domingo, 21 de janeiro de 2018

PESCADORES DE HOMENS

Páginas do Evangelho - Terceiro Domingo do Tempo Comum


Com a prisão e morte de João Batista, tem fim a Era dos Profetas e começa a pregação pública de Jesus sobre o Reino de Deus. O reino de Deus é o reino dos Céus, e não um império firmado sobre as coisas deste mundo. Cristo, rei do universo, começa a sua grande jornada pelos reinos do mundo para ensinar que a pátria definitiva do homem é um reino espiritual, que se projeta para a eternidade a partir do coração humano.

E esta proclamação vai começar por Cafarnaum e nos territórios de Zabulon e Neftali, localizada na zona limítrofe da Síria e da Fenícia, e povoada, em sua larga maioria, por povos pagãos. Em face disso, esta região era a chamada 'Galileia dos Gentios', e seus habitantes, de diferentes raças e credos, eram, então, objeto de desprezo por parte dos judeus da Judeia. E é ali, exatamente entre os pagãos e os desprezados, que o Senhor vai dar início à sua pregação pública da Boa Nova do Evangelho do Reino de Deus: 'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' (Mc 1, 15).

Nas margens do Mar da Galileia, Jesus vai escolher os seus primeiros discípulos, Simão e André e, logo depois, Tiago e João, filhos de Zebedeu, num chamamento imperativo e glorioso: 'Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens' (Mc 1, 17). Aqueles pescadores, acostumados à vida dura de lançar redes ao mar para buscar o seu sustento, seriam agora os primeiros a entrarem na barca da Santa Igreja de Cristo para se tornarem pescadores de homens, na gloriosa tarefa de conduzir as almas ao Reino dos Céus. 

Eis a resposta pronta e definitiva dos primeiros apóstolos ao chamado de Jesus: 'E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus' (Mc 1, 18) e 'Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus' (Mc 1, 20). Seguir a Jesus implica a conversão, pressupõe o afastamento do mundo, pois Jesus nos fala do Reino dos Céus. No 'sim' ao chamado de Jesus, nós passamos a ser testemunhas e herdeiros deste reino 'que não é desse mundo', e nos abandonamos por completo na renúncia a tudo que é humano para amar, servir e viver, prontamente e cotidianamente, o Evangelho de Cristo.

sábado, 20 de janeiro de 2018

20 DE JANEIRO - SÃO SEBASTIÃO

São Sebastião foi um oficial romano, do alto escalão da Guarda Pretoriana do imperador Diocleciano (imperador de Roma entre 284 e 305 de nossa era e responsável pela décima e última grande perseguição do Império Romano contra o Cristianismo), que pagou com a vida sua devoção à fé cristã. Denunciado ao imperador por ser cristão e acusado de traição, foi condenado a morrer de forma especial: seu corpo foi amarrado a um tronco servindo de alvo a flechas disparadas por diferentes arqueiros africanos. 

Primeiro Martírio: São Sebastião flechado

Abandonado pelos algozes que o julgavam morto, foi socorrido e curado e, de forma incisiva, reafirmou a sua convicção cristã numa reaparição ao próprio imperador. Sob o assombro de vê-lo ainda vivo, São Sebastião foi condenado uma vez mais sendo, nesta sua segunda flagelação, brutalmente açoitado e espancado até a morte. O seu corpo foi atirado num canal de esgotos, de onde foi depois retirado e levado até as catacumbas romanas. Suas relíquias estão preservadas na Basílica de São Sebastião, na Via Apia, em Roma. É venerado por toda a cristandade como modelo de vida cristã, mártir da Igreja e defensor da fé e como padroeiro de diversas cidades brasileiras, incluindo-se o Rio de Janeiro. Sua festa é comemorada a 20 de janeiro, data de sua morte no ano 304.

Segundo Martírio: São Sebastião espancado até a morte

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (VI)

XIX 

CONSERVAÇÃO DOS SERES E PROVIDÊNCIA DO MUNDO 

Que entendeis, quando afirmais que Deus é Soberano Senhor de todas as coisas? 
Que todos os seres do mundo estão sujeitos ao governo e domínio supremo, único e absoluto de Deus (CIII, 1, 2)*. 

Explicai-me o que quereis dizer? 
Queremos dizer que coisa alguma existe no mundo espiritual, material e humano, independente da ação divina, a qual conserva a existência de todos os seres e os conduz ao fim para que foram criados (CIII, 4, 8).

Qual é o fim que Deus tem em vista na conservação e governo do mundo? 
Deus mesmo, isto é, a sua própria glória (CIII, 2). 

Por que?
Porque, se Deus rege e conserva o universo, é para que na ordem e concerto do mundo se possa refletir e manifestar o pensamento Daquele que o criou, o conserva e o governa (Ibid). 

Logo, o concerto e a ordem admirável do universo proclamam e manifestam a glória de Deus? 
Sim, Senhor (Ibid). 

Pode haver conjunto mais perfeito e grandioso que a obra da Criação, conservação e governo do Universo? 
No plano atual da Providência, não, Senhor. 

Por que dizeis 'no plano atual da Providência?' 
Porque Deus é onipotente, e, sendo-o, nenhuma criatura, nem conjunto delas, por perfeitas que sejam, podem exaurir o seu poder infinito.

XX

AÇÃO PESSOAL DE DEUS NO GOVERNO DO MUNDO: O MILAGRE

De que modo governa Deus o universo?
Conservando-o no ser e conduzindo-o ao fim para que foi criado (CIII, 4).

É o próprio Deus quem conserva a existência dos seres?
Sim, Senhor; posto que é também certo, utilizar-se de uns para conservar outros, segundo a ordem de dependência que Ele mesmo estabeleceu ao criá-los (CIV, 1, 2).

Que quereis dizer, quando afirmais que Deus conserva por si mesmo todas as coisas?
Entendemos que todas as criaturas recebem de Deus diretamente, e sem intervenção estranha, o que nelas há de mais íntimo, aquilo, em virtude do que todas participam do fato da existência (CIV).

