terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A CURA DE TODOS OS MALES

E assim como os médicos quando fazem curativos sobre as feridas não o fazem de modo inábil, mas com cuidado, de modo que a utilidade do curativo venha acompanhada de certa estética, do mesmo modo a medicina da Sabedoria divina tomando forma humana aplicou seu remédio a nossos males. Ela trata certas feridas com remédios contrários e outras com remédios semelhantes. Desse mesmo modo é que o médico cuida de uma lesão do corpo empregando certos elementos contrários, como o frio contra o calor, o úmido contra o seco, ou ainda servindo-se de procedimentos de gênero semelhante. Assim, vemos o médico empregar certos produtos que se assemelham ao mal, como curativo redondo para uma ferida circular, alongado para uma chaga longa. Ele não faz enfaixamento igual em todos os membros, mas ajusta elementos semelhantes às coisas semelhantes.

Ora, a Sabedoria divina não age de modo diferente quando cuida do homem. Apresentou-se em pessoa para curá-lo. Ela própria é o médico e ao mesmo tempo o remédio. Posto que o homem caiu por orgulho, recorreu à humildade para o curar. Nós, que fomos enganados pela sabedoria da serpente, seremos libertados pela loucura de Deus. Ora, assim como a Sabedoria parece loucura para os contestadores de Deus, do mesmo modo o que chamamos loucura é sabedoria para os vencedores do demônio.

Usamos mal da imortalidade e isso nos fez morrer. Cristo usou bem da mortalidade e isso nos faz viver. Pela alma corrompida de uma mulher entrou a doença. E do corpo íntegro de outra mulher veio a saúde. A esse gênero de contrários pertence também a cura de nossos vícios, graças ao exemplo das virtudes de Cristo. Eis agora os remédios semelhantes aplicados como ataduras a nossos membros e a nossas feridas: nascido de uma mulher, ele libertou aqueles que tinham sido enganados por uma mulher. Homem, libertou os homens. Mortal, libertou os mortais. Morto, libertou os mortos.

(Excertos da obra 'A Doutrina Cristã', de Santo Agostinho)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O MAOMÉ DE SÃO JOÃO BOSCO

Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel.

A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força.

Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua.

Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou égira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era.

O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata persa chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem, teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pôde com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632.

(São João Bosco, em sua 'História Eclesiástica')

domingo, 26 de fevereiro de 2017

'NÃO VOS PREOCUPEIS'

Páginas do Evangelho - Oitavo Domingo do Tempo Comum


Na sequência litúrgica do Evangelho de São Mateus de celebração dos ensinamentos de Jesus no Sermão da Montanha, temos neste domingo, a mensagem do Divino Mestre sobre a impossibilidade de servir, ao mesmo tempo, a Deus e às riquezas: 'Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro' (Mt 6, 24).

Servir... o servo fiel é aquele que coloca tudo de si, do seu tempo, de suas ações, para maior glória de Deus. Neste sentido, servir é a oferta de si mesmo, sem restrição alguma, ao amor de Deus em plenitude, como vítima de expiação e instrumento da graça divina para todos. O servo dividido entre Deus e o mundo é minado na sua fidelidade pelas paixões e vícios humanos, ficando refém das promessas ilusórias de bens passageiros e inócuos. A atração pelo mundo escraviza a alma às mazelas da servidão frouxa e interesseira.

E não existe mais infeliz servidão do que aquela que padece da escravidão às riquezas e aos bens materiais. Não que os bens materiais sejam  maus ou indesejáveis em si, não se trata disso. A servidão doentia é aquela que se banqueteia da busca desenfreada de valores materiais, na sublimação da ânsia de se querer sempre mais. Para o servo infiel, nada é o suficiente, o que se tem é pouco, a meta é aumentar sempre as posses indefinidamente, a síntese da vida humana consiste em ganhar o mundo. Poderão ser ricos e senhores do dinheiro, mas serão réus da iniquidade diante de Deus.

Jesus nos ensina e proclama que Deus há de prover as necessidades do corpo dos seus escolhidos, pois que valemos muito mais que as aves do céu e que os lírios dos campo. Se a Divina Providência torna disponível as necessidades materiais dos seres inferiores, o que não faz e o quanto não zela pelas necessidades dos seus filhos, nascidos à Sua imagem e semelhança zelosos servidores do Senhor da Messe? 'Não vos preocupeis' (Mt 6, 31 e 34) porque 'Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso' (Mt 6, 32). Para o servo fiel, tudo isso deve ser mera consequência de uma vida devotada a cumprir a Santa Vontade de Deus em tudo: 'buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo' (Mt 6, 32 - 33). Neste caminho de santificação, não existem esquecidos para Deus: 'Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti' (Is 49, 15).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

FÁTIMA EM FATOS E FOTOS (III)

11. Quem foi o anjo mensageiro das aparições de Fátima?

Um anjo é um mensageiro de Deus destinado a realizar, em Seu nome, uma missão particular e são inúmeras as intervenções das entidades angélicas nos acontecimentos da história humana. Sabemos, do livro de Daniel, que eles são muitos ('mil milhares O serviam e miríades e miríades O assistiam') e que as Sagradas Escrituras incluem nas hostes celestiais, além dos anjos, também os arcanjos, os principados, as potestades, as virtudes, as dominações, os tronos, os querubins e os serafins. Entretanto, destas miríades de anjos, só nos foram dados a conhecer os nomes de três anjos: Gabriel, Miguel e Rafael. Que os anjos intercedem pelos homens, é matéria de fé e que cada um de nós tem um anjo da guarda pessoal, embora não seja matéria de fé, é crença comumente aceita por todos os católicos. As aparições de Fátima confirmam que não somente pessoas, mas grupos específicos de pessoas (no caso, países) têm a proteção específica de uma entidade angélica. E, em Fátima, o anjo mensageiro dos Céus se identificou como o Anjo da Paz em sua primeira aparição e como Anjo de Portugal, em sua segunda aparição. 

12. Qual foi a missão específica do Anjo de Portugal nas aparições prévias de Fátima?

A missão específica do Anjo de Portugal, nas suas aparições entre 1915 e 1916, foi a de preparar as crianças para as futuras aparições e revelações de Nossa Senhora: '... Orai! Orai muito! Os corações de Jesus e de Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia...' No papel do precursor das extraordinárias revelações e mensagens proféticas que Nossa Senhora daria à humanidade do século XX através dos três pastorzinhos de Fátima, as aparições iniciais do anjo propiciaram às crianças a experiência prévia de contato com o sobrenatural, a vivência de uma atmosfera sobrenatural, o êxtase da presença intensa e íntima com Deus, o conhecimento do valor meritório das orações, sacrifícios e penitências, a sensação de uma profunda paz interior e uma crescente mobilização interior no sentido de uma reorientação completa da vida espiritual.

