terça-feira, 31 de maio de 2016

SERMÃO CONTRA OS HEREGES INSOLENTES

PE. ANTÔNIO VIEIRA

(...) 'Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, mais alto hão de subir as minhas palavras; ao vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. É este o último dos quinze dias contínuos, em que todas as igrejas desta metrópole, a esse mesmo trono de vossa potente majestade, têm representado suas deprecações; e pois o dia é o último, justo será que nele se acuda também ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-Vos a vós. E tão presumido venho da vossa misericórdia, que ainda que sejamos nós os pecadores, vós haveis de ser hoje o arrependido (...)

Muita razão tenho eu de o esperar. Olhai, Senhor, que já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos que vós lhes dais ou permitis: já dizem que, porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege que Deus está holandês? Oh! não o permitais, Deus meu, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome, que tão impudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum

Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumentos da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a religião verdadeira; veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotes e desbaratem as suas: as doenças e pestes que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas, e despovoem os seus presídios; os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados, e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana, que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa (...)

Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais, e aos ímpios, e aos inimigos vossos, os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa Providência; e nós os deixados de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras àqueles mesmos portugueses (e completo eu: seus filhos católicos brasileiros) a quem escolhestes entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes ao seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas, e ignominiosamente rendidas? E que fareis, ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta? (...)

Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente; e assim permitis que saiamos agora com tanta afronta e ignomínia.(...) Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios e portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranham das feras e monstros marinhos, - que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? (...) 

Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi, e não ventura: possuí-las para as perder, castigo de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas terras aos piratas da Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? (...) 

Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas, entregai-lhes quanto temos e possuímos, ponde em suas mãos o mundo: e a nós, os portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só vos digo e lembro, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais (...) Holanda vos dará os apostólicos conquistadores que levem pelo mundo os estandartes da cruz. Holanda vos dará os pregadores evangélicos que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica, e a reguem com o próprio sangue. Holanda edificará templos, levantará altares, consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso santíssimo corpo. Holanda enfim vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburgo e Flesinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias...

Se acaso for assim, e está determinado em vosso secreto juízo que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo; porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens e, por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até o cume dos montes, alagou-se o mundo todo: já estará satisfeita vossa justiça. 

Senão quando, ao terceiro dia, começaram a aboiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens, que a vissem, não os havia. Vistes vós também, como se o vísseis de novo, aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade com tão intrínseca dor (Tuctus dolore dordis intrinsecus) que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer. Este sois, Senhor; e pois sois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento, e o vosso, as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimentos à vossa bondade; vede o que fazeis, antes que o façais, não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste novo dilúvio; e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

Imaginemos pois (o que até fingido e imaginado faz horror) imaginemos os que vêm a Bahia e o resto do Brasil a mão dos holandeses; que é que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, sexo, nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua honestidade: chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs: chorarão os sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a esses perdoará a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar Nínive. Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo, também a vós há de chegar.

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras, arrebatarão essa custódia em que agora estais adorado dos anjos, tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão às suas nefandas embriaguezes; derribarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo: e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas, nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas em vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas de Virgem Maria, nas de vossa santíssima mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de filho. 

No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar, nem a lhe perder o respeito. Assim foi, e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo. Pois, filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma virgem era a arca do testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino; por que vivem os hereges que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?

Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derribados os altares, acabar-se-á o culto divino: nascerá erva nas igrejas como nos campos, nem haverá quem nelas entre. Passará um dia de Natal e não haverá memória de vosso nascimento: passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias, como choraram as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint, qui veniant ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam: morrerão os católicos sem confissão nem sacramento: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão neles os infames nomes de Calvino e de Lutero: beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses: e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, eu sou calvinista; outro, eu sou luterano. Pois isto se há de sofrer, meu Deus? 

Quando quisestes entregar vossas ovelhas a Pedro, examinaste-lo três vezes, se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão a lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é, (que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas) se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem a execuções, agora; não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo'.

(Excertos do sermão proclamado pelo Pe. Antônio Vieira na Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda da cidade da Bahia, no ano de 1640, diante o Santíssimo Sacramento exposto, frente à grave e iminente ameaça de invasão dos holandeses protestantes calvinistas no nordeste brasileiro no século XVII, que foram posteriormente contidos e expulsos do Brasil - texto adaptado)

CONSELHOS ESPIRITUAIS DE SÃO JOÃO DA CRUZ

Primeiramente tenha sempre na alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida que deve meditar para saber imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.