A conservação do universo, assim como a Criação, são obra própria e exclusiva de Deus?
Sim, Senhor; porque ambas têm por fim direto e imediato a existência, e a existência é efeito privativo de Deus (CIV, 1).

Pode Deus aniquilar o mundo?
Sim, Senhor (CIV, 3).

Que seria necessário para o realizar?
Seria bastante que Ele suspendesse por um instante a ação, por virtude da qual lhe dá e continua dando em cada momento o ser.

Logo, a existência das coisas só se mantém debaixo da ação direta, absoluta e constante de Deus?
Sim, Senhor; do mesmo modo que a luz do dia depende em absoluto da presença e atividade solar; com a notável diferença, porém, de que o sol emite necessariamente os seus resplendores e, pelo contrário, a ação divina é toda liberdade e bondade infinitas.

Destruiu Deus alguma parte da criação?
Não, Senhor (CIV, 4).

Destruí-la-á no futuro?
Também não (Ibid.).

Por quê?
Porque o fim da Criação é a sua glória e esta glória exige, não a destruição, mas a conservação do criado (Ibid.).

Experimentam as criaturas mudanças e transformações?
Sim, Senhor; mais ou menos profundas, em conformidade com cada espécie, e dentro da mesma espécie, conforme os seus diversos estados.

Estão previstas estas transformações no plano da Providência?
Sim, Senhor; posto que podem contribuir, e de fato contribuem, para o fim previsto, que é a glória de Deus e o bem do universo.

São algumas delas devidas à ação direta e imediata de Deus?
Sim, Senhor (CV, 1-8).

Quais são?
As que se efetuam nos últimos elementos componentes dos seres materiais, ou nas faculdades afetivas dos espirituais, e o princípio de qualquer ação em toda criatura (CV, 6, 7).

A quem devem atribuir-se as mudanças e transformações produzidas nos seres materiais, quando as causas segundas são incapazes ou insuficientes para efetuá-las, atento o curso ordinário da natureza?
Devem atribuir-se a Deus e se chamam milagres (CV, 1, 2, 4, 5).

Logo, Deus faz milagres?
Sem duvida; Deus faz milagres que podemos agrupar em três categorias: aqueles, para cuja execução são impotentes todas as forças criadas; os que estas forças não poderiam efetuar pela razão do sujeito em que se realizam e os que não se podem atribuir a forças naturais, pelo modo como se efetuam (CV, 8).

Por que Deus fez e faz milagres?
Deus faz milagres quando apraz ao seu divino beneplácito, para fazer sentir ao homem a sua grandeza e obrigá-lo a reconhecer como intervém no mundo, para a sua glória e bem dos homens.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

ZELO CONTRA OS PECADOS VENIAIS

A alma deve evitar todos os pecados veniais, especialmente os que abrem caminho ao pecado grave. Ó minha alma, não chega desejar firmemente antes sofrer a morte do que cometer um pecado grave. É necessário ter uma resolução semelhante em relação ao pecado venial. Quem não encontrar em si esta vontade, não pode sentir-se seguro. 

Não há nada que nos possa dar uma tal certeza de salvação eterna do que uma preocupação constante em evitar o pecado venial, por insignificante que seja, e um zelo definido e geral, que alcance todas as práticas da vida espiritual — zelo na oração e nas relações com Deus; zelo na mortificação e na negação dos apetites; zelo em obedecer e em renunciar à vontade própria; zelo no amor de Deus e do próximo. 

Para alcançar este zelo e conservá-lo, devemos querer firmemente evitar sempre os pecados veniais, especialmente os seguintes:
  • O pecado de dar entrada no coração de qualquer suspeita não razoável ou de opinião injusta a respeito do próximo.
  • O pecado de iniciar uma conversa sobre os defeitos de outrem ou de faltar à caridade de qualquer outra maneira, mesmo levemente.
  • O pecado de omitir, por preguiça, as nossas práticas espirituais ou de as cumprir com negligência voluntária.
  • O pecado de manter um afeto desregrado por alguém.
  • O pecado de ter demasiada estima por si próprio ou de mostrar satisfação vã por coisas que nos dizem respeito.
  • O pecado de receber os santos sacramentos de forma descuidada, com distrações e outras irreverências, e sem preparação séria.
  • Impaciência, ressentimento, recusa em aceitar desapontamentos como vindos da Mão de Deus; porque isto coloca obstáculos no caminho dos decretos e disposições da Divina Providência quanto a nós.
  • O pecado de nos proporcionarmos uma ocasião que possa, mesmo remotamente, manchar uma situação imaculada de santa pureza.
  • O pecado de esconder propositadamente as nossas más inclinações, fraquezas e mortificações de quem devia saber delas, querendo seguir o caminho da virtude de acordo com os caprichos individuais e não segundo a direção da obediência.
(Santo Antônio Maria Claret)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

DA VIRTUDE DA SIMPLICIDADE

Sede, portanto, simples para fazer de Deus vosso objetivo, para O procurardes como último fim, para considerá-lo como termo de vossas ações. Sede simples para vos apoiardes em Deus como meio. Simples para serdes humildes, para reconhecerdes que nada podeis fazer por vós mesmas, e que, abandonadas às próprias forças, vos será impossível realizar qualquer bem, como vos declara Nosso Senhor: 'Sem mim, nada podeis fazer' (Jo 15, 5).

Sede simples também para serdes confiantes, para vos persuadirdes de que, apoiando-vos em Deus e contando com a sua graça, não sereis enganadas, e que 'tudo podereis naquele que vos fortifica' (Fp 4,3). Simples, para verificar vosso nada, vossa miséria, vossos pecados, para vos desprezardes profundamente. Simples, para considerar o coração e o amor de Deus, sua infinita bondade, e para repousar na sua graça com a mais inabalável segurança.