13. Como ocorreu a primeira manifestação sobrenatural do anjo mensageiro de Fátima?

Lúcia encontrava-se na encosta do Cabeço, em presença de três outras meninas: Teresa Matias, a irmã dessa, Maria Rosa Matias e Maria Justino, num dia em que não soube precisar, mas provavelmente entre abril e outubro de 1915. Do alto da encosta, as quatro crianças viram ao longe, sobre o arvoredo do vale que se estendia abaixo, uma estranha nuvem, mais branca que a neve e algo transparente, de forma caracteristicamente humana. Lúcia teve essa mesma visão mais duas vezes depois, em dias diferentes, que causaram uma certa impressão no seu espírito, mas das quais sempre manteve absoluto silêncio à época e que tenderia provavelmente a se desvanecer por completo no tempo, segundo ela, se não fossem os eventos posteriores das aparições formais do Anjo e de Nossa Senhora. 

14. Como se deu a primeira aparição do Anjo da Paz?

As crianças tinham levado o rebanho de ovelhas para pastar no lugar chamado 'Loca (Gruta) do Cabeço', nos arredores de Aljustrel, num certo dia da primavera de 1916. Uma chuvinha miúda pela manhã forçou as crianças a buscar um abrigo para o rebanho em uma das inúmeras grutas existentes no local, em meio a um extenso olival. Ali passaram o dia, mesmo após a chuva ter cessado e o dia ter ficado luminoso e ensolarado. 

('Loca do Cabeço', perto da aldeia de Aljustrel)

Após rezarem o terço, começaram uma brincadeira de lançar pedrinhas à distância. Neste momento, uma forte ventania chamou a atenção imediata de todos e todos os olhares se concentraram no olival à distância. Sobre o arvoredo, elevava-se a figura de um jovem de cerca de 14 ou 15 anos 'mais branco que a neve e transparente como o cristal atravessado pelos raios do sol e muito belo' (Segunda Memória), movendo-se em direção a elas. Ao chegar junto às crianças, disse a elas:

'Não tenhais medo. Eu sou o Anjo da Paz. Rezai comigo.'


Ajoelhou-se então e inclinou o rosto até ao chão; movidos por um impulso sobrenatural, as três crianças o imitaram e repetiram três vezes as palavras que o ouviam pronunciar (Lúcia e Jacinta ouviam o que o Anjo dizia, Francisco apenas o via): 

'Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão pelos que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.' 

Depois, levantou-se e disse:

'Orai assim. Os corações de Jesus e de Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.'

E, após dizer estas palavras, desapareceu da vista das crianças.

15. Quais foram as impressões remanescentes das crianças após essa primeira aparição do Anjo?

A aparição do Anjo deixou os pastorzinhos envolvidos numa aura sobrenatural tão intensa que os fizeram perder a percepção da própria realidade em volta. Nenhum deles ousou falar sobre a aparição ou sequer discutir se manteriam ou não segredo sobre o que tinham visto, uma vez que tal sentimento se impôs de forma tão incisiva no íntimo das crianças, que elas sentiam-se impedidas de fazer quaisquer comentários sobre a aparição, mesmo entre eles. De acordo com o testemunho posterior de Lúcia, 'no dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera, que só muito lentamente foi desaparecendo' (Irmã Lúcia, Quarta Memória). A percepção deste recolhimento anterior foi mantido pelas crianças por longo tempo e, mesmo Francisco que não escutara as palavras do Anjo, permaneceu sempre em reserva profunda após a primeira aparição do Anjo. 

(Irmã Lúcia na 'Loca do Cabeço')

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

BREVIÁRIO DIGITAL (LI) - AS VISÕES DE TONDAL (IV)

A experiência além da morte de uma alma medieval percorrendo o Céu, o Inferno e o Purgatório, guiada pelo seu Anjo da Guarda.

VISÕES DE TONDAL - PARTE IV


O anjo agora apresenta à alma de Tondal os tormentos que estão reservados aos homicidas e assassinos. As almas destes condenados ao inferno são precipitados numa caldeira de óleo fervente, onde são calcinados até a sua completa liquefação, para novamente emergirem com os seus corpos inteiros e recomeçarem o suplício interminável.


O anjo leva a alma de Tondal para a Cisterna do Inferno, onde os demônios cozinham as almas dos pecadores em um poço em que flui violentamente um turbilhão ascendente de chamas. Para desespero da alma de Tondal, esta se vê sozinha de repente e logo os demônios se apoderam dela para a arrastar à cisterna de fogo, quando o anjo reaparece, então, e liberta a alma de Tondal da ação dos demônios.



Liberado finalmente do inferno, a alma de Tondal é conduzida agora ao Purgatório, lugar de expiação dos pecados daqueles que não puderam alçar ao céu diretamente porque não eram perfeitamente bons e nem condenados ao inferno, porque não eram irreversivelmente maus. Na primeira etapa da viagem, a alma de Tondal se defronta com as almas dos 'maus, mas não irreversivelmente maus', que são mantidas totalmente imobilizadas, como estátuas, em nichos individuais, até se completarem os seus tempos de purgação.



Em seguida, o anjo e a alma de Tondal encontram-se diante de um portal que dá acesso a uma grande pradaria do Purgatório onde expiam os seus pecados 'os bons que não foram na terra perfeitamente bons'. Mergulhados na tristeza de não terem alcançado ainda o céu, as almas destes 'bons ainda não tão bons' se recolhem em silêncio absoluto e em contemplação em torno da fonte da vida.

10 MANEIRAS DO CATÓLICO PASSAR O CARNAVAL

1. No silêncio e no anonimato de tua oração fervorosa, aplaque a cólera de Deus contra os homens mergulhados nas desordens e licenciosidades do carnaval.

2. Pratique, de forma anônima e recata, a piedade e a caridade extremadas a muitos de teus próximos, nestes terríveis dias da insensatez humana!

3. Afaste-se completamente de todos os espetáculos, desordens, sensualidades e demais loucuras daqueles que se embriagam dos prazeres do carnaval pela força dos costumes.

