso santo é ainda uma iniciativa que está dando os seus primeiros passos. 

100. O Brasil, sendo um país de predominância católica e constituído por um povo de sensibilidade religiosa, não poderia promover uma iniciativa para a divulgação de São José? 

Sim e isto poderia dar-se sobretudo através das Congregações Religiosas Josefinas, tanto masculinas como femininas as quais, com maior ou menor intensidade, têm São José como protetor e modelo. Neste sentido a Congregação dos Oblatos de São José, fundada por São José Marello em 1878 em Asti (Itália) organizou e mantém o 'Centro de Espiritualidade Josefina' na cidade de Apucarana/PR, com a finalidade de se constituir um centro de irradiação da espiritualidade, da devoção, da iconografia e dos estudos de josefologia.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

AS DUAS FACES DA FÉ

A fé tem um só nome, mas duas maneiras de ser. Há um gênero de fé que se relaciona com os ensinamentos de Cristo e inclui a elevação de uma pessoa e sua concordância sobre determinado assunto; diz respeito ao interesse pessoal, conforme o Senhor: 'Quem ouve minhas palavras e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não incorre em condenação' (Jo 5,24) e 'Quem crê no Filho não será julgado, mas passa da morte para a vida' (Jo 3,18.24). 

Ó bondade imensa de Deus para com os homens! Com efeito, os justos foram agradáveis a Deus pelo trabalho de muitos anos. Mas aquilo que alcançaram, entregando-se corajosamente e por muitos anos ao serviço de Deus, isto mesmo em uma simples hora, Jesus te concede. Porque se creres que Jesus Cristo é Senhor e que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo e levado ao paraíso por aquele que nele introduziu o ladrão. E não hesites em acreditar ser isto possível, pois quem salvou o ladrão neste santo Gólgota, pela fé de uma só hora, pode também salvar-te a ti, se creres. 

O outro gênero é a fé que Cristo concede por graça especial. Pois a uns pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria, a outros a palavra da ciência, segundo o mesmo Espírito. A outros a fé, no mesmo Espírito, a outros o dom de curar (1Cor 12,8-9). Este carisma da fé dado pelo Espírito não se relaciona apenas com a palavra; torna ainda capaz de realizar coisas acima das forças humanas. Quem tiver uma fé assim, dirá a este monte: 'Vai daqui para ali; e irá' (Mt 17,20). Quando, pois, pela fé, alguém disser isto, crendo que acontecerá sem hesitar em seu coração, então é sinal de que recebeu esta graça. 

Dela se disse: 'Se tivésseis fé como um grão de mostarda (Mt 17,20). Como o grão de mostarda, tão pequenino, possui uma força de fogo e que, semeado em estreito pedaço de terra, produz grandes ramos que, depois de crescidos, podem dar sombra às aves do céu, assim também, num abrir e fechar de olhos, a fé realiza as maiores coisas na pessoa. Porque lhe dá uma ideia sobre Deus e o vê tanto quanto é capaz, inundada pela luz da fé. Percorre os confins da terra; e antes da consumação do mundo, já prevê o juízo e a entrega das recompensas prometidas

Guarda, então, a fé que de ti depende e que te leva a ele para que recebas de suas mãos também aquela que age muito além das forças humanas.

(Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'A sabedoria deste mundo está em esconder as maquinações do coração, velar o sentido das palavras, mostrar como o verdadeiro é falso, demonstrar ser errado aquilo que é verdadeiro. Pelo contrário, a sabedoria dos justos consiste em nada fingir por ostentação; declarar o sentido das palavras; amar as coisas verdadeiras como são; evitar as falsas; fazer o bem gratuitamente; preferir tolerar de bom grado o mal a fazê-lo; não procurar vingança contra a injúria; reputar lucro a afronta em bem da verdade. Zomba-se, porém, desta simplicidade dos justos porque para os prudentes deste mundo a virtude da pureza de coração é tida por loucura. Tudo quanto se faz com inocência, eles reputam tolice e aquilo que a verdade aprova nas ações, soa falso à sabedoria humana'.