Sede simples nas menores como nas maiores coisas, principalmente nas menores, porque as ocasiões de praticá-las se sucedem com freqüência e porque são muito agradáveis a Deus. 'Feriste o meu coração, exclama o esposo no Cântico dos Cânticos, arrebataste o meu coração com um dos teus olhos e com um dos teus cabelos' (Ct 4, 9).

Que haverá de mais admirável, essencial e importante do que um olho? Que haverá de mais vil que um fio de cabelo? Preparai-vos para sofrer, para carregar pesadas cruzes, levando o vosso amor até o martírio, oferecendo a Nosso Senhor o que tiverdes de mais caro, até vossos olhos e, se necessário, vossa vida, e assim comovereis o seu coração por essas grandes coisas. Não negligencieis, porém, as menores, e, de acordo com o conselho expresso do Apóstolo, oferecei a Deus o que há de mais corriqueiro em vossa vida, até o alimento e o sono, e assim comovereis o seu coração também pelas pequeninas coisas.

Quando Santa Catarina de Sena se entregava às mais sublimes meditações e caía em êxtase, quando ensinava aos grandes da terra, arrebatava o coração do celeste esposo pelo olho da sabedoria e da contemplação. Mas O agrava menos do que quando, por obediência ao pai, aplicava-se aos mais humildes serviços caseiros e tranquilamente continuava suas meditações no meio desses mesquinhos trabalhos. Considerando o pai como Nosso Senhor, a mãe como a Santíssima Virgem e os irmãos como os apóstolos, dedicava-se com alegria a tudo que lhe mandavam fazer.

E vós, embora vos devoteis às grandes coisas, às mais importantes e às mais excelentes obras, praticai também por Deus as pequenas e humildes virtudes que nascem como flores aos pés da cruz: suportar um pequeno sofrimento, uma enfermidade passageira, uma contrariedade, decepções, mágoas, humilhações e todas as insignificantes ocupações que existem no lar ou fora dele. Como tais ocasiões se repetem a cada instante, que fonte de riquezas espirituais poderíeis acumular, se as soubésseis aproveitar!

Não compreendeis, então, que o que mais vos falta é a simplicidade? Oh! que vos faltaria se fosseis verdadeiramente simples, simples em tudo, e qualquer encontro com Deus, com os outros e até convosco? Tendes bom coração e o sabeis, disso dais prova e com isso concordais. Às vezes, chegais a dizer que o sentis demasiado, tanto ele vos faz sofrer!  Tendes energia e força de vontade, e cada dia as desenvolveis e as despendeis sem conta. E, às vezes, é incalculável o quanto as utilizais em proveito de vossas paixões. Tendes delicadeza, tato, sutileza, que causam vossos mais belos triunfos! Tendes nobres e generosas aspirações e impulsos admiráveis! Sois formadas na abnegação e no devotamento!  

De posse de tão admiráveis qualidades e tão poderosas virtudes, como podeis levar tantas vezes uma vida frívola, nula e inútil, e até detestável, culpada e escandalosa? Que vos falta? Repito-o, falta-vos a simplicidade. Não sabeis orientar vossas qualidades, vossas forças não as sabeis utilizar; deixais que se percam e esqueçam, porque não sois simples. A simplicidade tudo exalta, tudo dirige, e faz com que tudo concorra para a glória de Deus.

Olhai a pomba! É maravilhosamente constituída para elevar-se nos ares, pairar e atingir em tempo as mais altas e longínquas regiões. De quê necessita para isso? De uma única coisa: abrir as asas e servir-se delas. Digo-vos ainda: a pomba sois vós! A asa toda poderosa é a simplicidade. Que esperais, então, para utilizá-la? Abri, abri as asas! E, em pouco tempo, com voo poderoso e rápido, transporeis incomensuráveis distâncias e chegareis a Deus!

(Excertos da obra 'A Simplicidade Segundo o Evangelho', de Monsenhor de Gilbergues, 1945)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

APÓSTOLOS SOB A CÁTEDRA DE PEDRO

Páginas do Evangelho - Segundo Domingo do Tempo Comum


Estando naquele dia em presença de dois dos seus discípulos mais amados, João Batista vai manifestar, uma vez mais, o testemunho do Messias, aquele de quem dissera pouco antes: 'Eu não sou digno de desatar-Lhe as correias das sandálias' (Jo 1, 27). A grandeza do Precursor é enfatizada por Jesus naquele que recebeu privilégios tão extraordinários para ser o profeta da revelação de tão grandes mistérios de Deus à toda a humanidade: Jesus Cristo é o Unigênito do Pai, o Filho de Deus Vivo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. E, desta vez, dá testemunho direto dEle, 'vendo Jesus passar' (Jo 1, 35): 'Eis o Cordeiro de Deus!' (Jo 1, 36).

Ao ouvir estas palavras, André e João, não vacilam um único instante e tomam a firme disposição de seguir Jesus. Seguir Jesus! Eis aí o amoroso convite de Jesus a todos os homens: assumir o jugo suave do Senhor em todos os nossos caminhos, ao longo de toda a nossa vida! Para seguir Jesus, temos que responder a pergunta dos dois discípulos que ecoa pelos tempos: 'Onde moras?' (Jo 1, 38). Onde moras, Jesus? Seguir Jesus é ir onde Jesus está, para que Jesus possa morar em nós. Eis o mistério da graça que cada um deve percorrer nesta vida para a plena busca da Verdade e a contemplação definitiva do Reino de Deus.

Mas os dois discípulos fizeram ainda mais do que isso; o zelo e o fervor pelos novos ensinamentos do Messias fizeram deles os primeiros apóstolos. E a Verdade exaltada, vivida e compartilhada pela pregação humana das primícias do apostolado cristão vai chegar a ninguém menos que Simão Pedro, irmão de André, e que viria a ser a pedra angular da futura Igreja de Cristo. Pedro não vacilou também, não fez concessões e nem imposições, mas acreditou! E imediatamente foi ter com Jesus.