4. Reflita, de forma muito especial e reverente, a memória e a paixão do Senhor nestes dias de carnaval.

5. Busque refúgio no escondimento do mundo, com o firme propósito de manifestar a glória de Deus, nestes dias, por meio da tua vida vivida inteiramente na pequenez e na solidão.

6. Visite o Santíssimo Sacramento durante os dias de carnaval e ofereça a tua oferta de desagravo aos pecados cometidos pelos homens ensandecidos de carnaval.

7. Antecipe a tua preparação, com zelo redobrado, de continência e penitência para a Quaresma.

8. Reze, reze muito, reze o tempo inteiro, com a tua oração, o teu silêncio, o teu descanso, o teu trabalho manual, o teu trabalho mental, com as tuas ações pequenas, simples, cotidianas e boas, oferecendo-as a Cristo em reparação às injúrias e loucuras de tantos homens nestes dias de carnaval.

9. Participe de santas missas, de exercícios ou retiros espirituais ou de atos de adoração, e reze particularmente pelos teus irmãos que dissipam a graça de Deus neste tempo de insanidades.

10. 'Abraça a cruz, enterra-a no seu coração... compadeça de mim e participe da minha dor' (Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

22 DE FEVEREIRO - A CÁTEDRA DE PEDRO

A celebração da festa litúrgica da Cátedra de São Pedro no dia 22 de fevereiro tem origem muito antiga e está documentada por sua inclusão num calendário do ano 354 e no Martyrologium Hieronymianum, o mais antigo da Igreja Latina, composto entre 431 e 450. Na pessoa de São Pedro (e de todos os seus sucessores), insere-se o fundamento visível da unidade da Igreja, nascida de Deus e glória de Deus até os confins dos séculos 'porque as portas do inferno não prevalecerão contra ela' (Mt 16,18).

'O chamado de Pedro' (Giorgio Vasari, sem data)


'Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16, 17-19).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O CÉU QUE NOS ESPERA

Ó que delícias gozarão as almas no paraíso! Segundo o testemunho de São Paulo, são elas inenarráveis: 'o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais experimentou o coração do homem o que preparou Deus àqueles que O amam' (1 Cor 2, 9). 'Deverei dizer-vos alguma coisa do céu?' pergunta São Bernardo, e responde: 'Lá nada existe que desagrade, mas tudo que pode satisfazer'.

'Tendo a alma entrado na bem-aventurança de Deus, nada mais encontrará que a desgoste, nada mais que a possa afligir. E Deus enxugará todas as lágrimas de seus olhos e não haverá mais nem morte, nem luto, nem dor alguma, porque as primeiras coisas passaram' (Ap 21, 4). No céu não há doença alguma, nem pobreza, nem adversidade de espécie alguma. Lá não haverá mudança de dias e noites, de frio e calor; lá existirá uma primavera eterna e deliciosa de todos os modos. 

Não haverá perseguição e inveja, já que aí todos amar-se-ão ternamente; cada um se alegrará tanto com a felicidade do outro como com a própria. Lá não haverá mais temores, pois a alma confirmada em graça não poderá mais perder a Deus. 'Eis que faço novas todas as coisas'. Tudo é novo, tudo nos alegra e satisfaz. Os olhos regozijar-se-ão com a vista dessa cidade de incomparável beleza. Que admiração não se apoderaria de nós, se víssemos uma cidade calçada de cristal, com palácios de pura prata forrados de ouro e ornados da maneira mais aprazível com jarros das mais esplêndidas flores! Ó quanto não fica acima disso a Jerusalém celeste!

Que encanto ver os habitantes do céu vestidos com pompa real, pois lá haverá tantos reis quantos os moradores, segundo São Agostinho. Que delícia ver a Santíssima Virgem, mais bela que todo o céu. Que prazer então ver o Cordeiro de Deus, Jesus, o esposo das almas. Santa Teresa teve uma vez o privilégio de ver uma mão do Salvador glorificado, sendo tão grande sua beleza que a santa entrou em êxtase. Perfumes esplêndidos e fragrâncias paradisíacas nos deleitarão nos céus. Deliciarão nossos ouvidos harmonias sobrenaturais. Um anjo fez São Francisco ouvir uma só melodia celeste, sentindo-se o santo desfalecer de gozo. Que será então quando se ouvir cantar os coros dos anjos e santos? Que será então ouvir a Santíssima Virgem louvar a Deus? A voz de Maria no céu assemelha-se à do rouxinol, que sobrepuja a de todos os outros pássaros, observa São Francisco de Sales. Numa palavra: o paraíso é o complexo de todas as alegrias imagináveis.

E, contudo, essas alegrias todas são os menores bens do céu. O que constitui propriamente o céu é o Sumo Bem, é Deus. ‘Tudo o que esperamos está contido em duas sílabas, Deus’, diz Santo Agostinho (In Jo X, tract. 4). A recompensa que Deus promete não consiste propriamente em belezas, harmonias e alegrias para os sentidos; a recompensa principal que nos espera é o próprio Deus; ela consiste, em especial, na visão e amor de Deus. 'Eu sou a tua recompensa excessivamente grande', disse Deus a Abraão (Gn 15, 1). 'Se Deus se mostrasse aos condenados, no mesmo instante o inferno tornar-se-ia um paraíso', diz Santo Agostinho.

(Santo Afonso Maria de Ligório)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

20 DE FEVEREIRO - BEM AVENTURADOS JACINTA E FRANCISCO


Jacinta contava apenas sete anos e Francisco apenas nove quando tiveram, juntamente com Lúcia (à época, com 10 anos) as visões de Nossa Senhora em Fátima. Se é verdade que São Domingos Sávio morreu aos 15 anos e Santa Maria Goretti aos onze, é possível que crianças em tal tenra idade sejam capazes de viver e praticar a virtude com zelo heroico e, assim, alcançarem o cimo da santificação? A resposta é sim e este sim se aplica aos pequenos videntes de Fátima. Pois, foi exatamente com base na curtíssima vida de Jacinta e de Francisco Marto que o Papa João Paulo II revogou os decretos impeditivos de Pio XI neste sentido e declarou-os bem aventurados da Igreja em 13 de maio de 2000.