Em segundo lugar, para bom poder fazer isto, se lhe for oferecida aos sentidos alguma coisa de agradável que não tenda exclusivamente para a honra e a glória de Deus, renuncie e prive-se dela pelo amor de Jesus Cristo, que, durante a sua vida, jamais teve outro gosto, nem outra coisa quis senão fazer a vontade do Pai, a que chamava sua comida e manjar. Por exemplo: se acha satisfação em ouvir coisas em que a glória de Deus não está interessada, rejeite esta satisfação e mortifique a vontade de ouvir. Se tem prazer em olhar objetos que não levam a Deus, afaste este prazer e desvie os olhos. Igualmente nas conversações e em qualquer outra circunstância, deve fazer o mesmo. 

Em uma palavra, proceda deste modo, na medida do possível, em todas as operações dos sentidos; no caso de não ser possível, basta que a vontade não queira gozar desses atos que lhe vão na alma. Desta maneira há de deixar logo mortificados e vazios de todo o gosto, e como às escuras. E com este cuidado, em breve aproveitará muito. Para mortificar e pacificar as quatro paixões naturais que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e harmonia nascem inumeráveis bens, trazendo à alma grande merecimento e muitas virtudes, o remédio universal é o seguinte:

Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável. Não ao descanso, senão ao trabalho. Não ao consolo, mas à desolação. Não ao mais, senão ao menos. Não ao mais alto e precioso, senão ao mais baixo e desprezível. Não a querer algo, e sim a nada querer. Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior; enfim, desejando entrar por amor de Cristo na total desnudez, vazio e pobreza de tudo quanto há no mundo.

Abrace de coração essas práticas, procurando acostumar a vontade a elas. Porque se de coração as exercitar, em pouco tempo achará nelas grande deleite e consolo, procedendo com ordem e discrição. ... O espiritual deve: (i) agir em seu desprezo e desejar que os outros o desprezem; (ii) falar contra si e desejar que os outros também o façam; (iii) esforçar-se por conceber baixos sentimentos de sua própria pessoa e desejar que os outros pensem do mesmo modo.

(Excertos da obra 'Subida do Monte Carmelo' – Livro I, de São João da Cruz)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

FOTO DA SEMANA

'Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno' (Mt 18, 8)

domingo, 29 de maio de 2016

'EU NÃO SOU DIGNO QUE ENTRES EM MINHA CASA'

Páginas do Evangelho - Nono Domingo do Tempo Comum


Neste domingo, a liturgia da Igreja nos faz retomar a caminhada do Tempo Comum, na revelação diária dos tempos de salvação pelas promessas de Cristo e na vivência cotidiana dos mistérios do Senhor (encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão). As palavras e os ensinamentos de Jesus, sempre tomados à luz dos Evangelhos, são proclamados a cada domingo e reverberam por toda a nossa vida como caminho seguro e pleno de nossa santificação.

Naquele dia, quando 'entrou em Cafarnaum' (Lc, 7,1), logo após ter proclamado o sermão das bem-aventuranças, Jesus vai defrontar-se com uma profunda e sincera manifestação de fé de um oficial romano, o que lhe vai causar admiração. Sim, admiração do próprio Filho de Deus; não pela fé do homem em si, posto que esta é virtude inata ao próprio Deus, mas pela infusão pura e espontânea de tão elevada graça na alma de um gentio (pagão). Tal confissão admirável de fé propiciou o próprio testemunho público do Senhor: 'Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé' (Lc, 7,9) que, imortalizada pelo Evangelho, foi inserida como manifestação corrente na Santa Liturgia da missa como modelo de súplica ao Senhor em face da nossa indignidade humana diante os sagrados mistérios da comunhão eucarística: 'Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo'.

Aquele homem vai ser o primeiro testemunho de que a salvação e o reino de Deus se abre à humanidade inteira, aos judeus e aos gentios, a todos os homens que professem como Única Verdade o Evangelho de Cristo, fora do qual não existe salvação: 'Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que recebestes (de Jesus), seja excomungado'  (Gl 1, 9). Aquele centurião, homem de posses (pois podia até mesmo construir e doar uma sinagoga pra os judeus) e de grande autoridade (pois tinha muitos soldados e empregados sob suas ordens imediatas), não tem um nome, mas a glória do anonimato se revela nas suas atitudes extremadas de fé, humildade e confiança diante do Senhor. 