(São Gregório Magno)

domingo, 1 de setembro de 2019

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS

Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso. Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade e assim encontrarás graça diante do Senhor (Eclo 3, 19-20)

sábado, 31 de agosto de 2019

REZAI PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO!


'A minha vocação religiosa e sacerdotal é uma graça imensa que atribuo à minha cotidiana oração pelas Almas do Purgatório que, ainda menino, eu aprendi com minha mãe' (Beato Angelo D'Acri)

'Quando quero obter alguma graça de Deus, recorro às almas do Purgatório e sinto que sou atendida por causa de sua intercessão' (Santa catariana de Bolonha)

'Caminhando pela rua, no tempo livre, rezo sempre pelas Almas do Purgatório. Estas santas Almas, com sua intercessão, me salvaram de muitos perigos da alma e do corpo' (São Leonardo do Porto Maurício)

'Nunca pedi graças às almas purgantes sem ser atendida; pelo contrário, aquelas que não pude obter dos espíritos celestes as obtive pela intercessão das Almas do Purgatório' (Santa Catarina de Gênova)

'Todos os dias ouço a Santa Missa pelas almas do Purgatório: a este piedoso costume eu devo tantas graças que, continuamente, recebo para mim e para meus amigos' (São Conrado Ferrini)

AS RAÍZES DOS SETE PECADOS CAPITAIS

Como ensina São Gregório Magno e, depois dele, São Tomás, os pecados capitais de vanglória ou vaidade, preguiça, inveja, ira, gula e luxúria não são os mais graves de todos, pois maiores são os de heresia, apostasia, desesperação e de ódio a Deus; mas são os primeiros a que se inclina nosso coração, levando-nos a nos afastar de Deus e a cometer outras faltas ainda mais graves.

O homem não chega à perversão absoluta de uma vez, mas pouco a pouco. Examinemos primeiro, em si mesma, a raiz dos sete pecados capitais. Todos eles se originam no amor desordenado de si mesmo ou egoísmo, que nos impede de amar a Deus sobre todas as coisas e inclina a nos apartarmos dele. É evidente que pecamos, isto é, que nos desviamos de Deus e nos afastamos dele cada vez que tendemos para um bem criado, indo contra a vontade divina.

Isto é a consequência fatal de um amor desordenado de nós mesmos, que vem a ser a fonte de todo pecado. Por conseguinte, não só é necessário moderar esse amor desordenado ou egoísmo, mas também é preciso mortificá-lo, para que o amor ordenado ocupe seu lugar. Enquanto o pecador em estado de pecado mortal se ama a si sobre todas as coisas, praticamente antepondo-se a Deus, o justo ama a Deus mais que a si e deve, além disso, amar-se em Deus e por Deus; amar seu corpo de tal maneira que sirva à alma, não lhe obstando a vida superior; amar a alma convidando-a a participar eternamente da vida divina; amar sua inteligência e vontade, de modo que participem mais e mais da luz e do amor de Deus. Este é o sentido profundo da mortificação do egoísmo, do amor e da vontade próprios, opostos à vontade de Deus.

O amor desordenado de nós mesmos leva à morte, como diz o Senhor: 'O que ama (desordenadamente) a sua vida, perdê-la-á; e quem aborrece (ou mortifica) a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna' (Jo 12, 25). Desse desordenado amor, raiz de todos os pecados, nascem as três concupiscências de que fala São João (I Jo 2, 16) quando diz: 'Porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e soberba da vida; e isto não vem do Pai, mas do mundo'.