Depois da visão do inferno, Nossa Senhora pediu a ambos orações e sacrifícios pela conversão dos pecadores, e as duas crianças passaram a se esmerar para o pleno cumprimento destas práticas desde então e citam-se inúmeros exemplos de mortificação dados por eles em diversas ocasiões. Em 1918, foram vitimados pela terrível gripe pneumônica que assolou toda a Europa. Durante meses, em meio a internações e operações diversas, os dois irmãos sofreram com grande resignação. 

Em janeiro de 1919, a Santíssima Virgem apareceu-lhes para dar uma surpreendente notícia e convidar Jacinta ao holocausto completo: 'Nossa Senhora veio nos ver e disse que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim, perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. Disse-me que iria para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus.' Francisco morreria em 04/04/1919. Jacinta, internada em um hospital de Lisboa, padeceu com serenidade os tormentos finais da sua enfermidade, até falecer em 20 de fevereiro de 1920.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

'SEDE PERFEITOS!'

Páginas do Evangelho - Sétimo Domingo do Tempo Comum


A pregação de Jesus deste domingo é uma complementação direta daquela manifestada no evangelho do domingo passado. Diante das imposições arbitrárias e inconsistentes da lei judaica vigente, Jesus vai propor a mais radical das proposições ao homem pecador: 'sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!' (Mt 5, 48). A superação das fragilidades e incertezas humanas deve ser, portanto, absoluta: a santificação pessoal se espelha pura e simplesmente na Perfeição de Deus.

Diante o mal generalizado e corrente, o enfrentamento e a oposição cristãs não se compactuam com a lei do talião: 'olho por olho, dente por dente', mas implicam a aceitação das provações humanas, o autocontrole dos instintos, a serenidade das ações e das reações diante da injustiça e do arbítrio: 'se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!'(Mt 5, 39), e ainda, 'Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!' (Mt 5, 41). A essência da santificação é não se perder no redemoinho das vertigens humanas, mas seguir, à perfeição, Jesus 'manso e humilde de coração' (Mt 11, 29).

O sinal de distinção da vida cristã é a perfeição da vida em Deus. No seguimento a Cristo, não cabem quaisquer sentimentos de revolta, vingança ou indignação. Não basta amar os que nos amam, porque até os maus fazem isso também. Não basta ser generoso e cordial com os nossos amigos e companheiros, porque os maus também vivem assim. Deus dá o sol e faz cair a chuva sobre os justos e os injustos. A identidade cristã é um libelo contra a ordem humana da condescendência natural: 'Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!' (Mt 5, 44). 

Eis o legado de Cristo aos que somos povo de Deus: 'sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!' (Mt 5, 48). Nada aquém desse propósito gigantesco e singular, nada de metas sofríveis, nada de caricaturas de uma vida cristã! Eis a nossa missão como filhos de Deus e herdeiros do Céu: trazer e manter nos atos e ações cotidianas o legado batismal da perfeição divina: 'Acaso não sabeis que sois santuários de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?' (1Cor 3, 16). 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

NOSSA SENHORA E CARNAVAL: QUANDO O INFERNO É AQUI...

'Não deis aos cães o que é sagrado, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem' (Mc 7,6)

A igreja e os católicos no Brasil se rejubilaram com o ano mariano, nos 300 anos do achado da imagem e do início da devoção a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. E, no contexto de honra e de memória tão especiais, eis que surge a notícia de que Nossa Senhora será 'homenageada' num desfile de carnaval deste ano por uma escola de samba de São Paulo. Não é preciso escrever laudas e laudas sobre tamanho sacrilégio e profanação, pois o próprio Nosso Senhor, ao responder à irmã Lúcia sobre a razão e a natureza da Devoção dos Cinco Primeiros Sábados, uma dos grandes devoções associadas às aparições de Fátima, revelou a dimensão suprema da natureza desta blasfêmia:

'Minha filha, são cinco as espécies de ofensas e blasfêmias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria: contra a Imaculada Conceição; contra a Sua Virgindade; Contra a Maternidade Divina, recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe dos homens; os que procuram publicamente infundir, nos corações das crianças, a indiferença, o desprezo, e até o ódio para com esta Imaculada Mãe e os que a ultrajam diretamente nas suas sagradas imagens'.

Que bela nação católica é o Brasil, que transforma o sagrado e o profano em coisas igualmente comezinhas e perfeitamente conciliáveis entre si. Não há conciliação possível entre Cristo e Satanás. Não existem palavras edulcoradas possíveis, que não sejam o supra sumo do escárnio e de vergonha, capazes de dar sustentação à interpretação de que uma festa pagã e lasciva como o carnaval pode ser entendida como uma festa popular capaz de expressar algo que pudesse ser ainda que remotamente próximo da santa alegria cristã. A alienação dos católicos é absurda, notória, contumaz, avalizada infelizmente por uma parte do clero subjugada pela tibieza e covardia extremas, as faces reencarnadas dos atuais fariseus e vendilhões do templo. A verdade não admite meias palavras. Triste Brasil Católico, que aceita assistir inerme, em sambódromos ou esculhambódromos circenses, o desfile de ultrajes de uma imagem da Santa Mãe de Deus ao longo de um prostíbulo ao vivo.

Onde está a CNBB que mobilizou os fieis católicos contra a corrupção, contra a intolerância política, contra a PEC 241, contra os pagamentos via caixa 2 e contra mais uma montanha de outras proposições igualmente de fundo especificamente não religioso em si? Agora nada? Seria inoportuno cobrar um posicionamento crítico e contundente do Papa contra tal escândalo? Mas São Paulo não nos intimou a todos a pregar a verdade 'oportuna e inoportunamente' ... 'porque virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação' (II Tim 4, 2 - 3)? E nós, simples cristãos, ficaremos apenas perplexos e ressentidos, esperando o carnaval passar? 

Bem, podemos fazer pouco e fazer muito. Desligar a TV, mas ser coadjuvante deste escândalo nas mídias sociais não testemunha grande coisa a nosso favor. O que realmente podemos fazer de melhor seriam muitos, milhares de atos de reparação e de desagravo, pequenos, escondidos, anônimos, fervorosos, além de visitas ao Santíssimo Sacramento e da recitação do Santo Rosário. Somos católicos e a nossa fé e a nossa crença são instrumentos capazes de remover montanhas e subjugar o mal em todas as suas mazelas, tenham elas a dimensão do mundo. Mas precisamos fazer a nossa parte, como a água comum e aparentemente sem valia das talhas enchidas até a borda nas Bodas de Caná, que o Filho de Deus converteu em vinho bom. Eis o que podemos realmente fazer agora, como católicos conscientes e atuantes em defesa de nossa autêntica fé cristã: reparar, desagravar, transformar a água em vinho bom, o sacrilégio numa corrente de graças, como uma nova história de Caná dos nossos dias, a ser revivida por inteiro neste próximo e tristíssimo carnaval.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

DO LIVRO DAS CINTILAÇÕES (VI)

Do Livro das Cintilações*- VI

XLI - A detração

175. Disse Agostinho: Não fales mal e não ouças falar mal de ninguém.

XLII - As vontades

176. Disse Agostinho: Tudo o que Deus quer de nós é uma vontade boa.

177. Disse Gregório: Aos olhos do Senhor, uma mão nunca está vazia de oferendas, se a arca do coração está repleta de boa vontade (Hom. Ev., 5, 3; PL 76, 1094).