E Jesus concede o milagre da cura ao empregado, sem ter entrado na casa do centurião, solícito às súplicas do homem que O encontrara antes pela fé. A mesma fé que nos invoca o Senhor: 'Tudo o que pedirdes com fé na oração, vós o recebereis' (Mt 21, 22) e que reverbera pelo Tempo Comum, como instrumento definitivo da graça divina para a nossa plena conversão e santificação como filhos de Deus.

MAIO COM MARIA: ORAÇÃO À NOSSA SENHORA


Falai, ó minha Senhora – dir-vos-ei com São Bernardo, falais, porque vosso divino Filho vos escuta, e tudo o que lhe pedirdes vo-lo concederá. Ó Maria, advogada nossa, falai então em favor dos miseráveis pecadores. Lembrai-vos de que é para nossa felicidade também que recebestes de Deus tão grande poder e dignidade. Se um Deus se dignou fazer-se vosso devedor pela natureza humana que de vós assumiu, é para que possais ao vosso agrado dispensar aos miseráveis os tesouros da divina misericórdia. Vossos servos somos, dedicados de modo especial ao vosso serviço, e nos gloriamos de viver sob vossa proteção. Se fazeis bem a todos os homens, ainda aos que não vos conhecem ou honram, e atém aos que vos ultrajam e blasfemam, que não devemos esperar de vossa benignidade que busca os miseráveis para os socorrer, nós que vos honramos, amamos e confiamos em vós?

Grandes pecadores nós somos, porém Deus vos deu misericórdia e poder que ultrapassam nossas iniquidades. Quereis e podeis salvar-nos; e nós tanto mais queremos esperar nossa salvação, quanto mais indignos dela somos, para mais vos glorificar no céu, quando lá entrarmos por vossa intercessão. Ó Mãe de Misericórdia, nós vos apresentamos nossas almas, outrora tão belas e lavadas pelo Sangue de Jesus Cristo, mas depois enegrecidas pelo pecado. Nós vo-las oferecemos; purificai-as. Alcançai-nos uma sincera conversão, o amor de Deus, a perseverança, o paraíso. Grandes favores vos pedimos; mas não podeis obter tudo? Seria muito para o amor que Deus vos tem? Bastante vos é abrir a boca e implorar vosso Filho: ele nada vos recusa. Rogai, pois, ó Maria, rogai por nós; intercedei por nós e sereis atendida e nós seremos salvos com certeza.

Santíssima Mãe de Deus e Mãe da misericórdia, eis-me aqui na Vossa presença e na de Vosso divino Filho, para Vos tributar as minhas homenagens, Vos louvar com a minha língua e Vos venerar com o meu coração. Iluminai Senhora, o meu espírito, inflamai a minha vontade, afim de que Vos possa oferecer dignamente o tributo da minha servidão, para maior glória de Deus, para honra Vossa e proveito da minha alma.

('Glórias de Maria', de Santo Afonso Maria de Ligório)

sábado, 28 de maio de 2016

VISÕES DE SANTA FAUSTINA KOWASLKA


'Um dia eu vi duas estradas: uma estrada larga, coberta de areia e flores, cheia de alegria, música e vários passatempos. As pessoas andavam por essa estrada dançando e se divertindo. E assim chegam até o fim sem perceberem que acabou. No final dessa estrada havia um espantoso precipício, isto é, o abismo do inferno. As almas caíam cegamente naquela voragem, assim que iam chegando e se precipitavam dentro. E era um número tão grande, era impossível contá-las.

E eu vi uma outra estrada, ou melhor, uma senda, porque era estreita e cheia de espinhos e pedras, e as pessoas que caminhavam por ela tinham lágrimas em seus olhos e estavam cheias de dores. Algumas caíam sobre as pedras, mas se levantavam imediatamente e prosseguiam. E no final da estrada havia um estupendo jardim cheio de toda forma de felicidade e todas essas almas entravam nele. Imediatamente, desde o primeiro instante, esqueciam as suas dores' (p. 82-83).

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'Pela noite, enquanto estava na minha cela, vi um Anjo que era o executor da cólera de Deus. Tinha uma veste luminosa e seu rosto resplandecia; uma nuvem sob os pés, da qual saíam raios e relâmpagos que iam até suas mãos e de suas mãos saíam e feriam a terra. Quando vi aquele sinal da cólera de Deus, que devia ferir especialmente certo local que por justos motivos não posso mencionar, comecei a rezar ao Anjo, para pedir a ele se deter um momento, porque o mundo teria feito penitência.