Jesus, que conhecia Pedro desde a eternidade e Pedro, que nascia para a eternidade, estavam juntos pela primeira vez: 'Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas' (Jo 1, 42). Jesus estabelece neste primeiro momento, a vinculação direta entre a ação do apostolado e a pedra (Cefas) fundamental sobre a qual haveria de edificar a sua Igreja, mistério da graça muito além da possível percepção histórica daqueles homens. O apostolado é, pois, missão inerente a toda a cristandade e deve estar indissoluvelmente ligada à pedra fundamental da Igreja, como dizia Santo Ambrósio de Milão: 'Não podem ter a herança de Pedro os que não vivem sob a cátedra de Pedro'. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

VIDA DESONESTA, MORTE IMPENITENTE!

Uma certa noite estava Martinho Lutero no terraço de um hotel ao lado de Catarina Bora, sua companheira de pecado. A temperatura era suave, o céu estava lindo e milhares de estrelas brilhavam no firmamento. Catarina, cansada talvez daquela vida de remorso, voltou-se de repente para Lutero e lhe disse:

— 'Olha Martinho, como é lindo o céu!'

Àquelas palavras, Martinho exclamou com um suspiro profundo:

— 'Sim, Catarina, o céu é lindo, mas não é mais para nós!'

O infeliz sentia que ia perder o Paraíso, mas se confessava incapaz de ressurgir e morria pouco depois naquele mesmo hotel, dando mostras do mais terrível desespero. 

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Teodoro Beza, sucessor de Calvino e chefe da reforma protestante, atingido por uma enfermidade mortal, foi visitado por São Francisco de Sales. Este com o seu zelo ardente tentou todos os meios possíveis para induzi-lo a abjurar o erro, voltar para o seio da Igreja Católica, e preparar-se para uma morte cristã. 

'Impossível' repetia, suspirando, o doente de quando em quando 'impossível'. Por fim, como o Santo insistia para saber o porquê daquela palavra 'impossível', Teodoro com esforço, apoiou-se num cotovelo, puxou uma cortina que fechava uma alcova, e, mostrando uma mulher ali escondida: 'Eis aí', exclamou, 'a razão da impossibilidade de me converter e de me salvar'! Preferiu a morte e o inferno, mas não deixou o pecado. 

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Na cidade de Spoleto, vivia uma jovem dissoluta, cuja existência era unicamente dedicada à vaidade e aos bailes. Aconselhada mais de uma vez a corrigir-se desprezava com soberba os avisos e fazia pouco caso deles. Sua própria mãe, orgulhosa da beleza e do brio da filha, sentia imenso prazer em vê-la cortejada por um bom número de amantes, e deixava as coisas correrem na esperança de encontrar um bom partido; de mais a mais acreditava que, passado o ardor da mocidade, ela acabaria sossegando.

Oh, mães cegas e imprudentes, que não só não se preocupam, mas ainda traem suas filhas, quando não são elas próprias que as arrastam à desonra e à ruína! E o que aconteceu? A infeliz moça caiu gravemente enferma. Pessoas sérias e respeitáveis da vizinhança aconselharam-na a chamar o sacerdote, a receber os sacramentos, preparar-se para a morte, enfim. Mas a pobre teimava:

— 'Qual, repetia, é impossível, que eu tão moça e bela, morra; eu não devo, não devo morrer!'

Por fim, veio o sacerdote; este por sua vez suplicava-lhe que tivesse juízo, que rezasse a Maria Santíssima porque a morte poderia surpreendê-la.

— 'Qual morte, qual nada! Eu devo é viver! Eu não posso, não quero morrer!'

Como a insistência aumentasse, por fim, percebendo que as forças começavam a faltar-lhe, com um esforço supremo, exclamou com ira:

— 'Pois bem, se é assim, se é que eu vou mesmo morrer, vem tu, satanás, e toma a minha alma para ti!' E, cobrindo o rosto com o lençol, entregou ao demônio a alma desesperada. 

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Um cavalheiro vivia com uma moça de maus costumes. Aos que o aconselhavam abandoná-la, ele respondia sempre com um desdenhoso 'não posso'. Mas a morte chegou para desuni-los. O infeliz cavalheiro adoeceu gravemente, e, como estava nas últimas, chamaram um sacerdote para prepará-lo para dar o passo terrível. Tão caridoso e paciente foi o padre que o enfermo, humildemente, respondeu:

— 'Com prazer! Apesar de ter levado uma vida má, desejo ter uma boa morte com uma santa confissão'.
— 'O senhor quererá receber também os Sacramentos como um bom cristão?'
— 'É com prazer que os receberei, se vos dignardes de o administrar'.
— 'Mas isto não será possível se o senhor não despedir primeiro aquela moça'.
— 'Ah, isso, padre, eu não posso fazer'.
— 'E por que não pode? Pode e deve fazê-lo, meu caro senhor, se quiser salvar-se'.
— 'Mas eu repito não posso!'
— 'Mas o senhor não vê que, com a morte, tão próxima, será obrigado a deixá-la por força?'
— 'Não posso, padre, não posso!'
— 'Mas assim, eu não o absolvo, não lhe administro os sacramentos e o senhor perderá o paraíso, será precipitado no inferno!'
— 'Não posso!'
— 'Será possível que eu não posso obter do senhor outra palavra? Pense na sua honra, na sua estima se morrer excomungado'.
— 'Não posso', repetiu o infeliz pela última vez. E, agarrando a moça por um braço, puxou-a para si apertando-a com força ao peito, e assim, nos braços daquela mulher indigna, expirou.