XLIII - As vestes

178. Disse Gregório: Ninguém procura vestes caras senão por vanglória, isto é, para ostentar maior posição que os outros: ninguém se ocupa de vestir-se bem onde ninguém o possa ver (Hom. Ev., 40, 3; PL 76, 1305).

XLIV - A misericórdia

179. Disse Cipriano: Não pode merecer a misericórdia de Deus quem não for misericordioso. Nada obterá da divina bondade com suas súplicas quem não agir com humanidade ante as súplicas do pobre (De op. et eleem.; PL 4, 606).

XLV - A compaixão para com o próximo

180. Disse Gregório: Quem acolhe a dor do sofrimento de outro carrega a cruz em espírito (Hom. Ev., 37, 5; PL 76, 1277).

181. Disse Gregório: Não há outro meio de nos tornarmos membros de nosso Redentor senão unindo-nos a Deus e compartilhando a dor do próximo (Hom. Ev., 39, 9; PL 76, 1300).

XLVI - O orgulho

182. Disse o Senhor no Evangelho: Quem se eleva será humilhado (Lc 18,14).

XLVII - A vida do homem

183. Disse o Senhor no Evangelho: Não vos preocupeis sobre o que vestireis; vossa alma é mais do que o alimento (Mt 6,25).

XLVIII - Os presentes

184. Disse o Senhor: Os presentes cegam os olhos dos sábios e alteram as palavras dos justos (Dt 16, 19).

XLIX - As esmolas

185. Disse Gregório: Quando damos aos indigentes o que lhes é necessário estamos dando o que lhes é devido e não fazendo um ato de generosidade (Pastor. 3, 21; PL 77, 87).

L - A tribulação

186. Disse o Senhor: Eu, aos que amo, repreendo e corrijo (Apoc 3,19).

187. Disse Paulo Apóstolo: É por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus (At 14,22).

188. Disse Agostinho: Quem não merecer ser atribulado neste mundo será torturado no inferno.

189. Disse Jerônimo: A cólera terrível de Deus é a que não se encoleriza contra os pecadores. Médico, quando deixa de aplicar tratamento, é porque desesperou (Ep. 68, 1, 5; PL 22, 652).

LI - As primícias ou oferendas

190. Disse Salomão: Os sacrifícios dos ímpios são abomináveis para o Senhor; os dos justos, aplacam-no (Prov 15,8).

LII - A tristeza

191. Disse Isidoro: Queres estar sempre longe da tristeza? Viva bem. Para quem guarda a consciência, a tristeza não pesa. O bem viver traz sempre consigo a alegria; já a consciência culpada sempre sofre: a alma culpada sempre está insegura (Syn., 2, 61; PL 83, 859).

LIII - A beleza

192. Disse Basílio: Cristo se compraz com a beleza da alma, não com a do corpo. Ama tu também o que agrada a Deus.

LIV - As refeições

193. Disse Jerônimo: Se fores convidado a comer com um pecador, vai, para que possas dar a quem te convidou teus alimentos espirituais (In Mt. 9, 13; PL 26, 56).

194. Disse Gregório: Enquanto o corpo se distende no prazer das refeições, o coração se abandona a uma vã alegria: sempre a loquacidade se segue aos banquetes; com o estômago cheio, a língua fica sem freio (Moral. I, 8, 10; PL 75, 532).

LV - O riso e o pranto

195. Disse Agostinho: Mais vale a tristeza de quem sofre uma injustiça do que a alegria de quem a comete (En. in Ps. 56, 14; PL 36, 671).

196. Disse Jerônimo: Se a sorte te sorri, não te tornes arrogante; se te sobrevém a desgraça, não te deprimas.

LVI - O honrar os pais

197. Disse Jerônimo: Honra teu pai, desde que ele não te separe do verdadeiro Pai; reconhece o vínculo do sangue, na medida em que ele reconheça seu Criador (Ep. 54, 3; PL 22, 551).

LVII - Os filhos

198. Disse Paulo Apóstolo: Isto é justo: obedecei aos vossos pais no Senhor (Ef 6,1).

199. Disse Salomão: Quem poupa seu filho à vara, odeia-o; quem o ama, aplica-se a corrigi-lo (Prov 13,24).

LVIII - Os ricos e os pobres

200. Disse o Senhor no Evangelho: Ai de vós, ó ricos, porque já tivestes o vosso consolo (Lc 6,24).

201. Disse Isidoro: A posse de bens terrenos, se não é para refazer a vida dos miseráveis, é uma tentação. Os ganhos deste mundo causam tanto mais suplícios quanto maiores eles são (Sent., III, 60; PL 83, 733).

202. Disse Isidoro: Não por muito tempo podemos estar com nossas riquezas: ou nós as abandonamos, morrendo; ou, vivendo, elas nos abandonam (Sent., III, 60, 3; PL 83, 733).

LIX - A acepção de pessoas

203. Disse Jerônimo: Justo é o julgamento em que se consideram não as pessoas, mas os atos (In Mt. 16, 27; PL 26, 121).

204. Disse Isidoro: Ao julgar, não consideres a pessoa, mas a causa (Sent., III, 53, 1).

LX - O caminho

205. Disse o Senhor no Evangelho: Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta que conduz à vida e quão poucos os que a encontram! (Mt 7,13-14)

206. Disse Paulo Apóstolo: Vede, irmãos, o modo como caminhais: não como tolos, mas como sábios (Ef 5,15).

207. Disse Gregório: Tolo é o viajante que, vendo no caminho uma pradaria agradável, esquece o caminho que empreendia (Hom. Ev., 14, 6; PL 76, 1130).