Meu apelo não obteve resultado algum devido à ira de Deus. Naquele momento vi a Santíssima Trindade. A grandeza de Sua Majestade penetrou até o mais profundo de mim e não ousei repetir meu pedido. Naquele mesmo instante percebi que a força da graça de Jesus estava em minha alma. Quando tive consciência dessa graça, no mesmo momento fui raptada até diante o Trono de Deus. Oh! Como é grande o Senhor e Deus nosso e como é incompreensível a Sua santidade. Não procurarei nem sequer descrever essa grandeza, porque dentro de não muito [tempo] O veremos tal qual Ele é. 

Comecei a implorar a Deus pelo mundo com palavras que ecoavam interiormente. Enquanto assim rezava, vi a impotência do Anjo, que não podia aplacar o justo castigo, equitativamente merecido pelos pecados. Jamais rezei com um tal poder interior como então. As palavras com as quais supliquei a Deus são as seguintes: 'Eterno Padre, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Teu diletíssimo Filho e Senhor Nosso Jesus Cristo, por nossos pecados e do mundo inteiro. Pela sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós’. 

... Eu vi Jesus pregado na cruz. Depois de Jesus ter sido encravado por um momento, eu vi toda uma série de almas crucificadas como Jesus. E vi um terceiro grupo de almas e um segundo grupo de almas. A segunda linha não estava pregada na cruz, mas aquelas almas seguravam firmemente a cruz nas mãos. Porém, a terceira linha de almas não estava crucificada nem segurava a cruz nas mãos, mas aquelas almas arrastavam a cruz detrás de si e se mostravam insatisfeitas. Então Jesus disse-me:

'Vês aquelas almas, que são semelhantes a Mim no sofrimento e no desprezo: elas serão semelhantes a Mim também na glória. E aquelas que se assemelham menos a Mim no sofrimento e no desprezo, elas se assemelharão menos a Mim também na glória'.

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'Hoje, sob a orientação de um anjo, eu estive nos abismos do inferno. É um lugar de grandes tormentos em toda a sua extensão assustadoramente grande. Estas são as várias penas que eu vi: a primeira pena constitui o inferno e é a perda de Deus; a segunda, os constantes remorsos de consciência; a terceira, a consciência de que esse destino nunca vai mudar; a quarta pena é o fogo que penetra na alma mas não a aniquila; é um terrível castigo: é um fogo puramente espiritual, aceso pela ira de Deus; a quinta pena é a escuridão contínua, um horrível fedor sufocante e, embora seja tudo escuro, os demônios e as almas condenadas se veem entre si e veem todo o mal dos outros e o próprio; a sexta pena é a companhia constante de Satanás; a sétima pena é o tremendo desespero, o ódio a Deus, as pragas, as maldições e as blasfêmias. 

Estas são as punições que todos os condenados sofrem juntos, mas este não é o fim dos tormentos. Existem tormentos especiais para diferentes almas, que são os tormentos dos sentidos. Cada alma é atormentada de uma maneira terrível e indescritível por onde pecou. Há cavernas horríveis, voragens de tormentos, onde cada tortura é diferente da outra. Eu teria morrido à vista daquelas horríveis torturas, se não me sustentasse a onipotência de Deus.

Que o pecador saiba que será torturado durante toda a eternidade pelo sentido com o qual peca. Eu escrevo isso por ordem de Deus, de modo que nenhuma alma se justifique dizendo que o inferno não existe, ou que ninguém nunca foi, ou que ninguém sabe como ele é. Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nas profundezas do inferno, com a finalidade de contar às almas e dar testemunho de que o inferno existe.

Eu não posso falar sobre isso agora. Tenho ordens de Deus para deixá-lo por escrito. Os demônios mostraram um grande ódio contra mim, mas por ordem de Deus tinham que me obedecer. O que eu escrevi é uma pálida sombra das coisas que eu vi. Uma coisa que notei, é que a maioria das almas que estão lá, são almas que não acreditavam que havia um inferno. Quando voltei a mim, não conseguia me recuperar do susto pensando que lá as almas sofrem tão terrivelmente, por isso eu rezo com mais fervor pela conversão dos pecadores, e invoco incessantemente a Misericórdia de Deus para eles. Ó meu Jesus, prefiro agonizar até o fim do mundo nas maiores torturas, do que Vos ofender com o menor dos pecados' (p. 276-277).

sexta-feira, 27 de maio de 2016

DAS ESPÉCIES E DOS OBJETOS DOS ESCRÚPULOS

Podem-se distinguir diversas espécies de escrúpulos: uns em matéria de fato, e outros em matéria de direito. Há escrúpulo em matéria de fato quando, por exemplo, a pessoa receia ter consentido num mau pensamento, não haver confessado bem um pecado, ou ter esquecido alguma circunstância, etc: Há escrúpulo em matéria de direito quando, por exemplo, se acredita que há pecado quando não o há; que uma coisa é proibida, quando não o é; que uma ação é culposa, ainda que não seja. 