(Excertos da obra 'Confessai-vos bem!' do Pe. Luiz Chiavarino)

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'Por três razões não se deve manter relações com os hereges. Primeiramente, por causa da excomunhão, pois, sendo excomungados, não se deve ter relações com eles, da mesma maneira que com os outros excomungados. A segunda razão é a heresia: em primeiro lugar, por causa do perigo, e para que as relações com eles não venham a corromper os outros, segundo aquilo da primeira epístola aos Coríntios (15, 33): 'As más conversações corrompem os costumes'. E em segundo lugar para que não pareça se prestar algum assentimento às suas doutrinas perversas. Daí dizer-se na segunda epístola canônica de São João (v. 10): 'Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, pois o que o saúda, toma parte em suas más obras'. Em terceiro e último lugar, para que nossa familiaridade com eles, não dê aos outros, ocasião de errar'.

 (São Tomás de Aquino, Suma Teológica) 

(Santo Inácio pisando Lutero, Igreja de São Nicolau, República Tcheca)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

OS TRÊS TIPOS DE CRIATURAS QUE SERVEM A DEUS

Sou teu Deus, o que foi pregado na cruz, verdadeiro Deus e homem em uma pessoa, e que está presente todos os dias nas mãos do sacerdote. Quando me ofereces uma oração, termine-a sempre com o desejo de que se faça minha vontade e não a tua. Quando rezas por alguém que já está condenado não te escuto. 

Algumas vezes não te ouço se desejas algo que possa ir contra tua salvação. É por isso, necessário que submetas tua vontade à minha, porque como Eu sei todas as coisas, não te permito nada mais do que te seja benéfico. Há muitos que não rezam com a intenção correta e é por isso que não merecem ser atendidos. 

Há três tipos de pessoas que me servem neste mundo. Os primeiros são os que creem que sou Deus e o provedor de todas as coisas, que tem poder sobre tudo. Estes me servem com a intenção de conseguir bens e honras temporais, mas as coisas do Céu não lhes importam e estão até dispostos a perdê-las para obter bens presentes. O êxito mundano se ajusta completamente à sua medida, segundo seus desejos. Já que perderam os bens eternos, Eu lhes compenso com consolos temporais por qualquer bom serviço que me façam, pagando-lhes até o último centavo e até o último ponto. 

Os segundos são os que creem que sou Deus onipotente e Juiz severo, mas que me servem por medo do castigo e não por amor à glória celestial. Se não me temessem não me serviriam. Os terceiros são os que creem que sou o Criador de todas as coisas e Deus verdadeiro e que creem que sou justo e misericordioso. Estes não me servem por medo do castigo, mas por amor divino e caridade. Prefeririam suportar qualquer castigo, por duro que fosse, a não me ofender. Estes merecem verdadeiramente ser escutados quando rezam, pois sua vontade coincide com minha vontade. 

O primeiro tipo de servos nunca sairá do castigo nem chegará a ver meu rosto*. O segundo não será tão castigado, mas também não chegará a ver meu rosto*, a não ser que corrija seu temor mediante a penitência.

(Das Revelações de Santa Brígida)

* Ò cristão, tens ainda alguma dúvida de que como é severa a justiça divina, sem a misericórdia? Se mesmo aqueles que servem a Deus de forma indigna não serão salvos, imagine-se o destino daqueles que O negam ou O renegam?

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BREVIÁRIO DIGITAL (LXII) - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (X)

Curat IESVS decem leprosos

81. Evangelho (Lc 17): A cura dos dez leprosos

Petitio matris filiorum Zebedaei

82. Evangelho (Mt 20, Mc 10): A súplica da mãe dos filhos de Zebedeu

Sanatur unus caecus ante Iericho, & duo post Iericho

83. Evangelho (Lc 18): A cura de alguns cegos em Jericó

Coena apud Simonem Leprosum

84. Evangelho (Mt 26, Mc 14, Jo 12): A ceia na casa de Simão, o leproso

Ducitur asina & pullus ad IESVM

85. Evangelho (Mt 21, Mc 11, Lc 19, Jo 12): Um burro e um jumentinho são levados a Jesus

In conspectum Hierusalem venit IESVS

86. Evangelho (Mt 21, Mc 11, Lc 19, Jo 12): Jesus encontra-se diante de Jerusalém

Ingressus solennis in ciuitatem

87. Evangelho (Mt 21, Mc 11, Lc 19, Jo 12): Jesus entra em Jerusalém

Eijcit iterum IESVS vendentes de templo

88. Evangelho (Mt 21, Mc 11, Lc 19, Jo 12): Jesus expulsa novamente os vendilhões do Templo

Veniunt Gentiles ad IESVM

89. Evangelho (Jo 18): Jesus ensina aos gentios

De Pharisaeo & Publicano

90. Evangelho (Lc 18): A parábola do fariseu e do publicano

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

... E A QUEDA

Os homens poderiam continuar para sempre na bem aventurada e única verdadeira vida dos santos no paraíso. Como a vontade do homem poderia, porém, voltar-se para vários caminhos, Deus assegurou-lhes esta graça que lhes havia concedido condicionando-a desde o início a duas coisas. Se eles guardassem a graça e retivessem o amor de sua inocência original, então a vida do paraíso seria sua, sem tristeza, dor ou cuidados, e após ela haveria a certeza da imortalidade no céu. Mas se eles se desviassem do caminho e se tornassem vis, desprezando seu direito natal à beleza, então viriam a cair sob a lei natural da morte e viveriam não mais no paraíso, mas, morrendo fora dele, continuariam na morte e na corrupção. 

Isto é o que a Sagrada Escritura nos ensina, ao proclamar a ordem de Deus: 'podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente' (Gn 2, 16-17). Certamente havereis de morrer, isto é, não apenas morrereis, mas permanecereis no estado de morte e corrupção.

Estarás talvez a divagar por que motivo estamos discutindo a origem do homem se nos propusemos a falar sobre o Verbo que se fez homem. O primeiro assunto é de importância para o último por este motivo: foi justamente o nosso lamentável estado que fez com que o Verbo se rebaixasse, foi nossa transgressão que tocou o seu amor por nós. Pois Deus havia feito o homem daquela maneira e havia querido que ele permanecesse na incorrupção.