LXI - O senso

208. Disse Jesus, filho de Sirach: Honra e glória no falar do homem sensato; a língua do insensato é sua ruína (Eclo 5,15).

LXII - Os servos e os senhores

209. Disse Paulo Apóstolo: Senhores, dai aos vossos servos o que é justo e equitativo, sabendo que também vós tendes um Senhor no Céu (Col 4,1).

210. Disse Cipriano: Sê para o teu servo tal como desejas que o Senhor seja em relação a ti (Adm. ad fil. 49, 17-18; PL 103, 693).

LXIII - Os bons e os maus

211. Disse Paulo Apóstolo: Nós vos rogamos, irmãos, que vos afasteis de todo irmão que não anda pelo bom caminho (II Tess 3, 6).

212. Disse Isidoro: Assim como é de desejar que os bons tenham paz entre si assim também é que os maus se digladiem (Sent., III, 31, 2; PL 83, 703).

* (Liber Scintillarum, escrito por volta do ano 700, constitui uma coletânea de máximas e sentenças compiladas das Sagradas Escrituras ou proclamadas pelos Pais da Igreja, organizadas por um monge - que se autodenomina 'Defensor' - do Mosteiro de São Martinho de Ligugé; tradução de Jean Lauand)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O MAOMÉ DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

'Ele seduziu os povos com promessas referentes aos desejos carnais, excitados que são pela concupiscência. Formulou também preceitos conformes àquelas promessas, relaxando, desse modo, as rédeas que seguram os desejos da carne. Além disso, não apresentou testemunhos da verdade, senão aqueles que facilmente podem ser conhecidos pela razão natural de qualquer medíocre ilustrado. Além disso, introduziu, em verdades que tinha ensinado, fábulas e doutrinas falsas.

Também não apresentou sinais sobrenaturais. Ora, só mediante estes há conveniente testemunho da inspiração divina, enquanto uma ação visível, que não pode ser senão divina, mostra que o mestre da verdade está inspirado de modo invisível. Mas Maomé manifestou ter sido enviado pelo poder das armas, que também são sinais dos ladrões e dos tiranos. Ademais, desde o início, homens sábios, versados em coisas divinas e humanas, nele não acreditaram. Nele, porém, acreditaram homens que, animalizados no deserto, eram totalmente ignorantes da doutrina divina. No entanto, foi a multidão de tais homens que obrigou os outros a obedecerem, pela violência das armas, a uma lei.

Finalmente, nenhum dos oráculos dos profetas que o antecederam dele deu testemunho, visto que ele deturpou com fabulosas narrativas quase todos os fatos do Antigo e do Novo Testamento. Tudo isso pode ser verificado ao se estudar a sua lei. Já também por isso, e de caso sagazmente pensado, não deixou para leitura de seus seguidores os livros do Antigo Testamento, para que não o acusassem de impostura. Fica assim comprovado que os que lhe dão fé à palavra creem levianamente'.

(Suma contra os Gentios, Livro I)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

LUZ NAS TREVAS DA HERESIA PROTESTANTE (VIII)

Quarta Objeção* do crente: apresentar um texto das Sagradas Escrituras que prove que os ministros de Deus não devem se casar.

Passemos à quarta objeção que nos atiram os maninhos de Lutero, julgando eles ser uma pedra formidável, capaz de esmagar um romano. Infelizmente a pedra não passa de uma formidável peta [no sentido de blefe], que mostra apenas a ignorância e a falta de bom senso do seu autor. O tal crente pede-me um texto que prove que os ministros da religião não devem se casar.

O negócio é sério. Parece que o crente quer servir de padrinho ou de escrivão de casamento, querendo casar até quem nem a noiva conhece. O homem é um perigo! O crente pede apenas 'um texto'. Vou servir-lhes uns vinte pelo menos: textos da Sagrada Escritura, do bom senso, da conveniência. Se não ficar convencido depois, não será por falta de textos, mas falta de 'cabeça'.

I. Prova de bom senso

Comecemos pelo bom senso, que é a grande bússola da humanidade, dos protestantes e dos católicos.
Pois bem, o bom senso nos diz que o homem é livre de se casar ou ficar celibatário. É ou não é verdade, amigo crente? Isso depende da vontade de cada um (1 Cor 7,37). De sorte, continua São Paulo, que quem dá a sua filha em casamento, fez bem; mas quem não a dá, faz melhor (1 Cor 7,38). Casa, pois, quem quer e quem pode, pois é preciso serem dois. Se pois existe tal liberdade, por que os padres não gozariam dela? Quem disse ao amigo crente que os padres têm tanta vontade de se casar?Eu, por mim, sei que nem tenho, nem nunca tive!

O sacerdócio católico não é obrigação para ninguém. A Igreja não obriga ninguém a ser padre. O estado eclesiástico deve ser livremente escolhido. Aqueles que o escolhem é, pois, de espontânea vontade que o fazem, sujeitando-se aos sacrifícios que ele exige. É somente depois de uns 12 anos de estudo que a Igreja exige o voto de castidade, podendo o candidato recuar ou continuar à vontade. Tudo isso é simples como o dia. Há muitos homens e moças que não se casam por interesse ou por medo ou falta de inclinação; e esta liberdade seria recusada ao sacerdote? Está, pois, claro, amigo crente; o padre não casa porque prefere consagrar a Deus a sua vida, o seu coração e o seu corpo.

Ninguém pode contestar-lhe esta liberdade, nem dizer que faz mal, pois segue o conselho de São Paulo, que os protestantes não têm coragem de seguir: 'Digo, porém, aos solteiros e às viúvas que lhes é bom ficarem como eu' (1 Cor 7,8). 'Cada um fique na vocação a que foi chamado' (1 Cor 7, 24). 'O solteiro cuida das coisas do Senhor, mas o que é casado, das coisas do mundo' (1 Cor 7, 32-33). 'Porém será mais feliz se ficar assim como eu; e também eu penso ter o espírito de Deus' (1 Cor 7,40). Eis o que diz o bom senso, apoiado sobre a Sagrada Escritura. Casar é bom; não casar é melhor.

O padre católico escolhe o que há de melhor e o pastor protestante o que há de pior, como diz São Paulo. Qual dos dois age melhor e mais acertadamente? Consulte o bom senso e São Paulo no capítulo 7 da primeira epístola aos coríntios. Ele não era protestante, mas uma das colunas da Igreja Católica Romana e, como tal, era celibatário, como o são ainda hoje todos os sacerdotes católicos.