Há escrúpulos·em matéria grave quando, por exemplo, se receia que uma ação que se fez ou que se deva fazer seja pecado mortal; donde vem que, depois de a haver feito, a pessoa se considera como um inimigo de Deus e como objeto de sua aversão. Há-os em matéria leve quando se receia que uma ação que se fez ou que se quer fazer, mesmo a mais inocente, é desagradável a Deus, e se considera a Deus como um amo severo, sempre irritado e descontente, que só tem para o escrupuloso censuras e ameaças, e que breve deve abandoná-lo para puni-lo das suas infidelidades. 

Há, finalmente, a tentação do escrúpulo e o consentimento na tentação. A tentação consiste no temor e na angústia que empolgam o coração do escrupuloso e lhe fazem ver pecado onde absolutamente não o há. O consentimento na tentação consiste em que o escrupuloso, em vez de resistir aos seus escrúpulos, a eles se deixa arrastar, escuta-os, examina-os e revira-os cem e cem vezes na mente, embora fique sempre igualmente embaraçado. Finalmente, deixa-se ele persuadir de haver pecado, e não tem repouso enquanto não depositar o seu escrúpulo aos pés de um confessor. Eis agora os principais objetos dos escrúpulos: 

1. As orações: Os escrupulosos torturam-se no tocante à maneira como fazem as suas orações: desatenção, distra­ções, omissões, dissipação, tibieza; racham a cabeça, enleiam-se, acabrunham o espírito com isso; e ·tantos esforços, ao invés de lhes afastar os temores, só são próprios para produzi-los em turba. 

2. As confissões: Quantas inquietações não têm os escrupulosos sobre as suas confissões passadas; que desejos de reiterá-las incessantemente e quantos tormentos se são impedidos disso! Confissões gerais, confissões anuais, confissões particulares, confissões sem dor, confissões sem fruto, eis aí outras tantas inquietações que roem os escrúpulos;

3. As correções fraternas: menos há­beis não são eles em forjar mil quimeras no tocante às maledicências ouvidas, às maledicências repetidas, às maledicências não impedidas, do que sobre a curiosidade excessivamente grande para com a conduta do próximo, e sobre o excesso de covardia em repreender os que fazem mal. 

4. Os motivos das ações: novo motivo de aflição e de tristeza para o escrupuloso: o motivo das ações, sobretudo nas coisas indiferentes e de conselho. O grande desejo que eles têm, de referir tudo à glória de Deus, leva-os crer que eles nunca têm intenção pura, e que só têm intenções contrárias. Se dão uma esmola, imaginam ser por vaidade; se comem, é por sensualidade, etc, etc.

5. Sobre a predestinação: o quinto objeto dos escrúpulos, pelo qual as almas são trabalhadas, é dos mais desoladores, porque lhes abate o ânimo lançando-lhes trevas no espírito. O escrupuloso não compreende o mistério da predestinação; procura compreendê-lo; acredita-se reprovado, e ei-lo sem coragem, caindo às vezes numa espécie de demência. 

6. As perguntas perigosas que ele faz a si mesmo: o escrupuloso lança-se de vez em quando em tentações delicadíssimas, pelas perguntas perigosas que faz a si mesmo: que faria eu se me achasse em tal ou tal caso? Estaria disposto a cumprir o meu dever, a derramar o meu sangue, etc., etc.? E sobre Isto se atormenta, e julga-se culpado daquilo que imagina haver entrevisto nas suas disposições. 

7. As tentações: quem não sabe que o escrupuloso teme sempre haver consentido em molestas tentações que o demônio lhe suscite? Ele confunde o sentimento com o consentimento, a tentação com a vontade; daí um motivo inesgotável de perturbações.