Observa Santo Tomás que os pecados carnais são mais vergonhosos que os espirituais porque nos rebaixam ao nível do animal; contudo, os espirituais, os únicos que se compartilham com o demônio, são mais graves, porque vão diretamente contra Deus e nos afastam dele. A concupiscência da carne é o desejo desordenado do que é ou parece útil à conservação do indivíduo ou da espécie e, deste amor sensual, provêm a gula e a luxúria. A concupiscência dos olhos é o desejo desordenado do que agrada a vista, o luxo, as riquezas, o dinheiro que nos proporciona os bens terrenos; dela nasce a avareza.

A soberba da vida é o desordenado amor da própria excelência e de tudo aquilo que pode ressaltá-la; quem se deixa levar pela soberba, erige-se a si em seu próprio deus, a exemplo de Lúcifer. Daí se vê a importância da humildade, que é virtude capital, tanto quanto o orgulho é fonte de todo pecado. São Gregório e Santo Tomás ensinam que a soberba é mais que um pecado capital: é a raiz da qual procedem mormente quatro pecados capitais: vaidade, preguiça espiritual, inveja e ira.

A vaidade é o amor desordenado de louvores e de honras; a preguiça espiritual se entristece pensando no trabalho requerido para santificar-se; a ira, quando não é uma indignação justificada e sim um pecado, é um movimento desordenado da alma que nos inclina a rechaçar violentamente o que nos desagrada, de onde se seguem as disputas, injúrias e vociferações. Estes pecados capitais, sobretudo a preguiça espiritual, a inveja e a ira engendram tristezas amargas que afligem a alma e são totalmente contrários à paz espiritual e ao contentamento, ambos frutos da caridade.

A prática generosa da mortificação dispõe a alma para outra purificação mais profunda que Deus mesmo realiza, com o fim de destruir completamente os germes de morte que ainda subsistam em nossa sensibilidade e faculdades superiores. Mas não basta considerar as raízes dos sete pecados capitais; é preciso analisar suas consequências. Como consequências do pecado, se entendem geralmente as más inclinações que os pecados deixam em nosso temperamento, mesmo depois de apagados pela absolvição. Entretanto, também pode entender-se como consequências dos pecados capitais os demais pecados que têm sua origem neles.

Os pecados capitais assim se chamam porque são um como princípio de muitos outros; temos, em primeiro, inclinação para eles e depois, por meio deles, para outras faltas às vezes mais graves. É dessa forma que a vanglória gera desobediência, jactância, hipocrisia, disputas, discórdia, afã de novidades, pertinácia. A preguiça espiritual conduz ao desgosto das coisas espirituais e do trabalho de santificação, em razão do esforço que exige, engendrando a malícia, o rancor ou a amargura contra o próximo, a pusilanimidade ante o dever, o desalento, a cegueira espiritual, o esquecimento dos preceitos, a busca do proibido.

Igualmente, a inveja ou desagrado voluntário do bem alheio, bem que temos como mal nosso, engendra o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria do mal alheio e a tristeza por seus triunfos. Por sua vez, a gula e a sensualidade geram outros vícios e podem conduzir à cegueira espiritual, ao endurecimento do coração, ao apego à vida presente até à perda da esperança da vida eterna, ao amor de si mesmo até ao ódio de Deus e à impenitência final.

Frequentemente, os pecados capitais são mortais. Podem existir de uma maneira muito vulgar e baixa, como em muitas almas em pecado mortal, ou bem podem também existir, nota São João da Cruz, em uma alma em estado de graça, como outros tantos desvios da vida espiritual. Por isso se fala às vezes da soberba espiritual, da gula espiritual, da sensualidade e da preguiça espiritual.

A soberba espiritual inclina, por exemplo, a fugir daqueles que nos dirigem reprimendas, ainda quando tenham autoridade para isso e no-las dirijam justamente; também pode levar-nos a guardar-lhes certo rancor em nosso coração. Quanto à gula espiritual, poderia fazer-nos desejar consolos sensíveis na piedade, até o ponto de buscarmos nela mais a nós mesmos que a Deus. É o orgulho espiritual a origem do falso misticismo.