Os homens, porém, tendo voltado da contemplação de Deus para o mal que eles próprios inventaram, caíram inevitavelmente sob a lei da morte. Em vez de permanecerem no estado em que Deus os havia criado, entraram em um processo de uma completa degeneração e a morte os tomou inteiramente sob o seu domínio. Pois a transgressão do mandamento os estava fazendo retornarem ao que eles eram segundo a sua natureza e, assim como no início eles haviam sido trazidos ao ser a partir da não existência, passaram a trilhar, pela degeneração, o caminho de volta para a não existência. 

A presença e o amor do Verbo os havia chamado ao ser; inevitavelmente, então, quando eles perderam o conhecimento de Deus, juntamente com este eles perderam também a sua existência. Pois é somente Deus que existe, o mal é o não-ser, a negação e a antítese do bem. Pela natureza, de fato, o homem é mortal, já que ele foi feito do nada; mas ele traz também consigo a semelhança dAquele Que É, e se ele preservar esta semelhança através da contemplação constante, então sua natureza seria despojada de seu poder e ele permaneceria indegenerescente. De fato, é isto o que vemos escrito no Livro da Sabedoria: 'A observância de suas leis é a garantia da imortalidade' (Sb 6, 18). E, incorrompido, o homem seria como Deus, conforme o diz a própria Escritura, onde afirma: Eu disse: 'Sois deuses, e todos filhos do Altíssimo. Mas vós como homens morrereis, caireis como um príncipe qualquer' (Sl 81, 6).

Esta, portanto, era a condição do homem. Deus não apenas o havia feito do nada, mas também lhe tinha graciosamente concedido a sua própria vida pela graça do Verbo. Os homens, porém, voltando-se das coisas eternas para as coisas corruptíveis, pelo conselho do demônio, tornaram-se a causa de sua própria degeneração para a morte, porque, conforme dissemos antes, embora eles fossem por natureza sujeitos à corrupção, a graça de sua união com o Verbo os tornava capazes de escapar na lei natural, desde que eles retivessem a beleza da inocência com a qual haviam sido criados. Isto é o mesmo que dizer que a presença do Verbo junto a eles lhes fazia de escudo, protegendo-os até mesmo da degeneração natural, conforme também o diz o Livro da Sabedoria: 'Deus criou o homem para a imortalidade e como uma imagem de sua própria eternidade mas, pela inveja do demônio, entrou no mundo a morte' (Sb 2, 23).

Quando isto aconteceu, os homens começaram a morrer e a corrupção correu solta entre eles, tomou poder sobre os mesmos até mais do que seria de se esperar pela natureza, sendo esta a penalidade sobre a qual Deus os havia avisado prevenindo-os acerca da transgressão do mandamento. Na verdade, em seus pecados os homens superaram todos os limites. No início inventaram a maldade; envolvendo-se desta maneira na morte e na corrupção, passaram a caminhar gradualmente de mal a pior, não se detendo em nenhum grau de malícia, mas, como se estivessem dominados por uma insaciável apetite, continuamente inventando novos tipos de pecados. 

Os adultérios e os roubos se espalharam por todos os lugares os assassinatos e as rapinas encheram a terra, a lei foi desrespeitada para dar lugar à corrupção e à injustiça, todos os tipos de iniquidades foram praticados por todos, tanto individualmente como em comum. Cidades fizeram guerra contra cidades, nações se levantaram contra nações, e toda a terra se viu repleta de divisões e lutas, enquanto cada um porfiava em superar o outro em malícia. Até os crimes contrários à natureza não foram desconhecidos, conforme no-lo diz o apóstolo mártir de Cristo: 'suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza; e os homens também, deixando o uso natural da mulher, arderam nos seus desejos um para com o outro, cometendo atos vergonhosos com o seu próprio sexo, e recebendo em suas próprias pessoas a recompensa devida pela sua perversidade' (Rm 1, 26-27).

(Excertos da obra 'A criação e a Queda' de Santo Atanásio)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A CRIAÇÃO...

Em relação à criação do Universo e à criação de todas as coisas, tem havido uma diversidade de opiniões e cada pessoa tem proposto a teoria que bem lhe apraz. Por exemplo, alguns dizem que todas as coisas são auto originadas e, por assim dizer, totalmente ao acaso. Entre estes estão os epicúreos, os quais negam terminantemente que haja alguma inteligência anterior ao universo.

Outros fazem seu o ponto de vista expressado por Platão, aquele gigante entre os gregos. Ele disse que Deus fez todas as coisas da matéria pré-existente e incriada, assim como o carpinteiro faz as suas obras da madeira que já existe. Mas os que sustentam esta opinião não se dão conta que negar que Deus seja Ele próprio a causa da matéria significa atribuir-Lhe uma limitação, assim como é indubitavelmente uma limitação por parte do carpinteiro que ele não possa fazer nada a não ser que lhe esteja disponível a madeira.

Então, finalmente, temos a teoria dos gnósticos, que inventaram para si mesmos um Artífice de todas as coisas, outro que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Estes simplesmente fecham os seus olhos para o sentido óbvio das Sagradas Escrituras.

Tais são as noções que os homens têm elaborado. Mas, pelo divino ensinamento da fé cristã, nós sabemos que, pelo fato de haver uma inteligência anterior ao universo, este não se originou a si mesmo; por ser Deus infinito, e não finito, o universo não foi feito de uma matéria pré-existente, mas do nada e da absoluta e total não existência, de onde Deus o trouxe ao ser através do Verbo. Ele diz, neste sentido, no Gênesis: 'No início Deus criou o Céu e a Terra' (Gn 1,1) e novamente, através daquele valiosíssimo livro ao qual chamamos 'O Pastor': 'Crede primeiro e antes de tudo o mais que há apenas um só Deus, o qual criou e ordenou a todas as coisas trazendo-as da não existência ao ser'. Paulo também indica a mesma coisa quando nos diz: 'Pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela Palavra de Deus, de tal modo que as coisas visíveis provieram das coisas invisíveis (Hb 11, 3).