(Excertos da obra 'Tratado dos Escrúpulos'. pelo Pe. Grimes, Ed. Vozes, 1952)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

CORPUS CHRISTI


Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Abaixo, duas orações características desta data litúrgica:

Anima Christi

Anima Christi, sanctifica me.
Corpus Christi, salva me.
Sanguis Christi, inebria me.
Aqua lateris Christi, lava me.
Passio Christi, conforta me.
O bone Iesu, exaudi me.
Intra tua vulnera absconde me.
Ne permittas me separari a te.
Ab hoste maligno defende me.
In hora mortis meæ voca me.
Et iube me venire ad te,
ut cum Sanctis tuis laudem te
in sæcula sæculorum. 
Amen.


Tantum Ergo  
Tantum ergo Sacramentum 
Veneremur cernui:
Et antiquum documentum 
Novo cedat ritui: 
Praestet fides supplementum 
Sensuum defectui. 
Genitori, Genitoque 
Laus et iubilatio, 
Salus, honor, virtus quoque 
Sit et benedictio: 
Procedenti ab utroque 
Compar sit laudatio. 
Amen.

CORPUS CHRISTI 2016


O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Ainda é pão e ainda é vinho
muito mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE LEGNICY

Durante a comunhão eucarística da Missa de Natal de 2013, que estava sendo realizada no santuário de San Jacek (São Jacinto), em Legnicy, na Polônia, uma hóstia consagrada caiu no chão. Recolhida imediatamente, foi colocada em um recipiente com água ('vasculum') para dissolução natural, consoante as boas normas canônicas. Entretanto, uma parte da hóstia, em vez de se consumir de acordo com os padrões físicos maturais, assumiu de imediato uma textura avermelhada e adiposa, similar ao tecido muscular humano.



Instituída uma comissão especial para avaliação do fenômeno, procedeu-se, mediante a remoção de um pequeno fragmento da parte ensanguentada da hóstia, a exames e testes especializados por dois institutos poloneses diferentes, concluindo-se pela presença no mesmo de tecidos estriados do músculo cardíaco humano, com sinais característicos de exposição a uma agonia extrema. Em janeiro de 2016, o bispo diocesano, Zbigniew Kiernikowski, encaminhou os pareceres dos especialistas à consideração teológica da Congregação para a Doutrina da Fé no Vaticano que, não apenas reconheceu a veracidade do milagre, como manifestou-se pela aprovação à exposição pública da hóstia ensanguentada.

São Jacinto (1185 - 1257) é mundialmente cultuado pela sua devoção e adoração ao Santíssimo Sacramento e pela sua proteção extrema da Sagrada Eucaristia contra atos de vandalismo, profanação ou sacrilégio. Em 1240, encontrando-se em Kiev, atual capital da Ucrânia, temendo o sacrilégio das espécies sagradas pelo cerco e iminente ataque de hordas de bárbaros mongóis, fugiu da cidade, passando pelo Rio Dnieper e pelo acampamento dos bárbaros sem ser visto, levando consigo o cibório com as hóstias consagradas, uma estátua de Nossa Senhora e a companhia de outros religiosos. O mais recente milagre eucarístico proclamado pela Igreja aconteceu no santuário a ele consagrado, na sua Polônia natal, tendo sido reconhecido formalmente em 17 de abril de 2016, aniversário da canonização de São Jacinto (proclamada em 17 de abril de 1594, pelo Papa Clemente VIII). 

São Jacinto fugindo de Kiev em chamas com a Eucaristia e a imagem de Nossa Senhora.
Leandro Bassano (1557-1622), igreja de São João e São Paulo / Veneza

Ver também:

GALERIA DE ARTE SACRA (XXI)

A ÚLTIMA CEIA E A INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: 'Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória'. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: 'Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória'. Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha (1Cor 11,23-26).















terça-feira, 24 de maio de 2016

INDULGÊNCIAS DO DIA DA SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI


Na quinta-feira próxima, dia da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o católico pode ser contemplado com as seguintes indulgências:

(i) Indulgência parcial: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Alma de Cristo':

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro de vossa chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da morte chamai-me e
mandai-me ir para vós,
para que com vossos Santos vos louve
por todos os séculos dos séculos.
Amém. 

(ii) Indulgência plenária: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Tantum Ergo' ou 'Tão sublime Sacramento':

Tão sublime sacramento
vamos todos adorar,
pois um Novo testamento
vem o antigo suplantar!
Seja a fé nosso argumento
se o sentido nos faltar.
Ao eterno Pai cantemos
e a Jesus, o Salvador,
igual honra tributemos,
ao Espírito de amor.
Nossos hinos cantaremos,
chegue aos céus nosso louvor.
Amém.