II. O exemplo de Cristo

Vamos, amigo protestante, temos de percorrer ainda muitos textos. Citei apenas os textos do bom senso, apoiado sobre textos de São Paulo. Vamos agora ver um pouco de perto o próprio Evangelho e, no Evangelho, o exemplo do grande modelo que é Cristo. Dize lá, se é bom ou ruim seguir o exemplo e as pisadas de Cristo? Se é ruim, então o amigo lance a sua bíblia ao fogo! Se é bom, o amigo verificará que teve a língua comprida demais e a inteligência por demais curta.

Apenas uma pergunta: Jesus era casado ou não? Não o era. É, pois, permitido ficar celibatário e guardar a castidade. Deve até ser muito melhor que o contrário, pois sendo Deus, Jesus deve ter escolhido o que havia de mais perfeito. Jesus era celibatário, era virgem, era a pureza perfeita. O sacerdote católico, que é o seu ministro, procura, o melhor possível, imitar o seu modelo divino – procura ser puro, casto, virgem, e por isso fica celibatário – ama a todos em Deus, e não quer ser amado por ninguém, fora de Deus.

Os pastores protestantes, que se gabam de seguir em tudo a bíblia, afastam-se aqui, aliás como no resto, dos exemplos do Cristo. Em vez de andarem separados de tudo, só andam acompanhados de (uma ou mais) 'pastoras' e de uma fila de 'pastorinhos' e 'pastorinhas'. Eu acho isso pouco evangélico, e pouco digno de um 'ministro' do culto, de um 'eleito', de um crente que já está salvo! Isto está tão longe dos exemplos daquele que disse: 'Eu vos darei o exemplo para que façais como eu fiz' (Jo 13,15). Está bem longe do conselho de São Paulo: 'Sede os imitadores de Deus como filhos queridos' (Ef 5,1). Note bem, querido crente: Jesus não tinha mulher, nem filhos carnais. Era virgem, enquanto certos ministros bíblicos andam cercados de prole legítima e não legítima; mas cala-te, minha pena, isso não se diz. Quem tem razão, Jesus ou o pastor protestante?

III. O exemplo dos Apóstolos

Não somente Jesus era celibatário, mas todos os apóstolos o eram. Os apóstolos são os primeiros sacerdotes, os primeiros bispos, ou ministros do culto. Havia entre eles viúvos, até talvez casados, que, de mútuo consenso, deixaram a mulher para seguir o divino Mestre, conforme o conselho deste último: 'Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga' (Mt 16,24) e ainda: 'Se quiseres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá o valor aos pobres' (Mt 19,21).

Cristo fala só em renúncia, cruzes e desprendimento; e nunca em mulher e filhos! Quem sabe se o suave crente não interpreta este texto, dizendo que a cruz que eles devem carregar é a mulher ou os filhos! Sendo assim, ele tem razão, e segue o Mestre carregando a mulher e os filhos nas costas. Que cruz, de fato, para um pastor protestante! São Pedro não o entendia assim e isso apesar de ter sogra, nem sequer perguntou a Jesus: 'Que hei de fazer com minha sogra, mulher e filhos?' Nada disso! Exclama bem alto:' Eis que nós deixamos tudo e te seguimos, qual será o nosso galardão?' (Mt 19,27). E Cristo respondeu: 'Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos ou irmãs, pai ou mãe, mulher ou filhos, ou terras, por amor de meu nome, receberá o cêntuplo e a vida eterna' (Mt 19,29).

Que bomba, meu caro protestante! O divino Mestre aconselha a deixar tudo, até a mulheres, filhos, por amor dele; e São Pedro o faz, enquanto os ministros protestantes procuram antes de tudo a mulher. O sacerdote católico imita São Pedro, enquanto o pastor bíblico imita Lutero. Onde estará a verdade? E qual dos dois segue melhor os ensinamentos de Cristo? Pobre homem, por que foste meter-te em um tal cipoal? Em parte nenhuma do Evangelho se encontra que o ministro do culto deve casar-se; ao contrário, só se encontram conselhos de não o fazer.

Verdade é que o ministro protestante nada tem de sacerdócio, e nenhuma missão, nenhuma autoridade tem. Ontem negociante ou roceiro, vira de repente pastor; ontem tolo e sem letras, torna-se hoje ilustrado e iluminado. Em tais casos pode casar-se; é o seu direito e é bom até que case para não queimar, como diz S. Paulo (I Cor 7,9), porém é bom que se cale então e não lance a pedra ao sacerdócio católico, que faz o que ele não sabe fazer. 'É bom que o homem não toque mulher', diz o apóstolo (I Cor 7,1), com maior razão aquele que deve ser o modelo, o conselheiro e o guia dos homens: o sacerdote.

Tudo isso é tão claro e tão simples que se fica admirado de um homem que só jura pela Bíblia não ter lido e meditado isso cem vezes. Abra os olhos, caro protestante, seja bastante franco para confessar que está fora da verdade, longe da verdade, e completamente afastado da sua Bíblia, ou melhor, da nossa Bíblia, pois a Bíblia é da Igreja Católica e não dos protestantes, que só deveriam inspirar-se nos escritos do seu pai Lutero.

IV. O conselho de Cristo

O amigo protestante quer mais textos ainda? Pode ler por inteiro o capítulo 7 da I epístola de São Paulo aos coríntios. Também São Mateus tem trechos admiráveis e em nada protestantes (Mt 19, 10-20). É o próprio Cristo que fala e responde aos discípulos e diz que 'não convém casar'. Não são todos que compreendem esta palavra, mas somente aqueles a quem é dado (Mt, 19,11). Pois bem, isso é dado ao sacerdote católico e não é dado ao pastor protestante; prova de que Jesus Cristo dá graças ao sacerdote que ele não dá ao tal pastor.

O padre católico ama a Deus, sem dividir o seu coração com a mulher; o pastor ama a sua pastora e as suas pastorinhas, de coração dividido, onde Deus nada tem. O padre católico procura agradar a Deus e o pastor protestante procura agradar à sua pastora. Repito-o: como homem particular, o amigo protestante tem este direito; porém como 'pastor' afasta-se do conselho do Mestre. Mas continuemos o nosso estudo. Até agora provei que o sacerdote pode ficar celibatário; que faz bem ficando assim, que segue os conselhos de Jesus Cristo e anda nas pisadas do Mestre divino.