Pois Deus é bom, ou antes, Ele é a fonte de toda a bondade, e é impossível por isso que Ele deva algo a alguém. Não devendo a existência a ninguém, Ele criou a todas as coisas do nada mediante seu próprio Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, e de todas as suas criaturas terrenas ele reservou um cuidado especial para a raça humana. A eles que, como animais, eram essencialmente impermanentes, Deus concedeu uma graça de que as demais criaturas estavam privadas, isto é, a marca de sua própria imagem, uma participação no ser racional do próprio Verbo, de tal modo que, refletindo-o, eles mesmos se tornariam racionais expressando a inteligência de Deus tanto quanto o próprio Verbo, embora em grau limitado.

(Excertos da obra 'A criação e a Queda' de Santo Atanásio)

domingo, 7 de janeiro de 2018

EPIFANIA DO SENHOR

Páginas do Evangelho - Festa da Epifania do Senhor

Reis Magos, Andrea Mantegna (1431-1506)

Epifania é uma palavra grega que significa 'manifestação'. A festa da Epifania - também denominada pelos gregos de Teofania, significa 'a manifestação de Deus'. É uma das mais antigas comemorações cristãs, tal como a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo - era celebrada no Oriente já antes do século IV e, somente a partir do século V, começou a ser celebrada também no Ocidente. 

Na Anunciação do Anjo, já se manifestara a Encarnação do Verbo, revelada porém, a pouquíssimas pessoas: provavelmente apenas Maria, José, Isabel e Zacarias tiveram pleno conhecimento do nascimento de Deus humanado. O restante da humanidade não se deu conta de tão grande mistério. Assim, enquanto no Natal, Deus Se manifesta como Homem; na Festa da Epifania, esse Homem se revela como Deus. Na pessoa dos Reis Magos, o Menino-Deus  é revelado a todas as nações da terra, a todos os povos futuros; a síntese da Epifania é a revelação universal da Boa Nova à humanidade de todos os tempos.

A Festa da Epifania, ou seja, a manifestação do Verbo Encarnado, está, portanto, visceralmente ligada à Adoração dos Reis Magos do Oriente: 'Ajoelharam-se diante dele e o adoraram' (Mt 2,11). Deus cumpre integralmente a promessa feita à Abraão: 'em ti serão abençoados todos os povos da terra ' (Gn 12,3) e as promessas de Cristo são repartidas e compartilhadas entre os judeus e os gentios, como herança comum de toda a humanidade. A tradição oriental incluía ainda na Festa da Epifania, além da Adoração dos Reis, o milagre das Bodas de Caná e o Batismo do Senhor no Jordão, eventos, entretanto, que não são mais celebrados nesta data pelo rito atual.

A viagem e a adoração dos Reis Magos diante o Menino Deus em Belém simbolizam a humanidade em peregrinação à Casa do Pai. Viagem penosa, cansativa, cheia de armadilhas e dificuldades (quantos não serão os nossos encontros com os herodes de nossos tempos?), mas feita de fé, esperança e confiança nas graças de Deus (a luz da fé transfigurada na estrela de Belém). Ao fim da jornada, exaustos e prostrados, os reis magos foram as primeiras testemunhas do nascimento do Salvador da humanidade, acolhido nos braços de Maria:   'Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe' (Mt 2,11): o mistério de Deus revelado de que não se vai a Jesus sem Maria. Com Jesus e Maria, guiados também pela divina luz emanada do Espírito Santo, também nós haveremos de chegar definitivamente, um dia, à Casa do Pai, sem ter que voltar atrás 'seguindo outro caminho' (Mt 2,12). 

sábado, 6 de janeiro de 2018

A ADORAÇÃO DOS TRÊS REIS MAGOS


No Evangelho de Mateus (Mt 2, 1ss), encontra-se a narrativa geral da adoração ao menino-deus pelos três reis magos do Oriente. Melquior, o mais velho, ofereceu ouro como presente a Jesus, símbolo de realeza; Gaspar, o mais moço, ofereceu incenso, símbolo da divindade de Cristo, enquanto Baltasar, o mouro, ofertou mirra, em adoração à humanidade de Jesus. A mirra, como símbolo de sofrimento, torna-se uma pré-anunciação e uma profecia das dores da Paixão do Senhor.




Mas, além da narrativa tão sobejamente conhecida, é importante ressaltar que o ato de adoração dos reis magos diante o Menino-Deus foi um ato de prostração de joelhos. Três reis, de origens incertas e longínquas, símbolos e representantes dos reis de toda a terra e da soberania sobre todas as nações (Sl 71, 11), dotados de poderes humanos e munidos de graças sobrenaturais, prostraram-se diante de Jesus Menino e O adoraram. De joelhos, de joelhos no chão.

Um antigo Pai da Igreja dizia que o diabo não tem joelhos e, em sendo assim, não pode ajoelhar-se, não pode prostrar-se, não pode adorar. A essência do mal é a não adoração, é a não prostração de joelhos. Que a Festa da Epifania do Senhor nos lembre deste grande exemplo dos reis magos: prostrar-nos de joelhos diante o Menino-Deus; dar-nos conta que temos joelhos e somos Filhos da Luz e, assim, inclinados e reclinados diante de Deus, possamos ser testemunhas e ofertas puras de sua santa redenção.

PRIMEIRO SÁBADO DE JANEIRO (E DE 2018)


Mensagem de Nossa Senhora à Irmã Lúcia, vidente de Fátima: 
                                                                                                                           (Pontevedra / Espanha)

‘Olha, Minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todo o momento Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que a todos aqueles que durante cinco meses seguidos, no primeiro sábado, se confessarem*, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes à hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação.’
* Com base em aparições posteriores, esclareceu-se que a confissão poderia não se realizar no sábado propriamente dito, mas antes, desde que feita com a intenção explícita (interiormente) de se fazê-la para fins de reparação às blasfêmias cometidas contra o Imaculado Coração de Maria no primeiro sábado seguinte.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (V)

XVI

DAS FACULDADES AFETIVAS: O LIVRE ARBÍTRIO

Há no homem faculdades distintas das cognoscitivas?
Sim, Senhor; as afetivas.