Do céu lhes deste o pão,
Que contém todo o sabor.

Oremos: Senhor Jesus Cristo, neste admirável Sacramento, nos deixastes o memorial da vossa Paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso corpo e do vosso sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que viveis e reinais para sempre. Amém.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A PACIÊNCIA DE DEUS

I. A paciência de que Deus usa para com os pecadores é tão grande, que uma alma santa desejava que se construísse uma igreja e se lhe desse por título: 'Paciência de Deus'. Meu irmão, quando ofendias a Deus, podia fazer-te morrer; mas Deus esperava, conservava-te a vida e acudia-te em todas as necessidades. Fingia não ver os teus pecados, a fim de que viesses à resipiscência: Dissimulas peccata hominum propter poenitentiam — Dissimulas os pecados dos homens, para que façam penitência.

'Mas como é isto, Senhor', exclama o profeta Habacuc: 'os vossos olhos são puros, não podeis sofrer a vista de um só pecado, e tantos vedes e Vos calais? Vedes o impudico, o vingativo, o blasfemador, que dia a dia amontoam os pecados, e não os punis? Porque usais de tamanha paciência?' Propterea expectat Dominus, ut misereatur vestri — Deus espera pelo pecador, para que se corrija, a fim de assim lhe poder perdoar e salvá-lo.

Diz Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a terra, o ar ou a água, por natural instinto, quiseram castigar o pecador e vingar as injúrias feitas ao seu Criador. Deus, porém, pela sua misericórdia os impede. Mas, Senhor, Vós esperais pelos ímpios a ver se se convertem, e não vedes que esses ingratos se servem da vossa misericórdia para mais Vos ofenderem? 'Vós, ó Senhor', diz Isaías, 'favorecestes este povo, e usastes para com ele de misericórdia; porventura fostes glorificado?' Para que então tamanha paciência? Porque Deus não quer a morte do pecador, mas, sim, que se converta e se salve: Nolo mortem impii, sed ut convertatur et vivat . Ó paciência infinita de Deus!

II. Santo Agostinho chega a dizer que Deus, se não fosse Deus, pareceria injusto pela demasiada paciência para com os pecadores. Sim, porque esperar assim por quem abusa desta paciência até tornar-se insolente, parece que é faltar à honra que Deus a si próprio se deve. 'Nós pecamos', prossegue o santo, 'ficamos fixos no pecado'. Alguns há que se familiarizam com o pecado, vivem em paz com ele e dormem no pecado meses e anos. 'Nós nos alegramos pelo pecado'. Outros há que até chegam a gabar-se dos seus crimes. 'E Vós permaneceis quieto. Nós provocamos a vossa indignação, e Vós nos provocais a que peçamos misericórdia'. Numa palavra, parece que teimosamente lutamos com Deus, provocando os seus castigos, Deus oferecendo-nos o perdão. Mas há de ser sempre assim? A paciência irritada afinal torna-se furor.

Ah! Meu Senhor, reconheço que deveria agora estar no inferno: Infernus domus mea est — O inferno é a minha morada. Graças, porém, à vossa misericórdia, eis-me, não no inferno, mas neste lugar aos vossos pés, e ouço que me dais a suave ordem que quereis ser amado por mim: Diliges Dominum Deum tuum — Amarás ao Senhor teu Deus. Dizeis que me quereis perdoar, se detestar as ofensas que Vos fiz. Sim, meu Deus, pois que ainda quereis ser amado por mim, miserável rebelde de vossa majestade, de todo o coração Vos amo. Estou arrependido de Vos ter ultrajado, e isso mais me aflige que todos os males que pudera ter merecido. Iluminai-me, ó Bondade infinita, fazei-me conhecer o mal que Vos fiz.

Não, não quero outra vez resistir aos vossos chamamentos. Não quero mais desagradar a um Deus que tanto me amou e tantas vezes me perdoou com tamanho amor. Nunca Vos tivesse ofendido, ó meu Jesus! Perdoai-me e fazei que no futuro só Vos ame; que só viva para quem morreu por mim; que sofra por Vosso amor, já que pelo meu tanto sofrestes. Vós me haveis amado em toda a eternidade: fazei que durante toda a eternidade arda no Vosso amor. Pelos Vossos merecimentos espero tudo, meu Salvador. Em vós também, ó Maria, confio; com a vossa intercessão haveis de salvar-me. 

(Meditações para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I, de Santo Afonso Maria de Ligório)

domingo, 22 de maio de 2016

GLÓRIA À TRINDADE SANTA!