Será o bastante, entretanto quero dizer mais, para convencer plenamente meu bom crente, caso ele busque sinceramente a luz e a verdade. O celibato é de conselho, não de preceito, senão o matrimônio seria um pecado, o que é falso; sendo um sacramento instituído por Jesus Cristo e por ele santificado na ocasião das núpcias de Caná. É o que fazia dizer a São Paulo: 'Este sacramento é grande em Jesus Cristo e na Igreja' (Ef 10, 32). Texto que de novo é a condenação dos protestantes que se contentam com o contrato civil, vivendo deste modo amasiados.

Para o sacerdote, o celibato ou castidade, não é simples 'conselho', mas um preceito eclesiástico. A Igreja é uma sociedade de fiéis; em toda sociedade deve haver um chefe, um governo que tenha autoridade e poder para formular leis diretivas para essa sociedade. Aqui, de novo, o protestantismo está fora de toda lei: quer formar uma sociedade sem chefe, um corpo sem cabeça. Pois bem, o papa, chefe da Igreja católica, apoiado sobre os exemplos e conselhos de Jesus Cristo e dos apóstolos, formulou a lei que os sacerdotes não podem mais casar-se e, se foram casados antes de receber as ordens sacras, não podem mais fazer uso do matrimônio.

Eis a lei que vigora na Igreja Católica. Esta lei existe desde Jesus Cristo e os apóstolos e desde os primeiros séculos se faz menção dessa obrigação. Tertuliano, que faleceu pelo ano de 222, diz que os clérigos são celibatários voluntários. Eis a lei do celibato, caro protestante. Se o amigo for sincero, deve confessar que é uma grande e bela instituição, derivada do exemplo do próprio Cristo e seguida por todos os sacerdotes, desde os apóstolos até nossos dias.

V. Outra objeção protestante

Para provar que o padre devia casar-se, os amigos protestantes encontraram em São Paulo um texto que lhe serve de cavalo de batalha. Com a liberdade de interpretação individual, é claro que um texto pode ser interpretado diversamente, e até às vezes receber explicações diametralmente opostas. O tal cavalo-de-batalha é o seguinte conselho de São Paulo a Timóteo: 'Se alguém deseja o episcopado, deseja uma boa obra. Importa que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, sóbrio, prudente, conciliador, modesto, hospitaleiro, capaz de ensinar' (I Tim 3, 1-2).

Eis a prova protestante de que o padre queira ou não queira, deve casar-se. Mas, diga-me, caro crente, como é que Cristo, que deixou a cada um a liberdade de casar-se ou de ficar celibatário, recusa este direito ao padre? E que prova tal texto? Prova que o celibato não é de obrigação divina, mas sim de conselho. O Apóstolo não diz: 'É prescrito que o bispo seja casado'; mas diz: 'Sendo ele casado, deve sê-lo com uma mulher só, excluindo deste modo a tal bigamia pública ou oculta'. E esta última é infelizmente demais conhecida.

Ora, nunca a Igreja ensinou que o celibato era de ordem divina, mas sim de ordem eclesiástica. O padre deve ser o pai espiritual de todos e, para isso, não deve ser o pai carnal de ninguém. O padre deve ocupar-se das crianças dos outros para instruí-las, e para isso não deve ter filhos próprios. O padre deve ser o conselheiro e o confidente de todos, e para isso deve viver independente de todos e de tudo. Para tudo isso, o padre deve poder dispor do seu tempo, o que não poderia fazer, se tivesse mulher ou filhos. O padre deve viver para a Igreja e para a religião, e não para a mulher e filhos.

O famoso texto de São Paulo, longe de contradizer, confirma a doutrina exposta e mostra o que sempre temos repetido: que o celibato não foi exigido por Cristo; porém foi aconselhado, pela palavra e pelo exemplo, deixando Jesus Cristo à sua Igreja o cuidado de regular estes pormenores, conforme os tempos e os lugares. É o bastante, pois a Igreja, assistida pelo Espírito Santo, faz o que Deus lhe inspira, pois é infalível em suas decisões dogmáticas e morais: 'Quem vos escuta, escuta a mim e quem voz despreza, despreza a mim', disse Cristo (Lc 10,16).

VI. Católicos e protestantes 

Como tudo isso está infinitamente acima dos exemplos dos lúbricos fundadores do protestantismo! Lutero com suas três raparigas; Zwinglio com sua libertinagem; Calvino condenado por crime torpe, marcado nas costas com ferro em brasa, sinal de extrema infâmia; Henrique VIII degolando as suas seis mulheres – mostram bastante o que é o protestantismo: uma escola de devassidão e de revolta. Pode haver protestantes bons; mas, neste caso, valem mais do que a religião que professam; enquanto o católico que praticasse completamente a religião seria um santo.

Eis confrontados os dois mistérios: o catolicismo e o protestantismo. O sacerdote católico, seguindo os conselhos e os exemplos de Cristo e dos apóstolos, renunciando à família e ao conforto do lar, para consagrar-se ao serviço de Deus, e o pastor protestante, casado, cercado de filhos e procurando deixar uma pequena fortuna para eles, não praticando nenhuma das grandes virtudes, tão aconselhadas por Cristo a seus apóstolos, que são os primeiros sacerdotes e cujos exemplos devem servir de norma a todos os sacerdotes.

E os protestantes tem a ousadia de lançar pedras ao sacerdócio católico, pedindo-lhe textos que provem que não se devem casar. Pobre gente! Tanta ignorância supina e tanto fanatismo cego! Seria melhor buscar textos que provem que Lutero, Zwinglio, Calvino e Henrique VIII, os pais do protestantismo, não são sujeitos libertinos, sem compostura e sem moral. Tais textos serviriam, pelo menos, para lavar a mancha negra que macula o berço da reforma e a aponta a todas as gerações como uma obra imunda e revoltante. Se um protestante conhecesse a sua seita, a sua origem, a sua história, gritaria como os réprobos do juízo final: 'Montanhas, caí sobre nós, e outeiros, encobrí-nos' (Lc 19,40).

* Esta 'objeção' foi proposta por 'um crente' como um desafio público ao Pe. Júlio Maria e que foi tornado público durante as festas marianas de 1928 em Manhumirim, o que levou às refutações imediatas do sacerdote, e mais tarde, mediante a inclusão de respostas mais abrangentes e detalhadas, na publicação da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', ora republicada em partes neste blog.

(Excertos da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', do Pe. Júlio Maria de Lombaerde)