Felizmente, diferentemente das virtudes, estes vícios não são conexos, ou seja, pode-se possuir uns sem os outros, e muitos são até contrários entre si: assim, não é possível ser avarento e pródigo ao mesmo tempo.  A enumeração de todos estes tristes frutos do exagerado amor de si deve levar-nos a um sério exame de consciência e nos ensina, ademais, que o terreno da mortificação é muito extenso, se quisermos viver uma vida cristã profunda.

O exame de consciência, longe de apartar-nos do pensamento de Deus, aponta-nos para ele. Deve-se inclusive pedir-lhe luz para enxergar um pouco a alma como o próprio Deus a vê, para enxergar o dia ou a semana que passaram como se os víssemos escritos no livro da vida, à maneira de como os veremos no dia do Juízo Final. Por isto temos de repassar cada noite, com humildade e contrição, as faltas cometidas de pensamento, palavra, ação e omissão.

No exame, deve-se evitar a minuciosa investigação das menores faltas, tomadas em sua materialidade, pois semelhante esforço poderia fazer-nos cair em escrúpulos e esquecer coisas mais importantes. Trata-se menos de uma completa enumeração das faltas veniais que da investigação e acusação sinceras do princípio de onde geralmente procedem. A alma não deve se deter em demasia na consideração de si mesma, deixando de olhar para Deus. Pelo contrário há de se perguntar, tendo os olhos fitos em Deus: como julgará Deus este dia ou semana que agora termina? Foi este dia meu ou de Deus? Busquei a Deus ou a mim mesmo?

Desse modo, sem turbação, a alma julgar-se-á desde um plano elevado, à luz dos preceitos divinos, tal como se julgará no último dia. Mas, como diz Santa Catarina de Sena, não separemos a consideração de nossas faltas do pensamento da infinita misericórdia. Olhemos nossa fragilidade e miséria ao lume da infinita bondade de Deus que nos alevanta. O exame, feito deste modo, longe de desalentar-nos, aumentará nossa confiança em Deus.

Por contraste, a visão de nossos pecados nos esclarece o valor da virtude. O que melhor nos revela o valor da justiça é a dor que a injustiça produz. A imagem da injustiça que cometemos e o pesar de tê-la cometido devem nos despertar a 'fome e sede de justiça'. Por contraste, é necessário: que a fealdade da sensualidade nos revele a beleza da pureza; que a desordem da ira e da inveja nos faça compreender o alto valor da mansidão e da caridade e que as aberrações da soberba nos ilustrem acerca da elevada sabedoria da humildade.

Peçamos a Deus inspirar-nos um santo aborrecimento do pecado, que nos separa da divina bondade, da qual tantos benefícios recebemos e esperamos para o porvir. Esse santo ódio do pecado não é, de certa forma, senão o outro lado do amor de Deus. É impossível amar profundamente a verdade sem detestar a mentira, amar de coração ao bem, e o soberano Bem que é Deus, sem que por sua vez detestemos o que nos separa de Deus.

A maneira de evitar a soberba é pensar com frequência nas humilhações do Salvador e pedir a Deus a virtude da humildade. Para reprimir a inveja, temos de rogar pelo próximo, desejando-lhe o mesmo bem que para nós desejamos. Aprendamos igualmente a reprimir os movimentos da ira, afastando-nos dos objetos que a provocam, trabalhando e falando com doçura. Esta mortificação é absolutamente indispensável.

Pensemos que temos que salvar nossa alma e que ao nosso redor há muito bem a se fazer, sobretudo na ordem espiritual. Não esqueçamos que devemos trabalhar pelo bem eterno dos demais e empregar, para consegui-lo, os meios que o Salvador nos ensinou: a morte progressiva do pecado, mediante o progresso nas virtudes e, principalmente, no amor de Deus.

(Excertos da obra 'As três idades da vida interior', do Pe. Garrigou-Lagrange)