Páginas do Evangelho - Festa da Santíssima Trindade


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana:  'Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele (o Espírito Santo) receberá e vos anunciará, é meu' (Jo 16, 15). Mistério revelado em sua extraordinária natureza em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz (Jo 5, 19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho (Mt 11, 27). 

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3, 16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o  maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

MAIO COM MARIA: AVE MATER


Ave Mater


Ave Mater qua natus est orbis Pater, o Maria.
Nato nata, semper grata, illibata, o Maria.
Ave mundi domina, Evae solvens crimina, o Maria.
Ave sidus regium, gignens Dei Filium, o Maria.
Ave caeli regia, plena Dei gratia, o Maria.
Ave porta caelica, tibi laus angelica, o Maria.
Ave Dei thalamus, myrrha, thus et balsamus, o Maria.
Ave sponsa sophiae, nos reformans gratiae, o Maria.
Ave fons justitiae, origo munditiae, cella pudicitiae, o Maria.
Ave virgo virginum, mediatrix hominum, munda culpas criminum, o Maria.
Ave puerpera, lapsos de vipera reduc ad aethera, o Maria.
Candens flos lilii, loca nos ad pii dexteram Filii, o Maria.

*********

Salve, Mãe da qual nasceu o Pai do Universo, ó Maria.
Pois que sois Imaculada, Àquele de Vós nascido sempre fostes grata, ó Maria.
Ave, ó Senhora do Mundo, que reparas as faltas de Eva, ó Maria.
Ave, Estrela Régia, que dá ao mundo o Filho de Deus, ó Maria.
Ave, Palácio Celeste, cheia de graça divina, ó Maria.
Ave, Porta do Céu, Vós que recebestes o angélico louvor, ó Maria.
Ave, Templo de Deus, mirra, bálsamo, incenso, ó Maria.
Ave, Esposa da Sabedoria, que nos conduz à graça, ó Maria.
Ave, Fonte de Justiça, nascedouro da pureza, arca da castidade, ó Maria.
Ave, Virgem das Virgens, medianeira dos homens, apagai as marcas de nossos crimes, ó Maria.
Ave, Virgem Mãe, reconduzi ao Céu aqueles que foram ludibriados pela serpente, ó Maria.
Luminosa flor de lírio, colocai-nos à dextra de vosso misericordioso Filho, ó Maria.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

BREVIÁRIO DIGITAL (XXXVIII)

ZAQUEU, O PUBLICANO





(The Bible in Pictures, 1922, versão em português pelo autor do blog)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

POEMAS PARA REZAR (XX)


O QUE QUEREIS DE MIM, SENHOR?

(Santa Teresa de Ávila)

Sou Vossa, Senhor, para Vós nasci:
O que quereis de mim?

Ó Majestade soberana,
Sabedoria eterna,
Bondade infinita de minha alma;
Ó Deus Altíssimo, Ser de bondade absoluta,
Tomai para Vós a minha extrema pequenez,
pela qual Vos louvo com todo o meu amor.
O que quereis de mim?

Sou Vossa, pois Vossa é toda a criação,
Sou Vossa, pois me resgatastes,
Sou Vossa, pois me sustentais,
Sou Vossa, pois me chamastes,
Sou Vossa, pois me tendes esperado,
Sou Vossa, pois não me deixastes perder:
O que quereis de mim?

Que quereis, pois, Senhor de Bondade,
Que se faça em mim, tão pobre serva?
Que missão devereis impor, então,
A esta pobre e infeliz pecadora?
Pois eis-me aqui, Senhor de todos as dores,
eis-me aqui, por inteiro, Amor de todos os amores,
O que quereis de mim?

Eis que Vos dou o meu coração,
Tomai-o em Vossas mãos, Senhor, 
e, com ele, o meu corpo, a minha vida, a minha alma,
o mais íntimo do meu ser, o meu inteiro amor.
Tomai-o para Vós, Senhor meu Deus e Redentor,
eu Vos ofereço tudo o que sou:
O que quereis de mim?

Dai-me que seja a morte, ou porventura a vida,
quem sabe a saúde ou talvez doença;
dai-me as honrarias ou as humilhações humanas,
a guerra dos sentidos ou a mais profunda paz;
a debilidade extrema ou a força absoluta;
nada importa, a tudo sabeis que Vos direi 'sim':
O que quereis de mim? [...]

Sou Vossa, Senhor, para Vós nasci:
O que quereis de mim?