Que entendeis por faculdades afetivas?
O poder que o homem tem de propender para o que as faculdades cognoscitivas lhe apresentam como bom e de fugir do que como mau lhe põem diante dos olhos.

Quantas classes de faculdades afetivas há no homem?
Duas, correspondentes às duas espécies de conhecimento que estudamos.

Que nome recebe a primeira?
O de apetite sensitivo (LXXXI)*.

E a segunda?
A segunda chama-se vontade (LXXXII).

Recebe também a vontade o nome de apetite?
Sim, Senhor; porém em sentido mais nobre e espiritual.

Qual das duas faculdades é mais perfeita?
A vontade.

Se o homem possui livre arbítrio, é devido à vontade?
Sim, Senhor; porque, sendo o bem em geral (bonum commune) o único que a vontade ama necessariamente, quando solicitada por bens particulares permanece senhora de seus atos, podendo por consequência, inclinar-se a querer ou a não querer (LXXXVIII).

A liberdade humana reside exclusivamente na vontade?
Não Senhor; na vontade unida à inteligência.

O homem dotado de livre arbítrio, em virtude da inteligência e da vontade, é o rei da criação neste mundo corpóreo?
Sim, Senhor; porque os outros seres materiais são inferiores a ele, por natureza, e todos foram criados para que o servissem na peregrinação que há de empreender, até que volte ao seio de Deus, de cujas mãos saiu.

XVII

ORIGEM DIVINA DO HOMEM

Descendem dos mesmos pais todos os homens que existem e têm existido no mundo?
Sim, Senhor.

Como se chamavam os primeiros pais da linhagem humana?
Adão e Eva.

E eles, por sua vez, donde procediam?
Foram criados por Deus.

Como Deus os criou?
Dando-lhes corpo e alma.

Como produziu Deus as suas almas?
Por criação.

E os corpos?
O mesmo Deus nos revelou que modelou com barro o corpo de Adão e, de uma das suas costelas, formou o corpo de Eva (XCI, XCII).

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?
Sim, Senhor (XCIII).

Que quer dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?
Que a natureza e operações mais elevadas do homem lhe permitem entrever a natureza divina e a vida íntima da Augusta Trindade e imitam de certo modo a perfeição das pessoas divinas (XCIII, 5).

Por que se reflete, na natureza e nas operações mais nobres do homem, a natureza divina?
Porque também a nossa alma é espiritual e as suas operações mais perfeitas, entender e amar, têm por objeto a primeira Verdade e o Bem supremo, que é o mesmo Deus (XCII, 5-7).

Por que nos atos de entender e amar podemos ver uma semelhança da vida íntima da Augusta Trindade?
Porque o nosso Espírito, ao pensar em Deus, concebe um verbo interior que lhe serve de objeto e, sob a influência do pensamento produtor do Verbo, brota o ato de amar o objeto concebido pelo espírito (XCIII, 6).

De que modo podemos imitar a perfeição própria das Pessoas divinas?
Podemos, à sua semelhança, ter como primeiro objeto e último fim de nossos pensamentos e afetos a Deus, concebido no entendimento e adorado no coração (XCIII, 6).

Não há no mundo corpóreo, além do homem, algum outro ser feito à imagem e semelhança de Deus?
Não, Senhor; porque somente o homem possui natureza espiritual (XCIII, 2).

Logo, nas criaturas inferiores, nada há por onde venhamos ao conhecimento de Deus?
Sim, Senhor; porque, em razão das perfeições materiais de que foram dotadas, são como impressões ou vestígios da mão de Deus, seu criador (XCIII, 6).

XVIII

DO ESTADO FELIZ EM QUE FOI CRIADO O HOMEM

Criou Deus o homem perfeito?
Sim, Senhor.

Que bens compreendia o primitivo estado de felicidade em que o homem foi criado?
Ciência claríssima e universal, justiça original unida à prática de todas as virtudes, império absoluto da alma sobre o corpo e domínio sobre todas as criaturas (XCIV, XCV, XCVI).

Possuía o primeiro homem estes bens, na qualidade de privilégio exclusivo e intransferível?
Em relação à ciência, sim Senhor; porém, a justiça original e os dons de integridade se transmitiriam por geração a todos os seus descendentes, porque eram inseparáveis da natureza humana enquanto deles não fosse o homem despojado pelo pecado (XCIV, 1).

Estava o homem sujeito à morte?
Não, Senhor (XCVI, 2).

Estava isento de sofrimento e de dor?
Sim, Senhor; visto que a alma, por especial privilégio, protegia o corpo contra todo o mal e ela por sua vez de coisa alguma podia receber dano, enquanto a vontade permanecesse submissa a Deus (XCVII, 2).

Logo, o homem foi criado em estado de verdadeira felicidade?
Sim, Senhor.

E aquela felicidade era a última e suprema a que podia aspirar?
Não, Senhor; era temporal e a ela devia seguir-se outra mais alta e definitiva (XCIV, 1, ad 1).

Como poderíamos chamá-la?
A primeira felicidade inicial, durante a qual o homem contrairia méritos para alcançar, a titulo de recompensa, o estado de felicidade último e perfeito (XCIV, 1,2, 2; XCV, 4).

Onde receberia o homem o galardão que havia de coroar a sua felicidade?
No céu da glória, em companhia dos anjos, para onde seria levado por Deus, depois de algum tempo de prova e méritos no primitivo estado (XCIV. 1, ad 1).

Onde habitaria o homem, enquanto contraía méritos para ser levado á glória?
Num jardim de delicias, expressamente preparado por Deus (CII).

Como se chamou aquele lugar de delícias?
Paraíso terreal.


referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).